18/01/2021

A riqueza da fé

Não sejas pessimista. – Não sabes que tudo quanto sucede ou pode suceder é para bem? – O teu optimismo será a consequência necessária da tua fé. (Caminho, 378)

No meio das limitações inseparáveis da nossa situação presente, porque o pecado ainda habita em nós de algum modo, o cristão vê com nova clareza toda a riqueza da sua filiação divina, quando se reconhece plenamente livre porque trabalha nas coisas do seu Pai, quando a sua alegria se torna constante por nada ser capaz de lhe destruir a esperança. Pois é também nesse momento que é capaz de admirar todas as belezas e maravilhas da Terra, de apreciar toda a riqueza e toda a bondade, de amar com a inteireza e a pureza para que foi criado o coração humano. Também é nessa altura que a dor perante o pecado não degenera num gesto amargo, desesperado ou altivo porque a compunção e o conhecimento da fraqueza humana conduzem-no a identificar-se outra vez com as ânsias redentoras de Cristo e a sentir mais profundamente a solidariedade com todos os homens. É então, finalmente, que o cristão experimenta em si com segurança a força do Espírito Santo, de tal maneira que as suas quedas pessoais não o abatem; são um convite a recomeçar e a continuar a ser testemunha fiel de Cristo em todas as encruzilhadas da Terra, apesar das misérias pessoais, que nestes casos costumam ser faltas leves, que apenas turvam a alma; e, ainda que fossem graves, acudindo ao Sacramento da Penitência com compunção, volta-se à paz de Deus e a ser de novo uma boa testemunha das suas misericórdias. Tal é, em breve resumo que mal consegue traduzir em pobres palavras humanas a riqueza da fé, a vida do cristão, quando se deixa guiar pelo Espírito Santo. (Cristo que passa, 138)

 

LEITURA ESPIRITUAL Janeiro 18

 

Evangelho

 Mt XXVI 57 – 75; XXVII 1 - 2

Em casa de Caifás

57 Os que tinham prendido Jesus conduziram-no à casa do Sumo Sacerdote Caifás, onde os doutores da Lei e os anciãos do povo se tinham reunido. 58 Pedro seguiu-o de longe até ao palácio do Sumo Sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se entre os servos, para ver o desfecho de tudo aquilo. 59 Os sumos sacerdotes e todo o Conselho procuravam um depoimento falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte. 60 Mas não o encontraram, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Apresentaram-se finalmente duas, 61 que declararam: «Este homem disse: ‘Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias.’» 62 O Sumo Sacerdote ergueu-se, então, e disse-lhe: «Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra ti?» 63 Mas Jesus continuava calado. O Sumo Sacerdote disse-lhe: «Intimo-te, pelo Deus vivo, que nos digas se és o Messias, o Filho de Deus.» 64 Jesus respondeu-lhe: «Tu o disseste. E Eu digo-vos: Vereis um dia o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.» 65 Então, o Sumo Sacerdote rasgou as vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos, ainda, de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia. 66 Que vos parece?» Eles responderam: «É réu de morte.» 67 Depois cuspiam-lhe no rosto e batiam-lhe. Outros esbofeteavam-no, dizendo: 68 «Profetiza, Messias: quem foi que te bateu?»

Negações de Pedro

69 Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe: «Tu também estavas com Jesus, o Galileu.» 70 Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei o que dizes.» 71 Dirigindo-se para a porta, outra criada viu-o e disse aos que ali estavam: «Este também estava com Jesus, o Nazareno.» 72 Ele negou de novo com juramento: «Não conheço esse homem.» 73 Um momento depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «Com certeza tu és dos seus, pois até a tua maneira de falar te denuncia.» 74 Começou, então, a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço esse homem!» No mesmo instante, o galo cantou. 75 E Pedro lembrou-se das palavras de Jesus: «Antes de o galo cantar, me negarás três vezes.» E, saindo para fora, chorou amargamente.

Conselho do Sinédrio

1 Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo tiveram conselho contra Jesus, para O entregarem à morte. 2 Em seguida, manietado, levaram-n'O e entregaram-n'O ao governador Pôncio Pilatos.

 


Vocação (cont)

  Noutro local já abordámos algumas características do comportamento humano e os efeitos, consequências e utilidade que têm na vida comum.

Essas características emanam do carácter, ou melhor, formatam o carácter de cada indivíduo, tornando-o verdadeiramente único e singular e, que em suma, são as virtudes, as potências, os defeitos, as capacidades pessoais.

  Não parece haver dúvida que para progredir no sentido da melhoria em cada uma destas características é fundamental o conhecimento próprio do que se é como pessoa. Para tal é necessário, em primeiríssimo lugar uma postura de honestidade completa e uma decisão de proceder conforme o que o resultado desse exame propuser.

  Não basta concluir que sou volúvel se não fizer um esforço para deixar de o ser.

  O (re)conhecimento do que se é, deve levar, não a ser algo diferente, mas a concluir que é fundamental corrigir aquilo que, com honestidade, repete-se, verificamos que está mal ou poderia ser melhor, num esforço contínuo e sem tréguas por conseguir esse objectivo.

  Quando me apercebo que caio com facilidade na murmuração ou comentários sobre os outros ou o seu comportamento, terei de esforçar-me para corrigir esta tendência e estar decidido, não só a fazê-lo, mas ter a consciência que não o conseguirei sem uma dedicação constante a essa tarefa.

  Normalmente, uma das formas mais aconselhadas de o fazer é actuar de forma positiva, isto é, não dizer mal ou murmurar, mas não o fazer de todo.

A forma negativa seria dizer bem ou tecer encómios, coisa que, por vezes, pode não ter justificação.

Aos poucos, talvez muito lentamente, vai-se criando um hábito de não ceder a essa tendência.

Assim consegue-se uma nítida melhoria tal como nos propusemos.

  É muito possível verificarmos ter várias características a corrigir, a melhorar mas é necessário fugir à tentação de travar uma luta, como se diz, em todas as frentes, porque talvez não consigamos ganhar uma só que seja.

  Por isso, tal como também já se abordou, é fundamental concluir o que é dominante no nosso carácter e actuar aí com a intenção de corrigir ou de melhorar porque a luta pela melhoria pessoal não se trava só corrigindo ou evitando o que é menos bom mas em promover o que temos de melhor.

  A um defeito ou fraqueza opõe-se sempre uma virtude e uma potência e, por vezes, talvez baste implementar estes para diminuir a importância ou impacto daqueles.

   Se sou uma pessoa generosa será útil decidir ser ainda mais generoso e, desta forma, ir-se-á resolvendo algum problema de egoísmo.

  Em suma, em vez de tentar não fazer algo mau ou sem utilidade, esforçar-se por praticar o bem contrário.

  ‘A dificuldade não está em não furtar os bens alheios, mas sim em não os desejar. É fácil em tribunal não levantar falso testemunho, mas difícil será em não mentir nas conversas. Com facilidade nos afastaremos da embriaguez, mas com maior dificuldade viveremos a sobriedade. [1]

É fundamental que a consciência do bem e do mal esteja devidamente formada, que as balizas sejam nítidas e que não se tente esconder a realidade com uma justificação momentânea.

  Nada pode justificar um mau procedimento mesmo com a remota pretensão de que se alcançará um bem.

  Não é eliminando fisicamente o violentador que se eliminam os efeitos da violência que perpetrou ou, sequer, atenua o sofrimento que lhe estará adjacente.

Para o conseguir, o caminho a seguir é actuar junto de quem sofreu a violência assistindo-o para ajudar a ultrapassar a situação.

  Isto não tem tudo a ver com a justiça que, quase sempre, se preocupa mais com o primeiro que com o segundo.

  Porquê?

  Porque praticar a justiça não pode limitar-se a aplicar a sanção que eventualmente o prevaricador mereça mas, também, em assistir sériamente a vítima.

  Isto acontece com frequência quando a justiça – o que comummente se apelida justiça – se limita a aplicar a lei conforme o legislador previu e se tenta compensar a vítima, ou vítimas, com as indemnizações também previstas, quando o que de facto necessitavam e, aliás, teriam o direito de esperar, era um apoio concreto e categorizado para conseguirem ultrapassar a situação que lhes foi imposta.

  Na verdade, um prevaricador pode sempre reabilitar-se, em primeiro lugar cumprindo a pena aplicada, depois com a reparação estipulada, e, evidentemente, com um arrependimento sincero que conduza a não repetir acto, ou actos semelhantes, e, tendo, por assim dizer, pago a sua dívida para com a sociedade, retomar uma vida normal sem mais consequências.

  Quanto à vítima, é diferente, se não receber ou, de alguma forma, tiver acesso aos apoios adequados, tenderá a arrastar indefinidamente o fardo da violência a que foi sujeita não conseguindo retomar a vida como a tinha antes de tal ter acontecido.

  Esta é a forma comum e usual de administração da justiça humana.

Mas, quando se refere às relações do homem com Deus já não é assim.

 

 



[1] são francisco de sales, Introdução à Vida devota, IV, 8

Reflexão


O amor próprio

É difícil conviver com ele e admitir que o tenho.

E, de facto, está na raiz de muitos sentimentos errados como, por exemplo, o sentir-me ofendido por alguém não reconhecer os meus méritos ou predicados.

Talvez que a solução esteja em pensar: ‘O que diria se me conhecesse bem... muito pior seguramente...’



13.12.2020

FILOSOFIA E RELIGIÃO

 

CONTROLO DA NATALIDADE

 

Do ponto de vista da gravidade do pecado, a prática anticonceptiva vem logo a seguir ao homicídio, porque, se o homicídio destrói o ser humano já existente, a anticoncepção nem sequer permite que nele comece a existir. O resultado é o mesmo, que é, em ultima análise, a destruição da raça humana. Só o modo é diferente.

 

São Tomás. d'Aquino, Contra Gentes, III, cap. 122

Pequena agenda do cristão

 

SeGUNDa-Feira

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça "boa cara" que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


17/01/2021

O amor manifesta-se com factos

Vai até Belém, aproxima-te do Menino, baila com Ele, diz-lhe muitas coisas vibrantes, aperta-o contra o coração... Não estou a falar de infantilidades: falo de amor! E o amor manifesta-se com factos: na intimidade da tua alma, bem o podes abraçar! (Forja, 345)


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens. Ao falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre. Preciso de considerá-Lo assim, porque tenho de aprender d'Ele. E para aprender d'Ele é necessário conhecer a sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno de Jesus.

Na verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como agora estamos fazendo diante do presépio. É preciso entender as lições que nos dá Jesus já desde menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens. Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino. (Cristo que passa, 13–14)

 

LEITURA ESPIRITUAL Janeiro 17

 

Evangelho

Mt XXVI 30 - 56

Jesus prediz o abandono dos discípulos

30 Depois de cantarem os salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. 31 Jesus disse-lhes, então: «Nesta mesma noite, todos ficareis perturbados por minha causa, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho serão dispersas. 32 Mas, depois da minha ressurreição, hei-de preceder-vos na Galileia.» 33 Tomando a palavra, Pedro respondeu-lhe: «Ainda que todos fiquem perturbados por tua causa, eu nunca me perturbarei!» 34 Jesus retorquiu-lhe: «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes de o galo cantar, vais negar-me três vezes.» 35 Pedro disse-lhe: «Mesmo que tenha de morrer contigo, não te negarei!» E todos os discípulos afirmaram o mesmo.

Em Getzemani

36 Entretanto, Jesus com os seus discípulos chegou a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: «Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar.» 37 E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. 38 Disse-lhes, então: «A minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai comigo.» 39 E, adiantando-se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres.» 40 Voltando para junto dos discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo! 41 Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.» 42 Afastou-se, pela segunda vez, e foi orar, dizendo: «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!» 43 Depois voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados. 44 Deixou-os e foi orar de novo pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45 Reunindo-se finalmente aos discípulos, disse-lhes: «Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora, e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. 46 Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que me vai entregar.»

Entrega e prisão de Jesus

47 Ainda Ele falava, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus, enviada pelos sumos sacerdotes e pelos anciãos do povo. 48 O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo: prendei-o.» 49 Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: «Salve, Mestre!» E beijou-o. 50 Jesus respondeu-lhe: «Amigo, a que vieste?» Então, avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no. 51 Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha. 52 Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada. 53 Julgas que não posso recorrer a meu Pai? Ele imediatamente me enviaria mais de doze legiões de anjos! 54 Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve acontecer?» 55 Voltando-se, depois, para a multidão, disse: «Viestes prender-me com espadas e varapaus, como se eu fosse um ladrão! Todos os dias estava sentado no templo a ensinar, e não me prendestes. 56 Mas tudo isto aconteceu, para que se cumprissem as Escrituras dos profetas.» Então, todos os discípulos o abandonaram e fugiram.

 


Vocação

 

  A descoberta da vocação implica uma finura interior, de carácter, de estabilidade, de emoções e sentimentos que deram as pistas necessárias para que essa descoberta seja concretizada numa certeza: ‘Sim, é isto que eu, definitivamente, quero para a minha vida.’

  Sem estas características o homem debate-se em mil opções diferentes que lhe vão surgindo com diversos matizes, quase sempre, vagos ou pouco concretos.

  O pior é que pode passar o resto da sua vida neste estado de indecisão, movendo-se de uma opção para outra, mudando de sentido ou orientação ao sabor quer de conveniências que julga importantes, ou quimeras com pouca ou nenhuma profundidade ou sustentação.

  Daí surgem os maus profissionais que não cumprem o que é lícito esperar deles e que arrastam a tal vida medíocre e conformada que citámos antes.

  Se este factos têm uma importância fundamental na vida do indivíduo e da sua integração na sociedade, ajustando-se num lugar e papel que sabe ser o seu e para o qual tem aptidões que adquiriu, ou seja, se exerce aquilo para o qual a sua vocação o inclinou, parece legítimo deduzir-se que, na ausência destas linhas mestras, a pessoa tenda para um desajustamento e uma insatisfação pessoal permanentes, podendo cair na tentação de procurar soluções tardias que pode ser levado a experimentar na tentativa de colmatar essas faltas.

  Daqui o abandono da profissão, ou da família, que entretanto se foi formando, a troca das realidades estáveis pela cedência a impulsos criadores, quase sempre, de situações precárias de instabilidade.

  Infelizmente, esta parece ser, cada vez mais, uma situação comum, assistindo-se a um interminável cortejo de homens e mulheres, crianças e adultos, vivendo vidas que não os tornam felizes de forma estável mas, talvez, apenas por escasso tempo.

  Poderiam – a palavra é forte – chamar-se “desajustados” que arrastam atrás de si inúmeras pessoas que, de alguma forma, são afectadas por essas decisões.

  Perante a resposta de Cristo a quem Lhe perguntava sobre a indissolubilidade do matrimónio, alguém terá dito: «então é melhor não casar» [1] o que parece uma conclusão lógica se não se tiver em conta a magnitude do acto matrimonial, ou seja, se de facto não se está absolutamente seguro – ou se tem uma certeza razoável – de que o matrimónio celebrado com aquela pessoa concreta é, realmente, o que se deseja, quer e, em consciência, deve fazer, então, de facto, é preferível não casar.

  Consideremos que, se a descoberta da vocação indicar o matrimónio com o objectivo de constituir uma família – o principal e determinante objectivo –, a pessoa tem de ter a noção de que uma vida a dois não congela os anseios, desejos e esforços de melhoria pessoal, antes os torna num objectivo comum, cada um com a sua especificidade mas, evidentemente, numa troca constante e séria de ajudas, apoios e solidariedades nas coisas grandes e nas pequenas de cada dia.

  O próprio amor deve evoluir de um sentimento entusiasmante e cheio de promessas para uma certeza estável e comprometida, como se passasse a existir uma terceira pessoa entre os dois.

  Porquê?

  Porque se o amor não gera amor, acaba por definhar e morrer e acaba por quebrar-se o elo que unia os dois seres.

  A capacidade de amar não se esgota num acto, nem, sequer, numa vida longa e, não parece que se possa amar muito, muitíssimo ou amar muito pouco ou quase nada.

        Ou seja, amar é definitivo, para sempre.

  O amor não cresce, aprofunda-se, não se torna em hábito mas sim em algo sempre novo e renovado diariamente.

  Por ser algo muito sério é que o carácter tem uma importância determinante.

Mal formado, ou com lacunas, a pessoa está muito afectada e diminuída nessa capacidade de dar e receber que, no fim e ao cabo, é o amor.

  E os Pais, professores e outros formadores o que têm a ver com o amor?

Tudo! Têm tudo a ver.

  Ao contribuírem decisivamente para a formação do carácter da pessoa deram-lhe a chave para abrirem o caminho à capacidade de satisfação pessoal de acordo com as suas características pessoais e irrepetíveis que determinarão a sua escolha e opção de vida.

Mais… ao instilarem na pessoa esse desejo concreto de melhoria, enriquecimento da sua personalidade, estão não só a dar-lhe a chave, mas também, a proporcionar-lhe importantes capacidades para que a utilizem para abrir a porta do caminho que lhe convém à felicidade pessoal e à felicidade dos outros com quem se relacione.

 



[1] Cfr. Mt 19, 11

Reflexão

 

Importa muito – mais ainda, tudo – uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar (à meta), venha o que vier, aconteça o que acontecer, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, ainda que se morra no caminho, ainda que se afunde o mundo.


(Santa Teresa de Ávila, Camino de perfección, 21, 3)

SACRAMENTOS

O Matrimónio

 

3. Propriedades essenciais do matrimónio

 

Na sua pregação, Jesus ensinou sem equívocos o sentido original da união do homem e da mulher, tal como o Criador a quis no princípio: a permissão de repudiar a sua mulher, dada por Moisés, era uma concessão à dureza do coração (cf. Mt 19, 8): a união matrimonial do homem e da mulher é indissolúvel: foi o próprio Deus que a estabeleceu: «Não separe, pois, o homem o que Deus uniu» (Mt 19, 6)» (Catecismo, 1614). Em virtude do sacramento, em que os esposos cristãos manifestam e participam do mistério da unidade e do amor fecundo entre Cristo e a Igreja (Ef 5, 32), a indissolubilidade adquire um novo sentido e mais profundo aumentando a solidez original do vínculo conjugal, de modo que “o matrimónio rato (isto é, celebrado entre baptizados) e consumado não pode ser dissolvido por nenhum poder humano, nem por nenhuma causa, além da morte” (CDC, 1141).

Pequena agenda do cristão

 


DOMINGO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



[i] Cfr. Lc 1, 38
[ii] AMA, orações pessoais
[iii] AMA, orações pessoais
[iv] AMA, orações pessoais
[v] Btº Álvaro del Portillo (oração pessoal)






























16/01/2021

Dar é próprio dos apaixonados

O teu talento, a tua simpatia, as tuas condições... perdem-se; não te deixam aproveitá-las. – Pensas bem nestas palavras de um autor espiritual: "Não se perde o incenso que se oferece a Deus. – Mais se honra o Senhor com o abatimento dos teus talentos do que com o seu uso vão". (Caminho, 684)

E, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes de ouro, incenso e mirra. Detenhamo-nos um pouco para entender este passo do Santo Evangelho. Como é possível que nós, que nada somos e nada valemos, ofereçamos alguma coisa a Deus? Diz a Escritura: toda a dádiva e todo o dom perfeito vem do alto. O homem não consegue descobrir plenamente a profundidade e a beleza dos dons do Senhor: se tu conhecesses o dom de Deus... – responde Jesus à mulher samaritana. Jesus Cristo ensinou-nos a esperar tudo do Pai, a procurar antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça, porque tudo o resto se nos dará por acréscimo e Ele conhece bem as nossas necessidades.

Na economia da salvação, o nosso Pai cuida de cada alma com amor e delicadeza: cada um recebeu de Deus o seu próprio dom; uns de um modo, outros de outro. Portanto, podia parecer inútil cansarmo-nos, tentando apresentar ao Senhor algo de que Ele precise; dada a nossa situação de devedores que não têm com que saldar as dívidas, as nossas ofertas assemelhar-se-iam às da Antiga Lei, que Deus já não aceita: Tu não quiseste os sacrifícios, as oblações e os holocaustos pelo pecado, nem te são agradáveis as coisas que se oferecem segundo a Lei. Mas o Senhor sabe que o dar é próprio dos apaixonados e Ele próprio nos diz o que deseja de nós. Não lhe interessam riquezas, nem frutos, nem animais da terra, do mar ou do ar, porque tudo isso lhe pertence. Quer algo de íntimo, que havemos de lhe entregar com liberdade: dá-me, meu filho, o teu coração. Vedes? Se compartilha, não fica satisfeito: quer tudo para si. Repito: não pretende o que é nosso; quer-nos a nós mesmos. Daí – e só daí – advêm todas as outras ofertas que podemos fazer ao Senhor. (Cristo que passa, 35)

 

Maria é Mãe da ciência

Maria é Mãe da ciência, porque com Ela se aprende a lição que mais importa: que nada vale a pena se não estamos junto do Senhor, que de nada servem todas as maravilhas da terra, todas as ambições satisfeitas, se no nosso peito não arde a chama de amor vivo, a luz da santa esperança, que é uma antecipação do amor interminável, na nossa Pátria definitiva.

Em mim encontra-se toda a graça de doutrina e de verdade, em mim toda a esperança de vida e de virtude. Com quanta sabedoria pôs a Igreja estas palavras na boca da nossa Mãe, para que nós, os cristãos, não as esqueçamos. Ela é a segurança, o Amor que nunca nos abandona, o abrigo constantemente aberto, a mão que acaricia e consola sempre.

 

J. A. Loarte

LEITURA ESPIRITUAL Janeiro 16

 

Evangelho

 

Mt XXVI 1 - 29

 

Jesus prediz a Sua Morte

1 Tendo acabado todos estes discursos, Jesus disse aos discípulos: 2 «Como sabeis, a Páscoa é daqui a dois dias, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado.»

 Reunião do Sinédrio

3 Então, os sumos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se no palácio do Sumo Sacerdote, que se chamava Caifás, 4 e deliberaram prender Jesus, à traição, e matá-lo. 5 Diziam, porém: «Que não seja durante a festa, para não haver alvoroço entre o povo.»

Refeição em Betânia

6 Jesus encontrava-se em Betânia, em casa de Simão, o leproso. 7 Enquanto estava à mesa, aproximou-se dele uma mulher, que trazia um frasco de alabastro com um perfume de alto preço e derramou-lho sobre a cabeça. 8 Ao verem isto, os discípulos ficaram indignados e disseram: «Para quê este desperdício? 9 Podia vender-se por bom preço e dar-se o dinheiro aos pobres.» 10 Jesus apercebeu-se de tudo e disse: «Porque afligis esta mulher? Ela praticou uma boa acção para comigo. 11 Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis. 12 Derramando este perfume sobre o meu corpo, ela preparou a minha sepultura. 13 Em verdade vos digo: Em qualquer parte do mundo onde este Evangelho for anunciado, há-de também narrar-se, em sua memória, o que ela acaba de fazer.»

Judas vende Jesus

14 Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes 15 e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16 E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

Jesus manda preparar a Última Ceia

 17 No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» 18 Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’» 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa.

Jesus indica o traidor

20 Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze. 21 Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.» 22 Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?» 23 Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. 24 O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!» 25 Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» - respondeu Jesus.

Instituição da Eucaristia

26 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo.» 27 Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos. 28 Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados. 29 Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira, até ao dia em que beber o vinho novo convosco no Reino de meu Pai.»

 


Desejo de melhoria e bem comum (cont)

  O carácter é, chamemos-lhe assim, o disco formatado da nossa estrutura humana.

  É o conjunto de capacidades, virtudes, defeitos, desejos, anseios de cada um e a estrutura combinada destes mesmos atributos que nos leva a eleger a prática desta ou aquela acção, a aceitar ou repudiar este ou aquele sentimento.

  É o que os psicólogos chamam:

 Personalidade

   Sabemos que houve a tentativa de separar as duas definições como sendo, o carácter o conjunto que a pessoa tem desde que nasce, ao passo que, a personalidade seria a súmula dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida.

  Não se deve concordar com esta articulação, principalmente porque, tal equivaleria dizer que o carácter se atém a uma imutabilidade inicial e, a personalidade, dependeria de uma variação constante, o que, não se pode considerar como possível.

  A personalidade forma-se, de facto, como o carácter, na sucessão de acontecimentos ao longo da vida mas, até um certo ponto, quer dizer, há um momento a partir do qual o carácter (a personalidade) estão definidos e assentes e já não mudam substancialmente na sua estrutura.

Esse momento é aquilo a que chamamos a “idade madura” ([1]) ou seja, quando a pessoa sabe, definitivamente o que quer e o que lhe convém e, também, o que não deve querer nem lhe deve interessar para a sua vida.

 Quando?

  Esse momento surge em cada um em tempo e de forma diferente e, claro dependendo do que recebeu, e quanto recebeu, nos primeiros anos de vida.

Daqui, repete-se, o contributo fundamental dos Pais, em primeiríssimo lugar, os professores e demais formadores depois.

  Mas não frisemos apenas o contributo fundamental, mas a obrigação inalienável, o dever grave, de cada um dos actores mencionados cumprir com rigor o seu papel.

  Quem não recebe esta formação em devido tempo terá muito maior dificuldade em afirmar-se na vida como ser individual e independente, com uma capacidade de opção e liberdade de escolha a que tem direito como qualquer ser humano.

Pode vir a colmatar esta lacuna no futuro, é evidente, mas, voltamos a mencionar, não existindo a formatação inicial, levá-lo-á a vaguear por conta própria por diversos caminhos que, se não o conduzirem a más soluções, pelo menos, o farão perder um tempo precioso porque, sempre, escasso.

  Chegado o momento das opções sérias que podem mudar de forma mais ou menos radical a própria vida, a pessoa deficientemente formada não tem capacidade de eleição e, até talvez, lhe passe despercebido esse chamamento íntimo, que normalmente se denomina como vocação própria.

  O que vou fazer da minha vida?

  Esta a questão fundamental com a qual, mais tarde ou mais cedo, o homem se depara.



[1] ‘Tenho que admitir que o termo maturidade (maturité, maturity reife), aplicado à personalidade é um tópico comum e de ampla circulação, cujo uso coloquial está muito espalhado entre os habitantes das mais diversas comunidades. Mas tenho de advertir que resisti durante muito tempo a empregá-lo – e quando o usei, fi-lo contra a minha vontade e com certa repugnância – devido à sua ambiguidade, indefinição, polisemia e anfibiologia. Compreendo, todavia, que quando alguém me fala de maturidade da personalidade” ou de uma pessoa “madura”, consigo entender, apesar do que acabo de afirmar, o que o meu interlocutor quer significar. Na realidade, o que acontece, na minha opinião, é que não dispomos de uma definição rigorosa e operativa para expressar de forma inconfundível, e de uma vez por todas, o que queremos significar com o termo maturidade.’  aquilino polaino-lorente, MATURIDADE PESSOAL E AMOR CONJUGAL, Factores psicológicos e psicopatlógicos, Quinta Edição, documentos do instituo de ciências para a família.