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17/11/2015

Temas para meditar - 537

Justiça

Que doce alegria a de pensar que o Senhor é justo, isto é, que conta com as nossas debilidades, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza!

Por quê, pois, temer?

O bom Deus, infinitamente justo, que Se dignou perdoar com tanta misericórdia as culpas do filho pródigo, não será também justo comigo que estou sempre junto d'Ele.


(Stª teresinha do menino jesus, História de uma alma, cap. 8)

03/10/2015

Temas para meditar - 514

Santidade



Deus não vai inspirar desejos impossíveis de realizar: apesar da minha pequenez nada me impede de aspirar à santidade. 


(Stª teresinha do menino jesusHistória de uma alma, LAI, 11ª ed., pg. 191)

09/08/2015

Temas para meditar - 482

Valentia de ser cobarde



A cada nova ocasião de combate, a cada nova provocação do inimigo, porto-me com valentia; sabendo que seria uma cobardia bater-me em duelo, viro costas ao adversário, sem nunca me defrontar com ele...


(Stª teresinha do menino jesus, História de uma alma, LAI, 11ª ed., pg. 199)

17/11/2014

Ev. Diário, Coment L. esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXIII Semana

Evangelho: Lc 18 35-43

35 Sucedeu que, aproximando-se eles de Jericó, estava sentado à beira da estrada um cego a pedir esmola. 36 Ouvindo a multidão que passava, perguntou que era aquilo. 37 Disseram-lhe que era Jesus Nazareno que passava. 38 Então ele clamou: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!». 39 Os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém, ele, cada vez gritava mais: «Filho de David, tem piedade de mim!». 40 Jesus, parando, mandou que Lho trouxessem. Quando ele chegou, interrogou-o: 41 «Que queres que te faça?». Ele respondeu: «Senhor, que eu veja». 42 Jesus disse-lhe: «Vê; a tua fé te salvou». 43 Imediatamente, recuperou a vista, e foi-O seguindo, glorificando a Deus. Todo o povo, vendo isto, deu louvores a Deus.
Comentário

Detenhamo-nos um pouco no frenesim das nossas vidas e pensemos:
“Se o Senhor Se dirigisse a mim e dissesse: Tu… que queres que te faça?”

Qual seria a nossa resposta? Talvez: “Senhor… deixa-me pensar um pouco… preciso de tanta coisa…”
Esta resposta que denota, desde logo, que não sabemos bem o que precisamos ou, melhor, o que efectivamente nos faz falta, talvez seja mais comum que o que possamos imaginar!

Cá por mim, penso, que o melhor… muito melhor, seria responder-Lhe:

“Tu, Senhor, que sabes tudo, sabes muito o bem o que preciso!”

(AMA, Comentário sobre Lc 18, 35-43, 2013.11.18)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/5

Nem sempre pratiquei a caridade com tais enlevos de alegria, mas no início da minha vida religiosa quis Jesus que eu sentisse como é bom vê-la na alma das suas esposas. Por isso, quando levava minha Irmã São Pedro, fazia-o com tanto amor que me teria sido impossível fazer melhor, mesmo que tivesse levado o próprio Jesus. A prática da caridade não foi sempre tão suave para mim, como vos dizia há pouco, Madre querida. Para prová-lo, vou relatar alguns pequenos combates que, certamente, vos farão sorrir. Por muito tempo, na oração da noite, sentava-me em frente de uma irmã que tinha uma mania estranha e, penso... muitas luzes, pois raramente usava livro. Eis como o percebia: Logo que essa irmã chegava, punha-se a fazer um estranho barulhinho semelhante ao que se faria esfregando duas conchas um contra a outra. Só eu percebia, pois tenho ouvido muito bom (às vezes, um pouco demais). Impossível dizer-vos, Madre, como esse ruído me incomodava. Tinha muita vontade de olhar a autora que, por certo, não se dava conta do seu cacoete; era a única maneira de avisá-la, mas no fundo do coração sentia que mais valia sofrer isso por amor a Deus e não magoar a irmã. Ficava quieta, procurava unir-me a Deus, esquecer esse ruído... tudo inútil. Sentia o suor inundar-me e ficava obrigada a uma oração de sofrimento. Embora sofrendo, procurava fazê-lo não com irritação, mas com paz e alegria, pelo menos no íntimo da minha alma. Procurei gostar do barulhinho tão desagradável. Em vez de procurar não ouvi-lo, coisa que me era impossível, pus-me a prestar atenção nele como se fosse um concerto maravilhoso e minha oração toda, que não era de quietude, consistia em oferecer esse concerto a Jesus.

Em outra ocasião, estava na lavandaria diante de uma irmã que me jogava água suja no rosto toda vez que levantava a roupa na tábua de bater. Meu primeiro movimento foi de recuar enxugando o rosto, a fim de mostrar à irmã que me aspergia que me prestaria serviço ficando quieta. Mas pensei logo que seria tolice recusar tesouros oferecidos tão generosamente. Evitei demonstrar minha luta. Esforcei-me por desejar receber muita água suja, de sorte que, no final, passara a gostar desse novo gênero de aspersão e prometi a mim mesma voltar a esse feliz lugar onde se recebiam tantos tesouros.

Madre querida, estais vendo que sou uma alma muito pequena que só pode oferecer a Deus coisas muito pequenas. Assim mesmo, acontece-me com frequência deixar escapar esses pequenos sacrifícios que dão tanta paz e tranquilidade à alma. Isso não me desanima, suporto ter um pouco menos de paz e procuro ser mais vigilante na ocasião seguinte.

Ah! o Senhor é tão bom para mim que me é impossível temê-lo. Deu-me sempre o que desejei, ou melhor, fez-me desejar o que queria dar-me. Foi assim que, pouco antes de começar minha provação contra a fé, dizia a mim mesma: Francamente, não tenho grandes provações exteriores e, para tê-Ias no interior, seria preciso Deus mudar a minha via. Não creio que Ele o faça, mas não posso viver sempre assim no repouso'... portanto, que meio Jesus irá encontrar para me provar? A resposta não demorou e mostrou-me que Aquele que amo não está desprovido de meios. Sem alterar minha via, mandou-me a prova que devia misturar amargura salutar em todas as minhas alegrias. Não é só quando quer me provar que Jesus me manda um pressentimento e o desejo. Há muito, tinha um desejo totalmente irrealizável, o de ter um irmão sacerdote. Pensei muitas vezes que se meus irmãozinhos não tivessem ido para o Céu teria tido a felicidade de vê-los subir ao altar; mas, como Deus os escolheu para fazer deles anjinhos, não podia mais esperar ver meu sonho realizar-se. Eis que não só Jesus concedeu-me o favor pedido, mas uniu-me, pelos laços da alma, a dois dos seus apóstolos que passaram a ser meus irmãos... Quero, Madre querida, relatar-vos minuciosamente como Jesus atendeu a meu desejo e até o ultrapassou, pois eu desejava apenas um irmão sacerdote que, todo dia, pensasse em mim no santo altar.

Foi nossa Santa Madre Teresa que me mandou, a título de buquê de festa, em 1895, meu primeiro irmãozinho. Estava na lavandaria, muito atarefada com meu trabalho, quando Madre Inês de Jesus, puxando-me à parte, leu uma carta que acabava de receber. Tratava-se de um jovem seminarista inspirado, dizia ele, por santa Teresa, e que vinha pedir uma irmã que se dedicasse especialmente à salvação da alma dele e o ajudasse com suas orações e sacrifícios quando missionário, a fim de salvar muitas almas. Prometia lembrar-se sempre dela, que passaria a ser sua irmã, quando pudesse oferecer o Santo Sacrifício. Madre Inês de Jesus disse que queria fosse eu a irmã desse futuro missionário.

Madre, seria impossível descrever a minha felicidade. Meu desejo atendido de modo inesperado fez nascer em meu coração uma alegria que chamarei de infantil, pois preciso remontar aos tempos da minha infância para encontrar a lembrança dessas alegrias tão vivas que a alma se sente pequena demais para conter. Nunca mais, durante muitos anos, tinha provado esse tipo de felicidade. Sentia que, nesse aspecto, minha alma permanecera nova; era como se tivessem tocado, pela primeira vez, cordas musicais até então deixadas no esquecimento.

Tinha consciência das obrigações que me impunha, por isso pus logo mãos à obra procurando redobrar meu fervor. É preciso admitir que, inicialmente, não tive consolações para estimular meu zelo. Depois de ter escrito uma gentil cartinha cheia de coração e nobres sentimentos, a fim de agradecer a madre Inês de Jesus, meu irmãozinho só voltou a se manifestar em Julho, a bem da verdade enviou a sua carta em Novembro para comunicar que se alistava no exército. Foi a vós, Madre querida, que o Senhor reservou completar a obra iniciada. Sem dúvida, é pela oração e pelo sacrifício que se pode ajudar os missionários. Mas, às vezes, quando agrada a Jesus unir duas almas para a sua glória, Ele permite que, de vez em quando, elas possam comunicar os pensamentos e estimular-se mutuamente a amar mais a Deus. Porém, para isso, é preciso uma autorização expressa da superiora, pois creio que, sem essa, a correspondência faria mais mal que bem; se não ao missionário, pelo menos à carmelita que, pelo seu gênero de vida, está continuamente levada a ensimesmar-se. Em vez de uni-la a Deus, essa correspondência que teria solicitado, embora esporádica, ocuparia seu espírito. Imaginando realizar mundos e fundos, só procuraria, a pretexto de zelo, uma distracção inútil. Para mim, essa situação não difere das demais: sinto que minhas cartas só produzirão algum bem se forem escritas por obediência e se eu sentir mais repugnância que prazer ao escrevê-las. Quando falo com uma noviça, procuro fazê-lo mortificando-me; evito perguntar para satisfazer a minha curiosidade. Se ela inicia um assunto interessante e passa de repente, sem concluir o primeiro, a outro que me aborrece, evito lembrar-lhe o assunto que deixou de lado, pois parece-me que não se pode fazer bem algum quando se procura a si mesmo.

Madre querida, dou-me conta de que nunca vou corrigir-me. Eis-me, mais um vez, muito longe do meu assunto, com todas as minhas digressões. Desculpai-me, peço, e permiti que recomece na próxima oportunidade, pois não consigo fazer diferente!... Agi como Deus, que não se cansa de me ouvir quando lhe conto simplesmente minhas penas e minhas alegrias, como se Ele não as conhecesse... Vós também, Madre, conheceis há muito o que penso e todos os acontecimentos um pouco memoráveis da minha vida. Não conseguiria informar-vos de nenhuma coisa nova. Não posso impedir o riso ao pensar que vos relato escrupulosamente tantas coisas que sabeis tão bem quanto eu. Enfim, Madre querida, obedeço-vos. E se, agora, não encontrais interesse na leitura destas páginas, talvez possam distrair-vos na vossa velhice e servir depois para acender o fogo. Não terei perdido meu tempo... Mas estou brincando de falar como criança. Não creiais, Madre, que procuro saber qual a utilidade que meu pobre trabalho possa ter. Faço-o por obediência e isso me é suficiente. Não sentiria nenhuma mágoa se o queimásseis diante dos meus olhos, sem o terdes lido.

Chegou o momento de voltar a falar dos meus irmãos que ocupam, agora, tanto espaço em minha vida. No ano passado, em fins de maio, lembro-me de que mandastes chamar-me antes de irmos ao refeitório. O coração batia-me forte quando fui ao vosso encontro, Madre querida. Cismava no que podíeis ter para me dizer, pois era a primeira vez que mandáveis chamar-me dessa forma. Depois de convidar-me a sentar, eis a proposta que me fizestes: "Quereis encarregar-vos dos interesses espirituais de um missionário que deve ser ordenado sacerdote e partir brevemente?", e, Madre, lestes para mim a carta desse jovem padre, a fim de que eu soubesse exactamente o que ele pedia. Meu primeiro sentimento foi de alegria, logo substituído pelo temor. Expliquei, Madre querida, que, tendo já oferecido meus pobres méritos para um futuro apóstolo, acreditava não poder fazê-lo às intenções de outro e que, aliás, havia muitas irmãs melhores do que eu que poderiam responder ao desejo dele. Todas as minhas objecções foram inúteis, respondestes que é possível ter diversos irmãos. Perguntei, então, se a obediência poderia duplicar meus méritos. Respondestes afirmativamente, dizendo muitas coisas que me fizeram ver que era preciso aceitar sem receio um novo irmão. No fundo, Madre, pensava igual a vós e, até, sendo que "o zelo de uma carmelita deve abranger o mundo", espero, com a graça divina, ser útil a mais de dois missionários, e não poderia esquecer de rezar por todos, sem deixar de lado os simples padres cuja missão é, às vezes, tão difícil de cumprir quanto a dos apóstolos pregando para infiéis. Enfim, quero ser filha da Igreja como o era nossa Madre santa Teresa e rezar nas intenções do nosso Santo Padre, o Papa, sabendo que as intenções dele abrangem o universo. Eis a meta geral da minha vida, mas isso não me teria impedido de rezar e unir-me especialmente às obras dos meus anjinhos queridos se tivessem sido sacerdotes. Bem! eis como me uni espiritualmente aos apóstolos que Jesus me deu como irmãos: tudo o que me pertence pertence a cada um deles, sinto muito bem que Deus é bom demais para fazer partilhas, é tão rico que dá sem medida tudo o que peço a Ele... Mas não penseis, Madre, que eu me perco em longas enumerações.

Depois que passei a ter dois irmãos e minhas irmãzinhas as noviças, se eu quisesse pedir para cada alma o que ela necessita e pormenorizá-lo, os dias seriam curtos demais e recearia muito esquecer alguma coisa importante. Para as almas simples, não são necessários meios complicados. Como sou uma delas, certa manhã, durante minha acção de graças, Jesus deu-me um meio simples de cumprir minha missão. Fez-me compreender a seguinte palavra dos Cânticos: "Atraí-me, corramos ao odor de vossos perfumes". Ó Jesus, nem é necessário dizer: atraindo-me, atraí as almas que amo. Essa simples palavra: "Atraí-me", é suficiente. Compreendo-o, Senhor, quando uma alma se deixou cativar pelo odor inebriante dos vossos perfumes, não conseguiria mais correr sozinha; todas as almas que ela ama são arrastadas por ela. Isso se dá sem coação, sem esforço; é consequência natural da sua atracão por vós. Assim como uma torrente que se lança com impetuosidade no oceano arrasta atrás de si tudo o que encontrou -na sua passagem, assim, ó meu Jesus, a alma que mergulha no oceano sem margens do vosso amor arrasta consigo todos os tesouros que possui... Sabeis, Senhor, não tenho outros tesouros senão as almas que vos dignastes unir à minha; fostes vós que me confiastes esses tesouros, por isso ouso tomar de empréstimo as palavras que dirigistes ao Pai celeste na última noite que passastes na terra, viajante e mortal. Jesus, meu Bem-Amado, não sei quando acabará meu exílio... mais de uma tarde me verá cantar ainda no exílio as vossas misericórdias, mas, enfim, para mim também, chegará a última noite"''. Gostaria, então, de poder dizer-vos: "Eu glorifiquei-vos na terra, consumando a obra que me destes a fazer. Manifestei o vosso nome aos homens que me destes, separando-os do mundo. Eram vossos e os destes a mim; eles guardaram a vossa palavra. Sabem agora que tudo quanto me destes vem de vós, porque eu lhes transmiti as palavras que vós me comunicastes, e eles receberam-nas, e conheceram verdadeiramente que eu saí de vós e creram que vós me enviastes. Por eles é que eu rogo; não é pelo mundo que rogo, é por aqueles que me destes, porque são vossos. Já não estou no mundo, ao passo que eles ficam no mundo, enquanto eu vou para vós. Pai santo, guardai por causa do vosso nome os que me destes. Mas agora vou para vós e digo estas coisas estando ainda no mundo para que tenham em si a plenitude da minha alegria. Não peço que os tireis do mundo, mas que os guardeis do mal. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Não rogo só por eles, mas também por aqueles que vão crer em vós, por meio da vossa palavra.

"ó Pai, que onde eu estiver, os que me destes estejam também comigo, e que o mundo conheça que vós os amastes como amastes a mim".

Eis, Senhor, o que queria repetir para vós antes de voar para os vossos braços. Talvez seja temeridade. Mas há algum tempo permitis que seja audaciosa convosco. Como o pai do filho pródigo, falando para seu filho primogénito, dissestes-me: "Tudo o que é meu é teu". Portanto, vossas palavras são minhas e posso servir-me delas para atrair sobre as almas, que me são unidas, os favores do Pai celeste. Mas, Senhor, quando digo que onde eu estiver desejo que os que me destes também estejam, não pretendo que não possam alcançar uma glória muito mais elevada que aquela que vos agradar conceder-me. Apenas quero que sejamos todos reunidos no vosso belo Céu. Sabeis, Deus meu, nunca desejei nada senão amar-vos, não almejo outra glória. Vosso amor preservou-me desde a minha infância, cresceu comigo e, agora, é um abismo cuja profundeza não posso avaliar. O amor atrai o amor, por isso, meu Jesus, o meu se lança para vós, queria encher o abismo que o atrai, mas ai! não é nem uma gota de orvalho perdida no oceano!... Para amar-vos como me amais, preciso tomar de empréstimo o vosso próprio amor, só então encontro o repouso. Ó meu Jesus, talvez seja uma ilusão, mas parece-me que não podeis encher uma alma com mais amor do que o que me destes. É por isso que ouso pedir-vos para amar os que me destes como amastes a mim mesma. Um dia, no Céu, se eu descobrir que os amais mais do que a mim, regozijar-me-ei, reconhecendo desde agora que essas almas merecem muito mais que a minha o vosso amor. Mas na terra não posso conceber amor maior que aquele que vos dignastes prodigalizar-me gratuitamente, sem mérito algum da minha parte.

Madre querida, enfim, volto para vós, toda espantada pelo que acabo de escrever, pois não era minha intenção. Mas, como está escrito, tem de ficar. Antes de voltar à história dos meus irmãos, quero vos dizer, Madre, que não aplico a eles, mas às minhas irmãzinhas, as primeiras palavras tomadas de empréstimo ao Evangelho: Comuniquei-lhes as palavras que me comunicastes etc., pois não me sinto capaz de instruir os missionários, felizmente não sou bastante orgulhosa ainda para tanto! Nem teria sido capaz de dar alguns conselhos às minhas irmãs, se vós, Madre, que representais Deus para mim, não me tivésseis dado graça para isso.

Ao contrário, era nos vossos filhos espirituais, meus irmãos, que eu pensava ao escrever essas palavras de Jesus e as que seguem: "Não vos peço para retirá-los do mundo... rogo ainda para os que acreditarão em vós pelo que ouvirão dizer". Como, de facto, não poderia rezar pelas almas que salvarão em suas missões longínquas pelo sofrimento e pela pregação?

Madre, creio ser necessário dar-vos mais algumas explicações referentes à passagem do Cântico dos Cânticos: "Atraí-me, corramos". O que disse me parece pouco compreensível. "Ninguém", disse Jesus, "pode vir a mim, se meu Pai que me enviou não o atrair". Depois, por meio de parábolas sublimes e, muitas vezes, sem mesmo usar desse meio tão familiar ao povo, Ele nos ensina que basta bater para que se abra, procurar para encontrar e estender humildemente a mão para receber o que se pede... Acrescenta que tudo o que se pedir a seu Pai, em seu nome, Ele o concede. É por isso sem dúvida que o Espírito Santo, antes do nascimento de Jesus, ditou essa oração profética: Atraí-me, corramos.

O que é pedir para ser atraído, senão unir-se de maneira íntima ao objecto que cativa o coração? Se o fogo e o ferro tivessem raciocínio, que este último dissesse ao outro: Atraí -me, não provaria que deseja identificar-se com o fogo de maneira que o penetre e o impregne da sua ardente substância e passe a fazer um só com ele? Madre querida, eis a minha oração: peço a Jesus que me atraia às chamas do seu amor, que me una tão estreitamente a Ele, que seja Ele quem viva e aja em mim. Sinto que quanto mais o fogo do amor abrasar meu coração, mais repetirei: "Atraí-me". Mais as almas se aproximarem de mim (pobres pequenos escombros de ferro inúteis, se eu fosse afastada do braseiro divino), mais rápido correrão em direção ao odor dos perfumes do seu Bem-amado, pois uma alma abrasada de amor não pode permanecer inactiva. Sem dúvida, como santa Madalena, fica aos pés de Jesus, escuta suas palavras suaves e calorosas. Parecendo nada dar, dá muito mais que Marta, que se atormenta a respeito de muitas coisas e gostaria que sua irmã a imitasse. Não são os afazeres de Marta que Jesus censura, esses trabalhos, sua divina Mãe submeteu-se humildemente a eles a vida toda, pois cabia a ela preparar as refeições da Sagrada Família. É apenas a inquietação de sua dedicada anfitriã que Ele quer corrigir. Todos os santos compreenderam isso e, mais particularmente, talvez, os que iluminaram o universo com a doutrina evangélica. Não foi na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus foram encontrar essa ciência divina que encanta os maiores gênios? Um cientista disse: "Dêem-me uma alavanca, um ponto de apoio, e levantarei o mundo". O que Arquimedes não conseguiu obter, porque seu pedido não foi feito a Deus e era feito só do ponto de vista material, os santos o obtiveram em toda a sua plenitude. O Todo-Poderoso deu-lhes como ponto de apoio: Ele próprio e só Ele. Como alavanca: a oração que abrasa pelo fogo do amor. Foi com isso que ergueram o mundo. É com isso que os santos que ainda militam o erguem. Até o final dos séculos, será com isso também que os santos que vierem haverão de erguê-lo.

Madre querida, quero falar-vos agora do que entendo por odor dos perfumes do Bem-amado. Como Jesus voltou ao Céu, só posso segui-Lo pelas pistas que deixou. Como são luminosas essas pistas, como são perfumadas! Basta lançar o olhar nos santos Evangelhos, que logo respiro os perfumes da vida de Jesus e sei a que lado me dirigir.... Não para o primeiro lugar que vou, mas para o último. Em vez de avançar com o fariseu, repito, cheia de confiança, a humilde oração do publicano e, sobretudo, imito o comportamento de Madalena, seu espantoso, ou melhor, seu amoroso atrevimento, que encanta o Coração de Jesus, conquista o meu. Sinto-o. Mesmo que eu tivesse na consciência todos os pecados que se possa cometer, iria, com o coração dilacerado pelo arrependimento, lançar-me nos braços de Jesus, pois sei o quanto ama o filho pródigo que volta para Ele. Não é porque Deus, na sua obsequiosa misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal que me elevo para Ele pela confiança e pelo amor.



16/11/2014

Ev. diário, coment. L. esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXIII Semana
Evangelho: Mt 25 14-30

14 «Será também como um homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos, e lhes entregou os seus bens. 15 Deu a um cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade, e partiu. 16 O que tinha recebido cinco talentos, logo em seguida, foi, negociou com eles, e ganhou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que tinha recebido dois, ganhou outros dois. 18 Mas o que tinha recebido um só, foi fazer uma cova na terra, e nela escondeu o dinheiro do seu senhor. 19 «Muito tempo depois, voltou o senhor daqueles servos e chamou-os a contas. 20 Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos, eis outros cinco que lucrei”. 21 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 22 Apresentou-se também o que tinha recebido dois talentos, e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos, eis que lucrei outros dois”. 23 Seu senhor disse-lhe: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor”. 24 «Apresentando-se também o que tinha recebido um só talento, disse: “Senhor, sei que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25 Tive receio e fui esconder o teu talento na terra; eis o que é teu”. 26 Então, o seu senhor disse-lhe: “Servo mau e preguiçoso, sabias que eu colho onde não semeei, e que recolho onde não espalhei. 27 Devias pois dar o meu dinheiro aos banqueiros e, à minha volta, eu teria recebido certamente com juro o que era meu. 28 Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, 29 porque ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que tem. 30 E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.
Comentário

A um mendigo que lhe tinha dado um simples copo de água, Alexandre o Grande mandou que lhe dessem o governo de quatro cidades.
Se um imperador da terra – mesmo sendo o maior de todos – paga desta forma um pequeno favor, como será o prémio do Rei dos Reis, o Dono e Senhor de tudo quanto existe?
Tenhamos esta certeza: O Senhor nunca se deixa vencer em generosidade!

(ama, comentário sobre Mt 25, 14-30, 2013.08.31)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/4

Na hora em que tínhamos combinado ficar juntas, ao olhar para mim, a pobre irmãzinha percebeu logo que eu não era a mesma. Sentou-se ao meu lado enrubescendo e eu, apoiando sua cabeça no meu coração, disse-lhe com lágrimas na voz tudo o que pensava dela, mas com expressões de muita ternura, manifestando-lhe tão grande afecto que logo as lágrimas dela misturaram-se às minhas. Admitiu com muita humildade que tudo o que eu lhe dizia era verdade, prometeu iniciar vida nova e pediu como um favor avisá-la sempre das suas faltas. Enfim, no momento de nos separar, nosso afeto passara a ser totalmente espiritual, nada de humano'°' subsistia. Realizava-se em nós esta passagem da Escritura: "O irmão ajudado pelo seu irmão é mais do que uma cidade fortificada".

O que Jesus fez com seu pincelzinho teria sido logo apagado se não tivesse agido por meio de vós, Madre, para realizar sua obra na alma que Ele queria inteiramente para Si. A provação pareceu muito amarga à minha pobre companheira, mas vossa firmeza triunfou e pude então, tentando consolá-la, explicar àquela que me destes por irmã entre todas em que consiste o verdadeiro amor. Mostrei-lhe que era a ela própria que amava e não a vós; disse-lhe como eu vos amava e que sacrifícios fui obrigada a fazer, no início da minha vida religiosa, para não me apegar a vós de maneira totalmente material, como o cachorro se apega a seu dono. O amor alimenta-se de sacrifícios, mais a alma recusa para si satisfações naturais, mais sua ternura se torna forte e desinteressada.

Lembro-me de que, quando postulante, tinha tentações tão violentas de ir vos encontrar para minha satisfação, para achar algumas gotas de alegria, que tinha de passar rapidamente diante do depósito e agarrar-me ao corrimão da escada. Chegavam à minha mente uma porção de permissões a pedir; enfim, Madre querida, encontrava mil motivos para satisfazer a minha natureza... Como estou feliz agora por me ter privado, logo no início da minha vida religiosa. Já usufruo da recompensa prometida aos que combatem corajosamente. Não sinto mais necessidade de me recusar todas as consolações do coração, pois minha alma está consolidada pelo único que eu queria amar. Vejo com satisfação que, amando-o, o coração se dilata e pode dar incomparavelmente mais ternura aos que lhe são caros, do que se tivesse ficado concentrado num amor egoísta e infrutífero.

Madre querida, relatei o primeiro trabalho que Jesus e vós vos dignastes realizar por ruim; era apenas o prelúdio dos que me deviam ser encomendados. Quando me foi dado penetrar no santuário das almas, vi logo que a tarefa ultrapassava as minhas capacidades. Lancei-me, então, nos braços de Deus e, como uma criancinha, escondendo o rosto nos cabelos Dele, disse-Lhe: Senhor, sou pequena demais para alimentar vossas filhas, se quiserdes dar-lhes, por mim, o que convém a cada uma, enchei minha mãozinha e, sem deixar vosso colo, sem desviar a cabeça, darei vossos tesouros à alma que vier pedir alimento. Se ela gostar, saberei que não é de mim, mas de vós que a recebe; se reclamar, não ficarei perturbada, procurarei persuadi-la de que esse alimento vem de vós e evitarei procurar outro para ela.
Madre, desde que entendi ser impossível fazer alguma coisa por mim mesma, a tarefa que me impusestes deixou de me parecer difícil; senti que a única coisa necessária consistia em unir-me sempre mais a Jesus e que o restante me seria dado por acréscimo. De fato, nunca minha esperança me enganou, Deus encheu minha mãozinha todas as vezes que foi necessário para alimentar a alma das minhas irmãs. Confesso, Madre querida, que se me tivesse apoiado, o mínimo que fosse, nas minhas próprias forças teria capitulado... De longe, parece fácil fazer bem às almas, fazê-las amar sempre mais a Deus, modelá-las, enfim, segundo seus próprios pontos de vista e suas idéias pessoais. De perto, é o contrário... sente-se que fazer o bem, sem a ajuda de Deus, é tão impossível quanto fazer o sol brilhar no meio da noite... Sente-se que é absolutamente necessário esquecer as próprias preferências, as concepções pessoais e guiar as almas pelo caminho que Jesus delineou para elas, sem procurar fazê-las caminhar pela nossa via. Não é ainda o mais difícil; o que mais me custa é observar as faltas, as mais leves imperfeições e dar-lhes combate mortal. Ia dizer: infelizmente para mim, mas seria uma covardia, portanto digo: felizmente para minhas irmãs, desde que tornei lugar nos braços de Jesus, sou como o vigilante que, da mais alta torre de uma fortaleza, observa o inimigo. Nada escapa ao meu olhar; fico muitas vezes espantada por enxergar tão bem e acho o profeta Jonas muito desculpável por ter frigido em vez de ir anunciar a ruína de Nínive. Preferiria mil vezes receber recriminações a fazê-las, mas sinto que é necessário que seja um sofrimento, pois quando se age segundo a natureza é impossível que a alma à qual se quer apontar as faltas compreenda os próprios erros; só vê uma coisa: a irmã encarregada de me dirigir está zangada e tudo recai sobre mim, embora eu esteja cheia das melhores intenções.

Sei que vossos cordeirinhos me acham severa. Se lessem estas linhas, diriam que não me parece custar o mínimo correr atrás deles, falar-lhes num tom severo mostrando seu belo velocino sujo ou trazendo algum tufo de lã que deixaram nos espinhos do caminho. Podem dizer tudo o que quiserem, no fundo, sentem que os amo com amor verdadeiro, que nunca faria como o mercenário que, vendo o lobo chegar, abandona o rebanho e foge. Estou pronta a dar minha vida por eles, mas meu afeto é tão puro que não desejo que o conheçam. Com a graça de Jesus, nunca procurei conquistar o coração deles. Compreendi que minha missão consistia em levá-los a Deus e fazê-los compreender que, aqui, vós sois a minha Madre, o Jesus visível que devem amar e respeitar.

Disse, Madre querida, que instruindo os outros muito aprendi. Vi que todas as almas têm de travar, mais ou menos, os mesmos combates, mas são tão diferentes sob outros aspectos, que não tenho dificuldades em compreender o que dizia o padre Pichon: "Há muito mais diferenças entre as almas que entre os rostos". Por isso, é impossível agir da mesma maneira com todas. Com certas almas, sinto que devo fazer-me pequena, não recear diminuir-me, confessar meus combates, meus defeitos; vendo que tenho as mesmas fraquezas que elas, minhas irmãzinhas confessam por sua vez as faltas que pesam sobre elas e ficam satisfeitas por eu compreendê-las por experiência. Com outras, é preciso agir com muita firmeza e nunca voltar ao que foi determinado. Diminuir-se não seria humildade, mas fraqueza. Deus deu-me a graça de não temer a guerra"', preciso cumprir minha obrigação, custe o que custar. Mais de uma vez, ouvi dizer: "Se quiserdes obter alguma coisa de mim, tem de ser pela doçura; pela força, não conseguireis nada". Sei que ninguém é bom juiz em causa própria e que uma criança em quem o médico faz um curativo doloroso não deixará de gritar e dizer que o remédio é pior que o mal. Contudo, fica boa alguns dias depois, feliz por poder brincar e correr. É assim com as almas, reconhecem logo que um pouco de amargo é, às vezes, preferível ao doce e não receiam admitir. Em alguns casos, não deixo de sorrir interiormente vendo as transformações que se operam de um dia para outro. É fantástico... Dizem-me: "Tivestes razão, ontem, em mostrar severidade; no início, isso me revoltou, mas depois me lembrei de tudo e vi que fostes muito justa... Escutai: indo, pensava que estava tudo acabado, dizia para mim mesma: `Vou falar com nossa Madre e dizer a ela que não mais irei com minha Irmã Teresa do Menino Jesus'. Mas senti que era o demônio quem me inspirava aquilo e pareceu-me que estivestes rezando por mim, então, fiquei tranquila e a luz voltou a brilhar; mas agora é preciso que me esclareçais para valer, e é por isso que estou aqui". A conversação inicia logo; fico muito feliz em poder seguir a tendência do meu coração, deixando de servir alimento amargo. Sim, mas ... logo percebo que não é para ter pressa, uma palavra poderia fazer desmoronar o belo edifício construído nas lágrimas. Se eu tiver a infelicidade de dizer uma só palavra que pareça atenuar o que disse ontem, vejo minha irmãzinha tentar agarrar-se aos galhos, faço então uma pequena oração interior e a verdade triunfa sempre. Ah! é a oração, é o sacrifício que fazem toda a minha força, são as armas invisíveis que Jesus me deu. Elas têm muito mais poder que as palavras para sensibilizar as almas, experimentei-as mais de uma vez. Uma, entre todas, causou-me profunda e doce impressão.

Era durante a quaresma e ocupava-me da única noviça que havia aqui e da qual eu era o anjo da guarda. Certa manhã, vem procurar-me, radiante: "Ah! se soubésseis", disse-me, "o que sonhei esta noite. Eu estava perto da minha irmã e queria afastá-la de todas as vaidades de que tanto gosta e, para isso, explicava-lhe os versos: Viver de amor. / Amar-te Jesus, que perda fecunda / Todos os meus perfumes são teus, sem volta. Sentia que minhas palavras penetravam na alma dela e eu ficava extasiada de alegria. Nesta manhã, ao acordar, pensei que Deus, talvez, quisesse que eu lhe desse essa alma. Se lhe escrevesse, depois da quaresma, a fim de contar-lhe meu sonho e dizer-lhe que Jesus a quer só para Ele?"

Eu, sem pensar mais, disse-lhe que podia tentar, mas que antes era preciso pedir autorização à nossa Madre. Como a quaresma estava ainda longe do fim, ficastes, Madre querida, muito surpresa com semelhante pedido, que vos pareceu prematuro. Inspirada por Deus, certamente, respondestes que não é por cartas que as carmelitas devem salvar as almas, mas pela oração.

Ao saber da vossa decisão, compreendi logo que era a de Jesus e disse a Irmã Maria da Trindade: "Precisamos pôr mãos à obra, rezemos muito. Que alegria se, ao final da quaresma, formos atendidas!..." Oh! misericórdia infinita do Senhor, que escuta a oração das suas crianças... No final da quaresma, mais uma alma consagrava-se a Jesus. Era verdadeiro milagre da graça, milagre obtido pelo fervor de uma única noviça!

Como é grande o poder da oração! Parece uma rainha com acesso permanente ao rei e capaz de obter tudo o que pede. Para ser atendido, não é preciso ler uma bela fórmula de circunstância em algum livro; ai! se assim fosse, como eu haveria de lastimar!... Fora o Oficio Divino que sou muito indigna de rezar, falta-me coragem para procurar bonitas orações nos livros, causa-me dor de cabeça, são tantas!... e uma é mais bonita que a outra... Não poderia rezar todas e não saberia qual escolher. Faço como as crianças que não sabem ler, digo simplesmente a Deus o que quero dizer, sem frases bonitas. Ele me compreende sempre... Para mim, a oração e um impulso do coração, um simples olhar para o céu, um grito de gratidão e de amor no meio da provação como no meio da alegria, enfim, é alguma coisa de grande, de sobrenatural que dilata a minha alma e me une a Jesus.

Todavia, não quero, Madre querida, que penseis que eu faço sem devoção as orações em comum, no coro ou nos eremitérios. Pelo contrário, gosto muito das orações em comum, pois Jesus prometeu ficar no meio dos que se reúnem em nome Dele. Sinto, então, que o fervor das minhas irmãs supre o meu; sozinha (tenho vergonha de confessá-lo), a recitação do terço custa-me mais do que usar um instrumento de penitência... Sinto que o recito muito mal; mesmo fazendo esforço para meditar sobre os mistérios do rosário, não consigo fixar minha mente... Durante muito tempo, lastimei essa falta de devoção que me intrigava, pois amo tanto Nossa Senhora que deveria ser-me fácil recitar em honra dela orações que lhe agradam. Agora, lastimo menos, penso que, por ser a minha Mãe, a Rainha dos Céus deve perceber a minha boa vontade e se agrada com ela.

Vez por outra, quando minha mente está em tão grande aridez que me é impossível extrair um pensamento para me unir a Deus, recito muito lentamente um "Pai-nosso" e a saudação angélica; então, essas orações me encantam, alimentam minha alma muito mais do que se as tivesse recitado precipitadamente uma centena de vezes...

Nossa Senhora me mostra não estar zangada comigo, nunca deixa de me proteger quando a invoco. Se me vem uma inquietação, um problema, logo me dirijo a ela e sempre, como a mais terna das Mães, ela toma conta dos meus interesses... Quantas vezes, ao falar às noviças, invoco-a e sinto os favores da sua maternal proteção!...

Freqüentemente, as noviças me dizem: "Mas tendes resposta para tudo; desta vez, pensava embaraçar-vos... onde é que ides buscar o que dizeis?" Há umas tão ingênuas que pensam que leio nas almas delas, só porque me aconteceu preveni-las dizendo o que pensavam. Uma noite, uma das minhas companheiras"' resolve ocultar-me uma pena que a faz sofrer muito. Encontro-a pela manhã, ela me fala com semblante sorridente e eu, sem responder ao que ela me diz, digo-lhe num tom convicto: Estais sofrendo. Se tivesse feito a lua cair aos pés dela, creio que não teria olhado para mim com espanto maior. Seu pasmo foi tanto que me contagiou e, por um instante, fui tomada de um pavor sobrenatural. Tinha certeza de não ter o dom de ler nas almas e ter acertado assim, em cheio, me espantou. Sentia que Deus estava muito perto, que sem perceber dissera, como uma criança, palavras que não vinham de mim, mas Dele.

Madre querida, compreendeis que às noviças tudo é permitido, é necessário que possam dizer o que pensam sem restrição. O bem e o mal. Isso lhes é tanto mais fácil que não me devem o respeito que se dá a uma mestra. Não posso dizer que Jesus me faz caminhar exteriormente pela via das humilhações. Contenta-se em humilhar-me no fundo da minha alma"'. Aos olhos das criaturas, consigo bons resultados em tudo. Ando pelo caminho das honras, na medida em que é possível na vida religiosa. Compreendo que não é para mim, mas para os outros que devo andar por esse caminho que parece tão perigoso. De fato, se eu fosse considerada pela comunidade como uma religiosa cheia de defeitos, incapaz, sem juízo nem inteligência, seria impossível, Madre, fazer-vos ajudar por mim. Eis por que Deus lançou um véu sobre todos os meus defeitos interiores e exteriores. Às vezes, esse véu atrai elogios para mim por parte das noviças. Sinto que não o fazem por adulação, mas que é expressão dos seus ingênuos sentimentos; francamente, isso não poderia inspirar-me vaidade, pois tenho sempre presente à mente a lembrança do que sou. Vez por outra, sou tomada de um desejo muito grande de ouvir outra coisa que não seja elogios. Sabeis, Madre querida, que prefiro o vinagrete ao açúcar e Jesus permite, então, que se lhe sirva uma boa saladinha, bem avinagrada, bem apimentada, nada falta, a não ser o azeite, o que lhe dá um sabor suplementar... Essa boa saladinha me é servida pelas noviças quando menos espero. Deus levanta o véu que esconde as minhas imperfeições e então as minhas queridas irmãzinhas me veem tal como sou e não me acham totalmente do gosto delas. Com uma simplicidade que me encanta, falam-me dos combates em que as coloco, o que lhes desagrada em mim; enfim, não se constrangem mais do que se falassem de outra pessoa, sabendo que me agradam agindo dessa forma. Ah! francamente, é mais que um prazer, é um banquete delicioso"' que enche minha alma de alegria. Não consigo explicar como uma coisa que tanto desagrada à natureza possa causar tanta felicidade; se não a tivesse experimentado, não poderia acreditar... Num dia em que tinha desejado particularmente ser humilhada, uma noviça incumbiu-se tão bem de satisfazer-me que logo pensei em Semei amaldiçoando Davi, e pensava: Sim, é o Senhor que lhe ordena dizer-me essas coisas todas... E minha alma saboreava deliciosamente o alimento amargo que lhe era servido com tanta fartura.

Assim é que Deus se digna cuidar de mim. Nem sempre pode me dar o pão fortificante da humilhação exterior, mas de vez em quando permite que me alimente das migalhas que caem da mesa das crianças. Ah! como é grande a sua misericórdia, só poderei cantá-la no Céu...

Madre querida, sendo que, convosco, começo a cantar na terra essa misericórdia infinita, preciso contar-vos mais um grande favor obtido na missão que me confiastes. Outrora, quando via uma irmã fazer alguma coisa que me desagradava e me parecia irregular, dizia para mim mesma: Ah!, se eu pudesse dizer-lhe o que penso, mostrar-lhe o erro, isso me faria bem. Depois que comecei a praticar um pouco o ofício, asseguro-vos, Madre, que mudei totalmente de sentimento. Quando vejo uma irmã fazer alguma coisa que me parece imperfeita, solto um suspiro de alívio e penso: Que felicidade! Não é uma noviça, não tenho obrigação de repreendê-la. Logo procuro desculpar a irmã e atribuir-lhe umas boas intenções que, sem dúvida, tem para agir dessa forma.

Ah! Madre, depois que fiquei doente, os cuidados que me prodigalizais instruíram-me muito a respeito da caridade. Não há remédio que vos pareça caro demais e, se não dá os resultados esperados, não vos cansais de procurar outro. Quando ia ao recreio, quanta atenção em me colocar ao abrigo das correntezas de ar; enfim, se eu quisesse contar tudo, não acabaria nunca.

Pensando em todas essas coisas, disse para mim mesma que deveria ser tão compassiva com as enfermidades espirituais das minhas irmãs quanto vós o sois ao cuidar de mim com tanto amor.

Observei (e é bem natural) que as irmãs mais santas são as amadas, procura-se a conversação delas, prestam-se serviços a elas sem que tenham de pedi-los, enfim, essas almas capazes de suportar faltas de consideração, de delicadezas, vêem-se cercadas pelo afeto de todas. Pode-se aplicar a elas as seguintes palavras do nosso Pai, são João da Cruz: Todos os bens me foram dados quando não os procurei mais por amor-próprio.

Ao contrário, as almas imperfeitas não são procuradas. Permanece-se, sem dúvida, dentro dos limites da cortesia religiosa, mas receando, talvez, dizer-lhes algumas palavras pouco amáveis, evita-se a companhia delas. Ao mencionar almas imperfeitas não estou me referindo apenas às imperfeições espirituais, pois as mais santas só serão perfeitas no Céu, refiro-me à falta de juízo, de educação, à suscetibilidade de alguns temperamentos, todas coisas que não tornam a vida agradável. Sei que essas enfermidades morais são crônicas, sem esperança de cura, mas sei que minha Madre não deixaria de cuidar de mim, de procurar aliviar-me, se ficasse doente a vida toda. Eis a conclusão a que cheguei: devo procurar, no recreio, na licença, a companhia das irmãs que me são menos agradáveis, desempenhar junto a essas almas feridas o ofício de boa samaritana. Uma palavra, um sorriso amável são muitas vezes suficientes para alegrar uma alma triste. Mas não é absolutamente para alcançar essa meta que quero praticar a caridade, pois sei que logo desanimaria: uma palavra que eu teria proferido com a melhor das intenções seria, talvez, interpretada erroneamente. Por isso, a fim de não perder meu tempo, quero ser amável com todas (e particularmente com as irmãs menos amáveis) para alegrar Jesus e responder ao conselho que me dá no Evangelho, mais ou menos nos seguintes termos: "Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os ricos vizinhos; de outro modo eles também convidar-te-iam e terias uma retribuição. Mas, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos; è serás feliz, porque eles não terão como retribuir-te; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos".

Que banquete poderia uma carmelita oferecer às suas irmãs, a não ser uma refeição espiritual composta de caridade amável e alegre? Pessoalmente, não conheço outro e quero imitar são Paulo, que se alegrava com quem estava alegre. Verdade que também chorava com os aflitos e as lágrimas devem aparecer, às vezes, no banquete que quero servir, mas sempre procurarei que essas lágrimas se transformem, no final, em alegria; pois o Senhor ama quem dá com alegria.

Recordo-me de um ato de caridade que Deus me inspirou fazer quando ainda era noviça. Era pouca coisa, mas nosso Pai, que vê o que é secreto, que olha mais para a intenção do que para o vulto da ação, já me recompensou sem esperar a outra vida. Era no tempo em que irmã São Pedro ainda ia ao coro e ao refeitório. Para a oração vespertina, estava acomodada à minha frente: às 15h50, uma irmã devia levá-la ao refeitório, pois as enfermeiras tinham então muitas doentes e não podiam levá-la. Custava-me muito oferecer-me para prestar esse pequeno serviço, pois sabia não ser fácil contentar essa pobre irmã São Pedro, que sofria tanto que não gostava de mudar de condutora. Mas eu não queria perder tão boa ocasião de praticar a caridade, lembrando-me de que Jesus disse: "Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fareis". Ofereci-me, portanto, muito humildemente, para levá-la. Não foi sem dificuldade que consegui fazê-la aceitar meu serviço! Enfim, pus mãos à obra e tinha tão boa vontade que consegui perfeitamente.

Toda tarde, quando via irmã São Pedro sacudir sua ampulheta, sabia o que aquilo significava: partamos. É incrível como me era custoso dispor-me a levá-la, sobretudo no início. Assim mesmo, fazia-o imediatamente e começava todo um cerimonial. Era preciso mover e levar o banco de um jeito preestabelecido, sobretudo, não se apressar; depois, empreendia-se o passeio. Tratava-se de seguir a pobre enferma segurando-a pela cintura, o que eu fazia com a maior delicadeza possível; mas se, por infelicidade, ela dava um passo em falso parecia-lhe logo que não a segurava direito e que ela ia cair. "Ah!, meu Deus! andais depressa demais, vou me arrebentar." Se eu procurava andar mais devagar: "Mas me acompanhai, não sinto mais a vossa mão, ides largar-me, vou cair, ah! bem sabia que sois jovem demais para me levar". No final, chegávamos sem incidente ao refeitório. Aí surgiam novas dificuldades, pois era preciso fazê-la sentar e agir com jeito para não machucá-la. Depois, era preciso arregaçar suas mangas (ainda de uma maneira predeterminada). Depois, ficava livre para ir. Com mãos estropiadas, ela ajeitava, como podia, o pão em seu godê. Logo percebi e, toda noite, só a deixava após ter-lhe prestado mais esse servicinho. Como não me tinha pedido para fazê-lo, ficou muito comovida e foi por esse gesto, que eu não tinha planejado, que conquistei seu afeto e sobretudo (soube mais tarde) porque, depois de ter cortado o pão, despedia-me dela com meu mais lindo sorriso.

Madre querida, talvez estejais surpresa por eu relatar esse pequeno acto de caridade, acontecido há tanto tempo. Ah! o fiz porque sinto que preciso cantar, por causa dele, as misericórdias do Senhor. Dignou-se conservar a lembrança em mim, como um perfume que me incita a praticar a caridade. Recordo-me, às vezes, de certos pormenores que são para minha alma como uma brisa primaveril. Eis mais um que me vem à memória: numa tarde de inverno, cumpria, como de costume, meu pequeno ofício. Fazia frio, estava escuro... de repente, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Imaginei, então, um salão bem iluminado, brilhante de ouro, moças elegantemente vestidas trocando gentilezas mundanas; meu olhar desviou-se para a pobre doente que eu sustentava. Em vez de melodia, ouvia, de vez em quando, seus gemidos plangentes, em vez de douração, via os tijolos do nosso claustro austero, iluminado por luz fraca. Não pude expressar o que se passou na minha alma, sei que o Senhor a iluminou com os raios da verdade, que superaram tanto o tenebroso brilho das festas da terra que não podia acreditar na minha felicidade... Ah! para gozar mil anos das festas mundanas, não teria dado os dez minutos empregados na execução do meu ofício de caridade... Se já no sofrimento, no meio da luta, pode-se gozar por um instante de uma felicidade que ultrapassa todas as felicidades da terra, pensando que Deus retirou-nos do mundo, como será no Céu, quando virmos, no seio da alegria e do repouso eterno, a graça incomparável que o Senhor nos fez escolhendo-nos para morar em sua casa, verdadeiro pórtico dos Céus?...
(cont)




14/08/2014

Temas para meditar 205



Caridade

Agora adivinho que a verdadeira caridade consiste em suportar todos os defeitos do próximo, em não estranhar as suas debilidades, em edificar-se com as suas menores virtudes; mas aprendi especialmente que a caridade não deve permanecer encerrada no fundo do coração pois "não se acende uma luz para a colocar debaixo de um alqueire...".
Parece-me que esta tocha representa a caridade que deve iluminar e alegrar não só aqueles que mais amo, mas todos os que estão em casa.

(Stª teresinha do menino jesus História de uma alma Livr. Apost. da Imprensa 11ª Ed. Cap. 9 pg. 205)


20/07/2014

Temas para meditar - 180

Vontade de Deus



Meu Deus, escolho tudo! Não quero ser santa a meias nem me assusta o ter que sofrer por vosso amor: de uma só coisa tenho receio, é de ficar com a minha vontade: tomai posse dela, Senhor, que eu escolho tudo o que vós quiserdes!


(Stº Afonso Maria de Ligório, Visitas alo Santíssimo Sacramento, 1, trad por ama