
Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
29/08/2019
Evangelho e comentário
Martírio
de São João Baptista
Evangelho: Mc 6,17-29
Naquele tempo, o rei Herodes mandara
prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a mulher do seu
irmão Filipe, que ele tinha tomado por esposa. João dizia a Herodes: «Não podes
ter contigo a mulher do teu irmão». Herodíades odiava João Baptista e queria
dar-lhe a morte, mas não podia, porque Herodes respeitava João, sabendo que era
justo e santo, e por isso o protegia. Quando o ouvia, ficava perturbado, mas
escutava-o com prazer. Entretanto, chegou um dia oportuno, quando Herodes, no
seu aniversário natalício, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos
oficiais e às principais personalidades da Galileia. Entrou então a filha de
Herodíades, que dançou e agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à
jovem: «Pede-me o que desejares e eu to darei». E fez este juramento: «Dar-te-ei
o que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino». Ela saiu e perguntou à
mãe: «Que hei-de pedir?». A mãe respondeu-lhe: «Pede a cabeça de João
Baptista». Ela voltou apressadamente à presença do rei e fez-lhe este pedido: «Quero
que me dês sem demora, num prato, a cabeça de João Baptista». O rei ficou
consternado, mas por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar o
pedido. E mandou imediatamente um guarda, com ordem de trazer a cabeça de João.
O guarda foi à cadeia, cortou a cabeça de João e trouxe-a num prato. A jovem
recebeu-a e entregou-a à mãe. Quando os discípulos de João souberam a notícia, foram
buscar o seu cadáver e deram-lhe sepultura.
Comentário:
O
Evangelista fala-nos de um personagem que ficou para sempre na história da
humanidade como o paradigma do vício, da luxúria, dos piores defeitos que um
ser humano pode ter, onde, avulta, o total e absoluto desprezo pela vida
humana.
Mas,
o grave e horrendo problema, é que tem seguidores – também hoje em dia – que um
pouco por todo o mundo espalham a sua maquiavélica acção, conspurcando a
sociedade, violentando inocentes, sacrificando pessoas – populações inteiras –
ao paroxismo que os domina.
Muitos
fazem-no abertamente, às claras, são notícia nos jornais e televisões, outros,
actuam insidiosamente junto dos mais frágeis e desprotegidos tornando-os
escravos das suas ideias, teorias e práticas aberrantes em todos os sentidos.
(AMA, comentário sobre Mc 6,17-29, 12.06.2019)
Temas para reflectir e meditar
Só mediante a Eucaristia é possível viver as virtudes heróicas do
cristianismo, a caridade até ao perdão dos inimigos, até ao amor a quem nos faz
sofrer, até ao dom da própria vida pelo próximo; a castidade em qualquer idade
e situação da vida; a paciência, especialmente na dor e quando se está
desconcertado pelo silêncio de Deus nos dramas da história ou da própria
existência pessoal.
Por isso sede sempre almas eucarísticas para dor ser cristãos
autênticos.
(são joão paulo ii, Homília,
1979.08.19, trad do castelhano por ama)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
168
As circunstâncias daquele servo da
parábola, devedor de dez mil talentos, reflectem bem a nossa situação perante
Deus: também nós não temos com que pagar a dívida imensa que contraímos por
tantas bondades divinas e que aumentámos ao ritmo dos nossos próprios pecados.
Embora
lutemos denodadamente, não conseguiremos devolver com equidade o muito que o
Senhor nos perdoou.
Mas
a misericórdia divina supre com abundância a impotência da justiça humana.
Ele
é que pode dar-se por satisfeito e anular a dívida, simplesmente porque é bom e
é infinita a sua misericórdia.
A parábola - lembrais-vos bem - termina com
uma segunda parte, que é como que o contraponto da precedente.
Aquele
servo, a quem acabam de perdoar uma dívida enorme, não se compadece de um
companheiro que lhe devia apenas cem denários. Aí é que se põe de manifesto a
mesquinhez do seu coração.
Estritamente
falando, ninguém lhe negará o direito de exigir o que é seu; no entanto, algo
se revolta dentro de nós e nos diz que essa atitude intolerante se afasta da
verdadeira justiça: não é justo que quem, há apenas um momento, recebeu um
tratamento misericordioso de favor e compreensão, não reaja ao menos com um
pouco de paciência para com o devedor.
Reparai
que a justiça não se manifesta exclusivamente pelo rigoroso respeito de
direitos e deveres, como se se tratasse de problemas aritméticos que se
resolvem com somas e subtracções.
169
A virtude cristã é mais ambiciosa: leva-nos
a mostrar-nos agradecidos, afáveis, generosos; a comportar-nos como amigos
leais e honrados, tanto nos tempos bons como na adversidade; a ser cumpridores
das leis e respeitadores das autoridades legítimas; a rectificar com alegria
quando nos damos conta de que nos enganámos ao encarar uma questão.
Sobretudo,
se somos justos, cumpriremos os nossos compromissos profissionais, familiares,
sociais..., sem espaventos nem alardes, trabalhando com empenho e exercitando
os nossos direitos, que também são deveres.
Não acredito na justiça dos preguiçosos,
porque com o seu dolce far niente -
como dizem na minha querida Itália - faltam, e às vezes gravemente, ao mais
fundamental dos princípios da equidade: o do trabalho.
Não
devemos esquecer que Deus criou o homem ut
operaretur, para trabalhar; e os outros - a nossa família, a nossa nação, a
Humanidade inteira, - dependem também da eficácia do nosso trabalho.
Meus
filhos, que pobre ideia têm da justiça os que a reduzem a uma simples
distribuição de bens materiais!
170
A
justiça e o amor à liberdade e à verdade
Desde a minha infância - desde que tive
ouvidos para ouvir, na expressão da Escritura - tenho ouvido o clamor da
questão social. Não se trata de nada de particular; é um tema antigo, de
sempre.
Talvez
tenha surgido no mesmo instante em que os homens se organizaram de alguma
maneira e se tornaram mais visíveis as diferenças de idade, de inteligência, de
capacidade de trabalho, de interesses, de personalidade.
Não sei se haver classes sociais é coisas
irremediável; aliás, não é do meu ofício falar dessas matérias, e muito menos
aqui, neste oratório, onde nos reunimos para falar de Deus (não desejaria
tratar senão deste tema em toda a minha vida) e para conversar com Deus.
Pensai o que quiserdes em tudo aquilo que a
Providência confiou à livre e legítima discussão dos homens, mas a minha
condição de sacerdote de Cristo impõe-me a necessidade de subir mais alto e de
vos lembrar que, em qualquer caso, nunca podemos deixar de viver a justiça, com
heroísmo, se for necessário.
171
Estamos obrigados a defender a liberdade
pessoal de todos, sabendo que Jesus Cristo foi quem nos conquistou essa
liberdade.
Se
não o fizermos, com que direito reivindicaremos a nossa?
Também
devemos difundir a verdade, porque veritas
liberabit vos, a verdade liberta-nos, enquanto a ignorância escraviza.
Temos
de defender o direito de todos os homens à vida, à posse do necessário para uma
existência digna, ao trabalho e ao descanso, à escolha do seu estado, à
constituição de um lar, a trazer filhos ao mundo dentro do matrimónio e a poder
educá-los, a passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, ao acesso à
cultura, à associação com os outros cidadãos para fins lícitos e, em primeiro
lugar, a conhecer e amar Deus com plena liberdade, porque a consciência, sendo
recta, descobre a marca do criador em todas as coisas.
Precisamente por isso, é urgente repetir -
não me meto em política, estou só a expor a doutrina da Igreja - que o marxismo
é incompatível com a fé de Cristo.
Existe
alguma coisa mais oposta à fé do que um sistema que baseia tudo em eliminar da
alma a presença amorosa de Deus?
Gritai
isso com muita força, de modo que se oiça claramente a vossa voz: para praticar
a justiça não precisamos do marxismo para nada. Pelo contrário, esse erro
gravíssimo, pelas suas soluções exclusivamente materialistas que ignoram o Deus
da paz, levanta obstáculos à felicidade e ao entendimento entre os homens.
Dentro do cristianismo achamos a boa luz que
dá sempre resposta a todos os problemas; basta que vos empenheis sinceramente
em ser católicos, non verbo neque lingua,
sed opere et veritate, não com palavras e com a língua, mas com obras e com
verdade.
Afirmai
isto sempre que se vos apresente a ocasião - procurai-a se for preciso - sem
reticências, sem medo.
172
Justiça
e caridade
Lede a Sagrada Escritura.
Meditai
um a um, os episódios da vida do Senhor, os seus ensinamentos.
Considerai
especialmente os conselhos e as advertências com que preparava aquele punhado
de homens que haviam de ser os seus apóstolos, os seus mensageiros até aos
confins da terra.
Qual
é a principal norma que lhes dá?
Não
é o mandamento novo da caridade?
Foi
com amor que abriram caminho naquele mundo pagão e corrupto.
Convencei-vos de que apenas com a justiça
nunca resolvereis os grandes problemas da Humanidade.
Quando
se faz apenas justiça, não é de estranhar que as pessoas se sintam feridas: a
dignidade do homem, que é filho de Deus, pede muito mais do que isso.
A
caridade tem que ir dentro e ao lado, porque dulcifica tudo e tudo deifica:
Deus é amor.
Temos
de actuar sempre por amor de Deus, que torna mais fácil amar o próximo e
purifica e eleva os amores terrenos.
Para se passar da estrita justiça à
abundância da caridade há todo um trajecto a percorrer e não são muitos os que
perseveram até ao fim: alguns conformam-se com chegar apenas aos umbrais: prescindem
da justiça e limitam-se a um pouco de beneficência, a que chamam caridade, sem
cuidarem de que o que fazem representa uma pequena parte do que estão obrigados
a fazer.
E
mostram-se tão satisfeitos consigo mesmos como o fariseu que julgava ter
enchido a medida da lei só por jejuar dois dias por semana e pagar o dízimo de
tudo o que possuía.
173
A caridade, que é como que um transbordar
generoso da justiça, exige em primeiro lugar o cumprimento do dever: começa-se
pelo que é justo; continua-se pelo que é mais equitativo...
Mas
para amar requer-se muita finura, muita delicadeza, muito respeito, muita
afabilidade; numa palavra, seguir aquele conselho do Apóstolo: levai as cargas uns dos outros e assim
cumprireis a lei de Cristo.
Então,
sim, vivemos plenamente a caridade, realizamos o mandato de Jesus.
Para mim não existe exemplo mais claro
dessa união prática da justiça com a caridade do que o comportamento das mães.
Amam
com idêntico carinho todos os seus filhos e esse amor leva-as precisamente a
tratá-los de modo diferente - com uma justiça desigual - visto que cada um é
diferente dos outros.
Pois também em relação aos nossos
semelhantes a caridade aperfeiçoa e completa a justiça, porque nos leva a
proceder de maneira desigual com os desiguais, adaptando-nos às suas circunstâncias
concretas, a fim de comunicarmos alegria a quem está triste, ciência a quem
carece de formação, afecto a quem se sente só...
A
justiça determina que se dê a cada um o que lhe pertence; ora isto não
significa dar a todos a mesma coisa.
O
igualitarismo utópico é fonte das maiores injustiças.
Para procedermos sempre assim, como essas
boas mães, precisamos de esquecer-nos de nós mesmos e de não aspirar a outra superioridade
senão a de servir os outros, como Jesus Cristo, que afirmava: o Filho do homem
veio, não para ser servido, mas para servir.
Isto
exige a inteireza da submissão da nossa vontade ao modelo divino, trabalhar
para todos, lutar pela felicidade eterna e pelo bem-estar dos outros.
Não
conheço melhor caminho para ser justo do que uma vida de entrega e de serviço.
174
Talvez alguns pensem que sou um ingénuo.
Não
me importa. Embora me qualifiquem desse modo, porque continuo a acreditar na
caridade, garanto-vos que sempre acreditarei nela!
E
enquanto o Senhor me conceder vida, continuarei a ocupar-me - como sacerdote de
Cristo - de que haja unidade e paz entre os que são irmãos por serem filhos do
mesmo Pai, Deus; de que a humanidade se compreenda; de que todos compartilhem o
mesmo ideal: o da Fé!
Recorramos a Santa Maria, Virgem prudente e
fiel, e a S. José, seu esposo, modelo acabado de homem justo.
Eles,
que na presença de Jesus, Filho de Deus, viveram as virtudes que contemplámos,
conseguir-nos-ão a graça de que se arraiguem firmemente na nossa alma, para nos
decidirmos a proceder a toda a hora como bons discípulos do Mestre: prudentes,
justos, cheios de caridade.
(cont)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Participar na Santa Missa.
Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.
Lembrar-me:
Comunhões espirituais.
Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
A oração: "conversa amorosa com Jesus"
Sempre entendi a oração do cristão
como uma conversa amorosa com Jesus, que não se deve interromper nem sequer nos
momentos em que fisicamente estamos longe do Sacrário, porque toda a nossa vida
está feita de coplas de amor humano divinizado..., e podemos amar sempre. (Forja,
435)
Que não faltem no nosso dia alguns
momentos dedicados especialmente a travar intimidade com Deus, elevando até Ele
o nosso pensamento, sem que as palavras tenham necessidade de vir aos lábios,
porque cantam no coração. Dediquemos a esta norma de piedade um tempo
suficiente, a hora fixa, se possível. Ao lado do Sacrário, acompanhando Aquele
que ali ficou por Amor. Se não houver outro remédio, em qualquer lugar, porque
o nosso Deus está de modo inefável na nossa alma em graça. Aconselho-te,
contudo, a que vás ao oratório sempre que possas. (...)
Cada um de vós, se quiser, pode
encontrar o caminho que lhe for mais propício para este colóquio com Deus. Não
me agrada falar de métodos nem de fórmulas, porque nunca fui amigo de
espartilhar ninguém; tenho procurado animar todas as pessoas a aproximarem-se
do Senhor, respeitando cada alma tal como ela é, com as suas próprias
características. Pedi-lhe vós que meta os seus desígnios na nossa vida: e não
apenas na nossa cabeça, mas no íntimo do nosso coração e em toda a nossa
actividade externa. Garanto-vos que deste modo evitareis grande parte dos
desgostos e das penas do egoísmo e sentir-vos-eis com força para propagar o bem
à vossa volta. Quantas contrariedades desaparecem, quando interiormente nos
colocamos muito próximos deste nosso Deus, que nunca nos abandona! Renova-se
com diversos matizes esse amor de Jesus pelos seus, pelos doentes, pelos
entrevados, quando pergunta: que se passa contigo? Comigo... E, logo a seguir,
luz ou, pelo menos, aceitação e paz.
Ao convidar-te para fazeres essas
confidências com o Mestre, refiro-me especialmente às tuas dificuldades
pessoais, porque a maioria dos obstáculos para a nossa felicidade nascem de uma
soberba mais ou menos oculta. Pensamos que temos um valor excepcional,
qualidades extraordinárias. Mas, quando os outros não são da mesma opinião,
sentimo-nos humilhados. É uma boa ocasião para recorrer à oração e para
rectificar, com a certeza de que nunca é tarde para mudar a rota. Mas é muito
conveniente iniciar essa mudança de rumo quanto antes. (Amigos
de Deus, 249).
28/08/2019
Evangelho e comentário
Santo
Agostinho – Doutor da Igreja
Evangelho: Mt 23, 27-32
Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de
vós, escribas e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros
caiados: por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos
e de toda a podridão. Assim sois vós também: por fora pareceis justos aos olhos
dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e maldade. Ai de vós,
escribas e fariseus hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas e
ornamentais os túmulos dos justos; e dizeis: ‘Se tivéssemos vivido no tempo dos
nossos pais, não teríamos sido cúmplices na morte dos profetas’. Assim dais
testemunho contra vós mesmos, confessando que sois os filhos daqueles que
mataram os profetas. Completai então a obra dos vossos pais».
Comentário:
O Senhor não se coíbe na sua apreciação do
comportamento dos fariseus.
Não serão todos evidentemente porque, como em todas as classes ou grupos sociais, há pessoas correctas e com são critério.
Mas infelizmente e sobretudo naquele tempo, o serem uma classe dominante perverteu a sua "missão" de chefes do povo preocupando-se mais com as aparências que com o exemplo que deveriam dar.
Assim, desviando a verdadeiras questões e iludindo os problemas concretos, contribuíram fortemente para que o povo anónimo fosse considerado por Cristo como «ovelhas perdidas sem pastor».
(AMA, comentário sobre MT 23, 27-32, 26.08.2015)
Temas para reflectir e meditar
Os diagnósticos pré-natais, que não apresentam dificuldades morais
se se realizam para determinar eventuais cuidados necessários à criança ainda
não nascida, com muita frequência são ocasião para propor ou praticar o aborto.
É o aborto eugenésico, cuja legitimação na opinião pública procede
de uma mentalidade – equivocamente considerada de acordo com as exigências da
«terapêutica» - que acolhe a vida só em determinadas condições, rejeitando a
limitação, a invalidez, a doença.
(são joão paulo ii, Enc.
Evangelium Vitae, 1995.03.25, nr. 14)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
162
O
colírio da nossa própria fraqueza
Se vos examinardes com valentia na presença
de Deus, vós, tal como eu, sentir-vos-eis diariamente carregados de muitos
erros.
Quando
lutamos por arrancá-los com a ajuda divina, carecem de verdadeira importância e
podem ser superados, embora pareça que nunca conseguimos desarraigá-los
totalmente.
Além
disso, independentemente dessas fraquezas, tu contribuirás para remediar as grandes
deficiências dos outros, sempre que te empenhares em corresponder à graça de
Deus.
Reconhecendo-te
tão fraco como eles - capaz de todos os erros e de todos os horrores - serás
mais compreensivo, mais delicado e, ao mesmo tempo, mais exigente, para que
todos nos decidamos a amar a Deus com o coração inteiro.
Nós, os cristãos, os filhos de Deus, temos
de prestar assistência aos outros, pondo em prática honradamente o que aqueles
hipócritas retorcidamente elogiavam ao Mestre: Não olhas à condição das pessoas.
Isto
é, havemos de rejeitar por completo a acepção de pessoas - interessam-nos todas
as almas! - embora, logicamente, devamos começar por ocupar-nos daquelas que,
por esta ou aquela circunstância, e até só por motivos aparentemente humanos,
Deus colocou ao nosso lado.
163
Et
viam Dei in veritate doces, e ensinas com verdade o caminho de
Deus - continuam eles.
Ensinar,
ensinar, ensinar!
Mostrar
os caminhos de Deus segundo a pura verdade!
Não
deves assustar-te por verem os teus defeitos; os teus e os meus; eu tenho o
desejo de os tornar públicos, contando a minha luta, o meu empenho de
rectificar este ou aquele ponto da minha luta por ser leal ao Senhor.
O esforço por eliminar e vencer essas
misérias já será um modo de indicar os caminhos divinos: primeiro, e apesar dos
nossos erros manifestos, com o testemunho da nossa vida; depois, com a doutrina,
como nosso Senhor, que coepit facere et
docere, começou pelas obras e mais tarde se dedicou a pregar.
Depois de vos confirmar que este sacerdote
vos quer muito e que o Pai do Céu vos quer mais, porque é infinitamente bom,
porque é infinitamente Pai; depois de vos dizer que não posso lançar-vos nada à
cara, considero, no entanto, que tenho de ajudar-vos a amar Jesus Cristo e a
Igreja, seu rebanho, porque nisto penso que não me ganhais: emulais-me, mas não
me ganhais.
Quando
vos aponto algum erro através da pregação ou nas conversas pessoais com cada um
de vós, não é para vos fazer sofrer; move-me exclusivamente o empenho de
amarmos mais o Senhor.
E
ao insistir na necessidade de praticar as virtudes, não perco de vista que essa
necessidade também se impõe a mim.
164
Certa ocasião ouvi dizer a um superficial
que a experiência das nossas quedas serve para voltar a cair cem vezes no mesmo
erro.
Eu,
pelo contrário, digo-vos que uma pessoa prudente aproveita esses reveses para
ficar escarmentada, para aprender a fazer o bem, para renovar a decisão de ser
mais santa.
Da
experiência dos vossos fracassos e triunfos no serviço de Deus tirai sempre,
juntamente com o aumento do amor, um empenho mais firme de prosseguir no
cumprimento dos vossos direitos de cidadãos cristãos, custe o que custar; sem
cobardias, sem fugir às honras nem às responsabilidades, sem nos assustarmos
perante as reacções que se levantem ao nosso redor - provenientes talvez de
falsos irmãos - quando procuramos leal e nobremente a glória de Deus e o bem
dos outros.
Portanto, temos de ser prudentes.
Para
quê?
Para
sermos justos, para vivermos a caridade, para servirmos eficazmente Deus e
todas as almas.
Com
muita razão se chamou à prudência genitrix
virtutum, mãe de todas as virtudes, e também auriga virtutum, guia de todos os bons hábitos.
165
A
cada um o que lhe pertence
Lede com atenção o episódio evangélico para
aproveitar essas estupendas lições acerca das virtudes que devem iluminar o
nosso modo de proceder.
Acabado
o preâmbulo hipócrita e adulador, os fariseus e os herodianos apresentam o seu
problema: Que te parece? É lícito ou não
pagar tributo a César?
Notai
agora a sua astúcia - escreve S. João Crisóstomo - porque não lhe dizem:
"explica-nos o que é bom, o que é conveniente, o que é lícito", mas
"diz-nos o que te parece".
Estavam
obcecados por atraiçoá-lo e torná-lo odioso ao poder político.
Mas
Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: Porque me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Eles
apresentaram-lhe um denário. De quem é, perguntou, essa imagem e a inscrição?
De César, responderam. Disse-lhes então: Dai, pois, a César o que é de César e
a Deus o que é de Deus.
Já estais a ver que o dilema é antigo,
assim como é clara e inequívoca a resposta do Mestre.
Não
há, não existe nenhuma contradição entre servir a Deus e servir os outros;
entre o exercício dos nossos direitos e deveres cívicos, e os religiosos; entre
o empenho por construir e melhorar a cidade temporal e a convicção de que
passamos por este mundo como por um caminho que nos leva à pátria celeste.
Também aqui se manifesta a unidade de vida
que - não me cansarei de o repetir - é uma condição essencial para os que procuram
santificar-se no meio das circunstâncias ordinárias do trabalho, das relações
familiares e sociais.
Jesus
não admite essa divisão: Ninguém pode
servir a dois senhores, porque, ou há-de ter aversão a um e amar o outro, ou se
dedicará a um e desprezará o outro.
A escolha exclusiva de Deus feita por um
cristão quando responde plenamente ao seu chamamento, leva-o a dirigir tudo ao
Senhor e, ao mesmo tempo, a dar ao próximo tudo o que em justiça lhe
corresponde.
166
Não é lícito escudar-se em razões
aparentemente piedosas para espoliar os outros do que lhes pertence: Se alguém
diz: "Eu amo a Deus" mas odeia o seu irmão, é mentiroso.
Mas
também se engana a si mesmo quem regateia ao Senhor o amor e a reverência - a
adoração - que lhe são devidos como Criador e nosso Pai; a quem se nega a
obedecer aos seus mandamentos com a falsa desculpa de que algum deles é
incompatível com o serviço dos homens claramente adverte S. João que nisto
conhecemos que amamos os filhos de Deus: Se amamos a Deus e guardamos os seus
mandamentos.
Porque
o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos; e os seus mandamentos
não são pesados.
Talvez tenhais de escutar muitos que
peroram e inventam teorias com o fim de reduzirem - em nome da funcionalidade,
quando não da caridade! - as manifestações de respeito e de homenagem a Deus.
Tudo
o que seja para honrar o Senhor lhes parece excessivo.
Não
façais caso deles; vós continuai o vosso caminho.
Essas
elucubrações não passam de controvérsias que não conduzem a nada, a não ser
escandalizar as almas e impedir que se cumpra o preceito de Jesus Cristo de dar
a cada um o que lhe pertence, de praticar com delicada inteireza a santa
virtude da justiça.
167
Deveres
de justiça para com Deus e com os homens
Gravemo-lo bem na nossa alma, para que
depois se note na nossa conduta: primeiro, justiça para com Deus.
Essa
é a pedra de toque da verdadeira fome e sede de justiça, que a distingue da
gritaria dos invejosos, dos ressentidos, dos egoístas, dos cobiçosos...
Com
efeito, negar ao nosso Cria dor e Redentor o reconhecimento dos abundantes e
inefáveis bens que nos concede é uma atitude que encerra a mais tremenda e
ingrata das injustiças.
Vós,
se vos esforçardes deveras por ser justos, considerareis frequentemente a vossa
dependência de Deus - pois, que tens tu que não tenhas recebido? - para vos
encherdes de agradecimento e de desejos de corresponder a um Pai que nos ama
loucamente.
Então avivar-se-á em vós o bom espírito de
piedade filial, que vos fará tratar Deus com ternura de coração.
Quando
os hipócritas levantarem ao vosso redor a dúvida de saber se o Senhor tem
direito a pedir-vos tanto, não vos deixeis enganar.
Pelo
contrário: ponde-vos na presença de Deus, dóceis, como a argila nas mãos do
oleiro e confessai-lhe rendidamente: Deus
meus et omnia! Tu és o meu Deus e o meu tudo!
E
se alguma vez surgir um golpe inesperado, uma tribulação imerecida por parte
dos homens, sabereis cantar com nova alegria: faça-se, cumpra-se, seja louvada
e eternamente glorificada a justíssima e amabilíssima Vontade de Deus sobre
todas as coisas!
Ámen.
Ámen.
(cont)
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