Em
seguida se trata das coisas materiais conhecidas dos anjos. E, sobre este assunto, cinco artigos se discutem:
Art.
1 — Se os anjos conhecem as coisas materiais.
Art.
2 — Se o anjo conhece o singular.
Art.
3 — Se os anjos conhecem o futuro.
Art.
4 — Se os anjos conhecem as cogitações dos corações.
Art.
5 — Se os anjos conhecem os mistérios da graça.
Art. 1 — Se os anjos conhecem as
coisas materiais.
(II
Cont. Gent., cap. XCIX; De Verit., q. 8, a. 8; q. 10, a. 4)
O
primeiro discute-se assim. — Parece que os anjos não conhecem as coisas
materiais.
1.
— Pois, o objecto inteligido é a perfeição de quem intelige. Ora, as coisas
materiais não podem ser a perfeição dos anjos, por lhes serem inferiores. Logo,
os anjos não as conhecem.
2.
Demais. — A visão intelectual apreende as coisas que estão na alma pela
essência delas, como diz a Glosa. Ora, os seres materiais não podem estar na
alma do homem ou na inteligência do anjo, pelas essências delas. Logo, não
podem ser conhecidos pela visão intelectual, mas só pela imaginária, que
apreende as semelhanças dos corpos, e pela sensível, que apreende os próprios
corpos. Como, porém, os anjos não têm visão imaginária, nem a sensível, mas só
a intelectual, não podem conhecer as coisas materiais.
3.
Demais. — As coisas materiais não são inteligíveis em acto, mas são
cognoscíveis pela apreensão do sentido e da imaginação, que não existem nos
anjos. Logo, estes não as conhecem.
Mas,
em contrário, o que pode a virtude inferior pode também a superior. Ora, se o
intelecto humano, que é, na ordem da natureza, inferior ao angélico, pode
conhecer as coisas materiais, como muito maior razão o pode este último.
A ordem dos seres é tal, que os superiores são mais perfeitos que os
inferiores e, o que estes contêm de deficiente, parcial e multiplicente,
aqueles contêm eminentemente e por uma certa totalidade e simplicidade. E,
portanto, como no sumo vértice das coisas, todas preexistem sobre
substancialmente, em Deus, no seu ser simples, como diz Dionísio 1. Ora, de todas as outras criaturas, os
anjos, sendo as mais próximas e semelhantes a Deus, mais e mais perfeitamente
participam da bondade divina, como diz Dionísio 2.
Portanto, nos anjos, todas as coisas materiais preexistem, mais simples e
imaterialmente do que nelas próprias; porém, mais multíplice e imperfeitamente
do que em Deus. Mas, como o ser está noutro está ao modo desse outro; e sendo
os anjos, por natureza inteligentes; por isso, como Deus, por essência, conhece
as coisas materiais, eles as conhecem por as possuírem nas espécies
inteligíveis delas.
DONDE
A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O objecto inteligido é a perfeição de quem
intelige pela espécie inteligível existente. E, assim, as espécies inteligíveis
existentes no intelecto angélico são deste as perfeições e os actos.
RESPOSTA
À SEGUNDA. — O sentido apreende as essências das coisas, mas somente os
acidentes exteriores. Do mesmo modo a imaginação, que só apreende as
semelhanças dos corpos. Só o intelecto apreende as essências das coisas; e por
isso, diz Aristóteles 3, que o
objetivo dele é a equidade da coisa, em relação à qual o intelecto não erra,
assim como também não erra o sentido em relação ao sensível próprio. Assim,
pois, as essências das coisas materiais estão na inteligência do homem ou do
anjo, como o inteligido está em quem intelige e não pela existência real delas.
Há, porém, certas coisas que estão na inteligência ou na alma, por ambos os
modos de ser; e, de ambos, há visão intelectual.
RESPOSTA
À TERCEIRA. — Se o anjo recebesse das próprias coisas materiais o conhecimento
que delas tem, necessariamente abstraindo-as, torná-las-ia inteligíveis em
acto, ora, não é delas que ele tira o conhecimento; mas conhece-as pelas
espécies inteligíveis, em acto, das coisas que são co-naturais, assim como a
nossa inteligência conhece pelas espécies que torna inteligíveis por abstração.
(Nota:
Revisão da tradução para português por AMA)
S.TOMÁS
DE AQUINO, Suma Teológica,
______________________________
Notas
:
1.
De div. nom., cap. I (lect. III).
2.
Cael. hier., cap. IV.
3.
III de anima (lect. XI).
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