Relações públicas humanas e divinas
Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
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13/11/2015
31/12/2014
Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)
Evangelho: Jo 1 1-18
1 No princípio
existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2 Estava no
princípio com Deus. 3 Todas as coisas foram feitas por Ele; e sem Ele nada foi
feito. 4 N'Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens, 5 e a luz
resplandeceu nas trevas, mas as trevas não O receberam. 6 Apareceu um homem
enviado por Deus que se chamava João. 7 Veio como testemunha para dar
testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 8 Não era a luz,
mas veio para dar testemunho da luz. 9 O Verbo era a luz verdadeira, que vindo
a este mundo ilumina todo o homem. 10 Estava no mundo, e o mundo foi feito por
Ele, mas o mundo não O conheceu. 11 Veio para o que era Seu, e os Seus não O
receberam. 12 Mas a todos os que O receberam, àqueles que crêem no Seu nome,
deu poder de se tornarem filhos de Deus; 13 eles que não nasceram do sangue,
nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 14 E o Verbo
fez-Se carne, e habitou entre nós; e nós vimos a Sua glória, glória como de
Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. 15 João dá testemunho
d'Ele e clama: «Este era Aquele de Quem eu disse: O que há-de vir depois de mim
é mais do que eu, porque existia antes de mim». 16 Todos nós participamos da Sua
plenitude, e recebemos graça sobre graça; 17 porque a Lei foi dada por Moisés,
mas a graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo.18 Ninguém jamais viu a
Deus; o Unigénito de Deus, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu a
conhecer.
Comentário:
Deus Criador conduz o Seu
povo por etapas.
Começa por escolher o
‘fundador’ desse povo na figura de Abraão a quem submete a várias provas para
consolidar a sua confiança e obediência. Só se pode obedecer em quem se confia.
Dá-lhes uma série de regras
a cumprir – a Lei Natural – a que se chamaram Mandamentos, da sua observância
depende a Sua ‘amizade’ com esse mesmo povo, isto é, a manutenção do vínculo
estabelecido com Abraão.
Finalmente, envia o Seu
Filho para trazer «a
graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo» que serão indispensáveis
para a salvação do homem.
Assim, se completam os
planos e desígnios do Criador em relação ao homem.
(ama,
comentário sobre Jo 1, 1-18, 2012.12.31)
Leitura espiritual
São Josemaria Escrivá
Amigos de Deus 216 a 223
216
Misturai-vos
com frequência entre os personagens do Novo Testamento. Saboreai aquelas cenas
comovedoras em que o Mestre actua com gestos divinos e humanos ou relata, com
frases humanas e divinas, a história sublime do perdão e do seu contínuo Amor
pelos seus filhos. Esses reflexos do Céu renovam-se também agora na perenidade
actual do Evangelho: palpa-se, nota-se, pode-se afirmar que se toca com as mãos
a protecção divina; um amparo que adquire vigor, quando prosseguimos apesar dos
tropeções, quando começamos e recomeçamos, pois isto é a vida interior vivida
com a esperança em Deus.
Sem
este empenho em superar os obstáculos de dentro e de fora, não nos será
concedido o prémio. Nenhum atleta será premiado, se não lutar verdadeiramente,
e não seria autêntico o combate se faltasse o adversário com quem pelejar.
Portanto, se não houver adversário, não haverá coroa; pois não pode haver
vencedor, onde não há vencido.
Longe
de nos desalentarem, as contrariedades hão-de ser um acicate para crescermos
como cristãos; nessa luta nos santificamos e o nosso trabalho apostólico
adquire maior eficácia. Ao meditar nos momentos em que Jesus Cristo - no Horto
das Oliveiras e, mais tarde, no abandono e ludíbrio da Cruz - aceita e ama a Vontade
do Pai, enquanto sente o peso gigantesco da Paixão, temos de nos persuadir de
que para imitar Cristo, para ser bons discípulos d'Ele, é preciso que sigamos o
seu conselho: se alguém quer vir atrás de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua
cruz e siga-me. Por isso, gosto de pedir a Jesus para mim: Senhor, nenhum dia
sem cruz! Assim, com a graça divina, se reforçará o nosso carácter e serviremos
de apoio ao nosso Deus, superando as nossas misérias pessoais.
Compreende
bem isto: se ao cravar um prego na parede, não encontrasses resistência, que
poderias pendurar dele? Se não nos robustecermos, com o auxílio divino, por
meio do sacrifício, não alcançaremos a condição de instrumentos do Senhor. Pelo
contrário, se nos decidirmos a aproveitar com alegria as contrariedades, por
amor de Deus, ao enfrentar o que é difícil e desagradável, o que é duro e
incómodo, não nos custará exclamar com os Apóstolos Tiago e João: Podemos!
217
A importância da luta
Devo
prevenir-vos contra uma artimanha de que Satanás - ele nunca tira férias! - não
desdenha servir-se para nos arrancar a paz. Talvez em algum instante se insinue
a dúvida, a tentação de pensar que se retrocede lamentavelmente ou de que mal
se avança; até ganha força a convicção de que, apesar do empenho por melhorar,
se piora. Garanto-vos que, em regra, esse juízo pessimista só reflecte uma falsa
ilusão, um engano que convém repelir. Costuma suceder, nesses casos, que a alma
se torna mais atenta, a consciência mais delicada, o amor mais exigente; ou, então,
acontece que a acção da graça ilumina com mais intensidade e saltam aos olhos
muitos pormenores que passariam inadvertidos na penumbra. Seja o que for, temos
de examinar atentamente essas inquietações, porque o Senhor, com a sua luz,
pede-nos mais humildade ou mais generosidade. Lembrai-vos de que a Providência
de Deus nos conduz sem pausas e não regateia o seu auxílio - com milagres
portentosos e com milagres pequenos - para fazer progredir os seus filhos.
Militia
est vita hominis super terram, et sicut dies mercenarii, dies eius, a vida do
homem sobre a terra é milícia e os seus dias decorrem com o peso do trabalho.
Ninguém escapa a este imperativo; nem os comodistas que põem resistência em
aceitá-lo: desertam das fileiras de Cristo e afadigam-se noutras contendas para
satisfazerem a sua preguiça, a sua vaidade, as suas ambições mesquinhas; são
escravos dos seus caprichos.
Se
a situação de luta é conatural à criatura humana, procuremos cumprir as nossas
obrigações com tenacidade, rezando e trabalhando com boa vontade, com rectidão
de intenção, com o olhar posto no que Deus quer. Assim ficarão saciadas as
nossas ânsias de Amor e progrediremos no caminho para a santidade, embora, ao
terminar a jornada, comprovemos que ainda falta percorrer muita distância.
Renovai
todas as manhãs com um serviam decidido - servir-te-ei, Senhor! - o propósito
de não ceder, de não cair na preguiça ou na apatia, de enfrentar as tarefas com
mais esperança, com mais optimismo, persuadidos de que, se sairmos vencidos em
alguma escaramuça, poderemos superar esse desaire com um acto de amor sincero.
218
A
virtude da esperança - certeza de que Deus nos governa com a sua providente
omnipotência, de que nos dá os meios necessários - fala-nos da contínua bondade
do Senhor para com os homens, para contigo, para comigo, sempre disposto a
ouvir-nos, porque jamais se cansa de escutar. Interessam-lhe as tuas alegrias,
os teus êxitos, o teu amor e também as tuas dificuldades, a tua dor, os teus
fracassos. Por isso, não esperes n'Ele somente quando tropeçares por causa da
tua debilidade; dirige-te ao teu Pai do Céu nas circunstâncias favoráveis e nas
adversas, acolhendo-te à sua misericordiosa protecção. E a certeza da nossa
nulidade pessoal - não é necessária grande humildade para reconhecer esta
realidade, pois somos uma autêntica multidão de zeros - converter-se-á em
fortaleza irresistível, porque à esquerda do nosso eu estará Cristo, e que
cifra incomensurável assim resulta! O Senhor é a minha fortaleza e o meu
refúgio, quem temerei?.
Acostumai-vos
a ver Deus por trás de tudo, a saber que Ele nos aguarda sempre, que nos
contempla e nos pede justamente que o sigamos com lealdade, sem abandonarmos o
lugar que nos corresponde neste mundo. Temos de caminhar com afectuosa
vigilância, com uma sincera preocupação de lutar, para não perder a sua divina
companhia.
219
Esta
luta de um filho de Deus não implica tristes renúncias, obscuras resignações,
privações de alegria; é a reacção do enamorado que, enquanto trabalha e enquanto
descansa, enquanto se alegra e enquanto padece, põe o seu pensamento na pessoa
amada e por ela enfrenta gostosamente os diferentes problemas. No nosso caso,
além disso, como Deus - insisto - não perde batalhas, nós, com Ele, seremos
vencedores. Tenho a experiência de que, se me ajusto fielmente ao que quer de
mim, Ele me faz descansar em verdes prados e me conduz a águas refrescantes.
Reconforta a minha alma e guia-me pelo amor do seu nome. Mesmo que atravesse um
vale tenebroso, não temo nenhum mal, porque Tu estás comigo. A tua clava e o
teu cajado são o meu consolo.
Nas
batalhas da alma, a estratégia muitas vezes é questão de tempo, de aplicar o
remédio conveniente, com paciência, com pertinácia. Aumentai os actos de
esperança. Recordo-vos que sofrereis derrotas, ou que passareis por altos e
baixos - Deus permita que sejam imperceptíveis - na vossa vida interior, porque
ninguém está livre desses percalços. Mas o Senhor, que é omnipotente e
misericordioso, concedeu-nos os meios idóneos para vencer. Basta que os
empreguemos, como comentava antes, com a resolução de começar e recomeçar em
cada momento, se for preciso.
Recorrei
semanalmente - e sempre que o necessiteis, sem dar lugar aos escrúpulos - ao
santo Sacramento da Penitência, ao sacramento do perdão divino. Revestidos da
graça, caminharemos por entre os montes e subiremos a encosta do cumprimento do
dever cristão, sem nos determos. Utilizando estes recursos com boa vontade e
rogando ao Senhor que nos conceda uma esperança cada dia maior, possuiremos a
alegria contagiosa dos que se sabem filhos de Deus: Se Deus está connosco, quem
nos poderá derrotar? . Optimismo, portanto. Incitados pela força da esperança,
lutaremos para apagar a mancha viscosa que espalham os semeadores do ódio e
redescobriremos o mundo com uma perspectiva jubilosa, porque saiu formoso e
limpo das mãos de Deus, e restituir-lho-emos assim belo, se aprendermos a
arrepender-nos.
220
Com o olhar no Céu
Cresçamos
na esperança, que deste modo nos consolidaremos na fé, verdadeiro fundamento
das coisas que se esperam e prova das que não se vêem . Cresçamos nesta
virtude, que é suplicar ao Senhor que aumente a sua caridade em nós, porque só
se confia verdadeiramente no que se ama com todas as forças. E vale a pena amar
o Senhor. Vós haveis experimentado, como eu, que a pessoa enamorada se entrega
confiante, com uma sintonia maravilhosa, em que os corações batem num mesmo
querer. E que será o Amor de Deus? Não sabeis que Cristo morreu por cada um de
nós? Sim, por este nosso coração pobre, pequeno, se consumou o sacrifício
redentor de Jesus.
Frequentemente,
o Senhor fala-nos do prémio que nos ganhou com a sua Morte e Ressurreição. Vou
preparar um lugar para vós. Depois que eu tiver ido e vos tiver preparado o
lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais
Vós também. O Céu é a meta do nosso caminho terreno. Jesus Cristo precedeu-nos
e ali, na companhia da Virgem e de S. José - a quem tanto venero - dos Anjos e
dos Santos, aguarda a nossa chegada.
221
Nunca
faltaram os hereges - mesmo na época apostólica - que pretenderam arrancar a
esperança aos cristãos. Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como
dizem alguns de entre vós que não há ressurreição dos mortos? Pois, se não há
ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não
ressuscitou, é pois vã a nossa pregação, e é também vã a nossa fé.... A
divindade do nosso caminho - Jesus, caminho, verdade e vida - é penhor seguro
de que leva à felicidade eterna, se não nos afastarmos d'Ele.
Como
será maravilhoso quando o nosso Pai nos disser: servo bom e fiel, porque foste
fiel nas coisas pequenas, eu te confiarei as grandes: entra no gozo do teu
Senhor!. Esperançados! Esse é o prodígio da alma contemplativa. Vivemos de Fé,
de Esperança e de Amor; e a Esperança torna-nos poderosos. Recordais-vos de S.
João? Eu vos escrevo, jovens, porque sois valentes e a palavra de Deus
permanece em vós e vencestes o maligno. Deus urge-nos, para a juventude eterna
da Igreja e de toda a humanidade. Podeis transformar em divino todo o humano,
como o rei Midas convertia em ouro tudo o que tocava!
Nunca
esqueçais que depois da morte vos receberá o Amor. E no amor de Deus
encontrareis, além do mais, todos os amores limpos que tenhais tido na terra. O
Senhor dispôs que passemos esta breve jornada da nossa existência, trabalhando
e, como o seu Unigénito, fazendo o bem. Entretanto, temos de estar alerta, à
escuta daquelas chamadas que Santo Inácio de Antioquia notava na sua alma, ao
aproximar-se a hora do martírio: vem para junto do Pai, vem para o teu Pai que
te espera ansioso.
Peçamos
a Santa Maria, Spes nostra, que nos inflame no santo empenho de habitarmos
todos juntos na casa do Pai. Nada nos poderá preocupar, se decidirmos firmar o
coração no desejo da verdadeira Pátria: o Senhor nos conduzirá com a sua graça
e impelirá a barca com bom vento para tão claras margens.
222
Misturado
com a multidão, um daqueles peritos que já não conseguiam discernir os
ensinamentos revelados a Moisés, ensinamentos emaranhados por eles próprios
numa casuística estéril, faz uma pergunta ao Senhor. Abre Jesus os seus lábios
divinos para falar àquele doutor da Lei e responde-lhe pausadamente, com a
firme certeza de quem tem disso viva experiência: amarás o Senhor teu Deus com
todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu espírito. Este é o
maior e o primeiro dos mandamentos. O segundo é semelhante a este: amarás o teu
próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos estão contidos toda a Lei e os
profetas.
Vede
agora o mestre reunido com os seus discípulos na intimidade do Cenáculo. Ao
aproximar-se o momento da sua Paixão, o Coração de Cristo, rodeado por aqueles
que ama, abre-se em inefáveis labaredas: dou-vos um mandamento novo: que vos
ameis uns aos outros e que, do mesmo modo que eu vos amei, vos ameis uns aos
outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos
outros.
Para
vos aproximardes do Senhor através das páginas do Santo Evangelho, recomendo
sempre que vos esforceis por participar em cada cena como um personagem mais.
Assim - conheço tantas almas normais e correntes que o fazem! -
recolher-vos-eis como Maria, suspensa das palavras de Jesus, ou, como Marta,
atrever-vos-eis a manifestar-lhe sinceramente as vossas inquietações, mesmo as
mais pequenas.
223
Senhor,
porque chamas novo a este mandamento? Como acabamos de ouvir, o amor ao próximo
estava prescrito no Antigo Testamento e recordareis também que Jesus, mal
começa a sua vida pública, amplia essa exigência com divina generosidade:
ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu
peço-vos mais: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem e orai
pelos que vos perseguem e caluniam.
Senhor,
deixa-nos insistir: porque continuas a chamar novo a este preceito? Naquela
noite, poucas horas antes de te imolares na Cruz, durante aquela conversa
íntima com os que - apesar das suas fraquezas e misérias pessoais, como as
nossas - te acompanharam até Jerusalém. Tu revelaste-nos a medida insuspeitada
da caridade: como eu vos amei. Como não haviam de te entender os Apóstolos, se
tinham sido testemunhas do teu amor insondável!
O
ensinamento e o exemplo do Mestre são claros e precisos. Sublinhou com obras a
sua doutrina. E, no entanto, tenho pensado muitas vezes que, passados vinte
séculos, ainda continua a ser um mandamento novo, porque muito poucos homens se
têm preocupado em levá-lo à prática; os restantes, a maioria, preferiram e
preferem desconhecê-lo. Com um egoísmo exacerbado, perguntam: - Para quê mais
complicações? Já me bastam as que tenho com as minhas coisas.
Não
é admissível semelhante atitude entre os cristãos. Se professamos essa mesma
fé, se ambicionamos verdadeiramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os
passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos
outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito
pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo
comportamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta
como uma meta longínqua, como o coroamento de toda uma vida de luta. É - e
insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos - o ponto de
partida, porque Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que
sois meus discípulos.
(cont)
30/12/2014
Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)
Evangelho: Lc 2 36-40
36 Havia também uma profetisa, chamada
Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada. Tinha
vivido sete anos com o seu marido, após o seu tempo de donzela,37 e
tinha permanecido viúva até aos oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo,
servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações. 38 Ela também,
vindo nesta mesma ocasião, louvava a Deus e falava de Jesus a todos os de
Jerusalém que esperavam a redenção.39 Depois que cumpriram tudo, segundo
o que mandava a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de
Nazaré. 40 O Menino crescia e fortificava-Se, cheio de sabedoria, e
a graça de Deus estava com Ele.
Comentário:
«Depois que cumpriram tudo, segundo o que
mandava a Lei do Senhor»
Esta
a "chave" da vida do cristão: cumprir, em primeiro lugar, o que o
Senhor quer que façamos. Depois, só depois, haveremos de fazer as outras coisas
que, por importantes que possam ser, vêm sempre em segundo lugar.
Leitura espiritual
São Josemaria Escrivá
Amigos de Deus 209 a 215
209
Em que esperar
Dado
que o mundo oferece muitos bens, apetecíveis para este nosso coração, que
reclama felicidade e busca ansiosamente o amor, talvez alguns perguntem: nós,
os cristãos, em que devemos esperar? Além disso, queremos semear a paz e a
alegria às mãos cheias, não ficamos satisfeitos com a consecução da
prosperidade pessoal e procuramos que estejam contentes todos os que nos
rodeiam.
Por
desgraça, alguns, com uma visão digna mas rasteira, com ideais exclusivamente
caducos e fugazes, esquecem que os anelos do cristão se hão-de orientar para
cumes mais elevados: infinitos. O que nos interessa é o próprio Amor de Deus, é
gozá-lo plenamente, com um júbilo sem fim. Temos comprovado, de muitas
maneiras, que as coisas da terra hão-de passar para todos, quando este mundo acabar;
e já antes, para cada um, com a morte, porque nem as riquezas nem as honras
acompanham ninguém ao sepulcro. Por isso, com as asas da esperança, que anima
os nossos corações a levantarem-se para Deus, aprendemos a rezar: in te Domine
speravi, non confundar in æternum, espero em Ti, Senhor, para que me dirijas
com as tuas mãos agora e em todos os momentos pelos séculos dos séculos.
210
O
Senhor não nos criou para construirmos aqui uma Cidade definitiva, porque este
mundo é o caminho para o outro, que é morada sem pesar. No entanto, nós, os
filhos de Deus, não devemos desligar-nos das actividades terrenas em que Deus
nos coloca para as santificarmos, para as impregnarmos da nossa bendita fé, a
única que dá verdadeira paz, alegria autêntica às almas e aos diversos
ambientes. Tem sido esta a minha pregação constante desde 1928: urge cristianizar
a sociedade; levar a todos os estratos desta nossa humanidade o sentido
sobrenatural, de modo que uns e outros nos empenhemos em elevar à ordem da graça
a ocupação diária, a profissão ou o ofício. Desta forma, todas as ocupações
humanas se iluminam com uma esperança nova, que transcende o tempo e a
caducidade do mundano.
Pelo
Baptismo, somos portadores da palavra de Cristo, que serena, que inflama e aquieta
as consciências feridas. E para que o Senhor actue em nós e por nós, temos de
lhe dizer que estamos dispostos a lutar em cada dia, ainda que nos vejamos
frouxos e inúteis, ainda que sintamos o peso imenso das misérias pessoais e da
pobre debilidade pessoal. Temos de lhe repetir que confiamos n'Ele, na sua ajuda:
se é preciso, como Abraão, contra toda a esperança. Assim trabalharemos com
renovado empenho e ensinaremos as pessoas a reagirem com serenidade, livres de
ódios, de receios, de ignorância, de incompreensões, de pessimismos, porque
Deus tudo pode.
211
Onde
quer que nos encontremos, esta é a exortação do Senhor: vigiai! Em face deste
apelo de Deus, alimentemos nas nossas consciências os desejos esperançosos de
santidade, com obras. Dá-me, meu filho, o teu coração, sugere-nos o senhor ao
ouvido. Deixa-te de construir castelos com a fantasia, decide-te a abrir a tua
alma a Deus, pois exclusivamente no Senhor acharás o fundamento real para a tua
esperança e para fazer o bem aos outros. Quando não lutamos connosco mesmos,
quando não rechaçamos terminantemente os inimigos que estão dentro da cidadela
interior - o orgulho, a inveja, a concupiscência da carne e dos olhos, a
auto-suficiência, a tresloucada avidez da libertinagem - quando não existe essa
peleja interior, os mais nobres ideais definham como a flor do feno; ao romper
o sol ardente, a erva seca, a flor cai e acaba a sua vistosa formosura. Depois,
pela menor fenda brotarão o desalento e a tristeza, como plantas daninhas e
invasoras.
Jesus
não se conforma com um assentimento titubeante. Pretende, tem direito a que
caminhemos com inteireza, sem concessões às dificuldades. Exige passos firmes
concretos; pois, de ordinário, os propósitos gerais servem para pouco. Os
propósitos pouco delineados parecem-me entusiasmos falazes que intentam calar
as chamadas divinas percebidas pelo coração; fogos fátuos, que não queimam nem
dão calor e que desaparecem com a mesma fugacidade com que surgiram.
Por
isso, convencer-me-ei de que as tuas intenções de alcançar a meta são sinceras,
se te vir caminhar com determinação. Faz o bem, revendo as tuas atitudes
habituais quanto à ocupação de cada instante; pratica a justiça, precisamente
nos ambientes que frequentas, ainda que a fadiga te vença; fomenta a felicidade
dos que te rodeiam, servindo os outros com alegria no lugar do teu trabalho,
com esforço para o acabar com a maior perfeição possível, com a tua compreensão,
com o teu sorriso, com a tua atitude cristã. E tudo por Deus, com o pensamento
na sua glória, com o olhar no alto, anelando a Pátria definitiva, pois só esse
fim vale a pena.
212
Tudo posso
Se
não lutas, não me digas que procuras identificar-te mais com Cristo,
conhecê-lo, amá-lo. Quando empreendemos o caminho real de seguir a Cristo, de
nos portarmos como filhos de Deus, não se nos oculta o que nos aguarda: a Santa
Cruz, que temos de contemplar como o ponto central onde se apoia a nossa
esperança de nos unirmos ao Senhor.
Digo-vos
desde já que este programa não é uma empresa cómoda; viver da maneira que o
Senhor assinala pressupõe esforço. Leio-vos a enumeração do Apóstolo, quando
refere as suas peripécias e os seus sofrimentos para cumprir a vontade de
Jesus: Dos judeus recebi cinco vezes quarenta açoites menos um. Três vezes fui
açoitado com varas; uma vez apedrejado; três vezes naufraguei; uma noite e um
dia estive no abismo do mar. Muitas vezes, em viagens, perigos de rios, perigos
de ladrões, perigos dos da minha nação, perigos dos gentios, perigos na cidade,
perigos no descampado, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos; em
trabalhos e misérias, em muitas vigílias, com fome e com sede, com muitos
jejuns, com frio e nudez. Além destas coisas exteriores, pesam sobre mim as
ocupações de cada dia pela solicitude de todas as igrejas.
Gosto,
nestas conversas com o Senhor, de me cingir à realidade em que se desenvolve a
nossa vida, sem inventar teorias, nem sonhar com grandes renúncias, com
heroicidades, que habitualmente não acontecem. Importa que aproveitemos o
tempo, que se nos escapa das mãos e que, segundo o critério cristão, é mais do
que ouro, porque representa uma antecipação da glória que depois nos será concedida.
Logicamente,
na nossa jornada, não toparemos com tais nem com tantas contradições como as
que ocorreram na vida de Saulo. Nós descobriremos a baixeza do nosso egoísmo,
os golpes da sensualidade, as investidas de um orgulho inútil e ridículo e
muitas outras claudicações: tantas, tantas fraquezas. Descoroçoar? Não. Com S.
Paulo, repitamos ao Senhor: sinto complacência nas minhas enfermidades, nos
ultrajes, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo;
pois quando estou fraco, então sou mais forte .
213
Às
vezes, quando tudo nos acontece ao contrário do que imaginávamos, vem-nos espontaneamente
à boca: Senhor, olha que se afunda tudo, tudo, tudo...! Chegou a hora de
rectificar: contigo, avançarei seguro, porque Tu és a própria fortaleza: quia
tu es, Deus, fortitudo mea.
Roguei-te
que, no meio das ocupações, procures levantar os teus olhos ao Céu
perseverantemente, porque a esperança nos impele a agarrar-nos a essa mão forte
que Deus nos estende sem cessar, com o fim de não perdermos o ponto de mira
sobrenatural; isto também quando as paixões se levantam e nos acometem para nos
aferrolharem no reduto mesquinho do nosso eu, ou quando - com pueril vaidade -
nos sentimos o centro do universo. Eu vivo persuadido de que, sem olhar para o
alto, sem Jesus, jamais conseguirei nada; e sei que a minha fortaleza, para me
vencer e para vencer, nasce de repetir aquele brado: tudo posso n'Aquele que me
conforta, que contém a segura promessa de Deus de não abandonar os seus filhos,
se os seus filhos não o abandonarem.
214
A miséria e o perdão
Tanto
se aproximou o senhor das criaturas, que todos guardamos no coração fome de
altura, ânsias de subir muito alto, de fazer o bem. Se agora renovo em ti essas
aspirações, é porque quero que te convenças da segurança que Ele pôs na tua
alma: se o deixares actuar, servirás - onde estás - como instrumento útil, com
uma eficácia insuspeitada. Para que não te afastes por cobardia da confiança
que Deus deposita em ti, evita a presunção de menosprezar ingenuamente as
dificuldades que aparecerão no teu caminho de cristão.
Não
temos de estranhar. Trazemos em nós mesmos - consequência da natureza decaída -
um princípio de oposição, de resistência à graça: são as feridas do pecado
original, agravadas pelos nossos pecados pessoais. Portanto, temos de
empreender as ascensões, as tarefas divinas e humanas - as de cada dia - que
sempre desembocam no Amor de Deus, com humildade, com coração contrito, fiados
na assistência divina e dedicando os nossos melhores esforços, como se tudo
dependesse de nós mesmos.
Enquanto
pelejamos - uma peleja que durará até à morte - não excluas a possibilidade de
que se levantem, violentos, os inimigos de fora e de dentro. E, como se fosse
pequeno o lastro, às vezes, acumular-se-ão na tua mente os erros cometidos,
talvez abundantes. Em nome de Deus te digo: não desesperes. Quando isso suceder
- não tem necessariamente que suceder, nem será o habitual - converte essa
ocasião num motivo para te unires mais com o Senhor; porque Ele, que te
escolheu como filho, não te abandonará. Permite a prova, para que ames mais e
descubras com mais clareza a sua contínua protecção, o seu Amor.
Insisto,
tem ânimo, porque Cristo, que nos perdoou na Cruz, continua a oferecer o seu
perdão no Sacramento da Penitência e sempre temos um advogado junto do Pai,
Jesus Cristo, o Justo. Ele mesmo é a vítima de propiciação pelos nossos
pecados, e não somente pelos nossos mas também pelos de todo o mundo, para que
alcancemos a Vitória.
Para
a frente, aconteça o que acontecer! Bem agarrado ao braço do Senhor, considera
que Deus não perde batalhas. Se, por qualquer motivo, te afastas d'Ele, reage
com a humildade de começar e de recomeçar; de fazer de filho pródigo todos os
dias, inclusive repetidamente nas vinte e quatro horas do dia; de reconciliar o
teu coração contrito na Confissão, verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste
Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e inunda-te de alegria e de
força para não desanimares na tua luta e para voltares de novo sem cansaço a
Deus, mesmo quando tudo te pareça obscuro. Além disso, a Mãe de Deus, que é
também nossa Mãe, protege-te com a sua solicitude maternal e dá-te confiança no
teu caminhar.
215
Deus não se cansa de
perdoar
A
sagrada Escritura adverte que até o justo cai sete vezes. Sempre que leio estas
palavras, a minha alma estremece com um forte abalo de amor e de dor. Uma vez
mais, vem o Senhor ao nosso encontro, com essa advertência divina, para nos
falar da sua misericórdia, da sua ternura, da sua clemência, que nunca acabam.
Estai seguros: Deus não quer as nossas misérias, mas não as desconhece e conta
precisamente com essas debilidades para que nos façamos santos.
Um
abalo de amor, dizia-vos. Considero a minha vida e, com sinceridade, vejo que
não sou nada, que não valho nada, que não tenho nada, que não posso nada; mais:
que sou o nada! Mas Ele é o tudo e, ao mesmo tempo, é meu, e eu sou d'Ele,
porque não me repele, porque se entregou por mim. Contemplastes amor maior?
E
um abalo de dor, pois examino a minha conduta e assombro-me perante o conjunto
das minhas negligências. Basta-me examinar as poucas horas decorridas desde que
me levantei hoje, para descobrir tanta falta de amor, de correspondência fiel.
Penaliza-me deveras este meu comportamento, mas não me tira a paz. Prostro-me
diante de Deus e exponho-lhe claramente a minha situação. Logo tenho a
segurança da sua assistência e oiço no fundo do meu coração o que ele me repete
devagar: meus es tu!. Sabia - e sei - como és; para a frente!
Não
pode ser de outra maneira. Se acorrermos continuamente a pôr-nos na presença do
Senhor, aumentará a nossa confiança, ao comprovarmos que o seu Amor e o seu
chamamento permanecem actuais: Deus não se cansa de nos amar. A esperança
demonstra-nos que, sem Ele, não conseguimos realizar nem o mais pequeno dever;
e com ele, com a sua graça, cicatrizarão as nossas feridas; revestir-nos-emos
da sua fortaleza para resistir aos ataques do inimigo e melhoraremos. Em
resumo: a consciência de que somos feitos de barro ordinário há-de servir-nos,
sobretudo, para afirmarmos a nossa esperança em Cristo Jesus.
(cont)
29/12/2014
Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)
Evangelho: Lc 2 22-35
22 Depois que se completaram os dias da purificação
de Maria, segundo a Lei de Moisés, levaram-n'O a Jerusalém para O apresentar ao
Senhor 23 segundo o que está escrito na Lei do Senhor: “Todo o varão
primogénito será consagrado ao Senhor”, 24 e para oferecerem em
sacrifício, conforme o que também está escrito na Lei do Senhor: “Um par de
rolas ou dois pombinhos”. 25 Havia então em Jerusalém um homem
chamado Simeão. Este homem era justo e piedoso; esperava a consolação de
Israel, e o Espírito Santo estava nele. 26 Tinha-lhe sido revelado
pelo Espírito Santo que não veria a morte sem ver primeiro o Cristo do Senhor. 27
Foi ao templo conduzido pelo Espírito. E, levando os pais o Menino Jesus, para
cumprirem as prescrições usuais da Lei a Seu respeito, 28 ele
tomou-O nos braços e louvou a Deus, dizendo: 29 «Agora, Senhor,
podes deixar o teu servo partir em paz segundo a Tua palavra; 30
porque os meus olhos viram a Tua salvação, 31 que preparaste em
favor de todos os povos; 32 luz para iluminar as nações, e glória de
Israel, Teu povo». 33 O Seu pai e a Sua mãe estavam admirados das
coisas que d'Ele se diziam. 34 Simeão abençoou-os e disse a Maria,
Sua mãe: «Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em
Israel e para ser sinal de contradição. 35 E uma espada trespassará
a tua alma. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de
muitos».
Comentário:
Aqui estou eu na tua igreja da Lapa para
assistir à Santa Missa e, hoje dia muito especial para ti, Mãe; já és
“oficialmente” mulher limpa e pura depois da cerimónia no templo.
E, eu que me debato tanto com a minha
importância, a minha posição, o meu estatuto, tenho de entender estas lições de
humildade.
Humildade tão grande que torna imensamente grande quem a pratica.
A mãe de Deus!
Ali está ela simplesmente com o Filho
nos braços, o Filho de Deus e, no entanto está, como outra vulgar criança a ser
apresentada no templo.
Bem hajas senhora, por seres assim e nos dares esta grande lição.
(ama,
meditação sobre, Lc 2, 22-40 2013.02.03)
Leitura espiritual
São Josemaria Escrivá
Amigos de Deus 200 a 208
200
Procuremos
que aumente a nossa humildade. Porque só uma fé humilde permite que tenhamos
visão sobrenatural. Não existe outra alternativa. Só são possíveis dois modos
de viver na terra: ou se vive vida sobrenatural ou vida animal. E tu e eu não
podemos viver senão a vida de Deus, a vida sobrenatural. Que aproveitará ao
homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma. Que proveito terá
para o homem tudo o que existe na terra, todas as ambições da inteligência e da
vontade? Que vale tudo isto, se tudo se acaba, se tudo se desfaz, se são
bambolinas de teatro todas as riquezas deste mundo terreno, se depois é a
eternidade para sempre, para sempre, para sempre?
Este
advérbio - sempre - tornou grande Teresa de Jesus. Quando ela - em criança -
saía pela porta do rio Adaja, atravessando as muralhas da cidade acompanhada
por seu irmão Rodrigo, com o intuito de chegar a terras de moiros, para que os
decapitassem por amor de Cristo, ia segredando ao irmão que já dava mostras de
cansaço: para sempre, para sempre, para sempre.
Mentem
os homens ao dizer para sempre em coisas temporais. Só é verdade, com uma
verdade total, o para sempre em relação a Deus. E assim hás-de viver tu, com
uma fé que te ajude a sentir sabor de mel, doçura de céu, ao pensares na
eternidade, que é, de verdade, para sempre.
201
Vida corrente e
contemplação
Voltemos
ao Santo Evangelho e detenhamo-nos no que refere S. Mateus, no capítulo
vigésimo primeiro. Conta-nos que Jesus, quando voltava para a cidade, teve
fome. Vendo uma figueira junto do caminho, aproximou-se dela. Que alegria,
Senhor, ver-te com fome, ver-te também sedento, junto do poço de Sicar!.
Contemplo-te perfectus Deus, perfectus homo: verdadeiro Deus, mas também
verdadeiro homem, com carne como a minha. Aniquilou-se a si mesmo, tomando a
forma de servo, para que eu nunca mais duvidasse de que Ele me compreende e me
ama.
Teve
fome. Sempre que nos cansemos - no trabalho, no estudo, na tarefa apostólica -
sempre que no horizonte haja trevas, então é preciso olhar Cristo: Jesus bom,
Jesus cansado, Jesus faminto e sedento. Como te fazes compreender bem, Senhor!
Como te fazes amar! Mostras-te igual a nós em tudo, excepto no pecado, para que
sintamos que contigo poderemos vencer as nossas más inclinações e as nossas
culpas. Efectivamente, não têm importância o cansaço, a fome, a sede, as
lágrimas... Cristo cansou-se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a
luta - uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre a nosso lado - para
cumprir a vontade do Pai que está nos céus.
202
Aproxima-se
da figueira: aproxima-se de ti e aproxima-se de mim. Jesus tem fome e sede de
almas. Do alto da cruz clamou: sítio!, tenho sede. Sede de nós, do nosso amor,
das nossas almas e de todas as almas que lhe devemos levar pelo caminho da
Cruz, que é o caminho da imortalidade e da glória do Céu.
Abeirou-se
da figueira, mas não encontrou senão folhas . É lamentável. Não acontecerá
assim também na nossa vida? Não haverá nela, infelizmente, falta de fé e de
vibração de humildade, ausência de sacrifícios e de obras? Não será que
apresentamos um cristianismo só de fachada e sem frutos? É terrível, porque
Jesus ordena: Nunca mais nasça fruto de ti. E, imediatamente, secou a figueira.
Entristece-nos esta passagem da Sagrada Escritura, ao mesmo tempo que, por
outro lado, nos anima a avivar a fé, a viver conformes à fé, para que Cristo
receba sempre algum lucro da nossa parte.
Não
nos enganemos. Nosso Senhor não depende nunca das nossas construções humanas.
Os projectos mais ambiciosos são, para Ele, brincadeiras de crianças. Ele quer
almas, quer amor. Quer que todos venham gozar do seu Reino, por toda a
eternidade. Temos de trabalhar muito na terra e temos de trabalhar bem, porque
essa ocupação corrente é a que devemos santificar. Mas nunca nos esqueçamos de
a realizar por Deus. Se trabalhássemos por nós mesmos, isto é, por orgulho, só
conseguiríamos produzir folhas e nem Deus nem os homens poderiam saborear, numa
árvore tão frondosa, a doçura dos frutos.
203
Então,
ao olharem para a figueira seca, os discípulos admiraram-se, dizendo: como
secou a figueira imediatamente?. Aqueles primeiros doze, que tinham presenciado
tantos milagres de Cristo, ficam estupefactos mais uma vez, porque a sua fé
ainda não era ardente. Por isso o Senhor afirma: Na verdade vos digo que, se
tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito a esta figueira,
mas ainda se disserdes a este monte: sai daí e lança-te ao mar, assim se fará.
Jesus Cristo estabelece esta condição: que vivamos da fé, porque depois seremos
capazes de remover montanhas. E há tantas coisas a remover... no mundo e, antes
de mais, no nosso coração. Tantos obstáculos à graça! Tenhamos, pois, fé. Fé
com obras, fé com sacrifício, fé com humildade. Na realidade, a fé converte-nos
em criaturas omnipotentes: E tudo o que pedirdes com fé na oração o recebereis.
O
homem de fé sabe julgar bem as questões terrenas, sabe que a vida terrena é, no
dizer de Santa Teresa, uma má noite numa má pousada. Renova a sua convicção de
que a nossa existência na terra é tempo de trabalho e de luta, tempo de
purificação para saldar a dívida para com a justiça divina, pelos nossos
pecados. Sabe também que os bens temporais são meios e usa-os generosamente,
heroicamente.
204
A
fé não serve só para ser pregada, mas especialmente para ser posta em prática.
Talvez nos faltem as forças com frequência. Nesses momentos - e de novo nos
socorremos do Santo Evangelho - comportai-vos como aquele pai do rapaz
lunático. Deseja a salvação do filho, espera que Cristo o cure, mas não acaba
de acreditar em tamanha felicidade. Por isso Jesus, que sempre pede fé,
conhecendo as perplexidades daquela alma, antecipa-se: se tu podes crer, tudo é
possível ao que crê. Tudo é possível: omnipotentes! Mas com fé. Aquele homem
sente que a sua fé vacila, teme que essa escassez de confiança impeça que o seu
filho recupere a saúde. E chora. Que não nos envergonhemos deste pranto: é
fruto do amor de Deus, da oração contrita, da humildade. E o pai do menino,
banhado em lágrimas, exclamou: eu creio, Senhor, mas ajuda a minha
incredulidade .
Ao
terminar agora esta nossa meditação, digamos-lhe com as mesmas palavras:
Senhor, eu creio! Eduquei-me na tua fé, decidi seguir-te de perto. Ao longo da
minha vida, implorei insistentemente a tua misericórdia. E, repetidas vezes
também, pareceu-me impossível que pudesses fazer tantas maravilhas no coração
dos teus filhos. Senhor, creio! Mas ajuda-me, para que eu creia mais e melhor!
Dirigimos
igualmente uma súplica a Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, Mestra de fé:
Bem-aventurada tu que creste, porque se hão-de cumprir as coisas que da parte
do Senhor te foram ditas.
205
Há
já bastantes anos, com uma convicção que crescia de dia para dia, escrevi:
Espera tudo de Jesus; tu nada tens, nada vales, nada podes. - Ele agirá, se
n'Ele te abandonares. Passou o tempo e aquela minha convicção tornou-se ainda
mais forte, mais profunda. Tenho visto, em muitas vidas, que a esperança em
Deus acende maravilhosas fogueiras de amor, com um fogo que mantém palpitante o
coração, sem desânimos, sem desfalecimentos, embora ao longo do caminho se
sofra e, às vezes, se sofra deveras.
Enquanto
lia o texto da Epístola da Missa, comovi-me e imagino que vos aconteceu o
mesmo. Compreendia que Deus nos ajudava, com as palavras do Apóstolo, a
contemplar a teia divina das três virtudes teologais, que compõem o fundo sobre
o qual se tece a existência autêntica do homem cristão, da mulher cristã.
Ouvi
de novo S. Paulo: Justificados pela fé, tenhamos paz com Deus, por meio de
Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem temos acesso pela fé a esta graça, na qual
permanecemos firmes e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus.
Mas não nos gloriamos somente nisto; alegramo-nos também nas tribulações,
sabendo que a tribulação exercita a paciência, a paciência a prova e a prova a
esperança; esperança que não engana, porque a caridade de Deus foi derramada em
nossos corações pelo Espírito Santo.
206
Aqui,
na presença de Deus, que nos está a presidir do sacrário - como fortalece esta
proximidade real de Jesus! - vamos meditar hoje esse suave dom de Deus, a
esperança, que enche de alegria as nossas almas, spe gaudentes, jubilosos,
porque - se formos fiéis - nos aguarda o Amor infinito.
Não
esqueçamos jamais que para todos - para cada um de nós, portanto - só há dois
modos de estar no mundo: ou se vive vida divina, lutando para agradar a Deus,
ou se vive vida animal, mais ou menos humanamente ilustrada, quando se
prescinde d'Ele. Nunca concedi demasiado peso aos santões que fazem alarde de
não serem crentes: quero-lhes realmente muito, como a todos os homens, meus
irmãos; admiro a sua boa vontade, que em determinados aspectos pode mostrar-se
heróica, mas tenho pena deles, porque têm a enorme desgraça de lhes faltar a
luz e o calor de Deus e a inefável alegria da esperança teologal.
Um
cristão sincero, coerente com a sua fé, não actua senão com os olhos em Deus,
com visão sobrenatural; trabalha neste mundo, que ama apaixonadamente, metido
nos afãs da terra, com o olhar no Céu. É S. Paulo quem o confirma: quæ sursum
sunt quærite; buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de
Deus; saboreai as coisas do Céu, não as da terra. Porque estais mortos - para
as coisas terrenas, pelo Baptismo - e a vossa vida está escondida com Cristo em
Deus.
207
Esperança terrena e
esperança cristã
Com
monótona cadência sai da boca de muitos o ritornello já tão vulgar, de que a
esperança é a última coisa que se perde; como se a esperança fosse um apoio
para continuarmos a deambular sem complicações, sem inquietações de
consciência; ou como se fosse um expediente que permite adiar sine die a
oportuna rectificação do procedimento, a luta para alcançar metas nobres e,
sobretudo, o fim supremo de nos unirmos com Deus.
Eu
diria que esse é o caminho para confundir a esperança com a comodidade. No
fundo, não há ânsias de conseguir um verdadeiro bem, nem espiritual, nem
material legítimo; a mais alta pretensão de alguns reduz-se a evitar o que
poderia alterar a tranquilidade - aparente - de uma existência medíocre. Com
uma alma tímida, acanhada, preguiçosa, a criatura enche-se de egoísmos subtis e
conforma-se com o facto de os dias, os anos decorrerem sine spe nec metu, sem
aspirações que exijam esforço, sem os perigos da peleja: o que importa é evitar
o risco do desaire e das lágrimas. Que longe se está de obter uma coisa, se se
malogrou o desejo de a possuir, por temor das exigências que a sua conquista
comporta!
Também
não falta a atitude superficial dos que - inclusive com visos de afectada
cultura ou de ciência - compõem poesia fácil com a esperança. Incapazes de se
enfrentarem sinceramente com a sua intimidade e de se decidirem pelo bem,
limitam a esperança a uma ilusão, a um sonho utópico, ao simples consolo ante
as angústias de uma vida difícil. A esperança - falsa esperança! -
transforma-se para estes numa frívola veleidade que a nada conduz.
208
Mas
se abundam os temerosos e os frívolos, nesta nossa terra muitos homens rectos, impelidos
por um nobre ideal - ainda que sem motivo sobrenatural, por filantropia -
afrontam toda a espécie de privações e consomem-se generosamente a servir os
outros, a ajudá-los nos seus sofrimentos ou nas suas dificuldades. Sinto-me
sempre levado a respeitar, e mesmo a admirar a tenacidade de quem trabalha
decididamente por um ideal limpo. No entanto, considero minha obrigação
recordar que tudo o que iniciamos aqui, se é empresa exclusivamente nossa,
nasce com o selo da caducidade. Meditai as palavras da Escritura: contemplei
tudo o que as minhas mãos tinham feito e as canseiras que tive ao fazê-lo e vi
que tudo era vaidade e vento que passa e que nada havia de proveitoso debaixo
do sol.
Esta
precariedade não sufoca a esperança. Pelo contrário, quando reconhecemos a
pequenez e a contingência das iniciativas terrenas, o trabalho abre-se à
autêntica esperança que eleva toda a actividade humana e a converte em lugar de
encontro com Deus. Essa tarefa é assim iluminada com uma luz perene, que afasta
as trevas das desilusões. Mas se transformarmos os projectos temporais em metas
absolutas, suprimindo do horizonte a morada eterna e o fim para que fomos
criados - amar e louvar o Senhor e possuí-lo depois no Céu - os intentos mais
brilhantes transformam-se em traições e inclusive em instrumento para envilecer
as criaturas. Recordai a sincera e famosa exclamação de Santo Agostinho, que
tinha experimentado tantas amarguras enquanto não conhecia Deus e procurava
fora d'Ele a felicidade: fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está
inquieto enquanto não descansa em Ti!. Talvez não exista nada mais trágico na
vida dos homens do que os enganos padecidos pela corrupção ou pela falsificação
da esperança, apresentada com uma perspectiva que não tem como objecto o amor
que sacia sem saciar.
A
mim, e desejo que a vós suceda o mesmo, a segurança de me sentir - de me saber
- filho de Deus enche-me de verdadeira esperança que, por ser virtude
sobrenatural, ao ser infundida nas criaturas, se acomoda à nossa natureza e é
também virtude muito humana. Sou feliz com a certeza do Céu que alcançaremos,
se permanecermos fiéis até ao fim; com a felicidade que nos chegará, quoniam
bonus, porque o meu Deus é bom e é infinita a sua misericórdia. Esta convicção
incita-me a compreender que só o que está marcado com o selo de Deus revela o
sinal indelével da eternidade e tem um valor imperecível. Por isso, a esperança
não me separa das coisas desta terra, antes me aproxima dessas realidades de um
modo novo, cristão, que procura descobrir em tudo a relação da natureza, caída,
com Deus Criador e com Deus Redentor.
(cont)
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