09/11/2022

Publicações em Novembro 9


 

Nota: Seguindo a recomendação de São Josemaria Escrivá procurarei viver o Evangelho como um personagem mais. Para tal seguirei fielmente os textos pronto a fazer as considerações que me ocorrerem.)

 

Dentro do Evangelho – Lc 

 

Há muitos anos que sirvo em casa de Zaqueu. Confesso que não é um trabalho muito agradável e não fora o excelente salário há muito teria procurado outro. Mas… também tenho de reconhecer que me afeiçoei ao meu amo não só porque me trata bem, mas principalmente porque tenho a noção que sou o único amigo – e, às vezes, confidente – que tem.

O meu amo é «chefe dos publicanos» o que não lhe granjeia grandes simpatias junto do povo pelo que tem muito poucos amigos. Não obstante ser «um homem rico» e possuir uma excelente casa, onde nada falta, e uma mesa farta, vive de facto quase isolado e só. Claro que eu sei muito bem que todos suspeitam que os meios de fortuna lhe vêm directamente do exercício da sua profissão de cobrador de impostos e não só das “comissões” que os romanos lhe pagam para os cobrar, mas também porque muitas vezes se “aproveita” de algumas situações cobrando mais do que o devido, arrecadando para si esses dinheiros. Talvez, até, os seus colegas lhe entreguem parte do que eles próprios também cobram a mais.

Aconteceu, porém, que um dos seus subordinados – um tal conhecido por Mateus – tinha subitamente abandonado a profissão e, isto, em circunstâncias extraordinárias relatadas por muita gente do povo. Claro que Mateus veio ter com o seu chefe – o meu amo – e contou-lhe o que sucedera e o levara a tal decisão de mudar de vida. Desde então, o meu amo nunca mais teve sossego por causa de uma ideia fixa que se lhe instalara no espírito: tinha de conhecer esse homem a quem chamavam Jesus o Nazareno, esse mesmo que fora “o responsável” pela mudança de vida de Mateus que agora o seguia para onde quer que fosse. De facto, «procurava conhecer de vista Jesus»  porque, julgava ele, um contacto pessoal não seria possível: um judeu falar com um publicano!!!

Um dia, no mercado da cidade próxima, Jericó, deparei-me com uma agitação fora do comum e informaram-me que esse Jesus ia passar por ali pelo que toda a gente se juntava no caminho à saída da cidade para o ver e, se possível, fazer-lhe algum pedido. Voltei a toda a pressa para casa e informei o meu amo dizendo-lhe que ali estava a oportunidade porque tanto ansiava. Ele não hesitou um minuto sequer e «Correndo adiante, subiu a um sicómoro para O ver» quando passasse por ali. Confesso que fiquei espantado com tal atitude e percebi-me que o seu desejo de ver Jesus era de tal forma genuíno que não se importou com o que outros pudessem dizer por se colocar, assim, empoleirado numa árvore, algo inesperado por parte de uma pessoa tão importante.

O cortejo que seguia Jesus aproximava-se e, então, aconteceu uma coisa extraordinária: Jesus parou mesmo debaixo do sicómoro onde o meu amo se empoleirara e «levantando os olhos disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, porque convém que Eu fique hoje em tua casa». O meu amo, radiante «desceu a toda a pressa, e recebeu-O alegremente»

Foi um dia memorável que jamais esquecerei. Os dois, Jesus e Zaqueu, conversaram longamente como se fossem “velhos amigos” e era bem notória a alegria e, ao mesmo tempo, a serenidade que o meu amo ostentava. Não lhe importando os murmúrios que os circunstantes deixavam escapar, as críticas e os “remoques”, pondo-se subitamente «de pé diante do Senhor, disse-Lhe: Eis, Senhor, que dou aos pobres metade dos meus bens e, naquilo em que tiver defraudado alguém, restituir-lhe-ei o quádruplo». Os murmúrios cessaram de repente e as pessoas comentavam admiradas e algo incrédulas o que acabavam de ouvir. Mas, a verdade, é que logo que Jesus se afastou o meu amo começou a tratar das coisas tal como tinha dito e prometido.

O que posso dizer é que o meu amo nunca mais foi o mesmo homem; a mudança na sua vida, no seu modo de proceder foi tal que, aos poucos muitas pessoas que – como atrás disse – evitavam qualquer contacto, passaram a ser visitas de sua casa e, muitas vezes assisti, com pedidos de auxílio e assistência que nunca lhes negava.

Há anos que sirvo em casa de um Centurião Romano. Na verdade sou um escravo com a mais humilde tarefa: calçar e descalçar as sandálias do meu senhor.

Em breve tempo me apercebi que era reconhecido e apreciado, embora, calçar ou descalçar alguém não seja um “trabalho” nem  nobre nem muito digno mas, quando terminado, o meu senhor dizia-me sempre: obrigado! Aquele agradecimento entrava no meu coração como uma espécie de raio surpreendente e de enormíssimo impacto… nunca tal se ouvira relatar: um senhor agradecer o trabalho do seu escravo! Ainda mais quando esse senhor era alguém com tão destacada posição!?

A minha vida diária não tinha comparação com as vidas de muitos conhecidos meus. Segundo me relatavam, o tratamento que recebiam dos seus senhores era bem diferente. Além de lhes ser exigida disponibilidade constante a qualquer hora do dia ou da noite, recebiam como única paga uma alimentação deficiente e apenas sofrível. Se acaso adoeciam assim ficavam, na esperança que a doença se afastasse por si. Receber a visita de um médico era algo impensável. Quando lhes contava que, em casa do meu senhor, a alimentação era abundante e bem confeccionada; que nos era concedido descanso absoluto durante a noite; que dormía-mos em catres e não no chão duro; que… enfim… eramos tratados nas maleitas e doenças que surgiam… olhavam para mim incrédulos! Então, para os convencer de que quanto relatava era verdade contei-lhes o que me acontecera na minha recente e grave doença e como o meu senhor intervira para evitar a morte que se adivinhava próxima: Ora um centurião tinha um servo a quem dedicava muita afeição e que estava doente, quase a morrer. Ouvindo falar de Jesus, enviou-lhe alguns judeus de relevo para lhe pedir que viesse salvar-lhe o servo.

Chegados junto de Jesus, suplicaram-lhe insistentemente: «Ele merece que lhe faças isso, pois ama o nosso povo e foi ele quem nos construiu a sinagoga.» Jesus acompanhou-os. Não estavam já longe da casa, quando o centurião lhe mandou dizer por uns amigos: «Não te incomodes, Senhor, pois não sou digno de que entres debaixo do meu tecto, pelo que nem me julguei digno de ir ter contigo. Mas diz uma só palavra e o meu servo será curado. Porque também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e soldados sob as minhas ordens, e digo a um: ‘Vai’, e ele vai; e a outro: ‘Vem’, e ele vem; e ao meu servo: ‘Faz isto’, e ele faz.» Ouvindo estas palavras, Jesus sentiu admiração por ele e disse à multidão que o seguia: «Digo-vos: nem em Israel encontrei tão grande fé.» E, de regresso a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde

 

 

Reflectindo

As memórias podem ser muito benéficas, sobretudo aquelas que se referem a bons momentos de alegria.

Ajudam-me a esquecer outras que me amachucam e fazem mal.

Devo rezar, muito, pela graça de que estas "boas memórias" prevaleçam sobre as que o não são tanto.

 

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08/11/2022

Publicações em Novembro 8

 


(Nota: Seguindo a recomendação de São Josemaria Escrivá procurarei viver o Evangelho como um personagem mais. Para tal seguirei fielmente os textos pronto a fazer as considerações que me ocorrerem.)

 

Dentro do Evangelho – Lc 

 

Encontro-me numa situação delicadíssima: o meu Senhor e Rei mandou-me para a prisão e também confiscou todos os meus bens com a ameaça – que levo muito a sério – de se o resultado da venda não atingir o valor em dívida, a minha mulher e os meus filhos serão vendidos como escravos! Desde que aqui entrei não tenho feito outra coisa que deitar contas à minha vida tentando descobrir a possibilidade de evitar este último pesadíssimo castigo. Tenho bem presente a enorme soma em causa e a determinação do meu Rei em não me perdoar um cêntimo sequer. Como pode um homem ser tão mesquinho?

A minha revolta impede-me de raciocinar correctamente e a única coisa que penso é na forma de me vingar do tirano… Ah! E também daqueles que me foram acusar do que tinha feito àquele que me devia cem denários. Então não estava no meu direito exigir que me pagasse o que me devia? Claro que sim! As dívidas devem pagar-se sempre, custe o que custar e se acaso tal se revelar impossível não há outra solução que procurar o credor e tentar um adiamento da data acordada.

Reparo agora, no que acabei de reflectir e que está absolutamente correcto, mas… a verdade é que eu não procedi assim. Em primeiro lugar beneficiei de um acto de misericórdia extraordinário do meu Rei e Senhor que me perdoou toda a minha enorme dívida! Como foi possível que tal benesse não tivesse calado fundo no meu coração empedernido e tivesse transformado radicalmente a minha forma de actuar! Em vez disso, estou agora na prisão recriminando quem deveria louvar, agradecer e ter em altíssima consideração. Mais: quando encontrei aquele que me devia cem denários não tive o mais pequeno rasgo de compreensão – de misericórdia – e cometi um acto de impensável impiedade. Como posso recriminar os meus companheiros por se terem indignado com a minha atitude?

Amargamente, chego à conclusão que a minha vida não vale nada! Tenho-me deixado dominar pelo dinheiro, pela posse, pelos bens mesmo atropelando direitos e deveres de solidariedade. Não tenho um amigo, uma pessoa que sinta prazer em estar comigo, sou um solitário – um solitário rico, é certo – um desgraçado com os cofres cheios e o coração vazio. Que me importa, agora, se tenho muitos ou poucos bens se não possuo o único bem que poderia dar-me conforto: a consciência tranquila! O que posso fazer para emendar – sim, tenho de emendar tudo isto – fazer uma profunda revisão de vida?

Já sei o que vou fazer: vou dar tudo quanto tenho ao meu Rei e Senhor para que faça o que bem entender e também vou passar recibos de quitação a todos a quem emprestei e ainda não me pagaram. Talvez que, o meu Rei e Senhor se sinta, uma vez mais, movido pela sua misericórdia e me devolva à liberdade com a promessa que jurarei cumprir com todas as minhas forças e empenho, de não voltar jamais a fazer o mesmo.

Acabo, assim, por chegar à conclusão que o meu Rei e Senhor me salvou de mim mesmo e sem eu o merecer me deu uma oportunidade de arrependimento.

 

Seguia o cortejo fúnebre e, confesso não me sentia nada bem comigo mesmo. Como que um “peso” sobre o peito esmagava-me e fazia-me sentir muito mal, como se estivesse a representar um papel de um drama qualquer que, até então, tinha ignorado completamente. De propósito! Achava que não me dizia respeito!

A pobre mulher que seguia o féretro do filho único era de facto viúva de um homem que tinha sido um grande amigo meu, aliás, mais que amigo, um autêntico bem-feitor.

Devia-lhe uma soma de dinheiro não despicienda e, no entanto, nem enquanto vivo nem uma vez me pressionara para que lhe pagasse como nem sequer, ao morrer, se encontrou qualquer nota da dívida pendente.

Senti-me “aliviado”, ninguém sabia do caso e, como nada havia escrito, a dívida pura e simplesmente deixara de existir. Na verdade  algumas vezes, pensei em resolver a situação até porque sabia que a viúva vivia com enormes dificuldades sendo o filho o único apoio com que contava para o seu parco sustento. Mas… fui deixando o tempo passar e não fiz nada. Agora… aquele “peso” de que falava fazia-me sentir uma enorme vergonha e um remorso quase insuportável.

Imerso nestes pensamentos mal me dei conta que o cortejo se detivera e que um homem se dirigia à viúva dizendo algo que eu não consegui ouvir. Toda a sua atitude era de compaixão pela pobre mulher e, até, pareceu-me ver os seus olhos húmidos de lágrimas. Quem seria o personagem?

A mulher não dera mostras de o reconhecer, mas olhava para ele com um olhar misto de espanto e esperança. As pessoas em redor abriram um espaço e o homem dirigiu-se ao féretro e estendendo a mão tocou e bradou com voz forte que todos pudemos ouvir bem: «Jovem, Eu te ordeno, levanta-te».

O que aconteceu a seguir foi algo extraordinário que jamais esquecerei: «O que tinha estado morto sentou-se, e começou a falar.» Então o homem, «pegando-lhe pela mão «entregou-o à mãe».

As pessoas que seguiam no cortejo fúnebre irromperam em gritos e exclamações de espanto e a dar graças a Deus por tão grande milagre que acabavam de presenciar.

O homem, discretamente, retirou-se acompanhado de uns quantos que pareciam ser seus amigos íntimos. Eu… caí de joelhos no chão duro, possuído de um choro incontrolável. Depois, informei-me sobre o personagem que operara o milagre e vários me disseram que era um Profeta, um tal Jesus de Nazaré, um Galileu.

Mais tarde, quando caiu a noite, fui a casa da viúva e entreguei-lhe uma bolsa com dinheiro, o dobro da quantia que o seu marido me emprestara e disse-lhe envergonhado, mas, ao mesmo tempo, feliz: ‘Este dinheiro pertence-te, foi o teu marido quem mo emprestou. A partir de hoje tudo quanto precisares diz-me e, eu providenciarei’. E, a verdade, é que eu, um homem duro e apenas preocupado comigo e a minha vida passei a olhar para os outros com outros olhos e, na minha povoação, toda a gente sabe que pode contar comigo para o que for.

….

 

Reflectindo

 

O que faz um Pai quando vê um filho(a) seu perdido, desgarrado nos caminhos da vida, cometendo os maiores erros, os mais graves horrores?

Quando esse fruto do seu amor o renega e ofende repetida e gravemente?

Quando em vez de viver uma vida de esperança tranquila se entrega ao desespero de uma morte abreviada?

Esse pai fará quanto estiver ao seu alcance para reaver esse filho nem que, para tal, o resgate a pagar seja a sua própria vida.

Pois... foi o que Deus Nosso Senhor e Pai fez por todos nós, por mim, dando a Sua Vida imolando-Se na Cruz.

Mistério de Amor que só no Amor Divino encontra justificação.

Gratias Tibi Domine, Gratias Tibi!

 

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07/11/2022

Publicações em Novembro 7

 



(Nota: Seguindo a recomendação de São Josemaria Escrivá procurarei viver o Evangelho como um personagem mais. Para tal seguirei fielmente os textos pronto a fazer as considerações que me ocorrerem.)

 

Dentro do Evangelho – Lc 

 

Tenho por hábito – assim me ensinou o Rei meu Pai – acudir às necessidades dos meus súbditos e, por vezes, vou algo mais além do que seria aconselhável ou, até, prudente. Foi o que aconteceu exactamente com um homem que, sei, possuía razoáveis meios de fortuna, mas que, por motivos que não averiguei, se viu numa situação muito delicada.

Veio à minha presença várias vezes com pedidos de ajuda que nunca lhe neguei. Concedi-lhe sempre o que me pedia.

Acontece que ontem mesmo, o meu administrador veio ter comigo para me expor um problema que me deixou… atónito. Começou por dizer-me que o erário real estava francamente desfalcado e que os empréstimos que vinha fazendo não poderiam continuar no mesmo ritmo e, sobretudo, os montantes elevados, sob pena de correr risco de forte recessão. Concretamente referiu-me o tal servo de que falava cuja dívida atingia a enormidade de dez mil talentos!

Rapidamente fiz as “contas”: Dez mil talentos, uns sessenta milhões de denários!

Sendo um denário o salário diário de um trabalhador…

Tive de reconhecer que me excedera e de algum modo não fora justo para com os outros meus súbditos entregando a um o que poderia ter repartido por muitos. Mandei chamar o homem e, sem mais, disse-lhe que era tempo de me devolver o que lhe emprestara.

A reacção foi surpreendente: disse-me pura e simplesmente que não tinha como pagar-me.

Perguntei-lhe o que fizera com tanto dinheiro que lhe emprestara para reconstruir a sua vida, mas… não me deu resposta.

Ao meu ouvido o administrador dizia-me que este súbdito não era muito boa pessoa, descurava os seus deveres até para com a família e, tudo isto porque tinha o terrível vício da avareza. No fim e ao cabo o dinheiro que eu lhe dava graciosamente servia para empresta-lo a outros cobrando juros elevadíssimos, praticando uma usura miserável com o que não era de facto seu.

Fiquei naturalmente indignado e lavrei uma sentença que, em suma, decretava que se vendesse quanto tinha, se apreendessem todos os seus bens, se necessário vendessem a mulher e os filhos até reunir a quantia em dívida. Mas, o desgraçado, não posso chamar-lhe outra coisa, lavado em lágrimas e gemendo pediu-me encarecidamente que lhe desse um pouco mais de tempo, que conseguiria resolver a sua vida e reunir o necessário para satisfazer a dívida.

Tive pena do pobre homem, é verdade! Senti uma enorme pena de uma pessoa que, não obstante a sua má conduta, talvez merecesse que lhe concedesse o que me pedia. Mas eu tinha bem a noção da enormidade da dívida e que nunca lhe seria possível devolver-me o que lhe emprestara. Assim, para acabar com o assunto e na esperança que realmente se corrigisse, perdoei-lhe toda a dívida e mandei-o embora em paz.

Confesso que fiquei muito contente com a minha decisão, afinal de que me serve ser Rei se não posso fazer o que quero com o que é meu?

Não vou revelar o meu nome, direi apenas que sou um dos servos que constatou a tristíssima cena daquele nosso compatriota apertando o pescoço a um outro que lhe devia uma quantia que, depois vim a saber, somava cerca de cem denários, e, não revelo o meu nome porque, confesso, tenho receio daquele sujeito, homem de “maus fígados” que toda a gente sabe, é um usurário que “explora” as necessidades dos outros revelando-se um intransigente sem dó nem piedade, exigindo por qualquer meio a devolução do emprestado aos que tiveram a desdita de lhe caírem nas “garras”, mas, todos sabíamos que esse dinheiro que emprestava a elevados juros vinha directamente das mãos do nosso Senhor e Rei que nunca recusava nada a quem a ele recorria. Espantava-nos como podia continuar a emprestar-lhe enormes quantias que – todos o sabíamos, atingiam um valor absurdamente elevado, sem exigir que prestasse contas como seria de esperar, mas, finalmente chegou o dia em que o nosso Senhor e Rei se inteirou da situação e resolveu chamá-lo à sua presença. Estávamos todos naturalmente suspensos do que se iria passar e ficamos cá fora no átrio do palácio à espera do desfecho.

Para nosso espanto, o homem sai do palácio com um sorriso rasgado no rosto como que animado de grande contentamento para, logo depois, completamente alterado o semblante e a atitude, proceder como a princípio relatei. Que se teria passado?

Logo tudo se esclareceu porque imediatamente surgiu no cimo da escadaria o escrivão do Rei levantando os braços ao céu e mostrando toda uma surpresa e descontentamento que não pudemos ignorar. Então contou-nos o que acontecera: Em resumo disse que depois de o Rei lhe ter exigido que pagasse quanto lhe devia e tendo obtido como resposta que não o podia fazer, que lhe desse um pouco mais de tempo… prometendo pagar logo que possível, o nosso excelente Rei que o ameaçara com a prisão e a venda de todos os seus bens incluindo a mulher e os filhos, encheu-se de compaixão e simplesmente mandou-o embora perdoando-lhe toda a enorme dívida. Ficámos, naturalmente, espantados com a atitude do nosso Senhor que, embora conhecendo a sua bondade para com os seus súbditos, perdoava assim, sem mais nem menos, uma quantia exorbitante. Evidentemente que o Rei pode fazer com o seu dinheiro o que muito bem entender e só nos competia dar graças por tão excelente Senhor. Mas sabíamos que sendo extremamente generoso era, também, absolutamente justo e que deveria ficar a saber que o servo a quem perdoara tão grande dívida acabava de praticar um acto exactamente oposto para com um colega e, por isso mesmo, fomos – todos - à sua presença contar o que se passara. Note-se que não fomos apresentar uma “queixa”, mas tão só procedemos como achávamos que era de absolutamente correcto fazer. Caberia ao nosso Rei e Senhor julgar conforme o seu superior critério.

 

 

Reflectindo

 

O mérito possível das acções que pratico não reside, propriamente nas acções em si, mas na intenção que me leva a praticá-las.

Como resolver este assunto?

Pois… penso que há uma forma eficaz:

Pedir ao Divino Espírito Santo que “avalie” as minhas intenções o que realmente procuro e desejo: servir outros ou ser servido?

Servir outros é algo desinteressado em busca de benefício próprio, servir-me será procurar que me de alguma forma me admirem e louvem.

Como dissse Jesus: Já tive a “minha paga”.

Tenho de considerar que é pouco… muito pouco e não me serve para nada.

Eu quero, desejo, anseio, que Quem me “Pague” seja Aqule que retribui sempre com muito mais - muitíssimo mais – que o que recebe.

Aquele que nem um simples copo de água deixa de retribuir e recompensar.

 

 

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