26/12/2020

Fim do ano

A passos largos aproxima-se o final do Ano.

Será a ocasião ideal para um exame.

O cristão deve estar sempre disponível para se examinar, mas, nesta circunstância em particular, o exame de um ano que acaba.

Será difícil?

Não... se tivermos por hábito escrever um diário.

O diário pessoal é - afirmo sem receio - de uma utilidade extraordinária porque nos permite ir acompanhando a par e passo o nosso comportamento e reacções perante as diferentes circunstâncias do dia-a-dia.

Excesso de zelo?

Não! Medida sábia e prudente.

 

Dez 2020

São José


                CARTA APOSTÓLICA PATRIS CORDE 

DO PAPA FRANCISCO

POR OCASIÃO DO 150º ANIVERSÁRIO DA DECLARAÇÃO DE SÃO JOSÉ COMO PADROEIRO UNIVERSAL DA IGREJA




3. Pai na obediência

 

De forma análoga a quanto fez Deus com Maria, manifestando-Lhe o seu plano de salvação, também revelou a José os seus desígnios por meio de sonhos, que na Bíblia, como em todos os povos antigos, eram considerados um dos meios pelos quais Deus manifesta a sua vontade.[13]

 

José sente uma angústia imensa com a gravidez incompreensível de Maria: mas não quer «difamá-la»,[14] e decide «deixá-la secretamente» (Mt 1, 19). No primeiro sonho, o anjo ajuda-o a resolver o seu grave dilema: «Não temas receber Maria, tua esposa, pois o que Ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1, 20-21). A sua resposta foi imediata: «Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo» (Mt 1, 24). Com a obediência, superou o seu drama e salvou Maria.

 

No segundo sonho, o anjo dá esta ordem a José: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar» (Mt 2, 13). José não hesitou em obedecer, sem se questionar sobre as dificuldades que encontraria: «E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito, permanecendo ali até à morte de Herodes» (Mt 2, 14-15).

 

No Egito, com confiança e paciência, José esperou do anjo o aviso prometido para voltar ao seu país. Logo que o mensageiro divino, num terceiro sonho – depois de o informar que tinham morrido aqueles que procuravam matar o menino –, lhe ordena que se levante, tome consigo o menino e sua mãe e regresse à terra de Israel (cf. Mt 2, 19-20), de novo obedece sem hesitar: «Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel» (Mt 2, 21).

 

Durante a viagem de regresso, porém, «tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá. Então advertido em sonhos – e é a quarta vez que acontece – retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré» (Mt 2, 22-23).

 

Por sua vez, o evangelista Lucas refere que José enfrentou a longa e incómoda viagem de Nazaré a Belém, devido à lei do imperador César Augusto relativa ao recenseamento, que impunha a cada um registar-se na própria cidade de origem. E foi precisamente nesta circunstância que nasceu Jesus (cf. 2, 1-7), sendo inscrito no registo do Império, como todos os outros meninos.

 

São Lucas, de modo particular, tem o cuidado de assinalar que os pais de Jesus observavam todas as prescrições da Lei: os ritos da circuncisão de Jesus, da purificação de Maria depois do parto, da oferta do primogénito a Deus (cf. 2, 21-24).[15]

 

Em todas as circunstâncias da sua vida, José soube pronunciar o seu «fiat», como Maria na Anunciação e Jesus no Getsémani.

 

Na sua função de chefe de família, José ensinou Jesus a ser submisso aos pais (cf. Lc 2, 51), segundo o mandamento de Deus (cf. Ex 20, 12).

 

Ao longo da vida oculta em Nazaré, na escola de José, Ele aprendeu a fazer a vontade do Pai. Tal vontade torna-se o seu alimento diário (cf. Jo 4, 34). Mesmo no momento mais difícil da sua vida, vivido no Getsémani, preferiu que se cumprisse a vontade do Pai, e não a sua,[16] fazendo-Se «obediente até à morte (…) de cruz» (Flp 2, 8). Por isso, o autor da Carta aos Hebreus conclui que Jesus «aprendeu a obediência por aquilo que sofreu» (5, 8).

 

Vê-se, a partir de todas estas vicissitudes, que «José foi chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos, e é verdadeiramente ministro da salvação».[17]

Francisco

 

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[11] Cf. Deuteronómio4, 31; Salmo 69, 17; 78, 38; 86, 5; 111, 4; 116, 5; Jeremias 31, 20.

[12] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 88; 288: AAS 105 (2013) 1057; 1136-1137.

[13] Cf. Génesis 20, 3; 28, 12; 31, 11.24; 40, 8; 41, 1-32; Números 12, 6; I Samuel 3, 3-10; Daniel 2; 4; Job 33, 15.

[14] Também nestes casos, estava prevista a lapidação (cf. Deuteronómio 22, 20-21).

[15] Cf. Levítico 12, 1-8; Êxodo 13, 2.

[16] Cf. Mateus 26, 39; Marcos 14, 36; Lucas 22, 42.

[17] São João Paulo II, Exort. ap.Redemptoris custos (15 de agosto de 1989), 8: AAS 82 (1990), 14.

LEITURA ESPIRITUAL Dez 26

 

Evangelho

 

Mt XV 21 – 39

 

A cananeia

 

21 Jesus partiu dali e retirou-se para os lados de Tiro e de Sídon. 22 Então, uma cananeia, que viera daquela região, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio.» 23 Mas Ele não lhe respondeu nem uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-lhe com insistência: «Despacha-a, porque ela persegue-nos com os seus gritos.» 24 Jesus replicou: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.» 25 Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor.» 26 Ele respondeu-lhe: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros.» 27 Retorquiu ela: «É verdade, Senhor, mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.» 28 Então, Jesus respondeu-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas.» E, a partir desse instante, a filha dela achou-se curada.

 

Cura de muitos enfermos

 

29 Partindo dali, Jesus foi para junto do mar da Galileia. Subiu ao monte e sentou-se. 30 Vieram ter com Ele numerosas multidões, transportando coxos, cegos, aleijados, mudos e muitos outros, que lançavam a seus pés. Ele curou-os, 31 de modo que as multidões ficaram maravilhadas ao ver os mudos a falar, os aleijados escorreitos, os coxos a andar e os cegos com vista. E davam glória ao Deus de Israel.

 

Segunda multiplicação dos pães

 

32 Jesus, chamando os discípulos, disse-lhes: «Tenho compaixão desta gente, porque há já três dias que está comigo e não tem que comer. Não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam pelo caminho.» 33 Os discípulos disseram-lhe: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» 34 Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Responderam: «Sete, e alguns peixinhos.» 35 Ordenou à multidão que se sentasse. 36 Tomou os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os e dava-os aos discípulos, e estes, à multidão. 37 Todos comeram e ficaram saciados; e, com os bocados que sobejaram, encheram sete cestos. 38 Ora, os que comeram eram quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças. 39 Depois de ter despedido a multidão, Jesus subiu para o barco e veio para a região de Magadan.

 

 


Não se trata de dar muito ou dar pouco.

  Não interessa se o que se dá, nos sobra, ou nos faz falta.

No primeiro caso, de facto dá-se, no segundo, reparte-se.

        Aqui reside a grande diferença da solidariedade: Dar e repartir são duas coisas bastante diferentes.

  Ambas são, evidentemente, dádiva, só que uma é um pouco mais que isso, traduz uma preocupação real, efectiva, pelos outros e, sobretudo, um saudável conceito que, de facto, nada é propriamente nosso.

 No hospital, na cabana, no palácio, na paz e na guerra, todos nascemos nus e, aquilo que nos põem em cima, ou que nos vestem, não depende absolutamente da nossa vontade ou querer.

Durante muito tempo, alguns anos pelo menos, ninguém nos perguntará o que queremos fazer, o que desejaríamos tomar como alimento. Não temos qualquer capacidade de escolha ou eleição do quer que seja.

Somos, efectivamente, seres humanos, com direitos e garantias mas, esses direitos e garantias, que são efectivamente nossos, tal como a nossa identidade única e irrepetível, não depende de nós, não os podemos exigir.

Somos inteiramente dependentes dos outros, da sociedade em geral e de alguns em particular.

  Durante algum tempo – talvez muitos anos – teremos uma ilusão de independência porque podemos escolher, optar por fazer isto em vez daquilo, gostar desta pessoa e não daquela, pretendendo comandar a nossa própria vida diária.

  Isto é uma ilusão.

  Todo o conhecimento que adquirimos foi-nos proporcionado por alguém que no-lo transmitiu, ou partilhou connosco.

O que ficamos a saber não nos valerá de coisa nenhuma senão houver alguém que nos proporcione pô-lo em prática, desenvolvendo e aumentando a panóplia de serviços que se podem colocar à disposição da sociedade.

Nem mesmo quando atingimos o topo de uma carreira profissional deixamos de depender de outros que irão pondo em prática o que lhes vamos transmitindo.

  Há, portanto, uma igualdade e interdependência intrínseca real e consistente entre os seres humanos.

  Esta não é uma conclusão apressada ou de mera retórica, é uma constatação.

  A vida humana encerra em si mesma, muitos aspectos de contradição e, tal, custa-nos aceitar de bom grado.

 

(AMA, Migalhas para o caminho, ISBN 978-989-20.4856-7)

 

 

Reflexão

 


Tentações "teológicas".

4

Inspirações

 

  Temos de ter bem claro o que é uma inspiração.       Penso que se trata de algo que Deus ou o Anjo da nossa Guarda ou algum Santo no Céu - no Céu todos são Santos - instila no nosso espírito.

  Mas, quando  nos  atemos ás inspirações para fazer o que devemos fazer e quando deve ser feito devemos ter plena consciência de onde nos vem.

  Porquê?

Porque o demónio também se serve da inspiração que, neste caso é uma tentação, sendo a única forma de comunicar connosco.

A sua capacidade de enganar é "especializada" masca-rando como bom o que é intrinsecamente mau, aliás, ele não quer nem pode fazer ou sugerir algo bom.

Virtudes

 


A alegria cristã 4

O seu oposto

 

   A paixão oposta à alegria é a tristeza, causada por não se possuir o bem-amado. Se a origem da alegria é o amor – digamos que é o efeito e o ato da caridade -, a da tristeza será, portanto, o egoísmo. São Tomás salienta que a tristeza «tem a sua origem no amor desordenado de si mesmo, que não é um vício especial, mas sim a raiz comum de todos os vícios» São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 28, a. 4.. Não são, pois, a dor ou as dificuldades que se opõem à alegria, mas a tristeza que pode nascer da falta de fé e esperança perante essas situações. Por isso, a tristeza é vista como uma doença da alma, que pode proceder de uma causa fisiológica (doença ou cansaço) ou de uma causa moral: o pecado cometido e a falta de correspondência à graça, que poderá conduzir à acédia ou tibieza espiritual.

   São Josemaria prevenia ante a presença da tristeza, à qual considerava uma “aliada do inimigo”: «Não há alegria? - Então pensa: há um obstáculo entre Deus e eu. - Quase sempre acertarás» (Caminho, n. 662). Por outro lado, o que se sabe filho de Deus não pode permitir que os pecados pessoais o conduzam à tristeza, pois encontra o amor misericordioso do Pai e a “força” de conhecer e reconhecer a sua debilidade: «Quando te afligirem as tuas misérias, não fiques triste. - Glorifica-te nas tuas fraquezas com São Paulo» (Caminho n. 879); «A tristeza é a escória do egoísmo. Se queremos viver para Nosso Senhor, não nos faltará a alegria, mesmo que descubramos os nossos erros e as nossas misérias» (Amigos de Deus, n. 92).

   O Papa Francisco adverte sobre um perigo que pode causar a falta de alegria: «O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem» Francisco, Evangelii gaudium, n. 2.

(Vicente Bosch)

Filosofia e Religião

 


Anjos

A acção dos anjos sobre os homens (IV)

  

         O anjo pode agir sobre os sentidos humanos?

    Parece que o anjo não pode agir sobre os sentidos humanos:

   1. Com efeito, a operação dos sentidos é vital, e tal operação não provém de um princípio extrínseco. Logo, não pode ser causada por um anjo.

   2. Além disso, a potência sensitiva é mais nobre que a nutritiva. Ora, parece que o anjo não pode agir sobre a potência nutritiva, nem sobre outras formas naturais. Logo, nem pode agir sobre a potência sensitiva.

   3. Ademais, os sentidos movem-se naturalmente pelas coisas sensíveis. Ora, o anjo não pode agir sobre a ordem da natureza, como acima foi dito (q. 110, a. 4). Logo, não pode agir sobre os sentidos, pois é o sensível que sempre age sobre os sentidos.

   EM SENTIDO CONTRÁRIO, os anjos que destruíram Sodoma “infligiram cegueira aos sodomitas (ou trevas) de modo que não pudessem achar a entrada da casa” (Gn 19, 11). Algo parecido se lê no livro dos Reis a respeito dos sírios conduzidos por Eliseu a Samaria (II Re 6, 18).

  


De duas maneiras se age sobre os sentidos: ou pelo exterior, como quando as coisas sensíveis agem sobre eles; ou pelo interior. Vemos de fato neste último caso que, espíritos e humores perturbados agem sobre os sentidos. Assim a língua do doente, cheia de bílis, tudo sente como amargo, e o mesmo acontece com os outros sentidos. O anjo pode agir sobre os sentidos do homem dessas duas maneiras, por sua potência natural. Com efeito, pode ele apresentar aos sentidos desde o exterior um objeto sensível já constituído pela natureza ou formando-o de novo, como quando assume um corpo, como acima foi dito (q. 51, a. 2). Pode também mover interiormente os espíritos e humores, como acima foi dito, provocando assim de diferentes maneiras alterações nos sentidos.

   Quanto às objecções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

   1. O princípio da operação dos sentidos não pode ser sem o princípio interior que é a potência sensitiva. Contudo, esse princípio interior pode ser movido de diferentes maneiras pelo exterior, como se disse.

   2. Movendo interiormente os espíritos e humores, o anjo pode operar alguma coisa para agir sobre o ato da potência nutritiva e, igualmente, da potência apetitiva e sensitiva, e de qualquer outra potência corporal que se serve de um órgão.

   3. O anjo nada pode fazer fora da ordem total das criaturas, mas pode fazer fora da ordem de uma natureza particular, pois não está sujeito a essa ordem. E assim, pode ele, de maneira peculiar, agir sobre os sentidos fora do modo ordinário.

 

(São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, 111, 4)

Pequena agenda do cristão

 



SÁBADO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Orações sugeridas:

25/12/2020

Uma oração contínua

 


Padre - comentaste-me - eu cometo muitos enganos, muitos erros. - Já sei, respondi-te. Mas Deus Nosso Senhor, que também o sabe e conta com isso, só te pede a humildade de o reconheceres e a luta para rectificares, para O servires cada vez melhor, com mais vida interior, com uma oração contínua, com a piedade e com o emprego dos meios adequados para santificares o teu trabalho. (Forja, 379)

 

Vida interior, em primeiro lugar. Há ainda tão pouca gente que entenda isto! Ao ouvir falar de vida interior, pensa-se logo na obscuridade do templo, quando não no ambiente abafado de algumas sacristias. Estou há mais de um quarto de século a dizer que não se trata disso. Eu falo da vida interior de cristãos normais e correntes, que habitualmente se encontram em plena rua, ao ar livre; e que na rua, no trabalho, na família e nos momentos de diversão estão unidos a Jesus todo o dia. E o que é isto senão vida de oração contínua? Não é verdade que compreendeste a necessidade de ser alma de oração, numa intimidade com Deus que te leva a endeusar-te? Esta é a fé cristã e assim o compreenderam sempre as almas de oração. Torna-se Deus aquele homem, escreve Clemente de Alexandria, porque quer o mesmo que Deus quer. A princípio custará. É preciso esforçarmo-nos por nos dirigir ao Senhor, por lhe agradecermos a sua piedade paternal e concreta para connosco. A pouco e pouco o amor de Deus torna-se palpável - embora isto não seja coisa de sentimentos - como uma estocada na alma. É Cristo que nos persegue amorosamente: Eis que estou à porta e chamo. (Cristo que passa, 8)

 

LEITURA ESPIRITUAL Dez 25

 

Evangelho

 

Mt XV 1 – 20


 

Tradições dos fariseus

 

1 Aproximaram-se, então, de Jesus alguns fariseus e doutores da Lei, vindos de Jerusalém e disseram-lhe: 2 «Porque transgridem os teus discípulos a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos antes das refeições.» 3 Replicou-lhes: «E vós, porque transgredis o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? 4 Deus, com efeito, disse: Honra teu pai e tua mãe. E ainda: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte. 5 Mas vós dizeis: ‘Seja quem for que diga a seu pai ou a sua mãe: Os meus bens, de que poderias beneficiar, são oferta sagrada’, 6 esse já não está obrigado a socorrer o pai ou a mãe. E assim, em nome da vossa tradição, anulastes a palavra de Deus. 7 Hipócritas! Muito bem profetizou Isaías a vosso respeito, ao dizer: 8 Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 9 vão o culto que me presta, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.» 10 Jesus chamou, depois, a multidão para junto de si e disse-lhes: «Escutai e tratai de compreender! 11 Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro; o que sai da boca é que torna o homem impuro.» 12 Os discípulos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Sabes que os fariseus ficaram escandalizados, por te ouvirem falar assim?» 13 Ele respondeu: «Toda a planta que não tenha sido plantada por meu Pai celeste será arrancada. 14 Deixai-os: são cegos a conduzir outros cegos! Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão nalguma cova.» 15 Tomando a palavra, Pedro disse-lhe: «Explica-nos esta parábola.» 16 Jesus respondeu-lhes: «Também vós não sois ainda capazes de compreender? 17 Não sabeis que tudo aquilo que entra pela boca passa para o ventre e é expelido em lugar próprio? 18 Mas o que sai da boca provém do coração; e é isso que torna o homem impuro. 19 Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias. 20 É isto que torna o homem impuro. Mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro.»

 

 


  Voltemos ao Samaritano.

  Sabe-se da animosidade que existia entre judeus e samaritanos, principalmente por questões de ordem e prática religiosa. Havia, de facto, uma clivagem pro-funda entre eles. Parece lógico que dos três, o sa-cerdote, o levita e o samaritano, se esperasse que fosse este a continuar a viagem sem prestar auxílio ao necessitado.

Mas não foi, o que traduz um significado profundo, a solidariedade, a compaixão, o espírito de serviço aos outros vence essas barreiras, ultrapassa essa difi-culdade.

  São os outros dois piores que ele, neste sentido de serviço e solidariedade?

Provavelmente sim mas o que, de certeza não têm é atenção ao que os rodeia,aos que encontram no caminho.

A sua mente está demasiado ocupada com as suas coi-sas, no coração mal cabem as preocupações pessoais, não tem lugar para mais nada nem ninguém.

Estes, estão de facto, sozinhos na vida e não sentem necessidade de estar de outro modo. Na medida em que os outros possam constituir um problema, uma preocupação, até um simples incómodo, já não lhes interessa.

Se a questão é dar de si alguma coisa sem ter uma ra-zoável certeza de um retorno, uma compensação, um ganho qualquer, nem que seja uma satisfação íntima, então, nem sequer consideram deter-se, ainda que brevemente, a considerar o assunto.

  São tantas as pessoas sós, amargas, cheias de si que passam incólumes e indiferentes pelos caminhos da vida! Olham sempre em frente, não aconteça que algo marginal interfira na suamarcha privada e solitária.

No final de cada dia recolhem as coisas que julgam ser suas e… nada mais porque não deram e não receberam nada.

  O outro, ao deparar-se com o desgraçado em mísero estado, não se detém um segundo a avliar a siuação, do que e de quem se trata. Vê tão-somente, um ser humano que precisa urgentemente de auxílio e, isso,é para ele motivo suficiente e bastante para que ponha em prática o seu coração generoso e solidário.

  Felizmente há muitos, muitíssimos mesmo, destes seres humanos, mulheres e homens, jovens e não tão jovens que não só estão sempre prontos a assistir solidariamente quem precisa mas, até, vão ao seu encontro nos locais onde possam estar, quer nas noites frias e tempestuosas de Inverno quer em países distantes cujas carências aterradoras não os detêm.

Estes estão sempre rodeados de outros seres humanos, são lembrados, fala-se deles, admira-se a sua postura e comportamento.

Mais, são, quase sempre, pessoas muito alegres e bem-dispostas.

Lidando com a miséria, a doença, situações de vida es-tranhas e difíceis nota-se perfeitamente que esse serviço desinteressado lhes traz uma alegria visível.

Quando se recolhem para descansar, as suas mãos estão cheias de boas acções, sentem os seus corações repletos de consolação.

Naquele momento sabem que muitos se lembram deles e dos bons serviços que lhes prestaram.

  Estão felizes.

 

(AMA, Migalhas para o caminho, ISBN 978-989-20.4856-7)

 

Reflexão

 


Natal

E… aqui estou, mais uma vez, rendido na contemplação do Presépio.

Sinto-me criança – sem vergonha nem retraímentos –transportado como que a um mundo diferente do dia a dia.

Sinto uma paz indizível que deixa de lado as preocupações, as memórias tristes os momentos menos bons.

Estranhamente na minha memória só me passam como que em filme, momentos agradáveis, recordações gratíssimas, cenas de paz e tranquilidade e, sobretudo, AMOR Autêntico, São, Verdadeiro.

E… compreendo que tudo isto me vem daquele Menino reclinado no Presépio, do Seu sorriso puro de inocente, da Sua mãozinha que parece abençoar-me.

Ah! Meu Menino Jesus! Quero pegar-Te ao colo, brincar conTigo, saltar e correr para sentir o Teu contentamento que é a manifestação de que me dizes que, comigo, Te sentes seguro, protegido.

E, depois, para não “abusar”, entregar-Te no colo da Tua Santíssima Mãe e, ficar ali contemplando essa cena entranhável.

(AMA, 2020)

Pequena agenda do cristão

      


Sexta-Feira

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Perguntas e respostas

 


HOMOSSEXUALIDADE

B. HOMOSSEXUALIDADE E ENFERMIDADE

6. A homossexualidade é uma doença?

Também aqui há duas respostas possíveis:

Aqueles que pensam que o sexo se pode usar de qualquer modo, consideram a homossexualidade como mais uma prática e não desejam curar-se, nem lhe chamam enfermidade.

Os que vêm que a homossexualidade é uma tendência anómala, comparam-na ao roubo, ao álcool, ao jogo… E portanto, consideram um vício, um defeito ou uma doença como a do jogo patológico ou o alcoolismo.

24/12/2020

Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?

 


*A humildade é outro bom caminho para chegar à paz interior. – Foi Ele que o disse: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração... e encontrareis paz para as vossas almas». (Caminho, 607)

 

 

*Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Também eu, instado por esta pergunta, contemplo agora Jesus, deitado numa manjedoura, num lugar que só é próprio para os animais. Onde está, Senhor, a tua realeza: o diadema, a espada, o ceptro? Pertencem-lhe e não os quer; reina envolto em panos. É um rei inerme, que se nos apresenta indefeso; é uma criança. Como não havemos de recordar aquelas palavras do Apóstolo: aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo.

Nosso Senhor encarnou para nos manifestar a vontade do Pai. E começa a instruir-nos estando ainda no berço. Jesus Cristo procura-nos – com uma vocação, que é vocação para a santidade –, a fim de consumarmos com Ele a Redenção. Considerai o seu primeiro ensinamento: temos de co-redimir à custa de triunfar, não sobre o próximo, mas sobre nós mesmos. Tal como Cristo, precisamos de nos aniquilar, de sentir-nos servidores dos outros para os conduzir a Deus.

Onde está o nosso Rei? Não será que Jesus quer reinar, antes de mais, no coração, no teu coração? Por isso se fez menino: quem é capaz de ter o coração fechado para uma criança? Onde está o nosso Rei? Onde está o Cristo que o Espírito Santo procura formar na nossa alma? Cristo não pode estar na soberba, que nos separa de Deus, nem na falta de caridade, que nos isola dos homens. Aí não podemos encontrar Cristo, mas apenas a solidão.

No dia da Epifania, prostrados aos pés de Jesus Menino, diante de um Rei que não ostenta sinais externos de realeza, podeis dizer-lhe: Senhor, expulsa a soberba da minha vida, subjuga o meu amor-próprio, esta minha vontade de afirmação pessoal e de imposição da minha vontade aos outros. Faz com que o fundamento da minha personalidade seja a identificação contigo. (Cristo que passa, 31)

LEITURA ESPIRITUAL Dez 24

 

Evangelho

 

Mt XIV 22 – 34

 

Jesus anda sobre as águas

 

22 Depois, Jesus obrigou os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. 23 Logo que as despediu, subiu a um monte para orar na solidão. E, chegada a noite, estava ali só. 24 O barco encontrava-se já a várias centenas de metros da terra, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. 26 Ao verem-no caminhar sobre o mar, os discípulos assustaram-se e disseram: «É um fantasma!» E gritaram com medo. 27 No mesmo instante, Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» 28 Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» 29 «Vem» - disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30 Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!» 31 Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» 3 2E, quando entraram no barco, o vento amainou. 33 Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»

 

Outras curas operadas por Jesus

 

34 Após a travessia, pisaram terra em Genesaré. 35 Ao reconhecerem-no, os habitantes daquele lugar espalharam a notícia por toda a região. Trouxeram-lhe todos os doentes, 36 suplicando-lhe que, ao menos, os deixasse tocar na orla do seu manto. E todos aqueles que a tocaram, ficaram curados.

 

 

 


 

  Existe, de facto, em cada um de nós um crítico em serviço permanente, comportamo-nos como se fosse-mos uma ilha isolada no meio de um vastíssimo oceano, onde afloram todas as águas trazendo com elas inúmeros detritos, objectos dos mais diversos, coisas que não são identificáveis, até, por vezes, cadáveres de afogados.

Dedicamos então, o nosso tempo livre, que é muito, a apreciar tudo isto, a tentar identificar, descobrir a origem, a causa, o porquê daquilo que nos veio às mãos.

Quer dizer, estamos de facto sozinhos nessa ilha, não temos ninguém que nos controle a ânsia de investigação, não temos, em suma, que dar contas a ninguém do que fazemos e, muito menos, das conclusões a que chegamos.

  Vamos guardando para nós, dentro de nós, um acervo interminável de opiniões, descobertas, conceitos. Conseguimos arranjar espaço para arquivar um enormíssimo catálogo que, no fim e ao cabo, não vai servir, nunca, para nada.

Talvez cheguemos à conclusão que, pelo menos, estamos a perder tempo na construção – manutenção – de tal armazém no qual nunca ninguém entrará para recolher o que seja. Ou, é possível que pensemos que talvez um dia, possamos ir retirando desse acervo coisas interessantes para comparar com outras que se nos vão deparando na vida.

  As ruas da cidade onde vivemos são a nossa ilha onde apreciamos os que passam: Este é baixo, aquela é gorda, estoutro parece tonto, aquele parece estar na companhia da filha mais nova ou, talvez, uma neta, aquele casal discute, este, vê-se bem, tem sérios problemas; reparamos no que sorri, ou  que tem a tristeza ou a preocupação estampadas no rosto, outro que se veste como um palhaço, outra que se julga uma estrela de cinema, um miúdo muito acertadinho, uma pessoa já de idade que coxeia bastante, aquele que corre com o suor a escorrer-lhe pelo pescoço, aproxima-se alguém que parece falar consigo mesmo…

  Registamos fotograficamente este interminável oceano que nos envolve com todos os pormenores, características, cores, volumes e dimensões. Com uma rapidez impressionante chegamos ao fim de uns minutos com um registo enormíssimo repleto de apontamentos, rasgos, traços, pinceladas, anotações… mas não temos um quadro, uma visão de conjunto, um todo.

Coisas esparsas, vagas, difusas, misturadas sem critério – nem preocupação de tê-lo – e, com tudo isto, que é muito, entramos finalmente em casa e constatamos que chegamos como partimos: Vazios!

  Às vezes, a nossa ilha, é o automóvel onde nos deslocamos, onde nos sentimos reis e senhores com uma série de direitos e prerrogativas.

  Quando na paragem do semáforo alguém se aproxima para nos pedir algo nem reparamos no gesto maquinal que fazemos que traduzido quererá, talvez, dizer: Tenha paciência…

  Paciência?

Claro que tem paciência se a não tivesse, não estava ali, horas, batendo nos vidros dos automóveis que param.

Se, de manhã, com um pequeno sorriso expectante de esperança, se ao final da tarde com um ar de cansaço desiludido.

  Quando surge o sinal verde, talvez pensemos: ‘Bolas podia ter dado uma moeda ao desgraçado, se calhar tinha fome…’ mas este pensamento desvanece-se tão rapidamente como surgiu: ‘Não! Chega! São os bombeiros, é para ajuda das crianças com não sei que doença, é para o asilo não sei de onde, é para a Liga dos Amigos de… não! o Estado, sim o Estado é que tem obrigação de olhar por estas coisas, suprir estas necessidades. É para isso que pago impostos.’

  (E… pago mesmo os impostos, não tento fugir, dar um “jeitinho”, afinal… todos fazem o mesmo!).

  E pronto! O brevíssimo incómodo passou. Atrás de nós, um qualquer carrega na buzina o que nos irrita profundamente. Só não fazemos um gesto feio porque levamos os miúdos no banco detrás.

‘Não querem lá ver o apressado! Se calhar o carro nem é dele, ou, o mais certo, é ter as prestações em atraso…’

  (Nem nos lembramos que, esse, talvez seja o nosso caso!)

 

(AMA, Migalhas para o caminho, ISBN 978-989-20.4856-7)