22/06/2014

Lançamento de livro - Convite

Rev. Cónego António Ferreira dos Santos
Reitor da Igreja da Lapa
Igreja da Lapa (Porto)
Altar Mor




                                                                                                            

Servir, meus filhos, é o que é próprio de nós.

No meio do júbilo da festa, em Caná, só Maria nota a falta de vinho... Até aos mais pequenos pormenores de serviço chega a alma quando vive, como Ela, apaixonadamente atenta ao próximo, por Deus. (Sulco, 631)

Servir, servir, filhos meus, é o que é próprio de nós. Sermos criados de todos, para que nos nossos dias o povo fiel aumente em mérito e número.


Olhai para Maria. Nunca criatura alguma se entregou com mais humildade aos desígnios de Deus. A humildade da ancilla Domini, da escrava do Senhor, é a razão que nos leva a invocá-la como causa nostrae laetitiae, causa da nossa alegria. Eva, depois de pecar por querer, na sua loucura, igualar-se a Deus, escondia-se do Senhor e envergonhava-se: estava triste. Maria, ao confessar-se escrava do Senhor, é feita Mãe do Verbo divino e enche-se de alegria. Que este seu júbilo de boa Mãe se nos pegue a todos nós; que saiamos nisto a Ela – a Santa Maria – e assim nos pareceremos mais com Cristo. (Amigos de Deus, 108–109)

Pequena agenda do cristão

DOMIMNGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé.

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Temas para meditar 153

Luta


O reino dos Céus não pertence aos que dormem sobre si mesmos e vivem dando-se todos os gostos, mas aos que lutam contra si mesmos.



(S. clemente de alexandriaHom. Quis dives salvetur 21)

Tratado da lei 31

Questão 97: Da mudança das leis.

Art. 3 — Se o costume pode obter força de lei e abrogar a lei.

(IIª-IIªª, q. 79, a 2; ad 2; IV Sent., dist. XXXIII, q. 1, a. 1, ad 1; Quodl. II, q. 4, a. 3; IX, q. 4, a. 2).

O terceiro discute-se assim. — Parece que o costume não pode obter força de lei nem abrogar a lei.

1. — Pois, a lei humana deriva da lei da natureza e da lei divina, como do sobredito resulta (q. 93, a. 3; q. 95, a. 2). Ora, o costume dos homens não pode mudar a lei da natureza, nem a lei divina. Logo, também não pode mudar a humana.

2. Demais. — Muitos males não podem fazer um bem. Ora, quem primeiro começou a agir contra a lei fez mal. Logo, a multiplicação de actos semelhantes nada poderá fazer de bom. Ora, a lei, sendo regra dos actos humanos, é um bem. Portanto, o costume não pode abrogar a lei, de modo que obtenha força de lei.

3. Demais — Legislar é próprio de pessoas públicas, a quem pertence governar a comunidade; por isso pessoas particulares não podem fazer leis. Ora, o costume avigora-se por actos de particulares. Logo, o costume não pode obter uma força tal que abrogue a lei.

Mas, em contrário, Agostinho diz: o costume do povo de Deus e as instituições dos maiores devem ser considerados como lei. E assim como os prevaricadores contra as leis divinas, assim também os contentores dos costumes eclesiásticos devem ser reprimidos.

Toda lei procede da razão e da vontade do legislador: a divina e a natural, da vontade racional de Deus; a humana, da vontade do homem, regulada pela razão. Ora, a razão e a vontade manifestam-se, não só pela palavra, quanto aos actos que o homem vai praticar, mas também pelos próprios actos. Pois, cada um pratica o que considera bom. Ora, é claro, pela palavra humana a lei não só pode ser mudada, mas também exposta, manifestando o movimento interior e o conceito da razão humana. Donde, também actos, sobretudo multiplicados, e geradores do costume podem mudar e expor a lei, e mesmo produzir uma disposição com força de lei. Pois por actos exteriores e multiplicados revela-se eficacissimamente o movimento interior da vontade e o conceito da razão. Porque se considera proveniente do juízo deliberado da razão o que se faz mui repetidamente. E sendo assim, o costume tanto pode ter força de lei, como abrogá-la e interpretá-la.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A lei natural e a divina procedem da vontade divina, como já se disse. Por isso não pode ser mudada pelo costume procedente da vontade humana, mas só por autoridade divina. Donde, nenhum costume pode ter força de lei contra a lei divina ou a natural. Pois, diz Isidoro: Ceda o uso à autoridade; o mau uso estirpe a lei e a razão.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como já dissemos (q. 96, a. 6), as leis humanas são deficientes em certos casos. Por isso é possível às vezes, em caso de deficiência da lei, agir fora dos seus termos, sem ser mau o acto assim praticado. Ora, a multiplicação de tais casos, por alguma mudança existente nos homens, manifesta, pelo costume, que a lei já não é útil, assim como isso mesmo se manifestaria se uma lei contrária fosse verbalmente promulgada. Se, porém ainda permanecer a mesma razão, pelo qual a primeira lei era útil, não é o costume que suplanta a lei, mas a lei, o costume. Salvo talvez se a lei for considerada como inútil só por não ser exequível, de acordo com o costume pátrio, o que era uma das condições dela. Pois, é difícil remover o costume do povo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O povo, em que se realiza o costume, pode ter dupla condição. — Se for livre e capaz de legislar, vale mais o consenso de toda a multidão, para o fim de se observar alguma disposição manifestada pelo costume, do que a autoridade do chefe, que não tem o poder de legislar senão enquanto representa a personalidade do povo. Donde, embora pessoas singulares não possam legislar, contudo a totalidade do povo pode-o. — Outro caso é o do povo que não tem poder livre de legislar para si ou de remover a lei estabelecida por um poder superior. Em tal caso, contudo, o próprio costume, que prevalece na multidão, obtém força de lei, por ser tolerado por aqueles a quem pertence impor a lei ao povo. Pois, por isso mesmo são considerados como tendo aprovado o que o costume introduziu.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


21/06/2014

Tu podes ser santo



Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)





Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:
Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?


Temas para meditar 152

Esquecimento de si


O remédio simples e sempre acessível para assegurar uma alegria sobrenatural constante, consiste no esquecimento de si mesmo, por um motivo de caridade. Devemos impor-nos o direito de pensar em nós, quando à nossa volta há tantas necessidades, tantas coisas para fazer em benefício do próximo.


(P. antónio cardigosFiliação divina, Rei dos livros nr. 105)

Tratado da lei 30

Questão 97: Da mudança das leis.

Art. 2 — Se a lei humana há de sempre ser mudada quando aparecerem melhores instituições.

(II Polit., lect. XII).

O segundo discute-se assim. — Parece que a lei humana há de sempre ser mudada quando aparecerem melhores instituições.

1. — Pois, as leis humanas são fundadas na razão humana, assim como também as demais artes. Ora, nestas, muda-se o que estava estabelecido, se aparecer algo de melhor. Logo, o mesmo se deve fazer com as leis humanas.

2. Demais. — Pelo passado podemos prever o futuro. Ora, se as leis humanas não mudassem com a superveniência de melhores instituições, daí resultariam muitos inconvenientes, porque segundo parece, as leis antigas eram muito rudes. Logo, as leis hão-de mudar-se, sempre que for possível fazer melhores instituições.

3. Demais. — As leis humanas são feitas para governar actos particulares dos homens. Ora, na ordem dos actos particulares, não podemos alcançar conhecimento perfeito senão pela experiência, que exige tempo, como diz Aristóteles. Logo, parece que, no decurso do tempo, pode ser que ocorra algo de melhor a ser estatuído.

Mas, em contrário, dizem as Decretais: É ridículo e desonra bastante abominável sofrer a destruição das tradições que recebemos, desde a antiguidade, dos nossos antepassados.

Como já dissemos (a. 1), a lei humana pode ser rectamente mudada, na medida em que essa mudança responda a uma utilidade pública. Mas a mudança, em si mesma, da lei, acarreta um certo detrimento para o bem da comunidade. Porque para a observância da lei contribui muito o costume; a ponto de o que se faz contra o costume geral, embora em si mesmo leve, ser, na verdade, grave. Donde, mudada, a lei perde da sua força obrigatória, na medida em que se destrói o costume. Portanto, nunca deve ser mudada a lei humana, a menos que, por outro lado, haja compensação, para o bem comum, correlativa à parte de rogada da lei. E isto dá-se: ou porque, da nova disposição legal, provém alguma utilidade máxima e evidentíssima; ou porque havia máxima necessidade de mudança; ou porque a lei costumeira continha manifesta iniquidade ou a sua observância era nociva para muitos. Por isso, o jurisconsulto diz: No constituir uma nova ordem de coisas deve ser evidente a utilidade para nos afastarmos da lei tida diuturnamente como justa.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O que pertence à arte tem uma eficácia fundada só na razão; e portanto, sempre que ocorrer qualquer melhora, deve-se mudar o que antes estava estabelecido. Ora, as leis tiram do costume a sua máxima virtude, como diz o Filósofo. Daí o não deverem ser facilmente mudadas.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A objecção conclui, que as leis se devem mudar; não porém para darem lugar a qualquer melhoria; mas por causa de alguma grande utilidade ou necessidade, como já se disse.

E semelhantemente se deve RESPONDER À TERCEIRA OBJECÇÃO.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 2)


Tempo comum XI Semana

Evangelho: Mt 6, 24-34

24 «Ninguém pode servir a dois senhores: porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. 25 «Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? 26 Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? 27 Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? 28 «E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. 29 Digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 30 Se, pois, Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? 31 Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? 32 Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. 33 Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34 Não vos preocupeis, pois, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia bastam os seus trabalhos.

Comentário:


O que verdadeiramente está em causa á a confiança em Deus.
Não tem que ver com a passividade como se se deva esperar que o Senhor movido pela Sua misericórdia provesse tudo quanto possamos necessitar.

Não!

O Senhor nunca o fará!

Ele só completará o que, resultado do nosso esforço empenhado e coerente, nos faltar para viver como Ele quer que vivamos.

(ama, comentário sobre Mt 6, 24-34, 2014.03.02)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA

…/2

A pessoa orgulhosa tem muito aguçado o espírito crítico. Não por rigor filosófico ou científico, mas por “superioridade” arrogante. O orgulho só lhe deixa ver o lado ruim dos outros, que ele contempla de cima para baixo, com ar de desaprovação, com um desprezo prévio, preconceituoso, que é parecido com o do fariseu da parábola de Cristo: Eu não sou como os outros homens [...], nem como este publicano (Lc 18, 11).

Como pode haver paz e harmonia num lar onde o pai, ou a mãe, ou o filho adolescente, ou a filha universitária..., passam a vida criticando, reclamando, resmungando e “botando defeito” em todas as coisas dos outros?

Para o irmão, o que a irmã disse é estúpido, e assim o proclama em voz alta; para o pai, os ideais e sonhos do filho são tolices, que lhe lavam o cérebro e o afastam da única coisa que interessa: ganhar dinheiro; a comida – responsabilidade direta da mulher – sempre está ruim: ou é salgada demais, ou é insossa, ou é uma fábrica de colesterol, ou parece ração de granja. Uns e outros só vêm que os demais falam alto, ou chegam tarde, ou não respondem, ou olham torto, ou não ligam nem um pouco para o que se lhes diz, ou têm amizades intratáveis, ou escolhem os piores momentos para fazer as coisas... Em resumo: críticas, críticas e mais críticas. Como se o “criticão” tivesse um sensor que só fosse capaz de captar o negativo.

Só a título ilustrativo, vou contar uma pequena e divertida história da vida real. Um casal de velhos. Ele, arrastando a perna, vai fazer as compras para a geladeira e a despensa (não no supermercado, mas na quitanda, como corresponde a um homem de outros tempos). Ela, boa pessoa, tem, no entanto, o vício de criticar. Volta ele da quitanda com o carro cheio: lá tem de tudo e um pouquinho mais. Mas a cara-metade, em vez de agradecer, só se lembra de gritar, com um rangido de arranhar a alma: “E o jiló? Cadê o jiló? Você se esqueceu do jiló!”

Essa corda da crítica fica ainda mais desafinada quando se transforma, por um pior desajuste, na corda da ironia ou do sarcasmo. Nestes casos, o desprezo é mais ferino.

Ironizar é quase sempre diminuir e humilhar o outro. Às vezes, é pisar em cima dele até deixá-lo esmagado no chão. Uma ironia bem aplicada é um dos golpes mais baixos que o nosso orgulho pode desferir nos outros.

– Puxa, desta vez, de cada três palavras que você falou com os convidados, só quatro eram asneiras. Parabéns, vai melhorando! – espeta o marido, sarcasticamente, na cara da mulher.

– Fulano (colega do marido) já foi promovido faz um ano, e você ainda pastando lá em baixo. Deve ser porque o ar daquele escritório de pé-rapado te faz bem... – ridiculariza a mulher, mexendo com um marido já complexado pela falta de sucesso profissional.

– Sabem de que sofre “o” neurónio da loira? – pergunta ironicamente o menino convencido, olhando com desprezo para a irmã. – Sofre de solidão!

No dia seguinte vem com outras duas piadas, que ele acha melhores ainda: – A loira burra (que, por sinal, é bem mais inteligente do que ele) só tem três neurónios no cérebro: um receptor, um emissor..., e o terceiro para atrapalhar os outros dois! E tem mais! Como é que a gente sabe que a loira usou o computador? Quando tem líquido corretor na tela!

Deus nos livre da ironia corrosiva, que é a escória da nossa vaidade e da nossa arrogância. Não poucas vezes, achando-nos “engraçadinhos”, estamos esfaqueando os outros. Peçamos a Deus que, em casa e fora de casa, saibamos praticar somente a ironia amável, simpática, aquela que não fere ninguém, mas alegra os corações e faz rir com gosto.

MAIS CORDAS DESAFINADAS

Existem outras cordas mal soantes do orgulho. Seria difícil lembrá-las todas. Mas, para ficarmos prevenidos e tentarmos melhorar, talvez seja útil examinar ainda mais três ou quatro delas.

Uma corda, um defeito muito aparentado com a crítica, é a mania de fiscalizar, partindo da base de que sempre existe “coelho no mato”. O paradigma pitoresco desse espírito de suspeita é a figura lendária do marido que, todos os dias, ao chegar a casa, aplica uma homérica surra na mulher e nos filhos, e esclarece depois: “Não sei o que eles fizeram, mas eles sabem...”

Há pais que parecem estar sempre a fazer uma auditoria na mulher e nos filhos, com um bloco de multas e o Código Penal na mão. A alguns deles, costumo chamá-los, brincando, “Catão, o Censor” [1]

E o mesmo se poderia dizer de certas mães, que mostram uma eterna desconfiança para com os filhos. Interrogam policialmente a todos sobre todas as coisas; vasculham gavetas, papéis e armários à procura de “algo errado”; não acreditam no que eles dizem; fazem complicadas pesquisas telefónicas para se certificar de que estiveram mesmo lá onde disseram que iam; perguntam mil vezes a mesma coisa, para ver se os apanham em contradição. Em consequência, os filhos se exasperam, ficam fora de casa o mais que podem e acabam caindo na teia de aranha das mentiras, provocadas pela desconfiança dos pais.
Quando essa desconfiança se dá entre marido e mulher, e degenera na doença mortal dos ciúmes, então a paz familiar está à beira do naufrágio. O lar torna-se uma câmara de gás, cada vez mais venenoso e asfixiante. O homem ou a mulher que se torturam, e torturam o cônjuge, com a máquina mortífera dos ciúmes, deveriam compreender que só têm duas saídas para esse beco letal: ou reconhecem que o ciúme é fruto de um requintado orgulho (o da pessoa que se sente como uma divindade nunca suficientemente adorada); ou aceitam o facto de que estão doentes, e vão-se tratar com um bom especialista. O que não é possível é dizer “Eu sou ciumento” e continuar a transformar o lar num inferno.

Também é manifestação clara de orgulho a mania de ter razão. Como é desagradável conviver com uma pessoa que, por princípio, não aceita que a contradigam, ainda que o façam serenamente e com bons argumentos; que não é capaz de ceder – até mesmo quando já não tem mais o que retrucar –, mas sente a necessidade de dizer a última palavra, porque não quer dar o braço a torcer. “Eu estou com a razão, e pronto!”

É tão bom ceder! Só é preciso ter um pouco de humildade, ungida com um pouco de caridade. O Bem-aventurado Josemaría Escrivá aconselhava sempre aos casais – e a todas as pessoas de boa vontade – a não discutir. “Da discussão – escrevia – não costuma sair a luz, porque é apagada pela paixão” 2. E punha um minúsculo exemplo prático, com palavras semelhantes a estas: – Para que discutir com a mulher, que afirma que a prima Fulana tem trinta anos, teimando em dizer que “já tem trinta e dois”? É melhor ceder, e não atear uma discussão por uma insignificância. Que importância têm dois ou três anos a mais ou a menos?

Às vezes, para ajudar algum obstinado discutidor a abaixar as armas, costumo dizer-lhe: “Você já pensou que ninguém vai para o Céu pelo facto de «ter tido razão» nas discussões? No dia do Juízo, ninguém vai perguntar-lhe se, na vida, você «teve razão». Pelo contrário, vão perguntar-lhe se soube compreender os outros, se soube perdoar, aparar arestas e espinhos no convívio e evitar conflitos por minúcias tolas”.

Por último, para não fazer uma enumeração interminável de cordas do orgulho, vou lembrar algo que me dizia recentemente um velho amigo, e que me deixou pensativo e comovido. Eu vinha meditando sobre o que agora estou a escrever, e ocorreu-me perguntar a esse amigo (pai de uma família unida e exemplar, que acabava de celebrar as Bodas de Ouro do seu felicíssimo casamento): “Fulano, qual acha você que é o segredo da paz familiar?”

Confesso que esperava umas palavras um tanto românticas. Por isso, surpreendeu-me a resposta: “Eu diria que o segredo da paz na família é a educação”.

Reconheci, depois, que há nessa resposta uma enorme dose de sabedoria cristã, acrisolada pela experiência. A grosseria, com efeito, não resulta só da deficiência de formação de berço. É sempre um ato de orgulho, porque constitui uma falta de respeito para com a pessoa rudemente tratada, um rebaixamento, uma humilhação. Na terceira parte desta obra, ao falar dos bons caminhos que levam à paz, deveremos mencionar o respeito – feito de humildade, compreensão e grandeza de coração –, como base indispensável para o amor e, portanto, para a harmonia e a paz. Mas, por ora, vamos deixar este assunto por aqui.

SEGUNDO PORÃO: O EGOÍSMO COMODISTA

HISTÓRIA TRISTE DE CHUPIM

Rubem Braga tem uma crônica deliciosa, intitulada História triste de tuim. Vamos começar este novo item com uma crónica nada deliciosa, que poderíamos chamar História triste de chupim.

Na casa onde moro, há um pedacinho de jardim na frente e um quintal nos fundos. É visitada o ano inteiro por pássaros os mais diversos, que enchem o quintal de cores e alegria.

Na primavera, fervilham: lá faz ninho o sabiá, cria a corruíra e se multiplica a rolinha. Mas, ano após ano, uma sombra escura desce sobre esse pequenino paraíso alegre. Um dia qualquer, observa-se bicando o chão, com ar distraído e olhar sorrateiro, um casal de chupins, pretos como o azeviche. Por mais que disfarcem, ninguém se ilude sobre os seus propósitos. Estão a espiar a ingenuidade com que o tico-tico prepara, laboriosamente, o seu ninho. Aproveitando um descuido dos inocentes passarinhos, a fêmea do chupim depositará no ninho deles um ou dois de seus ovos, e desaparecerá, lavando as mãos – ou o bico – dos trabalhos aborrecidos de ter que construir um ninho, chocar os ovos e alimentar os filhotes.

Só quer vida livre, e os tico-ticos que aguentem o tranco!

Mas isso não é o pior. Correm os dias e nascem as crias. No ninho, começam a conviver pequenos tico-ticos e o ainda pequenino chupim. A mãe tico-tico, numa azáfama incansável, vai levando comida para aqueles quatro ou cinco biquinhos abertos. Passam-se mais uns dias, e o filhote de chupim já cresceu. Logo vai crescendo mais, ocupa quase todo o ninho, lá mal cabem todos. Até que, numa manhã, descobre-se com o coração cortado o gordo filhote de chupim refestelado no ninho e, no chão, mortos ou agonizantes, os filhos legítimos do tico-tico, que foram sendo empurrados para fora porque o chupim precisava do espaço inteiro do ninho.

A imagem do chupim não é nada obscura, parece-me, quando aplicada aos conflitos do lar. Porque o chupim é um símbolo claríssimo do egoísmo na vida familiar. Em casa e fora dela, se as pessoas não dominam a tendência para o egoísmo e o comodismo que todos trazemos dentro, esses defeitos vão crescendo cada vez mais e, gordos como o chupim, acabam por repelir ou machucar seriamente os outros. Convençamo-nos de que não é só com a agressão, a ofensa, a irritação, a crítica e a prepotência que se criam conflitos familiares.
Muitos, muitíssimos deles, são fruto da hipertrofia do comodismo egoísta.

Na sua Carta às famílias, João Paulo II convida-nos a perguntar-nos se o egoísmo que, como diz, “se esconde inclusive no amor”, não acaba por ser “mais forte do que este amor” 3.
Vamos agora fazer-nos essa pergunta, ao mesmo tempo que procuramos identificar manifestações de egoísmo e comodismo que não raro grassam na vida familiar.

(cont.)

_______________________________________
Notas:
(2) josemaría escrivá, Caminho, 8a. ed., Quadrante, 1995, n. 25;
(3) joão paulo ii, Carta às famílias, n. 7;







[1] marco pórcio catão (234-149 a.C. personalidade pública de Roma que recebeu o apelido de censorius pelo rigor inflexível com que criticou o relaxamento de costumes, devido à influência grega.

20/06/2014

SER "ANDRÉ"!

«André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: «Encontrámos o Messias!» - que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus. Fixando nele o olhar, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas» - que significa Pedra.» Jo 1, 40-42
Sempre ouvimos dizer que os primeiros catequistas devem ser os pais, que a primeira catequese tem que ser em casa, que a família deve rezar unida e deve dar testemunho aos vindouros, para que também eles encontrem o Deus que nos chama ao seu amor.

André, alertado por João Baptista seguiu Jesus, e encontrando o seu irmão Simão Pedro, logo lhe deu a Boa Nova e o levou a Jesus.

A frase, simples e concisa, é terna e tocante: «E levou-o até Jesus.»
Não o levou “a” Jesus, mas sim, levou-o ”até” Jesus!

Mostrou-lhe Jesus, fê-lo encontrar-se com Jesus, e, a partir daí, tudo passou a ser entre Jesus e Simão Pedro.
André reconhece o Messias, o Senhor, e é esse acreditar que ele transmite ao seu irmão, levando-o ao encontro d’Aquele que é objecto da sua fé.
A partir daqui, Pedro encontra Jesus, e tendo Jesus fixado nele o seu olhar, Pedro deixa-se conduzir até à missão que Ele há-de colocar sobre os seus ombros!

E nós, que um dia começámos a seguir Jesus, como pais, como irmãos, como parentes, também damos a Boa Nova aos da nossa casa?
Também os levamos até Jesus?
Também testemunhamos com palavras, com actos, com a nossa vida, a nossa fé em Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador?

Sejamos então, todos e cada um de nós, “André”, para aqueles que se cruzam nas nossas vidas, começando por aqueles que o Senhor nos deu como família.


Monte Real, 17 de Junho de 2014
Joaquim Mexia Alves
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Maria procura o Filho que se perdeu

Três dias e três noites procura Maria o Filho que se perdeu... Oxalá possamos dizer, tu e eu, que a nossa vontade de encontrar Jesus também não conhece descanso. (Sulco, 794)

Que dor a de sua Mãe e a de S. José, porque – no regresso de Jerusalém – não vinha entre os parentes e amigos! E que alegria a sua, quando o vêem, já de longe, doutrinando os mestres de Israel! Mas reparai nas palavras, aparentemente duras, que saem da boca do Filho, ao responder a sua Mãe: por que me buscáveis?

Não era razoável que o procurassem? As almas que sabem o que é perder Cristo e encontrá-lo podem compreender isto... Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?. Não sabíeis, porventura, que eu devo dedicar totalmente o meu tempo ao meu Pai celestial?

Este é o fruto da oração de hoje: que nos persuadamos de que o nosso caminhar na terra – em todas as circunstâncias e em todos os momentos – é para Deus; que é um tesouro de glória, uma imagem do Céu; que é, nas nossas mãos, uma maravilha que temos de administrar, com sentido de responsabilidade perante os homens e perante Deus, sem necessidade de mudar de estado, no meio da rua, santificando a nossa profissão ou o nosso ofício, a vida de família, as relações sociais e todas as actividades que parecem à primeira vista só terrenas. (Amigos de Deus, 53–54)

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira





(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Jesus Cristo e a Igreja 19

O que são os evangelhos canónicos e o que são os apócrifos?
Quais e quantos são?

Evangelhos canónicos são os que a Igreja reconheceu como sendo aqueles que transmitem autenticamente a tradição apostólica e estão inspirados por Deus. São quatro e só quatro: Mateus, Marcos, Lucas e João. Assim o propôs expressamente Santo Ireneu de Leão nos finais do séc. II (Adversus Haereses 3.11.8-9) e assim o tem mantido constantemente a Igreja, propondo-o finalmente como dogma de fé ao definir o cânone das Sagradas Escrituras no Concílio de Trento (1545-1563).
A composição destes evangelhos tem as suas raízes no que os apóstolos viram e ouviram estando com Jesus, e nas aparições que tiveram dele depois de ressuscitar de entre os mortos. Logo a seguir os mesmos apóstolos, cumprindo o mandato do Senhor, pregaram a boa notícia (ou evangelho) acerca d’Ele e acerca da salvação que Ele traz a todos os homens, e foram-se formando comunidades de cristãos na Palestina e fora dela (Antioquia, cidades da Ásia Menor, Roma, etc.). Nestas comunidades as tradições foram tomando forma de relatos ou de ensinamentos acerca de Jesus, sempre sob a tutela dos apóstolos
que tinham sido testemunhas. Num terceiro momento essas tradições foram postas por escrito integrando-as numa narração em forma de biografia do Senhor.
Assim surgiram os evangelhos para uso das comunidades às quais estavam destinados. O primeiro, segundo parece, terá sido Marcos ou talvez uma edição de Mateus, em hebraico ou aramaico, mais breve que a actual. Os outros três imitaram o género literário deste. Neste trabalho, cada evangelista escolheu algumas coisas das muitas que se transmitiam, sintetizou outras e apresentou tudo atendendo à condição dos seus leitores imediatos.
Que os quatro gozaram da garantia apostólica vê-se no facto de terem sido recebidos e transmitidos como escritos pelos próprios apóstolos ou por discípulos directos dos mesmos: Marcos foi discípulo de São Pedro e Lucas de São Paulo.

Os evangelhos apócrifos são os que a Igreja não aceitou como conservando autêntica tradição apostólica, embora normalmente fossem apresentados sob o nome de algum apóstolo. Começaram a circular muito cedo, pois já são citados na segunda metade do séc. II, mas não gozavam da garantia apostólica como os quatro reconhecidos e, além disso, muitos deles continham doutrinas que não estavam de acordo com o ensino apostólico. “Apócrifo” começou por significar “segredo” por fazer referência a escritos que se dirigiam a um grupo especial de iniciados e serem conservados nesse grupo. Mais tarde passou a significar inautêntico e inclusivamente herético. À medida que passou o tempo o número desses apócrifos cresceu em grande número, quer para dar pormenores da vida de Jesus que não davam os evangelhos canónicos (por exemplo os apócrifos da infância de Jesus), quer para pôr sob o nome de algum apóstolo ensinamentos divergentes das que eram comuns na Igreja (por exemplo o evangelho de Tomé). Orígenes de Alexandria (+ 245) escrevia: “A Igreja em quatro evangelhos, os hereges, muitíssimos”.

Entre as informações dos Padres da Igreja, os que conservou a piedade cristã, e os testemunhados de um modo ou outro em papiros, o número de “evangelhos apócrifos” conhecidos é pouco superior a cinquenta.

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Temas para meditar 151

O que é rezar?

Ter, antes de mais, esta doutrina clara: todos podemos rezar; mais concretamente, todos devemos rezar, porque viemos ao mundo para amar a Deus, louvá-lo, servi-lo e depois, na outra vida – aqui estamos de passagem -, gozá-Lo eternamente. E o que é rezar? Simplesmente, falar com Deus mediante orações vocais ou na meditação. Não é admissível a desculpa de que não sabemos ou nos cansamos. Falar com Deus para aprender d’Ele, consiste em olhá-lo, em contar-lhe a nossa vida – trabalho, alegrias, penas, cansaços, reacções, tentações -, se O escutarmos, ouviremos que nos sugere: Deixa aquilo, sê mais cordial, trabalha melhor, serve os outros, não penses mal de ninguém, fala com sinceridade e com educação… Não desprezemos o tesouro da oração, porque ama-se como se reza, e reza-se como se ama. Com a certeza de que, ao contemplar o Mestre em Getsemani, a nossa mente abrir-se-á à necessidade de rezar, também quando não for fácil fazê-lo.

(javier echevarríaGetsemaní, Planeta 3ª ed. pg. 12)

Tratado da lei 29

Questão 97: Da mudança das leis.

Em seguida devemos tratar da mudança das leis. E nesta questão discutem-se quatro artigos;

Art. 1 — Se a lei humana deve de algum modo ser mudada.
Art. 2 — Se a lei humana há de sempre ser mudada quando aparecerem melhores instituições.
Art. 3 — Se o costume pode obter força de lei e abrogar a lei.
Art. 4 — Se os chefes do povo podem dispensar nas leis humanas.

Art. 1 — Se a lei humana deve de algum modo ser mudada.

(Infra, q. 104, a. 3, ad 2; Ad. Galat., cap. I, lect. II. V Ethic., lect. XII).

O primeiro discute-se assim. — Parece que a lei humana de nenhum modo deve ser mudada.

1. — Pois, a lei humana deriva da lei natural, como já se disse (q. 95, a. 2). Ora, a lei natural perdura imutável. Logo, também a lei humana deve permanece imutável.

2. Demais. — Como diz o Filósofo, a medida deve, por excelência, ser permanente. Ora, a lei humana é a medida dos actos humanos, como já se disse (q. 90, a. 1, a. 2). Logo, deve permanecer imutável.

3. Demais. — Ser justa e recta da essência da lei, como já se disse (q. 95, a. 2). Ora, o que é uma vez recto é-o sempre. Logo, o que foi uma vez lei deve sê-lo sempre.

Mas, em contrário, Agostinho diz: A lei temporal, embora justa, pode, no decurso do tempo, ser justamente mudada.

Como já se disse (q. 91, a. 3), a lei humana é um ditame da razão por que se dirigem os actos humanos. E assim, por dupla causa pode a lei humana ser justamente mudada: uma fundada na razão; outra, proveniente dos homens, cujos actos são regulados por lei.

Uma é fundada na razão, porque à razão humana é natural ascender gradualmente do imperfeito para o perfeito. Por isso vemos, nas ciências especulativas, que os primeiros filósofos transmitiram aos seus sucessores umas doutrinas imperfeitas, que estes por sua vez transmitiram aos seus sucessores mais aperfeiçoadas. Ora, o mesmo se dá na ordem das acções. Assim, os primeiros que intentaram descobrir mais útil disposição para a comunidade humana, não podendo prever tudo, por si mesmos, fizeram algumas instituições imperfeitas e falhas em muitos casos, que os pósteros modificaram, estabelecendo por sua vez algumas outras, que, em alguns casos, podem não realizar a utilidade comum.

Por outro lado, por parte do homem, cujos actos são regulados por lei, esta pode mudar-se rectamente, por causa da mudança das condições dos homens, aos quais convêm coisas diversas segundo as suas diversas condições. Assim Agostinho dá o exemplo seguinte. Se um povo for de boa moderação, grave e guarda diligentíssimo da utilidade comum, a lei é justamente feita para que a tal povo seja lícito estabelecer os seus magistrados, que administrem a república. Mas se, depravado esse povo paulatinamente, venha a tornar venal o seu sufrágio e entregar o governo a homens flagiciosos e celerados, é justo cassar-lhe o poder de distribuir as honras, e transferi-lo ao arbítrio de uns poucos bons.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A lei natural é uma participação da lei eterna, como já se disse (q. 91, a. 2), e por isso permanece imutável; e essa imutabilidade tem-na da perfeição da razão divina, que institui a natureza. Ao contrário, a razão humana é mutável e imperfeita. E portanto, a sua lei é mutável. Além disso, a lei natural contém alguns preceitos universais, que sempre permanecem; ao passo que a lei estabelecida pelo homem contém preceitos particulares, provocados pelos casos emergentes.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A medida deve ser permanente quanto possível. Mas na ordem das coisas mutáveis não pode haver nada que permaneça imutável. Donde, a lei humana não pode ser absolutamente imutável.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Na ordem das coisas materiais a rectidão é considerada absolutamente; e por isso permanece na sua essência. Ao passo que a rectidão da lei é considerada em relação à utilidade comum, a qual não é sempre proporcionada uma mesma realidade, como já se disse. Por isso essa rectidão é susceptível de mudança.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.