30/04/2022

Publicações em Abril 30



 

Dentro do Evangelho

 

Mt XVIII

Tema 2

Mt XVIII, 21-35

 

21 Então, aproximando-se d'Ele Pedro, disse: «Senhor, até quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?». 22 Jesus respondeu-lhe: «Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 «Por isso, o Reino dos Céus é comparável a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. 24 Tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. 25 Como não tivesse com que pagar, o seu senhor mandou que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. 26 Porém, o servo, lançando-se-lhe aos pés, suplicou-lhe: “Tem paciência comigo, eu te pagarei tudo”. 27 E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre e perdoou-lhe a dívida. 28 «Mas este servo, tendo saído, encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários e, lançando-lhe a mão, sufocava-o dizendo: “Paga o que me deves”. 29 O companheiro, lançando-se-lhe aos pés, suplicou-lhe: “Tem paciência comigo, eu te pagarei”. 30 Porém ele recusou e foi mandá-lo meter na prisão, até pagar a dívida. 31 «Os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados e foram referir ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. 32 Então o senhor chamou-o e disse-lhe: “Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste. 33 Não devias tu também compadecer-te do teu companheiro, como eu me compadeci de ti?”. 34 E o seu senhor, irado, entregou-o aos guardas, até que pagasse toda a dívida. 35 «Assim também vos fará Meu Pai celestial, se cada um não perdoar do íntimo do seu coração ao seu irmão»

 

Personagem 2.1

 

Desta vez vou “meter-me” neste trecho de São Mateus personificando a figura do Rei. Tenho por hábito – assim me ensinou o Rei meu Pai – acudir às necessidades dos meus súbditos e, por vezes, vou algo mais além do que seria aconselhável ou, até, prudente. Aconteceu exactamente com um homem que, sei, possuía razoáveis meios de fortuna, mas que por motivos que não averiguei se viu numa situação muito delicada. Veio à minha presença várias vezes com pedidos de ajuda que nunca lhe neguei. Concedi-lhe sempre o que me pedia.  Acontece que ontem mesmo, o meu administrador veio ter comigo para me expor um problema que me deixou… atónito. Começou por dizer-me que o erário real estava francamente desfalcado e que os empréstimos que vinha fazendo não poderiam continuar no mesmo ritmo e, sobretudo, montantes, sob pena de correr risco de forte recessão. Concretamente referiu-me o tal servo de que falava cuja dívida atingia a enormidade de dez mil talentos!   Rapidamente fiz as ”contas”: Dez mil talentos, uns sessenta milhões de denários! Sendo um denário o salário diário de um trabalhador… Tive de reconhecer que me excedera e de algum modo não fora justo para com os outros meus súbditos entregando a um o que poderia ter repartido por muitos. Mandei chamar o homem e, sem mais, disse-lhe que era tempo de me devolver o que lhe emprestara. A reacção foi surpreendente: disse-me pura e simplesmente que não tinha como pagar-me. Perguntei-lhe o que fizera com tanto dinheiro que lhe emprestara para reconstruir a sua vida, mas… não me deu resposta.   Ao meu ouvido o administrador dizia-me que este súbdito não era muito boa pessoa, descurava os seus deveres até para com a família e, tudo isto porque tinha o terrível vício da avareza. No fim e ao cabo o dinheiro que eu lhe dava graciosamente servia para empresta-lo a outros cobrando juros elevadíssimos, praticando uma usura miserável com o que não era de facto seu. Fiquei naturalmente indignado e lavrei uma sentença que, em suma, decretava que se vendesse quanto tinha, se apreendessem todos os seus bens, se necessário vendessem a mulher e os filhos até reunir a quantia em dívida. Mas o desgraçado – não posso chamar-lhe outra coisa – lavado em lágrimas e gemendo pediu-me encarecidamente que lhe desse um pouco mais de tempo, que conseguiria resolver a sua vida e reunir o necessário para satisfazer a dívida. Tive pena do pobre homem, é verdade! Senti uma enorme pena de uma pessoa que, não obstante a sua má conduta, talvez merecesse que lhe concedesse o que me pedia. Mas eu tinha bem a noção da enormidade da dívida e que nunca lhe seria possível devolver-me o que lhe emprestara. Assim, para acabar com o assunto e na esperança que realmente se corrigisse, perdoei-lhe toda a dívida e mandei-o embora em paz. Confesso que fiquei muito contente com a minha decisão, afinal de que me serve ser Rei se não posso fazer o que quero com o que é meu?

 

Reflexão

Reagir e gratidão

 

Está um tempo terrível, chuva. vento e frio.

Depois do pequeno almoço, pensei:

Hoje é Sábado, não vou a lado nenhum nem estarei com ninguém.

Para quê arranjar-me? Vestir-me? Vou ficar de roupão e acabou-se!

Fiz as orações do meio-dia a Nossa Senhora e, no fim, decidi-me e fui arranjar-me, vestir-me como se fosse sair a algum lado.

Fiquei contente comigo mesmo porque acho que reagi bem.

Com esta auto-satisfação ia "estragando" a "proeza" porque a decisão - estou absolutamente seguro - foi a Senhora quem ma insinuou. Mas logo lhe agradeci como devia, o seu carinho de Mãe.

O meu mal é que estou tão habituado a estas ternuras da minha Mãe do Céu que, às vezes, me esqueço de lhe agradecer.

Pois... mas não ficou por aqui: Saí para a rua e fui ao supermercado!

O que tem isso de especial? Toda agente vai ao supermercado!

Mas eu, não, é um autêntico sacrifício, tenho de fazer um esforço.

Foi o que fiz. Ainda bem. Estou contente. Fiz o que devia fazer.

 

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29/04/2022

Publicações em Abril 29

  


Dentro do Evangelho

 

Lc X, 25-37

O bom samaritano

25 Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26 Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» 27 O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28 Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» 29 Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30 Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31 Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. 32 Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. 33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ 36 Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» 37 Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

 

Personagem 1.4

A vítima dos ladrões

Sou um judeu natural de Jerusalém, mas, no exercício da minha actividade desloco-me a várias povoações de Israel, nomeadamente Jericó. O que faço? Bem… sou um cobrador de impostos, o que chamam depreciativamente: um Publicano. Não tenho muitos amigos… na verdade… não tenho sequer alguém a quem possa chamar: AMIGO! A princípio incomodava-me muito a forma suspeitosa e, até, o desprezo com que me tratam e, tenho de reconhecer, que um cobrador de impostos – sobretudo quando os impostos são cobrados em nome do invasor da nossa Pátria – não pode esperar outra coisa dos seus conterrâneos. Mas… é a minha vida… que hei-de eu fazer! Acordei hoje manhã, já um pouco tarde, numa estalagem. Levei algum tempo a lembrar-me de quanto acontecera na véspera. Como que em cenas pouco nítidas vi-me no caminho de Jericó para Jerusalém com os alforges da minha montada, carregados com o produto da cobrança. Sou assaltado por uns meliantes – três, parece-me – e tentai defender-me como pude, só que eles não me deram tréguas e, talvez por se aperceberem quem eu era, atacaram-me com tal violência que fiquei prostrado no caminho. Não sei quanto tempo ali fiquei inconsciente e cheio de dores dos golpes sofridos. Lembro-me vagamente de alguém que se aproximou de mim e me prestou assistência, tratou como pode as minhas numerosas feridas deitando-lhes azeite e vinho.  Nisto, o estalajadeiro aparece no meu quarto e pergunta-me como me sinto. Fico a olhar para ele. Como se percebesse da minha confusão conta-me o que aconteceu, como tinha chegado na noite anterior trazido por um Samaritano – o mesmo que me encontrara prostrado no caminho – que tratara de mim e me instalara na cama. Tinha partido há pouco mas dissera que voltaria passados dois dias. Na minha surpresa, perguntei: ‘Mas tens a certeza que era um Samaritano?’ Compreendo a tua surpresa pois, na verdade, também eu fiquei atónito. Disse-lhe: ‘Eu sou um Publicano e fui roubado e espoliado de quanto trazia, não sei como vou pagar-te a minha estadia.’ Não te preocupes com isso – responde-me – o teu “salvador” deixou-me dinheiro para cuidar de ti e até me disse que se o que me deixou não fosse suficiente no seu regresso me pagaria o que faltasse.’ Quando o estalajadeiro saiu do meu quarto não pude deixar de pensar no estranho e insólito e toda a situação. Como era possível? Um Samaritano e um Judeu, ainda por cima, Publicano? Na minha vida tenho cometido alguns – talvez bastantes – erros. Sobretudo abusos nas cobranças aproveitando-me das circunstâncias para guardar para mim uma boa parte. Isto nunca me incomodou… afinal é o que fazem todos os Publicanos! Bem sei que há pouco tempo atrás, um colega, nos surpreendera a todos quando resolvera abandonar a profissão que exercia precisamente em Jericó e devolver aos lesados o quádruplo do que se apropriara e, como se não bastasse, oferecera aos pobres metade do que possuía. Aliás circulava uma história sobre um encontro com um tal Jesus da Galileia a quem oferecera um banquete depois do que passou a fazer parte do grupo dos que o seguiam por todo o lado. Mas, confesso, não dei muita importância ao assunto. Agora, porém, parece que um incómodo estranho está a revirar-me as entranhas e começo a pensar que logo que possível tenho de encontrar-me com ele para que me conte quanto aconteceu. Conheço-o bem e, se ele, tomou tais decisões é porque algo muito especial aconteceu e, conhecendo-o como conheço, só posso concluir que terá escolhido uma vida muitíssimo melhor que a que tinha antes. Estando assim decidido, parece que as dores no meu corpo abrandaram e voltei a adormecer.

 

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28/04/2022

Publicações em Abril 28

  


Dentro do Evangelho

 

Lc X, 25-37

O bom samaritano

25 Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26 Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» 27 O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28 Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» 29 Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30 Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31 Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. 32 Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. 33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ 36 Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» 37 Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

 

Personagem 1.3

 

O Chefe dos assaltantes.

Toda a minha vida tem sido a de um autêntico marginal, dedicando-me a roubar quanto me aparece a jeito. A princípio, teria talvez escassos dezoito anos, juntava-me a outros rapazes da minha idade, marginais como eu, e assim levava-mos uma vida de sobressaltos sempre em fuga das autoridades e, muitas vezes, alguns dos que assaltávamos reagiam e as coisas corriam mal, para o nosso lado, já se vê.

Um dia as coisas mudaram bastante porque veio ter connosco um sujeito bastante mais velho que nós e que – para encurtar – nos reuniu num bando passando a agir sob as suas ordens e instruções. O homem era de facto um autêntico facínora que não hesitava em empregar violência para atingir os seus fins. Chamava-se Barrabás! Dizia ele que, como Zelote que era, o seu principal alvo era provocar o invasor romano de modo a mantê-lo ocupado em acções de polícia, desviando-o de outras acções mais aparatosas com que tentavam manter a férrea disciplina que impunham ao povo. Dividiu-nos em grupos de três e quatro e, a cada grupo, dava instruções sobre o que fazer e onde. O meu grupo – eu e mais três – tinha sido “destacado” para a via que descia de Jericó para Jerusalém que, segundo ele, tinha numerosos viandantes a maioria dos quais eram gente que comerciava, logo, trazendo consigo ou bens ou o dinheiro produto da sua venda. E, realmente, a nossa actividade produzia bons resultados e Barrabás estava muito satisfeito connosco pois arrecadava a maior parte dos “proventos” da nossa actividade.

Hoje, porém, as coisas não correram muito bem, ou antes, correram muito mal. Do nosso esconderijo avistámos um homem sozinho que que conduzia um jumento ajoujado de mercadoria. Todo o seu aspecto e a forma como trajava indicavam que seria um homem de posses. Não se avistando mais ninguém por perto, resolvemos assaltá-lo e, foi aqui, que tudo se complicou. O homem era bastante robusto e ofereceu uma resistência feroz e determinada a não se deixar roubar. Um dos meus companheiros recebeu vários golpes que o deixaram práticamente inanimado e outro recebeu um profundo corte provocado pela adaga que o homem esgrimia com destreza. Não estive com contemplações e com um bastão de ferro agredi o sujeito prostrando-o no chão poeirento. Depois… movido pela raiva dei-lhe pontapés, murros, eu sei lá… arranquei-lhe os vestidos deixando-o em farrapos e pondo o meu companheiro em cima do jumento fugimos para o nosso esconderijo para tentar recuperar dos ferimentos recebidos e deitar contas ao espólio arrecadado. Os outros dois, amparando-se mutuamente, puseram-se a caminho de Jerusalém para procurar tratamento para as suas feridas, eu, fiquei ali escondido remoendo a minha raiva pelo que acontecera. Deixara-me dominar pela ira ao atacar de forma tão desumana o desgraçado que nos caíra nas mãos. Ora um chefe, um verdadeiro chefe, não pode deixar que os seus sentimentos extravasem colocando-se fora de controlo, É fundamental manter a calma em qualquer situação para se impor aos que têm de ver nele capacidade e aptidão para chefiar e comandar.Ouvi um ruido de cavalgadura e avistei um homem que se aproximava. Já era o terceiro desde que decorrera o assalto. Antes tinham aparecido um sacerdote e um levita que mal olharam para o desgraçado que jazia na vera do caminho, antes estugaram o passo seguindo viajem.   Porém, este, deteve-se e debruçou-se sobre a vítima, voltando-o de costas, retirou o manto e pôs-lho debaixo da cabeça. Depois dirigiu-se à sua montada e dos alforges retirou um pequeno odre com vinho e uma garrafa com azeite. Com grande cuidado e destreza foi destapando as numerosas feridas e contusões deitando-lhes azeite e vinho e cobrindo-as com pequenos pedaços de pano que rasgava de um lençol. O pobre ferido começou a falar e embora eu não pudesse ouvir o que diziam percebi que mostrava gratidão e reconhecimento. Depois e a muito custo conseguiu colocá-lo sobre a sua cavalgadura e afastaram-se por outro caminho.

Tenho de confessar que estava atónito com o que acabara de presenciar: É que, esquecia-me de dizer, o socorrista era um samaritano que, como toda agente sabe, não suportam os judeus. Fiquei longo tempo ali sentado pensando em tudo aquilo que tanto me impressionara, sobretudo na solicitude e compaixão demonstradas pelo samaritano para com a vítima e não pude deixar de me avaliar a mim mesmo se, acaso, procederia de igual forma. O meu coração empedernido por anos de violências e desacatos, abusos e esbulhos parece que me estalava no peito e, num impulso irresistível dei um salto para fora do esconderijo e abalei numa corrida desenfreada em direcção Jerusalém. Mas tive de parar a minha correria, um aglomerado de gente atravancava o caminho. Escutavam um homem que falava com uma voz tão clara e segura que me percebi logo ser alguém excepcional. Parecia estar a acabar um longo discurso e ouvi estas palavras finais:«Quero misericórdia e não sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».  Fiquei por ali pensando no que acabara de ouvir e, dentro de mim algo se transformou como se, sem eu compreender bem o que me acontecia, estivesse a ver toda a minha vida num relance, uma vida feita de assaltos, roubos, violências de toda a ordem e percebi, sim, entendi, que tinha de mudar radicalmente. Retomei a corrida e cheguei ofegante, mal podendo respirar, à escadaria do Templo e, pela primeira vez na minha vida, entrei. Não sabia o que fazer ou o que dizer, mas, a verdade, é que caí de joelhos e pus a cabeça no chão. Então, como se fosse outro que não eu, ouvi-me dizer: ‘Senhor, tem misericórdia de mim que sou um desgraçado, um malfeitor, um miserável!’. Quando saí parecia-me que mal punha os pés no chão de tal forma me sentia outro, mais leve, muito mais leve e voltei pelo mesmo caminho, decidido a encontrar a minha vítima para lhe restituir o que lhe roubara. 

 

Reflexão

 

As omissões!

Algo que refiro sempre quando me confesso mas que, talvez, não entrose bem o seu significado. De facto, deixar de fazer algo que deveria fazer e poderia fazer é um pecado.

Tenho de ter bem presente que o que deixo de fazer pode constituir prejuízo para alguém - para mim próprio - e que é irrecuperável porque mesmo que venha a ser feito por outrem, nunca será como se tivesse sido eu a fazê-lo.

Desperdício de oportunidade e de aplicar um talento que o Senhor expressamente me concedeu para tal.

Confesso-me acerca os talentos que tenho?

Talvez... Raramente!

Mas deveria fazê-lo amiúde, tão mais amiúde quanto penso que são muitos.

 

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27/04/2022

Publicações em Abril 27

 


 

Dentro do Evangelho

 

(Re

 

Lc X, 25-37

O bom samaritano

25 Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26 Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» 27 O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28 Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» 29 Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30 Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31 Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. 32 Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. 33 Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ 36 Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» 37 Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

 

Personagem 1.2

 

O Samaritano

Sou um samaritano e o que hoje aconteceu comigo, tem a sua raiz há tempos atrás.

Vivia com a minha família em Sicar.

A minha vida corria bem, os negócios prosperavam, embora tivesse que deslocar-me com frequência a Jericó o que era assaz perigoso dada a frequência dos assaltos e atropelos praticados pelos mal feitores que infestavam o caminho.

Um dia, sem aviso, comecei a notar sinais alarmantes no meu corpo e, depois de observado pelo médico as suspeitas confirmaram-se: estava a ser “atacado” pelo terrível flagelo da lepra. Como se calcula, toda a minha vida se transformou, não ousava sair de casa e evitava qualquer contacto com outras pessoas sempre à espera que a minha doença fosse conhecida pelas autoridades que me obrigariam a um exílio e imporiam uma segregação social extrema.

Um dia, porém, não pude deixar de assomar a uma janela de minha casa para verificar a que se devia o burburinho e agitação que percorria toda a aldeia. Uma mulher, no meio do povo que a rodeava cada vez em maior número contava entre lágrimas e risos, numa excitação quase frenética, algo espantoso. Dizia ela que tendo ido buscar água ao poço de Jacob encontrara um judeu sentado na borda do poço que, sem mais, lhe pediu de beber. Na sua surpresa argumentara: «Como, sendo Tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou samaritana?» Mas, continuava, a resposta foi ainda mais surpreendente de tal forma que regressara a correr à aldeia a dar conta do sucedido e acrescentava: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz; será este, porventura, o Cristo?». Muitos ficaram excitados e correram atrás da mulher em direcção ao poço, outros continuaram discutindo entre si tão insólita novidade. Eu recolhi-me de novo dentro de casa sem saber o que pensar mas, dentro de mim algo me dizia que este assunto não acabaria ali.

A doença avançava com rapidez e, tal como temia, as autoridades vieram, forçaram-me a sair de casa e ir para uma furna onde mal viviam outros dez homens com o mesmo mal. Desesperava… as condições de vida eram insuportáveis, ninguém ousava aproximar-se de nós e os escassos alimentos eram atirados do alto da ravina como se fossemos animais perigosos. Um dia, passado algum tempo, ouviam-se gritos e agitação no caminho que passava perto do local onde nos encontrávamos e, um de nós, arriscou-se a subir ao parapeito a dar-se conta do que acontecia. Regressou e, ofegante, disse-nos que o tal homem de que a mulher falara vinha pelo caminho seguido por uma multidão de gente que o apertava e assediava com perguntas. Tomámos uma decisão e, os dez, subimos ao caminho e gritámos de longe: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!» Ele viu-nos e disse-nos:  «Ide, mostrai-vos aos sacerdotes» Não pensámos mais e pusemo-nos imediatamente a caminho. Dei-me conta então que o meu corpo coberto de chagas estava limpo, a pele sã e – espantoso! – não havia qualquer sinal de lepra! Parei de repente e, enquanto os outros continuavam a caminhar, voltei para trás quase gritando incontrolavelmente graças ao Senhor Deus Todo Poderoso que operara em mim tal maravilha. Rompendo pelo meio dos que o rodeavam e prostrei-me a seus pés continuando a dar graças. E foi então que a minha vida se modificou radicalmente porque, o Mestre, disse-me simplesmente: «Levanta-te, vai; a tua fé te salvou». Sempre que tinha uma oportunidade ocorria ao local onde me diziam que Ele estava a pregar, a ensinar, a anunciar que o Reino de Deus estava próximo e que todos – absolutamente todos – os homens devemos amar-nos uns aos outros. A normalidade tinha regressado à minha vida e retomando os meus negócios recomecei as minhas viagens a Jericó.  E, hoje, o que aconteceu – o que me aconteceu – ao ver um pobre desgraçado estendido no chão, maltratado e ferido por salteadores foi aproximar-me dele e prestar-lhe o auxílio que estava nas minhas mãos prestar-lhe. Agora, descansa na estalagem para onde o levei e, eu, já deitado, sinto-me tão bem comigo próprio, tão – porque não admiti-lo - orgulhoso com o meu comportamento que não posso deixar de pensar no Nazareno que me deu tão preciosa lição de vida que resumirei assim: “Faz aos outros o que desejas que te façam a ti”.

 

Reflexão

 

Alegria

 

Pode parecer fácil reflectir sobre este tema, toda a gente sabe o que é estar alegre.

Talvez respondam, simplesmente, que é o contrário de estar triste.

Está certo, mas não completo.

Já se ouviu dizer: alegro-me na minha tristeza!

Sim, é verdade, a tristeza pode gerar alegria

Aquele ente querido que morte chama e, por isso, nos mergulha numa tristeza profunda, mas que sabemos encontrou a felicidade eterna é, também, gerador de uma grande alegria.

A verdade é que o Senhor nos quer alegres com uma alegria completa, igual à d’Ele.

 

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