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05/12/2020

Filosofia e Religião

 


Anjos da Guarda

Tratado dos Anjos Art. 7 –

 

Se os anjos se condoem com os males dos que guardam.

(II Sent., dist., XI, part. I, a. 5).

O sétimo discute-se assim.

   Parece que os anjos se contristam com os males dos que guardam.

   1. — Pois, diz a Escritura: Os anjos da paz chorarão amargamente. Ora, o pranto é sinal de dor e de tristeza. Logo, os anjos condoem -se com os males dos homens que guardam.

   2. Demais. — Como diz Agostinho, a tristeza provém do que nos acontece contra a nossa vontade. Ora, a perdição de um homem é contra a vontade do seu anjo da guarda. Logo, os anjos condoem-se com a perdição dos homens.

   3. Demais. — Como a tristeza é contrária à alegria, assim o pecado, à penitência. Ora, os anjos se alegram com o pecador penitente, como se lê no Evangelho. Logo, condoem-se quando o justo cai em pecado.

   4. Demais. — Ao passo da Escritura — E tudo o que oferecem como primícias, diz a Glossa de Orígenes: Os anjos são levados a juízo, porque caíram, quer por negligência deles, quer por ignávia dos homens.

   Mas é racional que a gente sofra por causa dos males pelos quais é levado a juízo. Logo, os anjos condoem-se com os pecados dos homens.

   Mas, em contrário. — Onde há tristeza e dor não há perfeita felicidade; por isso, diz o Apocalipse: E não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor. Ora, os anjos são perfeitamente felizes. Logo, de nada se condoem.

   SOLUÇÃO. — Os anjos não se condoem com os pecados nem com as penas dos homens, pois, a tristeza e a dor procedem, como diz Agostinho, do que contraria a vontade. Ora, nada acontece no mundo contrário à vontade dos anjos e dos outros bem-aventurados, porque a vontade deles adere totalmente à ordem da divina justiça, e nada há no mundo que não seja feito ou permitido por essa justiça. Donde, absolutamente falando, nada acontece no mundo, contra a vontade dos bem-aventurados. Pois, como diz o Filósofo, chama-se voluntário absolutamente, ao que alguém quer, em particular, quando age, i. é, consideradas todas as circunstâncias, embora considerado em universal, não fosse voluntário. Assim, o nauta não quer que as mercadorias sejam atiradas ao mar, absoluta e universalmente falando, mas o quer, estando em risco eminente de perder-se; e por isso há aqui, antes, um voluntário do que um involuntário, como no mesmo passo se diz. Donde, os anjos, universal e absolutamente falando, não querem os pecados e as penas dos homens; querem contudo que, por elas, se conserve a ordem da divina justiça, que submete certos a penas e permite que pequem.

   DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — As palavras citadas de Isaías podem entender-se como referentes aos anjos anunciadores de Ezequías, que choraram, conforme o sentido literal, por causa das palavras de Rapsaco, de que se trata no mesmo livro. Pelo sentido alegórico porém, os anjos são apóstolos e pregadores da paz, que choram sobre os pecados dos homens. Se porém, pelo sentido anagógico, o passo se refere aos anjos bons, então o modo de falar é metafórico, para significar que eles querem, em universal, a salvação dos homens. Pois, é assim que tais paixões se atribuem a Deus e aos anjos.

   RESPOSTA À SEGUNDA. — Resulta clara a SOLUÇÃO. do que acaba de ser dito.

   RESPOSTA À TERCEIRA. — Tanto na penitência como no pecado dos homens, há razão para alegria dos anjos, que é o implemento da ordem da divina providência.

   RESPOSTA À QUARTA. — Os anjos são levados a juízo, por causa dos pecados dos homens, não como réus, mas como testemunhas, para convencer os homens da ignávia própria.

 

(São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, a. 7)

28/10/2020

Anjos da Guarda

 


Art. 6 –

 

Se o anjo da guarda às vezes abandona o homem para cuja guarda foi deputado.

 

O sexto discute–se assim.

– Parece que o anjo da guarda às vezes abandona o homem à cuja guarda foi deputado.

 

1. – Pois, diz a Escritura falando da pessoa dos anjos: “Medicamos Babilónia, e ela não sarou, deixemo–la” – e, noutro passo: “Arrancar–lhe–ei a sebe, e ficará exposta ao roubo”; e diz a Glossa, que isso se refere à guarda dos anjos.

 

2. Demais. – Deus guarda mais que o anjo. Ora, ele às vezes abandona o homem conforme está na Escritura: Ó Deus, Deus meu, olha para mim; porque me desamparaste? Logo, com maior razão o anjo da guarda abandona o homem.

 

3. Demais. Como diz Damasceno, os anjos, estando conosco, neste mundo, não estão no céu. Ora, como às vezes estão no céu, às vezes abandonam-nos. Mas, em contrário. – Os demónios sempre nos atacam, conforme a Escritura: “O demónio, vosso adversário, anda ao redor de vós como um leão que ruge, buscando a quem devorar”. Logo, com maior razão, os bons anjos sempre nos guardam.

 

SOLUÇÃO.

– A guarda dos anjos, como do sobredito se colhe, é uma execução da divina Providência relativa aos homens. Ora, é manifesto que nem o homem nem ser algum pode subtrair-se totalmente à divina Providência; pois, na medida em que um ente participa da existência nessa mesma está sujeito à providência universal dos seres. Diz-se, porém que Deus, conforme a ordem da sua Providência, abandona o homem, na medida em que permite que este padeça alguma deficiência, quanto à pena ou à culpa. E semelhantemente, deve-se dizer que o anjo da guarda nunca abandona totalmente o homem; mas às vezes, o abandona na medida em que não impede entre em alguma tribulação, ou mesmo caia em pecado, conforme à ordem dos juízos divinos. E neste sentido, se diz que Babilónia e a casa de Israel foram abandonadas dos anjos, porque os seus anjos da guarda não as livraram de caírem em tribulações. E daqui se deduzem as RESPOSTAS À PRIMEIRA E SEGUNDA OBJECÇÕES. RESPOSTA À TERCEIRA. – Embora o anjo abandone às vezes o homem, localmente, não o abandona, contudo quanto ao efeito da guarda; porque, mesmo quando está no céu, sabe o que deve fazer em relação ao homem; nem precisa de intervalo de tempo para locomover–se, mas pode estar presente imediatamente.

 

 

(São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, a. 6)