20/04/2020

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XX


1 «Com efeito, o Reino do Céu é semelhante a um proprietário que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para a sua vinha. 3 Saiu depois pelas nove horas, viu outros na praça, que estavam sem trabalho, 4 e disse-lhes: ‘Ide também para a minha vinha e tereis o salário que for justo.’ 5 E eles foram. Saiu de novo por volta do meio-dia e das três da tarde, e fez o mesmo. 6 Saindo pelas cinco da tarde, encontrou ainda outros que ali estavam e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’ 7 Responderam-lhe: ‘É que ninguém nos contratou.’ Ele disse-lhes: ‘Ide também para a minha vinha.’ 8 Ao entardecer, o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos até aos primeiros.’ 9 Vieram os das cinco da tarde e receberam um denário cada um. 10 Vieram, por seu turno, os primeiros e julgaram que iam receber mais, mas receberam, também eles, um denário cada um. 11 Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: 12 ‘Estes últimos só trabalharam uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o cansaço do dia e o seu calor.’ 13 O proprietário respondeu a um deles: ‘Em nada te prejudico, meu amigo. Não foi um denário que nós ajustámos? 14 Leva, então, o que te é devido e segue o teu caminho, pois eu quero dar a este último tanto como a ti. 15 Ou não me será permitido dispor dos meus bens como eu entender? Será que tens inveja por eu ser bom?’ 16 Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.» 17 Ao subir a Jerusalém, pelo caminho, chamou à parte os Doze e disse-lhes: 18 «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei, que o vão condenar à morte. 19 Hão-de entregá-lo aos pagãos, que o vão escarnecer, açoitar e crucificar. Mas Ele ressuscitará ao terceiro dia.» 20  Aproximou-se então de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu, com os seus filhos, e prostrou-se diante dele para lhe fazer um pedido. 21 «Que queres?» - perguntou-lhe Ele. Ela respondeu: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino.» 22 Jesus retorquiu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?» Eles responderam: «Podemos.» 23 Jesus replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas, o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado.» 24 Ouvindo isto, os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos. 25 Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. 26 Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e 27 quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28 Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.» 29 Quando iam a sair de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus. 30 Nisto, dois cegos que estavam sentados à beira da estrada, ao ouvirem dizer que Jesus ia a passar, começaram a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de nós!» 31 A multidão repreendia-os para os fazer calar, mas eles gritavam cada vez mais: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de nós!» 32 Jesus parou, chamou-os e perguntou-lhes: «Que quereis que vos faça?» 33 Responderam-lhe: «Senhor, que os nossos olhos se abram!» 34 Dominado pela compaixão, Jesus tocou-lhes nos olhos. Imediatamente recuperaram a vista e seguiram-no.

Comentários:

1-16 -
Na verdade, quando lemos este trecho da São Mateus, somos, talvez, invadidos por algum sentimento de injustiça. Quem trabalhou mais deveria receber mais! Mas não nos esqueçamos de algo muito importante: O Senhor paga aos primeiros contratados exactamente o que ajustou, o que prometeu pagar. Aos segundos não prometeu nada, mas, na Sua Sabedoria, entendeu dar-lhes uma paga igual. Actua com suprema justiça porque, de facto, aqueles segundos e terceiros contratados não tiveram oportunidade de trabalhar mais cedo porque «ninguém os contratou».
Parece-nos, talvez, que, perante situação semelhante, teríamos procedido de outra forma: pagaríamos o ajustado com os primeiros e, aos outros, daríamos um salário correspondente ás horas que efectivamente trabalharam. Teríamos sido justos? Não tenho dúvidas em afirmar que sim. Mas, de facto, a justiça divina é diferente da justiça dos homens e ainda bem. Já pensámos que se o Senhor procedesse assim, nós, de agora, que poderíamos esperar receber comparando com os milhões de milhões de homens que nos precederem?

17-28 -
'Posso beber o Teu cálice? Ah, Senhor, não sei se sou capaz! Pobre de mim que, repugnando-me tanto o meu, como vou beber o Teu? Queria tanto dizer-te, do fundo do meu coração: Posso! Só me atrevo a dizê-lo porque sei que me ajudarás e a Tua Graça não me há-de faltar'. (AMA, Reflexões)
As Mães não têm nem peso nem medida quando se trata de pedir para os seus filhos. A nossa Mãe do Céu é uma Mãe extremosa e complacente e não se cansa, nunca, de pedir por nós seus filhos, independentemente do nosso mérito que, é sempre pouco. Ela é a medianeira entre nós e o seu Filho Jesus e, como em Caná, não hesita em "forçar" a Sua Vontade para que atenda o que precisamos. Não temos vinho suficiente para os que nos procuram, não temos fé que baste para convencer os outros, não temos coragem para enfrentar as dificuldades, não temos ânimo para mudar e corrigir o que é preciso, não temos... tanta coisa que realmente precisamos para ser bons filhos, bons cristãos. Peçamos sem descanso, instemos o seu Coração Amantíssimo de Mãe para que interceda por nós. Gritemos com todas as forças do nosso ânimo: Monstra te esse matrem!

20-28 -
O que uma mãe não faz pelos seus filhos!Sem pejo de pedir o impossível, medo, até, do ridículo da petição, a mãe pede, solicita, implora o que pensa pode contribuir para o bem, a felicidade do filho. Imaginemos a nossa Mãe do Céu que, conhecendo as nossas fragilidades e carências, como não há-de interceder por nós junto do seu Filho. E, Ele, não pode resistir aos apelos da Sua  Mãe Santíssima e, não por nosso mérito, que não temos, mas pela sua intercessão, dar-nos-à o que possamos precisar.
Deste trecho de São Mateus podemos pelo menos extrair duas reflexões. A primeira é a confirmação da fé da mãe dos Apóstolos que não duvida que O Senhor pode fazer tudo quanto Se Lhe peça, mesmo que seja algo insólito que só o amor de mãe pode justificar. A segunda é a visão humana, de resto natural, que temos do Reino dos Céus. Consideramos um espaço onde os Santos estão ordenados por categorias que os aproximam, ou afastam, da Santíssima Trindade. Sabemos, porque foi Jesus Quem o disse, que os doze Apóstolos estarão em doze tronos e que, também, há muitas moradas. Mas também sabemos que não já espaço ocupado, por assim dizer, porque nem as almas nem os ressuscitados ocupam lugar porque são espírito ou gozam das propriedades de corpos gloriosos. Ou seja, a vida eterna consiste na visão beatífica da Trindade e, assim sendo, não haverá uns que "vêm menos e outros que verão mais" mas todos gozarão por igual.
Podemos ter absoluta certeza que a nossa Mãe do Céu nunca ouvirá do seu Filho uma resposta semelhante à que deu à mãe de João e Tiago. Em primeiro lugar, porque ela nunca pedirá nada que não seja absolutamente necessário para os seus filhos, os homens e, depois, mesmo que o fizesse, Cristo nunca recusaria o que fosse a Sua Santíssima Mãe. No momento decisivo, quando nos apresentarmos perante o Senhor, Ele ouvirá – seguramente – o que a Sua Mãe tiver dizer a nosso respeito, a nosso favor, evidentemente. Como, por exemplo: ‘Filho, este usou o Escapulário…’.
Não me repugna absolutamente nada o pedido feito pela Mãe dos Apóstolos! Então não devemos pedir quanto acharmos que é melhor para nós? Se, o melhor para nós, é alcançar a santidade de vida, não devemos pedir ao Senhor que nos faça santos? Não se trata de pedir de mais ou pedir de menos, trata-se de pedir com a certeza que, o Senhor ouve os nossos pedidos e endireitará o que estiver enviesado e – sempre – nos dará o que fizer falta. Mais! Dar-nos-à com a abundância e magnanimidade que o Seu Coração misericordioso sempre dá aos que O invocam com Fé e Confiança

32-34 –
«Que quereis que vos faça?» Fica-se como que “estarrecido” com esta pergunta do Senhor! Ele, que sabe tudo, conhece o que precisamos, o que pode faltar-nos, quer que Lhe digamos – claramente e sem rodeios – o que desejamos, com a certeza, que Ele, sabe muito melhor que nós o que nos convém. Quando pedirmos o que seja, pois, devemos acrescentar: ‘Se for da Tua Vontade, Senhor!’.
Não temos, os homens, outro remédio senão pedir já que, por nós mesmos não podemos nada, bem o sabemos e, cada um, tem as suas próprias experiências que o confirmam. O ”nosso poder” não tem expressão nem valor, mas, como diz São Paulo: “posso tudo em Cristo que me conforta”, ou, como São Josemaria: “É verdade: pelo teu prestígio económico és um zero..., pelo teu prestígio social, outro zero..., e outro pelas tuas virtudes, e outro pelo teu talento... Mas, à esquerda desses zeros, está Cristo... E que cifra incomensurável isso dá!” (Caminho, 473). Com este “panorama”, esta evidência, a nossa petição torna-se confiada e cheia de esperança. Atentemos bem que é o Próprio Jesus Cristo Quem nos urge: «Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei, e hão-de abrir-vos. Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão-de abrir.» (São Mateus, VII, 7-8). Ele que É o Caminho, a Verdade e a Vida, nunca nos negará o Seu auxílio e, se acaso, não nos dá o que pedimos, é porque na Sua Sabedoria e Justiça infinitas, sabe o que muito melhor nos convém em cada circunstância.




(AMA, 2018)

19/04/2020

Humildade





Não deixes de rezar, eu escuto-te


Os santos, anormais?... Chegou a hora de acabar com esse preconceito! Havemos de ensinar, com a naturalidade sobrenatural da ascética cristã, que nem sequer os fenómenos místicos são anormais; têm a naturalidade própria desses fenómenos, tal como outros processos psíquicos ou fisiológicos têm a sua. (Sulco, 559)

Eu falo da vida interior de cristãos normais e correntes, que habitualmente se encontram em plena rua, ao ar livre; e que na rua, no trabalho, na família e nos momentos de diversão estão unidos a Jesus todo o dia. E o que é isto senão vida de oração contínua? Não é verdade que compreendeste a necessidade de ser alma de oração, numa intimidade com Deus que te leva a endeusar-te? (...)
A princípio custará. É preciso esforçarmo-nos por nos dirigir ao Senhor, por lhe agradecermos a sua piedade paternal e concreta para connosco. A pouco e pouco o amor de Deus torna-se palpável - embora isto não seja coisa de sentimentos - como uma estocada na alma. É Cristo que nos persegue amorosamente: Eis que estou à porta e chamo. Como anda a tua vida de oração? Não sentes às vezes, durante o dia, desejos de falar mais devagar com Ele? Não Lhe dizes: logo vou contar-te isto e aquilo; logo vou conversar sobre isso contigo?
Nos momentos dedicados expressamente a esse colóquio com o Senhor o coração expande-se, a vontade fortalece-se, a inteligência - ajudada pela graça - enche a realidade humana com a realidade sobrenatural. E, como fruto, sairão sempre propósitos claros, práticos, de melhorares a tua conduta, de tratares delicadamente, com caridade, todos os homens, de te empenhares a fundo - com o empenho dos bons desportistas - nesta luta cristã de amor e de paz.
A oração torna-se contínua como o bater do coração, como as pulsações. Sem essa presença de Deus não há vida contemplativa. E sem vida contemplativa de pouco vale trabalhar por Cristo, porque em vão se esforçam os que constroem se Deus não sustenta a casa. (Cristo que passa, 8)

Temas para reflectir e meditar

IGREJA

Não há mais que uma Igreja de Jesus Cristo, a qual é como uma grande árvore na qual estamos enxertados. 
Trata-se de uma unidade profunda, vital, que é um dom de Deus. Não é somente nem sobretudo unidade exterior; é um mistério e um dom (...).
A unidade manifesta-se, pois, em torno daquele que, em cada diocese, foi constituído pastor, o Bispo. 
E no conjunto da Igreja manifesta-se em torno do Papa, sucessor de Pedro. 

(São João Paulo II, Homília na Paróquia de Orcasitas, Madrid, 1982.11.03, trad ama)

PANDEMIA l


PANDEMIA - 17

INVEJA

O amor não inveja.  (1 Coríntios 13:4-7)

Quem ama verdadeiramente não tem inveja do amado, antes se alegra profundamente com as virtudes e predicados que possa ter.

Assim, em vez de invejar – que é sempre condenável – admira e procura imitar o que ama, para ser igual – ou melhor – que o amado sem que isso constitua motivo de glorificação pessoal.

O AMOR É:
ENTREGA – DOAÇÃO – RESPEITO – PRUDÊNCIA – UNIVERSAL -TOTAL – SACRIFÍCIO – REFLEXO -  OBEDIÊNCIA – CONFIANÇA – PACIENTE – GENUÍNO – HUMANO – CONSAGRAÇÃO - ALEGRIA – PACIENTE – ESPERANÇA – BONDADE – NÃO INVEJA

Com estes predicados o AMOR não será a solução?

(AMA, 2020)

Não deixes de rezar, eu escuto-te


Os santos, anormais?... Chegou a hora de acabar com esse preconceito! Havemos de ensinar, com a naturalidade sobrenatural da ascética cristã, que nem sequer os fenómenos místicos são anormais; têm a naturalidade própria desses fenómenos, tal como outros processos psíquicos ou fisiológicos têm a sua. (Sulco, 559)

Eu falo da vida interior de cristãos normais e correntes, que habitualmente se encontram em plena rua, ao ar livre; e que na rua, no trabalho, na família e nos momentos de diversão estão unidos a Jesus todo o dia. E o que é isto senão vida de oração contínua? Não é verdade que compreendeste a necessidade de ser alma de oração, numa intimidade com Deus que te leva a endeusar-te? (...)
A princípio custará. É preciso esforçarmo-nos por nos dirigir ao Senhor, por lhe agradecermos a sua piedade paternal e concreta para connosco. A pouco e pouco o amor de Deus torna-se palpável - embora isto não seja coisa de sentimentos - como uma estocada na alma. É Cristo que nos persegue amorosamente: Eis que estou à porta e chamo. Como anda a tua vida de oração? Não sentes às vezes, durante o dia, desejos de falar mais devagar com Ele? Não Lhe dizes: logo vou contar-te isto e aquilo; logo vou conversar sobre isso contigo?
Nos momentos dedicados expressamente a esse colóquio com o Senhor o coração expande-se, a vontade fortalece-se, a inteligência - ajudada pela graça - enche a realidade humana com a realidade sobrenatural. E, como fruto, sairão sempre propósitos claros, práticos, de melhorares a tua conduta, de tratares delicadamente, com caridade, todos os homens, de te empenhares a fundo - com o empenho dos bons desportistas - nesta luta cristã de amor e de paz.
A oração torna-se contínua como o bater do coração, como as pulsações. Sem essa presença de Deus não há vida contemplativa. E sem vida contemplativa de pouco vale trabalhar por Cristo, porque em vão se esforçam os que constroem se Deus não sustenta a casa. (Cristo que passa, 8)

Pequena agenda do cristão

DOMINGO

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XIX


1 Quando acabou de dizer estas palavras, Jesus partiu da Galileia e veio para a região da Judeia, na outra margem do Jordão. 2 Era seguido por grandes multidões e curou ali os seus doentes. 3 Alguns fariseus, para o experimentarem, aproximaram-se dele e disseram-lhe: «É permitido a um homem divorciar-se da sua mulher por qualquer motivo?» 4 Ele respondeu: «Não lestes que o Criador, desde o princípio, fê-los homem e mulher, 5 e disse: Por isso, o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois um só? 6 Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» 7 Eles, porém, objectaram: «Então, porque é que Moisés preceituou dar-lhe carta de divórcio, ao repudiá-la?» 8 Respondeu Jesus: «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim. 9 Ora Eu digo-vos: Se alguém se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - e casar com outra, comete adultério.» 10 Os discípulos disseram-lhe: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» 11 Respondeu-lhes Jesus: «Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado. 12 Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos pela interferência dos homens e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, compreenda.» 13 Apresentaram-lhe, então, umas crianças, para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas, mas os discípulos repreenderam-nos. 14 Jesus disse-lhes: «Deixai as crianças e não as impeçais de vir ter comigo, pois delas é o Reino do Céu.» 15 E, depois de lhes ter imposto as mãos, prosseguiu o seu caminho. 16 Aproximou-se dele um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?» 17 Jesus respondeu-lhe: «Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas, se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos.» 18 «Quais?» - perguntou ele. Retorquiu Jesus: Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19 honra teu pai e tua mãe; e ainda: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 20 Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?» 21 Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» 22 Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possuía muitos bens. 23 Jesus disse, então, aos discípulos: «Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no Reino do Céu. 24 Repito-vos: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu.» 25 Ao ouvir isto, os discípulos ficaram estupefactos e disseram: «Então, quem pode salvar-se?» 26 Fixando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível.» 27 Tomando a palavra, Pedro disse-lhe: «Nós deixámos tudo e seguimos-te. Qual será a nossa recompensa?» 28 Jesus respondeu-lhes: «Em verdade vos digo: No dia da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do Homem se sentar no seu trono de glória, vós, que me seguistes, haveis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. 29 E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna. 30 Muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros.»

Comentários:

3-12 -
É preciso ter bem presente que o matrimónio consiste fundamentalmente num compromisso - de amor e nunca de conveniência -livremente assumido por duas pessoas com capacidade de decisão, ou seja, inteiramente responsáveis pelos seus actos. Assim se compreende porque o matrimónio deve ser indissolúvel.
Como «o decurso do tempo que consome os corpos e ameaça azedar os caracteres, a monotonia dos dias, aparentemente sempre iguais» [i] são uma realidade tão difícil, por vezes, de enfrentar! E, no entanto, enquanto amamos o nosso marido, a nossa mulher com um amor inteiro, incondicional somos capazes dos maiores disparates, discussões estéreis, conflitos de escassa importância, amuos que nos doem e fazem mal. Depois vem o orgulho pessoal que nos insinua: não... desta vez não cedo... não sou eu quem tem de pedir desculpas! Não deixemos passar o tempo, um dia sequer, sem resolver a situação. Quanto mais tempo levar-mos até o fazermos mais nos custará.
Mais que uma declaração formal sobre a indissolubilidade do matrimónio Jesus dá uma lição cabal e iniludível. Casar-se ou não se casar é uma decisão que não pode ser tomada “de ânimo leve” mas que deve considerar as obrigações emergentes do acto, a principal das quais é, sem dúvida, a fidelidade. A fidelidade conjugal é obrigação mútua, do homem como da mulher, e não há casamento que subsista sem a sua observância. A fidelidade conjugal tem a ver em primeiro lugar com o respeito pelo outro e, evidentemente que o amor sem este respeito, profundo, total não vinga nem cresce, antes diminui e acaba por desaparecer. O cônjuge que falta ao respeito ao outro, falta simultaneamente ao respeito a si próprio e falta – gravissimamente – a Deus que abençoou o matrimónio.
Quase que apetece não ler mais estes trechos do Evangelho escrito por São Mateus, porque temos de fazer um esforço para vencer a repulsa que sentimos por esta gente maldosa, cheia de preconceitos, sempre procurando uma oportunidade ou ensejo para atacar e apoucar Jesus. Mas, depois, reparamos no exemplo que nos dá, de simplicidade humilde, respondendo, esclarecendo naturalmente em benefício de todos os outros que precisam de conhecer a verdade tal qual é.

6-26 -
Jesus Cristo deixa muito claro que a salvação eterna do homem depende única e exclusivamente de Deus que a deseja veementemente. Mas, Ele nunca irá contra a livre vontade do homem e, portanto, é forçoso que este deseje e queira realmente ser alvo. Só há um caminho a seguir: O que Jesus nos indicou e mereceu com a Sua Morte e Ressurreição: Fazer, em tudo, a Vontade de Deus que pode resumir-se numa palavra: AMOR a Deus e ao próximo. Sim, o AMOR salva!

13-15 –
Quem - alguma vez na vida - não desejou ser como criança? Alguma vez, é possível - para obviar a responsabilidade ou tomar decisões importantes, mas outras, que são as que interessam, para melhor seguir Cristo e fazer a Vontade de Deus. No fim e ao cabo, entregar-se com toda a confiança.
Como criança pequena acolho-me, refugio-me nos Teus braços fortes de Irmão mais velho. Tu indicar-me-ás o que fazer, em cada momento, levar-me-ás sempre contigo para onde fores, não deixarás que me perca ou detenha em coisas que não sejam essenciais. ConT’igo tenho a firme certeza que pisarei caminhos de salvação. Infelizmente rebelo-me muitas vezes contra Ti! Senhor, eu não sei o que faço, não me despeças da Tua companhia.
Jesus Cristo afirma que o Reino do Céu é das crianças. Então, para termos a certeza que participaremos desse Reino, não temos outro caminho que tentar ser como as crianças, na inocência, pureza de coração, sem vícios ou amarras a conceitos, dóceis e dúcteis a quem deseja ensinar-nos a verdade, sem ambições de ter ou possuir e, - sempre – com o coração disposto para amar a todos. E, atenção, ser como uma criança não é ser infantil, bem ao contrário, é confiar conscientemente, entregar-se sem reservas nem condições, ouvir quando nos chamam e procurar entender o que não compreendemos.

16-22 -
Jesus Cristo conhece perfeitamente todos os homens, o que são, o que fazem, os seus desejos mais íntimos, as fragilidades e defeitos. Assim, na resposta que dá ao jovem vai "direito" ao "nervo" da questão. De facto, poderia ter respondido simplesmente à pergunta 'o que me falta': 'Falta-te desrendimento’.  Ter muito ou ter pouco não interessa, o que vale é que isso não seja nem prisão nem condicionante da nossa vida, do nosso querer.
O desprendimento dos bens terrenos é, realmente, algo difícil de conseguir. Muito ou pouco, o que temos não pode passar de meios e não objectivos. Mas existe algum mal na riqueza pessoal? Não, evidentemente, o mal poderá estar no que fazemos com ela, tal como o bem que poderemos espalhar à nossa volta. Lembremo-nos do episódio da “Viúva Pobre” que deu quanto tinha - e era tão pouco - e como o Senhor louvou a atitude da mulher.Mas, nos dias de hoje em que parece haver uma agitação febril mais ou menos generalizada pela posse de bens – por vezes usando métodos profundamente errados ou, pelo menos, pouco sérios – existem muitas pessoas que, que vivem o desprendimento como uma “norma de conduta” pessoal. Estas pessoas – cada um de nós conhece alguém nestas circunstâncias – são extraordinariamente felizes e, na verdade, dizem sempre que “não lhes falta nada”. Não conseguiremos o desprendimento que devemos ambicionar sem imitarmos Cristo e, imitar Cristo, é – no fim e ao cabo – a desejo de qualquer cristão.

23-30-
Acreditar firmemente que a Deus nada é impossível deve dar-nos a segurança necessária para encarar os factos da vida com coragem e determinação. Nada é inevitável, coisa alguma é imprescindível. Tudo deve ser para bem. Com esta disposição a riqueza será um bem porque permitirá fazê-lo, tal como a escassez que nos levará oferecê-la. Nos dois casos, portanto, poderá haver mérito e é conveniente que o haja porque dele depende a nossa salvação.
O comentário dos discípulos infere uma verdade indiscutível: o homem, por natureza, procura os bens materiais. É absolutamente legítimo e deve ser assim mesmo para bem do próprio e dos outros com quem partilhar o que possui. Daqui que inferir que Jesus Cristo é contra a riqueza ou a posse de bens, é absolutamente errado. Uma coisa é querer, desejar e, até, tudo fazer para conseguir bens, outra é tornar esse desejo ou actuação no principal objectivo da vida como o mais importante e o que está em primeiro lugar.

27-29 -
Quem deixa tudo para seguir alguém sabe que o eventual sacrifício e obstáculos que se seguirão valem a pena. Fá-lo com os olhos e, principalmente, o coração posto num futuro radioso, num prémio extraordinário. Seguir Jesus é ter como certeza que o nosso futuro e prémio valem muito e excedem todas as expectativas.
Este trecho de São Mateus parece conter uma resposta de Jesus à Mãe de Tiago e João que lhe pedia um lugar "especial" para os seus filhos no Reino dos Céus. De facto, não apenas aqueles dois, mas todos os doze ocuparão esses tronos de glória e poder. A entrega a Deus, total e sem condições, terá um prémio cuja grandeza e excelência não conseguimos abarcar.
Jesus afirma a Pedro que «… receberá cem vezes mais»! O que quer dizer, nesta vida terrena, os que deixarem tudo para seguir Cristo, serão recompensados de forma magnânima. Assim é, de facto, pergunte-se a qualquer um – ou uma – o que lhes falta e obter-se-á, como resposta, que têm muito mais que o que precisam, que nada lhes falta. E, sobretudo, têm algo a que todo o ser humano aspira: são felizes!
A magnanimidade do Senhor fica aqui bem expressa: Nada menos que sentados em tronos revestidos da dignidade de juízes! Doze homens que revolucionaram o mundo pela sua fidelidade e amor a Jesus Cristo. Quanto lhes devemos!


(AMA, 2018)






[i] (São Josemaria, Cristo que Passa, 24)

18/04/2020

Un día los fieles nos pedirán cuentas



PANDEMIA


PANDEMIA - 16

BONDADE

“O amor é bondoso”. (1 Corintios 13:4-7)

Esta afirmação de São Paulo tem a “força” de uma afirmação categórica.

E, de facto, o AMOR, para o ser, tem em si mesmo a aceitação amorosa dos predicados do outro, em vez de, os invejar.

O AMOR É:
ENTREGA – DOAÇÃO – RESPEITO – PRUDÊNCIA – UNIVERSAL -TOTAL – SACRIFÍCIO – REFLEXO -  OBEDIÊNCIA – CONFIANÇA – PACIENTE – GENUÍNO – HUMANO – CONSAGRAÇÃO - ALEGRIA – PACIENTE – ESPERANÇA – BONDADE


Com estes predicados o AMOR não será a solução?


(AMA, 2020)

Não cries necessidades


Não esqueças: tem mais aquele que precisa de menos. – Não cries necessidades. (Caminho, 630)

Há muitos anos – mais de vinte e cinco – eu costumava passar por um refeitório de caridade, para mendigos que não comiam em cada dia outro alimento senão o que ali lhes davam. Tratava-se de um local grande, entregue aos cuidados de um grupo de senhoras bondosas. Depois da primeira distribuição, acudiam outros mendigos, para recolher as sobras. Entre os deste segundo grupo houve um que me chamou a atenção: era proprietário de uma colher de lata! Tirava-a cuidadosamente do bolso, com avareza, olhava-a com satisfação e, quando acabava de saborear a sua ração, voltava a olhar para a colher com uns olhos que gritavam: é minha! Dava-lhe duas lambedelas para a limpar e guardava-a de novo, satisfeito, nas pregas dos seus andrajos. Efectiva mente era sua! Um pobre miserável que, entre aquela gente, companheira de desventura, se considerava rico.
Por essa altura, conhecia também uma senhora com título nobiliárquico, Grande de Espanha. Isto não conta nada diante de Deus: somos todos iguais, todos filhos de Adão e Eva, criaturas débeis, com virtudes e com defeitos, capazes dos piores crimes, se o senhor nos abandona. Desde que Cristo nos redimiu, não há diferença de raça, nem de língua, nem de cor, nem de estirpe, nem de riquezas... Somos todos filhos de Deus. Essa pessoa de que vos falo agora residia numa casa solarenga, mas não gastava consigo mesma nem duas pesetas por dia. Por outro lado, pagava muito bem aos seus empregados e o resto destinava-o a ajudar os necessitados, passando ela própria privações de todo o género. A esta mulher não lhe faltavam muitos desses bens que tantos ambicionam, mas ela era pessoalmente pobre, muito mortificada, completamente desprendida de tudo. Compreendestes bem? Aliás, basta escutar as palavras do Senhor: bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Se desejas alcançar esse espírito, aconselho-te a que sejas sóbrio contigo e muito generoso com os outros. Evita os gastos supérfluos por luxo, por capricho, por vaidade, por comodidade...; não cries necessidades. Numa palavra, aprende com S. Paulo a viver na pobreza e a viver na abundância, a ter fartura e a passar fome, a ter de sobra e a padecer necessidade. Tudo posso naquele que me conforta. E, como o Apóstolo, também sairemos vencedores da luta espiritual, se mantivermos o coração desapegado, livre de ataduras. (Amigos de Deus, 123–124)

Temas para reflectir e meditar

ORAÇÃO


Deus aprecia mais uma alma que pela nossa indústria e oração lhe ganhemos mediante a Sua misericórdia, que todos os serviços que possamos fazer-lhe.




(Santa Teresa de Jesus, Fundaciones, 1, 7, trad ama)

Pequena agenda do cristão

SÁBADO

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Orações sugeridas:

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XVIII


1 Ao descer do monte, seguia-o uma enorme multidão. 2 Foi, então, abordado por um leproso que se prostrou diante dele, dizendo-lhe: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me.» 3 Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, ficou purificado da lepra. 4 Jesus, porém, disse-lhe: «Vê, não o digas a ninguém; mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta a oferta que Moisés preceituou, para que lhes sirva de testemunho.» 5 Entrando em Cafarnaúm, aproximou-se dele um centurião, suplicando nestes termos: 6 «Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico, sofrendo horrivelmente.» 7 Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo.» 8 Respondeu-lhe o centurião: «Senhor, eu não sou digno de que entres debaixo do meu tecto; mas diz uma só palavra e o meu servo será curado. 9  Porque eu, que não passo de um subordinado, tenho soldados às minhas ordens e digo a um: ‘Vai’, e ele vai; a outro: ‘Vem’, e ele vem; e ao meu servo: ‘Faz isto’, e ele faz.» 10 Jesus, ao ouvi-lo, admirou-se e disse aos que o seguiam: «Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé! 11 Digo-vos que, do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacob, no Reino do Céu, 12 ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.» 13 Disse, então, Jesus ao centurião: «Vai, que tudo se faça conforme a tua fé.» Naquela mesma hora, o servo ficou curado. 14 Entrando em casa de Pedro, Jesus viu que a sogra dele jazia no leito com febre. 15 Tocou-lhe na mão, e a febre deixou-a. E ela, levantando-se, pôs-se a servi-lo. 16 Ao entardecer, apresentaram-lhe muitos possessos; e Ele, com a sua palavra, expulsou os espíritos e curou todos os que estavam doentes, 17 para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores. 18 Vendo Jesus em torno de si uma grande multidão, decidiu passar à outra margem. 19 Saiu-lhe ao encontro um doutor da Lei, que lhe disse: «Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.» 20 Respondeu-lhe Jesus: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» 21 Um dos discípulos disse-lhe: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» 22 Jesus, porém, respondeu-lhe: «Segue-me e deixa os mortos sepultar os seus mortos.» 23 Depois subiu para o barco e os discípulos seguiram-no. 24 Levantou-se, então, no mar, uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam o barco; entretanto, Jesus dormia. 25 Aproximando-se dele, os discípulos despertaram-no, dizendo-lhe: «Senhor, salva-nos, que perecemos!» 26 Disse-lhes Ele: «Porque temeis, homens de pouca fé?» Então, levantando-se, falou imperiosamente aos ventos e ao mar, e sobreveio uma grande calma. 27 Os homens, admirados, diziam: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» 28 Chegado à outra margem, à região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois possessos, que habitavam nos sepulcros. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. 29 Vendo-o, disseram em alta voz: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» 30 Ora, andava a pouca distância dali, a pastar, uma grande vara de porcos. 31 E os demónios pediram-lhe: «Se nos expulsas, manda-nos para a vara de porcos.» 32 Disse-lhes Jesus: «Ide!» Então, eles, saindo, entraram nos porcos, que se despenharam por um precipício, no mar, e morreram nas águas. 33 Os guardas fugiram e, indo à cidade, contaram tudo o que se tinha passado com os possessos. 34 Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse daquela região.

Comentários:

5-11 -
Não podemos deixar de reagir a este trecho de São Mateus! Reagir, naturalmente, com admiração enorme e, ao mesmo tempo, surpresa. Admiração por constatar – como de resto o próprio Jesus o afirma – uma fé tão profunda que traduz uma confiança total e absoluta no poder de Jesus Cristo por parte de um homem que nem sequer é considerado como “um crente”. Surpresa porque este homem – de posição destacada – se preocupa e sofre com a saúde de um subalterno seu, contrariando todos os sentimentos – comuns, sobretudo naquela época em o que os “patrões”, ou “senhores”, tratavam os subalternos com profundo desprezo. Mais uma vez, vem ao de cima a absoluta necessidade de sermos – os cristãos – pessoas de são critério e isentos de preconceitos ou reservas em relação aos outros.
Este acontecimento – que supomos ser o mesmo – é relatado de forma diferente por outro evangelista, mas, o que interessa não é o pormenor, mas sim a extraordinária lição de fé daquele homem que procura Jesus. Não é um judeu nem sequer se poderia considerar um “crente”, no sentido que lhe davam os chefes do povo daquela época, e, por isso mesmo, constatamos que o Senhor não faz acepção de pessoas e que, ter fé, não é privilégio de alguns, mas um dom que Deus concede a quem muito bem entende. E a fé deste homem está alicerçada – profundamente – no seu coração misericordioso porque, o que pede, não é para si, porque não se considera digno, mas para um servo, um subalterno.

5-17 -
Ao ler este trecho do Evangelho de São Mateus, ficamos praticamente sem palavras porque a Liturgia, seguramente com um objectivo muito concreto, quer dar-nos uma imagem do verdadeiro Jesus Cristo Nosso Senhor e das suas relações com os homens. Um milagre portentoso: A cura do servo do centurião; outro de escasso relevo: A cura da sogra de Pedro;  e, depois as curas incontáveis - «todos os doentes o procuravam» - e a expulsão dos demónios. Ou seja, o poder de Jesus não tem nem medida nem obedece a outro critério que não seja a Sua infinita misericórdia.

18, 22 -
Jesus Cristo, sendo Deus todo poderoso, não tem nada de Seu, nem sequer «onde reclinar a cabeça»! Que chefe é este que espera seguidores fiéis e entusiasmados? Não haverá algo que poderíamos chamar "visionário"? Seguramente que sim! O Senhor é um visionário, um entusiasta que acredita nos homens e deseja, absolutamente, que os homens acreditem neLe e O sigam. Porquê? Porque, só se o fizerem, poderão salvar-se.
Quando, na vida corrente, nos propõem algo, cabe-nos ter uma de duas atitudes: aceitar ou recusar. Não obtemos nenhum resultado positivo por tentar emitir as nossas condições de acordo com as conveniências próprias. Quem o faz é quem faz a proposta, o convite, porque, naturalmente, é quem sabe o que pretende de nós, o que deseja que façamos. Assim com o chamamento que Cristo faz pessoalmente a cada um em particular. Ele sabe para que nos quer, para que nos chama.
Uma pessoa séria, de bom critério, quando é chamada só tem uma de duas respostas: Sim, aceito!  Ou: Não, recuso! Estamos a considerar o chamamento divino que, num momento qualquer da nossa vida, o Senhor não deixará de nos fazer. Em primeiro lugar, ser chamado é uma honra e um privilégio que, só por si, deveria ser mais que suficiente para o nosso acolhimento imediato; depois considerando Quem chama não nos deve preocupar para quê ou porquê porque só pode ser bom e conveniente para nós.

1-4 -
        Impressiona este diálogo tão simples entre o pobre leproso e Jesus Cristo. Não são necessárias nem muitas palavras nem grandes gestos. Uma afirmação de fé: «Se quiseres»!
Não há pior lepra que o pecado. Se nos fosse dado ver o mal, o horror que constitui a ferida aberta no Coração de Jesus por um pecado nosso, ficaríamos arrepiados e aturdidos. E, no entanto, como neste trecho do Evangelho, o Senhor estende a Sua mão e toca-nos. Mais, humilha-se num pouco de pão consagrado e oferece-se como alimento! Diria que, de facto, somos “curados” cada vez que recebemos a Comunhão Eucarística, não prostrados como o leproso do Evangelho, mas com toda a vénia, respeito e compunção que o nosso amor por Jesus nos obriga e sugere.
Com o Senhor tudo é simples e claro. A gente diz-Lhe o que deseja sem duvidar um segundo que Ele o pode fazer. E se o pedido é justo e a Fé verdadeira Ele nos dará o que pedimos. 
Sem dúvida que este leproso fez o seu pedido da forma mais correcta e - atrevo-me – eficaz, para obter o que desejava. Mostra a sua confiança no poder de Jesus e na Sua infinita misericórdia. Reparemos bem: Pede o que deseja com simplicidade sem se alongar em palavras ou justificações desnecessárias, porque sabe, acredita, confia, que o Senhor conhece o que ele precisa e tem o poder e o desejo de lho conceder.

5-17 -
Jesus cura todos os que a Ele recorrem com Fé e Confiança. Não precisa de grandes manifestações porque o Seu Coração Amantíssimo e Misericordioso vibra e comove-se com as necessidades e carências dos Seus irmãos os homens. Pois se Ele deu a Sua vida por nós como não fará o que lhe pedir-mos?
        Estamos habituados, por assim dizer, aos pormenorizados relatos que São Mateus faz da actividade diária de Jesus. Incansavelmente percorre lugar após lugar, povoação após povoação movido pelo desejo de encontrar quem precise da Sua assistência, conselho, auxílio. Na verdade, todos precisam de algo e sabem que, Jesus, pode satisfazer e atender as suas necessidades.

23-27 -
A resposta de Jesus aos discípulos aterrados com a procela tem toda a razão de ser. Talvez pudesse acrescentar: ‘Eu não estou aqui convosco? Como podeis temer?’ Mas, como se vê pelo texto, eles não tinham, ainda fé suficiente em Jesus. Por isso ficam admirados com o poder do Senhor. Nós, também, não temos nada a temer porque, se o Senhor está connosco, na nossa alma em graça, nada – absolutamente – nos poderá fazer mal. Portanto, confiar na Sua Infinita Misericórdia SEMPRE, mesmo quando parece que está ausente, desinteressado ou a dormir.
Perante situações extremas - guerras, cataclismos da natureza, perseguições e violências de toda a ordem, somos, por vezes, levados a exclamar: Senhor, onde estás? Dormes? Não Te importas? Este “grito” explica-se, é natural. Somos humanos e reconhecemos a nossa impotência. Mas, Ele, não, pode tudo, é o Senhor de tudo. Não Se enfadará com o nosso “grito”, bem ao contrário, actuará com a urgência que julgar conveniente.

28-14 -
Disseram em alta voz: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» Por aqui se vê que o demónio não só sabia quem era Jesus, como conhecia o que a Sua vinda à terra significava: que o domínio, quase discricionário, que exercia sobre a humanidade, iria terminar com a instauração do Reino de Deus.

28-34 -
O demónio não tem outro objectivo senão fazer o mal. Ao pedirem a Jesus que os enviasse para a vara dos porcos, precipitando-se no mar, como que quiseram demonstrar que os gadarenos não acreditavam em Jesus Cristo, dando maior importância aos bens materiais que à vida humana. E o Senhor não sabia o que iria acontecer? Evidentemente que sim, Ele sabe tudo, mas não podia permitir que acreditassem nele pela confissão do demónio que é o pai da mentira.
Muitos comentários se têm escrito sobre este trecho do Evangelho. Talvez sem querer, ficamos algo decepcionados com Jesus ter permitido que os demónios entrassem nos porcos com o resultado que se sabe. Talvez possamos tirar duas ou três ilacções: a primeira é a confirmação que o demónio existe o que, muitos, insistem em negar; a segunda, será que Cristo não poderia consentir que acreditassem nele pelo testemunho do demónio, que é o pai da mentira; A terceira, é a completa inversão de valores do gadarenos que dão mais importância a perda dos porcos que à recuperação da saúde do seu conterrâneo; E, uma quarta, - talvez a mais inesperada – é a sua reacção pedindo a Jesus que se afaste do seu território, sem procurar compreender, sem fazer uma pergunta, sem, sequer, considerar o extraordinário do acontecimento. Preferem, de facto, fechar os olhos e os  ouvidos e ignorar o que foi tão patente perante todos.
Já o dissemos: O Senhor não podia consentir que a Sua Pessoa: Jesus Cristo o Filho Unigénito de Deus, fosse revelada pelo demónio que é o Pai da mentira. O episódio com a vara de porcos revela claramente a maldade e desprezo do tentador. Fica bem claro que dele só se pode esperar o mal e o ódio.

(AMA, 2018)