28/10/2014

Estando Ele connosco nada há a temer.

O chamamento do Senhor – a vocação – apresenta-se sempre assim: "Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me". Sim, a vocação exige renúncia, sacrifício. Mas que agradável acaba por ser o sacrifício ("gaudium cum pace", alegria e paz), se a renúncia é completa! (Sulco, 8)

Se consentires que Deus seja o senhor da tua nave, que Ele seja o amo, que segurança!..., mesmo quando a tempestade se levanta no meio das trevas mais escuras e parece que Ele se ausenta, que está a dormir, que não se preocupa. S. Marcos relata que os Apóstolos se encontravam nessas circunstâncias; e Jesus, vendo-os cansados de remar (porque o vento lhes era contrário), cerca da quarta vigília da noite foi ter com eles, andando sobre o mar... Tende confiança, sou eu, não temais. E subiu para a barca, para junto deles e cessou o vento.

Meus filhos, acontecem tantas coisas na terra...! Podia pôr-me a falar de penas, de sofrimentos, de maus tratos, de martírios – não tiro nem uma letra –, do heroísmo de muitas almas. Aos nossos olhos, na nossa inteligência, surge às vezes a impressão de que Jesus dorme, de que não nos ouve; mas S. Lucas narra como Nosso Senhor se comporta com os seus: Enquanto iam navegando, Jesus adormeceu e levantou-se uma tempestade de vento sobre o lago e a barca enchia-se de água e estavam em perigo. Aproximando-se dele, despertaram-no dizendo: Mestre, nós perecemos! Ele, levantando-se, increpou o vento e as ondas, que acalmaram e veio a bonança. Então disse-lhes: onde está a vossa fé?


Se nos dermos, Ele dá-se-nos. Temos de confiar plenamente no Mestre, temos de nos abandonar nas suas mãos sem mesquinhez; de lhe manifestar, com as nossas obras, que a barca é dele, que queremos que disponha à vontade de tudo o que nos pertence. (Amigos de Deus, 22)

Filiação divina

Desde que se inteira dos desígnios divinos, o homem começa a ver Deus com outros olhos, Sabendo que Deus é Pai, o homem descobre-se, como filho e objecto das predilecções divinas. E é assim que na medida em que se eleva a ideia que se faz de Deus, se eleva também o conceito que do homem se deve fazer. Em primeiro lugar, por ser a esta luz que o homem descobre quanto vale, e, depois, porque, aprendendo que Deus é Pai, se descobre como filho, e se começa a compreender em que sentido Deus quer que nos consideremos irmãos.

(a. veloso BROTÉRIA Vol. LVI Fasc. 4 1953 pág. 287

Tratado do verbo encarnado 13

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 7 — Se a união da natureza divina e humana é algo de criado.

O sétimo discute-se assim. — Parece que a união da natureza divina e humana, nada é de criado.

1. — Pois, em Deus nada pode haver de criado, porque tudo o que nele existe é Deus. Ora, há união em Deus, porque Deus mesmo está unido à natureza humana. Logo, parece que a união não é nada de criado.

2. Demais. — Em tudo, o principal é o fim. Ora, o fim da união é a divina hipóstase ou pessoa, na qual a união tem o seu termo, Logo, parece que tal união deve ser apreciada sobretudo pela condição da divina hipóstase, que nada tem de criado. Logo, também não é nada de criado a união.

3. Demais. — O princípio donde uma coisa tira tal propriedade  possui-a a ela em mais alto grau, segundo o Filosofo. Ora, o homem é dito Criador por causa da união. Logo, com maior razão, a união mesma nada é de criado, mas, o Criador.

Mas, em contrário — Tudo o que começa temporalmente é criado. Ora, a referida união não existiu abeterno, mas começou a existir no tempo. Logo, a união é algo de criado.

A união de que falamos é uma relação considerada entre a natureza divina e a humana, enquanto convêm na pessoa una do Filho de Deus. Ora, como dissemos na Primeira Parte, toda a relação considerada entre Deus e a criatura, está, sem dúvida, realmente na criatura, cuja mudança dá origem a essa relação, mas não existe realmente em Deus, senão só segundo a razão, porque não nasce de nenhuma mudança em Deus. Donde devemos concluir que a união em questão não existe em Deus realmente, mas só segundo a razão, mas existe realmente a natureza humana, que é uma criatura. Por onde, é necessário admitir que é algo de criado.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Essa união em Deus não existe realmente mas só segundo a razão, pois, dizemos que Deus está unido à criatura, porque a criatura está unida com ele, sem mudança em Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Por sua noção, a relação, como o movimento, depende do fim ou termo, mas a sua existência depende do sujeito. E como essa união não tem um ser real senão na natureza criada, segundo dissemos, há-de necessariamente ter o ser criado.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O homem é chamado e é Deus por causa da união, enquanto terminada na hipóstase divina, mas daí não se segue que a própria união seja Criador ou Deus, pois, quando dizemos que um ser é criado levamos em conta, antes, a sua existência que a sua noção.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

São Simão e São Judas - Apóstolos

Evangelho: Lc 6 12-19

«12 Naqueles dias Jesus retirou-se para o monte a orar, e passou toda a noite em oração a Deus. 13 Quando se fez dia, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: 14 Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, seu irmão André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, 15 Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado o Zelote, 16 Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor. 17 Descendo com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número dos Seus discípulos e uma grande multidão de povo de toda a Judeia, de Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sidónia, 18 que tinham vindo para O ouvir, e para ser curados das suas doenças. Os que eram atormentados pelos espíritos imundos ficavam também curados. 19 Todo o povo procurava tocá-l'O, porque saía d'Ele uma virtude que os curava a todos.»

Comentário:

Fica-nos sempre no espírito esta pergunta: como se explica que, o Senhor que tudo sabe, tenha escolhido como seu apóstolo alguém que haveria de o trair?

Deus sabe tudo, sem dúvida, mas nem por isso desiste do homem.

Três anos de constante companhia não foram bastantes para demover Judas do seu intento mas, o Senhor, bem o tentou até ao derradeiro momento na noite de quinta-feira. 

(ama, comentário sobre Lc 6, 12-19, 2013.10.28)


Leitura espiritual

HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte II

…/1

Acontecia que até os próprios passeios, feitos antes de recolher-nos aos Buissonnets, me deixavam na alma um sentimento de tristeza. A família, então, já não se reunia toda, porque Papai, querendo agradar a Titio, deixava-lhe Maria ou Paulina todas as tardes de Domingo. Havia a única circunstância de que, para mim, era grande alegria poder ficar também. Gostava que assim acontecesse, mais do que ser convidada exclusivamente, porque então se ocupavam menos comigo. Meu máximo prazer era escutar tudo quanto meu Tio falava. Não apreciava, porém, que me fizesse perguntas, e sentia bastante medo, quando me punha sobre um joelho só, enquanto cantava o Barba-Azul com voz formidável... Era, pois, com satisfação que aguardava a chegada do Papai para nos buscar.

Na volta, olhava para as estrelas que cintilavam docemente, e esta vista me enlevava... Havia, sobretudo, uma constelação de pérolas de ouro que notava com alegria, por achar que tinha a forma de um T (aqui ponho mais ou menos sua forma). Fazia com que Papai a visse, dizendo-lhe que meu nome estava inscrito no Céu. Depois, não querendo ver nada desta terra mesquinha, pedia-lhe que me guiasse. Então, sem olhar onde punha os pés, erguia a cabecinha bem alto para o ar, e não me cansava de contemplar o azul do Céu estrelado! ...

Que direi de nossos serões de inverno, mormente dos de Domingo? Ah! como me era agradável, depois do jogo de damas, sentar-me com Celina nos joelhos de Papai... Como sua bela voz, entoava canções que enchiam a alma de pensamentos elevados... ou então, embalando-nos de mansinho, recitava poesias inspiradas nas verdades eternas... Depois, subíamos para fazer a oração em comum, e a rainhazinha ficava só ao pé do seu Rei, não precisando senão olhar para ele para saber como rezam os Santos... Afinal, íamos por ordem de idade dar boa-noite a Papai e receber um beijo. A rainha vinha naturalmente por última. Para a beijar, o rei tomava-a pelos cotovelos, e ela exclamava bem alto: "Boa noite, Papai, boa noite, dorme bem". Todas as noites era a mesma repetição...

Em seguida, minha mãezinha tomava-me nos braços e levava-me à cama de Celina. Então eu dizia: "Paulina, fui boazinha hoje?... Será que os anjinhos voarão em redor de mim?" A resposta era sempre que sim. Do contrário, passaria a noite toda a chorar. .. Depois de me beijar, como também o fazia minha querida madrinha, Paulina tornava a descer, e a coitada da Teresinha ficava completamente só na escuridão. Por mais que imaginasse os anjinhos a voarem em redor, o pavor logo a dominava, as trevas faziam-lhe medo, porque da cama não divisava as estrelas que fulgiam levemente...

Considero verdadeira graça que vós, minha querida Mãe, me acostumastes a vencer meus temores. De vez em quando, mandáveis-me de noite ir buscar sozinha algum objeto num cômodo distante. Se não fora tão bem orientada, teria ficado muito medrosa, ao passo que agora é realmente difícil assustar-me... Ocasiões há em que indago a mim mesma como pudestes educar-me com tanto amor e delicadeza sem me deixar baldosa; pois, a verdade é que não me deixáveis passar nenhuma imperfeição. Nunca me censuráveis sem razão de ser, como também nunca voltáveis atrás numa coisa já decidida. Sabia-o tão bem que eu não teria podido nem desejado dar um passo se mo proibistes. Até papai era obrigado a conformar-se com vossa vontade. Sem o consentimento de Paulina, não ia a passeio e quando papai dizia para eu ir eu respondia: "Paulina não quer". Então, ele ia pedir por mim. Para agradar-lhe, algumas vezes Paulina dizia sim, mas Teresinha percebia pela sua fisionomia que contra sua vontade. Punha-se a chorar sem aceitar consolo até que Paulina dissesse sim e a beijasse cordialmente.
Quando Teresinha adoecia, o que acontecia todos os invernos, não é possível dizer com que ternura era tratada. Paulina fazia-a dormir em sua cama (favor indizível) e lhe dava tudo o que ela queria. Um dia, Paulina pegou debaixo do travesseiro uma linda faquinha que lhe pertencia e, dando-a à sua filhinha, deixou-a mergulhada num deslumbramento indescritível: "Ah! Paulina", exclamou ela, "tu me amas muito para te desfazeres por mim da tua linda faquinha que tem uma estrela de madrepérola... Mas, sendo que me amas tanto, farias o sacrifício do teu relógio para eu não morrer?" "Não só para tu não morreres, daria meu relógio; mas faria logo o sacrifício dele para ficares boa logo". Ao ouvir essas palavras de Paulina, meu espanto e minha gratidão foram tantos que não sei expressá-los... No verão, às vezes, eu tinha náuseas; Paulina tratava-me ainda com ternura. Para distrair-me, o que era o melhor remédio, carregava-me num carrinho de mão em volta do jardim e, fazendo-me descer, colocava no lugar um bonito pé de margaridas que ela carregava com muita precaução até meu jardim, para onde ele era transplantado com grande solenidade...

Paulina recebia todas as minhas confidências íntimas, dissipava todas as minhas dúvidas... Uma vez, estranhei que Deus não desse glória igual no Céu a todos os eleitos e receava que não fossem todos felizes, Então, Paulina fez-me buscar o copo grande de papai e colocá-lo ao lado do meu pequeno dedal e disse para encher os dois. A seguir, perguntou-me qual dos dois estava mais cheio. Respondi que os dois estavam cheios e não podiam conter mais. Minha mãe querida fez-me então compreender que o Céu Deus dá a seus eleitos tanta glória quanto podem conter e que, assim, o último nada tem a cobiçar ou invejar do primeiro. Assim é que, pondo ao meu alcance os mais sublimes segredos, sabíeis, Madre, dar à minha alma o alimento que lhe era necessário...

Com quanta alegria via, a cada ano, chegar a atribuição de prémios pelo estudo!... Aí, como sempre, a justiça reinava e só recebia as recompensas merecidas. Sozinha, de pé no meio da nobre assembleia, ouvia minha sentença, lida pelo Rei França e de Navarra. Meu coração batia forte ao receber os prémios e a coroa... para mim, era como uma representação do juízo final!... Logo após a distribuição dos prémios, a rainhazinha tirava o vestido branco e apressavam-se em fantasiá-la para tomar parte na grande peça teatral!...

Como eram alegres essas festas familiares... Como eu estava longe, então, ao ver meu rei querido e radiante, de prever as provações que iriam visitá-lo!...

Um dia, porém, Deus mostrou-me, numa visão verdadeiramente extraordinária", a imagem viva da provação que Ele estava preparando para nós, seu cálice já enchia".

Papai estava viajando há vários dias e ainda faltavam dois para seu regresso. Era duas ou três horas da tarde, o sol brilhava e a natureza parecia em festa. Eu estava sozinha na janela de uma água-furtada que dava para o grande jardim; olhava diante de mim, a mente ocupada por pensamentos alegres, quando avistei frente à lavandaria que se encontrava logo adiante um homem vestido exactamente como papai, mesma estatura e mesmo modo de andar, apenas muito mais curvado... Sua cabeça estava coberta por uma espécie de avental de cor indefinida, de sorte que eu não podia ver-lhe o rosto. Estava com chapéu igual ao de papai. Vi-o andar em passos regulares, beirando meu jardinzinho... Logo, um sentimento de pavor sobrenatural invadiu minha alma. Num instante, imaginei que papai tivesse voltado e que se escondesse a fim de surpreender-me. Então, chamei-o em voz bem alta, com voz trémula de emoção: "Papai, Papai!..." Mas o estranho personagem não parecia ouvir-me. Continuou sua caminhada regular sem olhar para trás. Seguindo-o com os olhos, vi-o dirigir-se para o pequeno bosque que cortava ao meio a grande alameda. Esperava vê-lo aparecer do outro lado das grandes árvores, mas a visão profética esvaíra-se!... Tudo isso só durou um instante, mas gravou-se tão profundamente em meu coração que hoje, depois de quinze anos... a lembrança me é tão presente como se a visão estivesse ainda diante dos meus olhos...

Maria estava convosco, Madre, num quarto que se comunicava com aquele onde eu me encontrava. Ouvindo-me chamar por papai, sentiu impressão de pavor, percebendo que, contou-me depois, devia estar acontecendo algo extraordinário. Sem exteriorizar a sua emoção, correu junto a mim e me perguntou por que eu estava chamando papai, que fora a Alençon. Contei, então, o que acabara de ver. Para me acalmar, Maria disse que, sem dúvida, Vitória quisera pregar-me uma peça e escondera a cabeça com seu avental. Interrogada, essa afirmou não ter saído da cozinha. Aliás, eu tinha certeza de ter visto um homem que se parecia com papai. Então fomos as três ao bosque, mas como não achamos sinal nenhum da passagem de alguém dissestes-me para não mais pensar nisso...

Não mais pensar estava além do meu poder. Muitas vezes minha imaginação representou-me a cena misteriosa que eu presenciara... Muitas vezes procurei levantar o véu que me escondia o sentido, pois no fundo do meu coração conservava a convicção íntima de que essa visão possuía um sentido que havia de ser-me revelado um dia... Esse dia demorou a chegar, mas após catorze anos Deus rasgou o véu misterioso. Estando de licença com Irmã Maria do Sagrado Coração, falávamos, como sempre, das coisas da outra vida e das nossas recordações de infância, quando lembrei-lhe a visão que eu tivera na idade de 6 para 7 anos. De repente, relatando os pormenores dessa cena estranha, ambas compreendemos o que significava... Era papai, sim, que eu vira andando, curvado pela idade... Era ele carregando no seu rosto venerável, na sua cabeça branca, a marca da sua gloriosa provação... Como a Face Adorável de Jesus, velada durante sua Paixão, assim a face do seu fiel servo devia ficar velada nos dias dos seus sofrimentos, a fim de poder resplandecer na Pátria Celeste junto a seu Senhor, o Verbo Eterno!... Foi do seio dessa glória inefável onde reina no céu que nosso pai querido obteve para nós a graça de compreender a visão que sua rainhazinha tivera numa idade em que não é necessário temer a ilusão! Foi desde o seio da glória que obteve para nós esse doce consolo de podermos compreender que, dez anos antes da nossa grande provação, Deus no-la mostrou como um pai deixa seus filhos entreverem o futuro que lhes prepara e se compraz em considerar por antecipação as riquezas incalculáveis que lhes são destinadas...

Ah! por que foi a mim que Deus deu essa luz? Por que mostrou a uma criança tão nova unia coisa que ela não podia compreender, uma coisa que, se a tivesse compreendido, a teria matado de dor, por quê?... Sem dúvida, esse é mais um daqueles mistérios que só compreenderemos no céu e que nos causará uma admiração eterna!...

Como o Bom Deus é bom! ... Como põe as provações em exacta equação com a forças que nos confere. Nunca, como acabo de afirmá-lo, poderia aturar a própria ideia dos amargos sofrimentos que o futuro me reservava... Sem frémito não conseguia sequer pensar em que o Papai podia morrer... Certa vez trepara ele ao topo de uma escada de mão. Como me encontrava justamente por debaixo, gritou-me: "Arreda-te, pobre bichinho, se despenhar, esmago-te''. Ao ouvir isso, tive uma reacção interior. Em vez de afastar-me, apoiei-me contra a escada, pensando comigo: "Pelo menos, se o Papai cair, não terei a dor de vê-lo morrer, pois morrerei com ele". Não consigo exteriorizar quanto amava Papai. Tudo nele me causava admiração. Quando me explicava suas ideias (como se fora menina crescida), dizia-lhe com sinceridade que, por certo, se falasse tudo isso aos grandes homens do governo, toma-lo-iam para o constituir Rei, e que então a França seria feliz como nunca o fora antes... No fundo, porém, alegrava-me (e disso me inculpava como de um pensamento egoísta) por não haver ninguém senão eu que conhecia bem Papai. Pois, se viesse a ser Rei de França e de Navarra, sabia que se daria por infeliz, porque tal é a sorte de todos os monarcas, e sobretudo porque já não seria o meu Rei, só para mim!...

Tinha eu seis ou sete anos, quando Papai nos levou a Trouville. Jamais esquecerei a impressão que o mar me causou. Não podia coibir-me de contemplá-lo sem interrupção. Sua majestade, o bramir das ondas, tudo me falava à alma a respeito da Grandeza e do Poder do Bom Deus. Recordo-me de que, no passeio que fazíamos pela praia, um senhor e uma senhora, como me vissem a correr alegre em redor do Papai, aproximaram-se e perguntaram-lhe se eu era dele, dizendo que era uma menininha muito graciosa. Respondeu-lhes Papai que sim, mas notei que lhes deu sinal para não me elogiar... Era a primeira vez que ouvia dizer que eu era graciosa. Isto me deixou bem contente, pois não supunha que o fosse. Vós tomáveis, minha querida Mãe, tanta precaução em não permitir, junto a mim, nada que pudesse comprometer minha inocência, principalmente em não me deixar ouvir alguma palavra que insinuasse vaidade em meu coração. Como só dava atenção às vossas palavras e às de Maria (e de vossa parte nunca me dirigistes uma única lisonja), não liguei muita importância às palavras e aos olhares admirados da senhora.

Ao entardecer, à hora que o sol parece banhar-se na imensidão das ondas, deixando atrás de si um sulco luminoso, ia sentar-me sozinha com Paulina no rochedo... Então, acudia-me à lembrança a comovente história do "Sulco de ouro" Fiquei a contemplar longamente a esteira luminosa, imagem da graça a clarear a rota do barquinho de graciosa vela branca... Junto a Paulina, tomei a resolução de nunca distanciar minha alma do olhar de Jesus, a fim de que navegue tranquila em direcção da Pátria dos Céus!...

Minha vida deslizava tranquila e feliz. A afeição de que era cercada nos Buissonnets, fazia-me crescer, por assim dizer, mas não havia dúvida de que já era bem desenvolvida, para começar a conhecer o mundo e as misérias de que anda cheio...

(cont.) 



27/10/2014

Luta contra essa frouxidão

És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou "manha" o modo de diminuir os teus deveres; se não pensas senão em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos. (Caminho, 331)

Luta contra essa frouxidão que te faz preguiçoso e desleixado na tua vida espiritual. – Olha que pode ser o princípio da tibieza..., e, na frase da Escritura, os tíbios, Deus os vomitará. (Caminho, 325)

Que pouco Amor de Deus tens quando cedes sem luta porque não é pecado grave! (Caminho, 328)


Como hás-de sair tu desse estado de tibieza, de lamentável languidez, se não empregas os meios? Lutas muito pouco e, quando te esforças, faze-lo como que zangado e com falta de gosto, quase com o desejo de que os teus fracos esforços não produzam efeito, para te justificares: para não te exigires e para que não te exijam mais. (Sulco, 146)

Abandono



Abandona-te cheio de confiança no seu seio materno, pede-Lhe que te alcance esta virtude (humildade) que Ela tanto apreciou; não tenhas medo de não ser atendido. Maria pedi-la-á para ti a esse Deus que eleva os humildes e reduz a nada os soberbos; e como Maria é omnipotente perto do seu Filho, será com toda a segurança ouvida.


(leão xiii Prática da humildade 56)

Tratado do verbo encarnado 12

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 6 — Se a natureza humana se uniu ao Verbo de Deus acidentalmente.

O sexto discute-se assim. — Parece que a natureza humana se uniu ao Verbo de Deus acidentalmente.

1. — Pois, diz o Apóstolo, do Filho de Deus, que foi reconhecido no hábito isto é, na condição como homem. Ora, o hábito acrescenta-se acidentalmente ao seu sujeito, quer consideremos o hábito como um dos dez predicamentos, quer como espécie de qualidade. Logo, a natureza humana se uniu acidentalmente ao Filho de Deus.

2. Demais. — Tudo o que se acrescenta a um ser completo, acidentalmente se lhe acrescenta, pois, chamamos acidente ao que pode existir ou não num sujeito sem que este por isso se corrompa. Ora, a natureza humana acrescenta-se temporalmente ao Filho de Deus, cujo ser é abete no perfeito. Logo, acidentalmente acrescenta-se-lhe.

3. Demais. — Tudo o que não pertence à natureza ou à essência de um ser lhe é acidente, porque tudo o que existe é substância ou acidente. Ora, a natureza humana não pertence à essência ou à natureza divina do Filho de Deus, porque não foi feita a união na natureza, como se disse. Logo, à natureza humana necessariamente o Filho de Deus se uniu por acidente.

4. Demais. — O instrumento une-se acidentalmente ao agente. Ora, a natureza humana em Cristo foi instrumento da divindade, pois, como diz Damasceno, a carne de Cristo foi o instrumento da sua divindade. Logo, parece que a natureza humana se uniu ao Filho de Deus acidentalmente.

Mas, em contrário, o que é predicado acidentalmente não predica a quididade, mas a quantidade ou a qualidade ou a existência modal. Se, pois, à natureza humana se uniu Cristo acidentalmente, quando se dissesse Cristo é homem, não se predicaria uma unidade, mas uma qualidade, uma quantidade ou uma existência modal. O que é contra um decreto de Alexandre Papa, que diz: Sendo Cristo Deus perfeito e homem perfeito, qual não é a temeridade de alguns que ousam dizer que Cristo não tem nenhuma quididade, enquanto homem?

Para responder com clareza à questão proposta, devemos saber que, sobre o mistério da união das duas naturezas em Cristo, apareceram duas heresias — Uma, a dos que confundem as naturezas, tal a de Eutíquio e de Diáscoro, ensinando que das duas naturezas se constituiu uma só natureza. E assim confessavam que Cristo tem duas naturezas, quase distintas antes da união, mas não existia em duas naturezas, quase cessada a distinção depois da união das naturezas. — Outra foi a heresia de Nestório e de Teodoro de Mopsueste, que separavam as pessoas. Assim, ensinavam ser uma a pessoa do Filho de Deus e outra, a do filho do homem, e essas as consideravam como entre si unidas, primeiro, segundo a habitação de uma na outra, isto é, enquanto o Verbo de Deus habitava nesse homem como templo. Segundo, quando à unidade de desejo isto é, enquanto a vontade do referido homem é sempre conforme à vontade do Verbo de Deus. Terceiro, pela operação, isto é, enquanto diziam ser esse homem o instrumento do Verbo de Deus. Quarto, pela dignidade da honra, enquanto toda honra prestada ao Filho de Deus o é ao mesmo tempo ao filho do homem, por causa da sua união com o Filho de Deus. Quinto, pela equivocação, isto é, pela comunicação dos nomes, isto é, enquanto dizemos que esse homem é Deus e Filho de Deus. Ora, como é manifesto, todos esses modos importam numa união acidental.

Porém, alguns mestres posteriores, pensando evitar essas heresias, nelas incidiram por ignorância. — Assim, uns deles concediam a unidade da pessoa de Cristo, mas admitiam duas hipóstases ou dois supostos, dizendo que o Verbo de Deus assumiu um homem composto de corpo e alma desde o princípio da sua concepção. E esta é a primeira opinião enumerada pelo Mestre das Sentenças. — Mas outros querendo salvar a unidade da pessoa, ensinavam que a alma de Cristo não estava unida ao corpo, mas que ambos separados um do outro, estavam unidos ao Verbo acidentalmente, de modo que assim não aumentava o número das pessoas, e esta é a terceira opinião enumerada no mesmo lugar pelo Mestre das Sentenças.

Ora, ambas opiniões incidem na heresia de Nestório. — A primeira, porque o mesmo é atribuir duas hipóstases ou dois supostos a Cristo e lhe atribuir duas pessoas, como dissemos acima. E se se apoiarem na expressão — pessoa — devemos notar que também Nestório admitia a unidade de pessoa por causa da unidade da dignidade da honra. Por isso o Quinto Sínodo determinou como anátema quem disse ser uma só pessoa pela dignidade, pela honra e pela do ração, como, na sua insânia, escreveu Teodoro juntamente com Nestório. — Quanto à outra opinião, ela incide no erro de Nestório quanto à admissão da união acidental. Pois, não há diferença entre dizer que o Verbo de Deus se unia a Cristo homem, por habitar neste como num templo, segundo ensinava Nestório, e dizer que o Verbo se uniu ao homem por se ter dele revestido como de uma roupagem, como o ensina a terceira opinião. A qual professa mesmo uma doutrina pior que a de Nestório, a saber, que a alma e o corpo não estão unidos.

Mas a fé católica, tomando uma posição média entre as referidas, não diz que a união de Deus e do homem foi feita segundo a essência ou a natureza, nem de modo acidental, mas, de um modo médio, segundo a subsistência ou a hipóstase. Por isso lemos no Quinto Sínodo: Sendo a unidade susceptível de muitas acepções, os sequazes da impiedade de Apolinário e de Eutiquio, operando a destruição de coisas que estavam unidas, isto é, suprimindo uma e outra natureza, concebiam a união como confusão, ao passo que os sequazes de Teodoro e de Nestório, comprazendo-se na divisão introduzem a unidade de afeição. Mas a santa Igreja de Deus, rejeitando a impiedade de uma e outra perfídia, confessa a união do Verba de Deus com a carne segundo a composição, que se funda na subsistência. Por onde é claro que a segunda das três opiniões enumeradas pelo Mestre das Sentenças, que afirma a unidade da hipóstase de Deus e do homem, não se há de considerar opinião, mas sentença da fé Católica. Também semelhantemente, a primeira opinião, que admite duas hipóstases, e a terceira, que admite a união acidental, não se devem considerar opiniões, mas heresias condenadas nos concílios pela Igreja.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como diz Damasceno, uma semelhança não implica igualdade completa e total, pois, o que é em tudo semelhante, é igual, não é semelhante, e sobretudo na ordem divina, assim, é impossível encontrar igualdade na Teologia, isto é, na divindade das pessoas, e na Dispensação, isto é, no mistério da Encarnação. Donde, a natureza humana de Cristo é comparável a um hábito, isto é, a um vestido, não pela união acidental, mas porque o Verbo é visível pela natureza humana como o homem pelo seu vestido. E também porque o vestido se muda, por ser feito segundo a figura de quem o veste, mas que nem por isso muda a sua forma por causa da roupa que veste, e semelhantemente, a natureza humana assumida pelo Verbo de Deus melhorou, sem que o Verbo de Deus se tenha mudado, como expõe Agostinho.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O que se une a um ser completo, acidentalmente se lhe une a menos que não seja levado à comunhão com esse ser completo. Assim, na ressurreição o corpo se une à alma preexistente, mas não, acidentalmente, pois, é assumida numa identidade de assistência, de modo que o corpo recebe da alma o seu ser vital. Mal, tal não se dá com a brancura, pois, uma coisa é o ser da brancura, e outra o do homem a que se ela acrescenta. Ora, o Verbo de Deus já tinha abeterno o seu ser completo, segundo a hipóstase ou pessoa, mas, temporalmente se uniu à natureza humana, não que esta fosse assumida numa unidade de ser, quanto à natureza, como o corpo está unido à alma, mas, numa unidade de ser quanto à hipóstase ou pessoa. Donde, a natureza humana não está unida acidentalmente ao Filho de Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O acidente divide-se por contrariedade, da substância. Ora, a substância, como diz Aristóteles, é susceptível de dupla acepção: numa, é tomada como essência ou natureza, noutra, como suposto ou hipóstase. Por onde, basta para a união não ser acidental, que ela se faça segundo a hipóstase, embora não se tenha feito segundo a natureza.

RESPOSTA À QUARTA. — Nem todo o assumido como instrumento pertence à hipóstase do que assume, como o demonstra o machado e a espada. Mas, nada impede que o assumido na unidade da hipóstase se comporte como instrumento, como o corpo do homem ou os seus membros. Ora, Nestório ensinava que a natureza humana foi assumida pelo Verbo, só a modo de instrumento, mas não, na unidade da hipóstase. Donde, não concedia que Cristo homem fosse verdadeiramente Filho de Deus, mas, instrumento seu. Por isso ensina Cirilo: A Escritura diz que este Emanuel, isto é, Cristo, foi assumido não para exercer a função de instrumento, mas como Deus verdadeiramente humanado, isto é feito homem. - Quanto a Damasceno, ensinou que a natureza humana em Cristo era um como instrumento pertencente à unidade da hipóstase.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXX Semana

Evangelho: Lc 3 10-17

10 As multidões interrogavam-no, dizendo: «Que devemos, pois, nós fazer?». 11 Respondendo, dizia-lhes: «Quem tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e quem tem que comer, faça o mesmo». 12 Foram também publicanos, para serem baptizados, e disseram-lhe: «Mestre, que devemos nós fazer?». 13 Ele respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos está fixado». 14 Interrogavam-no também os soldados: «E nós, que faremos?». Respondeu-lhes: «Não façais violência a ninguém, nem denuncieis falsamente, e contentai-vos com o vosso soldo». 15 Estando o povo na expectativa e pensando todos nos seus corações que talvez João fosse o Cristo, 16 João respondeu, dizendo a todos: «Eu, na verdade, baptizo-vos em água, mas virá um mais forte do que eu, a Quem não sou digno de desatar as correias das sandálias; Ele vos baptizará no Espírito Santo e no fogo; 17 tomará na Sua mão a pá, limpará a Sua eira e recolherá o trigo no Seu celeiro, mas a palha queimá-la-á num fogo inextinguível».

Comentário:
 
Por aqui se pode ver que João é considerado como alguém a quem recorrer pelas pessoas desejosas de levar uma vida correcta, fazer o que está certo e, com isso, alcançarem as graças de Deus.

Pessoas de todas as condições sociais e com os mais variados misteres que, mais tarde, Jesus há-de considerar como «ovelhas perdidas e sem pastor», encontram em João as respostas às suas dúvidas e incertezas.

A Lei de Deus tal como era conduzida e imposta pelos chefes do povo, os Príncipes dos Sacerdotes e os anciãos que se consideravam a eles próprios como os legítimos detentores da verdade de Lei, tinha chegado a um ponto tal de exageros e prescrições que se tornara uma «carga insuportável» para os judeus de boa cepa.

E, o Baptista, não deixa a ninguém sem resposta, uma orientação, um conselho e, também, um aviso a levar muito a sério: preparar o caminho, as almas, os corações para a vinda eminente do Salvador arrependendo-se e mudando de vida.

(ama, comentário sobre Lc 3, 10-18, 2012.12.16)


Leitura espiritual


HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte I

…/3

Aconteceu-me, mais uma vez, outra peripécia com Vitória, mas não tive nenhum arrependimento, pois conservei perfeitamente minha serenidade. - Desejava ter um tinteiro que se encontrava em cima da chaminé da cozinha. Sendo muito pequena para o tomar, pedi à Vitória muito delicadamente mo entregasse, mas ela o recusou e mandou-me subir numa cadeira. Sem dizer nada, tomei, a cadeira, mas a pensar que não era atenciosa. Querendo fazer que o sentisse, busquei em minha cabecinha o que mais me ofendia. Quando se aborrecia comigo, ela chamava-me de "pirralhinho", o que muito me humilhava. Então, antes de pular da minha cadeira abaixo, virei-me com dignidade e disse-lhe: "Vitória, sois um pirralho!" Depois escapei dali, deixando que meditasse a profunda declaração que eu acabava de fazer-lhe... A reação não se fez esperar. Logo a escutei, que esbravejava: "Senhorita Maria... a Teresa acaba de dizer-me que não passo de um pirralho!" Veio Maria e obrigou-me a pedir perdão, o que, porém, fiz sem contrição, por achar merecido o título de pirralho, uma vez que não quis estender seu grande braço para me prestar um pequeno serviço... Entanto, ela me queria muito, e também eu gostava muito dela. Um dia, tirou-me de grande risco em que caíra por culpa minha. Estava Vitória a passar roupa, e tinha ao lado um balde com água dentro. Eu, porém, olhava para ela a balouçar-me numa cadeira (e era hábito meu), e de repente me escapa a cadeira e caio, não no chão, mas no fundo o balde!... Os pés tocavam na cabeça, e eu abarrotava o balde como o pintinho abarrota o ovo!... A pobre da Vitória contemplava-me com um extremo de surpresa, pois nunca tinha visto situação igual. Tinha todo o empenho de safar-me quanto antes do meu balde, cousa que resultava impossível. Minha prisão era tão ajustada que eu não lograva fazer nenhum movimento. Com um pouco de dificuldade, ela salvou-me do meu grande perigo, mas não salvou minha roupa e tudo o mais, de sorte que tive de trocar a roupa, pois estava molhada que nem um pinto.

Outra ocasião caí dentro da lareira. Felizmente o fogo não estava aceso. Vitória não teve senão o incômodo de levantar-me e sacudir a cinza de que ficara coberta. Foi numa quarta-feira, quando estáveis no ensaio de canto com Maria, que todos esses reveses me aconteceram. Foi também numa quarta-feira que o Pe. Ducellier veio visitar-nos. Como Vitória lhe dissesse que não havia ninguém em casa senão Teresinha, ele entrou na cozinha para me visitar e olhou minhas lições. Muito desvanecida fiquei em receber meu confessor, porque pouco tempo antes me tinha confessado pela primeira vez. Que suave lembrança para mim!...

Ó minha Mãe querida! com que solicitude me preparastes, quando me explicastes que não era a um homem, mas ao Bom Deus que iria contar meus pecados. Disto estava tão convicta, que fiz minha confissão com grande espírito de fé, e cheguei até a perguntar-vos, se não seria mister referir ao Padre Ducellier que o amava de todo o meu coração, pois que em sua pessoa era ao Bom Deus que ia falar...

Bem instruída a respeito de tudo quanto devia fazer e dizer, entrei no confessionário e pus-me de joelhos. Quando, porém, abriu o postigo, Padre Ducellier não enxergou ninguém. Era tão pequena, que a cabeça não alcançava o parapeito, onde se apóiam as mãos. Então mandou-me ficar de pé. Obedecendo imediatamente, levantei-me e postei-me bem na frente dele para o ver melhor. Fiz minha confissão como se fosse uma menina grande e recebi sua bênção com grande devoção, porque me havíeis explicado que, nesse momento, as lágrimas do Menino Jesus purificariam minha alma. Lembro-me de que a primeira exortação que me foi feita, incitava-me principalmente a ter devoção à Santíssima Virgem, e prometi a mim mesma redobrar minha ternura para com ela. Ao sair do confessionário estava tão contente e lépida, como jamais sentira tamanha alegria na alma. Depois, tornava a confessar-me em todas as grandes festas litúrgicas, e para mim era cada vez um verdadeiro gozo, quando o fazia.

Os dias santos!... Ah! quantas recordações não desperta esta palavra! Os dias santos, como os amava!... Vós, minha querida Mãe, sabíeis explicar-me tão bem todos os mistérios ocultos em cada um deles, que para mim eram verdadeiramente dias do Céu. Gostava mormente das procissões do Santíssimo Sacramento. Que alegria espalhar flores aos pés do Bom Deus!... Antes, porém, de deixá-las cair, atirava-as o mais alto que podia, e nunca me dava por tão feliz como na ocasião que via minhas rosas desfolhadas tocarem no sagrado Ostensório...

Os dias santos! Ah! se os grandes eram raros, cada semana trazia de novo um muito chegado ao meu coração: "o Domingo!" Que dia grande, o Domingo!...

Era o dia santo do Bom Deus, o dia santo do repouso. Primeiro ficava nanando mais tempo do que nos outros dias, e depois mamãe Paulina mimava sua filhinha, quando lhe servia o chocolate em sua dormida, e ato contínuo a vestia como uma rainhazinha... Vinha a madrinha fazer o penteado da afilhada. Esta nem sempre ficava quietinha, quando lhe assentavam o cabelo, mas depois tinha toda a satisfação de ir pegar a mão de seu Rei que, em tal dia, lhe dava um abraço mais afectuoso do que de ordinário, pois toda a família se movimentava para a Missa. Em todo o trajeto do caminho, e mesmo dentro da igreja, a "Rainhazinha do Papai" dava-lhe a mão. Tomava lugar ao lado dele, e quando nos víamos obrigados a chegar mais adiante para o sermão, era preciso ainda encontrar dois assentos, um ao lado do outro. Não se tornava muito difícil. Toda a gente parecia achar tão amorável ver um ancião tão imponente com uma filha tão pequenina, que as pessoas não se incomodavam em ceder seus lugares. Meu tio que ficava nos bancos dos fabriqueiros, alegrava-se quando nos via chegar. Dizia ser eu seu mimoso raio de Sol... Por mim, não me inquietava de ser alvo de olhares. Ouvia muito atenta os sermões, dos quais, aliás, não alcançava muita cousa. O primeiro que entendi, e que me comoveu profundamente foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Padre Ducellier. Dali por diante entendi todos os outros sermões. Quando o pregador falava de Santa Teresa, papai curvava-se para me dizer baixinho: "Escuta bem, minha rainhazinha, ele fala de tua Santa Padroeira". Realmente, estava escutando bem, mas olhava mais vezes para o papai do que para o pregador. Seu belo semblante dizia-me tantas coisas!... Por vezes, seus olhos marejavam-se de lágrimas. Em vão procurava sopitá-las. Parecia estar já desligado da terra, tanto sua alma gostava de imergir nas verdades eternas... Sua carreira, porém, estava longe do termo final. Longos anos deviam passar, antes que o belo Céu se abrisse a seus olhos embevecidos, e o Senhor enxugasse as lágrimas do seu bom e fiel servidor!...

Mas, novamente torno ao meu dia de Domingo. Esse dia de gozo que passava tão depressa, tinha seu toque de melancolia. Lembra-me que, até a hora de Completas, minha felicidade era sem travo algum. Durante essa hora canónica, vinha-me o pensamento de que o dia de repouso ia terminar... que no dia seguinte seria necessário recomeçar a vida, trabalhando, aprendendo lições, e o coração sentia o exílio da terra... Suspirava pelo eterno repouso do Céu, pelo Domingo sem ocaso da Pátria!...

(cont.) 




Bento VXI – Pensamentos espirituais 22

Quasi Deus daretur


Os valores morais deixaram de ser evidentes. Eles apenas se tornam evidentes se Deus existir… Devemos viver quasi Deus daretur, ainda que não tenhamos a força da fé, devemos com base nesta hipótese, porque senão o mundo não funciona.

(Encontro com o clero da Diocese de Aóstia. (25.Jul.05)

(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)


26/10/2014

Quem ama a Deus dá-se a si mesmo

O tempo é o nosso tesouro, o "dinheiro" para comprarmos a eternidade. (Sulco 882)

Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus! Não há desculpas para justificar essa actuação. Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada. Também com um só talento podes agir de modo meritório. Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!


Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa. Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo. Não vê – em perspectiva rasteira – o seu eu na saúde, no nome, na carreira. (Amigos de Deus, 46)

Salvador



A chamada à salvação traz-no-la Cristo. Ele tem para o homem palavras de vida eterna (Jo 6,68); e dirige-se ao homem concreto que vive na terra. Dirige-se particularmente ao homem que sofre, no corpo ou na alma.


(São joão paulo ii, Homília em Lisboa 1982.05.14)

Tratado do verbo encarnado 11

Questão 2: Do modo da união do Verbo Encarnado

Art. 5 — Se em Cristo houve união de alma e de corpo.

O quinto discute-se assim — Parece que em Cristo não houve união de alma e de corpo.

1. — Pois, a união da nossa alma como o nosso corpo causa a pessoa ou a hipóstase do homem. Se pois, em Cristo, a alma estava unida ao corpo, resulta que constitui-se alguma hipóstase, da união de ambos. Ora, não a hipóstase do Verbo de Deus, que é eterna. Logo, haverá em Cristo alguma pessoa ou hipóstase, além da hipóstase do Verbo. O que vai contra o dito antes.

2. Demais. — Da união da alma e do corpo constitui-se a natureza da espécie humana. Ora, Damasceno diz, que em Nosso Senhor Jesus Cristo não podemos admitir unia espécie comum, Logo, nele não houve composição de alma e de corpo.

3. Demais. — A alma não se une ao corpo senão para vivificá-lo. Ora, o corpo de Cristo por dia ser vivificado pelo Verbo mesmo de Deus fonte e princípio da vida. Logo, em Cristo não houve união da alma e do corpo.

Mas, em contrário, o corpo não se chama animado senão pela sua união com a alma. Ora, dizemos que o corpo de Cristo é animado, segundo o canta a Igreja: Assumindo um corpo animado, dignou-se nascer de uma Virgem. Logo, em Cristo houve união da alma e do corpo.

Cristo é chamado homem univocamente com os outros homens, como sendo da mesma espécie que eles, segundo aquilo do Apóstolo: Fazendo-se semelhante aos homens. Ora, é da essência da espécie humana que a alma seja unida ao corpo, pois a forma não especifica senão por ser o acto da matéria, sendo este o termo da geração, pelo qual a natureza tende a realizar a espécie. Donde, é necessário admitir-se que em Cristo a alma estava unida ao corpo, sendo o contrário herético porque contraria a verdade da humanidade de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Foram levados por essa razão os que negaram a união da alma como o corpo, em Cristo, para não serem, assim, obrigados a admitir uma nova pessoa ou hipóstase em Cristo, pois, viam que no homem puro e simples a união da alma e do corpo constitui a pessoa. Mas isto dá-se no homem, que pura e simplesmente o é, porque nele a alma e o corpo estão unidos de modo a existirem por si. Mas em Cristo está um unido à outra corno adjuntos a um mais principal subsistente na natureza deles composta. E por isso, a união da alma e do corpo, em Cristo não constitui nova hipóstase ou pessoa, mas, esse conjunto advém à pessoa ou hipóstase preexistente. - Mas nem por isso daí se segue seja de menor eficácia a união da alma e do corpo em Cristo, do que em nós. Pois, em si mesma a união com o que é mais nobre não destrói a virtude ou a dignidade, mas as aumenta. Assim, a alma sensitiva, nos animais, constitui uma espécie, porque é considerada como forma última, não porém nos homens, embora em nós ela seja de maior poder e mais nobre, por causa da adjunção da ulterior e mais nobre perfeição da alma racional, como dissemos acima.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As palavras de Damasceno podem entender-se em sentido duplo. — Num, como referentes à natureza humana. A qual não tem a essência de espécie comum, segundo existe num só indivíduo, mas enquanto abstracta de todos os indivíduos, quando objecto de uma pura contemplação do espírito, ou enquanto existente em todos os indivíduos. Ora, o Filho de Deus não assumiu a natureza humana, enquanto objecto da pura contemplação do intelecto, porque, assim, não teria assumido a natureza humana em a sua realidade. A menos que se não dissesse que a natureza humana é uma das ideias separadas, como os Platónicos concebiam o homem sem a matéria. Mas então o Filho de Deus não teria assumido a carne, contra as palavras do Evangelho, um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho. Semelhantemente, também não se pode dizer que o Filho de Deus assumiu a natureza humana como ela existe em todos os indivíduos de uma mesma espécie, porque então teria assumido todos os homens. Resta, pois, como Damasceno diz em seguida, no mesmo livro, que assumiu a natureza humana em a sua indivisibilidade (in átomo), isto é, na sua individualidade, mas não em outro indivíduo — que seja o suposto ou a hipóstase da referida natureza — diferente da pessoa do Filho de Deus. — Noutro sentido pode entender-se o dito de Damasceno, não como referente à natureza humana, de modo que da união da alma e do corpo não resulte uma natureza comum, que é a humana, mas deve referir-se à união das duas naturezas — a divina e a humana — das quais não resulta nenhuma terceira composição, que seria uma determinada natureza comum, porque então esse terceiro composto seria naturalmente predicado de muitos indivíduos. E tal é o que Damasceno pretende dizer, sendo por isso que acrescenta, Pois, nunca foi gerado, nem nunca o será, outro Cristo, ao mesmo tempo sujeito da divindade e da humanidade, na divindade e na humanidade, Deus perfeito e simultaneamente homem perfeito.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O princípio da vida corporal é duplo. — Um, efectivo e, deste modo, o Verbo de Deus é o princípio de toda vida. De outro modo, um princípio de vida o é normalmente. Pois, sendo a vida a essência dos viventes, como diz o Filósofo, assim como cada ser é formalmente o que é pela sua forma, assim o corpo vive pela alma. E, deste modo, não é possível o corpo viver pelo Verbo, que não pode ser forma do corpo.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.