18/04/2019

Temas para reflectir e meditar

Despersonalização

Não se pode mutilar nada da natureza humana. 

Despersonalizar-se naquilo que o homem tem de bom – que é muito – é o mais ruinoso que um cristão pode fazer. 

Desenvolve a tua natureza, a tua actividade humana; desenvolve-a até ao infinito. Tudo o que empequenece, o que contrai e estreita, o que nos ata pelo medo, isso não é Cristianismo. 

Há que empregar outra palavra que não seja despersonalização para designar a total purificação do pecado e das más inclinações que o homem, com a ajuda de Deus, há-de realizar.

(JESUS URTEAGAEl valor divino de lo humano, Rialp, 29 ed., Madrid 1984, p. 61. trad. ama)

Evangelho e comentário



TEMPO DA QUARESMA

Semana Santa



Evangelho: Lc 4, 16-21

16 Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. 17 Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: 18 «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, 19 a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» 20 Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21 Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»

Comentário:

Jesus Cristo escolhe propositadamente a passagem da Escritura que Lhe diz directamente respeito.

Sabe, naturalmente, que irá haver controvérsia entre os assistentes mas sente que de alguma forma tem de fazer o possível para esclarecer e dissipar as dúvidas que possam ter a Seu respeito.

Assim, e desta forma categórica, diz aos Seus conterrâneos Quem é e ao que vem, não lhes esconde a Sua verdadeira identidade nem deixa por definir a missão que o traz este mundo.

As Suas palavras talvez não sejam suficientes por isso mesmo dará abundantes provas da Sua Divindade com os milagres de toda a ordem e a Sua doutrina segura, coerente, verdadeira.

Dirá que se não acreditam nas Suas palavras que acreditem nas Suas obras e que o que diz o ouviu directamente de Seu Pai.

(AMA, comentário sobre Lc 4, 16-21, 14.01.2019)

Fazer da sua vida diária um testemunho de Fé


Muitas realidades materiais, técnicas, económicas, sociais, políticas, culturais..., abandonadas a si mesmas, ou nas mãos de quem carece da luz da nossa fé, convertem-se em obstáculos formidáveis à vida sobrenatural: formam como que um couto cerrado e hostil à Igreja. Tu, por seres cristão – investigador, literato, cientista, político, trabalhador... –, tens o dever de santificar essas realidades. Lembra-te de que o universo inteiro – escreve o Apóstolo – está a gemer como que em dores de parto, esperando a libertação dos filhos de Deus. (Sulco, 311)

Já falámos muito deste tema noutras ocasiões, mas permiti-me insistir de novo na naturalidade e na simplicidade da vida de S. José, que não se distinguia da dos seus vizinhos nem levantava barreiras desnecessárias.

Por isso, ainda que possa ser conveniente nalguns momentos ou em algumas situações, habitualmente não gosto de falar de operários católicos, de engenheiros católicos, de médicos católicos, etc., como se se tratasse de uma espécie dentro dum género, como se os católicos formassem um grupinho separado dos outros, dando assim a sensação de que existe um fosso entre os cristãos e o resto da humanidade. Respeito a opinião oposta, mas penso que é muito mais correcto falar de operários que são católicos, ou de católicos que são operários; de engenheiros que são católicos ou de católicos que são engenheiros. Porque o homem que tem fé e exerce uma profissão intelectual, técnica ou manual, está e sente-se unido aos outros, igual aos outros, com os mesmos direitos e obrigações, com o mesmo desejo de melhorar, com o mesmo empenho de se enfrentar com os problemas comuns e de lhes encontrar a solução.

O católico, assumindo tudo isto, saberá fazer da sua vida diária um testemunho de Fé, de Esperança e de Caridade; testemunho simples, normal, sem necessidade de manifestações aparatosas, pondo de manifesto – com a coerência da sua vida – a presença constante da Igreja no mundo, visto que todos os católicos são, eles mesmos, Igreja, pois são membros, com pleno direito, do único Povo de Deus. (Cristo que passa, 53)

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






Leitura espiritual


A DIGNIDADE HUMANA


A.  A DIGNIDADE HUMANA

1. O que significa dignidade?

Dignidade é grandeza, excelência; é uma qualidade ou bondade superior pela qual algo ou alguém goza de especial valor o estima.

2. Em que se baseia a dignidade humana?

O homem possui grande dignidade principalmente por motivos espirituais (por isto se percebe porque um ateu dispõe de menos razões para respeitar o ser humano):

*     Estamos dotados de uma alma espiritual e imortal. Fomos criados à imagem e semelhança divinas. Possuímos entendimento e vontade.
*     Deus fez-se homem: a Segunda pessoa da Santíssima Trindade tomou a natureza humana.
*     Deus ama-nos.
*     A graça outorga ao homem a dignidade especial de filho de Deus.

Por isso é que um pecado mortal é o que maior dano causa ao homem e à sua dignidade pois faz perder o dom da graça e a filiação divina.

3. Consequências desta dignidade em relação à alma humana.

- Antes de tudo é importante evitar os pecados. E se se cometeram, convém confessar-se rapidamente para recuperar a graça e com ela a dignidade de filhos de Deus.
Em geral, trata-se de cuidar a alma própria e alheia.

Exemplos:

*     Respeitar a inteligência própria e dos outros, procurando dizer a verdade.
*     Caridade com o próximo recusando ódios, burlas e murmurações. Amar a liberdade dos outros. Evitar fanatismos.
*     Desvelo pela vida espiritual própria e dos outros. Por exemplo, dando catequese.

4. Consequências desta dignidade no que se refere ao corpo humano.

- O corpo humano participa da dignidade da pessoa e deve ser tratado com o respeito e cuidado correspondentes.

Exemplos:

*     Respeito à propriedade dos outros. Ajuda a países e pessoas necessitadas. Solidariedade. Cuidado com a própria vida e com a alheia. Recusar o aborto e a eutanásia. Afastar as drogas.

*     Adornar e vestir correctamente o corpo humano, usando uma moda digna.

*     Respeitar o próprio corpo bem como o alheio. Inclui-se a moderação na comida e bebida, bem como o correcto uso do sexo.

5. Como é o uso digno e correcto do sexo?

A dignidade do homem nestes aspectos exige várias coisas:

*     O corpo humano não deve ser objecto do uso ou troca (hoje com uma pessoa, amanhã com outra). Só se deve entregar a alguém quando há previamente um compromisso firme, diante de testemunhas (cerimónia de casamento) de querer-se para sempre.

*     As faculdades geradoras da pessoa humana têm uma missão de grande categoria: trazer ao mundo outros seres humanos. Usá-las unicamente para obter prazeres é rebaixar em grande escala a sua dignidade.
Estas perdas de dignidade são bastante claras e qualquer pessoa se sente mal-tratada quando se dá conta de que está a ser usada de uma forma temporária ou como objecto de prazer.


B. DIGNIDADE E UTILIZAÇÃO


1.        O que é utilizar?


Utilizar é empregar algo para atingir um fim. Utiliza-se um martelo para pregar um prego. Utiliza-se um cão para vigiar a casa, etc.


2.        Quem pode utilizar algo?


Em sentido restrito, apenas os seres inteligentes e livres podem estabelecer um fim às coisas. Um cavalo utiliza para comer, mas tal foi assim determinado pelo Criador e o cavalo não decide.


3.        O Senhor utiliza os homens?


O Criador dispôs um fim que torna o homem feliz. - o céu junto Dele - mas quis que fossemos inteligentes e livres e, por tanto, desejou que o homem pudesse auto-dirigir-se para esse fim. Esta liberdade forma parte importante da dignidade humana.


4.        Como se perde a dignidade por utilização?


A perda da dignidade neste aspecto pode ser de dois modos:

*     Por imposição de um fim, atentado contra a dignidade de um homem livre. Neste caso, o homem inteiro é utilizado.
*     Usando as coisas de um modo inferior à dignidade natural que possuem, recebida do Criador. Assim se emprega mal uma qualidade humana.


5.        Exemplo de perda de dignidade por imposição de fins?

Procuremos exemplo em que se priva o homem da vida, coisa que nenhuma pessoa deseja perder. Assim fica claro que é um fim imposto, contrário à liberdade e dignidade humanas.

*     Na escravidão, o servo carece de direitos e está completamente sujeito à vontade e fins que o seu amo deseje.
*     No nazismo, os judeus eram massacrados com o fim imposto de melhorar a raça.
*     No aborto, os embriões humanos são destruídos para conseguir fins alheios ao embrião.
*     No terrorismo, matam-se seres humanos por um fim político que eles não desejam.


6.        Exemplos de perda de dignidade por má utilização?


Aqui os casos são mais difíceis de reconhecer pois uma pessoa pode decidir.

Exemplos:

*     Utilizar a inteligência para roubar ou causar dano a outros é uma perda de dignidade para esse entendimento.
*     Aqui inclui-se o mencionado sobre o sexo. Empregá-lo unicamente para obter prazer diminui muito a dignidade da sexualidade, desprezando o grande dom de trazer filhos ao mundo.
*     Usar o tempo principalmente para a diversão deteriora a dignidade operativa do homem que deixa de fazer obras boas. A capacidade humana de fazer o bem fica diminuída.


7.        Estas consequências coincidem com os mandamentos?


É lógico que coincidam pois Deus deseja o nosso bem e a nossa dignidade. Os atentados contra a nossa dignidade ofendem o Criador. 

Nos pecados há uma lesão à dignidade dos outros homens ou de si mesmo, ou uma tentativa de ataque à dignidade divina.

17/04/2019

NOTRE DAME



Cari Filii
Martes, 16 de abril de 2019

Aparece intacta junto a los escombros «Nuestra Señora de París», la imagen mariana más venerada en Notre Dame

Secularismo









Juan Manuel de Prada

Temas para reflectir e meditar

Sofrimento

Recorrentemente, há pessoas que me escrevem a contar suas desgraças. Contam que já não têm mais forças. Os motivos podem ter várias origens: umas sentem-se cada vez oprimidas pelas dívidas. Outras sofrem pelo facto de os filhos seguirem caminhos diferentes ou por terem sido afastados do caminho certo, devido à doença ou à depressão. Muitas asseguram que rezam constantemente, mas que, apesar de todas as orações, a situação simplesmente não melhora. Muitas vezes, estas pessoas perguntam-me se terão rezado de forma errada ou feito qualquer coisa mal, porque nada se altera. Isso indicia um entendimento muito peculiar da oração. Pensam que é apenas necessário rezar a Deus, rezar constante, para que Ele as ajude. E, quando não ajuda, duvidam Deus ou das suas orações. Acham que tiveram pouca fé e procuram então apoio junto de outros.
Certamente que é bom pedir também a outras pessoas que por nós. Mas, muitas vezes - segundo me parece - essa - oração está turvada com a ideia de um resultado, com a atitude ­interior de que... “Quanto mais eu rezar, maior é a obrigação de Deus em me ajudar.” Muitas vezes, as pessoas não encaram ­verdadeiramente os seus problemas. Pedem a Deus que resolva tudo. Mas não se esforçam por examinar e abordar os problemas livremente. E significaria colocar em questão o próprio conceito de vida. Isso conduziria à humildade. Apen­as a oração, em que eu apresento impiedosamente a Deus a verdade, poderá ajudar-me. Mas nem sempre ajuda no sentido de Deus retirar do meu caminho todas as pedras. Talvez ­me dê simplesmente a força para o suportar. A qualquer altura despontará em mim uma solução ou as circunstâncias exteriores alterar-se-ão, de modo a que, de repente, se revele um caminho por onde eu possa seguir.

(anselm grunA incompreensível existência de Deus, Paulinas, p. 74-75)

Evangelho e comentário



TEMPO DA QUARESMA
Semana Santa



Evangelho: Mt 26, 14-25

14 Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes 15 e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16 E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. 17 No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» 18 Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’» 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa. 20 Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze. 21 Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.» 22 Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?» 23 Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. 24 O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!» 25 Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» - respondeu Jesus

Comentário:

Esta figura de Judas torna-se central na história da salvação por motivos tais que o Senhor afirma que "melhor seria não ter nascido".

A traição independentemente de quem trai e de quem é traído é sempre um acto vil e desprezível que coloca o traidor à margem da sociedade e, quase sempre, no isolamento mais absoluto.

Podia ser perdoado?
Evidentemente que sim, tudo tem perdão desde que haja arrependimento sincero e reparação do mal praticado.

Mas… reparação como?

Um coração contrito e humilhado é mais que suficiente para que o Senhor se compadeça de quem se arrepende e, uma vez perdoado, tudo fica esquecido tal como era antes da falta cometida.

O que sabemos – ou intuímos – é que para Jesus terá sido uma dor profunda e dilacerante, não tanto por ter sido traído por um dos Seus escolhidos, mas porque o que O traiu desprezou o Seu perdão.

(AMA, comentário sobre MT 26, 14-25, 28.03.2018)

La pértiga del cristiano




Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?









Leitura espiritual


Cruzando o umbral da esperança

CHAMAM-NA
«HISTÓRIA DA SALVAÇÃO»

Pergunta:

Aproveitando a cordial liberdade que quis conceder-me, permita-me continuar expondo-lhe perguntas que ainda que possa parecer-lhe peculiares, talvez exponho, como Vossa Santidade mesmo observou, em nome de não pouco dos nossos contemporâneos, os quais, ante o anúncio evangélico proposto pela Igreja, parecem perguntar-se:
Porquê esta «história da salvação», como os cristãos a chamam, se apresenta de uma forma tão complicada? Para nos perdoar, para nos salvar, um Deus-Pai tinha verdadeiramente necessidade do sacrifício cruento do Seu próprio Filho?

Resposta:

A sua pergunta respeitante à história da salvação toca o que é o significado mais profundo da salvação redentora. Comecemos lançando um olhar à história do pensamento europeu depois de Descartes.
Porque ponho também aqui Descartes em primeiro plano? Não só porque ele marca o início de uma nova época na história do pensamento europeu, mas também porque este filósofo, que certamente esta entre os maiores que a França deu ao mundo, inaugura a grande mudança antropocêntrica na filosofia. «Penso, logo existo», como antes recordamos, é o tema do racionalismo moderno.

Todo o racionalismo dos últimos tempos – tanto na sua expressão anglo-saxónica como na continental com o kantismo, o hegelianismo e a filosofia alemã dos séculos IX e XX até Husserl e Heidegger pode considerar-se uma continuação e um desenvolvimento das posições cartesianas O autor de Meditações de prima filosofia, com a sua prova ontológica, afastou-nos da filosofia da existência, e também das vias tradicionais de São Tomás. Tais vias levam a Deus, «existência autónoma», Ipsum esse subsistens («o próprio Ser subsistente»). Descartes, com a absolutização da consciência subjectiva, conduz antes para a pura consciência do Absoluto, que é o puro pensar; um tal Absoluto que não é a existência autónoma, mas de certo modo o pensar autónomo: somente faz sentido o que se refere ao pensamento humano; não importa tanto a verdade objectiva deste pensamento como próprio facto de que algo esteja presente no conhecimento humano.

Encontramo-nos no umbral do imanentismo e do subjectivismo modernos. Descartes representa o início do desenvolvimento tanto das ciências exactas e naturais como das ciências humanas segundo esta nova expressão. Com tal voltam-se as costas à metafísica e centra-se o foco de interesse na filosofia do conhecimento. Kant é o maior representante desta corrente.

Se não é possível atribuir ao pai do racionalismo moderno o afastamento do cristianismo, é difícil não reconhecer que ele criou o clima, no qual, na época moderna, tal afastamento pode realizar-se. Não se realizou de modo imediato, mas sim gradualmente.

Com efeito, uns cento e cinquenta anos depois de Descartes, comprovamos como o que era essencialmente cristão na tradição do pensamento europeu, já se colocou entre parêntesis. Estamos nos tempos em que em França o protagonista é o iluminismo uma doutrina com a qual se leva a cabo a afirmação definitiva do racionalismo puro. A Revolução francesa durante o Terror, derrubou os altares dedicados a Cristo, derrubou os crucifixos dos caminhos, e no seu lugar introduziu a deusa Razão, sob cuja base foram proclamadas a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Deste modo, o património espiritual, e em concreto o moral, do cristianismo foi arrancado do seu fundamento evangélico, ao qual é necessário devolvê-lo para que se reencontre a sua plena vitalidade.

Todavia, o processo do afastamento do Deus dos Padres, do Deus de Jesus Cristo, do Evangelho e da Eucaristia não trouxe consigo a ruptura com um Deus existente mais para além do mundo. De facto, o Deus dos deístas esteve sempre presente nos enciclopedistas franceses, nas obras de Voltaire e Jean Jacques Rousseau, e mais ainda nos Philosophiae naturalis prinsipia mathematica de Isaac Newton, que marcam o o início da física moderna.



Este Deus, todavia, é decididamente um Deus fora do mundo. Um Deus presente no mundo aparecia como inútil para o conhecimento moderno, para a moderna ciência do homem, do que examina os seus mecanismos conscientes e subconscientes. O racionalismo iluminista pôs entre parêntesis o verdadeiro Deus e, em particular, o Deus Redentor.

Isto que consequências trouxe? Que o homem tinha que viver deixando-se guiar exclusivamente pela razão própria, como se Deus não existisse. Não só tinha de prescindir de Deus no conhecimento objectivo do mundo – devido a que a premissa da existência do Criador ou da Providência não tinha qualquer utilidade para a ciência, mas que tinha, de actuar como se Deus não existisse, quer dizer, como se Deus não se interessasse pelo mundo. O racionalismo iluminista podia aceitar um Deus fora do mundo, sobretudo porque esta era uma hipótese não comprovável. Era imprescindível, todavia, que esse Deus se colocasse fora do mundo.




(Cfr entrevista de Vittorio Messori a São João Paulo II, CRUZANDO EL UMBRAL DE LA ESPERANZA, Outubro de 1994)
(Tradução do castelhano por AMA)


16/04/2019

Temas para reflectir e meditar

Fidelidade

No castelo de Deus trataremos de aceitar qualquer posto: cozinheiros ou serventes de cozinha, empregados de quarto, moços de cavalos, padeiros. 

Se ao Rei lhe agradar chamar-nos para o seu Conselho privado, ali iremos, mas sem nos entusiasmar-mos demasiado, sabendo que a recompensa não depende do posto, mas da fidelidade com sirvamos.


(a. lucianni, (joão paulo i) Ilustrísimos señores, p 128, trad ama)

Evangelho e comentário


TEMPO DA QUARESMA
Semana Santa




Evangelho: Jo 13, 21-33. 36-38 

21 Tendo dito isto, Jesus perturbou-se interiormente e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!» 22 Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem a quem se referia. 23 Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito. 24 Simão Pedro fez-lhe sinal para que lhe perguntasse a quem se referia. 25 Então ele, apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus, perguntou: «Senhor, quem é?» 26 Jesus respondeu: «É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado.» E molhando o bocado de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. 27 E, logo após o bocado, entrou nele Satanás. Jesus disse-lhe, então: «O que tens a fazer fá-lo depressa.» 28 Nenhum dos que estavam com Ele à mesa entendeu, porém, com que fim lho dissera. 29 Alguns pensavam que, como Judas tinha a bolsa, Jesus lhe tinha dito: ‘Compra o que precisamos para a Festa’, ou que desse alguma coisa aos pobres. 30 Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite. 31 Depois de Judas ter saído, Jesus disse: «Agora é que se revela a glória do Filho do Homem e assim se revela nele a glória de Deus. 32 E, se Deus revela nele a sua glória, também o próprio Deus revelará a glória do Filho do Homem, e há-de revelá-la muito em breve.» 33 «Filhinhos, já pouco tempo vou estar convosco. Haveis de me procurar, e, assim como Eu disse aos judeus: ‘Para onde Eu for vós não podereis ir’, também agora o digo a vós.
36 Disse-lhe Simão Pedro: «Senhor, para onde vais?» Jesus respondeu-lhe: «Para onde Eu vou, tu não me podes seguir por agora; hás-de seguir-me mais tarde.» 37 Disse-lhe Pedro: «Senhor, porque não posso seguir-te agora? Eu daria a vida por ti!» 38 Replicou Jesus: «Darias a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo, antes de me teres negado três vezes!»
Comentário:

O Evangelista conta-nos a tragédia da traição com uma economia de palavras que dá que pensar.

O que aconteceu deve ter sido tão chocante e surpreendente que quando mais tarde vier a conhecer o que realmente aconteceu prefere dar o assunto como que encerrado.

A traição choca e cai como um estigma sobre quantos a
testemunham.
Não esqueçamos que Judas era um dos Doze, durante quase três anos conviveram intimamente percorrendo a Palestina acompanhando Jesus.

Como compreender? Como aceitar?

Na verdade, parece que o exemplo vem do Senhor que não mais terá referido o que aconteceu.

Quase somos levados a considerar que o papel de Judas foi absolutamente necessário para que se cumprisse, como Jesus desejava, toda a história da Salvação.

(ama, comentário sobre Jo 13, 41-33. 34-35, Malta, 24.04.2016)