18/05/2010

O Outro que passa

O outro que passa

É frequente na vida de cada um, surgirem pessoas que nos influenciam de forma determinante.
Este acontecimento não tem muito a ver com a idade, embora se posa presumir que suceda com maior incidência durante a nossa juventude, quando o nosso carácter ou o nosso próprio modo de viver ou encarar a vida, estão em evolução.
Não podemos definir o tipo, ou o extracto social, nem sequer a idade da pessoa que pode provocar em nós essa influência.
Trata-se de estar pronto e nas condições de ser influenciado e, sendo assim, tanto pode ser uma criança, como um familiar, um empregado nosso, ou uma pessoa com quem acabámos de travar conhecimento.
O que é determinante é o nosso estado de espírito e a nossa disposição interior de aceitar o que nos é proposto de muitas formas, como: - uma conversa; uma atitude; um simples reparo; a simples crítica, - ou, pelo menos, dedicar-lhe atenção.
A inquietação do espírito de quem busca algo mais alto, mais completo, que preencha de forma mais intensa a sua vida e as lacunas das suas exigências, é naturalmente, uma predisposição para isso.
Uma pessoa acomodada, satisfeita consigo mesma, com o horizonte próximo, sem ambições de fazer mais e, sobretudo, fazer melhor, não reparará, não se dará conta desse outro que passa a seu lado, ou se cruza consigo e que lhe diz algo importante, ou mostra um caminho ou uma forma de satisfazer ou completar os seus desejos. E, desta forma, se perde uma oportunidade que pode não se repetir.
Esta pessoa, homem ou mulher, jovem ou adulto, tem o horizonte muito próximo, não quer ser incomodado, recusa-se a si mesmo satisfações espirituais.
Digo-o por experiência própria.
Envolvido no trabalho, nos problemas do dia-a-dia, nos avanços e recuos dos negócios e das relações humanas, dei-me conta, a partir de certa altura, aos quarenta e sete anos de idade, que me faltava algo que funcionasse simultaneamente como cimento e catalisador, ou moderador, de todas essas emoções, desejos e objectivos.
Tinha-me bastado a mim mesmo, estava dentro de mim a chave de todas as soluções, ninguém me poderia trazer nada de novo, de verdadeiramente importante.
No fim e ao cabo, estava só e bastante insatisfeito. Sentia que tinha de dar um sentido mais profundo, ou mais alto se quiser, a toda a minha vida.
Concluíra que trabalhar, fazer negócios, montar empresas, arquitectar “coisas”, só para ter, fazer ou obter era pouco. Esta é apenas uma condição natural a qualquer homem, é até uma obrigação: progredir, melhorar, aumentar. Mas, fazê-lo com o simples objectivo do êxito, do sucesso económico, a obtenção de mais bens e, depois… descansar uns últimos anos ao abrigo da estabilidade e conforto adquiridos, parecia-me, repito, muito pouco elevado este sentido para toda uma vida. Buscava, pois, uma forma de pensar, de encarar a realidade da vida, a minha própria realidade como ser humano, tendo concluído, com a humildade que me era possível, que tinha chegado ao limite das minhas possibilidades, para buscar com que preencher esse vazio à minha frente.
Foi quando, em viagem de negócios com um amigo recente, de nacionalidade espanhola, me foi posta, à frente dos olhos, a solução.
Tratava-se de um homem alegre, bem-disposto, respirando confiança em si mesmo e movendo-se com segurança na vida. No fim, alguém que se admira e de muito agradável convivência.
Apercebeu-se bem e rapidamente do meu estado de espírito e, calmamente, com um à vontade seguro e insinuante, foi-me dizendo o que deveria ser óbvio mas que eu não conseguia ver por ter os olhos fixos noutras coisas, o pensamento assoberbado com mil problemas, o coração pesado de angústias e desejos: “ O homem tem de trabalhar, é uma condição humana. Tem, além disso, o dever de trabalhar sempre o melhor que possa e saiba. Deve também documentar-se, instruir-se, progredir em suma. No entanto, se fizer só isto, só pela vontade própria ou discernimento se distingue dos animais, trabalhadores incansáveis, eles também.
O sentido que falta para completar e dar uma realidade humana ao trabalho, à vida do homem, é o sentido divino.
Tendo a certeza que o que se faz agrada a Deus e, desta forma, se pode oferecer-lhe este mesmo trabalho, a satisfação pessoal que acompanha esta atitude põe o homem numa situação de felicidade calma e tranquila.
Os desaires ou recuos na vida de todos os dias, são encarados com serenidade, a confiança em si próprio e sobretudo a confiança no futuro, torna-se uma constante.
A vida ganha uma dimensão diferente, se quisermos, sobrenatural. Não se sente, o homem, um mero habitante do Planeta, um simples elemento da sociedade, trabalhando e consumindo-se para se destacar nessa mesma sociedade apenas para conquistar um lugar, mas concretiza uma missão que lhe foi dada pelo próprio Criador de todas as coisas.
Tenta fazê-lo o melhor e o mais dedicadamente que é capaz. Nisto baseia a sua felicidade, a sua vida, fazer o possível para, em cada momento, cumprir de forma perfeita a sua condição de Filho de Deus.
Esta obrigação que nos foi especificamente indicada “sede perfeitos como Meu Pai é perfeito” não deixa lugar a duvidas ou interpretações e a felicidade, neste mundo, reside em cumprir, tentar esforçadamente cumprir este mandato.
Nada distingue este homem dos outros homens a não ser a sua segurança perante a vida, a sua disponibilidade para os que o rodeiam, a sua satisfação interior e a sua realização verdadeira como homem autêntico”.
Tive eu a ventura de estar com “os olhos abertos” e o “coração desperto” para ouvir este meu amigo.
Agradeço todos os dias, (já lá vai ano e meio) esta oportunidade que me foi dado aproveitar.
Desejo ao meu leitor a mesma possibilidade que decerto terá, se tiver a disposição para ver, ouvir e entender com interesse e humildade, O OUTRO QUE PASSA.
(AMA, in “O Comércio do Porto” 1999)

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