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25/03/2023

Publicações em Março 25

 



DENTRO DO EVANGELHO

 

(Re Lc X)

 

O Estalajadeiro.

 

Talvez possa parecer estranho ter escolhido este “papel” que, obviamente, parece não ser “central” na parábola. Mas, eu, que nada sei nem de parábolas nem de personagens, muito menos me sinto capaz de lhes atribuir mérito ou demérito, o grau de importância que possam ter, apaixono-me por este.

Imagino-me à porta do meu estabelecimento onde recebo hóspedes, normalmente viajantes que percorrem os caminhos poeirentos e agrestes da Palestina e que procuram um lugar onde tomar uma refeição, descansar um pouco ou passar a noite com um mínimo de conforto.

Estando ali, no meu posto de trabalho, deparo-me com uma cena estranha: Um homem que se aproxima a pé, conduzindo a sua cavalgadura pela arreata e, mal se mantendo direito em cima desta, um outro homem com os vestidos em farrapos, cheio de feridas vendadas com panos embebidos em azeite e vinho num estado lastimoso.

Apresso-me a ir ao seu encontro e tenho logo uma primeira reacção de enorme dúvida: quem conduz o ferido é um Samaritano!

O que faz um Samaritano dirigir-se ao meu estabelecimento?

Sim, eu, que sou judeu, não “morro de amores” pelos samaritanos que, aliás, me pagam na mesma moeda.

Um antagonismo ancestral – que ninguém sabe exactamente quando começou e porquê – divide os filhos de Israel: Samaritanos e Judeus.

Mas, surpreendentemente, o Samaritano aproxima-se de mim e diz-me: ‘Encontrei este teu irmão estendido na vera do caminho porque «caiu nas mãos dos ladrões, que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto». Tentei prestar-lhe o auxílio possível ligando-lhe «as feridas, deitando nelas azeite e vinho», mas não podia deixá-lo ali naquele estado por isso pu-lo sobre o meu jumento e trouxe-o até esta estalagem para melhor cuidar dele. Ajuda-me a levá-lo para dentro e encontra uma acomodação confortável onde o possamos fazer’.

Fiquei atónito, sem palavras e levei algum tempo a reagir, mas, como que por encanto desvaneceram-se as minhas dúvidas e pruridos e ajudei a transportar o ferido para a melhor habitação de que dispunha.

Deitámos o homem numa cama, despimos-lhe os farrapos, arranjei uma túnica lavada que lhe vestimos e, enquanto o Samaritano observava de novo as feridas renovando as ligaduras e unguentos fui à cozinha buscar um caldo de sopa que a custo conseguiu engolir. Tendo caído num sono profundo, deixámo-lo a descansar e retiramo-nos; o samaritano para uma acomodação na parte superior da casa, eu para o meu posto à entrada da estalagem.

A noite ia adiantada e como não era de prever aparecessem novos hóspedes, também fui deitar-me. Mas não conseguia conciliar o sono pensando em tudo quanto acontecera e algo apreensivo quanto ao dia seguinte.

Logo pela manhã o samaritano preparou-se para seguir viagem, mas, antes que eu pudesse perguntar o que fosse, abriu a sua bolsa, «tirou dois denários, e deu-mos dizendo: Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar».

Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha reacção! Nem por um momento me ocorreu que o Samaritano não faria exactamente como me disse e que não ficaria por receber o que viesse a gastar com o pobre coitado agora a meu cargo.

Sim, eu que sou judeu e tenho um negócio, não posso dar-me ao luxo de receber hóspedes sem ter a certeza que serei ressarcido das despesas de estadia tanto mais que estas seriam bastante fora do “normal”: os tratamentos, ligaduras, unguentos e outros cuidados que seriam necessários. Volto a repetir: Ainda hoje, passado tanto tempo, me admiro com a minha atitude!

Pela noitinha, o doente estava visivelmente melhor e começou por perguntar-me como tinha ido ali parar, o que acontecera…

Contei-lhe tudo, claro, e o seu espanto foi tão grande como tinha sido o meu no dia anterior quando o estranho “cortejo” aparecera à minha porta.

Não se lembrava de nada, tão súbita e violenta tinha sido a acção dos salteadores, nem sequer quanto tempo estivera prostrado por terra. Mas achava estranho que ninguém o tivesse visto naquela situação, já que o caminho onde tudo acontecera era muito concorrido.

Eu também – pensando melhor – achei estranho, mas como estou habituado à indiferença das pessoas perante as necessidades dos outros não me custava acreditar que alguns o terão visto e ao dar-se conta da situação tivessem optado por seguir adiante livrando-se de “trabalhos” e incómodos. De facto, há tanta gente que vai pelos caminhos da vida tão cheios de si próprios, absorvidos com os seus assuntos que olhando não vêm e, se acaso vêm, ficam indiferentes ao que, pensam, não lhes diz respeito.

Tomei uma decisão: A partir de agora a porta da minha estalagem estará sempre aberta a quem tiver necessidade de entrar, não a fecharei a ninguém por motivos de raça, cor da pele ou religião e independentemente de possuírem meios ou recursos para cobrir as despesas que porventura façam.

Esta decisão consola-me muito porque penso que, um dia, pode acontecer-me o mesmo que ao pobre homem assaltado e espancado pelos salteadores e, então precisarei de alguém – um Samaritano… talvez – que se condoa de mim e me preste assistência.

 

30/12/2022

Dentro do Evangelho

       



      Nicodemos

 

Sou servo de um membro do Sinédrio chamado Nicodemos e tenho-me dado conta que alguns dos meus colegas trocam conciliábulos entre si a propósito de um judeu que ultimamente tem provocado controvérsia um pouco por todo o lado.

O nome desse homem, natural de Belém na Judeia é Jesus.

De tal forma essa controvérsia foi crescendo que o Sinédrio tomou uma posição "oficial" sobre o assunto que, em suma, era: esse Jesus não era pessoa credível, desrespeitava a Lei, nomeadamente o Sábado, ensinava sem que tivesse autoridade para tal.

Juntamente havia notícias de actos extraordinários como curas de doentes que não passariam de "passes de magia" e muitas outras coisas condenáveis tal como dar-se com pecadores conhecidos e meretrizes.

Por isso mesmo o Sinédrio declarou esse Jesus como réprobo inaceitável.

Como Nicodemos me tratava muito bem e bastantes vezes conversava comigo, atrevi-me a falar-lhe sobre o assunto.

Depois de me ouvir disse-me que de facto se lhe levantavam numerosas dúvidas a respeito e por isso agendara um encontro com esse Jesus, encontro que desejava discreto e em segredo.

Convidou-me para o acompanhar.

No seguimento do convite feito acompanhei Nicodemos no seu encontro com Jesus; era de noite, de alguma forma o meu Amo queria que nada constasse.

Recomendou-me que visse o que visse ouvisse o que ouvisse mantivesse silêncio. (Como se preciso fora tal recomendação).

Na dobra de um caminho Jesus, sozinho,estava sentado num tronco caído à nossa espera.

Sem detença perguntou a Nicodemos o que queria.

O meu amo falou durante algum tempo sobretudo fazendo perguntas.

Quando acabou Jesus disse-lhe algo surpreendente "És Mestre em Israel e não sabes essas coisas"?

Nicodemos era um homem sério e correcto e por isso respondeu que se tinha inteirado dos ensinamentos que Jesus espalhava por toda a parte, que lhe pareciam justos e conforme a Lei, mas que havia algumas coisas que não entendia, principalmente «para entrar no Reino dos Céu é preciso nascer de novo», como é possível, dizia «a um homem sendo velho nascer de novo? Acaso pode reentrar no ventre da sua mãe?!»

Jesus, então explicou-lhe que é não é na carne mas no espírito que o homem que deseja alcançar o Reino do Céu tem de renascer. Voltar atrás, emendar o comportamento, perdoar as ofensas, amar a todos, mesmo os inimigos, considerar todos como seus iguais, como seus irmãos.

Passado mais algum tempo, perguntas e respostas, afastamo-nos.

No regresso o meu amo confessou-me com um suspiro do fundo do coração: 'Este caminho para o Reino dos Céus não é fácil de seguir mas, eu, estou disposto a tentar e a tudo fazer para que outros me sigam. Vejo claramente que só assim é possível alcançar a Felicidade Eterna’.

 

Reflectindo

 

A cama 28 da enfermaria do hospital onde passei a última semana estava ocupada por um homem de idade indefinida, mas, talvez, rondando os setenta anos. Um sujeito com aspecto rude, fechado num mutismo feroz, que comia com sofreguidão as refeições que lhe serviam até à última migalha.

No terceiro dia depois da minha cirurgia, ao fim tarde, um enfermeiro abeirou-se da sua cama e comunicou-lhe:

‘Amanhã, você, vai-se embora. Teve alta. Percebeu?’

O homem teve uma reacção extraordinária: disse apenas:

Estou fodido!

Fiquei a pensar naquilo até porque, pela noite fora o homem ia repetindo sem cessar:

Estou fodido?

Esta expressão era proferida com tal convicção que percebi que realmente vinha do fundo do seu íntimo mais recôndito como se o facto de ter “alta” no dia seguinte fosse uma catástrofe, algo terrível e sem remédio.

Na manhã seguinte, depois deter saído sem dar palavra a nenhum dos companheiros de enfermaria, chamei um enfermeiro e perguntei o que se passava.

Contou-me que o sujeito estava ali já há vinte dias tendo chegado num estado lastimoso e grave, tendo sido sujeito a uma cirurgia urgente à próstata e que se encontrava bem. Há muito que deveria ter tido “alta” mas tinham conseguido mantê-lo ali por mais umas semanas porque se tratava de um pobre homem, sem recursos, morando sozinho num casebre sem um mínimo de condições e que tinha sido trazido para o hospital por um amigo – miserável como ele – num triciclo destes com uma caixa aberta.

A Segurança Social tinha sido alertada e, só agora, parece, iriam acompanhar a situação.

Fiquei envergonhado, senti-me rasteiro e tão “pouca coisa”!

Transportado na caixa de um triciclo!

Lembrei-me daquele outro que os companheiros desceram por um buraco aberto no telhado e colocaram aos pés de Jesus;

Da minha casa confortável onde nada me falta;

Das minhas Filhas, os meus Netos, os meus amigos que me telefonam, fazem companhia, se interessam por mim;

Do meu automóvel que me leva onde eu quero com conforto e segurança; E senti-me ainda mais rasteiro e “tão pouca coisa”, porque aquele homem era – é – um filho de Deus como eu só que mais genuíno, sincero, sem sonhos nem ambições e estava dramaticamente fodido, porque iam acabar a cama confortável do hospital, a assistência da enfermagem, as refeições quentes.

Para ele, aquele “grito da alma”: ‘estou fodido’, significava o fim de um sonho, de um intervalo de um mês na sua vida miserável, um grito que significava: acabou-se!

Esta história – verdadeira, repito – termina com a chegada, umas horas mais tarde, do tal amigo que o vinha buscar ao hospital no triciclo e que quando lhe disseram que o outro já se tinha ido embora saiu a correr para tentar encontra-lo. O triciclo estava à porta do hospital para os levar de volta para a vida real, concreta, que ambos conheciam bem.

O amigo não falhara, não faltara ao seu amigo!

Aquela palavra – que talvez nos choque porque somos bem-educados, correctos, impecáveis – tem um peso de toneladas de miséria e uma dimensão de hectares de cicatrizes, marcas e sinais de uma vida difícil, sempre no limite da sobrevivência.

Não… nós não a utilizamos porque preferimos lamentar-nos porque nos falta qualquer coisa, ou não recebemos aquele telefonema, ou pura e simplesmente estamos fartos, cansados, impacientes com a “maçada” da cirurgia, do hospital, da recuperação que deveria ser instantânea, imediata, sem dores nem incómodos.

Passado algum tempo, senti-me melhor porque me atrevi a pensar que, pelo menos uma vez na sua vida, aquele homem da cama 28, tivera alguém que rezou por ele e deu graças por lhe ter dado a oportunidade de reconhecer o OUTRO, o IRMÂO, o PRÓXIMO.

 

  

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20/12/2022

Publicações em Dezembro 20

  


DENTRO DO EVANGELHO

 

Ao reler o final do Versículo 52 do Capítulo VI do Evangelho escrito por São Lucas fico abismado... os Doze não tinham entendido o milagre portentoso operado por Jesus... a multiplicação dos pães e peixes!?!

Penso melhor e tenho de concluir que exactamente por o milagre ser portentoso não o compreenderam.

Os seus espíritos simples não estavam aptos a entender na sua globalidade coisas portentosas.

Mas o que, como sempre, me galvaniza é a sua humildade pessoal e colectiva que quer que estas debilidades constem nos Evangelhos para que fique claríssimo que para compreender é fundamental conhecer e, para conhecer é imprescindível ver e avaliar com olhos puros e despidos de preconceitos ou pré-avaliações.

E... eu... compreendo este milagre da multiplicação de pães e peixes?

Claro que se tenho absoluta certeza que Jesus Cristo é Deus sei que pode absolutamente tudo... com cinco pães e dois peixes alimentar uma multidão ou, com o Seu Corpo e Sangue, alimentar para todo o sempre milhões e milhões dos Seus filhos.

Só tenho que estar grato ao Evangelista por me ter deixado esta revelação: qualquer milagre operado por Cristo encerra uma verdade absoluta... Ele pode tudo!

Logo após alguns fariseus pediram a Jesus que operasse um prodígio para que pudessem acreditar nEle.

Fica bem expressa a sua cegueira e hipocrisia; então o que acabavam de assistir não tinha sido um prodígio?

Fica patente que fizesse Jesus Cristo O que fizesse nada os levaria por outro caminho, e isso mesmo fica demonstrado na resposta que deram a Jesus.

Quando não se quer ver não se vê e, portanto, mesmo que só se acredite no que se pode ver nunca se acreditará totalmente

 

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16/12/2022

Publicações em Dezembro 16

  


DENTRO DO EVANGELHO

 

Hoje aconteceu algo, para mim, estranho.

Passeávamos por entre numerosas pessoas nos Pórticos do Templo quando Jesus, súbitamente, fez como que um chicote de cordas e investiu contra os negociantes de pombas e cordeiros, os cambistas e outros semelhantes, derrubando as suas mesas e expositores, expulsando-os dali.

Nunca tinha visto Jesus tão alterado no semblante e, muito menos na atitude.

Os Fariseus e Escribas ficaram furiosos e indignados, no fim e ao cabo recebiam "comissões" importantes dos negócios ali efectuados.

Mas, no final, tudo ficou claro porque Ele disse "a casa de Meu Pai é casa de oração mas vós convertes-te-a em covil de ladrões e antro de comércio.

Compreendi que a resposta de Jesus encerra como que dois esclarecimentos muito sérios, o primeiro é a confirmação que o Templo sendo a casa de Deus é a Sua casa, a segunda será o respeito que cada um deve ter quando entra nessa casa.

Um pouco por todo o mundo existem Templos muito belos não só na arquitectura mas, também, repletos de obras de arte, esculturas, pinturas, etc., que atraem muitos.

Ainda bem... os artistas, arquitectos, construtores aplicaram o melhor das suas aptidões e o resultado dessa dedicação fica bem expresso na admiração de quantos, ao longo dos tempos as apreciam.

Mas... esta "apreciação" não pode ser, na sua essência, feita da mesma forma como quando se visita uma exposição, um monumento qualquer.

A Casa de Deus é o local onde Ele está particularmente presente e, mais, se eucaristicamente presente uma pequena vela acesa assinala tal.

Daí que, tal como é normal fazer-se quando se entra na casa de alguém seja cumprimentar o dono da casa.

'Mas eu não sou cristão... não posso visitar um monumento de referência que seja uma Igreja?'

Responderei: 'Claro que pode... mas isso não o dispensa de comportar-se correctamente, entrar na casa de alguém, apreciar o conteúdo, tirar fotos, tomar notas... sem préviamente cumprimentar o dono da casa... parece-lhe correcto?!?

 

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