14/03/2021

São Josemaria - Textos

 


Dar é próprio dos apaixonados

O teu talento, a tua simpatia, as tuas condições... perdem-se; não te deixam aproveitá-las. – Pensas bem nestas palavras de um autor espiritual: "Não se perde o incenso que se oferece a Deus. – Mais se honra o Senhor com o abatimento dos teus talentos do que com o seu uso vão". (Caminho, 684)

E, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes de ouro, incenso e mirra. Detenhamo-nos um pouco para entender este passo do Santo Evangelho. Como é possível que nós, que nada somos e nada valemos, ofereçamos alguma coisa a Deus? Diz a Escritura: toda a dádiva e todo o dom perfeito vem do alto. O homem não consegue descobrir plenamente a profundidade e a beleza dos dons do Senhor: se tu conhecesses o dom de Deus... – responde Jesus à mulher samaritana. Jesus Cristo ensinou-nos a esperar tudo do Pai, a procurar antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça, porque tudo o resto se nos dará por acréscimo e Ele conhece bem as nossas necessidades. Na economia da salvação, o nosso Pai cuida de cada alma com amor e delicadeza: cada um recebeu de Deus o seu próprio dom; uns de um modo, outros de outro. Portanto, podia parecer inútil cansarmo-nos, tentando apresentar ao Senhor algo de que Ele precise; dada a nossa situação de devedores que não têm com que saldar as dívidas, as nossas ofertas assemelhar-se-iam às da Antiga Lei, que Deus já não aceita: Tu não quiseste os sacrifícios, as oblações e os holocaustos pelo pecado, nem te são agradáveis as coisas que se oferecem segundo a Lei. Mas o Senhor sabe que o dar é próprio dos apaixonados e Ele próprio nos diz o que deseja de nós. Não lhe interessam riquezas, nem frutos, nem animais da terra, do mar ou do ar, porque tudo isso lhe pertence. Quer algo de íntimo, que havemos de lhe entregar com liberdade: dá-me, meu filho, o teu coração. Vedes? Se compartilha, não fica satisfeito: quer tudo para si. Repito: não pretende o que é nosso; quer-nos a nós mesmos. Daí – e só daí – advêm todas as outras ofertas que podemos fazer ao Senhor. (Cristo que passa, 35)

Leitura Espiritual Mar 14

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc VIII, 22-39

 

Jesus acalma uma tempestade

22 Certo dia, Jesus subiu com os seus discípulos para um barco e disse-lhes: Passemos à outra margem do lago. E fizeram-se ao largo. 23 Enquanto navegavam, adormeceu. Um turbilhão de vento caiu sobre o lago, e eles ficaram inundados e em perigo. 24 Aproximaram-se dele e, despertando-o, disseram: ‘Mestre, Mestre, estamos perdidos!’ E Ele, levantando-se, ameaçou o vento e as águas, que se acalmaram; e veio a bonança. 25 Disse-lhes depois: Onde está a vossa fé? Cheios de medo e admirados, diziam entre eles: ‘Quem é este homem, que até manda nos ventos e nas águas, e eles obedecem-lhe?’

 

Expulsão de demónio em Gerasa

26 Chegaram à região dos gerasenos, situada defronte da Galileia. 27 Quando desceu para terra, veio-lhes ao encontro um homem da cidade, possesso de vários demónios que, desde há muito, não se vestia nem vivia em casa, mas nos túmulos. 28 Ao ver Jesus, prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: ‘Que tens que ver comigo, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes!’ 29 Jesus, efectivamente, ordenava ao espírito maligno que saísse do homem, pois apoderava-se dele com frequência. Prendiam-no com correntes e grilhões para o manterem em segurança, mas ele partia as cadeias e o demónio impelia-o para os desertos. 30 Jesus perguntou-lhe: Qual é o teu nome? ‘Legião, - respondeu. Porque muitos demónios tinham entrado nele 31 e suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo. 32 Ora, andava ali uma grande vara de porcos a pastar no monte. Os demónios suplicaram a Jesus que os deixasse entrar neles. Ele permitiu. 33 Saíram, pois, do homem, entraram nos porcos e a vara lançou-se do alto do precipício ao lago, e afogou-se. 34 Ao verem o que se tinha passado, os guardas fugiram e levaram a notícia à cidade e aos campos. 35 As pessoas saíram para ver o que tinha acontecido. Vieram ter com Jesus e encontraram o homem, de quem tinham saído os demónios, sentado a seus pés, vestido e em perfeito juízo. 36 Os que tinham visto contaram-lhes como o possesso tinha sido salvo; 37 e toda a população da região dos gerasenos pediu a Jesus que se afastasse deles, pois estavam possuídos de grande temor. Jesus subiu para o barco e afastou-se dali. 38 O homem, de quem os demónios tinham saído, pediu-lhe para ficar com Ele. 39 Mas Jesus despediu-o, dizendo: Volta para a tua casa e conta o que Deus fez por ti. E ele foi anunciando por toda a cidade tudo o que Jesus lhe fizera.

 

Texto

 


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE JOÃO PAULO II

PARA A QUARESMA DE 1979

 

Vós pondes-vos a pergunta: «o que é que se tornou a Quaresma?». A privação bastante relativa de alimentos, pensais vós, não é que signifique muito, quando tão grande número de irmãos e irmãs nossos, vítimas de guerras ou de catástrofes, tanto sofrem, física e moralmente.

 

O jejum está em relação com a ascese pessoal, sempre necessária; mas a Igreja exige aos baptizados que assinalem com alguma coisa de diverso este Tempo litúrgico. A Quaresma, de facto, tem um significado para nós: ela há-de tornar patente aos olhos do mundo que todo o Povo de Deus, porque pecador, se prepara com a Penitência para reviver liturgicamente a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. Um tal testemunho público e colectivo tem a sua base no espírito de Penitência de cada um de nós e, por outro lado, há-de levar-nos a aprofundar interiormente este modo de comportar-nos e a motivá-lo cada vez melhor.

 

Privar-se de alguma coisa não é apenas dar do que porventura para nós é supérfluo, mas sim dar também algumas vezes daquilo que nos é necessário, à imitação da viúva do Evangelho, a qual sabia bem que o seu óbolo era já um dom recebido de Deus. Privar-se de algo é libertar-se das servidões de uma civilização que nos incita a um conforto e consumo cada vez maiores, sem ter sequer o cuidado da preservação do nosso ambiente, património comum da humanidade.

 

As vossas Comunidades eclesiais irão convidar-vos a participar em «Campanhas da Quaresma»; irão, por certo, ajudar-vos também a orientar o exercício do vosso espírito de Penitência compartilhando aquilo que possuís com aqueles que têm menos ou nada têm.

 

Acaso ireis vós ficar inactivos ainda na praça pública porque ninguém apareceu a convidar-vos para trabalhar? Olhai: o campo da Caridade cristã carece de trabalhadores; e a Igreja faz-vos um apelo para aí trabalhardes. Não espereis que seja demasiado tarde para socorrer Cristo que se acha encarcerado ou sem ter que vestir, Cristo que é perseguido ou refugiado, Cristo, enfim, que tem fome e se encontra sem alojamento. Ajudai os nossos irmãos e irmãs que carecem do mínimo necessário para saírem de condições inumanas e poderem ter acesso a uma verdadeira promoção humana.

 

A todos vós, os que estais decididos a dar este testemunho evangélico de penitência e de compartilha, eu vos abençoo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.

 

IOANNES PAULUS PP. II

 

 

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Sacramentos

 


O Matrimónio

 

5. Matrimónio e família

 

«Segundo o desígnio de Deus, o matrimónio é o fundamento da mais ampla comunidade da família, pois que o próprio instituto do matrimónio e o amor conjugal se ordenam à procriação e educação da prole, na qual encontram a sua coroação» [19].

 

«Pois que o Criador de todas as coisas constituiu o matrimónio princípio e fundamento da sociedade humana», a família tornou-se a «célula primeira e vital da sociedade» [20]. Esta específica e exclusiva dimensão pública do matrimónio exige a sua defesa e a promoção perla autoridade civil [21]. As leis que não reconhecem as propriedades essenciais do matrimónio – o divórcio – ou as equiparam a outras formas de união não matrimoniais – uniões de facto ou uniões entre pessoas do mesmo sexo – são injustas: lesam gravemente o fundamento da própria sociedade que o Estado está obrigado a proteger e a fomentar [22].

 

Na Igreja, a família é chamada Igreja doméstica, porque a comunhão específica dos seus membros está chamada «a fazer a experiência de uma comunhão nova e original, que confirma e aperfeiçoa a comunhão natural e humana» [23]. «Na família, como numa igreja doméstica, devem os pais, pela palavra e pelo exemplo, ser para os filhos os primeiros arautos da fé e favorecer a vocação própria de cada um, especialmente a vocação sagrada» [24]. «É aqui que se exerce, de modo privilegiado, o sacerdócio baptismal do pai de família, da mãe, dos filhos, de todos os membros da família, “na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade efectiva” (LG, 10). O lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e “uma escola de enriquecimento humano” (GS, 52) (184). É aqui que se aprende a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado, e, sobretudo, o culto divino, pela oração e pelo oferecimento da própria vida» ( Catecismo, 1657).

 

Rafael Díaz

 

Bibliografia básica

 

Catecismo da Igreja Católica , 1601-1666, 2331-2400.

Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes , 47-52 .

João Paulo II, Ex. ap. Familiaris Consortio , 11-16.

 

Leituras recomendadas

 

S. Josemaria Escrivá, Temas Actuais do Cristianismo , 87-112.

S. Josemaria Escrivá, «O Matrimónio, Vocação Cristã», Cristo que Passa, 22-30.

 

J. Miras; J.I. Bañares, Matrimónio y Família, Rialp, Madrid 2006.

J. M. Ibañez Langlois, Sexualidad, Amor, Santa Pureza , Ediciones Universidad Católica de Chile, Santiago de Chile 2006

 

Notas

 

[9] Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes , 48.

[19] Ibidem , 14

[20] Ibidem , 42.

[21] «A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção da sociedade e do Estado» (ONU, Declaração dos Direitos do Homem , 10-XII-1948, artº 16.)

[22] Cf. Conselho Pontifício para a Família, Família, matrimónio e uniões de facto , Vaticano 2000; Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações acerca dos projectos de reconhecimento legal das uniões de facto entre pessoas homossexuais , Vaticano 2003.

[23] João Paulo II, Ex. ap. Familiaris Consortio , 21.

[24] Concílio Vaticano II, Const. Lúmen Gentium, 11.

Reflexão na Quaresma

 


Esmola

Quem distribui esmolas faça-o com despreocupação e alegria, já que, quanto menos se reserve para si, maior será o ganho que obterá.

 

(São Leão Magno, Sermão 10º sobre a Quaresma)

Pequena agenda do cristão - Domingo

   


DOMINGO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



[i] Cfr. Lc 1, 38
[ii] AMA, orações pessoais
[iii] AMA, orações pessoais
[iv] AMA, orações pessoais
[v] Btº Álvaro del Portillo (oração pessoal)




























13/03/2021

São Josemaria - Textos

 


Saber-se nada diante de Deus

Grande coisa é saber-se nada diante de Deus, porque é assim mesmo. (Sulco, 260)

Deixa-me que te recorde, entre outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade:

– pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou mais bem dito do que o que os outros fazem ou dizem;

– querer levar sempre a tua avante;

– discutir sem razão ou, quando a tens, insistir com teimosia e de maus modos;

– dar a tua opinião sem ta pedirem ou sem a caridade o exigir;

– desprezar o ponto de vista dos outros;

– não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;

– não reconhecer que és indigno de toda a honra e estima, inclusive da terra que pisas e das coisas que possuis;

– citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;

– falar mal de ti mesmo, para fazerem bom juízo de ti ou te contradizerem;

– desculpar-te quando te repreendem;

– ocultar ao Director algumas faltas humilhantes, para que não perca o conceito que faz de ti;

– ouvir com complacência quem te louva, ou alegrar-te por terem falado bem de ti;

– doer-te que outros sejam mais estimados do que tu;

– negar-te a desempenhar ofícios inferiores;

– procurar ou desejar singularizar-te;

– insinuar na conversa palavras de louvor próprio, ou que dão a entender a tua honradez, o teu engenho ou destreza, o teu prestígio profissional...;

– envergonhar-te por careceres de certos bens... (Sulco, 263)

Leitura Espiritual Mar 13

 


Novo Testamento

 

Evangelho


Lc VIII, 1-21

 

Jesus é servido por piedosas mulheres

1 Em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze 2 e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; 3 Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens.

 

Parábola do semeador

4 Como estivesse reunida uma grande multidão, e de todas as cidades viessem ter com Ele, disse esta parábola: 5 Saiu o semeador para semear a sua semente. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, foi pisada e as aves do céu comeram-na. 6 Outra caiu sobre a rocha e, depois de ter germinado, secou por falta de humidade. 7 Outra caiu no meio de espinhos, e os espinhos, crescendo com ela, sufocaram-na. 8 Uma outra caiu em boa terra e, uma vez nascida, deu fruto centuplicado. Dizendo isto, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, oiça! 9 Os discípulos perguntaram-lhe o significado desta parábola. 10 Disse-lhes: A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino de Deus; mas aos outros fala-se-lhes em parábolas, a fim de que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam. 11 O significado da parábola é este: a semente é a Palavra de Deus. 12 Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem, mas em seguida vem o diabo e tira-lhes a palavra do coração, para não se salvarem, acreditando. 13 Os que estão sobre a rocha são os que, ao ouvirem, recebem a palavra com alegria; mas, como não têm raiz, acreditam por algum tempo e afastam-se na hora da provação. 14 A que caiu entre espinhos são aqueles que ouviram, mas, indo pelo seu caminho, são sufocados pelos cuidados, pela riqueza, pelos prazeres da vida e não chegam a dar fruto. 15 E a que caiu em terra boa são aqueles que, tendo ouvido a palavra, com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança.

 

Parábola da lâmpada

16 Ninguém acende uma candeia para a cobrir com um vaso ou para a esconder debaixo da cama; mas coloca-a no candelabro, para que vejam a luz aqueles que entram. 17 Porque não há coisa oculta que não venha a manifestar-se, nem escondida que não se saiba e venha à luz. 18 Vede, pois, como ouvis, porque àquele que tiver, ser-lhe-á dado; mas àquele que não tiver, ser-lhe-á tirado mesmo o que julga possuir.

 

A mãe e os parentes de Jesus

19 Sua mãe e seus irmãos vieram ter com Ele, mas não podiam aproximar-se por causa da multidão. 20 Anunciaram-lhe: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te.’ 21 Mas Ele respondeu-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.

 

Texto

 


CARTA APOSTÓLICA

SANCTORUM ALTRIX

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

NO XV CENTENÁRIO

DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO

PATRONO DA EUROPA, MENSAGEIRO DA PAZ

 

  III

  No tempo de S. Bento a comunidade eclesial e a sociedade humana mostravam muitas semelhanças com as condições da vida humana que existem hoje. As perturbações do Estado e a incerteza do futuro, estando iminente a guerra ou tendo já rebentado, originavam males que aterravam os ânimos. Por isto aconteceu que a vida foi julgada desprovida de todo o significado certo e definido.

  Dentro da Igreja acalmara-se finalmente a prolongada luta, com que se investigavam apaixonadamente os mistérios de Deus, sobretudo a imperscrutável verdade da divindade do Filho e da Sua autêntica humanidade. Todas estas matérias ressoavam como eco nas palavras, dignas de eterna memória, de Leão Magno, sucessor de S. Pedro e bispo de Roma.

  S. Bento, reconhecendo este estado de coisas, pediu a Deus e à tradição viva da Igreja a luz e o caminho que devia seguir. A determinação por ele tomada pode considerar-se como paradigma do dever cristão nas várias alternativas desta peregrinação terrena, embora não existisse um método de vida certo e definido.

  Jesus Cristo é o centro vital, absolutamente necessário, a que todas as coisas devem referir-se, para que a estas possa ser dado sentido e elas possam harmonizar-se solidamente. Apelando para a afirmação de S. Cipriano, Bispo de Cartago, Bento afirma com energia e gravidade que absolutamente "nada pode ser anteposto ao amor de Cristo" [19].

  Nos homens, porém, e nas coisas, há força e importância na medida em que tudo está ligado com Cristo; portanto a esta luz tudo deve ser considerado e estimado. Todos os que estão no mosteiro — do superior (que é o pai, o abade) até ao hóspede desconhecido e pobre, do doente ao último dos irmãos — significam a presença viva de Cristo. Também as coisas são sinais do amor de Deus para com as criaturas, ou do amor com que o homem é levado para Deus, e até mesmo um instrumento e uma ferramenta para se fazer um trabalho "sejam considerados como vasos sagrados do altar" [20].

  S. Bento não propõe alguma vazia consideração teológica, mas partindo da verdade das coisas, segundo o uso, inculca nas almas um modo de pensar e de agir, segundo o qual a teologia é transferida para a prática da vida. Não tem tanto a peito falar das verdades sobre Cristo quanto, partindo do mistério de Cristo e do "Cristocentrismo" dele derivado, viver uma vida bem autêntica.

  É necessário que o primeiro lugar, que é atribuído ao modo sobrenatural de sentir as vicissitudes quotidianas, concorde com a verdade da Encarnação: porque, ao homem fiel a Deus, não é lícito esquecer-se do que é humano, deve ser fiel também ao homem. Por isso, o dever para cumprir, de modo vertical como dizem, que se manifesta sobretudo na vida de oração, está devidamente equilibrado se se harmoniza devidamente com o que requer o modo "horizontal", de que a parte mais importante é o trabalho.

  Na convivência monástica, portanto, sob a guia daquele que "se crê fazer as vezes de Cristo" [21], S. Bento mostra o caminho que há-de percorrer-se, o qual se distingue por grande uniformidade. Este caminho, que está entre a solidão e a convivência, entre a oração e o trabalho, é necessário que também o leigo do nosso tempo o percorra — ainda que sejam diversos os pesos para atribuir a estas coisas — a fim de poder realizar perfeitamente a sua vocação.

 

  IV

  O amor verdadeiro e absoluto a Cristo manifesta-se de modo significativo na oração; que é por assim dizer o eixo à volta do qual rodam a convivência quotidiana e toda a vida beneditina.

  Mas o fundamento da oração, em conformidade com uma sentença de S. Bento, está em que alguém ouça a palavra; porque o Verbo encarnado — aqui, hoje, a cada homem na condição presente que não se repete — fala através das Escrituras e do ministério eclesial; coisa que no mosteiro se realiza também por meio das palavras do pai e dos irmãos da comunidade.

  Em tal obediência de fé, a palavra de Deus é recebida com humildade e alegria, derivando esta de se reconhecer uma perene novidade, que o tempo não diminui, pelo contrário torna mais viva e de dia para dia mais atraente. E esta palavra torna-se fonte inexausta de oração, porque "o próprio Deus fala à alma, sugerindo-lhe as respostas, que o Seu coração espera. Esta oração é dividida pelos vários períodos do dia e, como veia de água subterrânea, alimenta o trabalho quotidiano" [22].

  E pela meditação tranquila e saborosa — que é verdadeira ruminação espiritual — a palavra de Deus excita nas almas dadas à oração aqueles agudos raios de luz, que iluminam o decurso do dia inteiro. Na verdade, esta é a "oração do coração", aquela "breve e pura oração" [23], por meio da qual aos divinos impulsos respondemos, e ao mesmo tempo pedimos ao Senhor que nos conceda o inexaurível dom da sua misericórdia.

  Portanto a palavra de Deus, que encerra o profundo mistério da salvação, todos os dias é ouvida amorosamente pela alma e é meditada com solicitude; isto faz-se por certo empenho vital, que se explicita não por ciência humana mas pela sabedoria, que traz em si alguma coisa de divino; isto é, não para que saibamos mais, mas para que, se é lícito assim falar, para que sejamos mais: para falarmos com Deus, para a Ele dirigirmos a Sua mesma palavra, para pensarmos o que Ele pensa, numa palavra, para vivermos a Sua mesma vida.

  O fiel, ouvindo a palavra de Deus, é levado a entender o curso das coisas múltiplas e várias como também dos tempos, que o Senhor providente decidiu acontecessem na família humana, de maneira que à alma crente fosse apresentado mais amplo espectáculo da munificência salvífica. Por isso do mesmo modo acontece que as maravilhas de Deus sejam captadas pela fé de olhos abertos e com os ouvidos atentos [24]. A luz deífica da contemplação acende a centelha e quer o silêncio, junto à admiração; e o cântico de exultação e a pronta acção de graças dão àquela oração índole particular, mediante a qual os monges celebram cantando os louvores do Senhor cada dia. Então a oração torna-se quase a voz da criação inteira e toma o lugar do excelso canto da Jerusalém celeste. A palavra de Deus nesta peregrinação terrena faz que toda a vida seja sentida como aberta a Deus que olha, e na oração ao Pai vem a ser dada voz àqueles que agora já não a têm: as alegrias e as ansiedades, os êxitos favoráveis e as esperanças desiludidas, e as expectativas de acontecimento propício ressoam nela de algum modo.

  S. Bento é principalmente levado por esta palavra de Deus na sagrada liturgia, não procurando contudo que se torne a comunidade somente uma reunião para celebrar os mistérios divinos com ardor, mas que declare harmoniosamente a comum experiência recebida no Espírito com o canto coral; de facto, tem muito a peito que as disposições íntimas correspondam à palavra de Deus pronunciada e cantada: "a mente esteja de acordo com a palavra" [25]. A Sagrada Escritura, conhecida e apreciada deste modo vital, é lida com gosto, quando ao mesmo tempo há aplicação intensa à oração. Por impulso de amor, a alma recolhe-se muitas vezes diante de Deus; nada é preferido à Obra de Deus [26]; a oração, feita na liturgia, transfere-se para a vida, e a vida mesma torna-se oração. A oração, logo que termina a liturgia, levada como de círculos pequenos a outros maiores, amplifica-se e propaga-se no estado de alma recolhido e silencioso, e por isso acontece que alguém de modo especial ore consigo mesmo e que o hábito da oração penetre as acções e os momentos do dia.

  S. Bento, amante da palavra de Deus, lê-a não só na Bíblia sagrada mas também no grande livro que é a natureza. O homem, contemplando a beleza da criatura, comove-se nos recessos mais íntimos do espírito, e é levado a recordar Aquele que é sua fonte e origem; ao mesmo tempo é levado a comportar-se com reverência para com a natureza, a pôr-lhe em evidência a beleza, respeitando-lhe a verdade.

  "Onde sopra o silêncio, fala a oração" [27]: na solidão, de facto, a oração aumenta por certa riqueza pessoal; o que deve referir-se não só ao vale inculto do Aniene, onde S. Bento na solidão falava a sós com Deus, mas também à cidade repleta de progressos técnicos mas distractiva para os espíritos, onde o homem da nossa época se vê muitas vezes segregado e entregue a si mesmo. Mas é necessário que a alma se exercite nalgum deserto, a fim de poder levar vida autenticamente espiritual; porque ele previne contra as palavras vazias e torna mais fácil o trato que é necessário ter com Deus, com os homens e com as coisas. No silêncio do deserto, os motivos que se interpõem entre uns e outros, ficam reduzidos àquilo que é principal e primário, acrescentando-se-lhe certa austeridade, enquanto se purifica o coração, enquanto se descobre de novo o hábito da oração quotidiana, que do íntimo do coração se eleva a Deus. Oração que verdadeiramente não é feita com Ele na abundância das palavras mas na pureza do coração inflamado e na compunção das lágrimas [28].

 

IOANNES PAULUS II

 

Notas:

[19] Cf. Regra de S. Bento, 4, 21; 72, 11.

[20] Cf. Regra de S. Bento, 31, 10.

[21] Regra de S. Bento, 63, 13; cf. ibid. 2, 2.

[22] Cf. Aloc. de Paulo VI às Superioras Beneditinas, 29.9.1976: Insegnamenti di Paolo VI, XIV 1976, p. 771.

[23] Cf. Regra de S. Bento, 20, 4.

[24] Cf. Regra de S. Bento, Prólog.. 9.

[25] Regra de S. Bento, 19, 7.

[26] Cf. Regra de S. Bento, 4, 55; 4, 56; 43, 3.

[27] Cf. Aloc. de Paulo VI aos monges beneditinos, 8.9.1971: AAS 63 (1971), p. 746.

[28] Cf. Regra de S. Bento, 20, 3; 52, 4.

 

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Filosofia e Religião, Vida Humana

 


Democracia

Condições e bases da democracia

  Condição fundamental para a autêntica democracia é certo grau de maturidade cultural e cívica. A experiência prova que nas sociedades subdesenvolvidas a democracia se torna uma utopia. A própria inclusão extemporânea dos processos demecráticosegenera facilmente em anarquia, que por sua vez abrirá caminho necessário a qualquer das formas de ditadura. A maturidade de que se fala revela-se por uma certa capacidade de discernimento, opinião justa e equilibrada, expressão dos próprios sentimentos, objectividade, harmonia e conveniência com o bem comum.

  A verdadeira democracia respeita os direitos da família, da educação, livre opinião, opção e responsabilidade nos próprios destinos. Reclama um alto sentido de serviço tanto para governantes como para governados.

  A liberdade religiosa é um direito que o homem tem, a partir da sua condição de criatura. Mesmo os agnósticos e ateus têm a obrigação, pelo menos, de respeitar a liberdade de consciência e as convicções de cada um.

   Por direito natural é à família que compete educar.A educação é o prolongamento e o exercício continuado daquele amor inicial que deu origem ao acto da vida.A própria natureza dotou os pais daquela força de inclinação e instinto que os capacita para tão alta tarefa. Por isso,é à família que compete o direito de escolher as escolas dos seus filhos

(A Ferraz, Cristãos e liberdades democráticas, BROTÈRIA, Vol. 99, 1974)

Reflexão na Quaresma

 


Humildade

O Senhor ensina-nos que devemos ser humildes e que devemos procurar conforto nos outros quando estivermos tristes, ainda que o que tenta consolar-nos seja mais ignorante do que nós.

 

(Luís de Palma, A Paixão do Senhor, Éfeso, 1991, pg. 81-82)

Pequena agenda do cristão - Sábado

   



SÁBADO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Orações sugeridas: