08/12/2022

Publicações em Dezembro 8

 


Dentro do evangelho

 

Nas Bodas de Caná terão os discípulos percebido que fora por causa da  intervenção da Virgem que, Jesus decidira, definitivamente, fazer o milagre? Talvez não. Posso supor que sendo a primeira vez que o poder divino de Jesus se manifestava de forma tão evidente, eles não estivessem preparados para dar atenção aos pormenores. Mais tarde, sim. No fragor dos dias que se seguiram à Crucifixão e Morte do Senhor, hão-de procurar refúgio junto da Mãe e, será junto dela, no Cenáculo, que receberão o Espírito Santo que lhes abrirá definitivamente a compreensão de todas as coisas.

Junto dela encontro, sempre, refúgio e protecção, a luz necessária para distinguir os caminhos que Jesus quer que percorra e, também, a compreensão das incidências e agruras que inevitavelmente surgem na vida de cada um.

Pedro, que será a coluna sobre a qual assentará a Igreja de Cristo, duvidará muito, terá momentos de desânimo, sem compreender o que Jesus lhe diz acerca do sofrimento, da Cruz… Maria, ajudá-lo-á a compreender, a confiar e, sobretudo, a aceitar. Repetirá, vezes sem conta, o que dissera em Caná: «Fazei tudo o que Ele vos disser…»

Chamá-los-á também para testemunhar a Sua Transfiguração, para verem com os seus olhos tão humanos a glória do Filho de Deus. Ainda aqui, não entendiam nada. Com os olhos carregados de sono, a Pedro só lhe ocorre dizer que se sente bem, que não quer afastar-se daquela visão, daquele local. Depois, nos momentos derradeiros, convidá-los-á, aos mesmos três, para O acompanharem no Horto das Oliveiras para testemunharem a Sua Agonia.

Mais uma vez, o sono vence-os. Este sono é a figura do desânimo, da preocupação, da incerteza, do medo.

Tristeza e sono… como andam juntas estas “fraquezas” do homem!

Consentir na tristeza é caminho certo para adormecer. Ficamo absorto no problema ou na situação que me aflige e me entristece. Tudo parece cinzento à minha volta, não vejo nem saída nem escapatória e, se me deixo ir por aí, o mais certo é os meus olhos deixarem de ver o que realmente se passa à minha volta e cerrarem-se com sono. ‘Eu…? Não!’ Digo, espantado com tal possibilidade, ‘comigo isso não acontece, nunca estou triste!’ Será verdade? Todas as vezes que me detenho a pensar no que não possuo e desejaria ter, porque pensao que me faz falta, no que faria se as circunstâncias fossem as que considero ideais; quando deixo insinuar-se a suspeita, a pequena inveja, a minha vontade de sobressair, de ser notado, talvez mais “querido” que os outros; quando me revejo com prazer e gosto no que fiz, como falei, como fui “certeiros” na minha avaliação, como me olharam com admiração… aí, não estou triste, bem pelo contrário, sentimo-me contente, feliz até, talvez, eufórico. E, a tristeza, que tem a ver com isto, que, afinal, são coisas pequenas que procuro reprimir de imediato? Tem, e muito, a ver. Porque essa alegria e esse contentamento depressa se desvanecem quando me dou conta da minha fraqueza, do pouco que sou, da minha tendência para considerar detidamente tudo aquilo que é agradável aos meus sentidos e, em contrapartida, a fuga ao sacrifício, à entrega, à renúncia, à simples contenção de pensamentos, atitudes e palavras.

Os discípulos agora, não sentem sono. Estão bem despertos, talvez preocupados com a multidão que cerca Jesus num turbilhão de pessoas de todas as condições sociais, homens, mulheres, jovens e anciãos, gente humilde e de posses, letrados e ignorantes, sãos e doentes, que quer aproximar-se, ouvir, tocar o Mestre. A sua preocupação é protegê-Lo, resguardá-Lo e, talvez, também darem a perceber que são os discípulos, os próximos, os íntimos. Talvez haja algum orgulho, vaidade até. Afinal, são eles os confidentes de Jesus… Que são orgulho! Que justificada vaidade! Estar próximo de Jesus. Ser Seu íntimo!

Mas, como se pode ser íntimo de alguém se não convivemos com ele com regularidade, com interesse?

‘Tu! Vem e segue-me!’ Olho em volta para ter a certeza de que é mesmo a minha pessoa que Ele interpela. Não me restam dúvidas, é mesmo comigo! Pergunto-me porquê, que tenho eu de “especial” para querer que O siga? Tenho as minhas pequenas virtudes e enormes defeitos, a minha inteligência e a minha ignorância, a minha vontade e a minha preguiça, o meu ânimo e a minha letargia. Sou, assim, como que duas, ou mesmo várias, pessoas numa só, e, não obstante, Ele repete aquele chamamento doce e imperioso ao mesmo tempo, simultaneamente expectante e autoritário. Fico-me mais um pouco examinando o que se passa, o que tenho de fazer agora, as coisas que tenho “entre as mãos”, aquilo a que meti ombros, os entusiasmos que me excitam a imaginação, as prioridades que estabeleci – se é que o fiz, de facto – e pergunto-me: Vou? Não vou? Agora? Mais logo?

Percebo que não posso deter-me muito mais porque Ele, depois de me chamar, seguiu o Seu caminho e afasta-Se de mim. Não Se volta para trás a ver se O sigo, se atendi ou não o apelo que me fez; de certo modo parece confiante que entendi e atendi o que me disse. Sem grandes pressas, confesso, começo a andar na Sua peugada, deitando contas à vida, arrumando mentalmente as coisas de enormíssima importância que vão ficar por fazer, o conforto que vou desdenhar, talvez as críticas que irei ouvir. Mas, aos poucos, começo a dar-me conta de uma realidade: o peso insignificante de todo esse amontoado de coisas e, até, o pouco interesse que têm. Apercebo-me, com alguma surpresa, confesso, que a minha decisão de O seguir não causou transtornos a ninguém, que a vida não parou, que tudo continua paulatinamente a “funcionar” como se eu não fosse imprescindível, absolutamente necessário. Parece-me que, de facto, estava convencido do contrário. Sim… estive parado muitas vezes na vera do caminho sem saber para onde ir ou, talvez, na esperança de não de ir a lado nenhum, de poder ficar quieto sem me preocupar com coisa nenhuma. Não sinto grande dificuldade em acompanhá-Lo, a Sua passada é firme, mas certa, sem hesitações.

Vejo, sinto, que conhece muito bem o caminho e, mais, sabe perfeitamente para onde vai. Sinto-me possuído como que de uma estranha segurança não obstante a incógnita do destino final. Ele, sinto-o, não Se engana, não pode enganar ninguém.

O interessante é que sendo um caminho a subir, cada vez para mais alto, não sinto o esforço que normalmente se sente quando se sobe.

Talvez se deva ao facto de a carga que me pôs nos ombros ser leve, muito leve… mesmo para a imensidão que representa. Também não me sinto preso não obstante o jugo com que me cingiu o pescoço, sinal que me considera propriedade sua; porque é tão suave que não prende como um jugo autêntico, antes parece um elo de uma cadeia de amor e, por conseguinte, muito suave a e agradável. Sinto-me bem.

Agi correctamente, tenho a certeza, em acolher o Seu chamamento, o Seu convite: Tu! Vem e segue-me!

Não sei porque me disse isto, porque me escolheu, há tantos como eu que esperam, alguns até sem o saberem, por um chamamento igual, por isso sinto-me privilegiado pela escolha.

Ainda não Lhe disse muitas coisas, acho que não é preciso, Ele sabe o quero dizer-Lhe, mas, nas confidências de viajante, contei-Lhe das minhas expectativas, esperanças, ousadias, desejos por satisfazer. Sem querer, acho, fui abrindo o coração e em frases breves e curtas, deixei sair o que há tanto tempo estava como que travado dentro de mim.

Não tenho vergonha ou receio que me ache tonto, com pouco critério, talvez inconsequente. Quis sempre tantas coisas e ao mesmo tempo!

Ouve-me sem me olhar, não pergunta nada, não faz um gesto de admiração ou surpresa. Parece que tudo quanto Lhe possa dizer já o conhece, mas, estranhamente, parece gostar que, não obstante, lho diga, Lhe conte as minhas privacidades, patenteie as ilusões e as quimeras do meu espírito sonhador.

 

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07/12/2022

Publicações em Dezembro 7

  


DENTRO DO EVANGELHO

 

Na sua pregação, Jesus Cristo repete muitas vezes, de forma seme­lhante, esta frase: «Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça».

É um aviso sério a ter muito em conta por todos os homens, sobretudo pelos cristãos.

A Palavra que ouvimos é Palavra de vida eterna, tem a ver com a nossa salvação, por isso é de suma importância entender o que ouvimos, mas, principalmente, ouvir de forma a pôr em prática o que nos é dito.

Se não… seremos uns sujeitos passivos, desatentos e a quem tanto faz ou pouco importa o que lhe é dito.

Será uma pena e um desperdício com resultados nefastos e, talvez, decisivos para a nossa própria felicidade.

O que tenho, na verdade, não é meu, não me pertence, foi-me em­prestado para fazer render e passar a outros.

Na medida em que o fizer – e tenho de o fazer como obrigação cristã – ser-me-á acrescentado e, não obstante dar, passarei a ter mais.

É, de facto, um mistério mas, para mim, é claro como água porque foi o próprio Jesus quem o disse.

Ajuda-me, Senhor, a partilhar a luz que de Ti recebo para que outros também possam ver  como Tu queres que vejam.

‘Quem dá aos pobres empresta a Deus!’ ouvia o meu Pai dizer com frequência.

Mais que uma frase bonita, ela transmite uma realidade já que foi o próprio Jesus Cristo Quem garantiu que nem um simples copo com água dado por amor ao próximo ficará sem recompensa.

Assim é que o Senhor devolve com altíssimos juros aquilo que Lhe emprestamos nas pessoas que nos pedem assistência.

É, pois, um excelente negócio a ter muito em conta.

O Reino de Deus não é algo que se instala no espírito do homem de um momento para o outro.

Começa no nosso Baptismo em que por obra e Graça do Espírito Santo somos convertidos em Filhos de Deus e, depois, ao longo da nossa vida deverá ir crescendo através da prática das boas obras, da frequência dos Sacramentos, principalmente com a recepção da Sagrada Comu­nhão Eucarística.

Este é o campo, a semente onde devemos “trabalhar” com afinco, pe­dindo que a Graça de Deus nos robusteça a Fé, a Esperança e a Cari­dade que enformarão todo o nosso ser humano.

Damo-nos conta da extraordinária Graça que nos é concedida: saber-mos de “fonte segura” o que é o Reino de Deus?

Passaram centenas e centenas de anos em que uma incomensurável multidão de seres humanos não sabia exactamente o que era e em enorme maioria nem sequer suspeitava da sua existência.

Foram esses homens um pouco “desconfiados” e de escassa cultura que nos transmitiram esse conhecimento tal como o ouviram repetidas vezes dos lábios de Cristo.

Como devemos agradecer, venerar e exaltar esses Discípulos e Após­tolos a quem tanto devemos!

O Reino de Deus existe quer o homem queira ou não, deseje ou não fazer parte dele.

O Senhor explica abundantemente e com paciência amorosa o que é esse Reino e as vantagens – reais – de participar no seu anúncio a todos os homens sem distinção ou acepção.

Os trabalhadores do Reino, que devemos ser todos os cristãos, têm uma garantia de “sucesso” que é dada pelo próprio Rei: mesmo que a sua acção seja como um grão de mostarda, aparentemente insignifi­cante, o resultado ultrapassa tudo o que possamos imaginar.

Grandes e pequenas sementeiras, todas darão frutos porque é O Se­nhor Quem os faz surgir para os santificar e distribuir por todos.

Um grão de mostarda!

Tal é o Reino de Deus!

Esse mesmo Reino que Cristo veio instaurar na missão a que entregou a própria Vida.

Como Deus é simples!

Nós, homens, temos esta tendência para O considerar Grande e Pode­roso e, consequentemente, complicado.

Mas não é.

Não há nada nem ninguém mais simples que Deus porque sendo Uno tem de ser simples, só o múltiplo é complicado e, por vezes, difícil de entender.

A Deus Nosso Senhor entendemo-lo perfeitamente desde que, verda­deiramente, escutemos o que nos diz.

Como se pode ver, o Reino de Deus que Jesus Cristo veio anunciar e trazer à terra só existirá com o concurso do trabalho do homem.

Não podemos ficar inertes à espera que tudo aconteça como uma dá­diva de Deus.

Esta dádiva – aquilo que Deus assegura no Seu Reino – serão os frutos que o nosso trabalho, bem feito, com perseverança e persistência dará e que Ele distribuirá conforme Lhe aprouver.

No fim e ao cabo é exercermos a nossa vocação pessoal – seja qual for – com os olhos postos no Senhor a Quem queremos oferecer o nosso trabalho e dedicar o nosso empenho.

Ora, para que tal possa ser aceite tem de ser algo em que nos empe­nhámos a sério, pondo todas as nossas capacidades e talentos naquilo que fazemos seja semear, estudar, ensinar, construir… o quer que seja a nossa profissão, o nosso trabalho.

Assim, seremos, de facto e pleno direito, súbditos deste Reino que nos foi dado pelo próprio Rei com a Sua imolação na Cruz.

Que extraordinário!

Este Rei, Criador e Senhor de todas as coisas, quer que O “ajudemos” na construção do Seu Reino!

Sem mérito algum da nossa parte concede-nos essa dignidade espan­tosa: construtores do Reino de Deus!

É admirável a confiança que o Senhor tem em nós, pobres criaturas cheios de fraquezas e misérias, para levar a cabo tão portentosa tarefa.

Não desperdicemos a oportunidade, não desiludamos Quem nos con­vida.

A paga será proporcional à tarefa:

Incomensurável.

Dia após dia, passo a passo, assim é, deve ser, o trabalho de aposto­lado com perseverança e confiança.

Perseverança em não esmorecer no trabalho, mesmo que os frutos tardem em surgir ou, até, não os vejamos nunca.

Alguém os colherá quando for o tempo certo.

A missão do apóstolo não é colher, mas sim semear, não em seu nome mas em nome de Deus.

Confiança porque, o Senhor, não deixa nunca que o trabalho de apos­tolado seja em vão. Ele, que sabe mais, decidirá quando e como os frutos hão-de aparecer e, também, não deixará sem prémio, o trabalho efectuado em Seu Nome.

Somos, de facto, imensamente mais afortunados que os discípulos que seguiam Jesus!

Esta afirmação que faço sem hesitar vem-me da constatação de que, a mim, não é preciso que o Senhor me explique as parábolas com que Se refere ao Seu Reino.

Aqueles se encarregaram de, ao longo dos tempos, as irem explicando e comentando de modo que, o que hoje nos chega é tão abundante e rico que só quem não quiser realmente entender é que terá alguma dúvida.

Mas, eles, foram os primeiros e enfrentavam uma “novidade”, algo tão “revolucionário”, grandioso e, ao mesmo tempo, simples que não eram capazes por si sós de entender completamente o significado.

A catequese de Jesus Cristo, chega-nos até aos dias de hoje através da Sua Igreja e do Magistério desta que, constantemente, propõe aos seus filhos, abundantes meios de formação e enriquecimento espiri­tual.

Mal de nós se não os aproveitarmos!

 

Advento 7

 

Esta palavra - Advento - vem do Latim Adventus e significa: Chegada; Vinda; Exaltação; Princípio.

Sexta reflexão: Exaltação

2

“Exaltação” no Advento sentimos muito particularmente este estado de alma, por                                                                             que esta, está numa actitude expectante de algo muito bom e singular.

(AMA, 2020)

 

 

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06/12/2022

Publicações em Dezembro 6

  


DENTRO DO EVANGELHO

 

A minha caminhada com Jesus prossegue.

Estou agora tão alto que posso, olhando à minha volta, ver o que deixei, considerar o que fiz e, com grande pena, aperceber-me do que nunca cheguei a fazer. Como um filme, sem protagonista, nem guião, nem enredo; um filme simples, de uma história breve, comum e um pouco anónima. Não me parece “grande coisa”. Não trouxe nenhum equipamento especial para esta caminhada, vim tal qual estava, tenho a certeza que não irei precisar de nada.

Aliás Ele disse-me: «nem cajado, nem duas túnicas, nem alforge…»

Acompanha-nos uma multidão enorme, a perder de vista e que vai engrossando constantemente como uma onda do mar, mas, embora eu tenha consciência dela, parece-me, ao mesmo tempo, que só existo eu, que só eu Lhe interesso, que só a mim dedica a Sua atenção.

Compreendo que também cada um, cada uma, dessa enorme multidão, ouviu as mesmas palavras: «Tu! Vem e segue-me!»

Uns nota-se bem, estão há muito na Sua companhia andando o Seu caminho, outros, como eu, chegaram mais recentemente e ainda olham, de vez em quando, para trás. Alguns, acabam por desistir, sentam-se à beira do caminho e vão-se deixando ficar. Parecem tristes, abatidos, talvez recordem com apego o que terão deixado e que, julgam, lhes faz falta.

O que estranho é que sendo eu tão decidido, tão senhor das minhas acções, tão categórico nas escolhas que faço, não me tenha ocorrido perguntar-Lhe para onde vamos, onde me leva. Poderia pensar, por momentos, que estou a agir como um “zombie” sem vontade ou sem querer tê-la, ou, então, que não consegui resistir à Sua voz, senti que não teria alternativa. Mas não! Sinto-me bem vivo e cheio de força, algo estranho, assim como que um ímpeto que se foi transformando numa certeza.

A certa altura pensei dizer-Lhe: ‘não sei se sou capaz de Te acompanhar por muito mais tempo, mas percebi, quase imediatamente, que Ele conhece esse meu temor, esta minha fragilidade e que, não obstante, me quer tal como no primeiro momento quando me disse: ‘Tu! Vem e segue-me!’

 

Estou convicto que, sabendo Ele o que sou e como sou, me compeliu a segui-Lo é porque me quer junto de Si, mais perto, como companheiro íntimo e incondicional e, portanto, eu não poderia ter feito outra coisa que segui-Lo. Por isso, do mais fundo do meu coração Lhe digo: Eu, Senhor, sigo-Te mas, peço-Te: não me largues da Tua mão porque me perco no caminho e, depois, não saberia para onde ir. Quero ser, tal como aqueles três discípulos, confidente de Jesus. Desejo sinceramente ter com Ele uma atitude próxima, íntima de respeito e confiança, de uma abertura e transparência tais que não exista nada, absolutamente, que não Lhe diga ou revele. As “minhas coisas” todas, aquilo que penso, e repudio, o que me agrada e o que me desgosta, tudo a que me sinto agarrado e o desejo de me “soltar” dessas prisões, desses laços pequenos e grandes que me têm prendido nas esquinas da vida diária. Pedir-Lhe sempre que me ajude a ver o que é realmente importante, o que interessa e, sobretudo, a ter total confiança n’Ele e que tudo, quanto me sucede ou possa suceder, é para meu bem.

 

Chego a esta conclusão simples e claríssima: Pois se Ele me conhece de que me vale não Lhe contar tudo? Se Ele sabe como sou e, mesmo assim, me quer, me ama, Se preocupa comigo, porque me aflijo tanto com as minhas falhas, as minhas deficiências e defeitos? 

Desprendido de tudo: O que tenho e o que não tenho. Desprendido dos "desejos de ter", mesmo daqueles que parecem legítimos. Desprendido das coisas grandes e das pequenas que quase não têm importância. Desprendido das "minhas coisas", das "minhas vontades", daquilo que é "meu". Coração grande, aberto a todos e, sobretudo, aberto a Deus para que o encha o amor a Si e aos outros, não deixando lugar a mais nada.

Se eu pudesse, melhor, se realmente quiser ser íntimo de Jesus, nada mais tenho a fazer que deixá-Lo tomar posse de mim, entregar-me, gostosamente nas Suas mãos amorosas com plena confiança e a certeza que não poderia estar melhor.

Nem as considerações do pouco que sou, dos meus defeitos, das minhas faltas de coerência e tantas… tantas pequenas coisas que arrasto como um lastro que me mantém sujeito a uma quase servidão de manias, tiques, falsas depressões, a minha suposta dignidade ofendida por tantos e tantas vezes, o não reconhecimento de como sou bom, especial… nada disto e muito mais, é desconhecido de Jesus Cristo.

E, mesmo assim, Ele quer, procura a minha intimidade. Lembro-me do publicano que nem coragem tinha de levantar os olhos ao alto.

Como é possível? Como a misericórdia infinita de Deus não se esgota neste constante “ir e vir”, das “flutuações” do meu carácter?

Como pode o Senhor olhar para mim que estou tão longe da postura humilde do publicano?  Eu, sempre em “bicos dos pés” tentando sobressair, fazer-me notado, cheio de mim mesmo e da “excelência” dos meus talentos, das minhas capacidades?

Senhor: quase que não vejo a necessidade de Te pedir humildade. Ser humilde é, para mim, um objectivo que persigo desde sempre. Sempre longe, parece, cada vez mais distante porque, pobre de mim, sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, que resiste a ser moldado pelas Tuas divinas mãos.

Mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. A verdade que Te confesso é esta: Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada».

E, o “oleiro divino” uma e outra vez refaz a mesma peça de que sou feito. Retoma o Seu ”trabalho” da minha santificação como se nada se tivesse passado, como se eu não estivesse feito nos pedaços que as minhas frequentes quedas originam. E, no entanto, é assim que é!

Às vezes – quantas vezes! – parece que estou sozinho no mundo.

Rodeado de pessoas, no afã da vida diária, no corre-corre de todos os dias, mesmo assim, estou sozinho.

Sentimo-me “individual” como se, no mundo, não existisse mais ninguém senão eu.

Rezao e, a oração sai insípida, árida.

Sentimo-me desconfortável, achao que “não vale a pena” e… deixamo-me ir.

Logo entra o desânimo, o descoroçoamento e, a tempo, a tristeza.

Naminha cama no hospital clamei bem alto e não me ouvias! No denso nevoeiro da doença, mergulhado num mar povoado de estranhos seres, sem saber se estava acordado ou adormecido, sem ter a noção onde começava e acabava o meu corpo: a cabeça... os pés... as mãos...; “aparafusado” numa cama que fazia parte de mim... os calcanhares...? (como é possível doerem tanto, os calcanhares?!...), clamei por Ti e não me ouvias! E, eu, mergulhava outra vez naquele oceano de perdição e voltava à superfície e de novo me perdia. Havia uma espécie de estratificação dos pensamentos, tinha tudo ordenado, muito bem organizado na minha cabeça: azuis, encarnados, verdes... dois azuis, três verdes... não... agora é um verde e depois... três ou quatro doutra cor qualquer. (decidi que as cores não eram importantes). Nada fazia sentido, estava vivo...?; morto...?; moribundo...? calado...?; aos gritos...? e o ar? Sim o ar: era solene, composto, digno ou, pelo contrário tinha a boca retorcida num esgar, os olhos vítreos esbugalhados, o gesto descontrolado? ‘Ne timeas!’’ Ouvi-te, finalmente! Percebi, então, só então, que estava tão preocupado com a minha doença, o meu sofrimento, que ficara incapacitado para Te ouvir...

Tranquilo, fui repetindo até adormecer: Ofereço..., ofereço..., ofereço!

Faça-se, cumpra-se a Tua Justíssima e Amabilíssima Vontade sobre todas as coisas. Ámen. Ámen.

 

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