24/10/2020

Festa Litúrgica

 


                             

                      Clicar 👉                   SANTO ANTóNIO MARIA CLARETT

Outubro - Mês do Rosário

MISTÉRIOS DO EVANGELHO [i]

Terceiro Mistério 


A Família de Jesus Cristo

Todo aquele que escuta e faz a Vontade de Meu Pai, que está nos céus, é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe”. (Cfr. Mt 12, 46-50)
Porque é que Cristo tratou, aparentemente, com indiferença a sua Mãe?
Não se tratava de uma mãe qualquer, mas de uma Mãe virgem.
Maria, com efeito, recebeu o dom da fecundidade sem prejuízo da sua integridade: Foi virgem ao conceber, no parto e perpétuamente.
No entanto, o Senhor relegou uma Mãe tão excelente para que o afecto materno não O impedisse de realizar a obra começada.
Que fazia Cristo?
Evangelizava as gentes, destruía o homem velho e edificava um novo, libertava as almas, iluminava as inteligências obscurecidas, realizava todo o tipo de boas obras. Todo o Seu Ser Se abrasava em tão santa empresa. E nesse momento anunciaram-Lhe o afecto da carne. Já ouvistes o que respondeu, para que o vou repetir?
Estejam atentas as mães, para que com o seu carinho não dificultem as boas obras dos seus filhos. E se pretendem impedi-las ou põem obstáculos para atrasar o que não podem anular, sejam desprezadas pelos filhos.
Mais ainda, atrevo-me a dizer que sejam desdenhadas, desdenhadas por piedade. Se a Virgem Maria foi assim tratada, porque há-de aborrecer-se a mulher — casada ou viúva — quando o seu filho, disposto a fazer o bem, a despreze?
Dir-me-ás: Então, comparas o meu filho com Cristo?
E respondo-te: Não, não o comparo com Cristo, nem a ti com Maria.
Cristo não condenou o afecto materno, mas mostrou com o Seu exemplo sublime que se deve postergar a própria mãe para realizar a obra de Deus (...).
Como podemos interpretar que também somos mães de Cristo? 
Atrever-me-ei a dizer que o somos?
Sim, atrevo-me a dizê-lo.
Acaso a Virgem Maria — eleita para que dela nos nascesse a salvação e criada por Cristo antes que Cristo fosse nela criado — não cumpria a vontade do Pai?
Sem dúvida que a cumpriu, e perfeitamente.
Santa Maria, que pela fé acreditou e concebeu, teve em mais ser discípula de Cristo do que Mãe de Cristo.
Recebeu maiores ditas como discípula do que como Mãe.
Maria era já bem-aventurada antes de dar à luz, porque levava no seu seio o Mestre.
Repara se não é verdade o que digo. Ao ver o Senhor que caminhava entre a multidão e fazia milagres, uma mulher exclamou: «bem-aventurado o ventre que Te trouxe!». Mas o Senhor, para que não procurássemos a felicidade na carne, o que é que responde? «Antes bem-aventurados, os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática».
Depois, Maria é bem-aventurada porque ouviu a palavra de Deus e guardou-a: Conservou a verdade na mente melhor do que a carne no seu seio.
Cristo é Verdade, Cristo é Carne.
Cristo Verdade estava na alma de Maria, Cristo Carne encerrava-se no seu seio; mas o que se encontra na alma é melhor do que o que se concebe no ventre.
Maria é Santíssima e Bem-aventurada. No entanto, a Igreja é mais perfeita do que a Virgem Maria.
Porquê?
Porque Maria é uma porção da Igreja, um membro santo, excelente, supereminente, mas afinal membro de um corpo inteiro.
O Senhor É a Cabeça, e o Cristo Total É Cabeça e Corpo.
Que direi então?
A nossa Cabeça é divina: Temos Deus como Cabeça.
Vós, caríssimos, também sois membros de Cristo, sois corpo de Cristo.
Vede como sois o que Ele disse: «Eis Minha mãe e Meus irmãos».
Como sereis mãe de Cristo?
O próprio Senhor nos responde: «Todo aquele que escuta e faz a Vontade de Meu Pai, que está nos céus, é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe».
Olhai, entendo o de irmão e o de irmã, porque única é a herança; e descubro nestas palavras a misericórdia de Cristo: Sendo O Unigénito, quis que fossemos herdeiros do Pai, co-herdeiros com Ele.
 A Sua herança é tal, que não pode diminuir ainda que participe dela uma multidão.
Entendo, pois, que somos irmãos de Cristo, e que as mulheres santas e fiéis são Suas irmãs.
Mas como podemos interpretar que também somos mães de Cristo? Atrever-me-ei a dizer que o somos?
Sim, atrevo-me a dizê-lo.
Se antes afirmei que sois irmãos de Cristo, como não vou a afirmar agora que sois Sua mãe?
Porventura poderia negar as palavras de Cristo?
Sabemos que a Igreja é Esposa de Cristo, e também, embora seja mais difícil de entender, que é Sua Mãe.
A Virgem Maria adiantou-se como tipo da Igreja.
Porquê — pergunto-vos — é Maria Mãe de Cristo, mas porque deu à luz os membros de Cristo?
E a vós, membros de Cristo, quem vos deu à luz?
Ouço a voz do vosso coração: A Madre Igreja!
Semelhante a Maria, esta Mãe santa e honrada, ao mesmo tempo dá à luz e é virgem.
Vós mesmos sois prova do primeiro: nascestes dela, como Cristo, de Quem sois membros.
Da sua virgindade não me faltarão testemunhos divinos.
Adianta-te ao povo, bem-aventurado Paulo, e serve-me de testemunha. Eleva a voz para dizer o que quero afirmar: Desposei-vos para vos apresentar como virgem pura, a um único esposo, a Cristo; mas temo que assim como a serpente seduziu Eva com a sua astúcia, assim também percam as vossas mentes a castidade que está em Cristo Jesus.
Conservai, pois, a virgindade nas vossas almas, que é a integridade da fé católica.
Aí onde Eva foi corrompida pela palavra da serpente, aí deve ser virgem a Igreja com a graça do Omnipotente.
Portanto, os membros de Cristo dêem à luz na mente, como Maria iluminou Cristo no seu seio, permanecendo virgem.
Desse modo sereis mães de Cristo.
Esse parentesco não vos deve estranhar nem repugnar: Fostes filhos, sede também mães.
Ao ser baptizados, nascestes como membros de Cristo, fostes filhos da Mãe.
Trazei agora ao lavatório do Baptismo aqueles que possais; e assim como fostes filhos pelo vosso nascimento, podereis ser mães de Cristo conduzindo os que vão renascer”. (Santo Agostinho, Sermão 72 A, 3. 7-8)

Eu, pobre homem, sou da Família de Cristo!

Que honra!

Que dignidade!


(AMA, 2019)


[i] Escolhi este título para uma série de reflexões sobre os mistérios contidos no Evangelho. Se por “mistério” consideramos algo que não entendemos inteiramente ou não compreendemos com meridiana clareza, então julgo que o Evangelho contém muitas atitudes, palavras, gestos de Jesus Cristo cujo verdadeiro significado e “alcance” nos escapa.

Filosofia, Religião, Vida Humana.

 



Teologia do Sacrosanctum Concilium 9 

5 – Na liturgia terrena participamos da liturgia celeste

Geralmente, quem preside à missa introduz o Santo, convidando a cantá-lo em comunhão com os anjos e os santos do céu. Esta não é uma linguagem figurativa, mas sacramental-real. Para toda a liturgia vale o que a constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia diz da liturgia das horas: “O sumo sacerdote do novo e eterno testamento, Cristo Jesus, assumindo a natureza humana, trouxe para esse exílio terrestre aquele hino que é cantado por todo o sempre nas habitações celestes” (SC 83). De facto, ele que está à direita do Pai, nos fala na proclamação e explicação da Palavra e com ele e por ele nós nos dirigimos ao Pai, unidos no Espírito Santo; estando, portanto, em íntima comunhão com as três pessoas da Santíssima Trindade, participando da sua acção, como partilhamos também a vida divina, por força do nosso baptismo. Por isso, a constituição sobre a liturgia pode com todo direito dizer: “Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na Cidade Santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos” (SC 8).

Certamente poder-se-ia dizer muito mais sobre a liturgia. Mas também não há dúvida de que o Concílio Vaticano II no início da constituição sobre a liturgia, nos artigos aos quais nos referimos neste estudo, nos diga aquilo que é o mais pertinente, o essencial que se possa e deva dizer sobre a natureza da liturgia: Que ela é um momento da história da salvação, porque nela se leva a efeito a obra redentora de Jesus Cristo, pelo exercício do seu sacerdócio, da cabeça e dos membros do seu corpo místico.

(P. Gregório Lutz, CSSp)

Conversei com Ele?

 


É possível que te assuste esta palavra: meditação. Faz-te lembrar livros de capas negras e velhas, ruído de suspiros ou rezas como cantilenas rotineiras... Mas isso não é meditação. Meditar é contemplar, considerar que Deus é teu Pai, e tu seu filho, necessitado de ajuda; e depois dar-lhe graças pelo que já te concedeu e por tudo o que te há-de dar. (Sulco, 661)

 

 Para o teu exame diário: – Deixei passar alguma hora sem falar com o meu Pai, Deus? Conversei com Ele com amor de filho? Acredita que és capaz!! (Sulco, 657)

 

O único meio de conhecer Jesus: privar com Ele! N'Ele encontrarás sempre um Pai, um Amigo, um Conselheiro e um Colaborador para todas as actividades honestas da tua vida quotidiana...

E, com esse convívio, gerar-se-á o Amor. (Sulco, 662)

 

«Fica connosco, porque anoitece!...». Foi eficaz a oração de Cléofas e do companheiro.

Que pena, se tu e eu não soubéssemos "deter" Jesus que passa! Que dor, se não Lhe pedirmos que fique connosco! (Sulco, 671)

Reflexão

 



Vontade de Deus

 

Na verdade, o homem, apenas se deve apegar a uma única realidade: a Vontade de Deus.

 

Tudo o que exerce domínio sobre ti, fecha-te a Deus e enfraquece a tua fé.

 

(Tadeus Dajczer, Meditações sobre a Fé, Paulus, 4ª Ed., pg. 31)

Virtudes 24



Fidelidade 1

Uma fidelidade que se renova

A festa de São José coloca diante dos nossos olhos a beleza de uma vida fiel. José confiava em Deus: por isso pôde ser o seu homem de confiança na terra para cuidar de Maria e de Jesus e é, a partir do Céu, um pai bom que cuida da nossa fidelidade.

São José, vir fidelis et iustus (Cfr. Pv 28,20), era fiel e justo pelo amor que enchia a sua alma e o fazia amar os caminhos que a Providencia divina tinha traçado para ele. “José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca recusou refletir sobre os acontecimentos e, assim, pôde alcançar do Senhor esse grau de inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria. Deste modo aprendeu, pouco a pouco, que os desígnios sobrenaturais têm uma coerência divina que está, por vezes, em contradição com os planos humanos (São Josemaria, Cristo que passa, 42). São José deve ter renovado a sua fidelidade ao longo do andar humano do Verbo divino: na surpresa da anunciação, durante o censo em Belém, ao enfrentar a fuga para o Egipto, e também quando o menino esteve perdido em Jerusalém e o encontrou no templo... Com obediência inteligente, rápida e alegre, fez o que Deus lhe pediu.

SÃO JOSÉ «APRENDEU, POUCO A POUCO, QUE OS DESÍGNIOS SOBRENATURAIS TÊM UMA COERÊNCIA DIVINA, QUE ESTÁ, ÀS VEZES EM CONTRADIÇÃO COM OS PLANOS HUMANOS» (SÃO JOSEMARIA)

Ao longo da existência, a fidelidade renova-se. Uma pessoa casada renova o seu amor todos os dias e de modo especial nalguns aniversários. Assim esse amor cresce sempre mais. Quando se segue uma chamada de Jesus Cristo, actualiza-se também uma decisão de entrega por amor. Quando, pela primeira vez, se diz sim à chamada, não se sabe tudo o que Deus vai pedir, mas a pessoa já quer dar-se de todo e para sempre

Pequena agenda do cristão

 

SÁBADO

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


23/10/2020

Leitura espiritual Outubro 23

 


Cartas de São Paulo

 

2.ª Timóteo 3

 

Perigos dos últimos tempos –

1 Fica sabendo que, nos últimos dias, surgirão tempos difíceis. 2 As pessoas tornar-se-ão egoístas, interesseiras, arrogantes, soberbas, blasfemas, desrespeitadoras dos pais, ingratas, ímpias, 3 sem coração, implacáveis, caluniadoras, descontroladas, desumanas e inimigas do bem, 4traidoras, insolentes, orgulhosas e mais amigas dos prazeres do que de Deus. 5 Conservarão uma aparência de piedade, mas negarão a sua essência. Procura evitar essa gente. 6 São desses, alguns que se introduzem nas casas e cativam mulheres mundanas, carregadas de pecados e subjugadas por toda a espécie de paixões, 7 que estão sempre a aprender, mas são incapazes de chegar algum dia à verdade. 8  Do mesmo modo que Janes e Jambres se opuseram a Moisés, assim estes se opõem à verdade. É gente de mente corrupta e inapta para a fé. 9 Mas não irão longe, pois a sua insensatez tornar-se-á patente a todos, como aconteceu com os primeiros. 10 Tu, porém, seguiste de perto o meu ensinamento, o meu modo de vida e os meus planos, a minha fé e a minha paciência, o meu amor fraterno e a minha firmeza, 11 as perseguições e sofrimentos que tive de suportar em Antioquia, Icónio e Listra. Que perseguições tive de suportar! Mas de todas elas me livrou o Senhor. 12 E assim também todos os que quiserem viver a fé em Cristo Jesus serão perseguidos. 13 Quanto a esses perversos e impostores, irão de mal a pior, extraviando outros e extraviando-se a si próprios. 14 Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e de que adquiriste a certeza, bem ciente de quem o aprendeste. 15 Desde a infância conheces a Sagrada Escritura, que te pode instruir, em ordem à salvação pela fé em Cristo Jesus. 16 De facto, toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, 17 a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa.

 



Cristo que passa

 

71

         

Colírio nos olhos

 

O pecado dos fariseus não consistia em não verem Deus em Cristo, mas em encerrarem-se voluntariamente em si mesmos, em não tolerarem que Jesus, que é luz, lhes abrisse os olhos.

Este ensimesmamento tem resultados imediatos na vida de relação com os nossos semelhantes.

O fariseu que, por se considerar a si próprio como luz, não deixa que Deus lhe abra os olhos é o mesmo que trata soberba e injustamente o próximo: graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano, reza ele.

E ao cego de nascença, que persiste em contar a verdade da cura milagrosa, ofendem-no: «Tu nasceste coberto de pecados e queres ensinar-nos? E lançaram-no fora».

 

Entre os que não conhecem Cristo há muitos homens honrados que, por elementar circunspecção, sabem comportar-se com delicadeza. São sinceros, cordiais, educados.

Se eles e nós não nos opusermos a que Cristo cure a cegueira que ainda existe nos nossos olhos, se permitirmos que o Senhor nos aplique esse lama que, nas suas mãos, se converte no mais eficaz colírio, compreenderemos as realidades terrenas, vislumbraremos as eternas com uma luz nova, a luz da fé, e adquiriremos um olhar limpo.

 

Esta é a vocação do cristão, ou seja, a plenitude dessa caridade que é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.

 

A caridade de Cristo não é apenas um bom sentimento em relação ao próximo. Não se limita ao gosto pela filantropia.

A caridade, infundida por Deus na alma, transforma a partir de dentro a inteligência e a vontade, fundamenta sobrenaturalmente a amizade e a alegria de fazer o bem.

 

Contemplai a cena da cura do coxo, que os Actos dos Apóstolos nos contam.

Subiam Pedro e João ao templo e, ao passarem, encontraram um homem sentado à porta, que era coxo desde o seu nascimento”.

Tudo recorda a cura do cego de que falávamos.

Mas agora os discípulos não pensam que a desgraça se deva aos pecados pessoais do doente ou às faltas dos seus pais.

E dizem-lhe: “Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda”. Antes, manifestavam incompreensão, agora misericórdia; antes, julgavam com temeridade, agora curam milagrosamente em nome do Senhor.

Sempre Cristo, que passa!

Cristo, que continua a passar pelas ruas e pelas praças do mundo, através dos seus discípulos, os cristãos. Peço-Lhe fervorosamente que passe pela alma de alguns dos que me escutam nestes momentos.

 

72   

      

Respeito e caridade

 

Surpreendia-nos ao princípio a atitude dos discípulos de Jesus diante do cego de nascimento.

Estavam na linha daquele rifão infeliz: pensa mal e acertarás.

Depois, quando conhecem melhor o Mestre, quando se apercebem do que significa ser cristão, as suas opiniões são inspiradas pela compreensão.

 

Em qualquer homem - escreve São Tomás - existe algum aspecto pelo qual os outros podem considerá-lo como superior, conforme as palavras do Apóstolo: "levados pela humildade, julgai-vos uns aos outros como superiores".

De acordo com isto, todos os homens devem honrar-se mutuamente. A humildade é a virtude que nos faz descobrir que as manifestações de respeito pela pessoa - pela sua honra, pela sua boa-fé, pela sua intimidade - não são convencionalismos exteriores, mas as primeiras manifestações da caridade e da justiça.

 

A caridade cristã não se limita a socorrer o necessitado de bens económicos; leva-nos, antes de mais nada, a respeitar e a defender cada indivíduo enquanto tal, na sua intrínseca dignidade de homem e de filho do Criador.

Por isso, os atentados à pessoa - à sua reputação, à sua honra - provam, em quem os comete, que não professa ou não pratica algumas verdades da nossa fé cristã e, sempre, a carência de um autêntico amor de Deus.

A caridade com que amamos a Deus e ao próximo é a mesma virtude, porque a razão de amar o próximo é precisamente Deus e amamos a Deus quando amamos o próximo com caridade.

 

Espero que sejamos capazes de tirar consequências muito concretas deste bocado de conversa na presença do Senhor, principalmente o propósito de não julgar os outros, de não os ofender sequer com a dúvida, de afogar o mal em abundância de bem, semeando ao nosso redor a convivência leal, a justiça e a paz, e a decisão de nunca nos entristecermos se a nossa conduta recta for mal entendida por outros, se o bem que - com a ajuda contínua do Senhor - procuramos realizar, for interpretado retorcidamente, atribuindo às nossas intenções, através de um processo ilícito, maus desígnios próprios de uma conduta dolosa e simuladora.

Perdoemos sempre, com um sorriso nos lábios.

Falemos com clareza, sem rancor, quando pensarmos em consciência que devemos falar.

E deixemos tudo nas mãos do Nosso Pai, Deus, com um divino silêncio - Iesus autem tacebat, Jesus, porém, estava calado -, se se trata de ataques pessoais, por mais brutais e indecorosos que sejam.

Preocupemo-nos apenas em fazer boas obras, pois Ele encarregar-se-á de que elas brilhem diante dos homens.

 

73

          

Como toda a festa cristã, esta que agora celebramos é especialmente uma festa de paz.

Os ramos, com o seu antigo simbolismo, evocam aquela cena do Génesis: depois de ter esperado outros sete dias, novamente deitou a pomba fora da arca.

E ela voltou a ele pela tarde trazendo no bico um ramo de oliveira com folhas verdes.

Entendeu, pois, Noé que as águas tinham cessado sobre a terra.

Agora recordamos que a aliança entre Deus e o seu povo é confirmada e estabelecida em Cristo, porque Ele é a nossa paz.

Nessa maravilhosa unidade e recapitulação do velho no novo, que caracteriza a liturgia da nossa Santa Igreja Católica, lemos no dia de hoje estas palavras de profunda alegria: os filhos dos hebreus, levando ramos de oliveira, saíram ao encontro do Senhor, aclamando e dizendo: glória nas alturas.

 

A aclamação a Jesus Cristo une-se, na nossa alma, com aquela que saudou o seu nascimento em Belém.

E, à sua passagem, conta-nos S. Lucas, as multidões estendiam os seus mantos no caminho. E, quando já ia chegando à descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos seus discípulos começou alegremente a louvar a Deus em altas vozes por todas as maravilhas que tinham visto, dizendo: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas.

 

Paz na terra

 

Pax in coelo, paz no céu.

Mas olhemos também o mundo: porque é que não há paz na terra? Não, não há paz.

Há somente aparências de paz, equilíbrio de medo, compromissos precários.

Nem sequer há paz na Igreja, sulcada por tensões que retalham a branca túnica da Esposa de Cristo.

Não há paz em muitos corações que tentam em vão compensar a intranquilidade da alma com a distracção contínua, com a pequena satisfação dos bens que não saciam, porque deixam sempre o travo amargo da tristeza.

 

Escreve Santo Agostinho “As folhas de palma são o símbolo da homenagem, porque significam vitória”.

O Senhor estava a momentos da vitória, morrendo na Cruz.

Ia triunfar, no sinal da Cruz, sobre o Diabo, príncipe da morte.

Cristo é a nossa paz porque venceu; e venceu porque lutou, no duro combate contra a maldade acumulada pelos corações humanos.

 

Cristo, que é a nossa paz, é também o Caminho. Se queremos a paz, temos de seguir os seus passos.

A paz é consequência da guerra, da luta, dessa luta ascética, íntima, que cada cristão deve sustentar contra tudo aquilo que, na sua vida, não é de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza do coração.

É inútil clamar pelo sossego exterior se falta tranquilidade nas consciências, no fundo da alma, porque é do coração que saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfémias.

 

74

          

Luta, compromisso de amor e de justiça

 

Mas não parece antiquada esta linguagem?

Porventura não foi substituída por um vocabulário de moda feito de claudicações pessoais encobertas com uma roupagem pseudo-científica?

Não existirá hoje um acordo tácito em que os bens reais são apenas o dinheiro que tudo compra, o poder temporal, a astúcia para ficar sempre por cima, a sabedoria humana que se autodefine como adulta e pensa ter superado o sagrado?

 

Não sou nem nunca fui pessimista, porque a fé me diz que Cristo venceu definitivamente e nos deu, como prémio da sua conquista, um mandato, que é também um compromisso: lutar.

Nós, cristãos, temos um empenho de amor, que aceitamos livremente com a chamada da graça divina: uma obrigação que nos anima a lutar com tenacidade.

Sabemos que somos tão frágeis como os outros homens, mas também não podemos esquecer-nos de que, se usarmos os devidos meios, seremos o sal, a luz e a levedura do mundo.

Seremos o consolo de Deus.

 

O nosso empenho de perseverar com firmeza neste propósito de Amor é, além disso, um dever de justiça.

E a matéria desta exigência, comum a todos os fiéis, traduz-se numa batalha constante.

A tradição da Igreja sempre se referiu aos cristãos como milites Christi, soldados de Cristo; soldados que dão serenidade aos outros enquanto combatem continuamente contra as suas próprias más inclinações.

Às vezes, por falta de sentido sobrenatural, por uma descrença prática, não querem compreender de forma alguma como milícia a vida na Terra.

Insinuam maliciosamente que, se nos consideramos milites Christi, há o perigo de utilizarmos a fé para fins temporais de violência, de sedições.

Esse modo de pensar é um triste e pouco lógico simplismo, que costuma andar unido ao comodismo e à cobardia.

 

Nada há de mais estranho à fé católica do que o fanatismo.

Este conduz a estranhas confusões, com os mais diversos matizes, entre o que é profano e o que é espiritual.

Tal perigo não existe, se a luta se entende como Cristo no-la ensinou, isto é, como guerra de cada um consigo mesmo, como esforço sempre renovado por amar mais a Deus, por desterrar o egoísmo, por servir todos os homens.

Renunciar a esta contenda, seja com que desculpa for, é declarar-se de antemão derrotado, aniquilado, sem fé, com a alma caída e dissipada em complacências mesquinhas.

 

Para o cristão, o combate espiritual diante de Deus e de todos os irmãos na fé é uma necessidade, uma consequência da sua condição. Por isso, se alguém não luta, está a trair Jesus Cristo e todo o Corpo Místico, que é a Igreja.

 

 

 

 

 

 

 

E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?...

 


O Santo Rosário é arma poderosa. Emprega-a com confiança e maravilhar-te-ás do resultado. (Caminho, 558)

 

O princípio do caminho, que tem por fim a completa loucura por Jesus, é um confiado amor a Maria Santíssima.

Queres amar a Virgem? Pois então conversa com Ela! Como? Rezando bem o Rosário de Nossa Senhora.

Mas, no Rosário... dizemos sempre o mesmo! Sempre o mesmo? E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?... Se há monotonia no teu Rosário, não será porque, em vez de pronunciares palavras, como homem, emites sons, como animal, estando o teu pensamento muito longe de Deus? Além disso, repara: antes de cada dezena, indica-se o mistério a contemplar Tu... já alguma vez contemplaste esses mistérios?

Faz-te pequeno. Vem. comigo, e viveremos (este é o nervo da minha confidência) a vida de Jesus, de Maria e de José.

Todos os dias Lhes havemos de prestar um novo serviço. Ouviremos as Suas conversas de família. Veremos crescer o Messias. Admiraremos os Seus trinta amos de obscuridade... Assistiremos à Sua Paixão e Morte... Pasmaremos ante a glória da Sua Ressurreição... Numa palavra: contemplaremos, loucos de Amor (não maior amor que o Amor), todos e cada um dos instantes de Cristo Jesus.(Santo Rosário, Introdução).

Reflexão

 



Grandeza espiritual

 

Sinal certo de grandeza espiritual, é saber deixar que se lhe digam coisas e  recebê-las com alegria e agradecimento.

 

(Salvador Canals, Ascética Meditada, pg. 20)

Perguntas e respostas

 





C. QUE IDEAIS ESCOLHER?





8.

Pergunto:

 

Como levar os outros a ter ideais?

 

Respondo:

 

Uns exemplos de motivações podem ser:

Relatar ou convidar a ler vidas heroicas e exemplares.

O aplauso àqueles que se colocam metas, ainda que sejam modestas.

Propor projectos.

Evitar as críticas àqueles que fazem algo bem, para não impedir as suas aspirações.


Outubro - Mês do Rosário





MISTÉRIOS DO EVANGELHO i

Segundo Mistério 

Perfeição


«Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito.» (Cfr. Mt 5, 48)

Como podes Tu, Senhor meu, mandar-me tal coisa!
Como cumprir tal mandato?
Não será, Senhor, que mandas algo impossível?
Tu, que sabes tudo, conheces as minhas fraquezas e limitações, como me mandas tal coisa tão grande! Sim, Tu, sabes tudo e, por isso sabes que Te amo e que, nesse amor, ponho toda a minha esperança e confiança em Ti. Esperança que me ajudarás com o que me falta. Confiança em que, sabendo o que preciso, providenciarás o necessário para poder cumprir o que mandas. “Da quod iube et iube quod vis”. (Stº Agostinho)


Jesus Cristo enuncia um ideal de conduta humana. Como todos os ideais, também este é difícil de atingir. Mas não impossível, porque o Senhor nunca pede impossíveis aos Seus filhos.
Como interpretar, então, o que diz?

Faltará, talvez, acrescentar: Este é - deve ser - o teu ideal; esforça-te por consegui-lo.

A mim, pobre homem, que de ideais percebo muito pouco, não me resta fazer senão o que Jesus sugere: Fazei o possível! E, com a segurança do Seu auxílio e apoio, sei muito bem que, para Ele, nada é impossível. 


Os perfeitos só se encontram no Céu(Cfr. São Josemaria, Sulco, 758)

Assim as coisas ficam mais claras e, parece-me que encontrei a solução: Tenho de ser santo e, para tanto, só existe um caminho seguro: Fazer, em tudo, a Vontade de Deus.


Docere me facere voluntatem tuam quia Deus meus es tu!” Este, quero que seja o meu lema diário, constante. Ajuda-me, Senhor, a concretizá-lo, minha Mãe, Maria Santíssima, São José meu Pai e Senhor, Anjo da Minha Guarda, tomai-me pela mão para que não me desvie do meu caminho.» (AMA, Orações diárias)

A dificuldade principal – julgo – está em que, muitas vezes, desejamos que a Vontade de Deus se “conforme” com a nossa própria vontade o que, corresponderá de certo modo, termos Deus como que ao “nosso serviço”, quando deverá ser exactamente o contrário.

Não há outro remédio nem caminho para solucionar este assunto: Pedir, com insistência perseverante: ‘Senhor, ajuda-me a fazer sempre a Tua Vontade’.

Talvez se levante a questão: Qual é a Vontade de Deus?

Por nós próprios teremos sempre alguma dificuldade em saber mas, iluminados pelo Conhecimento, Dom do Espírito Santo, veremos com clareza o que Deus quer que façamos em cada momento.

Assim, parece que a invocação do Divino Espírito Santo para que nos conceda este Dom, é fundamental para ultrapassar as dificuldades que possamos sentir neste caso.

Trata-se, também, de “honestidade intelectual”, ou seja, tendo consciência das nossas limitações, recorrer a Quem pode dar-nos ajuda significativa e decisiva.

(AMA, 2019)


[i] Escolhi este título para uma série de reflexões sobre os mistérios contidos no Evangelho. Se por “mistério” consideramos algo que não entendemos inteiramente ou não compreendemos com meridiana clareza, então julgo que o Evangelho contém muitas atitudes, palavras, gestos de Jesus Cristo cujo verdadeiro significado e “alcance” nos escapa.