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02/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum
Semana IV

Apresentação do Senhor

Evangelho: Lc 2, 22-32 ou 40

22 Depois que se completaram os dias da purificação de Maria, segundo a Lei de Moisés, levaram-n'O a Jerusalém para O apresentar ao Senhor 23 segundo o que está escrito na Lei do Senhor: “Todo o varão primogénito será consagrado ao Senhor”, 24 e para oferecerem em sacrifício, conforme o que também está escrito na Lei do Senhor: “Um par de rolas ou dois pombinhos”. 25 Havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem era justo e piedoso; esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26 Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte sem ver primeiro o Cristo do Senhor. 27 Foi ao templo conduzido pelo Espírito. E, levando os pais o Menino Jesus, para cumprirem as prescrições usuais da Lei a Seu respeito, 28 ele tomou-O nos braços e louvou a Deus, dizendo: 29 «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz segundo a Tua palavra; 30 porque os meus olhos viram a Tua salvação, 31 que preparaste em favor de todos os povos; 32 luz para iluminar as nações, e glória de Israel, Teu povo». 33 O Seu pai e a Sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam. 34 Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: «Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. 35 E uma espada trespassará a tua alma. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos». 36 Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada. Tinha vivido sete anos com o seu marido, após o seu tempo de donzela, 37 e tinha permanecido viúva até aos oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações. 38 Ela também, vindo nesta mesma ocasião, louvava a Deus e falava de Jesus a todos os de Jerusalém que esperavam a redenção. 39 Depois que cumpriram tudo, segundo o que mandava a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40 O Menino crescia e fortificava-Se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

Comentário:

Não podemos sequer ter uma pálida ideia do que se passaria no coração de Maria ao ouvir as palavras de Simeão.

Um coração de Mãe não se confrange nem angustia por ela própria mas pelo filho que trouxe ao mundo.
Sabe que a «espada que trespassará a sua alma» será a dor provocada pelo mal que farão ao seu amado Filho.

Estas angústia e dor são no entanto como que submetidas à superior decisão já tomada: «Fiat mihi secundum verbum tuum

(ama, comentário sobre Lc 2, 22-40, Malta, 2015.02.02)


Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte V

- "[Jesus] estava realmente ensinando que devemos comer a Sua carne (fibras, músculos, pele) e beber o Seu sangue (plaquetas, plasma, glóbulos)?" [i].

- "A tua opinião é que pelo consumo espiritual exclui-se o corporal. Os judeus (realmente) imaginaram que tinham que comer Cristo, do mesmo modo que o pão e a carne são colocados no prato, ou como um leitãozinho assado" [ii].

 FIRMILIANO DE CESAREIA


Era também discípulo de Orígenes. Bispo de Cesareia, na Capadócia. Grande amigo de São Cipriano. Morreu por volta de 268.
Numa carta a São Cipriano, tratando da reiteração do baptismo nos hereges, escreveu também:

- "Grande delito é o mesmo daqueles que são admitidos e o daqueles que permitem que o corpo e o sangue do Senhor sejam tocados, temerariamente usurpando a comunhão sem terem sido lavadas suas manchas pelo baptismo da Igreja, nem terem sido expostos os seus pecados, uma vez que está escrito:
“Quem come do pão ou bebe do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor" [iii], [iv].

CIPRIANO DE CARTAGO

Figura de grande importância na Igreja africana da primeira metade do século III. Nasceu entre os anos 200 e 210. Converteu-se à fé cristã por volta de 246. Foi sacerdote e, a seguir, Bispo de Cartago. Escreveu abundantemente, em particular aos seus sacerdotes. Foi martirizado no ano 258.
O P. d'Ales [v] extraiu das obras de São Cipriano as seguintes expressões acerca do pão e do vinho eucarísticos:

- O corpo do Senhor
- O santo corpo do Senhor
- O corpo de Cristo
- A carne de Cristo
- O santo do Senhor
- O alimento de Cristo
- O alimento celeste
- O pão do Senhor
- A graça saudável
- A comida celeste
 - O sangue do Senhor
- O sangue de Cristo
- O mistério do cálice
- O cálice do Senhor
- A bebida do Senhor
- A bebida saudável

Comentando a Oração do Senhor (o Pai Nosso), ensina:

 - "Porque Cristo é o pão daqueles que tocam o seu corpo; e esse pão é aquele que pedimos que nos seja dado todos os dias, a não ser que nós, os que estamos em Cristo e recebemos todos os dias a Sua Eucaristia como alimento de salvação, nos abstenhamos - por apresentarmos algum pecado mais grave - e não comunguemos, de modo que deixamos de receber o pão celeste e nos separamos do corpo de Cristo, segundo a Sua palavra: 'Eu sou o pão da vida' (...) Quando Ele diz que aquele que come o Seu pão vive eternamente, do mesmo modo que é claro que vivem os que tocam o Seu corpo e recebem a Eucaristia por direito de comunhão, ao contrário, devem temer e pedir para que, separando-se do corpo de Cristo e não comungando, não sejam separados da salvação (...). É por isso que pedimos que todos os dias nos dê Ele o pão nosso, isto é, Cristo, para que permaneçamos e vivamos em Cristo, e não nos afastemos da Sua santificação e do Seu corpo" [vi].

Diante das práticas de alguns, que usavam água na Eucaristia ao invés de vinho, contesta:

- "Que no cálice que se oferece em Sua memória seja oferecida uma mistura de vinho (com um pouco de água), porque tendo dito Cristo: “Eu sou a verdadeira vinha”, o sangue de Cristo não é, indubitavelmente, água, mas vinho. Também não pode parecer que no cálice se encontra o Seu sangue - com o qual fomos redimidos e vivificados - se nesse cálice não há vinho, o qual é o sangue de Cristo, predito pelo mistério e testemunhado por todas as Escrituras" [vii].

Nos tempos de perseguição - ensina Cipriano - deve-se dar a Eucaristia para os cristãos não irem desarmados para o combate, mas...
- "...armados com a proteção do sangue e do corpo de Cristo"...
...já que a Eucaristia é feita para isto: para ser defesa dos que a recebem:
- "Se negamos o sangue de Cristo aos que partem para a luta, como podemos ensinar-lhes ou incitar-lhes a derramar seu sangue para confessar o nome [de Cristo]?" [viii], [ix].

E no mesmo sentido:

 - "Aproxima-se agora uma luta mais difícil e feroz, para a qual os soldados de Cristo devem preparar-se com uma fé incorrupta e uma robusta virtude, considerando que por isso bebem diariamente do cálice do Senhor, para que possam também eles derramar seu sangue por Cristo" [x].

Falando acerca daqueles cristãos que tinham apostatado, pelo menos materialmente, da sua fé e que agora tornavam a se aproximar para receber a Eucaristia sem antes fazer penitência e sem haver se reconciliado, diz:
- "Violenta-se assim o corpo e o sangue [do Senhor] e agora com suas mãos e sua boca pecam ainda mais contra o Senhor do que antes, quando O negaram" [xi].

AFRAATES

Testemunha a fé eucarística da Igreja da Síria. Nascido por volta de 280, morreu pouco depois de 345.

Estes dois textos servem-nos:

- "Quando alguém, abstendo-se de todo pecado, recebe o corpo e o sangue de Cristo, deve cuidar da sua boca com cuidado, eis que por ela entra o Filho do Rei" [xii].

- "O Senhor, por suas próprias mãos, deu o Seu corpo para ser comido; e antes da sua crucificação, deu o Seu sangue para que fosse bebido" [xiii].

EFRÉM

Eminente membro da Igreja da Síria. Nasceu em Nísibis por volta do ano 306. Foi ordenado diácono e assim permaneceu por toda a sua vida. Discípulo do Bispo de Nísibis, Tiago. Grande poeta, compôs um grande número de obras espirituais e artísticas, todas de conteúdo cristão. Conservam-se poemas e homilias.

Alguns textos:

- "Os sacerdotes dos tempos antigos desejaram ver a tua beleza e não a viram. / Os sacerdotes dos tempos médios odiaram a tua beleza e a rejeitaram / Os sacerdotes da Igreja Te tomaram em suas mãos, / Pão da Vida que desceu [à terra] e se uniu aos nossos sentidos" [xiv].

- "Que nos santifiquemos pelo Teu corpo e pelo Teu sangue; e estejam entre os redimidos, nós, que comemos o Teu corpo e bebemos o Teu precioso sangue" [xv].

- "O corpo que Ele tomara de Maria esta tornou a tomá-lo no pão e na oferenda" [xvi].

- "De um modo novo o Seu corpo se uniu ao nosso e o Seu sangue puro foi derramado em nossas veias; Sua voz no ouvido, Sua luz nos olhos. Por sua piedade, uniu-Se totalmente a nós" [xvii].

 juan carlos sack

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Daniel Sapia, evangélico
[ii] Martinho Lutero
[iii] Firmiliano cita as severas palavras do Apóstolo em 1Coríntios 11,27. Alguém poderia ser considerado "réu do corpo e do sangue do Senhor" se o pão que é consumido nas celebrações fosse um simples simbolismo?
[iv] Epistolário de São Cipriano, Epístola 75,21
[v] "La Théologie de Saint Cyprien" (Paris 1922), pp. 263-264. Aí se encontram as referências para cada expressão.
[vi] Da Oração do Senhor 18
[vii] Epístola 63,2
[viii] Epístola 57,2
[ix] Observe-se a força da expressão: a Eucaristia como presença real do sangue de Cristo é o fundamento para a fortaleza daqueles que irão derramar seu próprio sangue em testemunho da sua Fé.
[x] Epístola 58,1
[xi] Dos Lapsos 16
[xii] Demonstração 3,2
[xiii] Demonstração 12,6
[xiv] Da Virgindade 35,12
[xv] Sermão 1,655-657
[xvi] Da Epifania 8,23
[xvii] Da Virgindade 37,2

28/12/2014

Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)

Oitava do Natal

Santos Inocentes - Mártires

Evangelho: Lc 2 22-40

22 Depois que se completaram os dias da purificação de Maria, segundo a Lei de Moisés, levaram-n'O a Jerusalém para O apresentar ao Senhor 23 segundo o que está escrito na Lei do Senhor: “Todo o varão primogénito será consagrado ao Senhor”, 24 e para oferecerem em sacrifício, conforme o que também está escrito na Lei do Senhor: “Um par de rolas ou dois pombinhos”. 25 Havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem era justo e piedoso; esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26 Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte sem ver primeiro o Cristo do Senhor. 27 Foi ao templo conduzido pelo Espírito. E, levando os pais o Menino Jesus, para cumprirem as prescrições usuais da Lei a Seu respeito, 28 ele tomou-O nos braços e louvou a Deus, dizendo: 29 «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz segundo a Tua palavra; 30 porque os meus olhos viram a Tua salvação, 31 que preparaste em favor de todos os povos; 32 luz para iluminar as nações, e glória de Israel, Teu povo». 33 O Seu pai e a Sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam. 34 Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: «Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. 35 E uma espada trespassará a tua alma. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos». 36 Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada. Tinha vivido sete anos com o seu marido, após o seu tempo de donzela, 37 e tinha permanecido viúva até aos oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações. 38 Ela também, vindo nesta mesma ocasião, louvava a Deus e falava de Jesus a todos os de Jerusalém que esperavam a redenção. 39 Depois que cumpriram tudo, segundo o que mandava a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40 O Menino crescia e fortificava-Se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

Comentário:

Envolta em algum véu de mistério, esta cena da vida de Jesus que São Lucas nos descreve com a sua bela prosa, descobre, no entanto, algo de muito importante: o desejo de Deus de que o Seu Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tenha, em tudo, um comportamento que o identifique plenamente com os homens do Seu tempo, cumprindo, em primeiro lugar, com o que a Lei prescrevia.

É assim que, Jesus Cristo, procede não se resguardando de nada que possa ser considerado diferente ou fora do comum mesmo que, como agora, esse cumprimento das prescrições da Lei possa acarretar algum perigo pelas revelações que, como agora, são feitas a Seu respeito.

Mas, também, Se serve destas ocasiões para “instrução” da Sua Mãe que, com se sabe, «guardava todas estas coisas no seu coração».

(ama, comentário sobre Lc 2, 22-40, 2013.02.02)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus 191 a 199

191         
A fé é a virtude sobrenatural que predispõe a nossa inteligência a aderir às verdades reveladas, a responder afirmativamente a Cristo, que nos deu a conhecer plenamente o desígnio salvífico da Santíssima Trindade. Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também os séculos; o qual, sendo o resplendor da sua glória e a figura viva da sua substância, sustentando tudo com a sua poderosa palavra, depois de nos ter purificado dos nossos pecados, está sentado à direita da majestade no mais alto dos céus.

192         
Junto da piscina de Siloé

Gostaria que fosse Jesus quem nos falasse de fé, quem nos desse lições de fé. Por isso, abriremos o Novo Testamento e viveremos com Ele algumas passagens da sua vida. Efectivamente, Cristo não se poupou a esforços para, pouco a pouco, ensinar os seus discípulos, a fim de se entregarem com confiança ao cumprimento da Vontade do Pai. Vai-os doutrinando com palavras e com obras.

Considerai o capítulo nono de S. João. E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos perguntaram-lhe: Mestre, quem pecou, este ou os seus pais, para que nascesse cego?. Estes homens, apesar de estarem tão perto de Cristo, julgam mal aquele pobre cego. Para que não vos admireis se, com o andar dos anos, ao servirdes a Igreja, encontrais discípulos do Senhor que se comportam assim convosco ou com outras pessoas. Não vos preocupeis e não façais caso, como aquele cego. Abandonai-vos de verdade nas mãos de Cristo; Ele não ataca, perdoa; não condena, absolve; não olha a doença com desinteresse, mas aplica-lhe o remédio com divina diligência.

Nosso Senhor cuspiu no chão, fez lodo com a saliva, untou com o lodo os olhos do cego e disse-lhe: Vai e lava-te na piscina de Siloé, que quer dizer Enviado. Foi ele, pois, e lavou-se, e voltou com vista.

193         
Que belo exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa. É assim que te comportas com os mandatos de Deus, quando muitas vezes estás cego, quando nas preocupações da tua alma se oculta a luz? Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem humedecidos? Teria sido mais adequado um colírio desconhecido, um medicamento precioso preparado no laboratório dum sábio alquimista. Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena e volta com os olhos cheios de claridade.

Foi útil - escreveu S. Agostinho ao comentar esta passagem - que o Evangelista explicasse o sentido do nome da piscina, dizendo que significava Enviado. Agora entendemos quem é este Enviado. Se o Senhor não nos tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido liberto do pecado. Temos de crer com fé firme em quem nos salva, neste Médico divino que foi enviado precisamente para nos curar. E crer com tanto mais vigor quanto mais grave ou desesperada for a doença de que padeçamos.

194         
É preciso que adquiramos a medida divina das coisas, sem perder nunca o ponto de mira sobrenatural, e contando com que Jesus se serve também das nossas misérias, para que a sua glória resplandeça. Por isso, quando sintais serpentear na vossa consciência o amor próprio, o cansaço, o desânimo, o peso das paixões, reagi prontamente e ouvi o Mestre, sem vos assustardes perante a triste realidade que é cada um de nós; com efeito, enquanto vivermos, acompanhar-nos-ão sempre as debilidades pessoais.

Este é o caminho do cristão. É necessário invocar sem descanso, com uma fé rija e humilde: Senhor, não te fies de mim! Eu, sim, confio em Ti. E ao pressentir na nossa alma o amor, a compaixão e a ternura com que Jesus Cristo nos olha - Ele não nos abandona - compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras do Apóstolo: virtus in infirmitate perficitur; com fé no Senhor, apesar das nossas misérias - ou melhor, com as nossas misérias - seremos fiéis ao nosso Pai Deus e o poder divino brilhará, sustentando-nos no meio da nossa fraqueza.

195         
A Fé de Bartimeu

É S. Marcos quem nos conta, desta vez, a cura doutro cego. Ao sair de Jericó, Ele com os seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava sentado junto do caminho a pedir esmola. Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto? Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré. Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na berma do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade? Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim? Que bela jaculatória para repetires com frequência!

Aconselho-vos a meditar com vagar sobre as circunstâncias que precedem o prodígio, a fim de que conserveis bem gravada na vossa mente uma ideia muito nítida: como os nossos pobres corações são diferentes do Coração misericordioso de Jesus! Isto ser-vos-á sempre muito útil, de modo especial na hora da prova, da tentação, e também na hora da resposta generosa nos pequenos afazeres do dia-a-dia ou nas ocasiões heróicas.

Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Tal como a ti, quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar, movido por uma íntima inquietação. E amigos, costumes, comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites! Porque é que hás-de chamar por Jesus? Não o incomodes!

Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim. O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o perseverar na sua oração. Contigo, procede da mesma maneira. Jesus apercebe-se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos dele; quer que lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jericó. Imitemo-lo. Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de lhe implorar.

196         
Jesus, parando, mandou chamá-lo. E alguns dos melhores que o rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levanta-te; Ele chama-te. É a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te - diz-nos - e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Atirou a capa! Não sei se estiveste alguma vez na guerra. Há já muitos anos, tive ocasião de andar por um campo de batalha, algumas horas depois de ter acabado a luta. Lá havia, abandonados pelo chão, mantas, cantis e mochilas cheias de recordações de família: cartas, fotografias de pessoas queridas... E não pertenciam aos derrotados, mas aos vitoriosos! Tudo aquilo lhes sobrava para correrem mais depressa e saltarem as trincheiras do inimigo. Tal como acontecia com Bartimeu, para correr atrás de Cristo.

Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício. Deitar fora tudo o que estorva: manta, mochila, cantil. Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e de paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo. Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renunciar a tudo o que sobeja; a ficar sem essa manta, que é abrigo para as noites frias, sem essas recordações queridas da família e sem o refrigério da água. Lição de fé, lição de amor, porque é assim que se tem de amar Cristo.

197         
Fé com obras

E imediatamente começa um diálogo divino, um diálogo maravilhoso, que comove, que abrasa, porque tu e eu somos agora Bartimeu. Da boca divina de Cristo sai uma pergunta: quid tibi vis faciam? Que queres que te faça? E o cego: Mestre, faz que eu veja. Que coisa mais lógica!

E tu, vês? Não te aconteceu já, alguma vez, o mesmo que a esse cego de Jericó? Não posso agora deixar de recordar que, ao meditar nesta passagem há já muitos anos e ao compreender então que Jesus esperava alguma coisa de mim - algo que eu não sabia o que era! - compus para mim, umas jaculatórias: Senhor, que queres? Que me pedes? Pressentia que me procurava para uma realidade nova e o Rabboni, ut videam - Mestre, que eu veja - levou-me a suplicar a Cristo, numa oração contínua: Senhor, que se faça isso que Tu queres.

198         
Rezai comigo ao Senhor: doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu, ensina-me a cumprir a tua Vontade, porque Tu és o meu Deus. Por outras palavras: que brote dos nossos lábios o afã sincero por corresponder, com um desejo eficaz, aos convites do nosso Criador, procurando seguir os seus desígnios com uma fé inquebrantável, com a convicção de que Ele não pode falhar.

Amando deste modo a Vontade divina, percebemos como o valor da fé não consiste apenas na clareza com que se expõe, mas também na resolução de a defender com obras. Assim, agiremos de acordo com ela.

Mas voltemos à cena que se desenrola à saída de Jericó. Agora é contigo que Cristo fala. Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja! E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-o pelo caminho. Segui-lo pelo caminho. Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-lo pelo caminho. Tu procuras seguir os seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé - fé nessa luz que o Senhor te vai dando - deverá ser operativa e sacrificada. Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo.

199         
Fé e humildade

Agora é S. Mateus quem nos descreve um quadro comovedor. Eis que uma mulher, que, havia doze anos, padecia de um fluxo de sangue, se chegou por detrás dele e tocou a fímbria do seu manto. Que humildade a desta mulher! Dizia dentro de si: Basta que eu toque somente o seu manto para ficar curada. Nunca faltam doentes que imploram, como Bartimeu, com uma fé grande, e que não têm pejo em confessá-la aos gritos. Mas reparai como, no caminho de Cristo, não há duas almas iguais. Grande é também a fé desta mulher, e não grita: aproxima-se sem que ninguém a note. Basta-lhe tocar ao de leve o traje de Jesus, porque tem a certeza de que será curada. E ainda mal tinha acabado de fazê-lo, quando Nosso Senhor se volta e a olha. Já sabe o que se passa no interior daquele coração. Apercebeu-se da sua segurança: Tem confiança, filha, a tua fé te salvou.

Tocou com delicadeza a orla do manto, aproximou-se com fé, acreditou e soube que tinha sido curada... Também nós, se queremos salvar-nos, devemos tocar com fé o manto de Cristo. Estás bem persuadido de como há-de ser a nossa fé? Humilde. Quem és tu, quem sou eu, para merecer este chamamento de Cristo? Quem somos nós, para estar tão perto dele? Tal como àquela pobre mulher no meio da multidão, ofereceu-nos uma oportunidade. E não só para tocar um pouco do seu traje ou, num breve momento, a ponta do seu manto, a orla. Temo-lo a ele próprio. Entrega-se-nos totalmente, com o seu Corpo, com o seu Sangue, com a sua Alma e com a sua Divindade. Comemo-lo todos os dias, falamos intimamente com Ele, como se fala com um pai, como se fala com o Amor. E isto é verdade. Não são imaginações.

(cont)