Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
30/08/2019
Evangelho e comentário
Evangelho: Mt 25, 1-13
Naquele tempo, disse Jesus aos seus
discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez
virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram
insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas,
não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram
azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e
adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu
encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as
lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as
nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não
chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto
foram comprá-lo, chegou o esposo: as que estavam preparadas entraram com ele
para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras
virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em
verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia
nem a hora».
Comentário:
Porque é que o Senhor não me conhece?
Só por ter chegado um pouco tarde ao encontro!
Bom, mas, eu, estive de facto à espera, bastante tempo,
tanto que se me acabou o azeite e tive de ir comprá-lo!
O Senhor não tem isto em conta?
Não se trata de o Senhor querer ou não querer
conhecer-me.
Eu é que me exclui do Seu convívio porque abandonei a
“espera” e, quando Ele entrou, não estava ali para entrar com Ele.
Tive um motivo para o fazer, de facto… mas, O Senhor
não tem nada a ver com isso, ou tem?
Ele chega, abre-se a porta
e, quem está à espera, preparado, entra no gozo do seu Senhor.
Que não sei nem o dia nem a hora!
Pois não, por isso tenho de estar preparado SEMPRE!
(AMA,
comentário sobre Mt 25, 1-13, 2010.08.09)
Temas para reflectir e meditar
Pois apesar de ter merecido dar à luz o Filho do Altíssimo, era
Ela humilíssima, e ao nomear-se não se antepõe ao seu esposo, dizendo: Eu e o
teu pai, mas: Teu pai e eu.
Não teve em conta a dignidade do seu seio, mas a hierarquia conjugal.
A humildade de Cristo, com efeito, não tinha de ser para a sua mãe
uma escola de soberba.
(Stº. agostinho, Sermão 51,
18.)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
175
Sabeis muito bem, por o terdes ouvido e
meditado frequentemente, que para todos nós, cristãos, Jesus Cristo é o modelo.
Tê-lo-eis
ensinado a muitas almas, através desse apostolado - convívio humano com sentido
divino - que faz já parte do vosso eu.
Tê-lo-eis
recordado oportunamente, ao empregar esse meio maravilhoso da correcção
fraterna, possibilitando a quem vos escutava comparar o seu procedimento com o
do nosso Irmão primogénito, o Filho de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
Jesus é o modelo.
Ele
mesmo o disse: Discite a me, aprendei
de mim!
Quero
hoje falar-vos de uma virtude que, sem ser a única nem a primeira, actua na
vida cristã como o sal que preserva da corrupção e constitui a pedra de toque
da alma apostólica: a virtude da santa pureza.
É verdade que a caridade teologal é a
virtude mais alta, mas a castidade é a exigência sine qua non, condição
imprescindível para chegar ao diálogo íntimo com Deus.
Quem
não a guarda, se não luta, acaba por ficar cego.
Não
vê nada, porque o homem animal não pode perceber as coisas que são do Espírito
de Deus .
Animados pela pregação do Mestre, nós
queremos ver com olhos limpos: bem-aventurados os puros de coração, porque
verão a Deus.
A Igreja sempre apresentou estas palavras
como um convite à castidade.
Guardam
um coração sadio, escreve S. João Crisóstomo, os que possuem uma consciência
completamente limpa ou os que amam a castidade.
Nenhuma
virtude é tão necessária como esta para ver a Deus.
176
O
exemplo de Cristo
Jesus Cristo, Nosso Senhor, foi, ao longo
da sua vida sobre a terra, coberto de impropérios e maltratado de todas as
maneiras possíveis.
Lembrais-vos?
Diziam
que se comportava como um revoltoso e afirmaram que estava endemoninhado.
Noutra
altura, interpretaram mal as manifestações do seu Amor infinito e
classificaram--no como amigo de pecadores.
Mais tarde, a Ele, que é a própria penitência
e a própria temperança, lançam-lhe à cara que frequentava a mesa dos ricos.
Também
lhe chamam depreciativamente fabri filius,
filho do trabalhador, do carpinteiro, como se isso fosse uma injúria.
Permite
que o rotulem de bebedor e comilão...
Deixa
que o acusem de tudo, excepto de que não é casto.
Não
os deixou dizer isso, porque quer que nós conservemos com toda a nitidez esse
exemplo: um modelo maravilhoso de pureza, de limpeza, de luz, de amor que sabe
queimar todo o mundo para o purificar.
Gosto de me referir à santa pureza,
contemplando sempre a conduta de Nosso Senhor, porque Ele a viveu com grande
delicadeza.
Reparai
no que relata S. João quando, Jesus, fatigatus
ex itinere, sedebat sic supra fontem, cansado no caminho se sentou à borda
do poço.
Procurai recolher-vos e reviver devagar a
cena: Jesus Cristo, perfectus Deus,
perfectus homo, está fatigado do caminho e do trabalho apostólico, tal como
algumas vezes deve ter sucedido convosco, que vos sentis arrasados por já não
poderdes mais.
É
comovedor observar o Mestre esgotado.
Além
disso, tem fome: os discípulos tinham ido ao povoado vizinho para buscar
alimentos.
E
tem sede.
Mas, mais do que a fadiga do corpo,
consome-o a sede de almas.
Por
isso, ao chegar a samaritana, aquela mulher pecadora, o coração sacerdotal de
Cristo derrama-se, diligente, para recuperar a ovelha perdida, esquecendo o
cansaço, a fome e a sede.
Ocupava-se o Senhor com aquela grande obra
de caridade, quando os apóstolos voltaram da cidade e mirabantur quia cum muliere loquebatur, ficaram surpreendidos por
estar a falar a sós com uma mulher.
Como
era cuidadoso!
Que
amor à virtude encantadora da santa pureza, que nos ajuda a ser mais fortes,
mais rijos, mais fecundos, mais capazes de trabalhar por Deus, mais capazes de
tudo o que é grande!
177
Esta é a vontade de Deus, a vossa
santificação... que cada um saiba usar o seu corpo santa e honestamente, não se
abandonando às paixões, como fazem os pagãos que não conhecem a Deus.
Pertencemos
totalmente a Deus, com a alma e com o corpo, com a carne e com os ossos, com os
sentidos e com as potências.
Pedi-lhe
com confiança: Jesus, guarda o nosso coração! Faz com que o meu coração seja
grande, forte e terno, afectuoso e delicado, transbordante de caridade para Ti,
para servir todas as almas.
O
nosso corpo é santo, templo de Deus, precisa S. Paulo.
Esta
exclamação do Apóstolo recorda-me o chamamento à santidade, que o Mestre dirige
a todos os homens: Estote perfecti sicut
et Pater vester caelestis perfectus est.
O
Senhor pede a todos, sem discriminação alguma, correspondência à graça.
O
Senhor exige a cada um, de acordo com a sua situação pessoal, a prática das
virtudes próprias dos filhos de Deus.
Por isso, ao recordar-vos que o cristão tem
de guardar uma castidade perfeita, estou a referir-me a todos: aos solteiros,
que devem cingir-se a uma completa continência, e aos casados, que vivem
castamente, cumprindo as obrigações próprias do seu estado.
Com o espírito de Deus, a castidade, longe
de ser um peso incómodo e humilhante, torna-se uma afirmação gozosa, porque o
querer, o domínio e a vitória não são dados pela carne nem vêm do instinto, mas
procedem da vontade, sobretudo se está unida à do Senhor.
Para
ser castos e não simplesmente continentes ou honestos, temos de submeter as
paixões à razão, por uma causa elevada, por um impulso de Amor.
Comparo esta virtude a umas asas que nos
permitem levar os mandamentos, a doutrina de Deus por todos os ambientes da
terra, sem receio de ficar enlameados.
Essas
asas, tal como as da aves majestosas que sobem mais alto que as nuvens, pesam e
pesam muito, mas, se faltassem, não seria possível voar.
Gravai
isto na vossa mente, decididos a não ceder quando sentirdes a garra da
tentação, que se insinua apresentando a pureza como uma carga insuportável.
Ânimo!
Subi
até ao sol, em busca do Amor!
178
Com
Deus nos nossos corpos
Causou-me sempre muita pena o costume de
algumas pessoas - tantas! - que escolhem como nota constante dos seus
ensinamentos a impureza.
Com
isso, conseguem - comprovei-o em bastantes almas - exactamente o contrário do
que pretendem, porque a impureza é matéria mais pegajosa que o pez e deforma as
consciências com complexos ou medos, como se a pureza da alma fosse um
obstáculo quase insuperável.
Nós
não faremos assim!
Temos
de tratar da santa pureza com pensamentos positivos e limpos, com palavras
modestas e claras.
Discorrer sobre este tema, significa
dialogar sobre o Amor.
Tenho
de vos dizer que para esse efeito me ajuda considerar a Humanidade Santíssima
de Nosso Senhor, a maravilha inefável de Deus que se humilha, até fazer-se
homem.
E
que não se sente aviltado por ter tomado carne igual à nossa, com todas as suas
limitações e fraquezas, menos o pecado, porque nos ama com loucura!
Ele
não se rebaixa com o seu aniquilamento e, em troca, levanta-nos, deificando-nos
o corpo e a alma.
Responder
afirmativamente ao seu Amor com um carinho claro, ardente e ordenado, isso é a
virtude da castidade.
Temos de gritar a todo o mundo com a
palavra e com o testemunho da nossa conduta: não empeçonhemos o coração, como
se fôssemos pobres animais dominados pelos instintos mais baixos.
Um
escritor cristão exprime-o assim:
Reparai
que o 0coração do homem não é pequeno, pois abraça muitas coisas.
Medi
essa grandeza, não pelas suas dimensões físicas, mas pelo poder do seu
pensamento, capaz de alcançar o conhecimento de tantas verdades.
É
possível preparar o caminho do Senhor no coração, traçar uma vereda direita,
para que passem por ali o Verbo e a Sabedoria de Deus.
Preparai
com uma conduta honesta e com obras irrepreensíveis o caminho do Senhor,
aplanai a estrada para que o Verbo de Deus caminhe por vós sem tropeçar e vos
dê o conhecimento dos seus mistérios e da sua vinda.
Revela-nos a Escritura Santa que a
grandiosa obra da santificação, tarefa oculta e magnífica do Paráclito, se
verifica na alma e no corpo.
Não sabeis que os vossos
corpos são membros de Cristo? - clama o Apóstolo.
Tomarei eu, pois, os
membros de Cristo e fá-los-ei membros de uma prostituta? (...)
Não sabeis, porventura,
que os vossos corpos são templos do Espírito Santo, que habita em vós, o qual
vos foi dado por Deus e que não pertenceis a vós mesmos, porque fostes
comprados por um grande preço? Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.
(cont)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Contenção; alguma privação; ser humilde.
Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.
Lembrar-me:
Filiação divina.
Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
A castidade é uma virtude
Escreveste-me, médico apóstolo:
"Todos sabemos por experiência que podemos ser castos, vivendo vigilantes,
frequentando os Sacramentos e apagando as primeiras chispas da paixão, sem
deixar que a fogueira ganhe corpo. É precisamente entre os castos que se contam
os homens mais íntegros, sob todos os aspectos. E entre os luxuriosos
predominam os tímidos, os egoístas, os falsários e os cruéis, que são
características de pouca virilidade". (Caminho, 124)
Não deves limitar-te a fugir da queda
ou da ocasião, nem o teu comportamento deve reduzir-se, de maneira alguma, a
uma negação fria e matemática. Já te convenceste de que a castidade é uma
virtude e, como tal, deve desenvolver-se e aperfeiçoar-se? Não basta ser continente,
cada um segundo o seu estado. Insisto: temos de viver castamente, com virtude
heróica. Este comportamento é um acto positivo, com o qual aceitamos de boa
vontade o pedido de Deus: Præbe, fili mi,
cor tuum mihi et oculi tui vias meas custodiant, entrega-me, meu filho, o
teu coração e espraia os teus olhos pelos meus campos de paz.
Pergunto-te eu, agora: como encaras tu
esta batalha? Bem sabes que a luta já está vencida, se a mantivermos desde o
princípio. Afasta-te imediatamente do perigo, mal percebas as primeiras chispas
de paixão, e até antes. Fala, além disso, com quem dirige a tua alma; se
possível antes, porque abrindo o coração de par em par não serás derrotado. Um
acto repetido várias vezes cria um hábito, uma inclinação, uma facilidade. É
preciso, pois, batalhar para alcançar o hábito da virtude, o hábito da
mortificação, para não recusar o Amor dos Amores.
Meditai no conselho de S. Paulo a
Timóteo: Te ipsum castum custodi,
conserva-te a ti mesmo puro, para estarmos, também, sempre vigilantes,
decididos a defender o tesouro que Deus nos entregou. Ao longo da minha vida,
quantas e quantas pessoas não ouvi queixarem-se: Ah! Se eu tivesse cortado ao
princípio! E diziam-no cheias de aflição e de vergonha. (Amigos
de Deus, 182)
29/08/2019
Evangelho e comentário
Martírio
de São João Baptista
Evangelho: Mc 6,17-29
Naquele tempo, o rei Herodes mandara
prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a mulher do seu
irmão Filipe, que ele tinha tomado por esposa. João dizia a Herodes: «Não podes
ter contigo a mulher do teu irmão». Herodíades odiava João Baptista e queria
dar-lhe a morte, mas não podia, porque Herodes respeitava João, sabendo que era
justo e santo, e por isso o protegia. Quando o ouvia, ficava perturbado, mas
escutava-o com prazer. Entretanto, chegou um dia oportuno, quando Herodes, no
seu aniversário natalício, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos
oficiais e às principais personalidades da Galileia. Entrou então a filha de
Herodíades, que dançou e agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à
jovem: «Pede-me o que desejares e eu to darei». E fez este juramento: «Dar-te-ei
o que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino». Ela saiu e perguntou à
mãe: «Que hei-de pedir?». A mãe respondeu-lhe: «Pede a cabeça de João
Baptista». Ela voltou apressadamente à presença do rei e fez-lhe este pedido: «Quero
que me dês sem demora, num prato, a cabeça de João Baptista». O rei ficou
consternado, mas por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar o
pedido. E mandou imediatamente um guarda, com ordem de trazer a cabeça de João.
O guarda foi à cadeia, cortou a cabeça de João e trouxe-a num prato. A jovem
recebeu-a e entregou-a à mãe. Quando os discípulos de João souberam a notícia, foram
buscar o seu cadáver e deram-lhe sepultura.
Comentário:
O
Evangelista fala-nos de um personagem que ficou para sempre na história da
humanidade como o paradigma do vício, da luxúria, dos piores defeitos que um
ser humano pode ter, onde, avulta, o total e absoluto desprezo pela vida
humana.
Mas,
o grave e horrendo problema, é que tem seguidores – também hoje em dia – que um
pouco por todo o mundo espalham a sua maquiavélica acção, conspurcando a
sociedade, violentando inocentes, sacrificando pessoas – populações inteiras –
ao paroxismo que os domina.
Muitos
fazem-no abertamente, às claras, são notícia nos jornais e televisões, outros,
actuam insidiosamente junto dos mais frágeis e desprotegidos tornando-os
escravos das suas ideias, teorias e práticas aberrantes em todos os sentidos.
(AMA, comentário sobre Mc 6,17-29, 12.06.2019)
Temas para reflectir e meditar
Só mediante a Eucaristia é possível viver as virtudes heróicas do
cristianismo, a caridade até ao perdão dos inimigos, até ao amor a quem nos faz
sofrer, até ao dom da própria vida pelo próximo; a castidade em qualquer idade
e situação da vida; a paciência, especialmente na dor e quando se está
desconcertado pelo silêncio de Deus nos dramas da história ou da própria
existência pessoal.
Por isso sede sempre almas eucarísticas para dor ser cristãos
autênticos.
(são joão paulo ii, Homília,
1979.08.19, trad do castelhano por ama)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
168
As circunstâncias daquele servo da
parábola, devedor de dez mil talentos, reflectem bem a nossa situação perante
Deus: também nós não temos com que pagar a dívida imensa que contraímos por
tantas bondades divinas e que aumentámos ao ritmo dos nossos próprios pecados.
Embora
lutemos denodadamente, não conseguiremos devolver com equidade o muito que o
Senhor nos perdoou.
Mas
a misericórdia divina supre com abundância a impotência da justiça humana.
Ele
é que pode dar-se por satisfeito e anular a dívida, simplesmente porque é bom e
é infinita a sua misericórdia.
A parábola - lembrais-vos bem - termina com
uma segunda parte, que é como que o contraponto da precedente.
Aquele
servo, a quem acabam de perdoar uma dívida enorme, não se compadece de um
companheiro que lhe devia apenas cem denários. Aí é que se põe de manifesto a
mesquinhez do seu coração.
Estritamente
falando, ninguém lhe negará o direito de exigir o que é seu; no entanto, algo
se revolta dentro de nós e nos diz que essa atitude intolerante se afasta da
verdadeira justiça: não é justo que quem, há apenas um momento, recebeu um
tratamento misericordioso de favor e compreensão, não reaja ao menos com um
pouco de paciência para com o devedor.
Reparai
que a justiça não se manifesta exclusivamente pelo rigoroso respeito de
direitos e deveres, como se se tratasse de problemas aritméticos que se
resolvem com somas e subtracções.
169
A virtude cristã é mais ambiciosa: leva-nos
a mostrar-nos agradecidos, afáveis, generosos; a comportar-nos como amigos
leais e honrados, tanto nos tempos bons como na adversidade; a ser cumpridores
das leis e respeitadores das autoridades legítimas; a rectificar com alegria
quando nos damos conta de que nos enganámos ao encarar uma questão.
Sobretudo,
se somos justos, cumpriremos os nossos compromissos profissionais, familiares,
sociais..., sem espaventos nem alardes, trabalhando com empenho e exercitando
os nossos direitos, que também são deveres.
Não acredito na justiça dos preguiçosos,
porque com o seu dolce far niente -
como dizem na minha querida Itália - faltam, e às vezes gravemente, ao mais
fundamental dos princípios da equidade: o do trabalho.
Não
devemos esquecer que Deus criou o homem ut
operaretur, para trabalhar; e os outros - a nossa família, a nossa nação, a
Humanidade inteira, - dependem também da eficácia do nosso trabalho.
Meus
filhos, que pobre ideia têm da justiça os que a reduzem a uma simples
distribuição de bens materiais!
170
A
justiça e o amor à liberdade e à verdade
Desde a minha infância - desde que tive
ouvidos para ouvir, na expressão da Escritura - tenho ouvido o clamor da
questão social. Não se trata de nada de particular; é um tema antigo, de
sempre.
Talvez
tenha surgido no mesmo instante em que os homens se organizaram de alguma
maneira e se tornaram mais visíveis as diferenças de idade, de inteligência, de
capacidade de trabalho, de interesses, de personalidade.
Não sei se haver classes sociais é coisas
irremediável; aliás, não é do meu ofício falar dessas matérias, e muito menos
aqui, neste oratório, onde nos reunimos para falar de Deus (não desejaria
tratar senão deste tema em toda a minha vida) e para conversar com Deus.
Pensai o que quiserdes em tudo aquilo que a
Providência confiou à livre e legítima discussão dos homens, mas a minha
condição de sacerdote de Cristo impõe-me a necessidade de subir mais alto e de
vos lembrar que, em qualquer caso, nunca podemos deixar de viver a justiça, com
heroísmo, se for necessário.
171
Estamos obrigados a defender a liberdade
pessoal de todos, sabendo que Jesus Cristo foi quem nos conquistou essa
liberdade.
Se
não o fizermos, com que direito reivindicaremos a nossa?
Também
devemos difundir a verdade, porque veritas
liberabit vos, a verdade liberta-nos, enquanto a ignorância escraviza.
Temos
de defender o direito de todos os homens à vida, à posse do necessário para uma
existência digna, ao trabalho e ao descanso, à escolha do seu estado, à
constituição de um lar, a trazer filhos ao mundo dentro do matrimónio e a poder
educá-los, a passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, ao acesso à
cultura, à associação com os outros cidadãos para fins lícitos e, em primeiro
lugar, a conhecer e amar Deus com plena liberdade, porque a consciência, sendo
recta, descobre a marca do criador em todas as coisas.
Precisamente por isso, é urgente repetir -
não me meto em política, estou só a expor a doutrina da Igreja - que o marxismo
é incompatível com a fé de Cristo.
Existe
alguma coisa mais oposta à fé do que um sistema que baseia tudo em eliminar da
alma a presença amorosa de Deus?
Gritai
isso com muita força, de modo que se oiça claramente a vossa voz: para praticar
a justiça não precisamos do marxismo para nada. Pelo contrário, esse erro
gravíssimo, pelas suas soluções exclusivamente materialistas que ignoram o Deus
da paz, levanta obstáculos à felicidade e ao entendimento entre os homens.
Dentro do cristianismo achamos a boa luz que
dá sempre resposta a todos os problemas; basta que vos empenheis sinceramente
em ser católicos, non verbo neque lingua,
sed opere et veritate, não com palavras e com a língua, mas com obras e com
verdade.
Afirmai
isto sempre que se vos apresente a ocasião - procurai-a se for preciso - sem
reticências, sem medo.
172
Justiça
e caridade
Lede a Sagrada Escritura.
Meditai
um a um, os episódios da vida do Senhor, os seus ensinamentos.
Considerai
especialmente os conselhos e as advertências com que preparava aquele punhado
de homens que haviam de ser os seus apóstolos, os seus mensageiros até aos
confins da terra.
Qual
é a principal norma que lhes dá?
Não
é o mandamento novo da caridade?
Foi
com amor que abriram caminho naquele mundo pagão e corrupto.
Convencei-vos de que apenas com a justiça
nunca resolvereis os grandes problemas da Humanidade.
Quando
se faz apenas justiça, não é de estranhar que as pessoas se sintam feridas: a
dignidade do homem, que é filho de Deus, pede muito mais do que isso.
A
caridade tem que ir dentro e ao lado, porque dulcifica tudo e tudo deifica:
Deus é amor.
Temos
de actuar sempre por amor de Deus, que torna mais fácil amar o próximo e
purifica e eleva os amores terrenos.
Para se passar da estrita justiça à
abundância da caridade há todo um trajecto a percorrer e não são muitos os que
perseveram até ao fim: alguns conformam-se com chegar apenas aos umbrais: prescindem
da justiça e limitam-se a um pouco de beneficência, a que chamam caridade, sem
cuidarem de que o que fazem representa uma pequena parte do que estão obrigados
a fazer.
E
mostram-se tão satisfeitos consigo mesmos como o fariseu que julgava ter
enchido a medida da lei só por jejuar dois dias por semana e pagar o dízimo de
tudo o que possuía.
173
A caridade, que é como que um transbordar
generoso da justiça, exige em primeiro lugar o cumprimento do dever: começa-se
pelo que é justo; continua-se pelo que é mais equitativo...
Mas
para amar requer-se muita finura, muita delicadeza, muito respeito, muita
afabilidade; numa palavra, seguir aquele conselho do Apóstolo: levai as cargas uns dos outros e assim
cumprireis a lei de Cristo.
Então,
sim, vivemos plenamente a caridade, realizamos o mandato de Jesus.
Para mim não existe exemplo mais claro
dessa união prática da justiça com a caridade do que o comportamento das mães.
Amam
com idêntico carinho todos os seus filhos e esse amor leva-as precisamente a
tratá-los de modo diferente - com uma justiça desigual - visto que cada um é
diferente dos outros.
Pois também em relação aos nossos
semelhantes a caridade aperfeiçoa e completa a justiça, porque nos leva a
proceder de maneira desigual com os desiguais, adaptando-nos às suas circunstâncias
concretas, a fim de comunicarmos alegria a quem está triste, ciência a quem
carece de formação, afecto a quem se sente só...
A
justiça determina que se dê a cada um o que lhe pertence; ora isto não
significa dar a todos a mesma coisa.
O
igualitarismo utópico é fonte das maiores injustiças.
Para procedermos sempre assim, como essas
boas mães, precisamos de esquecer-nos de nós mesmos e de não aspirar a outra superioridade
senão a de servir os outros, como Jesus Cristo, que afirmava: o Filho do homem
veio, não para ser servido, mas para servir.
Isto
exige a inteireza da submissão da nossa vontade ao modelo divino, trabalhar
para todos, lutar pela felicidade eterna e pelo bem-estar dos outros.
Não
conheço melhor caminho para ser justo do que uma vida de entrega e de serviço.
174
Talvez alguns pensem que sou um ingénuo.
Não
me importa. Embora me qualifiquem desse modo, porque continuo a acreditar na
caridade, garanto-vos que sempre acreditarei nela!
E
enquanto o Senhor me conceder vida, continuarei a ocupar-me - como sacerdote de
Cristo - de que haja unidade e paz entre os que são irmãos por serem filhos do
mesmo Pai, Deus; de que a humanidade se compreenda; de que todos compartilhem o
mesmo ideal: o da Fé!
Recorramos a Santa Maria, Virgem prudente e
fiel, e a S. José, seu esposo, modelo acabado de homem justo.
Eles,
que na presença de Jesus, Filho de Deus, viveram as virtudes que contemplámos,
conseguir-nos-ão a graça de que se arraiguem firmemente na nossa alma, para nos
decidirmos a proceder a toda a hora como bons discípulos do Mestre: prudentes,
justos, cheios de caridade.
(cont)
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