10/12/2022

Publicações em Dezembro 10

 


Confissão frequente

 

Porque as circunstâncias, o ambiente, o estado de ânimo... não! Nada disso tem a ver com o pecado ou pode constituir desculpa; por isso mesmo é importante a Confissão frequente porque além de receber orientações preciosas sobre o meu comportamento colho força e ânimo para melhor resistir às tentações.

Volto a insistir: o matrimónio não é possível subsistir sem respeito.

Respeito por si mesmo como pessoa, como cristão e respeito pelo outro também como pessoa e como filho de Deus.

Quem não se respeita a si próprio na sua dignidade humana dificilmente respeitará o outro e, com tal é impossível subsistir o amor cuja base assenta na confiança absoluta que deve existir entre os cônjuges.

Cristo afirma, uma vez mais, que a Missão que O trouxe ao mundo encarnando no seio puríssimo da Santíssima Virgem, não foi para instituir uma Nova Lei mas sim para aperfeiçoar e tornar sólida e decisiva a Lei dada por Moisés no monte Sinai.

Toda a Sua pregação confirma este propósito: o Reino de Deus está no meio dos homens – todos os homens – sem distinção nem condições.

Dependerá do homem aceitá-lo e cumprir a Lei e, só assim terá garantida a salvação eterna.

Deus, contudo, é Absolutamente Justo e, por isso mesmo, não impõe mas convida.

Jesus Cristo é muito claro: «Não jureis de maneira nenhuma»; Mas, vai mais longe: «Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal.»

Parece lógico porque, se considero que o Demónio é o pai da mentira, confirmar com juramento seja o que for equivale a mentir.

Quem acreditará em alguém que, para convencer outro a propósito do que for, sente a necessidade de jurar?

Há, evidentemente, juramentos, que fazem parte de rituais solenes mas, fora estes, jurar seja pelo que for ou a propósito do que seja, não só não faz sentido como deve ser evitado a todo o custo.

Não fará sentido, sobretudo, porque o cristão é homem de palavra, faz o que diz e diz o que faz e, os outros, acreditam nele porque vêem o exemplo que dá: pessoa em quem se acredita e confia.

Assim, à primeira vista, parece que o Senhor aconselha a passividade.

De facto, há muita gente – muito mais que o que possamos imaginar – que a primeira palavra que lhes sai da boca ante qualquer solicitação ou pedido é: NÃO!

Nem sequer pensam que quem pede o fará porque tem uma necessidade concreta, real, premente e que, poderá muito bem estar na sua mão resolver – ou ajudar a solucionar – o assunto. E não se trata de ceder – sem mais – ao que nos é pedido sob, digamos, exigência – dar o manto, a capa, andar duas milhas – mas com sensatez e simplicidade convencer pela bondade, pela caridade, tirando importância às coisas que não a têm. Por outras palavras: “desarmar” o importuno.

Compreendo perfeitamente que este discurso de Jesus deve ter causado um impacto enorme nos que os escutaram. Naquele tempo era inconcebível não devolver – olho por olho e dente por dente – o mal que alguns infligiam a outros.

Começa – ou melhor, continua – a Lei do Amor que é a que Jesus Cristo veio pregar e ensinar aos homens como a única que pode trazer a paz às sociedades e a tranquilidade aos corações.

Não se trata de passividade, mas de contenção e, sobretudo, perdão porque, se pensarmos bem, talvez alguma vez mereçamos que nos tratem menos bem. Pensemos antes: se fulano diz isto de mim é porque não me conhece tão bem quanto julga, senão… diria muito pior. E… se não for verdadeiro ou justo? Somos, nós discípulos, mais que o Mestre? Pensemos no que disseram dele e o que Lhe fizeram?

A chamada Lei de Talião que imperava naqueles tempos bárbaros era o oposto da nova ordem que Jesus Cristo vinha instalar: A ordem do amor que, depois há-de instituir como o mandato novo para todos os homens.

Não é fácil pagar o mal com o bem, mas na sua busca incessante pela paz a humanidade não terá outro caminho.

Como cumprir tal mandato? Não será, Senhor, que mandas algo impossível?

Tu, que sabes tudo, conheces as minhas fraquezas e limitações, como nos mandas tal coisa tão grande! Sim, Tu, sabes tudo e, por isso sabes que Te amo e que, nesse amor, ponho toda a minha esperança e confiança em Ti.

Esperança que me ajudarás com o que me falta; confiança em que, sabendo o que preciso, providenciarás o necessário para poder cumprir o que mandas. Da quod iube et iube quod vis! Manda o que quiseres e dá-me o que queres.

Jesus Cristo enuncia um ideal de conduta humana.

Como todos os ideais, também este é difícil de atingir. Mas não impossível, porque o Senhor nunca pede impossíveis aos Seus filhos.

Com interpretar, então, o que diz?

Faltará, talvez, acrescentar: Este é - deve ser - o vosso ideal; esforçai-vos por consegui-lo.

A mim, pobre homem, que de ideais percebo muito pouco, não me resta fazer senão o que Jesus me sugere: Fazei o possível! E, com a segurança do Seu auxílio e apoio, sei muito bem que para Ele, nada é impossível. 

Não houve no seu tempo luz que mais brilhasse que a que o Santo António espalhava à sua volta sobretudo através da palavra fluida, portentosa, atraente.

Luz que brilha ainda hoje com um fulgor sempre novo porque as suas palavras emanavam directamente do Evangelho, da Palavra de Deus.

O fogo interior que o consumia na ansiosa busca de almas para Cristo levava-o a um incessante peregrinar para levar esse sal e essa luz onde fosse preciso.

Jesus Cristo confirma, uma vez mais, que não veio trazer uma Lei nova, bem pelo contrário, confirma a Lei e os Profetas e o que pretende é «levá-los à perfeição».

Esta perfeição não é outra coisa que os atributos e encargos específicos dos Seus seguidores: os cristãos. Serem sal da terra e luz do mundo eis os atributos e encargos que deseja e quer para todos – sem nenhuma excepção – os baptizados.

Não é pouca coisa, longe disso, é uma missão de altíssimo valor e importância e, mais, considerando que o Senhor nos quer como Seus “embaixadores” junto dos homens, de enorme responsabilidade e honra.

Ele nunca me faltará com a Sua Graça para suprir o que me possa faltar para a levar a cabo.

 

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09/12/2022

Publicações em Dezembro 9

 

 

 

DENTRO DO EVANGELHO

 

Jesus Cristo garante-nos que «grande será a recompensa nos Céus dos que sofrerem por causa do Seu Nome

Sofrer por Cristo, pelo Seu Santíssimo Nome, a Sua Igreja, é um facto recorrente de todos os tempos.

Não é necessário lembrar os espectáculos no Circo de Roma porque, hoje em dia, este mesmo dia, milhares de cristãos são atacados, feridos de morte, sujeitos às maiores violências pelas feras que odeiam O Senhor nosso Deus. No terceiro milénio depois da Ressurreição de Cristo, neste mesmo mundo dominado pela tecnologia e pela cultura, prossegue essa perseguição que o próprio Senhor anunciou.

Nós, cristãos que vivemos numa sociedade supostamente civilizada, recebemos a força da nossa Fé directamente desse sangue que milhares de inocentes derramam pela mesma Fé.

Consola-nos saber que: Grande será a sua recompensa nos Céus!

Jesus Cristo proclama o Sermão da Montanha que será, ao longo dos tempos, como que uma “Magna Carta” sobre a felicidade.

Os pobres em espírito; Os que choram; Os mansos; Os que têm fome e sede de justiça; Os misericordiosos, Os puros de coração; Os pacificadores; Os que sofrem perseguição por amor da justiça; Os perseguidos, que sofrem insultos e calúnias.

Em nome de Cristo, por amor a Deus, todos estes receberão a ventura eterna, portanto, alcançarão a felicidade maior a que se pode aspirar.

Para os que ouviam Jesus, estas Suas palavras devem ter sido consoladoras e tranquilizado muitos. "Ovelhas sem pastor", como Jesus lhes chamava, encontravam um discurso positivo e concreto, quando o que recebiam dos chefes do povo era apenas um conjunto informe de regras restritivas algumas absolutamente absurdas.  Para os responsáveis, Deus estava tão sumamente distante que era inacessível e não havia sequer o direito de pronunciar o Seu nome.

Jesus Cristo aparece no meio do povo, um homem simples e amistoso que fala de Si próprio e da Lei Deus com uma autoridade singela e indiscutível.

Muitos se aperceberão que é o próprio Deus Quem lhes falta e ensina.

Este discurso de Jesus ficará para sempre como um legado extraordinário da misericórdia divina.

Qualquer ser humano pode encontrar a alegria, a paz e a consolação de saber que as suas acções e comportamento terão um prémio, encontrarão eco no Coração Amantíssimo de Deus, eco esse que terá um efeito de grande, enorme importância para a vida de todos os dias, individual e colectiva.

Parece algo estranho – ou controverso – que Jesus diga expressamente: «Se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu»

Porque pode parecer-nos que quem pratica estas faltas não será digno do Reino dos Céus. Mas temos de considerar que o Senhor não condena ninguém pelas faltas que comete – pequenas ou grandes – porque deixa sempre “a porta aberta” ao arrependimento, sendo que – e aqui Jesus foi muito claro – a falta deste (os pecados contra o Espírito Santo) condenam irreversivelmente o homem. Ou seja, mais uma vez se refere que Deus Nosso Senhor detesta o pecado e não o homem, este é que é responsável pela sua própria condenação.

Pelas palavras de Jesus podemos concluir que, na Vida Eterna, não haverá como que uma “nivelação” de todos. Haverá “grandes” e “pequenos”, o Senhor afirma-o. Isto tem importância? Penso que sim, embora considere que, na Vida Eterna, o Supremo Bem é a visão beatífica da Face de Deus. Tem a ver, sim, com a obrigação de fazermos o melhor que pudermos e não nos contentarmos com os “mínimos”, como que “ir andando”, não fazendo muitos disparates, não pecando com gravidade e… pronto! Quem assim procede corre um perigo enorme, porque quanto mais baixo se voa maior é a possibilidade de chocar com um obstáculo que trave o “voo” e, a queda, pode ser grave.

Deve ser terrível a responsabilidade de alguém que propositadamente ensina, propaga o erro, a falsa doutrina

Quanto mais grave, quanto maior a inocência e fragilidade de quem é objecto de tal procedimento mais “apertadas” serão as contas que terá de prestar.

Poderá alguém ter dúvidas sobre como alcançar a Vida Eterna?

Pelas palavras de Jesus podemos ver claramente o caminho e a obrigação. Cumprir a Lei não basta é necessário levar outros a fazer o mesmo.

Um autêntico e definitivo aviso de Jesus Cristo sobre o comportamento de qualquer ser humano. Não há meias palavras nem tergiversações, mas tão só afirmações muito concretas e reais sobre o procedimento a ter como norma de vida. Pagar o que se deve, ter atenção ao próximo e ás suas necessidades, viver, em suma, com inteireza e verdade nos actos como nas acções concretas. Estas é que têm valor, não as intenções nem os desejos. Como posso estar "bem" com Deus quando estou "mal" com o meu próximo? Acaso o Senhor poderia aceitar tal coisa?

Infelizmente há alguns cristãos que vão pela vida fora como actores. Sim… não exagero! Frequentam com assiduidade a Igreja e os Sacramentos, usam grandiloquência sobre assuntos da religião, mas, privadamente, mantêm uma lista de agravos e reivindicações que aguardam ocasião para cobrar e fazer.

Ofensas antigas, más interpretações, juízos precipitados e malévolos e coisas do mesmo género de que se sentem credores quando, na maior parte das vezes, são eles mesmos os devedores. Há que pôr as coisas em ordem e agir com critério em toda e qualquer circunstância que o cristão é-o sempre e não apenas quando é conveniente.

Jesus Cristo vem como que "preparar o terreno" para o que será o Mandamento Novo.

O amor ao próximo é inseparável do amor a Deus ou, por outras palavras, não é possível amar a Deus sem amar o próximo. Este mandamento é - se se me permite a expressão - absolutamente lógico porque sendo os homens TODOS filhos de Deus, pertencendo à Família Divina, não se concebe que não se amem entre si.

Do amor nasce a união e o Senhor quer que sejamos «Um como Ele e o Pai são UM!»

O Senhor deixa bem claro que os dois primeiros mandamentos - amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos - são inseparáveis e não pode conceber-se um sem o outro. O Senhor tem a prioridade mas esta não existirá sem a segunda.

Talvez que nunca nos demos conta que amar o próximo pode tornar-se muito mais difícil que amar a Deus. Não nos atrevemos a "julgar" Deus ou pôr em causa se O devemos amar ou não. Já quanto ao próximo muitas vezes guardamos ressentimentos, avaliamos a sua conduta, fazemos o papel de juízes e críticos. E, tal excede em muito o que não podemos nem devemos fazer.

Há uma “declaração” de Jesus que, forçosamente, nos fará pensar detidamente: «todo aquele que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração». Aqui se vê a importância da “guarda da vista” porque ver é algo muito diferente de reparar. Quantos pecados – por vezes bem sórdidos – têm a sua origem na vista?

Aliás, todo o pecado, por assim dizer, é sórdido, mau, aberrante, mas, e no caso vertente, ninguém ignora que o nosso pensamento e imaginação nos levam por vezes por caminhos de incrível perversidade. Basta um segundo, um fugaz pensamento, um desejo mal expresso e, todavia, deixámo-nos corromper.

Tenhamos bem presente o seguinte: Ao demónio não lhe interessa nada que nos concentremos na oração, que, inclusive, nos preparemos com todo o amor e compunção para receber a Comunhão Eucarística e, assim, não raramente nos assedia com pensamentos ou desejos torpes precisamente nesses momentos. Eu diria que “a força da tentação” estará em relação directa com a intensidade da nossa união com Deus.

Está claríssimo: para haver pecado é preciso intenção e, mais, mesmo se não se pecar em acto, se houver intenção peca-se em pensamento.

É evidente que o pecado é um acto livre da vontade expressa e - nunca - algo fortuito e inocente.

É fundamental ter uma consciência bem formada e as ideias bem claras: é impossível pecar sem querer!

 

 

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08/12/2022

Publicações em Dezembro 8

 


Dentro do evangelho

 

Nas Bodas de Caná terão os discípulos percebido que fora por causa da  intervenção da Virgem que, Jesus decidira, definitivamente, fazer o milagre? Talvez não. Posso supor que sendo a primeira vez que o poder divino de Jesus se manifestava de forma tão evidente, eles não estivessem preparados para dar atenção aos pormenores. Mais tarde, sim. No fragor dos dias que se seguiram à Crucifixão e Morte do Senhor, hão-de procurar refúgio junto da Mãe e, será junto dela, no Cenáculo, que receberão o Espírito Santo que lhes abrirá definitivamente a compreensão de todas as coisas.

Junto dela encontro, sempre, refúgio e protecção, a luz necessária para distinguir os caminhos que Jesus quer que percorra e, também, a compreensão das incidências e agruras que inevitavelmente surgem na vida de cada um.

Pedro, que será a coluna sobre a qual assentará a Igreja de Cristo, duvidará muito, terá momentos de desânimo, sem compreender o que Jesus lhe diz acerca do sofrimento, da Cruz… Maria, ajudá-lo-á a compreender, a confiar e, sobretudo, a aceitar. Repetirá, vezes sem conta, o que dissera em Caná: «Fazei tudo o que Ele vos disser…»

Chamá-los-á também para testemunhar a Sua Transfiguração, para verem com os seus olhos tão humanos a glória do Filho de Deus. Ainda aqui, não entendiam nada. Com os olhos carregados de sono, a Pedro só lhe ocorre dizer que se sente bem, que não quer afastar-se daquela visão, daquele local. Depois, nos momentos derradeiros, convidá-los-á, aos mesmos três, para O acompanharem no Horto das Oliveiras para testemunharem a Sua Agonia.

Mais uma vez, o sono vence-os. Este sono é a figura do desânimo, da preocupação, da incerteza, do medo.

Tristeza e sono… como andam juntas estas “fraquezas” do homem!

Consentir na tristeza é caminho certo para adormecer. Ficamo absorto no problema ou na situação que me aflige e me entristece. Tudo parece cinzento à minha volta, não vejo nem saída nem escapatória e, se me deixo ir por aí, o mais certo é os meus olhos deixarem de ver o que realmente se passa à minha volta e cerrarem-se com sono. ‘Eu…? Não!’ Digo, espantado com tal possibilidade, ‘comigo isso não acontece, nunca estou triste!’ Será verdade? Todas as vezes que me detenho a pensar no que não possuo e desejaria ter, porque pensao que me faz falta, no que faria se as circunstâncias fossem as que considero ideais; quando deixo insinuar-se a suspeita, a pequena inveja, a minha vontade de sobressair, de ser notado, talvez mais “querido” que os outros; quando me revejo com prazer e gosto no que fiz, como falei, como fui “certeiros” na minha avaliação, como me olharam com admiração… aí, não estou triste, bem pelo contrário, sentimo-me contente, feliz até, talvez, eufórico. E, a tristeza, que tem a ver com isto, que, afinal, são coisas pequenas que procuro reprimir de imediato? Tem, e muito, a ver. Porque essa alegria e esse contentamento depressa se desvanecem quando me dou conta da minha fraqueza, do pouco que sou, da minha tendência para considerar detidamente tudo aquilo que é agradável aos meus sentidos e, em contrapartida, a fuga ao sacrifício, à entrega, à renúncia, à simples contenção de pensamentos, atitudes e palavras.

Os discípulos agora, não sentem sono. Estão bem despertos, talvez preocupados com a multidão que cerca Jesus num turbilhão de pessoas de todas as condições sociais, homens, mulheres, jovens e anciãos, gente humilde e de posses, letrados e ignorantes, sãos e doentes, que quer aproximar-se, ouvir, tocar o Mestre. A sua preocupação é protegê-Lo, resguardá-Lo e, talvez, também darem a perceber que são os discípulos, os próximos, os íntimos. Talvez haja algum orgulho, vaidade até. Afinal, são eles os confidentes de Jesus… Que são orgulho! Que justificada vaidade! Estar próximo de Jesus. Ser Seu íntimo!

Mas, como se pode ser íntimo de alguém se não convivemos com ele com regularidade, com interesse?

Tu! Vem e segue-me!’ Olho em volta para ter a certeza de que é mesmo a minha pessoa que Ele interpela. Não me restam dúvidas, é mesmo comigo! Pergunto-me porquê, que tenho eu de “especial” para querer que O siga? Tenho as minhas pequenas virtudes e enormes defeitos, a minha inteligência e a minha ignorância, a minha vontade e a minha preguiça, o meu ânimo e a minha letargia. Sou, assim, como que duas, ou mesmo várias, pessoas numa só, e, não obstante, Ele repete aquele chamamento doce e imperioso ao mesmo tempo, simultaneamente expectante e autoritário. Fico-me mais um pouco examinando o que se passa, o que tenho de fazer agora, as coisas que tenho “entre as mãos”, aquilo a que meti ombros, os entusiasmos que me excitam a imaginação, as prioridades que estabeleci – se é que o fiz, de facto – e pergunto-me: Vou? Não vou? Agora? Mais logo?

Percebo que não posso deter-me muito mais porque Ele, depois de me chamar, seguiu o Seu caminho e afasta-Se de mim. Não Se volta para trás a ver se O sigo, se atendi ou não o apelo que me fez; de certo modo parece confiante que entendi e atendi o que me disse. Sem grandes pressas, confesso, começo a andar na Sua peugada, deitando contas à vida, arrumando mentalmente as coisas de enormíssima importância que vão ficar por fazer, o conforto que vou desdenhar, talvez as críticas que irei ouvir. Mas, aos poucos, começo a dar-me conta de uma realidade: o peso insignificante de todo esse amontoado de coisas e, até, o pouco interesse que têm. Apercebo-me, com alguma surpresa, confesso, que a minha decisão de O seguir não causou transtornos a ninguém, que a vida não parou, que tudo continua paulatinamente a “funcionar” como se eu não fosse imprescindível, absolutamente necessário. Parece-me que, de facto, estava convencido do contrário. Sim… estive parado muitas vezes na vera do caminho sem saber para onde ir ou, talvez, na esperança de não de ir a lado nenhum, de poder ficar quieto sem me preocupar com coisa nenhuma. Não sinto grande dificuldade em acompanhá-Lo, a Sua passada é firme, mas certa, sem hesitações.

Vejo, sinto, que conhece muito bem o caminho e, mais, sabe perfeitamente para onde vai. Sinto-me possuído como que de uma estranha segurança não obstante a incógnita do destino final. Ele, sinto-o, não Se engana, não pode enganar ninguém.

O interessante é que sendo um caminho a subir, cada vez para mais alto, não sinto o esforço que normalmente se sente quando se sobe.

Talvez se deva ao facto de a carga que me pôs nos ombros ser leve, muito leve… mesmo para a imensidão que representa. Também não me sinto preso não obstante o jugo com que me cingiu o pescoço, sinal que me considera propriedade sua; porque é tão suave que não prende como um jugo autêntico, antes parece um elo de uma cadeia de amor e, por conseguinte, muito suave a e agradável. Sinto-me bem.

Agi correctamente, tenho a certeza, em acolher o Seu chamamento, o Seu convite: Tu! Vem e segue-me!

Não sei porque me disse isto, porque me escolheu, há tantos como eu que esperam, alguns até sem o saberem, por um chamamento igual, por isso sinto-me privilegiado pela escolha.

Ainda não Lhe disse muitas coisas, acho que não é preciso, Ele sabe o quero dizer-Lhe, mas, nas confidências de viajante, contei-Lhe das minhas expectativas, esperanças, ousadias, desejos por satisfazer. Sem querer, acho, fui abrindo o coração e em frases breves e curtas, deixei sair o que há tanto tempo estava como que travado dentro de mim.

Não tenho vergonha ou receio que me ache tonto, com pouco critério, talvez inconsequente. Quis sempre tantas coisas e ao mesmo tempo!

Ouve-me sem me olhar, não pergunta nada, não faz um gesto de admiração ou surpresa. Parece que tudo quanto Lhe possa dizer já o conhece, mas, estranhamente, parece gostar que, não obstante, lho diga, Lhe conte as minhas privacidades, patenteie as ilusões e as quimeras do meu espírito sonhador.

 

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