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27/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Virtudes

Prudência

 

A virtude moral pode existir sem certas virtudes intelectuais, como a sabedoria, a ciência e a arte. Não porém sem o intelecto e a prudência. Sem a prudência, não pode haver realmente virtude moral, já que esta é um habitus “electivo” (electivus), isto é, que faz escolhas certas. Ora, para uma boa escolha, duas coisas exigem-se: primeiro, que haja a devida intenção do fim, o que se faz pela virtude moral, que inclina a potência apetitiva para o bem conveniente com a razão, que é o fim devido. Segundo, que se usem correctamente os meios, e isso só se alcança por uma razão que saiba aconselhar, julgar e decidir bem, o que é próprio da prudência e de virtudes a ela conexas. Logo, a virtude moral não pode existir sem a prudência.

Por conseqüência, também não poderá haver virtude moral sem o intelecto, pois é por ele que são conhecidos os princípios naturalmente evidentes, seja na ordem especulativa, seja na prática. Assim, da mesma forma que a razão recta, na ordem especulativa, enquanto procede de princípios naturalmente conhecidos, pressupõe o intelecto deles, assim também a prudência, que é a razão recta do agir (recta ratio agibilium).

 

São Tomás de Aquino, Suma Teológica P I-II, q. 58, a. 4.

20/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Ideais

Homem vazio e perplexo

  Se os grandes ideais deixam de motivar e polarizar a actividade do homem, tornado indiferente, cínico e “qualquer”, pela atomização social e pela socialização por homogeneização, não é de estranhar que ele se sinta interiormente vazio e radicalmente perplexo.

  A crise não é só de ideais religiosos, mas mesmo de ideais humanos profundos, reais e permanentes, substituídos - pela poderosa máquina da massificação ao serviço de todas as ideologias – por ideais  superficiais, fictícios e cambiantes (Isidoro Ribeiro, Totalitarismo e participação, BROTÈRIA, Vol I, 1, Janeiro 1973).

Os ídolos, as estrelas, as modas e as propagandas entretêm o sentimento de deriva à superfície de um mundo fascinante de perpétua novidade mas não colhem o homem em profundidade

 

(M. F. Manzanedo, Breve autocrítica del hombre de hoy, Studium, vol. XII, fasc, 2, 1972)

13/03/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Democracia

Condições e bases da democracia

  Condição fundamental para a autêntica democracia é certo grau de maturidade cultural e cívica. A experiência prova que nas sociedades subdesenvolvidas a democracia se torna uma utopia. A própria inclusão extemporânea dos processos demecráticosegenera facilmente em anarquia, que por sua vez abrirá caminho necessário a qualquer das formas de ditadura. A maturidade de que se fala revela-se por uma certa capacidade de discernimento, opinião justa e equilibrada, expressão dos próprios sentimentos, objectividade, harmonia e conveniência com o bem comum.

  A verdadeira democracia respeita os direitos da família, da educação, livre opinião, opção e responsabilidade nos próprios destinos. Reclama um alto sentido de serviço tanto para governantes como para governados.

  A liberdade religiosa é um direito que o homem tem, a partir da sua condição de criatura. Mesmo os agnósticos e ateus têm a obrigação, pelo menos, de respeitar a liberdade de consciência e as convicções de cada um.

   Por direito natural é à família que compete educar.A educação é o prolongamento e o exercício continuado daquele amor inicial que deu origem ao acto da vida.A própria natureza dotou os pais daquela força de inclinação e instinto que os capacita para tão alta tarefa. Por isso,é à família que compete o direito de escolher as escolas dos seus filhos

(A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)

27/02/2021

Marxismo

 

         Filosofia e Religião, Vida Humana

O marxismo

  O segundo conceito erróneo de democracia é o que nos vem do sistema marxista. Concedendo igualmente, como o faz o capitalismo, o primado ao factor económico, apregoa a socialização dos bens como único processo de libertação de todas as “alienações”. A sociedade, segundo os seus princípios, está dividida em duas classes: os exploradores e os explorados. A daqueles constituem-na s detentores dos bens de produção; a destes, as classes trabalhadoras.

 O falso pressuposto baseia-se na teoria da “mais valia” de Marx. Segundo Carlos Marx, o trabalhador produz mais do que gasta. Pagando o empresário apenas o que o trabalhador gasta, apropria-se indevidamente da mais valia do trabalho “não pago”. Segundo ele, assim se formaa o “capital”. Logicamente a partir deste princípio, o marxismo nega a legitimidade da propriedade privada, pois ela não viria a ser mais do que um roubo praticado contra os trabalhadores.

  Para realizar os seus intentos, propõe-se o marxismo a conquista revolucionária do poder e a instauração da ditadura do proletariado. Dentro da sua lógica, o sistema marxista levaria ao desaparecimento das restantes alienações, entre as quais se contam a do estado e da religião.

  Neste conceito de democracia, afirma-se realmente que o poder vem do povo, mas entende-se por povo apenas as massas trabalhadoras. Delas emergem os militantes e os quadros do partido. Conscientes do sentido fatal da história, estão dispostos a realizá-lo integralmente empenhando-se para isso na activação da luta de classes. O marxismo torna-se assim uma verdadeira ditadura de pertido único que é fonte e aparelho de todo o poder. A estruturação faz-se principalmente, a partir da células de base. Por um processo selectivo ascendente, vão-ze promovendo os mais representativos e que são tidos como os que melhor encarnam a ideologia.. Segundo tal princípio, os que se encontram em níveis superiores são os que melhor servem a pressuposta causa do povo. A eles se deve, pois, uma obediência incondicional.

  Mais opressor que o primeiro, tal sistema merece um juízo mais rigoroso. Como escreve Paulo VI, o materialismo ateu, a maneira como absorve a liberdade individual na sociedade, despersonalizando o homem, negando toda e qualquer transcedência a si mesmo e às leis da história fazem com que o sistemaseja uma tomada de posição que se opões radicalmente, ou pelo menos contradiz os ponstos fundamentais da fé dos cristãos e da concepção filosófica do homem. (cf. O. A. 26)

  Quanto aos socialismos, porém, que hoje nos podem bater à porta, nem todos estão dominados por estas ideologias inaceitáveis. Um discernimento se torna necessário em cada caso concreto. Só então será possível ver o grau de adesão e compromisso permitido aos cristãos. Sê-lo-á, na medida em que se encontrarem salvaguardados os valores da liberdade, responsabilidades pessoasi e abertura espiritual, que permitam o desabrochar integral do homem (cf. O. A. 31).

 

(A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)

20/02/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

O liberalismo


Inspirado nas ideias igualitárias da revolução francesa, tem as suas raízes em movimentos filosóficos e religiosos anteriores. Defende, por princípio, a liberdade absoluta individual. Cada qual é o único senhor responsável dos seus direitos e iniciativas. A função do estado será a penas garantir a ordem pública necessária para a defesa dessas liberdades. Tal concepção levar-nos-ia necessariamente à lei fatal  da “luta pela vida”, em que necessariamente terá de morrer o mais fraco. Aplicado ao mundo da economia, tal príncipio reduziria o trabalho a simples mercadoria, sujeito à lei da oferta e da procura. Favoreceria o capitalismo desenfreado em que, segundo o princípio de que a matéria atrai a matéria na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distâncias, os ricos seriam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, afastados de toda a capacidade de participação. Entrando em contradição consigo mesmo, o liberalismo acaba pois por fazer das liberdades individuais um mito e acentuar cada vez mais os desiquilíbrios sociais.

A ideologia liberal que tem servido um capitalismo infrene, lesivo dos direitos das classes trabalhadoras e da dignidadede um público manipulado pelas propagandas de consumo, constitui ainda hoje uma verdadeira ameaça. Como acentua o documento papal Octogesima Adveniens [1], fazendo reviver o capitalismo com novas expressões, através de empresas multinacionais, dada a concentração e flexibilidade dos seus meios, pode levar por diante estratégias autónomas em boa parte independentes dos poderes públicos nacionais, pô-las fora de controlo sob o ponto de vista do bem comum, criando assim uma nova forma abusiva de dominação económica nos campos social, cultural e político.

 

A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, in BROTÈRIA, vol 99, 1974



[1] São Paulo VI, Carta Apostólica, 14Maio1971.

13/02/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

É necessária outra doutrina, além das disciplinas filosóficas?

QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE: Parece desnecessária outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

1. – Pois não se deve esforçar o homem por alcançar objetos que ultrapassem a razão, segundo a Escritura (Ecle. 3, 22): Não procures saber coisas mais dificultosas do que as que cabem na tua capacidade. Ora, o que é da alçada racional ensina-se, com suficiência, nas disciplinas filosóficas; logo, parece escusada outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

2. – Ademais, não há doutrina senão do ente, pois nada se sabe, senão o verdadeiro, que no ente se converte. Ora, de todas as partes do ser trata a filosofia, inclusive de Deus; por onde, um ramo filosófico se chama teologia ou ciência divina, como está no Filósofo. Logo, não é preciso que haja outra doutrina além das filosóficas.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a segunda Carta a Timóteo (II Tm. 3, 16): Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça. Porém, a Escritura, divinamente revelada, não pertence às disciplinas filosóficas, adquiridas pela razão humana; por onde, é útil haver outra ciência, divinamente revelada, além das filosóficas.

RESPONDO.

Para a salvação do homem, é necessária uma doutrina conforme à revelação divina, além das filosóficas, pesquisadas pela razão humana. Porque, primeiramente, o homem é por Deus ordenado a um fim que lhe excede a compreensão racional, segundo a Escritura (Is 64, 4): O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te esperam. Ora, o fim deve ser previamente conhecido pelos homens, que para ele têm de ordenar as intenções e atos. De sorte que, para a salvação do homem, foi preciso, por divina revelação, tornarem-se-lhe conhecidas certas verdades superiores à razão.

Mas também naquilo que de Deus pode ser investigado pela razão humana, foi necessário ser o homem instruído pela revelação divina. Porque a verdade sobre Deus, exarada pela razão, chegaria aos homens por meio de poucos, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros; se bem do conhecer essa verdade depende toda a salvação humana, que em Deus consiste. Logo, para que mais conveniente e segura adviesse aos homens a salvação, cumpria fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas divinas. Donde foi necessária uma doutrina sagrada e revelada, além das filosóficas, racionalmente adquiridas.

QUANTO AO 1º, portanto, deve dizer-seque embora se não possa inquirir pela razão o que sobrepuja a ciência humana, pode-se entretanto recebê-lo por fé divinamente revelada. Por isso, no lugar citado (Ecle. 3, 25), se acrescenta: Muitas coisas te têm sido patenteadas que excedem o entendimento dos homens. E nisto consiste a sagrada doutrina.

QUANTO AO 2º, deve dizer-seque o meio de conhecer diverso induz a diversidade das ciências. Assim, o astrônomo e o físico demonstram a mesma conclusão, p. ex., que a terra é redonda; se bem o astrônomo, por meio matemático, abstrato da matéria; e o físico, considerando a mesma. Portanto, nada impede que os mesmos assuntos, tratados nas disciplinas filosóficas, enquanto cognoscíveis pela razão natural, também sejam objeto de outra ciência, enquanto conhecidos pela revelação divina. Donde a teologia, atinente à sagrada doutrina, difere genericamente daquela teologia que faz parte da filosofia.

 

São Tomás de Aquino, Summa Theológica

25/01/2021

Filosofia e Religião, Vida Humana

 

A Doutrina Sagrada é uma ciência?



Existem dois tipos de ciência:

Algumas procedem de princípios que são conhecidos à luz natural do intelecto (aritmética, geometria); Outras procedem de princípios conhecidos à luz de uma ciência superior (por ex.: perspectiva: princípios tomados à geometria; música: princípios tomados à aritmética).

28/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Emoções

 

Sem emoções não podemos fazer brotar no nosso íntimo a capacidade de fecundar a realidade criando novas formas de existência e de vida. A forçada repressão e da expansão,da assimilação e da eliminação, a autocrítica e o autopreço devem desenvolver-se em nós de um modo harmónico. O nosso equilíbrio emocional é um estado dinâmico que é preciso vigiar diariamente e sujeitar com a devida ferequência a um controlo geral.

Esses momentos mais fortes da afectividade quais são os estados emotivos, devem ser descarregados a seu tempo. Esta descarga dá-seem actividades satisfatórias ou em outras almas acolhedoras, sintónicas. Se isto não sucede, a energia emotiva recolhe dentro, recalca-se e quando as emoções são frequentes, como sucede com temperamentos juvenis, ou fortemente afectivos,  donde provêm os mais variados sintomas de anormalidade: fúrias, agressividade, solidão, cansaço da vida, revolta. As relações sociais e profissionais são muito prejudicadas. As pessoas tornam-se duras, intratáveis, e por vezes reagem mal quando vêm diante de si afeições normais e positivas. Os estados emotivos mais vulgares são provocados: pela injustiça (má interpretação das nossas nossas intenções, reprovação ou classificação injusta); compaixão (solidariedade afectiva, ressonância em cadeia dum grupo social); desilusão, fracasso (o não ter conseguido certo objectivo a que se tinha dado alma e sangue); inferioridade (julgar-se uma carga para os outros, objecto de vilipêndio, de ironia); etc.

 

(E. de Vasconcelos, Pessoa e Circunstância, Brotéria, Julho 1969, pg. 31)

21/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Religião

 

A religião não é uma simples forma de expressão cultural entre outras e o “sagrado” não é tanto um quarto valor que se acrescenta ao Bem, ao Verdadeiro e ao Belo quanto a matriz donde nascem estes valores, a sua foram e origem comuns.

A religião não é um ramo, mas o tronco da árvore.

 

(J. Wach, Sociologie da la Religion, Payot, Paris,, 1955, pg 19)

14/11/2020

FILOSOFIA, RELIGIÃO, VIDA HUMANA.

 


Emoções

 

Sensibilidade afectiva

 

Muitos perigos reais vêm da má formação ou mutilação da sensibilidade. Se não é alimentada, a fome de afecto vai-se acumulando e recalcando, e a sensibilidade torna-se vulnerável. E assim, pretendendo resguardá-la e defendê-la, estamos a prepará-la para graves desordens.

A afectividade só amadurece convenientemente quando desde a infância  cresce normalmente num ambiente que lhe fornece os objectos de que vai precisando e a rodeia um clima caloroso e pacificante. A pessoa que sobe para a vida, vai ganhando amor à vida ao sentir-se amada, isto é, ao sentir que a sua existência é desejada por  alguém: desejada, útil, necessária, imprescindível mesmo. O amor e o apreço por nós, a consciência do nosso valor – sentimentos-base de toda a personalidade – procedem em primeiro lugar daq uelesque nos rodeiam nos primeiros anos de vida e até certo ponto em todo o decurso da vida.

A afectividade não amadurecida fica atrasada com características infantis ou adolescente, ou, então, bloqueia-se na dureza reduzindo ao mínimo as suas funções. Sente-se então desamparada perante objectos tentadores e a sua inexperiência leva-a a fazer construções fantásticas sobre indícios banais.

 

(E. de Vasconcelos, Pessoa e Circunstância, Brotéria, Julho 1969, pg. 31)

31/10/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana.

 Filosofia, Religião, Vida Humana, CV II, Liturgia,





A esperança cristã 1

A esperança cristã nasce da presença dinâmica do Espírito no coração dos crentes que, pela fé, vivem em comunhão com Cristo ressuscitado, no exercício da intimidade filial com o Pai. São vários, mas em estreita relação, os aspectos do acto da presença cristã: a espera (expectativa) da salvação futura na definitiva revelação de Cristo glorificado; a confiança na promessa de Deus; a paciência e perseverança, ou, em linguagem grega upomoné, que não cede ao desalento nas tribulações, mas se apoia na fidelidade divina; por fim, a atitude de liberdade e audácia do espírito, a parresta do cristão perante todas as instância humanas.

(A . Morão, Perspectivas teológicas sobre a libertação, BROTÈRIA, Out 1973, pg 305)

14/08/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana.

Teologia do Sacrosanctum Concilium 5 

l. O sacerdócio de Jesus Cristo

Jesus Cristo praticou em sua vida e preconizou o culto em espírito e verdade, o culto que Deus tinha prescrito a seu povo ao selar a aliança no Monte Sinai. A carta aos hebreus, descrevendo o sacerdócio novo, único e definitivo de Jesus Cristo, diz: “Ao entrar no mundo, Ele (Jesus Cristo) afirmou: ‘Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não foram do teu agrado. Por isso eu digo: Eis-me aqui, – no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade". Assim, Ele declara, primeiramente: "Sacrifícios, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado, tu não quiseste, e não te agradaram’. Trata-se, notemo-lo bem, de oferendas prescritas pela Lei. Depois ele assegura: ‘Eis que eu vim para fazer a tua vontade’. Portanto, ele suprime o primeiro para estabelecer o segundo. E graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb: 10, 5-10). É o culto da vida de Jesus que ele completou pela sua morte na cruz e cuja aceitação o Pai manifestou ressuscitando seu Filho da morte. Como Jesus entrou pela sua morte no santuário verdadeiro, o céu, assim ele está agora e eternamente diante do Pai, entregando-se em eterno amor obediente, e associa a si aqueles que na terra estão em comunhão com ele, sobretudo aqueles que pelo baptismo se tornaram com ele e nele sacerdotes, os membros do seu corpo místico. Em sua vida e especialmente quando eles celebram a liturgia, Jesus está presente e agindo, como diz a constituição sobre a liturgia, ”no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, ‘pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz’ (Concílio de Trento), quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas". Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém baptiza é Cristo, mesmo que baptiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se lêem as sagradas escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: ‘Onde dois ou três estiverem reunido em meu nome, aí estarei no meio deles’ (Mt 18,20) (SC 7). Evidentemente, os membros do seu corpo que participam do seu sacerdócio, devem celebrar como ele, quer dizer, celebrar aquilo que vivem, sua obediência ao Pai e entrega pelos irmãos, exactamente como Jesus na última ceia celebrou ritualmente seu sacrifício vivido desde a sua encarnação até a morte na cruz.


(P. Gregório Lutz, CSSp)

Filosofia, Religião, Vida Humana, CV II, Sacerdócio,

07/08/2020

Filosofia, Religião, Vida Humana


Teologia do Sacrosanctum Concilium 4 
4 – A liturgia, momento da história da salvação

Depois de ter apresentado no Artigo 5 a história da salvação que culmina na morte e ressurreição de Jesus, assim como o nascimento da Igreja e com ela da liturgia, a “Sacrosanctum Concilium” passa a tratar, no artigo 6, da liturgia como celebração desta história, particularmente da obra salvífica de Jesus Cristo, na liturgia.

Lemos no início deste artigo: “Assim como Cristo foi enviado pelo Pai , assim também ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para pregarem o evangelho (…) mas ainda para levarem a efeito o que anunciavam: a obra da salvação através do sacrifício e dos sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica”. A afirmação principal deste texto é retomada no início do artigo 7 de constituição: “Para levar a efeito obra tão importante Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo na acções litúrgicas”. Assim se coloca para nós a questão: Se Jesus nos salvou, o que a liturgia acrescenta a esta obra? O que significa que ela deve ser levada a efeito?

Não se trata de completar ou continuar a obra de Cristo, como se ela não tivesse sido perfeita. Deus fez através de Jesus tudo para a nossa salvação. Mas ele nos quer salvar como seres livres. Livremente nos colocamos contra Deus pelo pecado, livremente devemos também aceitar a salvação que Deus operou para nós. Precisamente assim a salvação pode ter efeito, se nós nos voltamos para Deus, se ouvimos sua palavra e a pomos em prática e se acolhemos o presente de uma nova vida, de uma nova história, do Reino que Jesus veio anunciar. Esta acolhida e aceitação acontecem por uma vida em obediência a Deus, mas de modo especialmente consciente e intenso na liturgia. É como também a constituição sobre a liturgia diz: “Para levar a efeito obra tão importante (a obra da salvação) Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas acções litúrgicas” (SC 7). Portanto, dizendo “sim” a Deus, sua vontade e sua obra, e sobretudo celebrando na liturgia este nosso sim vivido, é que se leva a efeito a salvação. Assim a liturgia cristã, ela mesma um fato histórico, se torna momento privilegiado da história da salvação.
       
Seria bem compreensível que alguém pergunte: Como é que na liturgia pode acontecer salvação? Acabamos de ver que a liturgia não é uma acção meramente humana. Cristo está presente na celebração litúrgica como agente principal. Devemos igualmente lembrar que toda acção litúrgica acontece, como nos diz o Vaticano II, na força do Espírito Santo (SC 6). Mas é bom recorrer ainda ao conceito de memória, se queremos entender a eficácia salvífica da liturgia. Memória litúrgica não é um simples lembrar. Lembramos, sim, a páscoa histórica de Cristo e do seu povo, mas a lembramos na presença de Cristo e na força do Espírito Santo. Lembrando a pessoa e a obra de Cristo nos abrimos para ele. Como ele diz no livro do Apocalipse, ele está à porta e bate. Se abrimos a porta, ele entra para cear connosco (cf. Ap 3,20). Isso quer dizer que ele entra em comunhão íntima connosco, e esta comunhão de vida entre Deus e nós é salvação.

Ninguém pode duvidar que tal liturgia seja um culto agradável a Deus, suposto que celebramos ritualmente aquilo que vivemos. Não é apenas um fazer externo, mas a expressão de uma atitude interna e da nossa vida do dia-a-dia. O que assim vale de cada um de nós, vale das nossas famílias, das nossas comunidades eclesiais, vale da Igreja e de certo modo de toda a humanidade e da sua história. Todas as pessoas de boa vontade que vivem o amor e a solidariedade, que lutam pela justiça e a paz, estão fazendo a vontade de Deus. Embora muitos não tenham consciência de sua vida pascal em união com Jesus Cristo e não a celebrem na liturgia cristã ou talvez de maneira alguma, também neles é levada a efeito a obra salvífica de Cristo. Toda a história da humanidade é história da salvação, porque nela se leva a efeito a obra redentora de Cristo até o fim dos tempos. A liturgia é um momento privilegiado desta história.

Sendo assim, não poderíamos dispensar toda a liturgia e apenas viver um culto espiritual? Não, porque desde Caim e Abel a humanidade, de modo particular – para não falar em outras religiões – o povo da antiga aliança, celebrava sua vida e história. Assim fez também Jesus, e ele nos mandou fazer o mesmo em sua memória. Celebrar é uma dimensão essencial e indispensável de uma vida verdadeira e plenamente humana. Na festa, celebrando a vida, vivemos mesmo. Por isso, não há nada mais humano do que celebrar na liturgia a verdadeira vida de cada um de nós e de toda a humanidade que Jesus nos mereceu por sua morte e ressurreição.


(P. Gregório Lutz, CSSp)


04/12/2015

Temas para meditar - 588

Controlo da natalidade

A razão mais íntima e mais fundamental da doutrina da Igreja (no que respeita ao controlo da natalidade) assenta, não na areia movediça das opiniões dos homens, mas sim na revelação cristã e, designadamente, na revelação da paternidade divina, Deus é Criador e é Pai, porque é Amor. [i] 

E o homem que foi criado à imagem e semelhança de Deus, tem a missão, na terra, de defender e avivar, em si mesmo, esta imagem e esta semelhança do Amor incriado - Deus.

Ora, amor verdadeiro e fecundo é o amor que expande e multiplica a vida, quer natural (vida física e espiritual), quer sobrenatural (a graça santificante).

De outro modo, o amor seria estéril, o que, se a esterilidade é voluntária, equivale a dizer que seria contrário do amor. 

Situa-se nesse falso amor, voluntariamente estéril, a conjura contra o direito de nascer.

(A. Veloso, BROTÉRIA, Vol. LXXIV, Fasc. 6, 1962, pag. 655)




[i] Jo, 4, 8 e 16, Deus charitas est

27/05/2012

Vida Humana -Virtudes – Sabedoria


Sabedoria o que é?

A escolha de Salomão ficará para sempre como o émulo da sabedoria.
O Senhor deu-lhe a possibilidade de obter praticamente o que quisesse logo no início do seu reinado, riquezas, poder, invencibilidade, prestígio...

Surpreendentemente o pedido recai sobre a sabedoria.

Com ela obteve tudo aquilo que não pediu.

Este dom que o Espírito Santo dá - quando entende - aos que lho pedem, é o Dom mais completo a que se podaspirar.

Mas, de facto, quantos Lho pedem?

As pessoas boas e crentes pedem e imploram toda a sorte de graças, benefícios, auxílios e fazem bem, fazem o que o Senhor mandou:

«Pedi sem descanso e ser-vos-á dado, batei e abrir-se-vos-á.» (cf. Mt 7, 7-8)

Quantas destas pessoas se lembram de pedir o que realmente pode resolver os seus problemas: O Dom da Sabedoria!

E, o facto é que o Espírito Santo está sempre disponível para distribuir os Seus Dons.

Julgo que, pelo menos, deveríamos pedir a sabedoria necessária para saber o que pedir. 


(ama, dissertação sobre Sabedoria, 2010.05.30) 

01/06/2011

Irlanda: número de abortos cai pelo 9º ano

Observando
Os últimos números sobre o aborto na Irlanda mostram uma diminuição 
do número de mulheres irlandesas que viajam à Inglaterra para abortar.

Os números foram divulgados no Summary Abortion Statistics of the Statistical Bulletin of England and Wales: 2010.

Em 2010, 4.402 mulheres irlandesas viajaram à Bretanha para abortar, número que está abaixo de 4.422, que corresponde ao ano anterior. É o nono ano consecutivo em que os abortos irlandeses diminuem, depois de mais de uma década de tendência a subir. Esta cifra marca uma diminuição de 34% desde o máximo de abortos, cerca de 6.673, número alcançado em 2001.

Em resposta a estes números, a Dra. Ruth Cullen, de Pro-Life Campaign, disse que sua organização “acolhe com satisfação a contínua tendência à baixa no número de abortos” e rejeita a ideia de que a “redução dos abortos seja resultado de que as irlandesas viajam a outros países para abortar, e não à Inglaterra”.

“Isso é puramente hipotético e não há evidências estatísticas que apoiem estas afirmações – disse. De fato, números oficiais de países como a Holanda mostram uma clara diminuição de abortos de estrangeiras.”

Durante os últimos 9 anos, houve uma diminuição de 34% no número de abortos na Irlanda.

“É uma tendência extremamente alentadora e deveria ser acolhida com alegria pelos partidários de ambas as partes do debate do aborto”, disse Cullen. Durante anos, os partidários do aborto diziam que a tendência ao aumento dos abortos era inevitável. Estas afirmações se demonstraram falsas.

A percentagem de abortos na Irlanda é agora de 4,4 para cada 1000 mulheres do país, com idade entre os 15 e os 44 anos, enquanto na Inglaterra é de 17,5.

INFORMAÇÕES MUITO BREVES    [De vez em quando] 2011.06.01