04/11/2014

Conversei com Ele?

É possível que te assuste esta palavra: meditação. Faz-te lembrar livros de capas negras e velhas, ruído de suspiros ou rezas como cantilenas rotineiras... Mas isso não é meditação. Meditar é contemplar, considerar que Deus é teu Pai, e tu seu filho, necessitado de ajuda; e depois dar-lhe graças pelo que já te concedeu e por tudo o que te há-de dar. (Sulco, 661)

Para o teu exame diário: – Deixei passar alguma hora sem falar com o meu Pai, Deus? – Conversei com Ele com amor de filho? Acredita que és capaz! (Sulco, 657)

O único meio de conhecer Jesus: privar com Ele! N'Ele encontrarás sempre um Pai, um Amigo, um Conselheiro e um Colaborador para todas as actividades honestas da tua vida quotidiana...

E, com esse convívio, gerar-se-á o Amor. (Sulco, 662)

"Fica connosco, porque anoitece!...". Foi eficaz a oração de Cléofas e do companheiro.

Que pena, se tu e eu não soubéssemos "deter" Jesus que passa! Que dor, se não Lhe pedirmos que fique connosco! (Sulco, 671)


Temas para meditar - 261


Luta


O grave não é que quem luta caia, mas sim que permaneça na queda; o grave não é que alguém seja ferido na guerra, mas sim desesperar depois de recebido o golpe e não curar a ferida. O grave não é que quem luta caia, mas sim que permaneça na queda; o grave não é que alguém seja ferido na guerra, mas sim desesperar depois de recebido o golpe e não curar a ferida.


(s. joão crisóstomoExort. II a Teodoro caído, 1)

Tratado do verbo encarnado 19

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 2 — Se à natureza divina convém assumir.

O segundo discute-se assim. — Parece que à natureza divina não convém o assumir.

1 — Pois, como se disse, assumir é como tomar para si (ad se sumere). Ora, a natureza divina não tomou para si a natureza humana, pois, não se fez a união na natureza, mas na pessoa, como se disse. Logo, à natureza divina não cabe assumir a natureza humana.

2. Demais. — A natureza divina é comum às três Pessoas. Se, pois, à natureza convém o assumir, segue-se que convém às três Pessoas. E assim, o Pai assumiu a natureza humana, como o Filho - O que é erróneo.

3. Demais. — Assumir é agir. Ora, agir convém à pessoa, não à natureza, que antes exprime o princípio pelo qual o agente age. Logo, assumir não convém à natureza.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Aquela natureza que é sempre. gerada do Pai, isto é, que foi pela geração eterna recebida do Pai, recebeu a nossa natureza, sem pecado.

Como dissemos, a palavra assunção abrange duas coisas - o princípio e o termo da acção. Ora, ser princípio da assunção convém à natureza divina em si mesma, pois, pelo seu poder se lhe realizou a assunção. Mas, ser termo da assunção não convém a essa natureza em si mesma, mas, em razão da Pessoa na qual a consideramos. Donde, primária e apropriadamente, dizemos que a Pessoa assume, mas, secundariamente podemos dizer que também a natureza assumiu a natureza à sua Pessoa. E também deste modo dizemos que a natureza se encarnou, não por se ter convertido em carne, mas por ter assumido a natureza da carne. Donde o dizer Damasceno. Afirmamos que a natureza de Deus se encarnou, segundo os santos Atanásio e. Cirilo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O pronome se é recíproco e se refere ao mesmo suposto. Ora, a natureza divina não difere, pelo suposto, da Pessoa do Verbo. Donde, por ter a natureza do Verbo assumido a natureza humana à sua Pessoa, dizemos que a assumiu a si. Mas, embora o Pai assuma a natureza humana à Pessoa do Verbo, nem por isso a assume a si, pois, não é o mesmo o suposto do Pai e do Verbo. Donde, não se pode propriamente dizer que o Pai assume a natureza humana.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O conveniente à natureza humana em si mesma convém às três Pessoas, assim a bondade, a sabedoria e atributos semelhantes. Mas assumir convém-lhe em razão da Pessoa do Verbo, como se disse. Por isso só a essa Pessoa convém.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Assim como em Deus se identificam o seu ser e o princípio deste, assim também, o que faz e o princípio da sua acção, pois, todo ser age enquanto ser. Donde, a natureza divina é o princípio do agir de Deus e é o próprio Deus agente.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 15-24

15 Tendo ouvido estas coisas um dos convivas disse-Lhe: «Bem-aventurado quem participar do banquete no reino de Deus». 16 Jesus respondeu-lhe: «Um homem fez uma grande ceia para a qual convidou a muitos. 17 À hora da ceia, mandou um servo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo está preparado. 18 Mas todos à uma começaram a escusar-se. O primeiro disse-lhe: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me dês por escusado. 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las; peço-te que me dês por escusado. 20 Disse também outro: Casei-me, por isso não posso ir. 21 «Voltando o servo, referiu estas coisas ao seu senhor. Então, irado, o pai de família disse ao seu servo: Vai já pelas praças e pelas ruas da cidade; traz cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. 22 Disse o servo: Senhor, está feito como mandaste e ainda há lugar. 23 Disse o senhor ao servo: Vai pelos caminhos e ao longo dos cercados; e força-os a vir, para que se encha a minha casa. 24 Pois eu vos digo que nenhum daqueles que foram convidados provará a minha ceia».

Comentário:

Aparentemente, as desculpas apresentadas pelos convidados que não aceitaram o convite, são compreensíveis, sobretudo aquele que alega ter-se casado.
Mas deve atentar-se que o Anfitrião fez os convites com antecedência, o que permitiria aos convidados ‘programar’ as suas agendas.
Em primeiro lugar atentemos que alguém que dá um ceia desta qualidade e grandeza merece respeito e toda a honra e, depois, aquele que se terá casado nesse mesmo dia, tinha por estrita obrigação de, pelo menos, ter avisado imediatamente o anfitrião das suas circunstância.
O que aqui está patente é um total desprezo pelo convite e por quem convida e um equívoco enorme por parte dos convidados em estabelecer as suas prioridades.

(ama, comentário sobre Lc 14, 15-24, 2013.2.11.05)


Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/1

Coloquei minha florzinha branca na minha Imitação, no capítulo intitulado: "De que é preciso amar a Jesus acima de todas as coisas". Ainda está aí, mas o caule quebrou-se junto à raiz e Deus parece demonstrar com isso que quebraria em breve os laços da sua florzinha e não a deixaria murchar na terra!

Após obter o consentimento de papai, pensava poder voar sem temor para o Carmelo, mas numerosos e dolorosos empecilhos iam ainda provar a minha vocação. Tremendo, anunciei a meu tio a resolução tomada. Ele deu-me todas as mostras de ternura possíveis, mas não a permissão de partir. Pelo contrário, proibiu-me de lhe falar da minha vocação antes dos meus 17 anos. Era, dizia ele, contrário à prudência humana deixar uma menina de 15 anos ingressar no Carmelo. Aos olhos do mundo, essa vida de carmelita era vida de filósofo e seria grande prejuízo para a religião deixar uma criança sem experiência abraçá-la... Todos falariam disso etc, etc... Disse-me até que para decidi-lo a me deixar partir seria preciso um milagre. Vi logo que todos os raciocínios eram inúteis e retirei-me com o coração mergulhado na mais profunda amargura. O meu único consolo era a oração. Pedi a Jesus para fazer o milagre exigido, pois só por esse preço poderia responder ao pedido Dele. Passou-se um tempo bastante longo antes que eu ousasse falar novamente com meu tio. Custava-me muito ir a casa dele e ele parecia não mais pensar na minha vocação. Soube, mais tarde, que minha grande tristeza o influenciou muito a meu favor. Antes de fazer brilhar em minha alma um raio de esperança, Deus quis mandar-me um martírio muito doloroso que durou três dias. Oh! Nunca compreendi tão bem como durante essa provação a dor da Santíssima Virgem e de são José procurando o divino Menino Jesus... Estava num triste deserto, ou melhor, minha alma parecia uma frágil embarcação entregue sem piloto à mercê de ondas tempestuosas... Sei, Jesus estava ali, dormindo na minha barquinha, mas a noite estava tão escura que não podia vê-lo, nada para iluminar, nem um relâmpago vinha rasgar as espessas nuvens... Luz bem triste a dos relâmpagos, mas se uma tempestade tivesse ocorrido eu teria conseguido ver Jesus por um instante... mas era noite, noite profunda da alma... como Jesus no Jardim da Agonia, sentia-me só, sem consolo, nem por parte da terra, nem do Céu. Deus parecia ter-me abandonado!!!... A natureza parecia tomar parte na minha amarga tristeza; durante esses três dias, o sol não libertou um único raio e a chuva caiu torrencialmente. Notei que em todas as circunstâncias graves da minha vida a natureza era imagem da minha alma. Nos dias de lágrimas, o Céu chorava comigo; nos dias de alegria, o Sol mandava com fartura seus alegres raios e o azul não comportava nenhuma nuvem...

Enfim, no quarto dia, um Sábado, dia consagrado à doce Rainha dos Céus, fui visitar meu tio. Que surpresa, vendo-o olhar-me e fazer-me entrar em seu escritório sem que eu lhe tivesse manifestado o desejo!... Começou por me censurar brandamente por parecer ter medo dele e disse-me não ser necessário pedir um milagre, que tinha apenas pedido a Deus que lhe desse "uma simples inclinação de coração" e fora atendido... Ah! não fui tentada a implorar por um milagre, para mim o milagre havia sido concedido. Meu tio havia mudado. Sem fazer alusão nenhuma à "prudência humana", disse-me que eu era uma florzinha que Deus queria colher e que não se oporia mais!...

Essa resposta definitiva era verdadeiramente digna dele. Pela terceira vez, esse cristão de uma outra idade permitia que uma das filhas adoptivas do seu coração fosse sepultar-se longe do mundo. Minha tia também foi admirável em ternura e prudência, não me lembro de, durante minha provação, ela ter dito uma palavra sequer que pudesse ter agravado minha tristeza. Via que tinha pena da sua pobre Teresinha. Por isso, depois que obtive a autorização do meu querido tio, deu-me a dela, mas não sem manifestar de mil maneiras que a minha partida lhe causaria muita aflição... Ai! nossos queridos familiares estavam longe de pensar, então, que iriam renovar duas vezes ainda o mesmo sacrifício... Mas, ao estender a mão para pedir sempre, Deus não a oferecia vazia, os seus mais queridos amigos puderam servir-se com fartura da força e da coragem de que tanto precisaram... Meu coração está levando-me muito longe do meu assunto, volto quase a contragosto: depois da resposta do meu tio, compreendeis, Madre, com que alegria voltei aos Buissonnets debaixo do "belo céu, totalmente livre de nuvens!..." Na minha alma também a noite tinha ido embora, Jesus acordara e devolvia-me a alegria, o ruído das ondas emudecera; no lugar da ventania da provação, uma brisa leve enchia a minha vela e pensei chegar logo à margem abençoada que avistava perto de mim. De facto, parecia muito perto da minha barquinha; porém, mais de uma tempestade se levantaria e esconderia da minha vista o farol luminoso, fazendo minha alma recear o afastamento sem volta da praia tão ardentemente desejada...
Poucos dias após ter obtido o consentimento do meu tio, fui visitar-vos, querida Madre, e falei-vos da minha alegria por terem as provações chegado ao fim. Mas qual não foi minha surpresa e minha aflição ao ouvir de vós que o Superior não permitia meu ingresso antes de eu atingir 21 anos...

Ninguém tinha pensado nessa oposição, a mais invencível de todas; porém, sem perder a coragem, fui com papai e Celina encontrar o nosso padre a fim de tentar demovê-lo, mostrando-lhe que eu tinha vocação para o Carmelo. Ele recebeu-nos muito friamente. Embora o meu incomparável paizinho tivesse juntado os seus argumentos aos meus, nada pôde alterar a sua disposição. Disse que não havia perigo na demora, que podia levar uma vida de carmelita em casa, que embora não tomasse a disciplina nem tudo seria perdido etc... etc... Enfim, acrescentou ser apenas o representante do senhor bispo e, se esse me autorizasse a ingressar, não teria mais nada a dizer... Saí chorando. Felizmente, estava escondida atrás da minha sombrinha, pois chovia muito. Papai não sabia como me consolar... prometeu levar-me a Bayeux logo que eu quisesse, pois estava resolvida a alcançar a minha meta. Disse que iria até ao Santo Padre se o senhor bispo me negasse a entrada no Carmelo aos 15 anos... Muita coisa ocorreu antes da minha ida a Bayeux. Por fora, minha vida parecia a mesma, estudava, tomava lições de desenho com Celina e minha hábil mestra achava em mim muito pendor pela sua arte. Crescia no amor a Deus, sentia em meu coração impulsos desconhecidos até então, tinha, às vezes, verdadeiros êxtases de amor. Uma tarde, não sabendo dizer a Jesus quanto o amava e como desejava que Ele fosse amado e glorificado em todo lugar, pensei com amargura que não poderia nunca receber no inferno um único acto de amor. Então, disse a Deus que para agradar a Ele eu consentiria em ser mergulhada nele a fim de que Ele fosse amado eternamente nesse lugar de blasfémia... Sabia que isso não podia glorificá-lo, sendo que Ele só deseja nossa felicidade, mas quando se ama sente-se necessidade de dizer mil tolices; se eu falava assim, não é porque não desejasse o Céu, mas, então, meu Céu consistia só no Amor e sentia, como são Paulo, que nada poderia separar-me do objecto divino que me seduzira!...

Antes de deixar o mundo, Deus concedeu-me a graça de contemplar de perto almas de crianças; sendo a última da família, nunca tinha tido essa felicidade. Eis as tristes circunstâncias que me levaram a isso: uma pobre mulher, parente da nossa empregada, morreu jovem deixando três criancinhas; durante a sua doença, guardamos em casa as duas meninas, tendo a mais velha apenas 6 anos. Cuidava delas o dia todo e era uma grande satisfação para mim ver com quanta candura acreditavam em tudo o que lhes dizia. É preciso que o santo baptismo deposite nas almas um germe muito profundo das virtudes teologais para que se manifestem desde a infância e que a esperança dos bens futuros baste para fazer aceitar sacrifícios. Quando queria ver as minhas duas meninas bem conciliadas, em vez de prometer brinquedos e bombons àquela que cederia em favor da outra, falava-lhes das recompensas eternas que o Menino Jesus daria no Céu às crianças bem comportadas. A mais velha, cuja razão começava a desenvolver-se, olhava-me com olhos brilhantes de alegria, fazia-me mil perguntas gentis sobre o menino Jesus e seu belo Céu e prometia-me com entusiasmo ceder sempre em favor da irmã, dizendo que nunca na vida esqueceria o que lhe havia dito "a grande senhorita", pois era assim que me chamava... Vendo de perto essas almas inocentes, compreendi ser grande infelicidade não formá-las bem desde o seu despertar, quando são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal... compreendi o que Jesus disse no Evangelho: que seria melhor ser lançado ao mar do que escandalizar uma só dessas crianças. Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!...
Sei que Deus não precisa de ninguém para realizar a sua obra, mas assim como permite a um hábil jardineiro cultivar plantas raras e delicadas e lhe dá para isso a ciência necessária, reservando para si a tarefa de fecundar, assim também Jesus quer ser ajudado na sua divina cultura das almas.

Que aconteceria se um jardineiro desajeitado não enxertasse direito suas plantas? Se não soubesse reconhecer a natureza de cada uma e quisesse fazer brotar rosas num pessegueiro?... Faria morrer a planta que, todavia, era boa e capaz de produzir frutos. Assim é que se deve reconhecer desde a infância o que Deus pede às almas e ajudar a acção da sua graça, sem nunca apressá-la nem retardá-la.

Como os passarinhos aprendem a cantar escutando os seus progenitores, assim as crianças aprendem a ciência das virtudes, o canto sublime do Amor divino, junto às almas encarregadas de formá-las.

Recordo-me de que entre os meus passarinhos eu tinha um canarinho que cantava maravilhosamente; tinha também um pequeno pintassilgo ao qual prodigalizava meus cuidados maternos, tendo-o adoptado antes que pudesse gozar da sua liberdade... Esse pobre prisioneirinho não tinha pais para ensiná-lo a cantar, mas ouvindo o dia todo o seu companheiro canarinho soltar alegres trinados quis imitá-lo... Esse empreendimento era difícil para um pintassilgo, por isso sua voz delicada teve dificuldade de se afinar à voz vibrante do seu mestre de música. Era lindo ver os esforços do pequeno, mas foram coroados de êxito, pois seu canto, embora conservando maior doçura, foi absolutamente o mesmo do canarinho.

Oh! Madre querida, fostes vós quem me ensinastes a cantar... foi a vossa voz que encantou minha infância, e agora tenho o consolo de ouvir dizer que ela se parece com a vossa!!! Bem sei que ainda estou longe disso, mas espero, apesar da minha fraqueza, repetir eternamente o mesmo cântico que vós!...

Antes do meu ingresso no Carmelo, fiz ainda muitas outras experiências acerca da vida e das misérias do mundo, mas esses detalhes levar-me-iam longe demais. Vou retomar o relato da minha vocação. O dia 31 de Outubro foi o dia fixado para a minha viagem a Bayeux. Parti sozinha com papai, o coração transbordando de esperança, mas também muito comovida com a ideia de apresentar-me no bispado. Pela primeira vez na vida ia fazer uma visita sem ser acompanhada das minhas irmãs, e essa visita era a um bispo! Eu, que nunca precisava falar, a não ser para responder às perguntas que me eram feitas, devia explicar pessoalmente a finalidade da minha visita, expor os motivos que me levavam a solicitar a minha entrada no Carmelo, enfim, devia mostrar a solidez da minha vocação. Ah! como me custou essa viagem! Foi preciso Deus conceder-me uma graça toda especial para vencer minha grande timidez... É também verdade que "Nunca o Amor depara com o impossível, pois crê que tudo lhe é possível e permitido". Verdadeiramente, só o amor de Jesus podia fazer-me vencer esta e as outras dificuldades que se seguiram, pois agradou-lhe fazer-me comprar minha vocação por meio de muitas provações...
Agora que gozo da solidão do Carmelo, descansando à sombra da Cruz que tão ardorosamente desejei, considero ter pago pouco pela minha felicidade e estaria disposta a suportar penas muito maiores para adquiri-la se a não tivesse alcançado!

Chovia a cântaros quando chegamos a Bayeux. Papai não queria que a sua rainhazinha entrasse na residência episcopal com sua linda roupa molhada. Subimos num ônibus e dirigimo-nos à catedral. Aí começaram novas dificuldades. Sua Excelência e todo o clero assistiam a um grande funeral. A igreja estava repleta de senhoras de luto e eu, com meu vestido claro e meu chapéu branco, era olhada por todos. Queria sair da igreja, mas não podia pensar nisso por causa da chuva. Para humilhar-me ainda mais, papai, com sua simplicidade patriarcal, fez-me subir na torre da catedral. Não querendo desagradá-lo, subi com boa vontade e propiciei esse divertimento aos bons habitantes de Bayeux, que teria desejado nunca ter conhecido... Enfim, pude respirar sossegada numa capela atrás do altar-mor e fiquei muito tempo lá, rezando com fervor, aguardando que a chuva parasse e nos fosse permitido sair. Ao descer, papai fez-me observar a beleza do edifício, que parecia muito maior agora que estava deserto. Porém, um único pensamento ocupava meu espírito e não podia agradar-me com coisa alguma. Fomos logo procurar pelo padre Révérony, que sabia da nossa chegada por ter sido ele quem marcara o dia da viagem. Mas estava ausente. Fomos obrigados a vaguear pelas ruas, que me pareceram muito tristes. Enfim, voltamos para perto da sede do bispado, e papai fez-me entrar num belo hotel onde não fiz honra ao hábil cozinheiro. O pobre paizinho era para comigo de uma ternura quase inacreditável, dizendo-me para não ficar triste, que logo o senhor bispo iria atender o meu pedido. Após um descanso, voltamos a procurar o padre Révérony; um senhor chegou ao mesmo tempo, mas o vigário-geral pediu-lhe polidamente para esperar e fez-nos entrar primeiro no seu gabinete (o pobre senhor teve tempo de enfastiar-se, pois a visita foi demorada). O padre Révérony mostrou-se muito amável, mas creio que estranhou muito o motivo da nossa viagem. Depois de ter-me olhado sorrindo, dirigiu-me algumas perguntas e disse: "Vou apresentar-vos a Sua Excelência, tenhais a bondade de me acompanhar". Vendo as lágrimas brilharem nos meus olhos, acrescentou: "Ah! vejo diamantes... não deveis mostrá-los a Sua Excelência!"... Fez-nos atravessar muitos cómodos vastíssimos, enfeitados de retratos de bispos. Vendo-me nesses salões enormes, tinha impressão de ser uma formiguinha e me perguntava o que ia ousar dizer a Sua Excelência. Ele anda, entre dois cómodos, num corredor. Vi o padre Révérony dizer-lhe algumas palavras e voltar com ele. Aguardávamos no gabinete dele. Ali, três enormes poltronas estavam dispostas diante da lareira onde crepitava um fogo forte. Ao ver entrar Sua Grandeza, papai pôs-se de joelhos a meu lado para receber a sua bênção. Indicou uma poltrona para papai se sentar, colocou-se na frente dele e o padre Révérony indicou-me a do meio. Recusei polidamente, mas insistiu, dizendo que devia mostrar-me capaz de obedecer. Sentei-me logo sem fazer comentário e senti-me constrangida ao vê-lo pegar uma cadeira enquanto eu estava afundada numa poltrona onde quatro pessoas como eu cabiam folgadamente (mais à vontade do que eu, pois estava longe de me sentir folgada!...) Esperava que papai fosse falar, mas disse-me para explicar pessoalmente a Sua Excelência a finalidade da nossa visita; o que fiz o mais eloquentemente possível. Acostumado com a eloquência, Sua Grandeza não pareceu comovido com meu arrazoado. Uma palavra favorável do padre superior teria servido melhor a minha causa, infelizmente não dispunha dela e sua oposição não intercedia a meu favor.
Sua Excelência perguntou-me se havia muito tempo que eu desejava ingressar no Carmelo: "Oh, sim, Excelência! Muito tempo..." . "Vejamos", interveio, rindo, o padre Révérony, "podeis dizer que faz 15 anos que tendes esse desejo." "É verdade", respondi sorrindo também, "mas não há muito que retirar, pois desejo fazer-me religiosa desde o despertar da minha razão e desejei o Carmelo logo que o conheci bem, pois nessa ordem achava que todas as aspirações da minha alma seriam satisfeitas." Não sei, Madre, se foram exactamente essas as minhas palavras, creio que eram ditas de forma ainda pior, mas, enfim, o sentido era este.

(cont.)



03/11/2014

E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?...

O Santo Rosário é arma poderosa. Emprega-a com confiança e maravilhar-te-ás do resultado. (Caminho, 558)

O princípio do caminho, que tem por fim a completa loucura por Jesus, é um confiado amor a Maria Santíssima.

– Queres amar a Virgem? – Pois então conversa com Ela! – Como? – Rezando bem o Rosário de Nossa Senhora.

Mas, no Rosário... dizemos sempre o mesmo! – Sempre o mesmo? E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?... Se há monotonia no teu Rosário, não será porque, em vez de pronunciares palavras, como homem, emites sons, como animal, estando o teu pensamento muito longe de Deus? – Além disso, repara: antes de cada dezena, indica-se o mistério a contemplar – Tu... já alguma vez contemplaste esses mistérios?

Faz-te pequeno. Vem comigo, e viveremos (este é o nervo da minha confidência) a vida de Jesus, de Maria e de José.


Todos os dias Lhes havemos de prestar um novo serviço. Ouviremos as Suas conversas de família. Veremos crescer o Messias. Admiraremos os Seus trinta amos de obscuridade... Assistiremos à Sua Paixão e Morte... Pasmaremos ante a glória da Sua Ressurreição... Numa palavra: contemplaremos, loucos de Amor (não maior amor que o Amor), todos e cada um dos instantes de Cristo Jesus. (Santo Rosário, Introdução)

Temas para meditar - 260


Doença

É necessário sofrer com paciência não só o estar doente, mas o ter a doença que Deus quer, entre as pessoas que quer e com as incomodidades que quer, e o mesmo digo das demais tribulações.



(SÃO Francisco de Sales, Introdução à Vida Devota, III, 3.) 

Tratado do verbo encarnado 18

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Em seguida devemos tratar da união relativamente à pessoa que assumiu.

E nesta questão discutem-se oito artigos:

Art. 1 — Se à Pessoa divina convém assumir a natureza criada.
Art. 2 — Se à natureza divina convém assumir.
Art. 3 — Se, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza pode assumir.
Art. 4 — Se uma Pessoa pode assumir a natureza criada, sem assumir outra.
Art. 5 — Se alguma outra Pessoa divina, que não a Pessoa do Filho, podia ter assumido a natureza humana.
Art. 6 — Se duas Pessoas divinas poderiam assumir uma natureza numericamente a mesma.
Art. 7 — Se uma mesma Pessoa divina pode assumir duas naturezas humanas.
Art. 8 — Se era mais conveniente ter-se encarnado o Filho de Deus, que o Pai ou o Espírito Santo.

Art. 1 — Se à Pessoa divina convém assumir a natureza criada.

O primeiro discute-se assim. — Parece que não convém a Pessoa divina assumir a natureza criada.

1. — Pois, uma Pessoa divina significa um ser perfeito em sumo grau. Ora, perfeito é aquilo a que não se pode fazer nenhum acréscimo. Mas, sendo assumir o tomar para si. (ad se sumerey), de modo a ficar o assumido acrescentado ao que assume, parece que à Pessoa divina não convém assumir a natureza criada.

2. Demais. — O ser para o qual um outro é assumido comunica-se de certo modo ao primeiro, assim, uma dignidade comunica-se a quem foi a ela elevada. Ora, a pessoa é por natureza incomunicável, como se disse na Primeira Parte. Logo, não convém à Pessoa divina assumir, isto é, tomar para si. (ad se sumere).

3. Demais. — A pessoa é constituída pela natureza. Ora, é inconveniente que o constituído assuma o constituinte, porque o efeito não age sobre a sua causa. Logo, não convém à Pessoa assumir a natureza.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Esse Deus, isto é, o Unigénito, recebeu a forma, isto é, a natureza do servo, na sua Pessoa. Ora, o Deus Unigénito é uma Pessoa. Logo, à Pessoa convém receber a natureza, o que é assumi-la.

A palavra assunção implica duas coisas, isto é, o princípio e o termo do acto, pois, assumir é como tomar para si (ad se sumeres). Ora, dessa assunção a Pessoa é o princípio e o termo. O princípio, porque à pessoa propriamente cabe o agir, ora, essa assunção da carne foi feita pela pessoa divina. Semelhantemente, também a Pessoa é o termo dessa assunção, pois, como se disse, a união fez-se na Pessoa, não na natureza. Donde é claro que apropriadamente cabe à Pessoa assumir a natureza.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Sendo a Pessoa divina infinita, não se lhe pode fazer nenhuma adição. Por isso Cirilo diz: Nós não entendemos esse modo de união como uma ???, Assim como na união do homem com Deus, pela graça de adopção, nada se acrescenta a Deus, mas, o divino opõe-se ao homem. Donde não é Deus, mas o homem, quem se aperfeiçoa.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Dizemos que a pessoa é incomunicável, por não poder ser predicada de muitos supostos. Mas, nada impede que da pessoa se façam muitas predicações. Donde, não é contra a essência da pessoa comunicar-se de modo que subsista em várias naturezas. Pois, também na pessoa criada podem acidentalmente concorrer várias naturezas, assim como a pessoa de um determinado homem tem quantidade e qualidade. Mas, por causa da sua infinidade, é próprio da divina Pessoa, que nela exista o concurso das naturezas, não acidentalmente, mas segundo a subsistência.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como se disse, a natureza humana não constitui a Pessoa divina, absolutamente falando, mas constitui-a enquanto denominada por uma tal natureza. Assim, não é da natureza humana que o Filho de Deus tira a sua existência absoluta, pois já existia abeterno, mas só a sua existência humana. Mas, segundo a natureza divina a Pessoa divina é constituída de modo absoluto. Donde, não dizemos da Pessoa divina que assumiu a natureza divina, mas a humana.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 12-14

12 Dizia mais àquele que O tinha convidado: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os vizinhos ricos; para que não aconteça que também eles te convidem e te paguem com isso. 13 Mas, quando deres algum banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos; 14 e serás bem-aventurado, porque esses não têm com que retribuir-te; mas ser-te-á isso retribuído na ressurreição dos justos».

Comentário

Do que aqui se trata é a aplicação prática do aforismo popular: "fazer o bem sem olhar a quem".

Isto implica, antes de mais, um verdadeiro sentido de desprendimento no que ao próximo se refere e, também, uma postura séria na consideração que todos nos devem merecer independentemente dos laços que possam unir-nos e da sua condição social ou outra.

(ama, comentário sobre Lc 14, 12-14 2013.11.04)


Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus 

Manuscrito "A" - Parte III

…/4

Nessa noite de luz, começou o terceiro período da minha vida, o mais bonito de todos, o mais cheio das graças do Céu... Num instante, a obra que eu não pude cumprir em dez anos, Jesus a fez contentando-se com a boa vontade que nunca me faltara. Como os apóstolos, podia dizer-Lhe: "Senhor, pesquei a noite toda sem nada pegar". Ainda mais misericordioso comigo do que com os discípulos, Jesus pegou Ele mesmo a rede, lançou-a e retirou-a cheia de peixes... Fez de mim um pescador de almas, senti um desejo imenso de trabalhar pela conversão dos pecadores, desejo que não sentira tanto antes... Em suma, senti a caridade entrar no meu coração, a necessidade de me esquecer para agradar e, desde então, fiquei feliz!... Num Domingo, ao olhar uma foto de Nosso Senhor na Cruz, fiquei impressionada com o sangue que caía de uma das suas mãos divinas. Senti grande aflição pensando que esse sangue caía no chão sem que ninguém se apressasse em recolhê-lo. Resolvi ficar, em espírito, ao pé da Cruz para receber o divino orvalho que se desprendia, compreendendo que precisaria, a seguir, espalhá-lo sobre as almas... O grito de Jesus na Cruz ressoava continuamente em meu coração: "Tenho sede!" Essas palavras despertavam em mim um ardor desconhecido e muito vivo... Queria dar de beber a meu Bem-amado e sentia-me devorada pela sede das almas... Ainda não eram as almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos grandes pecadores. Ardia do desejo de arrancá-los às chamas eternas...

Para estimular o meu zelo, Deus mostrou-me que os meus desejos lhe eram agradáveis. Ouvi falar de um grande criminoso que acabava de ser condenado à morte por crimes horríveis. Tudo fazia crer que morreria impenitente. Quis, a qualquer custo, impedi-lo de cair no inferno"'. Para conseguir, usei de todos os meios imagináveis: sentindo que, de mim mesma, nada poderia, ofereci a Deus os méritos infinitos de Nosso Senhor, os tesouros da santa Igreja, enfim, pedi a Celina para mandar celebrar uma missa nas minhas intenções, não ousando pedi-la eu mesma, temendo ser obrigada a dizer que era para Pranzini, o grande criminoso. Não queria, tampouco, dizê-lo a Celina, mas insistiu com tanta ternura que lhe confiei meu segredo; longe de zombar de mim, pediu para ajudar a converter o meu pecador. Aceitei com gratidão, pois teria desejado que todas as criaturas se unissem a mim para implorar a graça para o culpado. No fundo do meu coração, tinha certeza de que nossos desejos seriam atendidos. Mas, a fim de ter coragem para continuar a rezar pelos pecadores, disse a Deus estar segura de que Ele perdoaria o pobre infeliz Pranzini, que acreditaria mesmo que não se confessasse e não desse sinal nenhum, de arrependimento, enorme era minha confiança na misericórdia infinita de Jesus, mas pedia-lhe apenas um sinal de arrependimento, para meu próprio consolo... A minha oração foi atendida ao pé da letra! Apesar da proibição de papai de lermos jornais, não pensava desobedecer lendo as passagens que falavam de Pranzini. No dia seguinte à sua execução, cai-me às mãos o jornal La Croix. Abro-o apressada e o que vejo?... Ah! As minhas lágrimas traíram a minha emoção e fui obrigada a me esconder... Pranzini não se confessou, subiu ao cadafalso e preparava-se para colocar a cabeça no buraco lúgubre quando, numa inspiração repentina, virou-se, apanhou um Crucifixo que lhe apresentava o sacerdote e beijou por três vezes suas chagas sagradas!... Sua alma foi receber a sentença misericordiosa Daquele que declarou que no Céu haverá mais alegria por um só pecador arrependido do que por 99 justos que não precisam de arrependimento!...

Obtive o "sinal" pedido, e esse sinal era a reprodução fiel das graças que Jesus me fizera para atrair-me a rezar pelos pecadores. Não foi diante das chagas de Jesus, vendo cair o seu sangue divino, que a sede de almas entrou no meu coração? Queria dar-lhes de beber esse sangue imaculado que devia purificá-las das suas sujeiras, e os lábios do "meu primeiro filho" foram colar-se às chagas sagradas!!!... Que resposta indizivelmente doce!... Ah! desde essa graça única, o meu desejo de salvar as almas cresceu a cada dia. Parecia-me ouvir Jesus dizendo como para a samaritana: "Dê-me de beber!" Era uma verdadeira troca de amor; às almas, eu dava o sangue de Jesus; a Jesus, oferecia essas mesmas almas refrescadas pelo seu divino orvalho. Dessa forma, eu parecia desalterá-lo e mais lhe dava de beber, mais a sede da minha pequena alma aumentava e era essa sede ardente que Ele me dava como a mais deliciosa bebida do seu amor...

Em pouco tempo, Deus conseguira fazer-me sair do círculo apertado no qual eu girava sem encontrar saída. Vendo o caminho que Ele me fizera percorrer, a minha gratidão é grande, mas preciso convir que, se o passo maior fora dado, muitas coisas restavam ainda a abandonar. Livre dos escrúpulos, da sua sensibilidade excessiva, o meu espírito desenvolveu-se. Sempre gostara do grandioso, do belo, mas naquela época fui tomada de um desejo extremo de saber. Não satisfeita com as lições e as tarefas que a minha mestra me dava, dedicava-me, sozinha, a estudos especiais de história e de ciências. Os outros estudos deixavam-me indiferente, mas essas duas áreas atraíam a minha atenção. Em poucos meses, adquiri mais conhecimentos que durante meus anos de estudos. Ah! isso só era vaidade e aflição de espírito... O capítulo da Imitação em que se fala das ciências voltava à minha mente, mas achava o meio de prosseguir assim mesmo, dizendo-me que, estando na idade de estudar, não havia mal nenhum em fazê-lo. Não creio ter ofendido a Deus (embora reconheça ter passado nisso um tempo inútil), pois só ocupava um certo número de horas que não queria ultrapassar a fim de mortificar meu desejo excessivo de saber... Estava na mais perigosa idade para as moças, mas Deus fez por mim o que relata Ezequiel em suas profecias: "passando perto de mim, Jesus viu que havia chegado para mim o tempo de ser amada, Ele fez aliança comigo e passei a ser sua... Estendeu sobre mim seu manto, lavou-me em perfumes preciosos, revestiu-me de roupas bordadas, dando-me colares e joias sem preço... Alimentou-me com a mais pura farinha, com mel e azeite abundante... então passei a ficar bela aos olhos Dele e fez de mim uma poderosa rainha!..."

Sim, Jesus fez tudo isso para mim, poderia retomar cada palavra do que acabo de escrever e provar que se realizou em meu favor, mas as graças que relatei acima são prova suficiente. Vou apenas falar da alimentação que me prodigalizou "com abundância". Havia muito que me alimentava da "pura farinha" contida na Imitação, era o único livro que me fazia bem, pois ainda não havia achado os tesouros escondidos no Evangelho. Sabia de cor quase todos os capítulos da minha querida Imitação, nunca me desfazia desse livrinho. No verão, levava-o no bolso; no inverno, no meu regalo. O hábito tornou-se tradicional e, na casa da minha tia, divertiam-se muito abrindo-o ao acaso e fazendo-me recitar o capítulo que se apresentava aos olhos. Aos 14 anos, com o meu desejo de ciência, Deus achou necessário acrescentar "à pura farinha mel e azeite em abundância". Esse mel e esse azeite, fez-me encontrá-los nas conferências do padre Arminjon, sobre o fim do mundo actual e os mistérios do mundo futuro. Esse livro havia sido emprestado a papai pelas minhas queridas carmelitas; por isso, contrariamente a meus hábitos (pois eu não lia os livros de papai), pedi para lê-lo.

Essa leitura foi ainda uma das maiores graças da minha vida. Fi-la à janela do meu quarto de estudo e a impressão que tive é por demais íntima e doce para que possa expressá-la...

Todas as grandes verdades da religião, os mistérios da eternidade, mergulhavam a minha alma numa felicidade que não era da terra... Já pressentia o que Deus reserva a quem o ama (não com o olho do homem, mas com o do coração) e, vendo que as recompensas eternas não tinham proporção alguma com os leves sacrifícios da vida, quis amar, amar Jesus com paixão, pedir-lhe mil marcas de amor, enquanto ainda podia... Copiei muitas passagens sobre o amor-perfeito e a recepção que Deus deve fazer a seus eleitos no momento em que Ele próprio se tornará a sua grande e eterna recompensa. Repetia sem parar as palavras de amor que haviam abrasado o meu coração... Celina tornara-se a confidente íntima dos meus pensamentos; desde o Natal, podíamos compreender-nos, a distância de idade não existia mais, pois eu tornara-me grande em tamanho e, sobretudo, em graça... Antes dessa época, reclamava com frequência por não conhecer os segredos de Celina. Dizia-me que eu era pequena demais, que precisaria crescer a altura de um banquinho para ela ter confiança em mim... Gostava de subir nesse precioso banquinho quando estava ao lado dela, e lhe dizia para falar-me intimamente, mas meu esforço era inútil, uma distância nos separava ainda!...

Jesus queria fazer-nos avançar juntas e, por isso, formou em nossos corações laços ainda mais fortes que os do sangue. Tornou-nos irmãs de almas. Realizaram-se em nós essas palavras do Cântico de são João da Cruz (falando com o Esposo, a esposa exclama): "Seguindo vossas pegadas, as moças percorrem leves o caminho, o toque da centelha, o vinho condimentado fazem-nas produzir aspirações divinamente perfumadas". Sim, era com leveza que seguíamos as pegadas de Jesus, as centelhas do amor que semeava profusamente em nossas almas, o vinho delicioso e forte que nos dava de beber faziam desaparecer a nossos olhos as coisas passageiras e dos nossos lábios saíam aspirações de amor inspiradas por Ele. Como eram doces as conversações que tínhamos, toda noite, no mirante! O olhar fixo no horizonte, observávamos a branca lua içando-se atrás das altas árvores... os reflexos argênteos que se espalhavam sobre a natureza adormecida, as brilhantes estrelas cintilando no azul profundo... o sopro ligeiro da brisa nocturna fazia flutuar as nuvens nevadas, tudo elevava nossas almas para o Céu, o belo Céu do qual ainda só contemplávamos "o reverso límpido" ...

Não sei se estou enganada, mas parece-me que a efusão das nossas almas assemelhava-se à de santa Mónica com seu filho quando, no porto de Óstia, ficavam perdidos em êxtase à vista das maravilhas do Criador!... Creio que recebíamos graças de uma categoria tão alta como as concedidas aos grandes santos. Como diz a Imitação, às vezes Deus comunica-se em meio a um vivo esplendor, outras vezes "suavemente velado, por sombras e figuras. Era dessa última maneira que se dignava manifestar às nossas almas, mas como era transparente e leve o véu que separava Jesus dos nossos olhares!... A dádiva era impossível, já não havia necessidade da Fé e da Esperança, o amor fazia-nos encontrar na terra Aquele que buscávamos. "Tendo-o encontrado sozinho, dava-nos o seu beijo, a fim de que, no futuro, ninguém pudesse desprezar-nos."

Graças tão grandes não haviam de ficar sem frutos. E foram abundantes. A prática da virtude tornou-se para nós suave e natural; no começo, o meu rosto deixava transparecer a luta, mas aos poucos essa impressão desapareceu e a renúncia passou a ser fácil para mim, quase espontânea. Jesus disse: "A quem possui dar-se-á mais e ficará na abundância". Em troca de uma graça fielmente recebida, dava-me muitas outras... Ele próprio se dava a mim na santa Comunhão mais vezes que eu teria ousado esperar. Adoptei como regra de conduta comungar todas as vezes que fosse autorizada pelo meu confessor e deixar a este resolver o número das minhas comunhões, sem nunca interferir. Não tinha na época a audácia que tenho agora, pois teria agido de outro modo. Tenho certeza de que uma alma deve dizer claramente a seu confessor a atracção que tem para receber o seu Deus. Não é para ficar no cibório de ouro que Ele desce do céu todos os dias'", mas para encontrar um outro céu, infinitamente mais querido que o primeiro, o céu da nossa alma, feito à sua imagem, o templo vivo da adorável Trindade!...


Manuscrito "A" - Parte IV

Jesus, que via meu desejo e a rectidão do meu coração, permitiu que durante o mês de maio meu confessor me dissesse para comungar quatro vezes por semana e, findo esse belo mês, acrescentou mais um dia toda vez que houvesse uma festa. Doces lágrimas caíram dos meus olhos ao sair do confessionário, parecia-me que era o próprio Jesus quem queria dar-se a mim, pois eu ficava muito pouco tempo em confissão, nunca falava dos meus sentimentos interiores. O caminho pelo qual andava era tão recto, tão claro, que não precisava de outro guia que Jesus... Comparava os directores a espelhos fiéis que reflectiam Jesus nas almas e dizia que para mim Deus não usava intermediário, mas agia directamente!...

Quando um jardineiro cerca de cuidados uma fruta que quer fazer amadurecer prematuramente, nunca é para deixá-la na árvore, mas para apresentá-la numa mesa brilhantemente servida. Era com uma intenção semelhante que Jesus prodigalizava suas graças a sua florzinha... Ele que, nos dias da sua vida mortal, exclamava: "Pai, bendigo-vos por ter escondido essas coisas aos sábios e aos prudentes e tê-las revelado aos humildes", queria revelar em mim sua misericórdia, porque eu era pequena e fraca, inclinava-se para mim, instruía-me em segredo das coisas do seu amor. Ah! se sábios que passaram a vida estudando tivessem vindo interrogar-me, teriam, sem dúvida, ficado espantados ao ver uma criança de 14 anos compreender os segredos da perfeição, segredos que toda a ciência não pudera lhes revelar, pois para possuí-los é preciso ser pobre de espírito!...

Como diz são João da Cruz em seu cântico: "Não tinha guia nem luz, fora aquela que brilhava em meu coração, essa luz guiava-me com mais segurança que a do meio-dia para o lugar onde me aguardava Aquele que me conhece perfeitamente''. Esse lugar era o Carmelo. Antes de "descansar à sombra Daquele que eu desejava", devia passar por muitas provações, mas o chamamento divino era tão intenso que, mesmo que tivesse de atravessar as chamas, o teria feito para ser fiel a Jesus... Para encorajar-me em minha vocação, só encontrei uma alma, foi a da minha Madre querida... o meu coração encontrou no dela um eco fiel e, sem ela, não teria, sem dúvida, chegado à praia abençoada onde ela fora acolhida cinco anos antes sobre as margens impregnadas do orvalho celeste... Sim, havia cinco anos que estava afastada de vós, querida Madre, pensava vos ter perdido, mas no momento da provação foi a vossa mão que me indicou o caminho a seguir... Precisava desse alívio, pois minhas visitas ao Carmelo haviam-se tornado sempre mais penosas, não podia falar do meu desejo de ingresso sem sentir-me rejeitada. Achando-me jovem demais, Maria fazia tudo para impedir o meu ingresso; vós, Madre, para pôr-me à prova, procuráveis, algumas vezes, diminuir meu ardor; enfim, se eu não tivesse tido verdadeiramente a vocação, teria desistido logo no início, pois encontrei obstáculos logo que comecei a responder ao chamamento de Jesus. Não quis contar a Celina o meu desejo de entrar tão nova no Carmelo e isso fez-me sofrer mais, pois era-me muito difícil esconder dela alguma coisa... Esse sofrimento não durou muito tempo. Logo a minha irmãzinha querida soube da minha determinação e, longe de tentar desviar-me do projecto, aceitou com coragem admirável o sacrifício que Deus lhe pedia. Para compreender-lhe a amplitude, é preciso saber até que ponto éramos unidas... era, por assim dizer, a mesma alma que nos fazia viver; havia alguns meses que gozávamos juntas da mais doce vida que moças pudessem almejar; tudo a nosso redor respondia aos nossos gostos, usufruíamos da maior liberdade. Enfim, dizia que nossa vida era o Ideal da felicidade na terra... Apenas tínhamos tido tempo de gozar desse ideal de felicidade, e devíamos, livremente, desviar-nos dele. A minha Celina querida não se rebelou um instante. Como não era ela que Jesus chamava em primeiro lugar, podia ter reclamado... tendo a mesma vocação, era a vez de ela partir!... mas, como no tempo dos mártires, os que ficavam nas prisões davam alegremente o ósculo da paz a seus irmãos que partiam para combater na arena e consolavam-se pensando que, talvez, fossem reservados para lutas ainda maiores. Assim, Celina deixou a sua Teresa afastar-se e ficou sozinha para o glorioso e sangrento combate ao qual Jesus a destinava como a privilegiada do seu amor!...

Celina passou a ser a grande confidente das minhas lutas e dos meus sofrimentos. Tomou parte como se se tratasse da sua própria vocação. Não receava oposição por parte dela, mas não sabia que meios adoptar para informar a papai... Como dizer-lhe para deixar a sua rainha ir embora depois de ter sacrificado as três mais velhas?... Ah! quantas lutas íntimas sofri antes de sentir a coragem para lhe comunicar!... Precisava decidir-me, ia fazer 14 anos e meio, apenas seis meses nos separavam da bela noite de Natal em que resolvera ingressar, na mesma hora em que, no ano anterior, tinha recebido "minha graça". Escolhi o dia de Pentecostes para fazer a minha grande confidência e, o dia todo, supliquei aos santos Apóstolos que intercedessem por mim, que me inspirassem as palavras... Não eram eles, afinal, que deviam ajudar a criança tímida que Deus destinava a se tornar o apóstolo dos apóstolos pela oração e pelo sacrifício?... Foi de tarde, na volta das Vésperas, que encontrei a ocasião para falar com meu paizinho querido. Tinha ido sentar à beira da cisterna e ali, de mãos juntas, contemplava as maravilhas da natureza. O sol, cujo fogo tinha perdido o ardor, dourava a copa das altas árvores onde os passarinhos cantavam alegremente sua oração vesperal. A bela figura de papai tinha expressão celeste, sentia que a paz inundava seu coração. Sem dizer uma única palavra, fui sentar-me a seu lado, já com os olhos lacrimejantes, ele olhou-me com ternura e, pegando minha cabeça, encostou-a no seu peito dizendo: "Que tens, minha rainhazinha?... conte-me..." Levantando-se, como para dissimular a sua própria emoção, andou lentamente, segurando sempre a minha cabeça no seu peito. Em meio às minhas lágrimas, confidenciei o meu desejo de ingressar no Carmelo. Então, as lágrimas dele vieram misturar-se às minhas, mas não disse uma palavra para desviar-me da minha vocação, contentando-se apenas em observar que eu era ainda muito nova para tomar uma decisão tão séria. Defendi tão bem minha causa que, com sua natureza simples e recta, convenceu-se de que o meu desejo era o de Deus e, na sua fé profunda, exclamou que Deus lhe fazia uma grande honra pedindo-lhe assim suas filhas. Continuamos por longo tempo o nosso passeio. Aliviado pela bondade com a qual meu incomparável pai tinha acolhido as confidências, o meu coração expandia-se no dele. Papai parecia gozar dessa alegria tranquila nascida do sacrifício aceite. Falou-me como um santo e gostaria de lembrar-me das palavras dele a fim de escrevê-las aqui, mas conservei-as tão sublimadas que se tornaram intraduzíveis. O que recordo perfeitamente é da acção simbólica que meu rei querido cumpriu sem o perceber. Aproximando-se de um muro baixo, mostrou-me florzinhas brancas semelhantes a lírios em miniatura e, colhendo uma dessas flores, entregou-a a mim, explicando o cuidado com que Deus a fizera e a conservara até aquele momento; ouvindo-o falar, pensava ouvir a minha história, tal era a semelhança entre o que Jesus fizera a sua florzinha e a Teresinha... Recebi essa florzinha como uma relíquia e vi que, ao colhê-la, papai arrancara as raízes todas sem quebrar uma. Parecia destinada a viver ainda, numa outra terra, mais fértil que o tenro limo onde vivera suas primeiras manhãs... Era essa mesma acção que papai acabava de fazer para mim alguns instantes antes, permitindo-me subir a montanha do Carmelo e deixar o manso vale testemunho dos meus primeiros passos na vida.

(cont.)




Bento VXI – Pensamentos espirituais 23

A vida interior


Construir a vida, o futuro, requer também paciência e sofrimento. A Cruz também tem de fazer parte da vida dos jovens e não é fácil fazer entender isto. O montanhista sabe que, para fazer uma grande escalada, terá de treinar-se enfrentar sacrifícios. Do mesmo modo, o jovem tem de perceber que o exercício da vida interior é necessário para preparar a vida futura.


(Encontro com o clero da Diocese de Aóstia. (25.Jul.05)

(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)