Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
02/07/2014
Nada vale a pena se não estamos junto do Senhor
Maria,
tua Mãe, levar-te-á ao Amor de Jesus. E aí estarás "cum gaudio et pace",
com alegria e paz, sempre "levado" – porque sozinho cairias e
encher-te-ias de lodo – pelo caminho fora, para crer, para amar e para sofrer. (Forja,
677)
Maria
e José perguntaram por ele a parentes e conhecidos. E, como não o encontrassem,
voltaram a Jerusalém à sua procura. A Mãe de Deus, que procurou com afã o seu
Filho, perdido sem sua culpa e que sentiu a maior alegria ao encontrá-lo,
ajudar-nos-á a voltar atrás, a rectificar o que for preciso, quando, pelas
nossas leviandades ou pecados, não consigamos descobrir Cristo. Teremos assim a
alegria de o abraçar de novo, para lhe dizer que nunca mais o perderemos.
Maria
é Mãe da ciência, porque com Ela se aprende a lição que mais importa: que nada
vale a pena se não estamos junto do Senhor, que de nada servem todas as
maravilhas da terra, todas as ambições satisfeitas, se no nosso peito não arde
a chama de amor vivo, a luz da santa esperança, que é uma antecipação do amor
interminável, na nossa Pátria definitiva. (Amigos de Deus, 278)
Pequena agenda do cristão
(Coisas
muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Simplicidade e modéstia.
Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha
“importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos,
deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.
Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.
Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda,
que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela
por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.
Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência
ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão
mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.
Pequeno exame:
Cumpri
o propósito que me propus ontem?
Temas para meditar - 163
Pode dizer-se, de certo modo, que Deus quer sofrer, por amor. Ele podia eliminar o ser humano, e acabar com esse sofrimento. Mas ama-o demais para isso. Ele podia obrigar-nos a sermos santos, acabando com a nossa liberdade. Também assim acabaria com o sofrimento. Mas também acabaria connosco. Por isso, em resultado do amor, Deus encontra-se na situação paradoxal de depender de nós. Como uma mãe, cuja felicidade depende vitalmente daquele filho que ela gerou.
(joão césar das neves, O Século de Fátima, Principia, 2ª Ed. nr. 125)
Tratado da lei 41
Art.
3 — Se a lei antiga continha preceitos cerimoniais, além dos morais.
(Infra,
a. 4, 5; q. 101, a. 1; q. 103, a. 3. q. 104, a. 1; IIª-IIae, q. 122, a. 1, ad
2; IV Sent., dist. I, q. 1, exposit. Litt.; Quodl. II, q. 4, a. 3; In Matth.,
cap. XXIII).
Parece que a lei antiga não continha
preceitos cerimoniais, além dos morais.
1. — Pois, toda lei é-nos imposta para
ser a regra directiva dos nossos actos humanos. Ora, os actos humanos chamam-se
morais, como já se disse (q. 1, a. 3). Logo, parece que a lei antiga dada aos
homens não devia conter senão preceitos morais.
2. Demais. — Os preceitos chamados
cerimoniais pertencem ao culto divino. Ora, o culto divino é um acto de virtude,
i. é, de religião que, como Túlio diz, à divina natureza rende um culto e
cerimónia. Ora, visando os preceitos morais aos actos das virtudes, como já se
disse (a. 2), parece que os preceitos cerimoniais não se devem distinguir dos
morais.
3. Demais. — Preceitos cerimoniais são
os de significação figurativa. Ora, como diz Agostinho, entre os homens as
palavras são principalmente significativas. Logo, não havia nenhuma necessidade
de a lei conter preceitos cerimoniais sobre alguns actos figurativos.
Mas, em contrário, diz a Escritura (Dt
4, 13-14): As dez palavras que escreveu em duas tábuas de pedra, mandou-me
naquele tempo que vos ensinasse as cerimónias e as ordenações que vós devíeis
guardar. Ora, os dez preceitos da lei são morais. Logo, além dos preceitos
morais, há outros que são cerimoniais.
Como já se disse (a. 2), a
lei divina foi principalmente instituída a fim de ordenar os homens para Deus;
ao passo que a lei humana, a fim de ordená-los principalmente uns para os
outros. Por isso, as leis humanas não cuidaram em instituir nada sobre o culto
divino, senão em ordem ao bem comum humano. E também por isso instituíram
muitas disposições, relativas às coisas divinas, por lhes parecerem
convenientes a informar os costumes humanos, como o demonstra o rito dos
gentios. A lei divina, inversamente, ordenou os homens uns para os outros,
enquanto isso convinha com a ordenação para Deus, que ela principalmente
visava. Ora, o homem ordena-se para Deus, não só pelos actos interiores do
espírito, — crer, esperar e amar — mas também por algumas obras exteriores,
pelas quais confessa a sua dependência, de Deus. E essas obras consideram-se
como pertencentes ao culto de Deus. E esse culto se chama cerimónia, quase
munia, i. é, dons de Ceres, chamada a deusa dos frutos, como alguns dizem;
porque, dos frutos se fizeram as primeiras oblações a Deus. Ou, como refere Valério
Máximo, o nome de cerimónia foi introduzido para significar o culto divino,
entre os latinos, por causa de um lugar fortificado perto de Roma chamado
Caere. Porque, quando Roma foi tomada pelos Gauleses, para ali foram
transferidos os sacrifícios dos Romanos, reverentissimamente feitos. Por onde,
os preceitos da lei, pertencentes ao culto de Deus, chama-se especialmente
cerimoniais.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— Os actos humanos entendem também com o culto divino. Por isso, a lei antiga,
dada aos homens, contém preceitos referentes a eles.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Como já se disse
(q. 91, a. 3), os preceitos da lei da natureza são comuns e precisam de
determinação. Ora, determinam-se pela lei humana e pela divina. E assim como as
próprias determinações, feitas pela lei humana, não se consideram como de lei
natural, mas de direito positivo; assim também, essas determinações dos
preceitos da lei da natureza, feitas pela lei divina, distinguem-se dos
preceitos morais, pertencentes à lei da natureza. Ora, cultuar a Deus, sendo acto
de virtude, pertence ao preceito moral; mas, a determinação desse preceito, i.
é, que deva ser cultuado com tais vítimas e tais dons, pertence aos preceitos
cerimoniais. Donde, os preceitos cerimoniais distinguem-se dos preceitos
morais.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Como diz
Dionísio, as coisas divinas não podem manifestar-se aos homens senão sob certas
semelhanças sensíveis. E estas semelhanças movem mais o ânimo, quando não são
expressas só pela palavra, mas também falam aos sentidos. Por isso, a Divina
Escritura manifesta as coisas divinas, não só por semelhanças expressas
verbalmente, como o mostram as locuções metafóricas; mas também por semelhanças
das coisas propostas à vista, o que pertence aos preceitos cerimoniais.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho, comentário e Leitura espiritual (COLAB. DO HOMEM E DA MULHER NA IGREJA E NO MUNDO)
Evangelho:
Mt 8, 28-34
28 Quando
Jesus chegou à outra margem do lago, à região dos gadarenos, vieram-Lhe ao
encontro dois endemoninhados, que saíam dos sepulcros. Eram tão ferozes que
ninguém ousava passar por aquele caminho. 29 E puseram-se a gritar,
dizendo: «Que tens Tu connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes
do tempo?». 30 Estava não longe deles uma vara de muitos porcos, que
pastavam. 31 Os demónios suplicaram a Jesus: «Se nos expulsas daqui,
manda-nos para aquela vara de porcos». 32 Ele disse-lhes: «Ide».
Eles, saindo, entraram nos porcos, e imediatamente toda a vara se precipitou,
com ímpeto, de um despenhadeiro, no mar e morreram nas águas. 33 Os
pastores fugiram, e indo à cidade, contaram tudo o que se tinha passado com os
possessos do demónio. 34 Então toda a cidade saiu ao encontro de
Jesus e, quando O viram, pediram-Lhe que se retirasse do seu território.
Comentário:
Parece
um pouco estranha esta passagem do Evangelho porque alguns –e talvez seja o
nosso caso – não compreendemos o que terá levado o Senhor a consentir na perda
de tão grande numero de porcos.
Três
considerações:
1ª
- Se os habitantes da cidade criavam porcos está claro que não seriam judeus.
Sendo assim, muito provavelmente ignoravam o que se referia ao Messias esperado
por Israel. Logo, a pessoa de Jesus Cristo não lhes “dizia” nada de especial e,
talvez por este motivo o Senhor quisesse captar a sua atenção.
2ª
– Permitindo ao demónio praticar algo mau - como indiscutivelmente a perda dos
animais foi – Jesus, ao mesmo tempo – impede-o de fazer muito pior que era o
exercer o seu domínio sobre uma pessoa humana.
3ª
– Colocar os gadarenos perante esta realidade: do demónio só se pode esperar o
mal e de Deus o bem.
Foi
pena que os habitantes da cidade não tivessem aproveitado a “lição” e se
ficassem considerando apenas o prejuízo que nem por ser avultado superava o
muito que tinha ganho.
CARTA
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE
A COLABORAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER
NA
IGREJA E NO MUNDO
INTRODUÇÃO
1. Perita em humanidade, a
Igreja está sempre interessada por tudo o que diz respeito ao homem e à mulher.
Nestes últimos tempos, tem-se reflectido muito sobre a dignidade da mulher,
sobre os seus direitos e deveres nos diversos âmbitos da comunidade civil e eclesial.
Havendo contribuído para o aprofundamento desta temática fundamental, sobretudo
com o ensinamento de João Paulo II, 1 a Igreja sente-se hoje
interpelada por algumas correntes de pensamento, cujas teses muitas vezes não
coincidem com as finalidades genuínas da promoção da mulher.
O presente documento,
depois de uma breve apresentação e apreciação crítica de certas concepções
antropológicas hodiernas, entende propor algumas reflexões inspiradas pelos
dados doutrinais da antropologia bíblica — aliás indispensáveis para a
salvaguarda da identidade da pessoa humana — sobre alguns pressupostos em ordem
a uma recta compreensão da colaboração activa do homem e da mulher na Igreja e
no mundo, a partir dessa sua mesma diferença. Pretendem estas reflexões, ao
mesmo tempo, propor-se como ponto de partida para um caminho de aprofundamento
no seio da Igreja e para instaurar um diálogo com todos os homens e mulheres de
boa vontade, na busca sincera da verdade e no esforço comum de promover
relações cada vez mais autênticas.
I.
O PROBLEMA
2. Nestes últimos anos
têm-se delineado novas tendências na abordagem do tema da mulher. Uma primeira
tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando
criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma, apresenta-se
como antagónica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de
busca do poder. Um tal processo leva a uma rivalidade entre os sexos, onde a
identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro, com a
consequência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que tem o
seu revés mais imediato e nefasto na estrutura da família.
Uma segunda tendência
emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro
sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos
de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença
corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente
cultural, chamada género, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O
obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de enormes
consequências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia favorecer
perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo
biológico, acabou de facto por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o
questionamento da família, por sua índole natural bi-parental, ou seja, composta
de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um
novo modelo de sexualidade polimórfica.
3. A raiz imediata da
sobredita tendência coloca-se no contexto da questão da mulher, mas a sua
motivação mais profunda deve procurar-se na tentativa da pessoa humana de
libertar-se dos próprios condicionamentos biológicos. 2 De acordo
com tal perspectiva antropológica, a natureza humana não teria em si mesma
características que se imporiam de forma absoluta: cada pessoa poderia e
deveria modelar-se a seu gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação
ligada à sua constituição essencial.
Muitas são as
consequências de uma tal perspectiva. Antes de mais, consolida-se a ideia de
que a libertação da mulher comporta uma crítica à Sagrada Escritura, que transmitiria
uma concepção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura essencialmente
machista. Em segundo lugar, semelhante tendência consideraria sem importância e
sem influência o facto de o Filho de Deus ter assumido a natureza humana na sua
forma masculina.
4. Perante tais correntes
de pensamento, a Igreja, iluminada pela fé em Jesus Cristo, fala ao invés de
colaboração activa, precisamente no reconhecimento da própria diferença entre
homem e mulher.
Para melhor compreender o
fundamento, o sentido e as consequências desta resposta, convém voltar, ainda
que brevemente, à Sagrada Escritura, que é rica também de sabedoria humana, e
onde esta resposta se manifestou progressivamente, graças à intervenção de Deus
em favor da humanidade. 3
II.
OS DADOS FUNDAMENTAIS DA ANTROPOLOGIA BÍBLICA
5. Uma primeira série de
textos bíblicos a examinar são os primeiros três capítulos do Génesis.
Colocam-nos eles «no contexto do “princípio” bíblico, no qual a verdade
revelada sobre o homem como “imagem e semelhança de Deus” constitui a base
imutável de toda a antropologia cristã». 4
No primeiro texto (Gen
1,1-2,4) descreve-se o poder criador da Palavra de Deus que estabelece
distinções no caos primigénio. Aparecem a luz e as trevas, o mar e a terra
firme, o dia e a noite, as ervas e as árvores, os peixes e as aves, todos
«segundo a própria espécie». Nasce um mundo ordenado a partir de diferenças
que, por sua vez, são outras tantas promessas de relações. Eis, assim, esboçado
o quadro geral em que se coloca a criação da humanidade. «Disse Deus: Façamos o
homem à nossa imagem e semelhança... Deus criou o ser humano à sua imagem;
criou-o à imagem de Deus; criou-o homem e mulher» (Gen 1, 26-27). A humanidade
aqui é descrita como articulada, desde a sua primeira origem, na relação do
masculino e do feminino. É esta humanidade sexuada que é explicitamente
declarada «imagem de Deus».
6. O segundo relato da
criação (Gen 2,4-25) confirma inequivocamente a importância da diferença
sexual. Uma vez plasmado por Deus e colocado no jardim, de que recebe a gestão,
aquele que é designado ainda com o termo genérico de Adam sente uma solidão que
a presença dos animais não consegue preencher. Precisa de uma ajuda que lhe
seja correspondente. O termo indica, aqui, não um papel subalterno, mas uma
ajuda vital. 5 A finalidade é, efectivamente, a de permitir que a
vida de Adam não se afunde num confronto estéril, e por fim mortal, apenas
consigo mesmo. É necessário que entre em relação com um outro ser que esteja ao
seu nível. Só a mulher, criada da mesma «carne» e envolvida no mesmo mistério,
dá um futuro à vida do homem. Isso dá-se a nível ontológico, no sentido que a
criação da mulher da parte de Deus caracteriza a humanidade como realidade
relacional. Neste encontro brota também a palavra que abre, pela primeira vez,
a boca do homem numa expressão de maravilha: «Esta é realmente carne da minha
carne e osso dos meus ossos» (Gen 2,23).
«A mulher — escreveu o
Santo Padre em referência a este texto do Génesis — é um outro “eu” na comum
humanidade. Desde o início, [o homem e a mulher] aparecem como “unidade dos
dois”, e isto significa a superação da solidão originária, na qual o homem não
encontra “um auxiliar que lhe seja semelhante” (Gen 2,20). Tratar-se-á aqui do
“auxiliar” só na acção, no “dominar a terra”? (cfr Gen 1,28). Certamente se
trata da companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se como se une com a
esposa, tornando-se com ela “uma só carne” e abandonando, por isso, o “seu pai
e a sua mãe” (cfr Gen 2,24)». 6
A diferença vital é orientada
à comunhão e é vivida de forma pacífica, expressa no tema da nudez: «Ora ambos
andavam nus, o homem e a sua mulher, e não sentiam vergonha» (Gen 2,25). Assim,
o corpo humano, marcado pelo selo da masculinidade ou da feminilidade,
«comporta “desde o princípio” o atributo “esponsal”, ou seja a capacidade de
exprimir o amor: aquele amor precisamente no qual o homem-pessoa se torna dom e
— mediante esse dom — realiza o próprio sentido do seu ser e existir». 7
Ainda comentando estes versículos do Génesis, o Santo Padre continua: «Nesta
sua particularidade, o corpo é a expressão do espírito, e é chamado, no próprio
mistério da criação, a existir na comunhão das pessoas, “à imagem de Deus”». 8
Na mesma perspectiva
esponsal, compreende-se em que sentido o antigo relato do Génesis dê a entender
como a mulher, no seu ser mais profundo e originário, exista «para o outro»
(cfr 1Cor 11,9): é uma afirmação que, bem longe de evocar alienação, exprime um
aspecto fundamental da semelhança com a Santíssima Trindade, cujas Pessoas, com
a vinda de Cristo, revelam estar em comunhão de amor, umas para as outras. «Na
“unidade dos dois”, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a
existir “um ao lado do outro” ou “juntos”, mas também a existir reciprocamente “um
para o outro”... O texto de Génesis 2,18-25 indica que o matrimónio é a
primeira e, num certo sentido, a fundamental dimensão desta chamada. Não é,
porém, a única. Toda a história do homem sobre a terra realiza-se no âmbito
desta chamada. Na base do princípio do recíproco ser “para” o outro, na
“comunhão” interpessoal, desenvolve-se nesta história a integração na própria
humanidade, querida por Deus, daquilo que é “masculino” e daquilo que é
“feminino”». 9
A visão pacífica com que
termina o segundo relato da criação ecoa no «muito bom» que, no primeiro
relato, encerrava a criação do primeiro casal humano. É aqui que se encontra o
coração do plano originário de Deus e da verdade mais profunda do homem e da
mulher, como Deus os quis e criou. Por mais perturbadas e obscurecidas que
sejam pelo pecado, tais disposições originárias do Criador jamais poderão ser
anuladas.
7. O pecado original
altera a maneira como o homem e a mulher acolhem e vivem a Palavra de Deus e a
sua relação com o Criador. Logo a seguir à entrega do dom do jardim, Deus dá um
mandamento positivo (cfr Gen 2,16), seguido de outro negativo (cfr Gen 2,17),
em que implicitamente se afirma a diferença essencial entre Deus e a humanidade.
Sob a insinuação da Serpente, essa diferença é contestada pelo homem e pela
mulher. Em consequência, é também alterada a maneira de viver a sua diferença
sexual. O relato do Génesis estabelece assim uma relação de causa e efeito
entre as duas diferenças: quando a humanidade considera Deus como seu inimigo,
a própria relação do homem e da mulher é pervertida. Quando esta última relação
se deteriora, o acesso ao rosto de Deus corre, por sua vez, o perigo de ficar
comprometido.
Nas palavras que Deus
dirige à mulher a seguir ao pecado, é expressa de forma lapidar, mas não menos
impressionante, o tipo de relações que passarão a instaurar-se entre o homem e
a mulher: «Sentir-te-ás atraída para o teu marido e ele te dominará» (Gen
3,16). Será uma relação em que frequentemente se desnaturará o amor na mera
busca de si mesmo, numa relação que ignora e mata o amor, substituindo-o com o
jogo do domínio de um sexo sobre o outro. A história da humanidade reproduz de
facto tais situações, em que se exprime claramente a tríplice concupiscência
que São João recorda, ao falar da concupiscência da carne, da concupiscência
dos olhos e da soberba da vida (cfr 1Jo 2,16). Nesta trágica situação,
perdem-se a igualdade, o respeito e o amor, que no plano originário de Deus a
relação do homem e da mulher exige.
8. Repassar estes textos
fundamentais permite reafirmar alguns dados capitais da antropologia bíblica.
Antes de mais, há que
sublinhar o carácter pessoal do ser humano. «O homem é uma pessoa, em igual
medida o homem e a mulher: os dois, na verdade, foram criados à imagem e
semelhança do Deus pessoal». 10 A igual dignidade das pessoas
realiza-se como complementaridade física, psicológica e ontológica, dando lugar
a uma harmoniosa «unidualidade» relacional, que só o pecado e as “estruturas do
pecado” inscritas na cultura tornaram potencialmente conflituosa. A
antropologia bíblica convida a enfrentar com uma atitude relacional, não
concorrencial nem de desforra, os problemas que, a nível público ou privado,
envolvem a diferença de sexo.
Há que salientar, por outro
lado, a importância e o sentido da diferença dos sexos como realidade
profundamente inscrita no homem e na mulher: «a sexualidade caracteriza o homem
e a mulher, não apenas no plano físico, mas também no psicológico e espiritual,
marcando todas as suas expressões». 11 Não se pode reduzi-la a puro
e insignificante dado biológico, mas é «uma componente fundamental da
personalidade, uma sua maneira de ser, de se manifestar, de comunicar com os
outros, de sentir, exprimir e viver o amor humano». 12 Esta capacidade
de amar, reflexo e imagem de Deus Amor, tem uma sua expressão no carácter
esponsal do corpo, em que se inscreve a masculinidade e a feminilidade da
pessoa.
A dimensão antropológica
da sexualidade é inseparável da teológica. A criatura humana, na sua unidade de
alma e corpo, é desde o princípio qualificada pela relação com o outro-de-si. É
uma relação que se apresenta sempre boa e, ao mesmo tempo, alterada. É boa, de
uma bondade originária declarada por Deus desde o primeiro momento da criação;
mas é também alterada pela desarmonia entre Deus e a humanidade provocada pelo
pecado. Esta alteração não corresponde, porém, nem ao projecto inicial de Deus
sobre o homem e sobre a mulher, nem à verdade da relação dos sexos. Daí que,
portanto, esta relação boa, mas ferida, precise de ser curada.
Quais podem ser os
caminhos dessa cura? Considerar e analisar os problemas inerentes à relação dos
sexos, só a partir de uma situação marcada pelo pecado, levaria necessariamente
o pensamento a regredir aos erros acima acenados. Há portanto que romper esta
lógica de pecado e procurar uma saída que permita extirpá-la do coração do
homem pecador. Uma orientação clara nesse sentido encontra-se na promessa
divina de um Salvador, em que aparecem empenhadas a «mulher» e a sua
«descendência» (cfr Gen 3,15). É uma promessa que, antes de se cumprir, terá
uma longa preparação na história.
(cont.)
_______________________
Notas:
1
Cfr João Paulo II, Exort. apost. post-sinodal Familiaris consortio (22 de
Novembro de 1981): AAS 74 (1982), 81-191; Carta apost. Mulieris dignitatem (15
de Agosto de 1988): AAS 80 (1988), 1653-1729; Carta às famílias (2 de Fevereiro
de 1994): AAS 86 (1994), 868-925; Carta às mulheres (29 de Junho de 1995): AAS
87 (1995), 803-812; Catequese sobre o amor humano (1979-1984): Insegnamenti II
(1979) - VII (1984); Congregação para a Educação Católica, Orientações
educativas sobre o amor humano. Lineamentos de educação sexual (1 de Novembro
de 1983): Ench. Vat. 9, 420-456; Pontifício Conselho para a Família,
Sexualidade humana: verdade e significado. Orientações educativas em família (8
de Dezembro de 1995): Ench. Vat. 14, 2008-2077.
2
Sobre a complexa questão do gender, cfr ainda Pontifício Conselho para a
Família, Família, matrimónio e «união de facto» (26 de Julho de 2000), 8:
Suplemento a L'Osservatore Romano (22 de Novembro de 2000), 4.
3
Cfr João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 21: AAS
91 (1999), 22: «Esta abertura ao mistério, que provinha da Revelação, acabou por
ser para ele [o homem bíblico] a fonte de um verdadeiro conhecimento, que
permitiu à sua razão aventurar-se em espaços infinitos, recebendo
possibilidades de compreensão, até então impensáveis».
4
João Paulo II, Carta apost. Mulieris dignitatem (15 de Agosto de 1988), 6: AAS
80 (1988), 1662; cfr S. Ireneu, Adversus haereses, 5, 6, 1; 5, 16, 2-3: SC 153,
72-81; 216-221; S. Gregório de Nissa, De hominis opificio, 16: PG 44, 180; In
Canticum homilia, 2: PG 44, 805-808; S. Agostinho, Enarratio in Psalmum, 4, 8:
CCL 38,17.
5
A palavra ebraica ezer, traduzida com ajuda, indica o socorro que só uma pessoa
dá a uma outra pessoa. O termo não comporta nenhuma conotação de inferioridade
ou instrumentalização, se se tem presente que também Deus é por vezes chamado
ezer em relação ao homem (cfr Ex 18,4; Sal 9-10, 35).
6
João Paulo II, Carta apost. Mulieris dignitatem (15 de Agosto de 1988), 6: AAS
80 (1988), 1664.
7
João Paulo II, Catequese O homem-pessoa torna-se dom na liberdade do amor (16
de Janeiro de 1980), 1: Insegnamenti III, 1 (1980), 148.
8
João Paulo II, Catequese a concupiscência do corpo deforma as relações
homem-mulher (23 de Julho de 1980), 1: Insegnamenti III, 2 (1980), 288.
9
João Paulo II, Carta apost. Mulieris dignitatem (15 de Agosto de 1988), 7: AAS
80 (1988), 1666.
10
Ibid., 6: l.c., 1663.
11
Congregação para a Educação Católica, Orientações educativas sobre o amor
humano. Lineamentos de educação sexual (1 de Novembro de 1983), 4: Ench. Vat.
9, 42312Ibid.
01/07/2014
Bento XVI – Pensamentos espirituais 5
(De São Bento) conhecemos
a recomendação que deixou aos monges na sua regra: «Nunca sobrepor nada a
Cristo» (Regra 72, 11, cfr. 4, 21). No inicio do meu serviço como sucessor de
Pedro, peço a São Bento que me ajude a conservar firmemente Cristo como centro
da nossa existência. Que Ele tenha sempre o primeiro lugar no nosso pensamento
e em tudo o que fazemos.
(BENTO XVI, Catequese da
primeira audiência geral, 2005.04.27)
Recorre com confiança a Nossa Senhora
Quando
te vires com o coração seco, sem saber o que hás-de dizer, recorre com
confiança a Nossa Senhora. Diz-Lhe: "Minha Mãe Imaculada, intercede por
mim!". Se a invocares com fé, Ela far-te-á saborear – no meio dessa secura
– a proximidade de Deus. (Sulco, 695)
Contemplemos
agora a sua Mãe bendita, também nossa Mãe. No Calvário, junto ao patíbulo,
reza. Não é uma atitude nova em Maria. Assim se conduziu sempre, cumprindo os
seus deveres, ocupando-se do seu lar. Enquanto estava nas coisas da terra,
permanecia pendente de Deus. Cristo, perfectus Deus, perfectus homo , quis que
também a sua Mãe, a criatura mais excelsa, a cheia de graça, nos confirmasse
nesse afã de elevar sempre o olhar para o amor divino. Recordai a cena da
Anunciação: desce o arcanjo para comunicar a divina embaixada – a mensagem de
que seria Mãe de Deus – e encontra-a retirada em oração. Maria está totalmente
recolhida no Senhor, quando S. Gabriel a saúda: Deus te salve, oh cheia de
graça! O Senhor é contigo. Dias depois, irrompe na alegria do Magnificat – esse
cântico mariano que nos transmitiu o Espírito Santo pela delicada fidelidade de
S. Lucas – fruto da intimidade habitual da Virgem Santíssima com Deus.
A
nossa Mãe meditou longamente as palavras das mulheres e dos homens santos do
Antigo Testamento, que esperavam o Salvador, e os acontecimentos de que foram
protagonistas. Admirou o cúmulo de prodígios e o excesso da misericórdia de
Deus com o seu povo, tantas vezes ingrato. Ao considerar esta ternura do Céu,
incessantemente renovada, brota o afecto do seu Coração imaculado: a minha alma
glorifica o Senhor; e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador. Porque
lançou os olhos para a baixeza da sua escrava. Os filhos desta boa Mãe, os
primeiros cristãos, aprenderam com Ela, e nós também podemos e devemos
aprender. (Amigos de Deus, 241)
Pequena agenda do cristão
TeRÇa-Feira
(Coisas
muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Aplicação no trabalho.
Senhor,
ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito
para to poder oferecer.
Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.
Senhor, lembra-te de tantos e tantas
que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes
esperança e confiança.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me
propus ontem?
Diálogos apostólicos 23
Nota: Normalmente, estes “Diálogos
apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas
semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase
na íntegra.
Achas estranho que tão depressa estejas radiante, quase
eufórico, com os progressos, evidentes, que vives, como te parece que não sais
do mesmo lugar e que são escusadas tanta luta e esforço.
Ouve-me com atenção: ‘pensas que ao demónio lhe agrada o
teu progresso? Claro que não e, assim que te vê todo contente, logo te tenta
com o desânimo de te sentires muito, muito longe da meta.
Portanto, já sabes, isso não vem de ti, mas sim
“manobras” do tentador.’
‘Mas é difícil manter a serenidade…’ dizes-me.
‘Concordo contigo mas lembro-te que, normalmente, a
serenidade vem depois da luta. É como se costuma dizer: “Depois da tempestade
vem a bonança”!’
Temas para meditar - 162
Possivelmente não há uma palavra que exprima melhor a auto-revelação de um Deus no Filho que a palavra "Abbá-Pai".
Abbá é uma expressão aramaica. que se conservou no texto grego do Evangelho de Marcos (Mc 14, 36). Aparece precisamente quando Jesus se dirige ao Pai. E embora esta palavra se possa traduzir para qual quer língua, contudo, nos lábios de Jesus de Nazaré permite perceber melhor o seu conteúdo único, irrepetível.
Efectivamente, Abbá exprime não só o louvor tradicional de Deus:
«Eu Te bendigo ó Pai, Senhor do Céu e da Terra» (cfr. Mt 11, 25), como nos lábios de Jesus revela a consciência da relação única e exclusiva que existe entre o Pai e Ele, entre Ele e o Pai. Exprime a mesma realidade a que alude Jesus deforma tão simples e ao mesmo tempo tão extraordinária com as palavras conservadas no texto do Evangelho de Mateus (Mt 11, 27) e também no de Lucas (Lc 10, 22): E ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Quer dizer, a palavra Abbá não só manifesta o mistério da vinculação recíproca entre o Pai e o Filho, como sintetiza de alguma maneira toda a verdade da vida íntima de Deus na sua profundidade trinitária: o conhecimento recíproco do Pai e do Filho, do qual emana o Amor eterno.
A palavra Abbá forma parte da linguagem da família e testemunha essa particular comunhão de pessoas que existe entre o pai e o filho gerado por ele, entre o filho que ama o pai e ao mesmo tempo é amado por ele. Quando, para falar de Deus, Jesus utilizava esta palavra, devia causar admiração e até escandalizar os seus ouvintes. Um israelita não a teria utilizado nem na oração. Só quem se considerava Filho de Deus em sentido próprio poderia falar dele e dirigir-se a Ele como Pai. Abbá, quer dizer, eu pai, paizinho, papá.
(Btº JOÃO PAULO II, Audiência Geral, 1987.07.01)
Tratado da lei 40
Art.
2 — Se a lei antiga continha preceitos morais.
(Infra,
a. 4; In Matth., cap. XXIII).
O segundo discute-se assim. — Parece
que a lei antiga não continha preceitos morais.
1. — Pois, a lei antiga distingue-se
da lei natural, como já se estabeleceu (q. 91, a. 4, a. 5; q. 98, a. 5). Ora,
os preceitos morais pertencem à lei da natureza. Logo, não pertencem à lei
antiga.
2. Demais. — A lei divina devia vir em
socorro do homem quando lhe falhasse a razão; como se dá claramente com as
coisas da fé, supra-racionais. Ora, para se observarem o preceito moral
basta-nos a razão. Logo, eles não pertencem à lei antiga, que é uma lei divina.
3. Demais. — A lei antiga é
considerada como a letra que mata, conforme a Escritura (2 Cor 3, 6). Ora, os
preceitos morais não matam, mas vivificam, segundo a Escritura (Sl 118, 93):
Nunca jamais me esquecerei das tuas justificações, porque nelas me vivificaste.
Logo, os preceitos morais não pertencem à lei antiga.
Mas, em contrário, diz a Escritura (Sr
17, 9): acrescentou-lhes a disciplina, e deu-lhes em herança a lei da vida.
Ora, a disciplina diz respeito aos costumes, conforme diz a Glosa ao lugar, a
disciplina consiste na aquisição de bons costumes, vencendo dificuldades. Logo,
a lei dada por Deus continha preceitos morais.
A lei antiga continha
certos preceitos morais, como está claro na Escritura (Ex 20, 13-15): Não
matarás, não furtarás. E isto, racionalmente. Pois, assim como a intenção
principal da lei humana é procurar a amizade dos homens entre si, assim a da
lei divina é constituir principalmente a amizade entre o homem e Deus. Ora,
como a semelhança é a razão do amor, conforme aquilo da Escritura — Todo animal
ama ao seu semelhante — é impossível haver amizade entre o homem e Deus, que é
óptimo, sem o homem se tornar bom. Donde, diz a Escritura (Lv 19, 2; 11, 45):
Sede Santos, porque eu sou santo. Ora, a bondade do homem é a virtude, que
torna bom quem a tem. Logo, era necessário que fossem dados os preceitos da lei
antiga, mesmo relativos aos actos das virtudes. E estes são os preceitos morais
da lei.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO.
— A lei antiga distingue-se da lei natural, não como absolutamente diferente
dela, mas por lhe fazer certos acréscimos. Pois, assim como a graça pressupõe a
natureza, assim é necessário que pressuponha a lei divina à natural.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Era conveniente
que a lei divina providenciasse, não só quanto ao que a razão humana não pode
alcançar, mas também em relação ao que ela pode errar. Ora, em relação aos
preceitos morais, no atinente aos preceitos generalíssimos da lei natural, a
razão humana não podia errar completamente; mas o costume de pecar obscurecia-a
quanto às acções particulares. Relativamente porém aos outros preceitos morais,
que são quase conclusões deduzidas dos princípios gerais da lei da natureza, a
razão de muitos aberrava, de modo a julgar lícitas certas coisas em si mesmas
más. Por isso, era necessário, contra uma e outra deficiência, o homem ser
socorrido pela autoridade da lei divina. Assim também, entre as verdades que
devemos crer, são-nos propostas, não só aquelas que a razão não pode alcançar,
como a Trindade de Deus; mas também, as que a razão recta pode, como a unidade
divina. E isso para obviar o erro da razão humana, em que muitos caíam.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Como prova
Agostinho, também se diz, ocasionalmente, que a letra da lei, em relação aos
preceitos morais, mata, quando ordena o bem, sem conceder o auxílio da graça
para realizá-lo.
Nota:
Revisão da versão portuguesa por ama.
Evangelho, comentário e Leitura espiritual (Enc Le pèlerinage de Lourdes - Pio XII)
Evangelho: Mt 8, 23-27
23 Subindo para uma barca, seguiram-n'O os Seus discípulos. 24
E eis que se levantou no mar uma grande tempestade, de modo que as ondas
alagavam a barca; Ele, entretanto, dormia. 25 Aproximaram-se d'Ele
os discípulos, e acordaram-n'O, dizendo: «Senhor, salva-nos, que perecemos!». 26
Jesus, porém, disse-lhes: «Porque temeis, homens de pouca fé?». Então,
levantando-Se, ordenou imperiosamente aos ventos e ao mar, e seguiu-se uma
grande bonança. 27 Eles admiraram-se, dizendo: «Quem é Este, a quem
até os ventos e o mar obedecem?».
Comentário:
A pergunta dos discípulos, hoje,
espantar-nos-ia, porque nós sabemos Quem é Jesus Cristo.
Mas, se naquela barca, naquele momento,
é quase certo que também ficaríamos assombrados e, talvez, temerosos com a
evidência de tal poder.
Vendo bem as coisas até pode parecer um
milagre “menor”, se comparados com as curas de toda a espécie, as
multiplicações de pães e peixes, a pesca inexplicavelmente abundante.
Jesus Cristo quer deixar bem claro e
evidente que, Ele, é o Senhor, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade a Quem o
Pai deu todo o poder sobre o mundo, os homens, tudo, absolutamente, o que
existe.
(AMA, comentário sobre
Mt 8, 23-27, 2013.07.02)
CARTA ENCÍCLICA
LE PÈLERINAGE DE LOURDES
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
SOBRE O CENTENÁRIO
DAS APARIÇÕES DA SS. VIRGEM EM LOURDES
INTRODUÇÃO
1. A peregrinação a
Lourdes, que tivemos a alegria de realizar ao irmos presidir, em nome do nosso
predecessor Pio XI, as festas eucarísticas e marianas do encerramento do
jubileu da redenção, deixou em nossa alma profundas e doces recordações. Por
isso, particularmente agradável nos é saber que, por iniciativa do bispo de
Tarbes e Lourdes, a cidade marial se apresta para celebrar com brilho o
centenário das aparições da Virgem imaculada na gruta de Massabielle, e que um
comitê internacional foi, mesmo, constituído para esse fim sob a presidência do
eminente cardeal Eugène Tisserant, deão do Sacro Colégio. Convosco, caros
filhos e veneráveis irmãos, queremos agradecer a Deus o insigne favor feito à
vossa pátria, e tantas graças derramadas desde há um século sobre a multidão
dos peregrinos. Queremos igualmente convidar todos os nossos filhos a
renovarem, neste ano jubilar, a sua piedade confiante e generosa para com
aquela que, segundo a palavra de s. Pio X, se dignou estabelecer em Lourdes
"a sede da sua imensa bondade". 1
I
. NOSSA SENHORA NA HISTÓRIA DA FRANÇA
2. Toda terra cristã é uma
terra marial, e não há povo redimido pelo sangue de Cristo que não goste de
proclamar Maria sua mãe e sua padroeira. Relevo empolgante assume, todavia,
esta verdade quando se evoca a história da França. O culto da Mãe de Deus
remonta às origens da sua evangelização, e, entre os mais antigos santuários
marianos, Chartres ainda atrai os peregrinos em grande número, e milhares de
jovens. A Idade Média, que, notadamente com s. Bernardo, cantou a glória de
Maria e lhe celebrou os mistérios, viu a admirável eflorescência das vossas
catedrais dedicadas a Nossa Senhora: Le Puy, Reims, Amiens, Paris e tantas
outras... Essa glória da Imaculada anunciam-na elas de longe pelas suas flechas
esbeltas, fazem-na resplandecer na pura luz dos seus vitrais e na harmoniosa
beleza das suas estátuas; atestam elas sobretudo a fé de um povo a se alçar
acima de si mesmo num surto magnífico, para erguer no céu da França a homenagem
permanente da sua piedade mariana.
Os vários títulos de nossa
Senhora
3. Nas cidades e nos
campos, no topo das colinas ou dominando o mar, os santuários consagrados a
Maria humildes capelas ou esplêndidas basílicas cobriram pouco a pouco o país
com a sua sombra tutelar. Neles, príncipes, pastores e fiéis inúmeros afluíram,
ao longo dos séculos, para a Virgem santa, a quem saudaram com os títulos mais
expressivos da sua confiança ou da sua gratidão. Aqui se invoca nossa Senhora
da misericórdia, de todo auxílio ou do bom socorro; ali o peregrino refugia-se
ao pé de nossa Senhora da guarda, da piedade ou da consolação; alhures, a sua prece
sobe para nossa Senhora da luz, da paz, da alegria ou da esperança; ou, ainda,
implora ele nossa Senhora das virtudes, dos milagres ou das vitórias. Admirável
ladainha de invocações, cuja enumeração jamais acabada narra, de província em
província, os benefícios que a Mãe de Deus tem derramado, no correr dos tempos,
sobre a terra da França.
Nossa Senhora das Graças e
nossa Senhora de Lourdes
4. Devia, no entanto, o
século XIX, após a tormenta revolucionária, ser por muitos títulos o século das
predileções marianas. Para só citarmos um fato, quem é que não conhece hoje em
dia a "medalha milagrosa"? Revelada, no próprio coração da capital
francesa, a uma humilde filha de s. Vicente de Paulo que tivemos a alegria de
inscrever no catálogo dos santos, essa medalha cunhada com a efígie de
"Maria concebida sem pecado" espalhou por todos os lugares os seus
prodígios espirituais e materiais. E, alguns anos mais tarde, de 11 de
fevereiro a 16 de Julho de 1858, à bem-aventurada virgem Maria aprazia, por um
favor novo, manifestar-se na terra dos Pirineus a uma menina piedosa e pura,
saída de uma família cristã, trabalhadora na sua pobreza. "Ela vem a
Bernardete, dizíamos nós outrora, fá-la a sua confidente, a colaboradora, o
instrumento da sua ternura maternal e da misericordiosa onipotência de seu
Filho, para restaurar o mundo em Cristo por uma nova e incomparável efusão da
redenção". 2
Lourdes
5. Os acontecimentos que
então se desenrolaram em Lourdes, e cujas proporções espirituais melhor medimos
hoje, são-vos bem conhecidos. Sabeis, caros filhos e veneráveis irmãos, em que
condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de oposições, a voz
daquela menina, mensageira da Imaculada, se impôs ao mundo. Sabeis a firmeza e
a pureza do testemunho, experimentado com sabedoria pela autoridade episcopal e
por ela sancionado desde 1862. Já as multidões haviam acorrido e não têm
cessado de precipitar-se para a gruta das aparições, para a fonte milagrosa,
para o santuário elevado a pedido de Maria. É o comovente cortejo dos humildes,
dos doentes e dos aflitos; é a imponente peregrinação de milhares de fiéis de
uma diocese ou de uma nação; é a discreta diligência de uma alma inquieta que
busca a verdade... Dizíamos nós: "Jamais num lugar da terra se viu
semelhante cortejo de sofrimento, jamais semelhante irradiação de paz, de
serenidade e de alegria!" 3 E, poderíamos acrescentar, jamais
se saberá a soma de benefícios de que o mundo é devedor à Virgem auxiliadora!
"Ó gruta feliz, honrada pela presença da Mãe de Deus! Rocha digna de
veneração, da qual brotaram abundantes as águas vivificadoras!" 4
Lourdes e a Santa Sé
6. Estes cem anos de culto
mariano teceram, ademais, entre a Sé de Pedro e o santuário pirenaico laços
estreitos, que nos apraz reconhecer. A própria virgem Maria não desejou essas
aproximações? "O que em Roma, pelo seu magistério infalível, o sumo
pontífice definia, a Virgem Imaculada Mãe de Deus, a bendita entre as mulheres,
quis, ao que parece, confïrmá-lo por sua boca, quando pouco depois se manifestou
por uma célebre aparição na gruta de Massabielle". 5
Certamente, a palavra infalível do pontífice romano, intérprete autêntico da
verdade revelada, não necessitava de nenhuma confirmação celeste para se impor
à fé dos fiéis. Mas com que emoção e com que gratidão o povo cristão e seus
pastores não recolheram dos lábios de Bernardete essa resposta vinda do céu:
"Eu sou a Imaculada Conceição"!
7. Por isso, não é de
admirar que os nossos predecessores se hajam comprazido em multiplicar os seus
favores para com esse santuário. Desde 1860, Pio IX, de santa memória,
regozijava-se de que os obstáculos suscitados contra Lourdes pela malícia dos
homens houvessem permitido "manifestar com mais força e mais evidência a
clareza do facto". 6 E, forte dessa segurança, ele cumula de
benefícios espirituais a Igreja recém-educada, e faz coroar a estátua de nossa
Senhora de Lourdes. Leão XIII, em 1892, concede o oficio próprio e a missa da
festa "in apparitione Beatae Mariae Virginis Immaculatae", coisa que
o seu sucessor estenderá em breve à Igreja universal; o antigo apelo da
Escritura aí achará, de então por diante, aplicação nova: "Levanta minha
amada, formosa minha, vem a mim! Pomba minha, que se aninha nos vãos do
rochedo, pela fenda dos barrancos!" 7 Pelo fim da sua vida, o
grande pontífice fez questão de inaugurar e de benzer pessoalmente a reprodução
da gruta de Massabielle edificada nos jardins do Vaticano, e, na mesma época, a
sua voz se elevava para a Virgem de Lourdes por uma prece ardente e confiante:
"Que, no seu poder, a Virgem Mãe, que outrora cooperou por seu amor no
nascimento dos fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã da
nossa salvação; ... restitua a tranquilidade da paz aos espíritos angustiados;
apresse enfim, na vida privada como na vida pública, o retorno a Jesus
Cristo". 8
8. O cinquentenário da
definição dogmática da imaculada conceição da santíssima Virgem ofereceu a s.
Pio X o ensejo de atestar num documento solene o liame histórico entre esse ato
do magistério e a aparição de Lourdes: "Apenas Pio IX definira de fé
católica que desde a origem Maria foi isenta de pecado, a própria Virgem
começava a operar maravilhas em Lourdes". 9 Pouco depois, cria
ele o título episcopal de Lourdes, ligado ao de Tarbes, e assina a introdução
da causa de beatificação de Bernardete. Reservado estava sobretudo a esse
grande papa da eucaristia frisar e favorecer a admirável conjunção que existe
em Lourdes entre o culto eucarístico e a oração marial. Nota ele: "A
piedade para com a Mãe de Deus ali fez florescer uma notável e ardente piedade
para com Cristo nosso Senhor". 10 Podia, aliás, ser diversamente?
Tudo em Maria nos leva para seu Filho, único salvador, na previsão de cujos
méritos ela foi imaculada e cheia de graças; tudo em Maria nos eleva ao louvor
da adorável Trindade, e bem-aventurada foi Bernardete desfiando o seu terço
diante da gruta, e dos lábios e do olhar da Virgem Santa aprendendo a dar
glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! Por isso somos felizes, neste
centenário, de associar-nos a essa homenagem prestada por s. Pio X: "A
glória única do santuário de Lourdes reside no fato de nele serem os povos
atraídos de toda parte, por Maria, à adoração de Cristo Jesus no augusto
sacramento; de sorte que aquele santuário, ao mesmo tempo centro de culto
mariano e trono do mistério eucarístico, excede em glória, ao que parece, todos
os outros no orbe católico". 11
9. Aquele santuário já
cumulado de favores, Bento XV fez questão de enriquecê-lo de novas e preciosas
indulgências, e, se as trágicas circunstâncias do seu pontificado não lhe
permitiram multiplicar os atos públicos da sua devoção, todavia ele quis honrar
a cidade mariana concedendo ao seu bispo o privilégio do pálio no lugar das
aparições. Pio XI, que fora pessoalmente peregrino de Lourdes, prosseguiu a
obra dele, e teve a alegria de elevar aos altares a privilegiada da Virgem,
tornada, sob o véu, Irmã Maria Bernarda, da Congregação da caridade e da
instrução cristã. Por assim dizer, não autenticava ele por sua vez a promessa
da Imaculada à jovem Bernardete, "de ser feliz não neste mundo, mas no
outro"? E de então por diante Nevers, que se honra de guardar a urna
preciosa, atrai em grande número os peregrinos de Lourdes, desejosos de
aprender junto à santa a acolherem como convém a mensagem de nossa Senhora. Em
breve o ilustre pontífice, que a exemplo dos seus predecessores acabava de
honrar com uma Legação as festas de aniversário das aparições, decidia encerrar
o jubileu da redenção na gruta de Massabielle, lá onde, segundo os seus
próprios termos, "a Virgem Maria Imaculada várias vezes se mostrou à bem-aventurada
Bernardete Soubirous, onde com bondade exortou todos os homens à penitência,
naquele lugar mesmo da estupenda aparição que ela cumulou de graças e
prodígios". 12 Em verdade, concluía Pio XI, aquele santuário
"passa agora, a justo título, por ser um dos principais santuários
marianos do mundo". 13
10. A esse unânime
concerto de louvores como não haveríamos nós de unir a nossa voz? Fizemo-lo
especialmente na nossa encíclica Fulgens corona, relembrando, em seguimento aos
nossos predecessores, que, "ao que parece, a própria bem-aventurada virgem
Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o vigário de seu divino
Filho na terra acabava de proclamar com os aplausos da Igreja inteira". 14
E, naquela ocasião, lembrávamos como, cônscios da importância daquela
peregrinação, os pontífices romanos não haviam cessado de "enriquecê-la de
favores espirituais e dos benefícios da sua benevolência". 15 A
história destes cem anos, que acabamos de evocar a grandes traços, não é, com
efeito, uma constante ilustração dessa benevolência pontifícia, cujo último ato
foi o encerramento, em Lourdes, do ano centenário do dogma da imaculada
conceição? Mas a vós, caros filhos e veneráveis irmãos, gostamos de lembrar
especialmente um documento recente, pelo qual favorecíamos o surto de um
apostolado missionário na vossa cara Pátria. Nele quisemos evocar "os
méritos singulares que, no correr dos séculos, a França adquiriu para si no
progresso da fé católica", e, a este título, "volvíamos a nossa mente
e o nosso coração para Lourdes, onde, quatro anos após a definição do dogma, a
própria Virgem imaculada confirmou sobrenaturalmente, por aparições, conversas
e milagres, a declaração do doutor supremo". 16
11. Ainda hoje nos
volvemos para o célebre santuário que se prepara para acolher nas margens do
Gave a multidão dos peregrinos do centenário. Se, desde há um século, ardentes
súplicas, públicas e privadas, pela intercessão de Maria, ali têm obtido de
Deus tantas graças de cura e de conversão, temos a firme confiança de que neste
ano jubilar nossa Senhora quererá ainda com largueza corresponder à expectativa
de seus filhos; mas temos sobretudo a convicção de que ela nos exorte a
recolhermos as lições espirituais das aparições e a enveredarmos pela trilha
que ela tão claramente nos traçou.
II. AS LIÇÕES ESPIRITUAIS DAS APARIÇÕES
12. Essas lições, eco fiel
da mensagem evangélica, fazem ressaltar de maneira impressionante o contraste
que opõe os juízos de Deus à vã sabedoria deste mundo. Numa sociedade que não
tem lá muita consciência dos males que a corroem, numa sociedade que vela as
suas misérias e as suas injustiças sob aparências prósperas, brilhantes e
descuidosas, a Virgem imaculada, por quem o pecado jamais roçara, manifesta-se
à uma menina inocente. Com compaixão maternal percorre com o olhar este mundo
redimido pelo sangue de seu Filho, onde, infelizmente, o pecado faz cada dia
tantas devastações, e por três vezes lança o seu apelo premente: "Penitência,
penitência, penitência!" Gestos expressivos são, mesmo, pedidos: "Ide
beijar a terra em penitência pelos pecadores". E ao gesto há que juntar a
súplica: "Rogareis a Deus pelos pecadores". Tal como no tempo de João
Batista, tal como no início do ministério de Jesus, a mesma injunção, forte e
rigorosa, dita aos homens a trilha da volta a Deus: "Arrependei-vos"
(Mt 3, 2; 4, 17). E quem ousaria dizer que esse apelo à conversão do coração
perdeu, nos nossos dias, a sua actualidade?
13. Mas poderia a Mãe de
Deus vir a seus filhos senão como mensageira de perdão e de esperança? Já a
água lhe jorra aos pés: "Ó vós todos que tendes sede, vinde às águas e
recebereis do Senhor a salvação". 17 Àquela fonte onde, dócil,
Bernardete foi a primeira a ir beber e lavar-se, afluirão todas as misérias da
alma e do corpo. "Lá fui, lavei-me e vi" (Jo 9,11), poderá responder,
como o cego do evangelho, o peregrino agradecido. Mas, tal como para as turbas
que se comprimiam em volta de Jesus, a cura das chagas físicas ali fica sendo,
ao mesmo tempo que um gesto de misericórdia, o sinal do poder que o Filho do
Homem tem de perdoar os pecados (cf. Mc 2,10). Junto a gruta bendita, a Virgem
nos convida, em nome de seu divino Filho, à conversão do coração e à esperança
do perdão. Escutá-la-emos?
Enveredar pela trilha que
nossa Senhora nos traçou
14. Nessa humilde resposta
do homem que se reconhece pecador reside a verdadeira grandeza deste ano
jubilar. Que benefícios não estaríamos no direito de esperar para a Igreja se
cada peregrino de Lourdes - e mesmo todo cristão unido de coração às
celebrações do centenário - realizasse primeiramente em si mesmo essa obra de
santificação, "não em palavras e de língua, mas em atos e em verdade"
(1 Jo 3, 18)? Tudo, aliás, a isso ali o convida, pois em parte alguma, talvez,
tanto quanto em Lourdes, a gente se sente levado ao mesmo tempo à oração, ao
esquecimento de si e à caridade. A vermos a dedicação dos padioleiros e a paz
serena dos doentes; a verificarmos a fraternidade que congrega numa mesma invocação
fiéis de todas as origens; a observarmos a espontaneidade do auxílio mútuo e o
fervor, sem afetação, dos peregrinos ajoelhados diante da gruta, os melhores
são empolgados pelo atrativo de uma vida mais totalmente dada ao serviço de
Deus e de seus irmãos; os menos fervorosos tomam consciência da sua tibieza e
reencontram o caminho da oração; não raras vezes os pecadores mais empedernidos
e os próprios incrédulos são tocados pela graça, ou, ao menos, se são leais,
não ficam insensíveis ao testemunho daquela "multidão de crentes que têm
um só coração e uma só alma" (At 4, 32).
15. Geralmente,
entretanto, essa experiência de alguns breves dias de peregrinação não basta,
por si só, para gravar em caracteres indeléveis o apelo de Maria a uma
autêntica conversão espiritual. Por isso exortamos os pastores das dioceses e
todos os sacerdotes a rivalizarem em zelo para que as peregrinações do
centenário se beneficiem de uma preparação, de uma realização e sobretudo de
amanhãs, tanto quanto possível propícios, a uma ação profunda e duradoura da
graça. O retorno a uma prática assídua dos sacramentos, o respeito da moral
cristã em toda a vida, o ingresso, enfim, nas fileiras da Ação católica e das
diversas obras recomendadas pela Igreja: só nestas condições - não é verdade? -
o importante movimento de multidões previsto em Lourdes para o ano de 1958
dará, segundo a própria expectativa da Virgem imaculada, os frutos de salvação
tão necessários à humanidade presente.
16. Por mais primordial,
porém, que ela seja, a conversão individual do peregrino não poderia, aqui,
bastar. Neste ano jubilar, exortamo-vos, caros filhos e veneráveis irmãos, a
suscitardes entre os fiéis confiados aos vossos cuidados um esforço coletivo de
renovação cristã da sociedade, em resposta ao apelo de Maria: "Que os
espíritos obcecados... sejam iluminados pela luz da verdade e da justiça",
já pedia Pio XI por ocasião das festas marianas do jubileu da redenção;
"que os que se transviam no erro sejam reconduzidos ao reto caminho, que
uma justa liberdade seja em toda parte concedida à Igreja, e que uma era de
concórdia e de verdadeira prosperidade se levante sobre todos os povos" 18.
17. Ora, o mundo, que
tantos e tão justos motivos de ufania e de esperança oferece nos nossos dias,
conhece também uma terrível tentação de materialismo, muitas vezes denunciada
pelos nossos predecessores e por nós mesmos. Esse materialismo não está somente
na filosofia condenada que preside à política e à economia de uma porção da
humanidade; manifesta-se também no amor do dinheiro, cujas devastações se
amplificam à medida dos empreendimentos modernos, e que, infelizmente, comanda
tantas determinações que pesam sobre a vida dos povos; traduz-se pelo culto do
corpo, pela procura excessiva do conforto e pela fuga de toda austeridade de
vida; induz ao desprezo da vida humana, daquela, mesmo, que é destruída antes
de ver a luz; está na demanda desenfreada do prazer, que se ostenta sem pudor e
que mesmo, pelas leituras e pelos espetáculos, tenta seduzir almas ainda puras;
está na indiferença para com seu irmão, no egoísmo que o esmaga, na injustiça
que o priva dos seus direitos, numa palavra, nessa concepção da vida que regula
tudo em vista somente da prosperidade material e das satisfações terrenas.
"Minha alma, dizia um rico, tens quantidade de bens em reserva por longo
tempo; repousa, come, bebe, leva vida regalada. Mas Deus lhe diz: Insensato,
esta noite mesmo vão pedir-te a tua alma" (Lc 12, 19-20).
18. A uma sociedade que,
na sua vida pública, não raras vezes contesta os direitos supremos de Deus, que
quereria ganhar o universo ao preço de sua alma (cf. Mc 8, 36), e que assim
correria à sua perdição, a Virgem maternal lançou como que um brado de alarme.
Atentos ao seu apelo, ousem os sacerdotes a pregar a todos, sem temor, as
grandes verdades da salvação. Com efeito, não há renovação durável senão
fundada nos princípios infrangíveis da fé, e pertence aos sacerdotes formar a
consciência do povo cristão. Assim como, compassiva para com as nossas
misérias, mas clarividente sobre as nossas verdadeiras necessidades, a
Imaculada vem aos homens para lhes lembrar as diligências essenciais e austeras
da conversão religiosa, devem os ministros de Deus, com sobrenatural segurança,
traçar às almas a estrada estreita que conduz à vida (cf. Mt 7, 14). Fá-lo-ão
sem esquecer de que espírito de doçura e de paciência necessitam (cf. Lc 9,
55), mas sem nada quererem apelar das exigências evangélicas. Na escola de
Maria aprenderão a só viver para dar Cristo ao mundo, mas, se também preciso,
aprenderão a esperar com fé a hora de Jesus e a permanecer ao pé da cruz.
18. Em torno aos seus
sacerdotes, devem os fiéis colaborar nesse esforço de renovação. Lá onde a
Providência o colocou, quem é que não pode fazer algo mais pela causa de Deus?
O nosso pensamento volve-se primeiro para a multidão das almas consagradas,
que, na Igreja, se dedicam a inúmeras obras de bem. Os seus votos de religião
aplicam-nas mais do que outras a lutar vitoriosamente, sob a égide de Maria,
contra o desencadear, no mundo, dos apetites imoderados de independência, de
riqueza e de gozo; por isso, ante o apelo da Imaculada, ao assalto do mal
quererão elas opor-se pelas armas da oração e da penitência e pelas vitórias da
caridade. O nosso pensamento volve-se igualmente para as famílias cristãs, para
conjurá-las a permanecerem fiéis à sua insubstituível missão na sociedade.
Consagrem-se elas, neste ano jubilar, ao coração imaculado de Maria! Este ato
de piedade será para os esposos um auxílio espiritual precioso na prática dos
deveres da castidade e da fidelidade conjugais; conservará na sua pureza o
ambiente do lar, onde crescem os filhos; bem mais, da família vivificada pela
sua devoção mariana, fará uma célula viva da regeneração social e da penetração
apostólica. E certamente, para além do círculo familiar, as relações
profissionais e cívicas oferecem aos cristãos cuidadosos de trabalhar na
renovação da sociedade um campo de ação considerável. Congregados aos pés da
Virgem, dóceis às suas exortações, eles lançarão primeiro sobre si mesmos um
olhar exigente, e quererão extirpar da sua consciência os juízos falsos e as
reações egoístas, temendo a mentira de um amor de Deus que não se traduza em
amor efetivo de seus irmãos (cf.1 Jo 4, 20). Cristãos de todas as classes e de
todas as nações, procurarão encontrar-se na verdade e na caridade, banir as
incompreensões e as suspeitas. Sem dúvida, enorme é o peso das estruturas
sociais e das pressões econômicas que se faz sentir sobre a boa vontade dos
homens e que não raro a paralisa. Mas, se, como nossos predecessores e nós
mesmo com insistência o frisamos, é verdade que a questão da paz social e
política é, no homem, primeiramente uma questão moral, reforma nenhuma é
frutuosa, acordo algum é estável, sem uma mudança e uma purificação dos corações.
Lembra-o a todos a Virgem de Lourdes neste ano jubilar!
20. E se, na sua
solicitude, Maria se curva com alguma predileção sobre alguns de seus filhos,
não é, caros filhos e veneráveis irmãos, sobre os pequenos, sobre os pobres e
sobre os doentes, os quais Jesus tanto amou? "Vinde a mim vós todos que
estais cansados e onerados, e eu vos aliviarei", parece ela dizer com seu
divino Filho (Mt 11, 28). Ide a ela, vós a quem a miséria material esmaga, vós
sem defesa ante os rigores da vida e a indiferença dos homens; ide a ela, vós a
quem ferem os lutos e as provações morais; ide a ela, caros doentes e enfermos,
que em Lourdes sois verdadeiramente recebidos e honrados como membros
padecentes de nosso Senhor; ide a ela, e recebei a paz do coração, a força do
dever cotidiano, a alegria do sacrifício oferecido. A Virgem imaculada, que
conhece os encaminhamentos secretos da graça nas almas e o trabalho silencioso
desse fermento sobrenatural do mundo, sabe de que valor são aos olhos de Deus
os vossos sofrimentos unidos aos do Salvador. Podem eles grandemente concorrer,
disso não duvidamos, para essa renovação cristã da sociedade que de Deus
imploramos pela poderosa intercessão de sua Mãe. Que, a rogo dos doentes, dos
humildes, de todos os peregrinos de Lourdes, Maria volva igualmente o seu olhar
materno para aqueles que ainda permanecem fora do redil único da Igreja, para
os congregar na unidade! Lance o seu olhar sobre aqueles que buscam a verdade e
dela têm sede, para os conduzir à fonte das águas vivas! Percorra, enfim, com o
olhar esses continentes imensos e essas vastas zonas humanas onde,
infelizmente, Cristo é tão pouco conhecido, tão pouco amado, e obtenha para a
Igreja a liberdade e a alegria de, em todos os lugares, sempre jovem, santa e
apostólica, corresponder à expectativa dos homens!
21. Querereis ter a
bondade de vir...", dizia a ss. Virgem a Bernardete. Esse convite discreto
que não força, que se dirige ao coração e solicita com delicadeza uma resposta
livre e generosa, propõe-no de novo a Mãe de Deus aos seus filhos da França e
do mundo. Sem se impor, ela os preme a reformar-se a si próprios e a trabalhar
com todas as suas forças na salvação do mundo. Não hão de os cristãos ficar
surdos a esse apelo; irão a Maria. E é a cada um deles que, no termo desta
carta, quiséramos dizer com s. Bernardo: "Nos perigos, nas angústias, nas
incertezas, pensa em Maria. ... Seguindo-a não te perderás; rezando para ela
não desesperarás; pensando nela não te enganarás. Se ela te segurar não cairás;
se ela te proteger não temerás; se ela te guiar, não te cansarás; se ela te
conceder os seus favores, chegarás ao teu fim...". 19
22. Temos confiança, caros
filhos e veneráveis irmãos, de que Maria atenderá à vossa oração e à nossa.
Pedimos-lho nesta festa da Visitação, bem própria para celebrar aquela que, há
um século, dignou-se de visitar a terra da França. E, convidando-vos a cantar a
Deus, com a Virgem imaculada, o "Magnificat" da vossa gratidão,
chamamos sobre vós mesmos e sobre os vossos féis, sobre o santuário de Lourdes
e sobre os seus peregrinos, sobre todos aqueles que arcam com a
responsabilidade das festas do centenário, a mais larga efusão de graças, em
penhor das quais, na nossa constante e paternal benevolência, vos concedemos de
todo coração a bênção apostólica.
Dado
em Roma, junto a São Pedro, na festa da Visitação da Santíssima Virgem, no dia
2 de Julho do ano de 1957, XIX do nosso pontificado.
PIO
PP. XII
_________________________________________
Notas:
1 Carta de 12 de julho de 1914: AAS
6(1914), p. 376.
2 Discurso de 28 de abril de 1935 em
Lourdes: Eug. Card. Pacelli, Discursos e Panegíricos, 2° ed., Vaticano,1956, p.
435.
3 Ibidem, p. 437.
4 Ofício da festa das Aparições, Hino
das II Vésperas.
5 Decreto De Tuto para a canonização
de santa Bernardete, 2 de julho de 1933: AAS 25(1933), p. 377.
6 Carta de 4 de setembro de 1869 a
Henri Lasserre: Arquivo secreto vaticana, Ep. lat. an.1869, n. 388, f. 695.
7 Ct 2, 13-14. Gradual da Missa da
festa das Aparições.
8 Breve de 8 de setembro de 1901: Acta
Leonis XIII, vol. 21, pp.159-160.
9 Carta encíclica Ad diem illum, de 2
de fevereiro de 1904: Acta Pii X, vol. 1, p.149.
10 Carta de 12 de julho de 1914: AAS
6(1914), p. 377.
11 Breve de 25 de abril de 1911: Arch.
Brev. Ap., Pius X, an.1911, Div. Lib. IX, pars I, f. 337.
12 Breve de 11 de janeiro de 1933:
Arch. Brev. Ap. Pius XI, Ind. Perpet, f.128.
13 Ibidem.
14 Carta encíclica Fulgens corona, de
8 de setembro de 1953: AAS 45(1953), p. 578.
15 Ibidem.
16 Constituição apost. Omnium
Ecclesiarum, de 15 de agosto de 1954: AAS 46,1954, p. 567.
17 Ofício da festa das Aparições. 1°
Responso do III Noct.
18 Carta de 10 de janeiro de 1935; AAS
27, p. 7.
19 Hom. II super Missus est: PL 183,
70-71.
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