11/11/2020

Novíssimos

 


PURGATÓRIO

 

Contemplar o mistério

 

O Purgatório é uma misericórdia de Deus, para limpar os defeitos dos que desejam identificar-se com Ele. 

Não queiras fazer nada para ganhar mérito nem por medo das penas do purgatório: desde agora e para sempre, empenha-te em fazer tudo, até as coisas mais pequenas, para dar gosto a Jesus. 

"Esta é a vossa hora, e o poder das trevas". - Então, o homem pecador tem a sua hora? - Sim... E Deus, a sua eternidade! 

 

Pequena agenda do cristão

 


Quarta-Feira

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Nunca perder o ponto de mira sobrenatural

 



Um remédio contra essas tuas inquietações: ter paciência, rectidão de intenção e olhar as coisas com perspectiva sobrenatural.. (Sulco, 853)

 

Procuremos, portanto, nunca perder o ponto de mira sobrenatural, vendo Deus por detrás de cada acontecimento, seja ele agradável ou desagradável, quer nos cause satisfação... ou desconsolo pela morte de um ser querido. Antes de mais, a conversa com o nosso Pai Deus, procurando o Senhor no centro da nossa alma. Não é coisa que possa considerar-se como uma miudeza, de pouca monta: é uma manifestação clara de vida interior constante, de um autêntico diálogo de amor. Será uma prática que não nos produzirá nenhuma deformação psicológica, porque – para um cristão – deve ser tão natural como o bater do coração. (Amigos de Deus, 247)

Leitura espiritual 11 Novembro

 

Evangelho

 

 

Jo 10, 1-21

 

O bom pastor

 

1 «Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lado, é um ladrão e salteador. 2 Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3 A esse o porteiro abre-a e as ovelhas escutam a sua voz. E ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes e fá-las sair. 4 Depois de tirar todas as que são suas, vai à frente delas, e as ovelhas seguem-no, porque reconhecem a sua voz. 5 Mas, a um estranho, jamais o seguiriam; pelo contrário, fugiriam dele, porque não reconhecem a voz dos estranhos.» 6 Jesus propôs-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que lhes dizia. 7 Então, Jesus retomou a palavra: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. 8 Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. 9 Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. 10 O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. 11 Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. 12 O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, 13 porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. 14 Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, 15 assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas. 16 Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor. 17 É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. 18 Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai.» 19 Estas palavras tornaram a provocar desentendimento entre os judeus. 20 Muitos deles comentavam: «Ele tem demónio e está louco. Porque lhe dais ouvidos?» 21 Outros diziam: «Estas palavras não são dum possesso. Como é que um demónio pode dar vista aos cegos?»

 


Cristo que passa

 

182

          

Reinar servindo

 

Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não nos tornaremos dominadores; seremos servidores de todos os homens.

Serviço.

Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele, todos os que foram redimidos com o seu sangue.

Se os cristãos soubessem servir! Vamos confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a realizar esta tarefa de serviço, porque só servindo é que poderemos conhecer e amar Cristo e dá-Lo a conhecer e conseguir que os outros O amem mais.

 

Como o mostraremos às almas?

Com o exemplo: que sejamos testemunho seu, com a nossa voluntária servidão a Jesus Cristo em todas as nossas actividades, porque É O Senhor de todas as realidades da nossa vida, porque É a única e a última razão da nossa existência.

Depois, quando já tivermos prestado esse testemunho do exemplo, seremos capazes de instruir com a palavra, com a doutrina.

Assim procedeu Cristo: coepit facere et docere, primeiro ensinou com obras, e só depois com a sua pregação divina.

 

Servir os outros, por Cristo, exige que sejamos muito humanos.

Se a nossa vida é desumana, Deus nada edificará nela, porque habitualmente não constrói sobre a desordem, sobre o egoísmo, sobre a prepotência.

Precisamos de compreender todas as pessoas, temos de conviver com todos, temos de desculpar todos, temos de perdoar a todos. Não diremos que o injusto é o justo, que a ofensa a Deus não é ofensa a Deus, que o mau é bom.

Todavia, perante o mal, não responderemos com outro mal, mas com a doutrina clara e com a boa acção; afogando o mal em abundância de bem. Assim Cristo reinará na nossa alma e nas almas dos que nos rodeiam.

 

Alguns procuram construir a paz no mundo sem porem amor de Deus nos seus corações, sem servirem por amor de Deus as criaturas. Como será possível realizar desse modo uma missão de paz?

A paz de Cristo é a paz do reino de Cristo; e o reino de Nosso Senhor há-de alicerçar-se no desejo de santidade, na disposição humilde para receber a graça, numa, esforçada acção de justiça, num divino derramamento de amor.

 

183

         

Cristo no cume das actividades humanas

 

Isto é realizável, não é um sonho inútil.

Se nós, homens, nos decidíssemos a albergar nos nossos corações o amor de Deus!

Cristo, Senhor Nosso, foi crucificado e, do alto da Cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens. Jesus Cristo lembra a todos: «et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum», se vós Me puserdes no cume de todas as actividades da Terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo meu testemunho naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno, omnia traham ad meipsum, tudo atrairei a Mim.

O Meu Reino entre vós será uma realidade!

 

Cristo, Nosso Senhor, continua empenhado nesta sementeira de salvação dos homens e de toda a Criação, deste nosso mundo, que é bom, porque saiu bom das mãos de Deus.

Foi a ofensa de Adão, o pecado do orgulho humano, que quebrou a harmonia divina da criação.

 

Mas Deus Pai, quando, chegou a plenitude dos tempos, enviou o seu Filho Unigénito, que por obra do Espírito Santo encarnou em Maria sempre Virgem, para restabelecer a paz; para que, redimindo o homem do pecado, adoptionem filiorum reciperemus fôssemos constituídos filhos de Deus, capazes de participar na intimidade divina, e assim fosse concedido a este homem novo, a esta nova estirpe dos filhos de Deus a libertação de todo o universo da desordem, restaurando todas as coisas em Cristo, que as reconciliou com Deus.

 

A isto fomos chamados, nós, os cristãos; esta é a nossa tarefa apostólica e a ânsia que nos deve queimar a alma: conseguir que seja realidade o reino de Cristo, que não haja mais ódios nem mais crueldades, que difundamos na Terra o bálsamo forte e pacífico do amor. Peçamos hoje ao nosso Rei que nos faça colaborar humilde e fervorosamente no divino propósito de unir o que está quebrado, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem desordenou, de levar ao seu fim aquilo que se desencaminha, de reconstruir a concórdia de tudo o que foi criado.

 

Abraçar a fé cristã é comprometer-se a continuar entre as criaturas a missão de Jesus.

Temos de ser, cada um de nós, alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo.

Só assim poderemos realizar esse empreendimento grande, imenso, interminável: santificar a partir de dentro todas as estruturas temporais, levando até elas o fermento da Redenção.

 

Nunca falo de política.

Não penso na tarefa dos cristãos na terra como o nascer duma corrente político-religiosa - seria uma loucura - nem mesmo com o bom propósito de difundir o espírito de Cristo em todas as actividades dos homens.

O que é preciso pôr em Deus é o coração de cada um, seja ele quem for.

Procuremos falar a todos os cristãos, para que no lugar onde estiverem - em circunstâncias que não dependem apenas da sua posição na Igreja ou na vida civil, mas do resultado das mutáveis situações históricas - saibam dar testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professam.

 

O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem.

Se aceita que no seu coração habite Cristo, que reine Cristo, em todo o seu trabalho humano encontrará - bem forte - a eficácia Senhor.

Não tem qualquer importância que essa ocupação seja, como costuma dizer-se, alta ou baixa, porque um máximo humano pode ser, aos olhos de Deus, uma baixeza, e o que chamamos baixo ou modesto pode ser um máximo cristão de santidade e de serviço.

 

184

         

A liberdade pessoal

 

O cristão, quando trabalha, como é sua obrigação, não deve marginar nem iludir as exigências próprias do que é natural.

Se com a expressão abençoar as actividades humanas se entendesse anular ou escamotear a sua dinâmica própria, negar-me-ia a usar essas palavras.

Pessoalmente, nunca me consegui convencer que as actividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como um letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece, embora respeite a opinião contrária, que se corre o perigo de usar em vão o santo nome da nossa fé e, além disso, porque em certas ocasiões, a etiqueta católica se utilizou até para justificar atitudes e actuações que não são às vezes sequer honradamente humanas.

 

Se o mundo e tudo o que nele há - menos o pecado - é bom, porque é obra de Deus Nosso Senhor, o cristão, lutando continuamente por evitar as ofensas a Deus - uma luta positiva de amor - há-de dedicar-se a tudo aquilo que é terreno, ombro a ombro com os outros cidadãos, e tem obrigação de defender todos os bens derivados da dignidade da pessoa.

 

Existe um bem que deverá sempre procurar dum modo especial - o da liberdade pessoal.

Só se defende a liberdade individual dos outros com a correspondente responsabilidade pessoal, poderá, com honradez humana e cristã, defender da mesma maneira a sua.

Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos deu gratuitamente uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra maravilhosa dádiva humana, a liberdade pessoal, que exige de nós - para que não se corrompa, convertendo-se em libertinagem - integridade, empenho sério por desenvolver a nossa conduta dentro da lei divina, porque onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade.

 

O Reino de Cristo é de liberdade: nele não existem outros servos além daqueles que livremente se deixaram prender por Amor a Deus. Bendita escravidão de amor, que nos faz livres!

Sem liberdade, não podemos corresponder à graça; sem liberdade, não podemos entregar-nos livremente ao Senhor pela razão mais sobrenatural: porque nos apetece.

 

Alguns daqueles que me escutam já me conhecem há muitos anos. Podeis testemunhar que durante toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade.

Procurei-a e procuro-a, por toda a terra, como Diógenes procurava um homem.

E amo-a cada vez mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesoiro que nunca saberemos apreciar suficientemente.

 

Quando falo de liberdade pessoal, não me refiro com esta desculpa a outros problemas talvez muito legítimos, que não correspondem ao meu ofício de sacerdote.

Sei que não me corresponde tratar de temas seculares e transitórios, que pertencem à esfera do temporal e civil, matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens.

Sei também que os lábios do sacerdote, evitando a todo o transe parcialidades humanas, hão-de abrir-se apenas para conduzir as almas a Deus, à Sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor por nos sabermos Seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem excepção.

 

Celebramos hoje a festa de Cristo Rei.

E não saio do meu ofício de sacerdote quando digo que, se alguma pessoa entendesse o reino de Cristo como um programa político, não teria aprofundado como devia na finalidade da Fé e estaria a um passo de sobrecarregar as consciências com pesos que não são os de Jesus porque o seu jugo é suave e o seu peso é leve.

Amemos de verdade todos os homens, amemos a Cristo acima de tudo e então não teremos outro remédio senão amar a legítima liberdade dos outros, numa pacífica e justa convivência.

 

185

         

Serenos, filhos de Deus

 

Talvez me façais a seguinte sugestão: mas poucos querem ouvir isto e, menos ainda, pô-lo em prática.

Consta-me que a liberdade é uma planta forte e sã, que se aclimata mal entre as pedras, espinhos ou nos caminhos calcados pelas pessoas. Isto já nos tinha sido anunciado, mesmo antes de Cristo vir à terra.

 

Recordai o Salmo número dois: “porque razão se amotinam as nações e os povos maquinam planos vãos? Os reis da terra sublevam-se e os príncipes coligam-se contra o Senhor e contra o seu Messias”.

Vedes?

Nada de novo.

Opunham-se a Cristo antes de que este nascesse; opuseram-se-Lhe enquanto os Seus pés pacíficos percorriam os caminhos da Palestina; perseguiram-nO depois e agora, atacando os membros do Seu Corpo Místico e real.

Porquê tanto ódio, porquê este encarniçar-se contra a cândida simplicidade, porquê este universal esmagamento da liberdade de cada consciência?

 

Quebremos as suas cadeias, e sacudamos de nós o seu jugo.

Quebram o jugo suave, lançam fora a sua carga, maravilhosa carga de santidade e de justiça, de graça, de amor e de paz.

Enfurecem-se perante o amor, riem-se da bondade inerme dum Deus que renuncia ao uso das suas legiões de anjos para Se defender.

Se o Senhor admitisse um arranjo, se sacrificasse uns poucos de inocentes para satisfazer a maioria de culpados, ainda poderiam tentar algum entendimento com Ele.

Mas não é esta a lógica de Deus.

O nosso Pai é verdadeiramente pai, e está disposto a perdoar a inumeráveis fautores do mal, contanto que haja só dez justos.

Os que se movem pelo ódio, não podem entender esta misericórdia, e afincam-se na sua aparente impunidade terrena, alimentando-se da injustiça.

 

Aquele que habita nos céus ri-se, o Senhor zomba eles.

Ele fala-lhes então na sua ira, e os aterroriza no seu furor. Que legítima é a ira de Deus e que justo o seu furor!

E que grande também a sua clemência!

 

Eu, porém, fui por Ele constituído Rei sobre Sião, seu monte santo, para anunciar os seus preceitos.

O Senhor disse-me: “Tu és meu filho, eu gerei-te hoje”.

A misericórdia de Deus Pai deu-nos como Rei o Seu Filho. Quando ameaça, enternece-Se; anuncia a Sua ira e entrega-nos o Seu Amor. Tu és meu filho: dirige-se a Cristo e dirige-se a ti e a mim, se nos decidimos a ser alter Christus, ipse Christus.

 

As palavras não podem seguir o coração, que se emociona diante da bondade de Deus: tu és Meu filho.

Não um estranho, não um servo benevolamente tratado, não um amigo, que já seria muito.

Filho!

Concede-nos via livre para que vivamos com Ele a piedade do filho e, atrever-me-ia a afirmar, também a desvergonha do filho dum Pai que é incapaz de lhe negar o que quer que seja.

 

 

Virtudes

 



Fidelidade 5

Deus é bom

Para ser autenticamente fiéis, também nas circunstâncias difíceis, temos que nos aperceber verdadeiramente de que Deus é infinitamente bom. Esta maravilha descobre-se na oração, nos sacramentos, no trato com os outros. Há um primado absoluto da graça, dom do Deus de misericórdia, que vivifica toda a fidelidade: “nos diligimus, quoniam ipse prior dilexit nos(1 Jo 4, 19), nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. Ama-nos Deus Pai amantíssimo, que nos enviou o seu Filho Jesus. «Tanto amou Deus o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16).

A fidelidade fundamenta-se no amor de Deus e é a perfeição do amor. O amor da nossa juventude, que com a graça de Deus lhe demos generosamente, não o vamos tirar com o passar dos anos. A fidelidade é a perfeição do amor: no fundo de todos os dissabores que pode haver na vida de uma alma entregue a Deus, há sempre um ponto de corrupção e de impureza. Se a fidelidade é inteira e sem quebra, será alegre e indiscutida (São Josemaria, Carta 24-III-1931, 45).

UM AMIGO QUE É MAIS FIEL PODE, COM A SUA FIDELIDADE, FAZER FIEL O OUTRO QUE, TALVEZ, NÃO O SEJA TANTO; E SE SE TRATA DE JESUS, ELE TEM, MAIS DO QUE NINGUÉM, O PODER DE FAZER FIÉIS OS SEUS AMIGOS. (PAPA FRANCISCO)

Diz o Senhor que o Espírito Santo acusará o mundo «de pecado, porque não crêem em Mim» (Jo 16,9). Podemos entender esta afirmação como referida não só ao facto de não crer que Jesus Cristo é Deus e homem verdadeiro, mas também ao “pecado” de não confiar plenamente no seu amor por nós. Talvez não cheguemos a incorporar plenamente na nossa vida essas palavras, algo misteriosas, de São Paulo: quod autem nunc vivo in carne, in fide vivo Filii Dei, qui dilexit me et tradidit seipsum pro me (Gal 2,20). É bom, pois, que nos perguntemos: a vida que vivo agora na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim?

Reflexão

 



Paz

 

Existem, portanto, dois tipos de paz: a que os homens são capazes de construir por si sós, e a que é dom de Deus; (…) a que vem imposta pelo poder das armas e a que nasce do coração.

A primeira é frágil e inssegura; poderia chamar-se uma mera aparência de paz porque se funda no medo e na desconfiança. A

 segunda, pelo contrário, é uma paz forte e duradoura porque, ao fundar-se na justiça e no amor, penetra no coração; é um dom que Deus concede aos que amam a Sua Lei (Cfr. Sal 119, 165).

 

(São João Paulo II,  Discuro à UNIV-86, Roma 24.03.1986)

10/11/2020

Novíssimos

 



PURGATÓRIO

 

3. O que é o purgatório? É para sempre?

 

Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, embora estejam certos da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, para alcançarem a santidade necessária para entrarem na alegria do céu. A Igreja chama purgatório a esta purificação final dos eleitos, que é completamente diferente do castigo dos condenados.

 

Este ensinamento apoia-se também na prática da oração pelos defuntos, de que a Escritura fala: “Por isso [Judas Macabeu] mandou fazer um sacrifício expiatório pelos mortos, para ficarem livres do pecado” (2 M 12, 46). Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios por eles, em particular o sacrifício eucarístico (cf. DS 856), para, uma vez purificados, poderem chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência pelos defuntos. [1]

 



[1] Catecismo da Igreja Católica, 1030-1032

Ao esquecimento de si mesmo chega-se pela oração

 


A maior parte dos que têm problemas pessoais, "têm-nos" pelo egoísmo de pensar em si próprios. (Forja, 310)

 

Cada um de vós, se quiser, pode encontrar o caminho que lhe for mais propício para este colóquio com Deus. Não me agrada falar de métodos nem de fórmulas, porque nunca fui amigo de espartilhar ninguém; tenho procurado animar todas as pessoas a aproximarem-se do Senhor, respeitando cada alma tal como ela é, com as suas próprias características. Pedi-lhe vós que meta os seus desígnios na nossa vida: e não apenas na nossa cabeça, mas no íntimo do nosso coração e em toda a nossa actividade externa. Garanto-vos que deste modo evitareis grande parte dos desgostos e das penas do egoísmo e sentir-vos-eis com força para propagar o bem à vossa volta. Quantas contrariedades desaparecem, quando interiormente nos colocamos muito próximos deste nosso Deus, que nunca nos abandona! Renova-se com diversos matizes esse amor de Jesus pelos seus, pelos doentes, pelos entrevados, quando pergunta: que se passa contigo? Comigo... E, logo a seguir, luz ou, pelo menos, aceitação e paz.

Ao convidar-te para fazeres essas confidências com o Mestre, refiro-me especialmente às tuas dificuldades pessoais, porque a maioria dos obstáculos para a nossa felicidade nascem de uma soberba mais ou menos oculta. Pensamos que temos um valor excepcional, qualidades extraordinárias. Mas, quando os outros não são da mesma opinião, sentimo-nos humilhados. É uma boa ocasião para recorrer à oração e para rectificar, com a certeza de que nunca é tarde para mudar a rota. Mas é muito conveniente iniciar essa mudança de rumo quanto antes. (Amigos de Deus, 249).

 

Leitura espiritual 10 Novembro

 Evangelho

 

Jo IX, 1-23

 

Cura de um Cego de nascença

 

1 Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2 Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: «Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?» 3 Jesus respondeu: «Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. 4 Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. 5 Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.» 6 Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama 7 e disse-lhe: «Vai, lava-te na piscina de Siloé» - que quer dizer Enviado. Ele foi, lavou-se e regressou a ver. 8 Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam: «Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?» 9 Uns diziam: «É ele mesmo!» Outros afirmavam: «De modo nenhum. É outro parecido com ele.» Ele, porém, respondia: «Sou eu mesmo!» 10 Então, perguntaram-lhe: «Como foi que os teus olhos se abriram?» 11 Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’ Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» 12 Perguntaram-lhe: «Onde está Ele?» Respondeu: «Não sei.»

 

Inquérito de oposição dos judeus

 

13 Levaram aos fariseus o que fora cego. 14 O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado. 15 Os fariseus perguntaram-lhe, de novo, como tinha começado a ver. Ele respondeu-lhes: «Pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver.» 16 Diziam então alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.» Outros, porém, replicavam: «Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?» Havia, pois, divisão entre eles. 17 Perguntaram, então, novamente ao cego: «E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?» Ele respondeu: «É um profeta!» 18 Ora os judeus não acreditaram que aquele homem tivesse sido cego e agora visse, até que chamaram os pais dele. 19 E perguntaram-lhes: «É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então como é que agora vê?» 20 Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21 mas não sabemos como é que agora vê, nem quem foi que o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si.» 22 Os pais responderam assim por terem receio dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Messias. 23 Por isso é que os pais disseram: ‘Já tem idade, perguntai-lhe a ele’. 24 Chamaram, então, novamente o que fora cego, e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!» 25 Ele, porém, respondeu: «Se é um pecador, não sei. Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo.» 26 Eles insistiram: «O que é que Ele te fez? Como é que te pôs a ver?» 27 Respondeu-lhes: «Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?» 28 Então, injuriaram-no dizendo-lhe: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! 29 Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a esse, não sabemos donde é!» Replicou-lhes o homem: 30 «Ora isso é que é de espantar: que vós não saibais donde Ele é, e me tenha dado a vista! 31 Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. 32 Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. 33 Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada.» 34 Responderam-lhe: «Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?» E puseram-no fora.

 

Jesus revela-Se como Filho de Deus ao cego curado

 

35 Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e, quando o encontrou, disse-lhe: «Tu crês no Filho do Homem?» 36 Ele respondeu: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?» 37 Disse-lhe Jesus: «Já o viste. É aquele que está a falar contigo.» 38 Então, exclamou: «Eu creio, Senhor!» E prostrou-se diante dele. 39 Jesus declarou: «Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.» 40 Alguns fariseus que estavam com Ele ouviram isto e perguntaram-lhe: «Porventura nós também somos cegos?» 41 Jesus respondeu-lhes: «Se fôsseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.»

 

 


Cristo que passa

172

         

O mistério do sacrifício silencioso

 

Mas reparai: se Deus quis, por um lado exaltar a Sua Mãe, por outro, durante a sua vida terrena, não foram poupados a Maria a experiência da dor, nem o cansaço do trabalho, nem o claro-escuro da fé. Àquela mulher do povo, que, certo dia, irrompe em louvores a Jesus, exclamando «Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado», o Senhor responde: «Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus, e a põem em prática».

Era o elogio da Sua Mãe, do seu fiat, do faça-se, sincero, entregue, cumprido até às últimas consequências, que não se manifestou em acções aparatosas, mas no sacrifício escondido e silencioso de cada dia.

 

Ao meditar nestas verdades, percebemos um pouco mais a lógica de Deus.

Compreendemos que o valor sobrenatural da nossa vida não depende de que se tornem realidade as grandes façanhas que por vezes forjamos com a imaginação, mas da aceitação fiel da vontade divina, da disposição generosa nos pequenos sacrifícios diários,

 

Para sermos divinos, para nos "endeusarmos", temos de começar por ser muito humanos, vivendo face a Deus dentro da nossa condição de homens correntes, santificando esta aparente pequenez.

Assim viveu Maria.

A cheia de graça, a que é objecto das complacências de Deus, a que está acima dos anjos e dos santos teve uma existência normal.

Maria é uma criatura como nós, com um coração como o nosso, capaz de gozo e de alegrias, de sofrimento e de lágrimas.

Antes de Gabriel lhe comunicar o querer de Deus, não sabe que tinha sido escolhida desde toda a eternidade para ser Mãe do Messias. Considera-se a si mesma cheia de baixeza; por isso, reconhece logo, com profunda humildade, que «fez em mim grandes coisas Aquele que é Todo-poderoso».

 

A pureza, a humildade e a generosidade de Maria contrastam com a nossa miséria, com o nosso egoísmo.

É razoável que, depois de nos apercebermos disso, nos sintamos movidos a imitá-la.

Somos criaturas de Deus, como Ela, e basta que nos esforcemos por ser fiéis para que também em nós o Senhor faça grandes coisas.

Não será obstáculo a nossa pequenez, porque Deus escolhe o que vale pouco, para que assim brilhe melhor a potência do Seu amor.

 

173

        

Imitar Maria

 

A nossa Mãe é modelo de correspondência à graça e, ao contemplarmos a sua vida, o Senhor dar-nos-á luz para que saibamos divinizar a nossa existência vulgar.

Durante o ano, quando celebramos as festas marianas, e cada dia em várias ocasiões, nós, os cristãos, pensamos muitas vezes na Virgem. Se aproveitamos esses instantes, imaginando como se comportaria a nossa Mãe nas tarefas que temos de realizar, iremos aprendendo a pouco e pouco, até que acabaremos por nos parecermos com Ela, como os filhos se parecem com a sua mãe.

 

Imitar, em primeiro lugar, o seu amor.

A caridade não se limita a sentimentos: há-de estar presente nas palavras e, sobretudo, nas obras.

A Virgem não só disse fiat, mas também cumpriu essa decisão firme e irrevogável a todo o momento.

Assim, também nós, quando o amor de Deus nos ferir e soubermos o que Ele quer, devemos comprometer-nos a ser fiéis, leais, mas a sê-lo efectivamente.

Porque «nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos Céus, esse entrará no reino dos Céus».

 

Temos de imitar a sua natural e sobrenatural elegância.

Ela é uma criatura privilegiada na História da Salvação, porque em Maria «O Verbo Se fez carne e habitou entre nós».

Foi testemunha delicada, que soube passar inadvertida; não foi amiga de receber louvores, pois não ambicionou a sua própria glória.

Maria assiste aos mistérios da infância de seu Filho, mistérios, se assim se pode dizer, cheios de normalidade; mas à hora dos grandes milagres e das aclamações das massas desaparece.

Em Jerusalém, quando Cristo - montado sobre um jumentinho - é vitoriado como Rei, não está Maria.

Mas reaparece junto da Cruz, quando todos fogem.

Este modo de se comportar tem o sabor, sem qualquer afectação, da grandeza, da profundidade, da santidade da sua alma!

 

Procuremos aprender, seguindo também o seu exemplo de obediência a Deus, numa delicada combinação de submissão e de fidalguia. Em Maria, nada existe da atitude das virgens néscias, que obedecem, sim, mas como insensatas.

Nossa Senhora ouve com atenção o que Deus quer, pondera aquilo que não entende, pergunta o que não sabe.

Imediatamente a seguir, entrega-se sem reservas ao cumprimento da vontade divina: «eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa palavra».

Vedes esta maravilha?

Santa Maria, mestra de toda a nossa conduta, ensina-nos agora que a obediência a Deus não é servilismo, não subjuga a consciência, pois move-nos interiormente a descobrirmos a liberdade dos filhos de Deus.

 

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A escola da oração

 

O Senhor ter-vos-á feito descobrir muitos outros aspectos da correspondência fiel da Santíssima Virgem, que por si mesmos já são um convite para que os tomemos como modelo: a sua pureza, a sua humildade, a sua fortaleza, a sua generosidade, a sua fidelidade...

Eu gostaria de falar sobre um aspecto que engloba todos os outros, porque é o clima do progresso espiritual, isto é, a vida de oração.

 

Para aproveitar a graça que nos concede a Nossa Mãe no dia de hoje e para secundar também, em qualquer momento, as inspirações do Espírito Santo, pastor das nossas almas, devemos estar seriamente comprometidos numa actividade que nos leve a ter intimidade com Deus.

Não podemos esconder-nos no anonimato, porque a vida interior, se não for um encontro pessoal com Deus, não existe.

A superficialidade não é cristã. Admitir a rotina, na nossa luta ascética, equivale a assinar a certidão de óbito da alma contemplativa. Deus procura-nos um a um, e precisamos de Lhe responder um a um: “eis-me aqui, pois Tu me chamaste”.

 

Oração, sabêmo-lo todos, é falar com Deus.

É possível, porém, que alguém pergunte: falar, de quê?

Do que há-de ser, senão das coisas de Deus e das que enchem o nosso dia?

Do nascimento de Jesus, do Seu caminhar por este mundo, da Sua vida oculta e da Sua pregação, dos Seus milagres, da Sua Paixão Redentora, da Sua Cruz e da Sua Ressurreição...

E na presença de Deus, Uno e Trino, tendo por Medianeira Santa Maria e por advogado São José, Nosso Pai e Senhor - a quem tanto amo e venero - falaremos também do nosso trabalho de todos os dias, da família, das relações de amizade, dos grandes projectos e das pequenas coisas sem importância.

 

O tema da minha oração é o tema da minha vida.

Eu faço assim.

E à vista da minha situação concreta, surge naturalmente o propósito, determinado e firme, de mudar, de melhorar, de ser mais dócil ao amor de Deus.

Um propósito sincero, concreto.

E não pode faltar o pedido urgente, mas confiado, de que o Espírito Santo nos não abandone, porque “Tu És, Senhor, a minha fortaleza”.

 

Somos cristãos correntes.

Trabalhamos em profissões muito diferentes. Toda a nossa actividade segue o caminho da normalidade.

Tudo se desenvolve com um ritmo previsível.

Os dias parecem iguais, inclusivamente monótonos...

Pois bem: esse programa, aparentemente tão comum, tem um valor divino e é algo que interessa a Deus, porque Cristo quer encarnar nos nossos afazeres, animando, a partir de dentro, até as nossas mais humildes acções.

 

Este pensamento é uma realidade sobrenatural, nítida, inequívoca; não é uma consideração destinada a consolar ou a confortar aqueles que, como nós, não conseguem gravar o seu nome no livro de oiro da História.

Cristo interessa-Se por esse trabalho que devemos realizar - uma vez e mil vezes - no escritório, na fábrica, na oficina, na escola, no campo, no exercício da profissão manual ou intelectual.

Interessa-Lhe também o sacrifício oculto que fazemos para não derramar sobre os outros o fel do nosso mau humor.

 

Recordai na oração estes temas, aproveitai-os precisamente para dizer a Jesus que O adorais, e assim, estareis a ser contemplativos no meio do mundo, no meio do ruído da rua, em toda a parte.

Essa é a primeira lição, na escola da intimidade com Jesus Cristo. Dessa escola, Maria é a melhor professora, porque a Virgem manteve sempre essa atitude de fé, de visão sobrenatural, perante tudo o que sucedia à sua volta: «conservava todas estas coisas ponderando-as no seu coração».

 

Supliquemos hoje a Santa Maria que nos torne contemplativos, que nos ajude a compreender os contínuos apelos que o Senhor nos dirige, batendo à porta do nosso coração.

Peçamos-lhe: Mãe, tu trouxeste ao mundo Jesus, que nos revela o amor do nosso Pai, Deus; ajuda-nos a reconhecê-lo, no meio das preocupações de cada dia; remove a nossa inteligência e a nossa vontade, para que saibamos escutar a voz de Deus, o impulso da graça.

 

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Mestra de apóstolos

 

Mas não penseis só em vós mesmos: dilatai o vosso coração até abarcar toda a Humanidade.

Pensai, antes de mais nada, naqueles que vos rodeiam - parentes, amigos, colegas - e vede como podereis levá-los a sentir mais profundamente a amizade com Nosso Senhor.

Se se trata de pessoas honradas e rectas, capazes de estarem habitualmente mais próximas de Deus, recomendai-as concretamente a Nossa Senhora.

E pedi também por tantas almas que não conheceis, porque todos os homens estão embarcados na mesma barca.

 

Sede leais, generosos.

Fazemos parte de um só corpo, do Corpo Místico de Cristo, da Igreja Santa, à qual estão chamados muitos que procuram nobremente a verdade.

Por isso temos obrigação estrita de manifestar aos outros a qualidade, a profundidade do amor de Cristo. O cristão não pode ser egoísta. Se o fosse, atraiçoaria a sua própria vocação. Não é de Cristo a atitude daqueles que se contentam com conservar a sua alma em paz - falsa paz é essa... - despreocupando-se dos bens dos outros.

Desde que aceitemos o significado autêntico da vida humana - que nos foi revelado pela fé - não podemos sentir-nos satisfeitos, persuadidos de que nos comportamos bem pessoalmente, se não fizermos com que os outros se aproximem de Deus, de maneira prática e concreta.

 

Há um obstáculo real para apostolado: o falso respeito, o temor de tocar temas espirituais, a suspeita de que uma tal conversa não agradará em determinados ambientes, o medo de ferir susceptibilidades.

Quantas e quantas vezes esse raciocínio não é mais do que a máscara do egoísmo!

Não se trata de ferir ninguém, mas, pelo contrário, de servir.

Embora sejamos pessoalmente indignos, a graça de Deus torna-nos instrumentos para sermos úteis aos outros, comunicando-lhes a boa nova de que Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.

 

E será lícito meter-se desse modo na vida das outras pessoas?

É necessário.

Cristo meteu-Se na nossa vida sem nos pedir autorização.

Assim procedeu também com os primeiros discípulos: «passando, ao longo do mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores».

E disse-lhes Jesus: «Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens». Cada um de nós mantém a liberdade, a falsa liberdade, de responder a Deus que não, como aquele jovem carregado de riquezas,de quem nos fala São Lucas.

Mas o Senhor e nós - se Lhe obedecermos: «ide e ensinai» - temos. o direito e o dever de falar de Deus, deste grande tema humano, porque o desejo de Deus é o mais profundo que nasce no coração do homem.

 

Santa Maria, Regina Apostolorum, rainha de todos aqueles que desejam dar a conhecer o amor de teu Filho: tu, que compreendes tão bem as nossas misérias, pede perdão pela nossa vida, pelo que em nós poderia ter sido fogo e não passou de cinzas, pela luz que deixou de iluminar, pelo sal que se tomou insípido.

Mãe de Deus, omnipotência suplicante: dá-nos juntamente com o perdão, a força de vivermos verdadeiramente de fé e de amor, para podermos levar aos outros a fé de Cristo.

 

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Uma única receita: santidade pessoal

 

O melhor caminho para nunca se perder a audácia apostólica, o afã eficaz de servir todos os homens, não é senão a plenitude da vida de fé, de esperança e de amor; numa palavra, a santidade.

Não conheço outra receita além desta: santidade pessoal.

 

Hoje, em união com a Igreja, celebramos o triunfo da Mãe, Filha e Esposa de Deus.

E assim como nos sentíamos contentes na Páscoa da Ressurreição do Senhor, três dias depois da sua morte, agora estamos alegres porque Maria, depois de acompanhar Jesus desde Belém até à Cruz, está junto dEle em corpo e alma, gozando da Sua glória por toda a eternidade.

Esta é a misteriosa economia divina: Nossa Senhora, participando plenamente na obra da nossa salvação, tinha de seguir de perto os passos de seu Filho - a pobreza de Belém, a vida oculta de trabalho ordinário em Nazaré, a manifestação da divindade em Caná da Galileia, as afrontas da Paixão, o Sacrifício divino da Cruz, e a bem-aventurança eterna do Paraíso.

 

Tudo isto nos afecta directamente, porque este itinerário sobrenatural há-de ser também o nosso caminho.

Maria mostra-nos que essa senda é factível, que é segura.

Ela precedeu-nos na via da imitação de Cristo e a glorificação da Nossa Mãe é a firme esperança da nossa salvarão.

Por isso lhe chamamos spes nostra e causa nostra laetitiae, esperança nossa e causa da nossa alegria.

 

Jamais podemos perder a esperança de chegar a ser santos, de aceitar os convites do Senhor, de ser perseverantes até ao final.

Deus, que em nós começou a obra da santificação, levá-la-á a cabo. Porque, se o Senhor É por nós, quem será contra nós?

Quem não poupou o Seu próprio Filho, mas por nós todos O entregou à morte, como não nos dará também com Ele todas as coisas?

 

Nesta festa, tudo convida à alegria.

A firme esperança na nossa santificação pessoal é um dom de Deus, embora o homem não possa permanecer passivo.

Recordai as palavras de Cristo: «se alguém quer vir após de mim, negue-se a si mesmo e tome a sua cruz de cada dia e siga-me». Vedes?

A cruz de cada dia.

Nulla dies sine cruce, nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o seu jugo.

Eis porque não quis deixar de vos recordar também que a alegria da Ressurreição é consequência da dor da Cruz.

 

Não temais, contudo, porque o próprio Senhor nos diz: «vinde a Mim todos, os que trabalhais e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu peso leve».

Glosa São João Crisóstomo: “Vinde não para prestar contas, mas para serdes livres dos vossos pecados; vinde, podeis procurar-me, pois eu não tenho necessidade da vossa glória, mas da vossa salvação... Não temais ao ouvir falar de jugo, porque é suave: não temais se falo de peso, porque é leve”.

 

O caminho da nossa santificarão pessoal passa, quotidianamente, pela Cruz: esse caminho não é desgraçado, porque O próprio Cristo nos ajuda e com Ele não há lugar para a tristeza.

In laetitia, nulla dies sine cruce!, gosto eu de repetir.

Com a alma trespassada de alegria, nenhum dia sem Cruz!