Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
11/09/2019
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
239
Voltemos
os nossos olhos para Jesus Cristo, que é o nosso modelo, o espelho em que nos
devemos olhar.
Como
se comporta, mesmo exteriormente, nas grandes ocasiões? Que nos diz d'Ele o
Santo Evangelho?
Comove-me
essa disposição habitual de Cristo, que recorre ao Pai antes dos grandes
milagres e o seu exemplo, ao retirar-se quarenta dias e quarenta noites para o
deserto, antes de iniciar a sua vida pública, para rezar.
É
muito importante - perdoai a minha insistência - observar os passos do Messias,
porque Ele veio mostrar-nos o caminho que nos leva ao Pai: descobriremos, com
ele, como se pode dar relevo sobrenatural às actividades aparentemente mais
pequenas; aprenderemos a viver cada instante com vibração de eternidade e
compreenderemos com maior profundidade que a criatura precisa desses tempos de
conversa íntima com Deus, para privar com Ele na sua intimidade, para
invocá-lo, para ouvi-lo ou, simplesmente, para estar com Ele.
Há
já muitos anos, considerando este modo de proceder do meu Senhor, cheguei à
conclusão de que o apostolado, seja ele de que tipo for, consiste numa
superabundância da vida interior.
Por
isso me parece tão natural, e tão sobrenatural, essa passagem em que se relata
como Cristo decidiu escolher definitivamente os primeiros doze.
Conta
S. Lucas que, antes, tinha passado toda a noite em oração. Vede-o também em
Betânia.
Quando
se dispõe a ressuscitar Lázaro, depois de ter chorado pelo amigo, levanta os
olhos ao céu e exclama: Pai, dou-te
graças porque me tens ouvido.
Este
foi o seu ensinamento preciso: se queremos ajudar os outros, se pretendemos
sinceramente animá-los a descobrir o autêntico sentido do seu destino na terra,
é preciso que nos fundamentemos na oração.
240
São
tantas as cenas em que Jesus Cristo fala com o seu Pai, que se torna quase
impossível determo-nos em todas.
Mas
penso que não podemos deixar de considerar as horas, tão intensas, que
precederam a sua Paixão e Morte, quando se prepara para consumar o Sacrifício
que nos reconduzirá ao Amor Divino.
Na
intimidade do Cenáculo o seu Coração transborda, dirige-se suplicante ao Pai,
anuncia a vinda do Espírito Santo, anima os seus a um contínuo fervor de
caridade e de fé.
Esse
fervoroso recolhimento do Redentor continua em Getsémani, quando se apercebe de
que já está iminente a Paixão, com as humilhações e as dores que se aproximam,
essa Cruz dura, onde suspendem os malfeitores e que Ele desejou ardentemente.
Pai, se é do teu agrado,
afasta de mim este cálice.
E
logo a seguir: não se faça, contudo, a
minha vontade, mas a tua. Mais tarde, pregado ao madeiro, só, com os braços
estendidos num gesto de sacerdote eterno, continua a manter o mesmo diálogo com
o seu Pai: nas tuas mãos encomendo o meu espírito.
241
Contemplemos
agora a sua Mãe bendita, também nossa Mãe.
No
Calvário, junto ao patíbulo, reza.
Não
é uma atitude nova em Maria.
Assim
se conduziu sempre, cumprindo os seus deveres, ocupando-se do seu lar.
Enquanto
estava nas coisas da terra, permanecia pendente de Deus. Cristo, perfectus Deus, perfectus homo, quis que
também a sua Mãe, a criatura mais excelsa, a cheia de graça, nos confirmasse
nesse afã de elevar sempre o olhar para o amor divino.
Recordai
a cena da Anunciação: desce o arcanjo para comunicar a divina embaixada - a
mensagem de que seria Mãe de Deus - e encontra-a retirada em oração.
Maria
está totalmente recolhida no Senhor, quando S. Gabriel a saúda: Deus te salve, oh cheia de graça! O Senhor é
contigo.
Dias
depois, irrompe na alegria do Magnificat
- esse cântico mariano que nos transmitiu o Espírito Santo pela delicada
fidelidade de S. Lucas - fruto da intimidade habitual da Virgem Santíssima com
Deus.
A
nossa Mãe meditou longamente as palavras das mulheres e dos homens santos do
Antigo Testamento, que esperavam o Salvador, e os acontecimentos de que foram
protagonistas.
Admirou
o cúmulo de prodígios e o excesso da misericórdia de Deus com o seu povo,
tantas vezes ingrato.
Ao
considerar esta ternura do Céu, incessantemente renovada, brota o afecto do seu
Coração imaculado: a minha alma glorifica
o Senhor; e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador. Porque lançou os olhos
para a baixeza da sua escrava.
Os
filhos desta boa Mãe, os primeiros cristãos, aprenderam com Ela, e nós também
podemos e devemos aprender.
242
Nos
Actos dos Apóstolos narra-se uma cena que me encanta, porque apresenta um
exemplo claro e sempre actual: perseveravam todos na doutrina dos Apóstolos, na
comum fracção do pão e na oração.
É
uma nota insistente no relato da vida dos primeiros seguidores de Cristo: Todos, animados por um mesmo espírito,
perseveravam juntos em oração.
E
quando Pedro é preso por pregar audazmente a verdade, decidem rezar.
Entretanto
a Igreja fazia sem cessar oração a Deus por ele.
A
oração era então, como hoje, a única arma, o meio mais poderoso para vencer nas
batalhas da luta interior.
Há entre vós alguém que
esteja triste?
Que se recolha em oração.
E
S. Paulo resume: orai sem cessar, nunca
vos canseis de implorar.
243
Como fazer oração
Como
fazer oração?
Atrevo-me
a assegurar, sem temor de me enganar, que há muitas, infinitas maneiras de
orar.
Mas
eu preferia para todos nós a autêntica oração dos filhos de Deus, não o
palavreado dos hipócritas que hão-de ouvir de Jesus: nem todo o que me diz, Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus.
Os que são movidos pela
hipocrisia podem talvez conseguir o ruído da oração -
escrevia Santo Agostinho - mas não a sua
voz, porque aí falta vida e há ausência de afã por cumprir a Vontade do Pai.
Que
o nosso clamor - Senhor! - vá unido ao desejo eficaz de converter em realidade
essas moções interiores, que o Espírito Santo desperta na nossa alma.
Temos
de nos esforçar para que da nossa parte não fique nem sombra de hipocrisia.
O
primeiro requisito para desterrar esse mal que o Senhor condena duramente, é
procurar comportar-se com a disposição clara, habitual e actual de aversão ao
pecado.
Com
fortaleza, com sinceridade, temos de sentir - no coração e na cabeça - horror
ao pecado grave.
E
também há-de ser nossa a atitude, profundamente arreigada, de abominar o pecado
venial deliberado, essas claudicações que não nos privam da graça divina, mas
que debilitam as vias através das quais ela nos chega.
244
Nunca
me cansei e, com a graça de Deus, nunca me cansarei de falar de oração.
Por
volta de 1930, quando se aproximavam de mim, sacerdote jovem, pessoas de todas
as condições - universitários, operários, sãos e doentes, ricos e pobres,
sacerdotes e leigos - que procuravam acompanhar mais de perto o Senhor,
aconselhava-os sempre: rezai. E se algum me respondia: "não sei sequer
como começar", recomendava-lhe que se pusesse na presença do Senhor e lhe
manifestasse a sua inquietação, a sua dificuldade, com essa mesma queixa:
"Senhor, não sei!"
E
muitas vezes, naquelas humildes confidências, concretizava--se a intimidade com
Cristo, um convívio assíduo com Ele.
Passaram
muitos anos e não conheço outra receita.
Se
não te consideras preparado, recorre a Jesus como faziam os seus discípulos:
ensina-nos a fazer oração.
Comprovarás
como o Espírito Santo ajuda a nossa fraqueza, pois que, não sabendo sequer o
que havemos de pedir nas nossas orações, nem como é conveniente expressarmo-nos,
o mesmo Espírito Santo facilita as nossas súplicas com gemidos inexplicáveis,
que não podem contar-se porque não existem modos apropriados para descrever a
sua profundidade.
Que
firmeza deve produzir em nós a Palavra divina!
Não
inventei nada, quando - ao longo do meu ministério sacerdotal - repeti e repito
incansavelmente esse conselho.
Foi
recolhido da Escritura Santa, daí o aprendi: Senhor, não sei dirigir-me a Ti!
Senhor, ensina-nos a orar!
E
vem toda a assistência amorosa - luz, fogo, vento impetuoso - do Espírito
Santo, que ateia a chama e a torna capaz de provocar incêndios de amor.
245
Oração, diálogo
Já
entrámos por caminhos de oração.
Como
prosseguir?
Não
vistes como tantas pessoas - elas e eles - parece que falam consigo mesmas,
ouvindo-se comprazidas?
É
uma verborreia quase contínua, um monólogo que insiste incansavelmente nos
problemas que os preocupam, sem pôr os meios para resolvê-los, movidos talvez
unicamente pela mórbida ideia de que se compadeçam deles ou de que os admirem.
Dir-se-ia
que não pretendem mais nada.
Quando
efectivamente se quer desafogar o coração, se somos francos e simples,
procuramos o conselho de pessoas que nos amam, que nos entendem, isto é,
fala-se com o pai, com a mãe, com a mulher, com o marido, com o irmão, com o
amigo.
Isto
já é diálogo, ainda que, frequentemente, não se deseje tanto ouvir como
desabafar, contar o que nos acontece.
Comecemos
por nos comportar assim com Deus, certos de que Ele nos ouve e nos responde; e
escutá-lo-emos e abriremos a nossa consciência a uma conversa humilde, para lhe
referir confiadamente tudo o que palpita na nossa cabeça e no nosso coração:
alegrias, tristezas, esperanças, dissabores, êxitos, fracassos e até os
pormenores mais pequenos da nossa jornada, porque já então teremos comprovado
que tudo o que é nosso interessa ao nosso Pai Celestial.
(cont)
Evangelho e comentário
Evangelho: Lc 6, 20-26
Naquele tempo, Jesus, erguendo os
olhos para os discípulos, disse: «Bem-aventurados vós, os pobres, porque é
vosso o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque
sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir.
Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem e
insultarem e proscreverem o vosso nome como infame, por causa do Filho do
homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa
recompensa. Era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. Mas ai de
vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação! Ai de vós, que agora
estais saciados, porque haveis de ter fome! Ai de vós, que rides agora, porque
haveis de entristecer-vos e chorar! Ai de vós, quando todos os homens vos
elogiarem! Era assim que os seus antepassados tratavam os falsos profetas».
Comentário:
À “primeira vista” pode
parecer que Jesus está como que a fazer um vaticínio, a prever um futuro.
Não! O Senhor não é um
“mago” que lê a sina nem se põe a adivinhar o futuro.
Bem ao contrário, quer que
quem O escuta compreenda e tenha bem a noção das consequências do seu comportamento
na vida corrente.
Os actos que praticamos
têm sempre uma consequência e, a vida que vivemos, um resultado.
Nada do que fazemos fica
por “contabilizar” nem sequer com a desculpa: “não sabia”, “foi sem querer”.
O cristão não deve fazer
nada – absolutamente – por acaso, sem pensar bem se o que faz – ou diz – trará
benefícios ou, ao contrário, prejuízos para si próprio e para outros.
Isto nunca acontecerá se
tentarmos com verdadeiro empenho, fazer, em tudo a Vontade de Deus.
(AMA,
comentário sobre Lc 6, 20-26, 17.02.2019)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Simplicidade e modéstia.
Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.
Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.
Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.
Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Temas para reflectir e meditar
Naturalmente
se somos pessoas saudáveis e de bom espírito desejamos fazer bem o que se nos
apresenta como tarefa, obrigação, etc.
Quando
é absolutamente evidente que tal coisa deve evitar-se devemos - por prudência -
seguir nesse sentido, mas, na verdade pode não ser assim tão simples e é muito
possível praticar um mal muitíssimo grave absolutamente convencido de que se
está fazendo um bem inestimável.
Lembramo-nos
bem:
Cuidado
pois, a recta intenção deve preocupar-nos de forma a que os nossos sentidos não
se deixem arrastar quer pelo que nos envolve ou rodeia quer pelo ímpeto
irreflectido.
AMA,
Abril 2019
"Veio revelar-nos o amor"
Cristo, que subiu à Cruz com os braços
abertos de par em par, com gesto de Sacerdote Eterno, quer contar connosco -
que não somos nada! - para levar a "todos" os homens os frutos da sua
Redenção. (Forja, 4)
Porque
a vida corrente e ordinária, a vida de cada homem entre os seus concidadãos e
seus iguais, não é coisa baixa e sem relevo; é precisamente nessas
circunstâncias que o Senhor quer que se santifique a imensa maioria dos seus
filhos.
É
necessário repetir uma e mais vezes que Jesus não se dirigiu a um grupo de
privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens
são amados por Deus; de todos eles espera amor, de todos, quaisquer que sejam a
sua condição, a sua posição social, a sua profissão ou oficio. A vida corrente
e ordinária não é coisa de pouco valor; todos os caminhos da Terra podem ser
uma ocasião de encontro com Cristo, que nos chama a identificar-nos com Ele,
para realizarmos - no lugar onde estamos - a sua missão divina.
Deus
chama-nos através dos incidentes da vida de cada dia, no sofrimento e na
alegria das pessoas com quem convivemos, nas preocupações dos nossos
companheiros, nas pequenas coisas da vida familiar. Deus também nos chama
através dos grandes problemas, conflitos e ideais que definem cada época
histórica, atraindo o esforço e o entusiasmo de grande parte da Humanidade. (Cristo que passa, 110)
10/09/2019
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
233
Uma
das suas primeiras manifestações concretiza-se em iniciar a alma nos caminhos
da humildade.
Quando
sinceramente nos consideramos nada; quando compreendemos que, se não
tivéssemos o auxílio divino, a mais débil e fraca das criaturas seria melhor do
que nós; quando nos vemos capazes de todos os erros e de todos os horrores;
quando nos reconhecemos pecadores, embora lutemos com empenho por nos
afastarmos de tantas infidelidades, como havemos de pensar mal dos outros?
Como
se poderá alimentar no coração o fanatismo, a intolerância, o orgulho?
A
humildade leva-nos pela mão a tratar o próximo da melhor forma: compreender a
todos, conviver com todos, desculpar a todos; não criar divisões nem barreiras;
comportarmo-nos - sempre! - como instrumentos de unidade.
Não
é em vão que existe no fundo do homem uma forte aspiração à paz, à união com os
seus semelhantes e ao respeito mútuo pelos direitos da pessoa, de modo que tal
aspiração se transforme em fraternidade.
Isto
reflecte uma nota característica do que há de mais valioso na condição humana:
se todos somos filhos de Deus, a fraternidade nem se reduz a uma figura de
retórica, nem consiste num ideal ilusório, pois surge como meta difícil, mas
real.
Perante
os cínicos, os cépticos, os insensíveis, os que fizeram da sua cobardia um modo
de pensar, nós, os cristãos, havemos de demonstrar que esse carinho é possível.
Existem
talvez muitas dificuldades para nos comportarmos deste modo, pois o homem foi
criado livre e tem a possibilidade de se levantar inútil e amargamente contra
Deus; mas esse caminho é possível e é real, porque tal conduta nasce
necessariamente como consequência do amor de Deus e do amor a Deus.
Se
tu e eu quisermos, Jesus Cristo também o quer.
Então
compreenderemos, em toda a sua profundidade e com toda a sua fecundidade, a
dor, o sacrifício, a entrega desinteressada na convivência diária com os
outros.
234
O exercício da caridade
Pecaria
por ingenuidade quem imaginasse que as exigências da caridade cristã se
cumprem facilmente.
É
bem diferente o que nos diz a experiência, quer no âmbito das ocupações
habituais dos homens, quer, por desgraça, no âmbito da Igreja.
Se
o amor não nos obrigasse a calar, cada um de nós teria muito que contar de
divisões, de ataques, de injustiças, de murmurações e de insídias.
Temos
de o admitir com simplicidade, para tratar de aplicar, pela parte que nos
corresponde, o remédio oportuno, que se há-de traduzir num esforço pessoal por
não ferir, por não maltratar, por corrigir sem deixar ninguém esmagado.
Não
são problemas de hoje.
Poucos
anos depois da Ascensão de Cristo aos céus, quando ainda andavam de um lugar
para outro todos os Apóstolos e era geral um admirável fervor de fé e de
esperança, já muitos, no entanto, começavam a desencaminhar-se e a não viver a
caridade do Mestre.
Havendo
entre vós rivalidades e discórdias - escreve S. Paulo aos de Corinto - não é
notório que sois carnais e procedeis como homens? Porque, quando um diz: eu sou
de Paulo, e outro: eu sou de Apolo, não estais a mostrar que ainda sois homens
carnais que não compreendem que Cristo veio para superar todas essas divisões?
Quem
é Apolo?
Quem
é Paulo?
Ministros
daquele em quem vós crestes e isso segundo a medida que o Senhor concedeu a
cada um.
O
Apóstolo não rejeita a diversidade: cada um tem de Deus o seu próprio dom; um
de um modo e outro de outro.
Mas
essas diferenças têm de estar ao serviço do bem da Igreja.
Sinto-me
inclinado agora a pedir ao Senhor - se quiserdes unir-vos a esta minha oração -
que não permita que na sua Igreja a falta de amor semeie joio nas almas.
A
caridade é o sal do apostolado dos cristãos; se perde o sabor, como poderemos
apresentar-nos ao mundo e explicar, de cabeça erguida, que aqui está Cristo?
235
Portanto,
repito-vos com S. Paulo: ainda que eu falasse as línguas dos homens e a
linguagem dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que ressoa ou
como o címbalo que tine.
E
ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e
possuísse toda a ciência, e tivesse toda a fé, de modo a mover montanhas, se
não tiver caridade, não sou nada.
E
ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres e entregasse
o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, nada me aproveita .
Perante
estas palavras do Apóstolo dos gentios, não faltam os que se assemelham àqueles
discípulos de Cristo, que, ao anunciar-lhes Nosso Senhor o Sacramento da sua
Carne e do seu Sangue, comentaram:
-
É dura esta doutrina; quem a pode escutar?
É dura, sim. Porque a caridade que o Apóstolo
descreve não se limita à filantropia, ao humanitarismo ou à natural comiseração
pelo sofrimento alheio; exige a prática da virtude teologal do amor a Deus e do
amor, por Deus, aos outros.
Por
isso, a caridade nunca deixará de existir, ao passo que as profecias
terminarão, as línguas cessarão e a ciência acabará...
Agora
permanecem estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade; mas, das três,
a caridade é a mais excelente.
236
O único caminho
Já
nos convencemos de que a caridade nada tem a ver com essa caricatura que às
vezes se tem pretendido traçar da virtude central da vida cristã.
Mas
perguntamos agora: porque se exige pregá-la constantemente? Será uma espécie de
tema obrigatório, mas com poucas possibilidades de se manifestar em factos
concretos?
Olhando
à nossa volta, talvez descobríssemos razões para pensar que a caridade é
realmente uma virtude ilusória.
Mas
considerando as coisas com sentido sobrenatural, descobrirás também a raiz
dessa esterilidade, que se cifra numa ausência de convívio intenso e contínuo,
de tu a tu, com Nosso Senhor Jesus Cristo, e no desconhecimento da acção do
Espírito Santo na alma, cujo primeiro fruto é precisamente a caridade.
Recolhendo
um conselho do Apóstolo - levai uns as cargas dos outros e assim cumprireis a
lei de Cristo - acrescenta um Padre da Igreja: amando a Cristo, suportaremos
facilmente a fraqueza dos outros, mesmo a daquele a quem ainda não amamos,
porque não tem boas obras.
Por
aí se eleva o caminho que nos faz crescer na caridade.
Enganar-nos-íamos
se imaginássemos que primeiro temos de nos exercitar em actividades
humanitárias, em trabalhos de assistência, excluindo o amor do Senhor.
Não
descuidemos Cristo por causa do próximo que está enfermo, uma vez que devemos
amar o enfermo por causa de Cristo.
Olhai
constantemente para Jesus, que, sem deixar de ser Deus, se humilhou tomando a
forma de servo para nos poder servir, porque só nessa mesma direcção se abrem
os afãs por que vale a pena lutar.
O
amor procura a união, a identificação com a pessoa amada; e, ao unirmo-nos com
Cristo, atrair-nos-á a ânsia de secundar a sua vida de entrega, de amor sem
medida, de sacrifício até à morte.
Cristo
coloca-nos perante o dilema definitivo: ou consumirmos a existência de uma
forma egoísta e solitária ou dedicarmo-nos com todas as forças a uma tarefa de
serviço.
237
Vamos
pedir agora ao Senhor, para terminar este tempo de conversa com Ele, que nos
conceda poder repetir com S. Paulo que triunfamos por virtude daquele que nos
amou.
Pelo
qual estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os
principados, nem as virtudes, nem o presente, nem o futuro, nem a força, nem o
que há de mais alto, nem de mais profundo, nem qualquer outra criatura poderá
jamais separar-nos do amor de Deus que está em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Este
amor também a Escritura o canta com palavras inflamadas: as águas copiosas não
puderam extinguir a caridade, nem os rios afogá-la.
Este
amor encheu sempre o Coração de Santa Maria, ao ponto de enriquecê-la com
entranhas de Mãe para toda a humanidade.
Em
Nossa Senhora o amor a Deus confunde-se com a solicitude por todos os seus
filhos.
O
seu Coração dulcíssimo teve de sofrer muito, atento aos mínimos pormenores -
não têm vinho - ao presenciar aquela crueldade colectiva, aquele encarniçamento
dos verdugos, que foi a Paixão e Morte de Jesus.
Mas
Maria não fala.
Como
o seu Filho, ama, cala e perdoa. Essa é a força do amor.
238
Sempre
que sentimos no nosso coração desejos de melhorar, de responder mais
generosamente ao Senhor, e procuramos um guia, um norte claro para a nossa
existência cristã, o Espírito Santo traz à nossa memória as palavras do
Evangelho: importa orar sempre e não cessar de o fazer.
A
oração é o fundamento de todo o trabalho sobrenatural; com a oração somos
omnipotentes; se prescindíssemos deste recurso, nada conseguiríamos.
Eu
gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da
necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas no meio do mundo e do
trabalho, com uma conversa contínua com o nosso Deus, a qual não deve esmorecer
ao longo do dia. Se pretendemos seguir lealmente os passos do Mestre, este é o
único caminho.
(cont)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Aplicação no trabalho.
Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.
Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.
Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Evangelho e comentário
Evangelho: Lc 6, 12-19
Naqueles dias, Jesus subiu ao monte
para rezar e passou a noite em oração a Deus. Quando amanheceu, chamou os
discípulos e escolheu doze entre eles, a quem deu o nome de apóstolos: Simão, a
quem deu também o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e
Bartolomeu, Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelota;
Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor. Depois
desceu com eles do monte e deteve-Se num sítio plano, com numerosos discípulos
e uma grande multidão de pessoas de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de
Tiro e de Sidónia. Tinham vindo para ouvir Jesus e serem curados das suas doenças.
Os que eram atormentados por espíritos impuros também ficavam curados. Toda a
multidão procurava tocar Jesus, porque saía d’Ele uma força que a todos sarava.
Comentário:
Antes
de tomar uma decisão tão importante como era a escolha dos Apóstolos, o Senhor
embrenha-se na oração.
A
oração é sempre conversa com Deus mas é, também, momento de reflexão interior,
talvez de exame, seguramente procura de apoio e guia para o rumo a seguir.
É
esta a principal ”lição” que podemos colher deste trecho do Evangelho Lc
6, 12-19 em ocasiões importantes – muito importantes ou, até, de escasso
relevo – devemos solicitar luz ao Espírito Santo para tomar a decisão certa e
mais adequada.
(AMA
comentário sobre Lc 6, 12-19, 25.06.2019)
Subscrever:
Mensagens (Atom)




