Santa Missa
A adoração e a acção de graças são
efeitos infalíveis do sacrifício da Missa que respeitam ao próprio Deus.
(R. Garrigou-Lagrange, O Salvador, pg. 457)
Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
Santa Missa
A adoração e a acção de graças são
efeitos infalíveis do sacrifício da Missa que respeitam ao próprio Deus.
(R. Garrigou-Lagrange, O Salvador, pg. 457)
Cartas
de São Paulo
Carta
aos Hebreus 4
1 Temamos,
pois, que, permanecendo a promessa de entrar no seu repouso, algum de vós seja
considerado excluído. 2 Porque, a nós como a eles, foi anunciada a Boa-Nova;
porém, a eles, a palavra escutada não valeu de nada, pois não permaneceram
unidos na fé aos que a tinham escutado. 3 Quanto a nós, os que acreditámos,
entraremos no descanso, como Ele disse: Tal como jurei na minha ira, não
entrarão no meu repouso. No entanto, as suas obras estavam realizadas desde a
fundação do mundo, 4 pois diz-se em qualquer parte, a propósito do sétimo dia:
Deus repousou no sétimo dia, de todas as suas obras; 5 e ainda, neste passo:
Não entrarão no meu repouso. 6 Assim, uma vez que a alguns está reservado
entrar nele, e que os que primeiro receberam a Boa-Nova não entraram por causa
da sua desobediência, 7 Ele fixa de novo um dia, hoje, dizendo por David,
depois de tanto tempo, como acima se disse: Hoje, se escutardes a sua voz, não
endureçais os vossos corações. 8 De facto, se Josué lhes tivesse dado o
repouso, Deus não teria falado de um outro dia posterior. 9 Por conseguinte,
permanece um repouso sabático para o povo de Deus. 10 O que entra no seu
repouso, repousa também das suas obras, tal como Deus repousou das suas. 11 Apressemo-nos,
então, a entrar nesse repouso para que ninguém caia no mesmo tipo de
desobediência. 12 Na verdade, a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada
que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das
articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração.
13 Não há nenhuma criatura oculta diante dele, mas todas as coisas estão a nu e
a descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas.
Jesus, Sumo Sacerdote misericordioso –
14
Uma vez que temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o
Filho de Deus, conservemos firme a fé que professamos. 15 De facto, não temos
um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele
foi provado em tudo como nós, excepto no pecado. 16 Aproximemo-nos, então, com
grande confiança, do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar
graça para uma ajuda oportuna.
Cristo
que passa
92
Viver
na intimidade com Jesus Cristo
Não
ama Cristo quem não ama a Santa Missa e quem não se esforça no sentido de a
viver com serenidade e sossego, com devoção e com carinho.
0
amor transforma aqueles que estão apaixonados em pessoas de sensibilidade fina
e delicada.
Leva-os
a descobrir, para que se não esqueçam de os pôr em prática, pormenores que são
por vezes mínimos, mas que trazem a marca de um coração apaixonado.
É
assim que devemos assistir à Santa Missa. Por este motivo, sempre pensei que
aqueles que querem ouvir uma missa rápida e atabalhoada demonstram com essa
atitude, já de si pouco elegante, que não conseguiram aperceber-se do
significado do Sacrifício do altar.
O
amor a Cristo, que Se oferece por nós, anima-nos a saber encontrar, uma vez
terminada a Santa Missa, alguns minutos de acção de graças pessoal e íntima,
que prolonguem no silêncio do coração essa outra acção de graças que é a
Eucaristia.
Como
poderemos dirigir-nos a Ele, como falar-Lhe, como comportar-nos?
A
vida cristã não está feita de normas rígidas, porque o Espírito Santo não
dirige as almas massivamente, mas infundindo em cada uma delas propósitos,
inspirações e afectos que ajudarão a captar e a cumprir a vontade do Pai.
Penso, no entanto, que em muitas ocasiões o nervo do nosso diálogo com Cristo,
na acção de graças depois da Santa Missa, pode ser a consideração de que o
Senhor É para nós, Rei, Médico, Mestre e Amigo.
É
Rei e anseia por reinar nos nossos corações de filhos de Deus.
Mas
é preciso não imaginar reinados humanos neste caso, porque Cristo não domina
nem procura impor-Se, dado que não veio para ser servido, mas para servir.
93
O
seu reino é a paz, a alegria, a justiça. Cristo, nosso Rei, não espera de nós
raciocínios vãos, mas factos, porque «nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor,
entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos
céus, esse entrará no reino dos céus».
É
Médico e cura o nosso egoísmo, se deixarmos que a Sua graça penetre até ao
fundo da nossa alma.
Jesus
disse-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que nos faz dissimular os
nossos pecados.
Com
o Médico, é imprescindível, pela nossa parte, uma sinceridade absoluta,
explicar-Lhe toda a verdade e dizer: Domine, si vis, potes me mundare,
Senhor, se quiseres - e Tu queres sempre - podes curar-me. Tu conheces as
minhas fraquezas, tenho estes sintomas e estas debilidades.
Mostramos-Lhe
também com toda a simplicidade as chagas e o pus, no caso de haver pus.
Senhor,
Tu, que curasTe tantas almas, faz com que, ao ter-Te no meu peito ou ao
contemplar-Te no Sacrário, Te reconheça como Médico divino.
É
mestre de uma ciência que só Ele possui, a do amor a Deus sem limites e, em
Deus, a todos os homens.
Na
escola de Cristo aprende-se que a nossa existência não nos pertence. Ele
entregou a Sua vida por todos os homens e, se O seguimos, necessitamos de
compreender que não devemos apropriar-nos de maneira egoísta da nossa vida sem
compartilhar as dores dos outros.
A
nossa vida é de Deus.
Temos
de gastá-la ao Seu serviço, preocupando-nos generosamente com as almas e
demonstrando, com a palavra e com o exemplo, a profundidade das exigências
cristãs.
Jesus
espera que alimentemos o desejo de adquirir essa ciência, para nos repetir: «se
alguém tem sede, venha a Mim e beba».
E
respondemos: ensina-nos a esquecermo-nos de nós mesmos, para pensarmos em Ti e
em todas as almas.
Deste
modo, o Senhor far-nos-á progredir com a Sua graça, como quando começávamos a
escrever (lembrais-vos daqueles traços que fazíamos, guiados pela mão do
professor?) e assim começaremos a saborear a dita de manifestar a nossa fé, que
é já de si outra dádiva de Deus, também com traços inequívocos de uma conduta
cristã, onde todos possam descobrir as maravilhas divinas.
É
Amigo, o Amigo: «vos autem dixi amicos», diz-nos Ele.
Chama-nos
amigos e foi Ele quem deu o primeiro passo, pois amou-nos primeiro.
Contudo,
não impõe o Seu carinho: oferece-o. E prova-o com o sinal mais evidente da
amizade: «ninguém tem maior amor que o daquele que dá a vida pelos seus
amigos».
Era
amigo de Lázaro e chorou por ele quando o viu morto. E ressuscitou-o.
Por
isso, se nos vir frios, desalentados, talvez com a rigidez de uma vida interior
que se está a extinguir, o seu pranto será vida para nós: Eu te ordeno, meu amigo,
levanta-te e anda, deixa essa vida mesquinha, que não é vida!
94
Vamos
acabar a nossa meditação de Quinta-Feira Santa.
Se o
Senhor nos ajudou - e está sempre disposto, desde que Lhe abramos o coração -
teremos pressa de corresponder àquilo que é mais importante: amar.
E
saberemos difundir a caridade entre os outros homens, com uma vida de serviço.
«Dei-vos
o exemplo», insiste Jesus, falando aos seus discípulos na noite da Ceia,
depois de lhes ter lavado os pés.
Afastemos
do coração o orgulho, a ambição, os desejos de domínio e, à nossa volta e
dentro de nós, reinarão a paz e a alegria, enraizadas no sacrifício pessoal.
Finalmente,
um pensamento filial e amoroso para Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
Peço
desculpa de contar de novo uma recordação da minha infância, desta vez relativa
a uma imagem que se difundiu muito na minha terra, quando São Pio X impulsionou
a prática da comunhão frequente. Representava Maria a adorar a Hóstia Santa.
Hoje,
como então e como sempre, Nossa Senhora ensina-nos a falar e a conviver
intimamente com Jesus, a reconhecê-Lo e a encontrá-Lo nas diversas
circunstâncias do dia e, de um modo especial, nesse instante supremo - o tempo
une-se com a eternidade - do Santo Sacrifício da Missa, em que Jesus, com gesto
de sacerdote eterno, atrai a Si todas as coisas, para as colocar, divino
afflante Spiritu, por intermédio do sopro do Espírito Santo, na presença de
Deus Pai.
95
Esta
semana, que o povo cristão tradicionalmente chama Santa, oferece-nos uma vez
mais a possibilidade de considerar - de reviver - os momentos em que se consuma
a vida de Jesus.
Tudo
o que as diversas manifestações de piedade nos trazem à memória nestes dias se
encaminha decerto para a “Ressurreição, que é o fundamento da nossa fé”,
como escreve São Paulo.
Mas
não percorramos este caminho demasiado depressa; não deixemos cair no
esquecimento alguma coisa muito simples, que por vezes parece escapar-nos: não
poderemos participar da Ressurreição do Senhor se não nos unirmos à Sua Paixão
e à Sua Morte.
Para
acompanhar a Cristo na Sua glória no final da Semana Santa, é necessário que
penetremos antes no Seu holocausto e que nos sintamos uma só coisa com Ele,
morto no Calvário.
A
entrega generosa de Cristo enfrenta-se com o pecado, essa realidade dura de aceitar,
mas inegável: o mysterium iniquitatis, a inexplicável maldade da
criatura que se ergue, por soberba, contra Deus.
A
história é tão antiga como a Humanidade.
Recordemos
a queda dos nossos primeiros pais; depois, toda essa cadeia de depravações que
marcam a marcha dos homens; finalmente, as nossas rebeldias pessoais.
Não
é fácil considerar a perversidade que o pecado representa e compreender tudo o
que a Fé nos ensina.
Temos
de ter presente que, mesmo no plano humano, a grandeza da ofensa se mede pela
condição do ofendido, pelo seu valor pessoal, pela sua dignidade social, pelas
suas qualidades.
E o
homem ofende a Deus: a criatura renega o seu Criador.
Mas
Deus É Amor.
O
abismo de malícia, que o que o pecado encerra, foi vencido por uma Caridade
infinita.
Deus
não abandona os homens.
Os
desígnios divinos previram que, para reparar as nossas faltas, para
restabelecer a unidade perdida, não bastavam os sacrifícios da Antiga Lei:
tornou-se necessária a entrega de um homem que fosse Deus.
Podemos
imaginar - para nos aproximarmos de algum modo deste mistério insondável - que
a Trindade Santíssima Se reúne em conselho na sua contínua relação íntima de
amor imenso e, como resultado de uma decisão eterna, O Filho Unigénito de
Deus-Pai assume a nossa condição humana, carrega sobre Si as nossas misérias e
as nossas dores, para acabar pregado com cravos num madeiro.
Esse
fogo, esse desejo de cumprir o decreto salvador de Deus-Pai, enche toda a vida
de Cristo, desde o Seu nascimento em Belém.
Ao
longo dos três anos que com Ele conviveram, os discípulos ouvem-No repetir
incansavelmente que o Seu alimento é fazer a vontade d'Aquele que O enviou, até
que, no meio da tarde da primeira Sexta-Feira Santa, se concluiu a Sua
imolação: «inclinando a cabeça entregou o espírito».
Com
estas palavras descreve-nos o Apóstolo São João a morte de Cristo: Jesus, sob o
peso da Cruz com todas as culpas dos homens, morre por causa da força e da
vileza dos nossos pecados.
Meditemos
no Senhor, chagado dos pés à cabeça por amor de nós. Com frase que se aproxima
da realidade, embora não consiga exprimi-la completamente, podemos repetir com
um escritor de há séculos: “O corpo de Jesus é um retábulo de dores”.
A
vista de Cristo feito um farrapo, transformado num corpo inerte descido da Cruz
e confiado a Sua Mãe, à vista desse Jesus destroçado, poder-se-ia concluir que
esta cena é a exteriorização mais clara de uma derrota.
Onde
estão as massas que O seguiram e o Reino cuja vinda anunciava? Contudo, não
temos diante dos olhos uma derrota, mas sim uma vitória: está agora mais perto
do que nunca o momento da Ressurreição, da manifestação da glória que Cristo
conquistou com a sua obediência.
96
A
morte de Cristo chama-nos a uma vida cristã plena
Acabamos
de reviver o drama do Calvário, aquilo que me atreveria a chamar a primeira
Missa, a primordial, celebrada por Jesus.
Deus-Pai
entrega o Seu Filho à morte. Jesus, o Filho Unigénito, abraça-Se ao madeiro, no
qual O haviam de justiçar, e o Seu sacrifício é aceite pelo Pai. Como fruto da
Cruz, derrama-se sobre a Humanidade o Espírito Santo.
Na
tragédia da Paixão consuma-se a nossa própria vida e toda a história humana.
A
Semana Santa não pode reduzir-se a uma mera recordação, pois que nela se
considera o mistério de Jesus Cristo, que se prolonga nas nossas almas: o
cristão está obrigado a ser alter Christus, ipse Christus, outro Cristo,
o próprio Cristo.
Pelo
Baptismo, fomos todos constituídos sacerdotes da nossa própria existência, para
oferecer vítimas espirituais que sejam agradáveis a Deus por Jesus Cristo, para
realizar cada uma das nossas acções em espírito de obediência à vontade de
Deus, perpetuando assim a missão do Deus-Homem.
Por
contraste, esta realidade leva-nos a repararmos nas nossas desditas, nos nossos
erros pessoais.
Tal
consideração não nos deve desanimar, nem colocar na atitude céptica de quem
renunciou aos grandes ideais.
Porque
o Senhor reclama-nos tal como somos, para que participemos da Sua vida, para
que lutemos por ser santos.
Santidade!
Quantas
vezes pronunciamos esta palavra como se fosse um som vazio!
Para
muitos, ela representa mesmo um ideal inacessível, um tema da ascética, mas não
um fim concreto, uma realidade viva.
Não
pensavam deste modo os primeiros cristãos, que usavam o nome de santos para se
chamarem entre si com toda a naturalidade e com grande frequência: saúdam-vos
todos os santos, saudai todos os santos em Cristo Jesus.
Situados
agora no Calvário, quando Jesus já morreu e não se manifestou ainda a glória do
Seu triunfo, temos uma boa ocasião para examinar os nossos desejos de vida
cristã, de santidade para reagir com um acto de fé perante as nossas
debilidades e, confiando no poder de Deus, fazer o propósito de pôr amor nas
coisas do nosso dia-a-dia.
A
experiência do pecado tem de nos conduzir à dor, a uma decisão mais madura e
mais profunda de sermos fiéis, de nos identificarmos deveras com Cristo, de
perseverarmos, custe o que custar, nessa missão sacerdotal que Ele encomendou a
todos os Seus discípulos sem excepção, que nos impele a sermos sal e luz do
mundo.
Orar é o caminho para atalhar todos os males que padecemos. (Forja, 76)
A
oração – recorda-o – não consiste em fazer discursos bonitos, frases
grandiloquentes ou que consolem...
Oração
é, às vezes, um olhar a uma imagem de Nosso Senhor ou de sua Mãe; outras, um
pedido com palavras; outras, o oferecimento das boas obras, dos resultados da
fidelidade...
Como
o soldado que está de guarda, assim temos de estar nós à porta de Deus Nosso
Senhor: e isso é oração. Ou como se deita o cãozinho aos pés do seu dono.
Não
te importes de lho dizer: Senhor, aqui me tens como um cão fiel; ou melhor,
como um burrinho que não dá coices a quem lhe quer bem. (Forja, 73)
A
tua oração não pode ficar em meras palavras: há-de ter realidades e
consequências práticas. (Forja, 75)
A
heroicidade, a santidade, a audácia requerem uma constante preparação
espiritual. Darás sempre, aos outros, só aquilo que tiveres; e, para dares
Deus, hás-de ter intimidade com Ele, viver a sua Vida, servi-Lo. (Forja, 78)
Art. 6 –
Se
o anjo da guarda às vezes abandona o homem para cuja guarda foi deputado.
O
sexto discute–se assim.
–
Parece que o anjo da guarda às vezes abandona o homem à cuja guarda foi
deputado.
1.
– Pois, diz a Escritura falando da pessoa dos anjos: “Medicamos Babilónia, e
ela não sarou, deixemo–la” – e, noutro passo: “Arrancar–lhe–ei a sebe, e
ficará exposta ao roubo”; e diz a Glossa, que isso se refere à guarda dos
anjos.
2.
Demais. – Deus guarda mais que o anjo. Ora, ele às vezes abandona o homem
conforme está na Escritura: Ó Deus, Deus meu, olha para mim; porque me
desamparaste? Logo, com maior razão o anjo da guarda abandona o homem.
3.
Demais. Como diz Damasceno, os anjos, estando conosco, neste mundo, não estão
no céu. Ora, como às vezes estão no céu, às vezes abandonam-nos. Mas, em
contrário. – Os demónios sempre nos atacam, conforme a Escritura: “O demónio,
vosso adversário, anda ao redor de vós como um leão que ruge, buscando a quem
devorar”. Logo, com maior razão, os bons anjos sempre nos guardam.
SOLUÇÃO.
–
A guarda dos anjos, como do sobredito se colhe, é uma execução da divina
Providência relativa aos homens. Ora, é manifesto que nem o homem nem ser algum
pode subtrair-se totalmente à divina Providência; pois, na medida em que um
ente participa da existência nessa mesma está sujeito à providência universal
dos seres. Diz-se, porém que Deus, conforme a ordem da sua Providência,
abandona o homem, na medida em que permite que este padeça alguma deficiência,
quanto à pena ou à culpa. E semelhantemente, deve-se dizer que o anjo da guarda
nunca abandona totalmente o homem; mas às vezes, o abandona na medida em que
não impede entre em alguma tribulação, ou mesmo caia em pecado, conforme à
ordem dos juízos divinos. E neste sentido, se diz que Babilónia e a casa de
Israel foram abandonadas dos anjos, porque os seus anjos da guarda não as
livraram de caírem em tribulações. E daqui se deduzem as RESPOSTAS À PRIMEIRA E
SEGUNDA OBJECÇÕES. RESPOSTA À TERCEIRA. – Embora o anjo abandone às vezes o
homem, localmente, não o abandona, contudo quanto ao efeito da guarda; porque,
mesmo quando está no céu, sabe o que deve fazer em relação ao homem; nem
precisa de intervalo de tempo para locomover–se, mas pode estar presente
imediatamente.
(São
Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, a. 6)
Cartas de São Paulo
Carta
aos Hebreus 3
II.
JESUS, SUMO SACERDOTE FIEL E MISERICORDIOSO
Fidelidade de Moisés e de Jesus –
1
Por conseguinte, irmãos santos, participantes de uma vocação celeste,
considerai Jesus como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da fé que professamos, 2 o
qual é fiel ao que o constituiu, como Moisés o foi em toda a sua casa. 3 Ora,
Ele foi considerado mais digno de glória do que Moisés, tal como maior é a
honra do construtor da casa do que a da própria casa. 4 Toda a casa, com
efeito, é edificada por alguém, mas foi Deus quem tudo construiu. 5 Moisés, na
verdade, foi fiel em toda a sua casa, como servo, para dar testemunho de tudo o
que devia ser anunciado; 6 Cristo, porém, o foi como Filho sobre a sua casa,
que somos nós, se conservarmos a confiança e a esperança de que nos gloriamos.
Entrada no repouso de Deus pela fé –
7
Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, a se escutardes sua voz, 8 não
endureçais os vossos corações, como no tempo da revolta, no dia da tentação no
deserto, 9quando os vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, depois de verem
as minhas obras, 10 durante quarenta anos. Por isso me indignei contra esta
geração e disse: 'Erram sempre no seu coração; não conheceram os meus caminhos.'
11 Assim, jurei na minha ira: 'Não entrarão no meu repouso.' 12 Tende cuidado,
irmãos, que não haja em nenhum de vós um coração mau, a ponto de a
incredulidade o afastar do Deus vivo. 13 Exortai-vos, antes, uns aos outros,
cada dia, enquanto dura a proclamação do «hoje», a fim de que não se endureça
nenhum de vós, enganado pelo pecado. 14 De facto, tornamo-nos companheiros de
Cristo, desde que mantenhamos firme até ao fim a confiança inicial. 15 Ele diz:
Hoje, se escutardes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como no tempo
da revolta. 16 Quais foram os que se revoltaram, depois de o terem ouvido? Não
foram todos os que saíram do Egipto, por meio de Moisés? 17 E contra quem se
indignou Deus, durante quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos
cadáveres caíram no deserto? 18 E a quem jurou que não entrariam no seu
repouso, senão aos que desobedeceram? 19 Na realidade, vemos que não puderam
entrar, por causa da sua incredulidade.
Cristo
que passa
87
A Santa Missa na vida do
cristão
A Santa Missa situa-nos
deste modo perante os mistérios primordiais da fé, porque se trata da própria
doação da Trindade à Igreja.
Compreende-se assim que a
Missa seja o Centro e a raiz da vida espiritual do cristão.
É o fim de todos os sacramentos.
Na Santa Missa, a vida da graça encaminha-se para a sua plenitude, que foi
depositada em nós pelo Baptismo, e que cresce, fortalecida pela Confirmação.
São Cirilo de Jerusalém escreve:
“Quando participamos na Eucaristia, experimentamos a espiritualízação
deificante do Espírito Santo, que além de nos configurar com Cristo, como
sucede no Baptismo, nos cristifica integralmente, associando-nos à plenitude de
Cristo Jesus”.
A efusão do Espírito Santo,
na medida em que nos cristifica, leva-nos a reconhecer como filhos de Deus.
O Paráclito, que é caridade,
ensina-nos a fundir com essa virtude toda a vida.
Por isso, feitos uma só
coisa com Cristo, consummati in unum,
podemos ser entre os homens o que Santo Agostinho afirma da Eucaristia: “sinal
de unidade, vínculo de Amor”.
Creio que não vou dizer nada
de novo, se afirmar que alguns cristãos têm uma visão muito pobre da Santa
Missa e que ela é para muitos um mero rito exterior, quando não um
convencionalismo social.
Isto acontece, porque os
nossos corações, de si tão mesquinhos, são capazes de viver com rotina a maior
doação de Deus aos homens. Na Santa Missa, nesta Missa que agora celebramos,
intervém de um modo especial, repito, a Trindade Santíssima.
Para corresponder a tanto
amor, é preciso que haja da nossa parte uma entrega total do corpo e da alma,
pois vamos ouvir Deus, falar com Ele, vê-Lo, saboreá-Lo.
E se as palavras não forem
suficientes, poderemos cantar, incitando a nossa língua - Pange, lingua! - a que proclame, na presença de toda a Humanidade,
as grandezas do Senhor.
88
Viver a Santa Missa é
manter-se em oração contínua, convencermo-nos de que, para cada um de nós, este
é um encontro pessoal com Deus, em que O adoramos, O louvamos, Lhe pedimos, Lhe
damos graças, reparamos os nossos pecados, nos purificamos e nos sentimos uma
só coisa em Cristo com todos os cristãos.
Por vezes, talvez nos
perguntemos como será possível corresponder a tanto amor de Deus e até
desejaríamos, para o conseguir, que nos pusessem com toda a clareza diante dos
nossos olhos um programa de vida cristã.
A solução é fácil e está ao
alcance de todos os fiéis: participar amorosamente na Santa Missa, aprender a
conviver e a ganhar intimidade com Deus na Missa, porque neste Sacrifício se
encerra tudo aquilo que o Senhor quer de nós.
Permiti que aqui vos recorde
o desenrolar das cerimónias litúrgicas, que já observámos em tantas e tantas
ocasiões.
Seguindo-as passo a passo é
muito possível que o Senhor nos faça descobrir em que pontos devemos melhorar,
que defeitos precisamos de extirpar e como há-de ser o nosso convívio, íntimo e
fraterno, com todos os homens.
O sacerdote dirige-se para o
altar de Deus, do Deus que alegra a nossa juventude.
A Santa Missa inicia-se com
um cântico de alegria, porque Deus está presente.
É esta alegria que,
juntamente com o reconhecimento e o amor, se manifesta no beijo que se dá na
mesa do altar, símbolo de Cristo e memória dos santos, um espaço pequeno e
santificado, porque nesta ara se confecciona o Sacramento de eficácia infinita.
O Confiteor põe-nos diante da nossa indignidade.
Não é a recordação abstracta
da culpa, mas a presença, tão concreta, dos nossos pecados e das nossas faltas.
Kyrie
eleison, Christe eleyson, Senhor, tende piedade de nós;
Cristo, tende piedade de nós.
Se o perdão que necessitamos
se pusesse em relação com os nossos méritos, nasceria na nossa alma, neste
momento, uma amarga tristeza.
Mas, graças à bondade
divina, o perdão é-nos dado pela misericórdia de Deus, a Quem já louvamos
entoando: - Glória! - porque só Vós, sois o Santo; só Vós o Senhor, só Vós o
Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai.
89
Ouvimos agora a palavra da
Escritura, a Epístola e o Evangelho, que são luzes do Paráclito, que fala com voz
humana para que a nossa inteligência saiba e contemple, para que a vontade se
robusteça e a acção se cumpra, porque somos um único povo que confessa uma
única fé, um Credo, um povo congregado na unidade do Pai, do Filho e do,
Espírito Santo.
Segue-se o ofertório: o pão
e o vinho dos homens.
Não é muito, mas a oração
acompanha-os: sejamos, Senhor, por Vós recebidos em espírito de humildade e
coração contrito; e assim se faça hoje, ó Deus e Senhor Nosso, este nosso
sacrifício na Vossa presença, de modo que Vos seja agradável.
Irrompe de novo a recordação
da nossa miséria e o desejo de que tudo aquilo que se destina ao Senhor esteja
limpo e purificado: lavarei as minhas mãos, amo o decoro da Tua casa.
Há instantes, antes do lavabo,
invocámos o Espírito Santo, pedindo-Lhe que abençoasse o Sacrifício oferecido
ao Seu Santo Nome.
Terminada a purificação,
dirigimo-nos à Trindade - Suscipe, Sancta
Trinitas -, para que receba o que apresentamos em memória da Vida, da
Paixão, da Ressurreição e da Ascensão de Cristo, em honra de Maria, sempre
Virgem, e em honra de todos os santos.
A oblação deve redundar em
benefício de todos - Orate, fratres,
reza o sacerdote -, porque este sacrifício é meu e vosso, de toda a Igreja
Santa.
Orai, irmãos,
mesmo que sejam poucos os que se encontram reunidos, mesmo que se encontre
materialmente presente apenas um cristão ou até só o celebrante, porque uma
Missa é sempre o holocausto universal, o resgate de todas as tribos e línguas e
povos e nações!
Todos os cristãos, pela
comunhão dos Santos, recebem as graças de cada Missa, quer se celebre diante de
milhares de pessoas, quer haja apenas como único assistente um menino,
possivelmente distraído, a ajudar o sacerdote.
Tanto num caso como noutro,
a Terra e o Céu unem-se para entoar com os Anjos do Senhor: Sanctus, Sanctus, Sanctus...
Eu aplaudo e louvo com os
anjos.
Não me é difícil, porque sei
que me encontro rodeado por eles quando celebro a Santa Missa.
Estão a adorar a Trindade.
E sei também que, de algum
modo, intervém a Santíssima Virgem, pela íntima união que tem com a Santíssima
Trindade, porque é Mãe de Cristo, da Sua Carne e do Seu Sangue, Mãe de Jesus
Cristo, perfeito Deus e perfeito homem.
Jesus Cristo, ao ser
concebido nas entranhas de Maria Santíssima sem intervenção de varão, mas
unicamente pelo poder do Espírito Santo, tem o mesmo sangue de Sua Mãe.
E é esse Sangue o que se
oferece no sacrifício redentor, no Calvário e na Santa Missa.
90
Assim se entra no Canon,
com a confiança filial que nos leva a chamar clementíssimo ao nosso Pai Deus.
Pedimos-Lhe pela Igreja e
por todos os que estão na Igreja, pelo Papa, pela nossa família, pelos nossos
amigos e companheiros. E o católico, como tem coração universal, pede por todo
o mundo, porque o seu zelo entusiasta nada pode excluir.
E para que a petição seja
acolhida, recordamos a nossa comunhão com a Santíssima Virgem e com um punhado
de homens que foram os primeiros a seguir Cristo e por Ele morreram.
Quam oblationem...
Aproxima-se o momento da
consagração.
Agora, na Santa Missa, é
outra vez Cristo que actua, através do sacerdote: Isto é o Meu Corpo.
Este é o cálice do Meu
Sangue.
Jesus está connosco!
Com a transubstanciação,
renova-se a infinita loucura divina, ditada pelo Amor.
Quando hoje se repete esse
momento, que saiba cada um de nós dizer ao Senhor, mesmo sem pronunciar
quaisquer palavras, que nada nos poderá afastar d'Ele e que a sua
disponibilidade de Se deixar ficar - totalmente indefeso - nas aparências, tão
frágeis, do pão e do vinho, nos converteu voluntariamente em escravos: praesta
meae menti de te vivere et te illi semper dulce sapere, faz com que eu viva
de Ti e saboreie sempre a doçura do teu amor.
Mais petições.
Nós, homens, estamos quase
sempre inclinados a pedir.
Desta vez, é pelos nossos irmãos
defuntos e por nós mesmos.
Por isso, aqui aparecem
todas as nossas infidelidades e misérias. O peso da sua carga é muito grande,
mas Ele quer levá-lo por nós e connosco.
O Canon vai terminar
com outra invocação à Santíssima Trindade: per Ipsum, et cum Ipso, et in
Ipso.... por Cristo, com Cristo e em Cristo, nosso Amor, a Ti, Deus Pai
Todo Poderoso, na unidade do Espírito Santo, Te seja dada toda a honra e glória
pelos séculos dos séculos.
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Jesus é o Caminho, o
Medianeiro.
N'Ele, tudo!
Fora d'Ele nada!
Em Cristo e ensinados por
Ele, atrevemo-nos a chamar Pai Nosso ao Todo-Poderoso, a Ele, que fez o Céu e a
Terra e que é esse Pai tão afectuoso que espera que voltemos para Ele
continuamente, cada um de nós como novo e constante filho pródigo.
Ecce Agnus Dei... Domine, non sum dignus...
Vamos receber O Senhor.
Quando na Terra se recebem
pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala.
Para albergar Cristo na
nossa alma, como devemos preparar-nos?
Já teremos por acaso pensado
como nos comportaríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?
Quando eu era criança, não
estava ainda divulgada a prática da comunhão frequente.
Recordo-me de como se
preparavam as pessoas para comungar.
Cuidavam com esmero a boa
preparação da alma e até do corpo. Punham a melhor roupa, a cabeça bem
penteada, o corpo fisicamente limpo e talvez mesmo um pouco de perfume...
Eram delicadezas próprias de
quem estava apaixonado, de almas finas e rectas, que sabem pagar o Amor com
amor.
Com Cristo na alma, termina
a Santa Missa.
A bênção do Pai, do Filho e
do Espírito Santo acompanha-nos durante toda a jornada, na nossa tarefa simples
e normal de santificar todas as actividades nobres do homem.
Assistindo à Santa Missa,
aprenderemos a falar, a privar com cada uma das Pessoas divinas: com O Pai, que
gera O Filho, que é gerado pelo Pai; e com O Espírito Santo, que procede dos Dois.
Habituando-nos a privar
intimamente com qualquer uma das três Pessoas, privaremos com um único Deus.
E se falarmos com as três,
com a Trindade, privaremos também com um só Deus, único e verdadeiro.
Amai a Santa Missa, meus
filhos, amai a Santa Missa!
E que cada um de vós
comungue com ardor, mesmo que se sinta gelado, mesmo que não haja
correspondência por parte da emotividade. Comungai com fé, com esperança e com
caridade inflamada.