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06/03/2021

Leitura Espiritual Mar 06

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc IV, 33-44; V, 1-11

 

Jesus liberta um possesso do demónio

33 Encontrava-se na sinagoga um homem que tinha um espírito demoníaco, o qual se pôs a bradar em alta voz: 34 «Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus!» 35 Jesus ordenou-lhe: «Cala-te e sai desse homem!» O demónio, arremessando o homem para o meio da assistência, saiu dele sem lhe fazer mal algum. 36 Dominados pelo espanto, diziam uns aos outros: «Que palavra é esta? Ordena com autoridade e poder aos espíritos malignos, e eles saem!» 37 A sua fama espalhou-se por todos os lugares daquela região.

 

Jesus cura a sogra de Pedro e outros doentes

38 Deixando a sinagoga, Jesus entrou em casa de Simão. A sogra de Simão estava com muita febre, e intercederam junto dele em seu favor. 39 Inclinando-se sobre ela, ordenou à febre e esta deixou-a; ela erguendo-se, começou imediatamente a servi-los. 40 Ao pôr do sol, todos quantos tinham doentes, com diversas enfermidades, levavam-lhos; e Ele, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. 41 Também de muitos saíam demónios, que gritavam e diziam: «Tu és o Filho de Deus!» Mas Ele repreendia-os e não os deixava falar, porque sabiam que Ele era o Messias.

 

Jesus prega em várias cidades

42 Ao romper do dia, saiu e retirou-se para um lugar solitário. As multidões procuravam-no e, ao chegarem junto dele, tentavam retê-lo, para que não se afastasse delas. 43 Mas Ele disse-lhes: «Tenho de anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado.» 44 E pregava nas sinagogas da Judeia.

 

Pesca milagrosa

V 1  E aconteceu que, apertando-o a multidäo, para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré; 2  E viu dois barcos junto à praia do lago; e os pescadores, havendo descido deles, estavam lavando as redes. 3  E, entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, sentando-se, ensinava do barco a multidão. 4  E, quando acabou de falar, disse a Simão: Faz-te ao mar alto, e lançai a rede para pescar. 5  E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sob a tua palavra, lançarei a rede. 6  E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede. 7  E fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os fossem ajudar. E foram, e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. 8  E vendo isto Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, afasta-te de mim, que sou um homem pecador. 9  Pois que o espanto se apoderara dele, e de todos os que com ele estavam, por causa da pesca que haviam feito. 10  E, de igual modo, também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens. 11  E, levando os barcos para terra, deixaram tudo, e seguiram-nO.

 

Textos



Como o “ter” modifica a pessoa.

Muitas vezes somos levados a pensar que se estivéssemos no lugar de alguém que tem determinada posição social, a nossa atitude seria bem diferente.

Não tenho, na verdade, tanta certeza que assim seja.

Adiantando, estabeleço, desde já, que a posse - seja de um bem material, espiritual ou outro, o cargo ou posição social que se desempenha ou ocupa - condiciona e, de certa forma, “formata” o comportamento das pessoas.

Parece indiscutível que são deploráveis os resultados das acções irresponsáveis praticadas por quem tem responsabilidades.

Há muitíssimos anos, ouvi sem querer uma conversa ao telefone em que alguém contestava uma proposta que outro lhe fazia para ocupar um determinado lugar público: 'Mas, dizia, eu não tenho categoria para desempenhar esse lugar'!

Na altura - teria os meus dezoito anos - não entendi porque a pessoa em questão acabou por aceitar o tal lugar onde acabaria por permanecer doze anos mas, depois, fiquei a saber que o argumento que o convencera fora: 'Basta que o meu amigo seja igual a si mesmo'!

Igual a si mesmo!

Esta frase que ouvi desde que me conheço traduz uma profundidade que, confesso, levei muito tempo a alcançar.

Entendi a amplitude do seu significado, quando a contrapus com as palavras de Cristo: «seja o vosso falar: sim, sim; não, não. Tudo o que passa disto procede do maligno» [1]

A grande dificuldade - enorme para muitos - é a tentação de agradar a todos e não desagradar a ninguém.

Por norma, evitam a resposta directa e clara, escondendo-se em evasivas que não comprometam.

Evidentemente que, muitas vezes, o fazem por ignorância mas, como não são capazes de a admitir, como seria correcto, evoluem em desconcertantes 'ouvi dizer', 'constou-me que', como se a responsabilidade do que dizem fosse de outros e não deles próprios.

Como se, por exemplo, um professor pudesse dar uma explicação séria e credível, deixando transparecer que não acredita no que explica.

Ou, ainda, aqueles - e serão bastantes - que no confessionário - expõem os seus pecados como se fossem cometidos por outros.

 

A dificuldade em assumir a responsabilidade dos próprios actos é a consequência de uma consciência deformada.

Pode dizer-se que 'sim, sim, não, não’, é radical e uma falta de urbanidade; mas, de facto, iludir a questão, com um ‘talvez’… ou, ‘vamos a ver’, não passa de uma deformação de carácter e, o pior, é que com o tempo e a sua prática continuada se vai tornando numa faceta sempre presente que se apresenta automaticamente.

É a chamada compulsão que significa exactamente fazer algo movido por um impulso a que (já) não se resiste, porque nem se dá por ele.

Muito facilmente esta pessoa cai na mentira, invenção ou manipulação de factos e realidades, acabando por criar uma personalidade artificial onde o verdadeiro se confunde com a fantasia.

Note-se que, curiosamente, esta forma de proceder tem origem numa ‘falsa preguiça’ que é, no fim e ao cabo, partir do princípio que é mais fácil proceder assim que criar obra própria e, dizemos ‘falsa preguiça’ porque, de facto, fazer uma cópia ou um decalque exige quase o mesmo esforço.

A continuação desta forma de proceder acaba, fatalmente, em formas mais graves de apropriação de obras de outros.

É o que se passa, por exemplo, com o plágio na escrita em que se começa por copiar pequenos trechos, modificando-os um pouco, até acabar na cópia pura e simples de trechos completos de obras alheias.

Alguma impunidade de que pode, durante algum tempo, gozar, leva-o a ‘avançar’ mais descaradamente ainda na apropriação do que não é obra sua.

Esta é uma forma de actuar quase compulsiva, um hábito, que, curiosamente, não tem nenhuma explicação lógica porque, ele próprio é capaz de produzir obra de semelhante valor.

Também, com enorme à vontade, se atribuem qualidades, experiências e, até, graus académicos que não têm.

Algumas chegam a contar histórias, acontecimentos, peripécias que foram vividas por outros, que, naturalmente, não estão presentes para colocar a verdade onde ela deve residir.

A grande - enorme - dificuldade para muitos é a tentação de agradar a todos e não desagradar a ninguém.

A incapacidade de dizer 'não sei' é real porque, intimamente, está convencido que sabe ou, pelo menos, conhece razoavelmente.

Uma das características desta pessoa é uma extraordinária capacidade inventiva o que, não raro, o leva a balançar-se em áreas muito específicas como seja, por exemplo, a expressão artística.

 

 



[1] Mt 5, 37

05/03/2021

Leitura Espiritual Mar 05

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc IV, 14-32

 

Jesus na Galileia

14 Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. 15 Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam.

 

Jesus prega na sinagoga de Nazaré

16 Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. 17 Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: 18 «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, 19 a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» 20 Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21 Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» 22 Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?» 23 Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.» 24 Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. 25 Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; 26 contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. 27 Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.»

 

Os habitantes de Nazaré querem matar Jesus

28 Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. 29 E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. 30 Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.

 

Jesus vai a Cafarnaúm

31 Desceu, depois, a Cafarnaúm, cidade da Galileia, e a todos ensinava ao sábado. 32 E estavam maravilhados com o seu ensino, porque falava com autoridade.

 

Textos



Felicidade

  Todo o ser humano tem esta ânsia de felicidade e, muitas vezes, procura-a onde ela não se encontra.

 São Tomás de Aquino define-a lapidarmente:

  verdade.’ ([1])

 

Vocação

  Um professor de matemática, em casa, não tem - nem deve - ensinar matemática ao filho, mas sim transmitir-lhe a fórmula que um pai usa para o educar, de um modo geral, por exemplo, levá-lo a compreender a necessidade e vantagens de conhecer razoavelmente a matemática para poder evoluir capazmente no conjunto do plano de estudos.

Não se trata de uma dicotomia do tipo:

Em casa ensino humanista, na escola ensino técnico.

  O que pode definir um bom médico pode muito bem ser, além dos conhecimentos técnico-científicos, as capacidades pessoais de interpretação e execução e também a sua estrutura moral e cívica, enfim, o seu carácter.

 

O “querer” dos filhos

  Como pessoas que são, com uma individualidade singular, os filhos têm o seu querer, a sua vontade.

Podem e devem ter direito a ser-lhe concedida oportunidade de a manifestar, de forma correcta.

Esta forma correta quer dizer com respeito e com moderação ou, por outras palavras, nunca como uma imposição.

Mas, evidentemente, os filhos têm de aprender a querer, a educar a vontade, a ter uma noção da razoabilidade do que querem.

  Aqui entra a pedagogia da liberdade que é, no fim e ao cabo, a educação necessária e a que o filho tem direito de receber.

  Com este princípio muito básico: A liberdade pode resumir-se como sendo o respeito por si próprio e pelos outros; estabelecem-se, desde logo, os parâmetros, os limites, o enquadramento da liberdade individual.

  O filho entenderá que o seu querer não é absoluto mas sempre relativo porque não está isolado mas inserido num conjunto de quereres e conveniências de outros, nomeada e principalmente, da família próxima, os pais e os irmãos.

Não se trata aqui do querer da maioria mas sim de o querer pessoal contribuir para esse querer familiar.

Por isso, as famílias com um só filho têm alguma dificuldade de pesar ou avaliar o querer deste, já que não “joga” ou confronta nenhum outro querer.

Ele absorve toda a atenção e disponibilidade dos pais que não têm com quem reparti-las.

  Seguindo o ponto anterior, vamos abordar o tema:

O controlo da vontade e dos sentimentos, no caso, querer e desejar.

  Como é que se controla a vontade pessoal?

  Esta pergunta é legítima?

  Talvez seja desde que se tenha bem presente o que é, exactamente, a vontade pessoal. Concretamente não parece haver uma definição que satisfaça inteiramente porque tem a ver com a liberdade, tema já sobejamente abordado, logo, a vontade pessoal poderia definir-se como o uso que se dá a essa mesma liberdade pessoal.

Então, no fim e ao cabo, o que se trata é de controlar a liberdade pessoal ou, aquilo que entendemos como tal.

Nos casos que estamos a analisar: sentimentos, querer e desejar, - está bem de ver que a liberdade pessoal tem um âmbito tão vasto, abrangente e universal, que para um uso correcto -, que não fira nem o próprio nem os outros, tem de obedecer a regras e princípios.

Penso que a melhor forma de resolver o assunto - controlar a vontade ou a liberdade pessoais – é ter bem presente que todos os nossos actos, por mais insignificantes que possam ser, têm sempre consequências, causam efeitos, originam ondulações que, por vezes, nem sequer suspeitamos que possam vir a existir ou o alcance que virão a ter.

 

Não se trata de ir pela vida, circunspectamente, analisando, com o maior cuidado e rigor, o que se faz ou pensa e deseja porque, seguramente, se cairá no exagero exacerbado e tíbio de nunca fazer pensar ou desejar coisa nenhuma (se é que tal é possível), ou, pelo menos, ficar-se num imobilismo cómodo, cobarde e egoísta.

 

Em primeiro lugar há que ver quem somos na vida, o papel que ocupamos na sociedade e ter claro o que tal representa de responsabilidade e deveres.

 

A cada um compete ter evidente o que dele podem esperar, em primeiro lugar, aqueles com quem convive mais proximamente, na família, no trabalho, enfim, no ambiente e nas circunstâncias que lhe são próprias.

 

Este é um exercício, diria, de toda a vida, constante e sem pausa, porque, também, a evolução natural das circunstâncias e outras, como a idade, por exemplo, vão alterando os parâmetros, as condições, os pressupostos e, sobretudo as realidades.

 



[1] São tomás de aquino, Suma Teológica, Q. 3, a. 6.

01/03/2021

Leitura espiritual Mar 01

 


Novo Testamento

 

Evangelho

 

Lc II, 21-40

 

Circuncisão e apresentação no templo

21 Quando se completaram os oito dias, para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus indicado pelo anjo antes de ter sido concebido no seio materno.      33 Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele. 34 Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: «Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; 35 uma espada trespassará a tua alma. Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações.» 36 Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, a qual era de idade muito avançada. Depois de ter vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37 ficou viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, participando no culto noite e dia, com jejuns e orações. 38 Aparecendo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.

 

Jesus em Nazaré

39 Depois de terem cumprido tudo o que a Lei do Senhor determinava, regressaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré. 40 Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

 

Textos



  Morte

  Mas, a morte, é assim: vida!

  A vida prossegue o seu ritmo quase normal, nos primeiros tempos em que a memória está “fresca”, depois… só ocasionalmente nos recordamos do que aconteceu.

É muito bom que assim seja porque nestas memórias raramente aparecem os defeitos – que com toda a certeza a pessoa tinha – para surgirem com mais força, maior nitidez, as qualidades, os momentos bem passados, enfim, as coisas boas da vida anterior.

Assim, a morte vem nivelar as relações, as memórias.

Já não há nada a fazer!

Deparamo-nos finalmente com esta sensação estranha que não tínhamos sequer imaginado pudesse surgir: afinal, o lugar deixado vago pela morte não necessita de ser preenchido, donde concluímos que cada pessoa, sendo única, é insubstituível.

Claro que a razão é muito mais profunda que a simples constatação formal.

  Cada ser humano, embora podendo ter semelhanças com outro, nunca é qual exactamente porque é fruto da obra criadora de Deus que não faz nada “em série”, como numa linha de montagem.

  Cada ser humano tem uma alma – a imagem do Criador impressa – exclusivamente criada para si no momento da concepção. Por isso mesmo, a concepção da vida concreta, real, é de suma importância para compreender e aceitar a morte.

É, pelo menos interessante, dar-nos conta como a consideração da morte nos leva a pensar na vida sendo que, o contrário, não acontece.

A que propósito se iria pensar na morte quando nos sentimos vivos e, mais, com vontade e desejo de viver?

Não faz muito sentido, parece e, no entanto, seria de manifesta utilidade que o fizéssemos exactamente para termos consciência do nosso destino eterno.

  O cristão tem, como verdade de fé, que está destinado à vida eterna e que ressuscitará no fim dos tempos. Como o mistério é de tal forma complexo, grandioso, extraordinário, optamos a maior parte das vezes por não pensar muito nisso porque ficamos, quase sempre, com a sensação de que andamos às voltas sobre um eixo que também roda sobre si mesmo, sem conseguirmos chegar a um fim, concreto, absoluto.

Aliás é manifesto, que só conseguimos aceitá-lo, com a ajuda da nossa fé cristã.

  Podemos sentir curiosidade em imaginar o que seria o mundo se os nossos primeiros pais - Adão e Eva – não tivessem pecado e, assim, permanecessem no estado original da criação que não conhecia a morte.

Onde caberia tanta gente!

Se não existe fé, este problema é insolúvel, a resposta nunca será convincente.

  Não me parece, julgo até que faz muito sentido para quem desconhece a omnipotência de Deus e a Sua Sabedoria Divina.

Mas para o cristão, realmente, esta pergunta não se coloca porque compreende e acredita que não cabe ao homem discutir, avaliar ou questionar os planos de Deus.

Alguns, preocupados com a demografia, questionam, cada vez mais, o futuro da humanidade, fazendo inúmeros cálculos e lucubrações sobre o que lhe irá acontecer.

 

Tomam como base três premissas:

 

1 - Tempo de vida cada vez mais longo: Os avanços da ciência nos campos da medicina e da genética têm contribuído significativamente para o aumento da esperança de vida.

 

2 – Escassez cada vez maior de alimentos: O abandono dos campos, as calamidades naturais e as mudanças nos hábitos de vida das pessoas têm condicionado a dedicação à agricultura e a qualidade e quantidade das colheitas.

 

3 – Crescimento demográfico assimétrico:      A constatação de que nos chamados países de cultura avançada a natalidade desce assustadoramente enquanto noutros, erradamente apelidados de “terceiro mundo”, ela se mantém em níveis elevados ou, mesmo, em crescimento acentuado.

 

 

 

28/02/2021

Leitura espiritual Fev 28

 


Novo Testamento [i]


Evangelho


Lc I, 57-80

 

Nascimento de João

57 Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: «Não; há-de chamar-se João.» 61 Disseram-lhe: «Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.» 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. 63 Pedindo uma placa, o pai escreveu: «O seu nome é João.» E todos se admiraram. 64 Imediatamente a sua boca abriu-se, a língua desprendeu-se-lhe e começou a falar, bendizendo a Deus. 65 O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos, e por toda a montanha da Judeia se divulgaram aqueles factos. 66 Quantos os ouviam retinham-nos na memória e diziam para si próprios: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele.

 

Cântico de Zacarias

67  Então, seu pai, Zacarias, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou com estas palavras: 68 «Bendito o Senhor, Deus de Israel, que visitou e redimiu o seu povo 69 e nos deu um Salvador poderoso na casa de David, seu servo, 70 conforme prometeu pela boca dos seus santos, os profetas dos tempos antigos; 71 para nos libertar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam, 72 para mostrar a sua misericórdia a favor dos nossos pais, recordando a sua sagrada aliança; 73 e o juramento que fizera a Abraão, nosso pai, que nos havia de conceder esta graça: 74 de o servirmos um dia, sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos, 75 em santidade e justiça, na sua presença, todos os dias da nossa vida. 76 E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos, 77 para dar a conhecer ao seu povo a salvação pela remissão dos seus pecados, 78 graças ao coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente, 79 para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz.» 80 Entretanto, o menino crescia, o seu espírito robustecia-se, e vivia em lugares desertos, até ao dia da sua apresentação a Israel.

 

Textos



  Morte

  Aproxima-se o tempo de prestar contas!

 Vaticínio? Profecia? Adivinhação?

  Bem pelo contrário. Uma certeza!

  Cada dia que passa, ficamos mais próximos desse último dia.

  Isto sendo uma realidade para todos homens, para o cristão não é um drama.

Não deve ser um drama.

Todos ouvimos em cerimónias fúnebres, o sacerdote repetir o que a nossa fé afirma e a Igreja apresenta:

  Uma mudança de estado, uma passagem para outra realidade, o início da Verdadeira Vida.

  Isto, sabemo-lo e acreditamos mas, sendo, como de facto é, uma consequência do pecado original, custa aceitar porque, naturalmente, ninguém gosta de ser castigado.

  E a questão põe-se desde sempre:

  Castigo?

Mas que culpa tenho eu que Adão e Eva tenham pecado?

  Culpa?

De facto, não temos culpa nenhuma.

Mas sofremos as consequências naturais.

  Adão e Eva foram criados em determinadas circunstâncias e com determinados predicados.

Um destes predicados era o estado permanente de inocência, o desconhecimento do bem e do mal.

Uma das circunstâncias era a ausência da morte, exactamente, porque a morte é consequência do pecado.

Assim compreende-se que Adão e Eva, ao pecar, tenham feito desaparecer a “circunstância” e, o ser humano, ficou sujeito à morte.

Esta questão tem sido debatida ao longo de toda a história e vultos importantes da filosofia e teologia se têm debruçado sobre ela.

   “O pecado original foi o grande fracasso, diga-se da humanidade. Esta rebelião contra Deus, seu Amigo, seu Pai, desencadeou uma total desintegração na sua unidade perfeita, e perdeu-se a harmonia inicial.

Adão e Eva que, até então, passeavam com o seu Pai Deus 'ao entardecer' - como significativamente narra a Sagrada Escritura -, escondem-se por temor. [1]

Esta quebra da amizade com Deus leva à ruptura com o próximo.

Provoca também a ruptura entre eles próprios: descobrem que estão nus e, envergonhados, vestem-se.

Finalmente, a desunião estende-se à natureza exterior, que lhes negará os frutos, e à sua própria natureza, que conhecerá a fadiga, a doença, a morte, as dores do parto e das doenças, o erro.” [2]

  Mas… se o homem não conhecesse a morte, como poderiam caber todos neste planeta?

Esta é uma questão infantilmente colocada?

  Perante o mistério da morte ficamos surpreendidos com a confusão que, por vezes, se instala no nosso espírito.

  Há uma mescla de sentimentos, onde, naturalmente, avulta a tristeza que o sentimento de perda provoca, mas que, surpreendentemente, não é o principal e é isto que mais nos causa estranheza e incompreensão.

  Fere-nos singularmente algum sentimento de alívio, do terminar de um sofrimento, do arrastar de uma situação séria, grave, por vezes dolorosa, em que a pessoa querida se vai degradando, fisicamente, perdendo gradualmente a sua autonomia, até acabar totalmente dependente para os mais elementares e simples actos fisiológicos.

  E este “sentirmo-nos feridos” quase nos envergonha porque pensamos – e bem – que não desejávamos que essa pessoa morresse, ao mesmo tempo que não queríamos que continuasse, assim, naquele estado de vida tão condicionada e sofredora.

Não é por essa morte ser previsível num espaço de tempo não muito longo, que se torna menos cortante - porque se trata de um corte definitivo e sem remédio -, porque, graças a uma espécie de esperança que nunca morre, esperamos sempre estar enganados e que uma súbita alteração das circunstâncias, mesmo sem explicação aparente – mas que sabemos acontece por vezes – venha alterar definitivamente a situação.

  De facto, a morte não tem remédio absolutamente nenhum, é definitiva.

 É este – definitivo – que nos leva à tal surpresa que falávamos no início.

  Não estamos habituados a que algo seja definitivo porque a vida, a nossa própria vida tal como a dos outros, está sempre em evolução e o hoje não é igual ao amanhã, nada se repete tal e qual, tudo se vai transformando, evoluindo.

  Vêm, depois, os outros, os familiares, mais ou menos próximos, os amigos mais ou menos chegados, companheiros de trabalho… e todos nos dizem mais ou menos as mesmas coisas.

Frases feitas, termos usuais nestas circunstâncias, ar contristado, pesaroso, tentando parecer muito mais íntimos do que na verdade são.

Depois, cumpridas estas formalidades, retiram-se para o exterior para “espairecer”, fumar um cigarro e, daí a pouco, estabelece-se como que uma assembleia que conversa, convive, troca impressões.

Sentimo-nos, talvez, como que numa espécie de teatro um pouco requentado e com um enredo pouco ou nada atraente.



[1] Cfr. Gen 3, 8

[2] FRANCISCO FERNÁNDEZ CARVAJAL & PEDRO BETTETA LÓPEZ, Filhos de Deus, DIEL, nr. 120



[i] Sequencial todos os dias do ano