09/11/2014

A maior revolução de todos os tempos!

Se nós, os cristãos, vivêssemos realmente de acordo com a nossa fé, far-se-ia a maior revolução de todos os tempos! A eficácia da co-redenção depende também de cada um de nós! Pensa nisto. (Forja, 945)

Sentir-te-ás plenamente responsável quando compreenderes que, perante Deus, só tens deveres. Ele se encarrega de te conceder direitos! (Forja, 946)

Um pensamento te ajudará nos momentos difíceis: quanto mais aumente a minha fidelidade, melhor contribuirei para que os outros cresçam nesta virtude. E é tão atraente sentir-nos apoiados uns pelos outros! (Forja, 948)

Corres o grande perigo de te conformares com viver (ou pensar que deves viver...) como um "bom rapaz", que se hospeda numa casa arrumada, sem problemas, e que não conhece senão a felicidade.

Isso é uma caricatura do lar de Nazaré. Cristo, justamente porque trazia a felicidade e a ordem ao mundo, saiu a propagar esses tesouros entre os homens e mulheres de todos os tempos. (Forja, 952)


Temas para meditar - 266



Cruz

A Cruz não faz vítimas… faz santos! Não provoca caras tristes, mas rostos alegres.





(Salvatore CanalsAscética Meditada, Éfeso, nr. 50) 

Tratado do verbo encarnado 24

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 7 — Se uma mesma Pessoa divina pode assumir duas naturezas humanas.

O sétimo discute-se assim. — Parece que uma mesma Pessoa divina não pode assumir duas naturezas humanas.

1. — Pois, a natureza assumida do mistério da Encarnação não tem outro suposto além do suposto da pessoa divina, como do sobredito resulta. Se, pois, admitimos que uma mesma Pessoa divina assumiu duas naturezas humanas, haveria um só suposto para duas naturezas da mesma espécie. O que implica contradição, pois, a natureza de uma mesma espécie não se multiplica senão pela distinção dos supostos.

2. Demais. — Na hipótese que examinamos não se poderia dizer que a Pessoa divina encarnada fosse um só homem, porque não teria uma só natureza humana. Semelhantemente, não se poderia dizer, que a seriam muitos homens, porque muitos homens são distintos pelo suposto, e então haveria aí um só suposto. Logo, a referida posição é absolutamente impossível.

3. Demais. — No mistério da Encarnação toda a natureza divina se uniu a toda a natureza assumida, isto é, a cada uma das partes dela, pois, Cristo é Deus perfeito e homem perfeito, totalmente Deus e totalmente homem, como diz Damasceno. Ora, duas naturezas humanas não poderiam unir-se totalmente uma à outra, pois, seria necessário a alma de uma estar unida ao corpo da outra, e ainda que os dois corpos existissem simultaneamente, o que também causaria a confusão das naturezas, Logo, não é possível que uma Pessoa divina assuma duas naturezas humanas.

Mas, em contrário, tudo o que pode o Pai o Filho pode. Ora, o Pai, depois da Encarnação do Filho pode assumir uma natureza humana numericamente diversa da que assumiu o Filho, pois, em nada, pela Encarnação do Filho, diminuiu o poder do Pai nem o do Filho. Logo, parece que o Filho, depois da Encarnação, pode assumir outra natureza humana, além daquela que assumiu.

O agente que não pode ultrapassar uma certa acção tem o seu poder limitado. Ora, o poder da Pessoa divina é infinito nem pode ser limitado a nada de criado. Por isso, não devemos dizer que a Pessoa divina assumiu uma natureza humana tal que não podia assumir outra. Pois, daí se seguiria que a personalidade da natureza divina seria de tal modo circunscrita por uma mesma natureza humana, que não poderia a sua personalidade assumir outra. O que é impossível, pois, o incriado não pode ser compreendido pelo criado. Donde, é claro que quer consideremos a Pessoa divina na sua virtude, que é o princípio da união, quer na sua personalidade, que é o termo da união, é necessário admitir que a Pessoa divina podia, além da natureza humana que assumiu, assumir outra numericamente diferente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A natureza criada aperfeiçoa-se na sua essência, pela forma, que se multiplica pela divisão da matéria. Donde, se a composição da matéria e da forma constituir um novo suposto, consequentemente a natureza há-de multiplicar-se conforme a multiplicação dos supostos. Mas, no mistério da Encarnação a união da forma e da matéria, isto é, da alma e do corpo, não constitui um novo suposto, como se disse. E portanto poderia haver multidão, numericamente, quanto à natureza, por causa da divisão da matéria, sem distinção dos supostos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Poder-se-ia deduzir, da hipótese que propusemos, a existência de dois homens, por causa das duas naturezas sem que aí houvesse dois supostos, assim como, universalmente, as três Pessoas constituíram um só homem, por causa da mesma natureza humana assumida, como se disse. Mas essa dedução não seria verdadeira. Porque devemos empregar os nomes na significação em que são usados, o que resulta das coisas no meio das quais vivemos. Portanto, acerca do modo de significar e de significar devemos levar em conta tais coisas. Ora, em relação a elas, nunca se aplica um nome, em virtude de uma forma, com significação plural, senão por causa da pluralidade dos supostos. Assim, de um homem vestido com duas roupas não dizemos que constitui dois homens vestidos, mas, um só, vestido de dois fatos, e quem tem duas qualidades o consideramos tal, segundo essas duas qualidades. Ora, a natureza assumida, sob certo aspecto, comporta-se a modo de uma veste, embora a semelhança não seja total, como dissemos. Donde, se uma Pessoa divina assumisse duas naturezas humanas, por causa da unidade do suposto diríamos existir um homem com duas naturezas humanas. Pois, muitos homens podem constituir um povo, por convirem nalguma unidade, mas não por unidade de suposto. E semelhantemente, se duas Pessoas divinas assumissem uma natureza humana, numericamente a mesma, seriam consideradas um só homem, como dissemos, não pela unidade do suposto, mas por convirem numa certa unidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A natureza divina e a humana não se referem na mesma ordem a uma mesma Pessoa divina, mas a que primeiro se lhe refere é a natureza divina, como o que abeterno constitui com ela uma unidade, ao passo que a natureza humana se lhe refere posteriormente, como assumida temporalmente pela Pessoa divina, não por certo, de modo que a natureza seja a própria Pessoa, mas porque a Pessoa nela subsiste, pois, o Filho de Deus é a sua divindade mas não, a sua humanidade. Donde, para a natureza humana ser assumida pela Pessoa divina, resta que a natureza divina se una por uma união pessoal a toda a natureza assumida, isto é, segundo todas as partes desta. Ora, duas naturezas assumidas manteriam uma relação uniforme com a Pessoa divina, nem uma assumiria a outra. Donde, não seria necessário que uma delas se unisse totalmente à outra, isto é, todas as partes de uma a todas as partes de outra.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXII Semana

Evangelho: Jo 2 13-22

13 Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14 Encontrou no templo vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados às suas mesas. 15 Tendo feito um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo, e com eles as ovelhas e os bois, deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas mesas. 16 Aos que vendiam pombas disse: «Tirai isto daqui, não façais da casa de Meu Pai casa de comércio». 17 Então lembraram-se os Seus discípulos do que está escrito: “O zelo da Tua casa Me consome”. 18 Tomaram então a palavra os judeus e disseram-Lhe: Que sinal nos mostras para assim procederes?». 19 Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e o reedificarei em três dias». 20 Replicaram os judeus: «Este templo foi edificado em quarenta e seis anos, e Tu o reedificarás em três dias?». 21 Ora Ele falava do templo do Seu corpo. 22 Quando, pois, ressuscitou dos mortos os Seus discípulos lembraram-se do que Ele dissera e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus tinha dito.

Comentário

Na ‘densidade’ dos mistérios da humanidade, a sua existência terrena e, depois, a eterna, avulta esta questão que nos pomos: como será o nosso corpo ressuscitado?
Questão interessante mas cuja resposta não encontraremos com facilidade.
Que o nosso corpo ressuscitará para se unir à alma e assim, novamente unidos, viverem para todo o sempre é uma verdade fundamental da nossa fé e, por princípio, as verdades fundamentais não se questionam exactamente porque são o fundamento sem o qual a fé não existe.
Deixemos nas mãos de Deus Todo-Poderoso a ‘solução’ destas questões e, nós, limitemo-nos a dizer, como no Credo: eu creio!

(ama, comentário sobre Jo 2, 13-22, 2011.11.09)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte IV

…/6

Naturalmente, Celina pensou logo no dia da minha tomada de véu. Para não cansá-lo, dizia ela, não deixarei que assista à cerimónia inteira, só no final irei buscá-lo e o levarei devagar até a grade para que Teresa receba sua bênção. Ah! como vejo bem aí o coração da minha Celina querida... como é verdade que "o amor não vê impossibilidade porque pensa que tudo lhe é possível e permitido"... A prudência humana, ao contrário, treme a cada passo e não ousa, por assim dizer, dar um passo. Querendo provar-me, Deus serviu-se dela como de um instrumento dócil e, no dia das minhas núpcias, fiquei verdadeiramente órfã, não tendo mais Pai na terra, mas podendo olhar para o Céu confiante e dizer com toda a verdade: "Pai Nosso que estais no Céu".

Antes de falar-vos dessa provação, Madre querida, deveria ter-vos falado do retiro que antecedeu minha profissão; não me trouxe consolações, mas a mais absoluta aridez, quase o abandono. Jesus dormia como sempre no meu barquinho; ah! vejo que raramente as almas o deixam dormir sossegado nelas. Jesus fica tão cansado de sempre dar os primeiros passos e pagar as contas, que se apressa em aproveitar o descanso que eu lhe propicio. Provavelmente não acordará antes do meu grande retiro de eternidade, mas, em vez de causar-me tristeza, isso me alegra extremamente...

Verdadeiramente, estou longe de ser santa, só isso o prova bem; em vez de me regozijar com a minha aridez, deveria atribuí-la a minha falta de fervor e de fidelidade, deveria ficar aflita por dormir (há sete anos) durante minhas orações e minhas acções de graças, mas não, não me aflijo... penso que as criancinhas agradam tanto seus pais quando dormem como quando estão acordadas, penso que para fazer cirurgias os médicos adormecem seus pacientes. Enfim, penso que: "O Senhor vê nossa fragilidade, que Ele não perde de vista que só somos pó".

Meu retiro de profissão foi, portanto, igual a todos os que fiz depois, um retiro de grande aridez. Mas Deus mostrava-me, claramente, sem eu o perceber, o meio de Lhe agradar e de praticar as mais sublimes virtudes. Notei muitas vezes que Deus não quer dar-me provisões, alimenta-me a cada momento com alimento novo, encontro-o em mim, sem saber como chegou... Creio simplesmente que é o próprio Jesus, oculto no fundo do meu coraçãozinho que me faz a graça de agir em mim e me leva a pensar tudo o que Ele quer que eu faça no presente momento.

Alguns dias antes da minha profissão, tive a felicidade de obter a bênção do Soberano Pontífice; tinha-a solicitado por intermédio do bom irmão Simião para Papai e para mim. Foi um grande consolo poder propiciar a meu Paizinho querido a graça que ele me tinha dado levando-me a Roma.

Enfim, chegou o belo dia das minhas núpcias. Foi sem nuvem, mas na véspera levantou-se em minha alma uma tempestade como nunca tinha visto... Nenhuma dúvida quanto à minha vocação tinha surgido antes, precisava passar por essa provação. De noite, ao fazer minha via-sacra após matinas, minha vocação apareceu-me como um sonho, uma quimera... achava a vida do Carmelo muito bonita, mas o demónio me assegurava que não era para mim, que eu enganaria meus superiores prosseguindo num caminho que não era para mim... Minhas trevas eram tão grandes, que não via e só compreendia uma coisa: não tinha essa vocação!... Ah! como descrever a angústia da minha alma?... Tinha impressão (coisa absurda que mostra bem que essa tentação vinha do demônio) de que se falasse dos meus temores para minha mestra ela me impediria de fazer meus santos votos; mas eu queria fazer a vontade de Deus e voltar para o mundo de preferência a ficar no Carmelo fazendo a minha. Fiz minha mestra sair e, cheia de confusão, contei-lhe o estado da minha alma... Felizmente, ela enxergou melhor que eu e me tranquilizou completamente. Aliás, o ato de humildade que eu tinha feito acabava de afugentar o demónio, que talvez pensasse que eu não ia ousar confessar a minha tentação; logo que acabei de falar, minhas dúvidas se foram. Mas, para tornar meu acto de humildade mais completo, quis confiar minha estranha tentação à nossa Madre, que se contentou em rir de mim.

Na manhã de 8 de Setembro senti-me inundada por um rio de paz e foi nessa paz, "ultrapassando qualquer sentimento", que pronunciei meus santos votos... Minha união com Jesus fez-se, não em meio a trovões e relâmpagos, isto é, a graças extraordinárias, mas no meio de uma leve brisa parecida àquela que nosso Pai santo Elias ouviu na montanha... Quantas graças pedi naquele dia!... Sentia-me verdadeiramente Rainha, e aproveitei do meu título para liberar cativos, obter favores do meu Rei para com seus súditos ingratos, enfim, queria libertar todas as almas do purgatório e converter os pecadores... Rezei muito por minha Madre, minhas irmãs queridas... pela família toda, mas sobretudo por pneu paizinho tão provado e tão santo ... Ofereci-me a Jesus, a fim de que cumprisse perfeitamente em mim a sua vontade sem que nunca as criaturas impusessem obstáculos...

Esse belo dia, à semelhança dos mais tristes, passou, sendo que os mais radiantes também têm o dia seguinte. Mas foi sem tristeza que depositei minha coroa aos pés de Nossa Senhora, sentia que o tempo não levaria embora a minha felicidade... Que festa bonita foi a da Natividade de Maria para vir a ser a esposa de Jesus! Era a pequena Santíssima Virgem que apresentava sua pequena flor ao menino Jesus... Naquele dia, tudo era pequeno, fora as graças e a paz que recebi, fora a alegria calma que senti de noite ao olhar as estrelas brilharem no firmamento, pensando que em breve o belo Céu iria se abrir para meus olhos maravilhados e poderia unir-me a meu Esposo no seio de uma alegria eterna...

No dia 24, houve a cerimónia da minha tomada de véu. Foi inteiramente coberta de lágrimas... Papai não estava para abençoar sua rainha... O padre estava no Canadá... Sua Excelência, que devia vir e almoçar na casa do meu tio, ficou doente e não veio, enfim, tudo foi tristeza e amargura... Porém, a paz, sempre a paz encontrava-se no fundo do cálice ... Naquele dia, Jesus permitiu que eu não pudesse segurar as lágrimas, que não foram compreendidas... de facto, eu tinha suportado sem chorar provações muito maiores, mas então era ajudada por uma graça poderosa. No dia 24, pelo contrário, Jesus deixou-me entregue às minhas próprias forças e mostrei como eram pequenas.

Oito dias depois da minha tomada de véu, houve o casamento de Joana. Dizer-vos, querida Madre, como seu exemplo me instruiu a respeito das delicadezas que uma esposa deve prodigalizar ao esposo ser-me-ia impossível. Escutava ávida tudo o que eu podia aprender, pois não podia fazer menos por meu Jesus amador" do que Joana por Francis, criatura sem dúvida muito perfeita, mas criatura!...
Brinquei de compor um convite para compará-lo ao dela. Eis como era:


Convite para o Casamento de irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face


O Deus todo-poderoso, Criador do céu e da terra, soberano Dominador do mundo, e a Gloriosíssima Virgem Maria, Rainha da Corte Celeste, têm o prazer de vos participar o casamento do seu Augusto Filho Jesus, Reis dos Reis e Senhor dos Senhores, com a Senhorita Teresa Martin, agora Senhora Princesa dos reinos trazidos em dote pelo seu divino Esposo, a saber: a Infância de Jesus e sua Paixão, sendo seus títulos: do Menino Jesus e da Sagrada Face.
O senhor Louis Martin, Proprietário e Dono dos Senhorios do Sofrimento e da Humilhação, e a Senhora Martin, Princesa e Dama de Honra da Corte Celeste, querem vos anunciar o casamento de sua Filha, Teresa, com Jesus, o Verbo de Deus, segunda Pessoa da Adorável Trindade, que, por obra do Espírito Santo, se fez Homem e Filho de Maria, a Rainha dos Céus.


Não podendo ter-vos convidado para a bênção nupcial que lhe foi dada sobre a montanha do Carmelo, em 8 de Setembro de 189O (só a corte celeste foi admitida), estais convidados, porém, a participar da festa que será dada amanhã, Dia da Eternidade, Dia em que Jesus, Filho de Deus, virá sobre as nuvens do Céu no esplendor da sua Majestade, a fim de julgar os Vivos e os Mortos.


Devido à incerteza da hora, sois convidados a permanecer de prontidão e aguardar.

Agora, Madre querida, o que resta para vos dizer? Ah! pensava ter concluído, mas nada vos disse ainda da minha felicidade por ter conhecido nossa Santa Madre Genoveva... É uma graça sem preço essa; Deus, que me dera tantas graças, ainda quis que eu vivesse com uma santa, não inimitável, mas uma Santa santificada por virtudes ocultas e comuns... Mais de uma vez recebi dela grandes consolações, sobretudo num Domingo. Indo, como de costume, fazer-lhe uma pequena visita, encontrei duas irmãs com Madre Genoveva. Olhei sorrindo para ela e preparava-me para sair, por não podermos ficar três perto de uma doente, olhou-me com ar inspirado e me disse: "Aguardai, filhinha, vou dizer-vos apenas uma palavrinha. Cada vez que vindes, pedistes-me para vos dar um buquê espiritual, bem, hoje, vou dar-vos o seguinte: servi a Deus na paz e na alegria, lembrai-vos, boa filha, que nosso Deus é o Deus da Paz". Depois de simplesmente agradecer-lhe, saí emocionada até as lágrimas e, convicta de que Deus lhe revelara o fundo da minha alma, pois naquele dia eu estava extremamente provada, quase triste, numa noite tal que não sabia mais se eu era amada de Deus, mas a alegria e a consolação que sentia, as adivinhais, querida Madre!...

No domingo seguinte, quis saber que revelação Madre Genoveva tivera, assegurou-me não ter recebido nenhuma. Então, minha admiração foi ainda maior, vendo em que eminente grau Jesus vivia nela e a fazia agir e falar. Ah! essa santidade parece-me a mais verdadeira, a mais santa e é essa que eu desejo, pois nela não há ilusão ...

No dia da minha profissão, consolou-me saber dela que também passara pela mesma provação que eu antes de fazer seus votos... No momento das nossas grandes penas, recordai, Madre querida, as consolações que encontramos junto dela? Enfim, a lembrança de Madre Genoveva deixou em meu coração uma recordação perfumada... No dia da sua partida para o Céu, senti-me particularmente emocionada. Era a primeira vez que eu assistia a uma morte. Verdadeiramente, esse espectáculo era encantador... Fiquei ao pé da cama da santa moribunda, via perfeitamente seus mais leves movimentos. Pareceu-me, durante as duas horas que ali passei, que minha alma deveria ter sentido muito fervor. Pelo contrário, uma espécie de insensibilidade apoderara-se de mim. Mas no exacto momento do nascimento da nossa Santa Madre Genoveva no Céu, minha disposição interior mudou. Num piscar de olhos, senti-me repleta de uma alegria e de um fervor indizíveis, era como se Madre Genoveva me desse uma parte da felicidade que ela gozava, pois estou certa de que foi directamente para o Céu... Durante sua vida, disse a ela uma vez: "Oh -Madre! não passareis pelo purgatório!...'' "Também espero", respondeu-me com doçura... Ali! certamente Deus não ludibriou uma esperança tão cheia de humildade; todos os favores que recebemos são a prova... Cada irmã se apressou em pedir alguma relíquia; sabeis, querida Madre, a que tenho a felicidade de possuir... Durante a agonia de Madre Genoveva, vi uma lágrima brilhar na sua pálpebra, como um diamante, essa lágrima, a última de todas aquelas que derramou, não caiu, via-a brilhar ainda no coro, sem que ninguém pensasse em recolhê-la. Então, peguei um pequeno pano fino, atrevi-me em me aproximar, de noite, sem ser vista e para retirar uma relíquia, a última lágrima de uma Santa... Desde então, sempre a carrego no saquinho onde guardo meus votos.

Não dou importância aos meus sonhos, aliás, tenho poucos significativos e até me pergunto como é que, pensando em Deus o dia todo, não penso mais Nele durante meu sono... de costume, sonho com matas, flores, riachos, o mar e quase sempre vejo lindas criancinhas, pego borboletas e passarinhos tais como nunca vi. Estais vendo, Madre, que meus sonhos têm jeito poético, mas estão longe, de ser místicos...

Manuscrito "A" - Parte VI

Uma noite, após a morte de Madre Genoveva, tive um mais consolador. Sonhei que fazia seu testamento, dando a cada irmã uma coisa que lhe pertencera; quando chegou minha vez, pensava nada receber, pois não lhe sobrava nada, mas, erguendo-se, disse-me três vezes, num tom penetrante: "A vós, deixo meu coração".

Um mês depois da partida da nossa santa Madre, começou uma epidemia de gripe na comunidade. Só eu e mais duas irmãs ficamos de pé. Naquela época, eu estava sozinha para cuidar da sacristia, a primeira encarregada estava gravemente doente. Eu devia preparar os enterros, abrir as grades do coro durante as missas etc. Naquele momento, Deus me deu muitas graças de força; pergunto-me agora como pude fazer tudo o que fiz sem temor, a morte reinava em todo lugar, as mais doentes eram tratadas pelas que apenas conseguiam se arrastar. Logo que uma irmã soltava o último suspiro, éramos obrigadas a deixá-la sozinha. Numa manhã, ao me levantar, tive o pressentimento de que Irmã Madalena estava morta, o dormitório estava escuro, ninguém saía das celas. Por fim, decidi-me a entrar na de Irmã Madalena, cuja porta estava aberta; de fato, vendo-a vestida e deitada numa enxerga, não tive o menor medo. Vendo que ela não tinha vela, fui buscar uma e a coroa de rosas.

Na noite da morte da Madre Vice-Priora, eu estava sozinha com a enfermeira; é impossível imaginar o triste estado da comunidade naquele momento, só as que estavam de pé podem ter ideia, mas no meio daquele abandono sentia que Deus velava por nós. As moribundas passavam sem esforço para a eternidade. Logo depois da morte, uma expressão de alegria e de paz espalhava-se em seus traços, parecia um sono repousante. De facto o era, pois após o cenário deste mundo que passa acordarão para usufruir eternamente das delícias reservadas aos eleitos...

Durante todo o tempo em que a comunidade foi provada dessa forma, pude ter a inefável consolação de comungar todos os dias... Ah! como era bom!... Jesus me mimou muito tempo, mais tempo que suas fiéis esposas, pois permitiu que me fosse dado sem as outras terem a felicidade de recebê-Lo. Estava também muito feliz por poder tocar nos vasos sagrados, por preparar os paninhos destinados a receber Jesus. Sentia que precisava ser muito fervorosa e lembrava-me com frequência esta palavra dirigida a um santo diácono: "Sede santo, vós que levais os vasos do Senhor".

Não posso dizer que recebi frequentes consolações durante minhas ações de graças; talvez seja o momento em que tenho menos... Acho isso muito natural, pois ofereci-me a Jesus não como uma pessoa que deseja receber a visita Dele para a própria consolação mas, pelo contrário, para o prazer de Quem se dá a mim. Vejo minha alma como território livre e peço a Nossa Senhora que tire o entulho que poderia impedi-la de ser livre, depois suplico-lhe que erga uma ampla tenda digna do Céu, enfeite-a com seus próprios adornos e convido todos os santos e anjos para vir dar um concerto magnífico".

Quando Jesus desce ao meu coração, tenho a impressão de que Ele fica contente por ser tão bem recebido e eu também fico contente... Tudo isso não impede as distracções e o sono de vir visitar-me. Mas ao terminar a acção de graças, vendo que a fiz tão mal, tomo a resolução de passar o resto do dia em ação de graças... Estais vendo, Madre querida, que estou muito longe de ser levada pelo temor, sempre encontro o meio de ser feliz e tirar proveito das minhas misérias... Sem dúvida, isso não desagrada a Jesus, pois parece encorajar-me nessa via. Um dia, contrariamente a meu hábito, estava um pouco perturbada ao ir comungar, tinha impressão de que Deus não estava contente comigo e pensava: "Ah! se hoje eu receber só metade de uma hóstia, vou ficar muito aflita, vou crer que Jesus vem forçado ao meu coração". Aproximo-me... oh felicidade! pela primeira vez na minha vida, vejo o padre pegar duas hóstias, bem separadas, e dá-Ias a mim!... Compreendeis minha alegria e as doces lágrimas que derramei vendo tão grande misericórdia...

No ano seguinte à minha profissão, isto é, dois meses antes da morte de Madre Genoveva, recebi grandes graças durante o retiro.

Ordinariamente, os retiros pregados são-me mais dolorosos que os que faço sozinha, mas naquele ano foi diferente. Tinha feito uma novena preparatória com muito fervor, apesar do sentimento íntimo que me animava, pois tinha a impressão de que o pregador não saberia compreender-me, por ser destinado sobretudo aos grandes pecadores, mas não às almas religiosas. Querendo Deus mostrar-me que só Ele era o director da minha alma, serviu-se justamente desse padre que não foi apreciado por mim... Tinha então grandes provações interiores de diversos tipos (até me perguntar, às vezes, se o Céu existe). Sentia-me disposta a nada dizer sobre minhas disposições interiores, não sabendo como expressá-las; logo que entrei no confessionário, senti a minha alma dilatar-se. Depois de falar poucas palavras, fui compreendida de modo maravilhoso e até adivinhada... minha alma parecia um livro no qual o padre lia melhor do que eu mesma... Lançou-me de velas desfraldadas nas ondas da confiança e do amor que me atraíam com muita força, mas nas quais não ousava avançar... Disse-me que minhas faltas não entristeciam a Deus, que, estando no lugar Dele, me dizia em nome Dele que estava muito satisfeito comigo...

(cont.)




08/11/2014

Temos de meditar na vida de Jesus

Esses minutos diários de leitura do Novo Testamento que te aconselhei (metendo-te e participando no conteúdo de cada cena, como um protagonista mais) são para que encarnes, para que "cumpras" o Evangelho na tua vida... e para "fazê-lo cumprir". (Sulco, 672)

Para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os actos do Senhor. (Cristo que passa, 107)


Temas para meditar - 265



Oração

A doçura que alguns experimentam na oração, é leite que Nosso Senhor dá como condimento àqueles que estão a começar a servi-lo. 





(SÃO Filipe de NeriMáximas, F.W.Faber, Cromwell Press SN12 8PH, nr. 4-21, trd ama)

Tratado do verbo encarnado 23

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 6 — Se duas Pessoas divinas poderiam assumir uma natureza numericamente a mesma.

O sexto discute-se assim. — Parece que duas Pessoas divinas não poderiam assumir uma natureza numericamente a mesma.

1 — Pois, isso suposto, ou seriam um só homem ou vários. Ora, vários não, pois, assim como uma mesma natureza divina em várias Pessoas não poderia constituir vários deuses, assim uma mesma natureza humana em várias pessoas não poderia constituir vários homens. Também e semelhantemente, não poderiam ser um só homem, pois, um homem o é determinadamente, que revela uma certa pessoa, e então desapareceria a distinção das três Pessoas, o que é inadmissível. Logo, nem duas nem três pessoas podem receber uma mesma natureza humana.

2. Demais. — Assunção perfaz-se na unidade da Pessoa, como se disse. Ora, a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo não é uma só. Logo, três Pessoas não podem assumir uma mesma natureza humana,

Demais — Damasceno e Agostinho dizem, que a Encarnação do Filho de Deus resulta que tudo o predicado do Filho de Deus o é também do Filho do Homem, e vice-versa. Se, pois, as três Pessoas assumissem uma mesma natureza humana, resultaria que tudo o predicado de qualquer das três Pessoas, sê-lo-ia também desse homem, e inversamente, tudo o predicado desse homem poderia sê-lo de qualquer das três Pessoas. Donde, o gerar o Filho abeterno, que é próprio do Pai, seria predicado desse homem e, por consequência, do Filho de Deus, o que e inadmissível. Logo, não é possível, que três Pessoas divinas assumam uma mesma natureza humana.

Mas, em contrário, a pessoa encarnada subsiste em duas naturezas, a saber, a divina e a humana. Ora, três Pessoas podem subsistir numa mesma natureza divina. Logo, também o podem numa mesma natureza humana de modo que seria uma mesma natureza humana a assumida pelas três Pessoas.

Como dissemos da união da alma e do corpo, em Cristo, não resulta uma nova pessoa nem hipóstase, mas, uma mesma natureza assumida na Pessoa ou hipóstase divina. O que, naturalmente, não se faz pelo poder da natureza humana, mas pelo da Pessoa divina. Ora, a condição das divinas Pessoas é tal que uma delas não exclui as outras da comunhão da mesma natureza, mas foi da comunhão da mesma Pessoa. Mas, como no mistério da Encarnação a razão total do feito é o poder de quem o faz, como diz Agostinho, devemos, nesta matéria, julgar, antes, segundo a condição da divina Pessoa assumente, que segundo a da natureza humana assumida. Assim, pois, não é impossível que duas ou três das divinas Pessoas assumam uma mesma natureza humana. Mas seria impossível assumirem uma hipótese ou uma pessoa humana, assim, como diz Anselmo, várias Pessoas não poderiam assumir um mesmo homem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Admitido que três Pessoas assumissem uma mesma natureza humana, seria verdadeiro dizer que três Pessoas constituiriam um mesmo homem, por causa da natureza humana una, assim como, na realidade, é verdadeiro dizer que são um só Deus, por causa da única natureza divina. Nem o vocábulo — um — implica unidade de pessoa, mas unidade na natureza humana. Pois, não se poderia arguir, do facto de constituírem três Pessoas um só homem, que o seriam absolutamente falando, pois, nada impede dizer-se que homens, vários absolutamente falando, sejam um só, de certo modo, por exemplo, um só povo. Assim, diz Agostinho: É diverso por natureza o espírito de Deus, do espírito do homem, mas, unindo-se, formam um só espírito, segundo o Apóstolo. O que está unido a Deus é um mesmo espírito com ele.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Admitida essa posição, a natureza humana seria assumida na unidade, não de uma só Pessoa, mas na de cada uma delas, de modo que, assim como a natureza divina tem uma unidade natural com cada uma das Pessoas, assim, a natureza humana teria unidade com cada uma delas, pela assunção.

RESPOSTA À TERCEIRA. — No tocante ao mistério da Encarnação, há comunicação das propriedades pertinentes à natureza, pois, tudo o conveniente à natureza pode ser predicado da pessoa subsistente nessa natureza, seja qual for a natureza donde se tira o nome designativo da Pessoa. Por onde, aceite essa posição, da Pessoa do Pai pode ser predicado o que é próprio tanto à natureza humana como à divina, e semelhantemente, da Pessoa do Filho e da do Espírito Santo. Mas, o conveniente à Pessoa do Pai, em razão da própria Pessoa, não poderia atribuir-se à Pessoa do Filho ou à do Espírito Santo, por causa da distinção das Pessoas, que permaneceria. Poderia, pois, dizer-se que, assim como o Pai é ingénito, assim o seria o homem, tomando-se a palavra homem pela Pessoa do Pai. Mas quem continuasse dizendo: O homem é ingénito, ora, o Filho é homem, logo, é ingénito, cometeria o sofisma de figura de dicção ou de acidente. Assim como na realidade dizemos que Deus é ingénito, porque o Pai o é, mas daí não podemos concluir que o Filho seja ingénito, embora o Pai o seja.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 16 9-15

9 «Portanto, Eu vos digo: Fazei amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a precisar, vos recebam nos tabernáculos eternos. 10 Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. 11 Se, pois, não fostes fiéis nas riquezas iníquas, quem vos confiará as verdadeiras?  12 E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? 13 Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou odiará um e amará o outro, ou se afeiçoará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro». 14 Ora os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam todas estas coisas e troçavam d'Ele. 15 Jesus disse-lhes: «Vós sois aqueles que pretendeis passar por justos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; o que é excelente segundo os homens é abominação diante de Deus.

Comentário

Ser igual em quaisquer circunstâncias é uma virtude fundamental para ser verdadeiro. A verdade não se coaduna com a ligeireza de carácter do que muda com o vento ou os acontecimentos.
Por isso mesmo não se pode seguir ou gostar de algo ou alguém de cariz diferente. A opinião bem fundamentada, o comportamento subsequente só podem - e devem - mudar quando se demonstra que estávamos errados.

(ama, comentário sobre Lc 16, 9-15, 2012.11.10)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/5

Nossa mestra era uma verdadeira santa, o tipo acabado das primeiras carmelitas. Eu ficava com ela o dia todo, pois ensinava-me a trabalhar. Sua bondade para comigo era sem limites e, todavia, minha alma não se dilatava... Só com esforço eu conseguia fazer direcção espiritual, não estando habituada a falar da minha alma não sabia expressar o que se passava. Uma boa velha madre compreendeu o que ocorria comigo e disse-me, rindo, num recreio: "Filhinha, creio que não tendes muita coisa a dizer às vossas superioras". "Por que, Madre, dizeis isso?..." "Porque a vossa alma é extremamente simples", mas quando estiverdes perfeita sereis ainda mais simples, mais nos aproximamos de Deus, mais simples ficamos". A boa Madre estava com a razão, porém, a dificuldade que sentia para abrir a minha alma, embora viesse da minha simplicidade, era uma verdadeira provação. Reconheço-o agora, pois, sem deixar de ser simples, exprimo meus pensamentos com muito maior facilidade.

Disse que Jesus fora "meu Diretor". Ao ingressar no Carmelo, conheci aquele que devia servir-me de director, mas apenas me admitira como sua filha partiu para o exílio... Portanto, só o conheci para ficar privada dele... Reduzida a receber dele uma carta anual pelas doze que lhe escrevia, meu coração dirigiu-se logo para o director dos directores e foi Ele quem me instruiu dessa ciência que esconde dos sábios e dos pedantes e revela aos menores...

A florzinha transplantada sobre a montanha do Carmelo ia desabrochar à sombra da Cruz; as lágrimas, o sangue de Jesus foram seu orvalho. Seu sol foi a Face Adorável coberta de lágrimas... Até então, não tinha imaginado a imensidade dos tesouros escondidos na Sagrada Face. Foi por vosso intermédio, querida Madre, que aprendi a conhecê-los, assim como, em outro momento, precedeu a todas nós no Carmelo, da mesma forma sondastes primeiro os mistérios de amor escondidos no Rosto do nosso Esposo. Chamastes-me então e compreendi... Compreendi em que consiste a verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo ensinou-me que a verdadeira sabedoria consiste em "querer ser ignorado e tido por nada, em colocar sua alegria no desprezo de si mesmo..." Ah! como o de Jesus, queria que: "Meu rosto fosse verdadeiramente escondido, que ninguém me reconhecesse nesta terra". Tinha sede de sofrer e ser esquecida...

Como é misteriosa a via pela qual Deus sempre me conduziu, nunca me fez desejar alguma coisa sem dá-lo a mim, por isso seu amargo cálice me pareceu delicioso...

Depois das lindas festas de Maio, da profissão e tomada do véu da nossa querida Maria, a mais velha da família que a mais jovem teve a felicidade de coroar no dia das suas bodas, era necessário que a provação viesse nos visitar... No ano anterior, no mês de Maio, papai fora vítima de um ataque de paralisia nas pernas; a nossa inquietação foi grande então, mas o temperamento forte do meu Rei querido superou logo o mal, e nossos temores sumiram. Porém, mais de uma vez durante a viagem a Roma, reparamos que ele se cansava facilmente, que não estava tão alegre quanto de costume... O que eu mais reparei eram os progressos que ele fazia rio aperfeiçoamento; a exemplo de são Francisco de Sales, chegara a dominar a própria vivacidade natural até parecer possuir a mais doce natureza do mundo... As coisas da terra pareciam tocá-lo de leve apenas, vencia facilmente as contrariedades desta vida, enfim, Deus o inundava de consolações. Durante suas visitas diárias ao Santíssimo, seus olhos enchiam-se frequentemente de lágrimas e seu rosto deixava transparecer uma felicidade celeste... Quando Leónia saiu da Visitação, não se perturbou, não reclamou junto a Deus por não ter atendido às orações que tinha feito para obter a vocação da querida filha. Foi até com certa alegria que foi buscá-la...

Eis a fé com que papai aceitou a separação da sua rainhazinha; anunciou a seus amigos de Alençon: "Caros Amigos, Teresa, minha rainhazinha, ingressou ontem no Carmelo!... Só Deus para exigir tal sacrifício... Não lastimeis por mim, pois meu coração exulta de alegria".

Chegara o momento de um tão bom e fiel servo receber o prémio das suas obras, era justo que seu salário se assemelhasse ao que Deus dera ao Rei do Céu, seu Filho único... Papai acabava de oferecer um Altar a Deus e foi ele a vítima escolhida para ser imolada com o Cordeiro imaculado. Conheceis, Madre querida, nossas amarguras de junho e, sobretudo, do 24 do ano de 1888, essas lembranças estão tão bem gravadas no fundo dos nossos corações que não é necessário escrevê-las... Oh, Madre! quanto sofremos!... e ainda era apenas o começo da nossa provação... Todavia, o tempo da minha tomada do hábito havia chegado; fui recebida pelo Capítulo, mas como pensar numa cerimónia? Já se falava de me dar o santo hábito sem fazer-me sair, quando se decidiu esperar. Contra qualquer esperança, nosso pai querido restabeleceu-se uma segunda vez e Sua Excelência marcou a cerimónia para 10 de Janeiro. A espera havia sido longa, mas que bela festa!... Nada faltava, nada, nem a neve... Não sei se já vos falei do meu amor pela neve... Quando pequenina, sua brancura me encantava; um dos meus maiores prazeres consistia em andar sob os flocos de neve caindo. De onde me vinha esse gosto pela neve?... Talvez por ser uma florzinha de inverno, o primeiro adorno da natureza que meus olhos de criança viram tenha sido seu manto branco... Enfim, sempre sonhara com que no dia da minha tomada de hábito a natureza se vestisse como eu, de branco. Na véspera desse belo dia, olhava tristemente o céu cinzento de onde caía de tempo em tempo um chuva fina, e a temperatura era tão alta que não esperava neve. Na manhã seguinte, o céu não havia mudado, mas a festa foi encantadora e a flor mais bela, a mais encantadora, era meu Rei querido, nunca estivera tão bonito, mais digno... Foi admirado por todos. Esse dia foi seu triunfo, sua última festa na terra. Havia dado todas as suas filhas a Deus, pois quando Celina lhe comunicou sua vocação chorou de alegria e foi com ela agradecer Àquele que "lhe dava a honra de tomar todas as suas filhas".

No final da cerimônia, Sua Excelência entoou o Te Deum. Um sacerdote tentou lembrar-lhe que esse cântico só se canta nas profissões, mas a partida fora dada e o hino de ação de graças prosseguiu até o final. Não devia a festa ser completa, pois reunia todas as outras?... Depois de ter beijado urna última vez meu Rei querido, voltei para a clausura. A primeira coisa que vi foi "meu pequeno Jesus cor-de-rosa" sorrindo-me no meio das flores e das luzes e logo vi os flocos de neve... o pátio estava branco como eu. Que delicadeza de Jesus! Antecipando-se aos desejos da sua noiva, mandava-lhe neve... Neve! que mortal, por mais poderoso que seja, é capaz de fazer cair neve do céu para encantar sua amada?... Talvez as pessoas do mundo se perguntem isso, mas o certo é que a neve da minha tomada de hábito pareceu ser um pequeno milagre e toda a cidade ficou surpresa. Achou-se que eu tinha um gosto esquisito, gostar da neve... Tanto melhor, isso acentuou ainda mais a incompreensível condescendência do Esposo das virgens... Daquele que gosta dos Lírios brancos como a NEVE!... Sua Excelência entrou depois da cerimônia, e foi de uma bondade muito paterna para comigo. Creio que ele estava satisfeito em ver que eu tinha conseguido; dizia a todos que eu era "sua filhinha". Todas as vezes que voltou, depois, foi sempre muito bom comigo; recordo-me especialmente de sua visita por ocasião do centenário de N. P. são João da Cruz. Pegou minha cabeça em suas mãos, fez-me mil carícias de todas as espécies, nunca eu tinha sido tão honrada! Entretanto, Deus fazia-me pensar nas carícias que me prodigalizará diante dos anjos e dos santos e das quais me dava uma fraca imagem desde então; por isso, a consolação que senti foi muito grande.

Como acabo de dizer, 10 de Janeiro foi o triunfo para meu Rei. Comparo esse dia ao da entrada de Jesus em Jerusalém no dia dos Ramos. Como a do Nosso Divino Mestre, a glória dele foi de um dia e seguida por uma paixão dolorosa. Mas essa paixão não foi só dele; assim como as dores de Jesus traspassaram como um punhal o coração da sua divina Mãe, também os nossos corações sentiram os sofrimentos daquele a quem queríamos com a maior ternura nesta terra... Recordo que no mês de Junho de 1888, quando das primeiras provações, eu dizia: "Sofro muito, mas sinto que posso suportar provações ainda maiores". Não pensava então naquelas que me estavam reservadas... Não sabia que em 12 de Fevereiro, um mês depois da minha tomada de hábito, nosso Pai querido beberia na mais amarga e mais humilhante de todas as taças...

Ah! naquele dia eu não disse que podia sofrer ainda mais!!!... As palavras não conseguem expressar nossas angústias, por isso não vou procurar descrevê-las. Um dia, no Céu, gostaremos de nos recordar das nossas gloriosas provações. Não estamos felizes, no presente momento, por tê-las sofrido?... Sim, os três anos do martírio de Papai pareceram-me os mais amáveis, os mais rendosos de toda a nossa vida, não os doaria em troca de todos os êxtases e revelações dos santos. Meu coração transborda de gratidão ao pensar nesse tesouro inestimável que deve causar santa inveja aos anjos da Corte celeste...

Meu desejo de sofrimento estava repleto, mas minha atração por ele não diminuía, por isso minha alma compartilhou logo do sofrimento do meu coração. A aridez passou a ser meu pão de cada dia; privada de qualquer consolação, não deixava de ser a mais feliz das criaturas, sendo que todos os meus desejos estavam satisfeitos...

Oh, Madre querida! como foi doce a nossa grande provação, sendo que do coração de todas nós só saíram suspiros de amor e de gratidão!... Não mais andávamos nas sendas da perfeição, voávamos, as cinco. As duas pobres pequenas exiladas de Caen, embora estivessem ainda no mundo, não eram mais do mundo... Ah! que maravilhas a provação operou na alma da minha Celina querida!... Todas as cartas que escreveu na época têm o selo da resignação e do amor... E quem poderia relatar as conversações que tínhamos?... Ah! longe de nos separar, as grades do Carmelo uniam mais fortemente nossas almas, tínhamos os mesmos pensamentos, os mesmos desejos, o mesmo amor de Jesus e das almas... Quando Celina e Teresa falavam uma com a outra, nunca uma palavra das coisas da terra entrava na conversação, que já era do Céu. Como outrora no mirante, elas sonhavam com as coisas da eternidade, e para gozar logo dessa felicidade sem fim escolhiam, na terra, por única partilha "o sofrimento e o desprezo".

Assim decorreu o tempo do meu noivado... foi muito demorado para a pobre Teresinha! No final do meu ano, nossa Madre disse-me para não sonhar com a profissão, que certamente o padre superior recusaria meu pedido. Fui obrigada a esperar mais oito meses... Naquele momento, foi-me muito difícil aceitar esse grande sacrifício, mas logo fez-se luz em minha alma. Meditava então "os fundamentos da vida espiritual" do padre Surin. Um dia, durante a oração, compreendi que meu tão vivo desejo de fazer profissão estava mesclado de um grande amor-próprio; sendo que me dera a Jesus para agradar a Ele, consolá-lo, não devia obrigá-lo a fazer minha vontade de preferência à Dele, compreendi também que uma noiva devia estar preparada para o dia do enlace, e eu nada tinha feito para isso... disse então a Jesus: "Oh, meu Deus! não peço para fazer os santos votos, esperarei o tempo que Vós quiserdes, só não quero que, por culpa minha, nossa união seja adiada, mas vou fazer o maior esforço para confeccionar para mim um vestido bonito, enriquecido de pedras. Quando Vós o achardes bastante bonito, estou certa de que nenhuma criatura Vos impedirá de descerdes a mim, a fim de me unir para sempre a Vós, ó meu amado!..."

Desde minha tomada de hábito, eu recebera luz abundante a respeito da perfeição religiosa, principalmente do voto de pobreza. Durante meu postulado, gostava de possuir coisas boas para meu uso e de encontrar à mão tudo o que me era necessário. "Meu Director" tolerava isso com paciência, pois Ele não gosta de revelar tudo ao mesmo tempo às almas. Geralmente, dá sua luz pouco a pouco. No início da minha vida espiritual, pelos 13 ou 14 anos, perguntava a mim mesma o que eu aprenderia mais tarde, pois parecia-me impossível entender melhor a perfeição. Não demorei em compreender que mais se avança nesse caminho, mais se acredita estar afastado da meta; agora, resigno-me em ser sempre imperfeita e fico contente... . Volto às lições que "meu Director" me deu. Uma noite, depois das Completas, procurei em vão nossa lampazinha sobre as tábuas reservadas para esse uso, era silêncio total, impossível perguntar... entendi que uma irmã, acreditando ter pegado sua lâmpada, pegou a nossa, da qual eu estava muito necessitada; em vez de desgostar-me, fiquei feliz, sentindo que a pobreza consiste em se ver privado não só das coisas agradáveis, mas ainda das indispensáveis. Portanto, no meio das trevas exteriores, fui iluminada interiormente... Naquela época, empolguei-me pelos mais feios e mais desajeitados objectos e foi com alegria que vi terem tirado a moringa bonitinha da nossa cela, substituindo-a por uma grande toda desbicada... Fazia também muitos esforços para não me desculpar, sobretudo com a nossa Mestra, a quem não queria ocultar coisa alguma; eis minha primeira vitória. Não é grande, mas custou-me muito. Um pequeno vaso colocado atrás de uma janela foi encontrado quebrado. Pensando que fosse eu quem o largara ali, mostrou-o para mim dizendo que eu deveria ter mais cuidado. Sem dizer uma só palavra, beijei a terra e prometi ter mais ordem no futuro. Devido à minha falta de virtude, essas pequenas práticas custavam-me muito e precisava pensar que, no juízo final, tudo seria conhecido, pois pensava: quando se cumpre com sua obrigação, sem se desculpar nunca, ninguém toma conhecimento; pelo contrário, as imperfeições aparecem logo...

Cultivava sobretudo a prática das pequenas virtudes, não tendo facilidade para praticar as grandes; gostava de dobrar os mantos esquecidos pelas irmãs e prestar-lhes todos os pequenos serviços que podia.

Foi-me dado também o amor pela mortificação, foi grande na medida em que nada me era permitido para satisfazê-lo... A única pequena mortificação que eu fazia no mundo, a de não me encostar quando sentada, foi-me proibida devido à minha tendência a ficar curvada. Aliás, meu entusiasmo não teria durado muito se me fosse permitido praticar muitas mortificações... Aquelas que me eram concedidas, sem eu pedir, tinham por finalidade mortificar meu amor-próprio, o que me causava um bem maior do que as penitências corporais...

O refeitório onde fui prestar serviço logo após minha tomada de hábito propiciou-me diversas ocasiões para colocar meu amor-próprio no seu devido lugar, debaixo dos pés... Verdade é que tinha a grande consolação de estar no mesmo serviço que vós, Madre querida, de poder contemplar de perto vossas virtudes; mas essa aproximação era motivo de sofrimento, não me sentia como outrora, livre para vos dizer tudo; tinha de observar a regra, não podia abrir para vós a minha alma, enfim, estava no Carmelo e não nos Buissonnets, no lar paterno!...

Porém, Nossa Senhora ajudava-me a preparar o vestido da minha alma. Logo que foi terminado, os obstáculos sumiram. Sua Excelência expediu-me a permissão solicitada, a comunidade aceitou receber-me, e minha profissão foi marcada para 8 de Setembro...

O que acabo de escrever em resumo precisaria de muitas páginas para os pormenores, mas essas páginas nunca serão lidas na terra. Em breve, querida Madre, falar-vos-ei de todas essas coisas em nossa casa paterna, no belo Céu para o qual sobem os suspiros dos nossos corações!...

Meu vestido de noiva estava pronto; mesmo enriquecido com as antigas jóias que meu Noivo me havia dado, ainda não era suficiente para sua generosidade. Queria dar-me um novo brilhante de inúmeros reflexos. A provação de Papai, com todas as circunstâncias que a cercaram, constituía as antigas joias, a nova foi uma provação aparentemente muito pequena, mas que me fez sofrer muito. Desde algum tempo, nosso pobre paizinho estava melhor, faziam-no sair de carro, cogitava-se até fazê-lo viajar de trem para vir nos visitar.

(cont.)