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03/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo comum XXXI Semana


Evangelho: Lc 14, 15-24

15 Tendo ouvido estas coisas um dos convivas disse-Lhe: «Bem-aventurado quem participar do banquete no reino de Deus». 16 Jesus respondeu-lhe: «Um homem fez uma grande ceia para a qual convidou a muitos. 17 À hora da ceia, mandou um servo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo está preparado. 18 Mas todos à uma começaram a escusar-se. O primeiro disse-lhe: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me dês por escusado. 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las; peço-te que me dês por escusado. 20 Disse também outro: Casei-me, por isso não posso ir. 21 «Voltando o servo, referiu estas coisas ao seu senhor. Então, irado, o pai de família disse ao seu servo: Vai já pelas praças e pelas ruas da cidade; traz cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. 22 Disse o servo: Senhor, está feito como mandaste e ainda há lugar. 23 Disse o senhor ao servo: Vai pelos caminhos e ao longo dos cercados; e força-os a vir, para que se encha a minha casa. 24 Pois eu vos digo que nenhum daqueles que foram convidados provará a minha ceia».

Comentário:

A Comunhão Eucarística é a Ceia que o Senhor oferece a todos os homens e onde Ele próprio é o alimento.

Como recusar?
Como atrever-se a participar sem estar devidamente preparado?

Convite extraordinário, bem inestimável; comunguemos tão  assiduamente quanto nos for possível.

(ama, comentário sobre LC 14 15-24 2014.11.04)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo ([i])

101           
Mas nem tudo depende dos pais. Os filhos têm de pôr também alguma coisa da sua parte. A juventude sempre teve uma grande capacidade de entusiasmo por todas as coisas grandes, pelos ideais elevados, por tudo o que é autêntico. Convém ajudá-los a compreender a beleza despretensiosa - por vezes calada e sempre revestida de naturalidade - que há na vida dos seus pais. Que reparem, sem lhes causar tristeza, no sacrifício que fizeram por eles, na sua abnegação - muitas vezes heróica - para manter a família. E que os filhos aprendam também a não dramatizar, a não representar o papel de incompreendido. Que não esqueçam que estarão sempre em dívida para com os pais e que o modo de corresponderem - já que não podem pagar o que devem - deve ser feito de veneração, de carinho grato, filial.

Sejamos sinceros: a família unida é o normal. Há atritos, diferenças... Mas isto são coisas banais, que, até certo ponto, contribuem inclusivamente para dar sabor aos nossos dias. São insignificâncias que o tempo supera sempre. Depois, só fica o estável, que é o amor, um amor verdadeiro - feito de sacrifício - e nunca fingido, que os leva a preocuparem-se uns com os outros, a adivinhar um pequeno problema e a sua solução mais delicada. E, porque tudo isto é normal, a maior parte das pessoas entendeu-me muito bem quando me ouviu chamar - já o venho repetindo desde a década de 20 - dulcíssimo preceito ao quarto mandamento do Decálogo.

102           
Talvez como reacção contra uma educação religiosa coactiva, reduzida às vezes a uma série de práticas rotineiras e sentimentais, parte da juventude de hoje prescinde quase totalmente da piedade cristã, porque a interpreta como beatice. Em sua opinião, qual é a solução para esse problema?

A solução é a que a pergunta traz já implícita: ensinar - primeiro com o exemplo e depois com a palavra - em que consiste a verdadeira piedade. A beatice não é mais do que uma triste caricatura pseudo-espiritual, fruto geralmente da falta de doutrina e também de certa deformação no humano. É lógico que repugne a quem ama o que é autêntico e sincero.

Vi com alegria como penetra nos jovens - nos de hoje como nos de há quarenta anos - a piedade cristã, quando a contemplam feita vida sincera, quando entendem que fazer oração é falar com o Senhor como se fala com um pai, com um amigo, sem anonimato, com um trato pessoal, uma conversa íntima; quando se procura que ressoem nas suas almas aquelas palavras de Jesus Cristo, que são um convite ao encontro confiante: vos autem dixi amicos (Jn. 15, 15), chamei-vos amigos; quando se faz um apelo forte à sua fé para que vejam que o Senhor é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hebr. 13, 8).

Por outro lado, é muito necessário que vejam como essa piedade simples e cordial exige também o exercício das virtudes humanas e que não se pode reduzir a uns tantos actos de devoção semanais ou diários, mas que tem de penetrar na vida inteira, que tem de dar sentido ao trabalho, ao descanso, à amizade, à diversão, a tudo. Não podemos ser filhos de Deus só de vez em quando, ainda que haja alguns momentos especialmente dedicados a considerá-lo, a penetrarmo-nos desse sentido da nossa filiação divina, que é a essência da piedade.

Disse há pouco que a juventude entende tudo isto muito bem. E agora acrescento que quem procura vivê-lo sente-se sempre jovem. O cristão, mesmo que seja um velho de oitenta anos, se viver em união com Jesus Cristo, pode saborear com toda a verdade as palavras que se rezam ao pé do altar: subirei ao altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude (Ps. XVII, 4).

103           
Então, parece-lhe importante educar os filhos desde pequenos na vida de piedade? Pensa que na família se devem realizar actos de piedade?

Considero que é precisamente o melhor caminho para dar aos filhos uma autêntica formação cristã. A Sagrada Escritura fala-nos dessas famílias dos primeiros cristãos - a Igreja doméstica, diz S. Paulo (1 Cor. 16, 1 9) - às quais a luz do Evangelho dava novo impulso e nova vida.

Em todos os ambientes cristãos se conhecem por experiência os bons resultados que dá essa natural e sobrenatural iniciação à vida de piedade, feita no calor do lar. A criança aprende a colocar o Senhor na linha dos primeiros e fundamentais afectos, aprende a tratar a Deus como Pai e à Virgem como Mãe, aprende a rezar seguindo o exemplo dos pais. Quando se compreende isto, vê-se a enorme tarefa apostólica que os pais podem realizar e como têm obrigação de ser sinceramente piedosos, para poderem transmitir - mais do que ensinar - essa piedade aos filhos.

E os meios? Há práticas de piedade - poucas, breves e habituais - que sempre se viveram nas famílias cristãs, e entendo que são maravilhosas: a oração antes e depois das refeições, a recitação do Terço juntos - apesar de não faltar, nestes tempos, quem ataque essa solidíssima devoção mariana -, as orações pessoais ao levantar e ao deitar. Tratar-se-á de costumes diversos segundo os lugares, mas penso que sempre se deve fomentar algum acto de piedade, que os membros da família realizem juntos, de forma simples e natural, sem beatices.

Dessa maneira conseguiremos que Deus não seja considerado um estranho a quem se vai ver uma vez por semana à igreja, ao Domingo. Que Deus seja visto e tratado como é na realidade, também no meio do lar, porque, como disse o Senhor, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles (Mat. 18, 20).

Digo com gratidão e com orgulho de filho que continuo a rezar - de manhã e à noite e em voz alta - as orações que aprendi, quando era criança, dos lábios de minha mãe. Essas orações levam-me a Deus, fazem-me sentir o carinho com que me ensinaram a dar os meus primeiros passos de cristão e, oferecendo ao Senhor o dia que começa ou dando-Lhe graças pelo que acaba, peço a Deus que aumente no Céu a felicidade dos que especialmente amo, e no Céu depois nos mantenha unidos para sempre.

104           
Continuemos, se mo permite, com a juventude. Através da secção Gente jovem, da nossa revista, chegam-nos muitos problemas próprios deles. Um, muito frequente, é a imposição que às vezes os pais fazem no momento de determinar a orientação dos filhos. Isto sucede tanto na orientação do curso ou da profissão, como na escolha de noivo, ou, mais ainda, se pretendem seguir o chamamento de Deus para se dedicar ao serviço das almas. Haverá alguma justificação para essa atitude dos pais? Não será uma violação da liberdade, imprescindível para chegar à maturidade pessoal?

Em última instância, está claro que as decisões que determinam o rumo de uma vida deve tomá-las cada um pessoalmente, com liberdade, sem coacção nem pressão de espécie alguma.

Isto não quer dizer que não seja necessária, ordinariamente, a intervenção de outras pessoas. Precisamente porque são passos decisivos, que afectam uma vida inteira, e porque a felicidade depende em grande parte de como se dêem, é lógico que requeiram serenidade, que se evite a precipitação, que exijam responsabilidade e prudência. E uma parte da prudência consiste justamente em pedir conselho. Seria presunção - que se costuma pagar cara - pensar que podemos decidir sem a graça de Deus e sem o calor e a luz de outras pessoas, especialmente dos nossos pais.

Os pais podem e devem prestar aos filhos uma ajuda preciosa, descobrindo-lhes novos horizontes, comunicando-lhes a sua experiência, fazendo-os reflectir para que não se deixem arrastar por estados emocionais passageiros, oferecendo-lhes uma apreciação realista das coisas.

Umas vezes, prestarão essa ajuda com o seu conselho pessoal; outras, animando os seus filhos a recorrer a outras pessoas competentes: a um amigo sincero e leal, a um sacerdote douto e piedoso, a um perito em orientação profissional.

Mas o conselho não tira a liberdade, dá elementos de opinião, e isso amplia as possibilidades de escolha e faz com que a decisão não seja determinada por factores irracionais. Depois de ouvir os pareceres de outros e de ponderar tudo bem, chega um momento em que é preciso escolher, e então ninguém tem o direito de violar a liberdade. Os pais devem precaver-se da tentação de se quererem projectar indevidamente nos filhos - de construí-los segundo as próprias preferências -, devem respeitar as inclinações e as aptidões que Deus dá a cada um. Se há verdadeiro amor, isto, em geral, torna-se simples. Inclusive no caso extremo, quando o filho toma uma decisão que os pais têm fortes motivos para julgar errada e até para prevê-la como origem de infelicidade, a solução não está na violência mas em compreender e - mais de uma vez - em saber permanecer a seu lado para ajudá-lo a superar as dificuldades e, se fosse necessário, para extrair daquele mal todo o bem possível.

Os pais que amam deveras e procuram sinceramente o bem dos seus filhos, depois dos conselhos e das considerações oportunas, devem-se retirar com delicadeza, para que nada prejudique o grande bem da liberdade que torna o homem capaz de amar e servir a Deus. Devem lembrar-se de que o próprio Deus quer ser amado e servido com liberdade, e respeita sempre as nossas decisões pessoais: Deus deixou o homem - diz-nos a Escritura - nas mãos do seu livre-arbítrio (Ece. 15, 14).

Umas palavras mais para me referir expressamente ao último dos casos concretos expostos - a decisão de dedicar-se ao serviço da Igreja e das almas. Quando pais católicos não compreendem essa vocação, penso que fracassaram na sua missão de formar uma família cristã, que nem sequer são conscientes da dignidade que o Cristianismo dá à sua própria vocação matrimonial. Aliás, a experiência que tenho no Opus Dei é muito positiva. Costumo dizer aos sócios da Obra que devem noventa por cento da sua vocação aos seus pais, porque os souberam educar e os ensinaram a ser generosos. Posso assegurar que na imensa maioria dos casos - praticamente na totalidade - os pais não só respeitam como também amam essa decisão dos filhos e que passam a ver a Obra como uma ampliação da própria família. É uma das minhas grandes alegrias e uma confirmação mais de que, para sermos muito divinos, temos de ser também muito humanos.

105           
Há actualmente quem defenda a teoria de que o amor justifica tudo e concluem que o noivado é como um “matrimónio à experiência”. Não seguir o que consideram imperativos do amor, pensam que é inautêntico e retrógrado. Que pensa desta atitude?

Penso o que deve pensar uma pessoa honesta e, especialmente, um cristão: que é uma atitude indigna do homem e que degrada o amor humano, confundindo-o com o egoísmo e com o prazer.

Retrógrados os que não pensam ou não procedem dessa maneira? Retrógrado é antes quem retrocede até à selva, não reconhecendo outro impulso além do instinto. O noivado deve ser uma ocasião de aprofundar o afecto e o conhecimento mútuo. E, como toda a escola de amor, deve ser inspirado não pela ânsia de posse, mas por espírito de entrega, de compreensão, de respeito, de delicadeza. Por isso, há pouco mais de um ano quis oferecer à Universidade de Navarra uma imagem de Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, para que os rapazes e raparigas que frequentam aquelas Faculdades aprendessem d'Ela a nobreza do amor - do amor humano também.

Matrimónio à experiência? Que pouco sabe de amor quem fala assim! O amor é uma realidade mais segura, mais real, mais humana. Algo que não se pode tratar como um produto comercial, que se experimenta e depois se aceita ou se deita fora, segundo o capricho, a comodidade ou o interesse.

Essa falta de critério é tão lamentável, que nem sequer parece necessário condenar quem pensa ou procede assim porque eles mesmo se condenam à infecundidade, à tristeza, a um isolamento desolador, que sofrerão mal passem alguns anos. Não posso deixar de rezar muito por eles, amá-los com toda a minha alma e tratar de lhes fazer compreender que continuam a ter aberto o caminho de regresso a Jesus Cristo, e que, se se empenharem a sério, poderão ser santos, cristãos íntegros, porque não lhes faltará nem o perdão nem a graça do Senhor. Só então compreenderão bem o que é o amor: o Amor divino e também o amor humano nobre; e saberão o que é a paz, a alegria, a fecundidade.

106           
Um grande problema feminino é o das mulheres solteiras. Referimo-nos àquelas que, embora com vocação matrimonial, não se chegam a casar. Como não o conseguem, perguntam-se: para que estamos nós no Mundo? Que lhes responderia?

Para que estamos no Mundo? Para amar a Deus com todo o nosso coração e com toda a nossa alma e para estender esse amor a todas as criaturas. Ou será que isto parece pouco? Deus não deixa nenhuma alma abandonada a um destino cego, mas para todas tem um desígnio, a todas chama com uma vocação pessoalíssima, intransferível.

O matrimónio é caminho divino, é vocação. Mas não é o único caminho, nem a única vocação. Os planos de Deus para cada mulher não estão ligados necessariamente ao matrimónio. Têm vocação matrimonial e não chegam a casar-se? Em algum caso pode ser certo, e talvez tenha sido o egoísmo ou o amor-próprio o que impediu que esse chamamento de Deus se cumprisse; mas, outras vezes, a maioria até, isso pode ser um sinal de que o Senhor não lhes deu verdadeira vocação matrimonial. Sim, gostam de crianças, sentem que seriam boas mães, que entregariam o seu coração fielmente ao marido e aos filhos. Mas isso é normal em toda a mulher, também naquelas que, por vocação divina, não se casam - podendo fazê-lo - para se ocuparem do serviço de Deus e das almas.

Não casaram. Pois bem, que continuem, como até agora, amando a vontade de Deus, vivendo na intimidade desse Coração amabilíssimo de Jesus que não abandona ninguém, que é sempre fiel, que vai olhando por nós ao longo desta vida para Se dar a nós desde agora e para sempre.

Além disso, a mulher pode cumprir a sua missão - como mulher, com todas as suas características femininas, também as características afectivas da maternidade - em círculos diferentes da própria família: em outras famílias, na escola, em obras assistenciais, em mil lugares. A sociedade é, às vezes, muito dura - com grande injustiça - para aquelas a quem chama solteironas. Há mulheres solteiras que difundem à sua volta alegria, paz, eficácia, que se sabem entregar nobremente ao serviço dos outros e ser mães, em profundidade espiritual, com mais realidade do que muitas, que são mães apenas fisiologicamente.

(cont)





[i] Entrevista realizada por Pilar Salcedo, publicada em Telva (Madrid), em 1 de Fevereiro de 1968 e reproduzida em Mundo Cristiano (Madrid) em 1 de Março do mesmo ano.

04/11/2014

Evangelho diário, coment. Leit espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 15-24

15 Tendo ouvido estas coisas um dos convivas disse-Lhe: «Bem-aventurado quem participar do banquete no reino de Deus». 16 Jesus respondeu-lhe: «Um homem fez uma grande ceia para a qual convidou a muitos. 17 À hora da ceia, mandou um servo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo está preparado. 18 Mas todos à uma começaram a escusar-se. O primeiro disse-lhe: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me dês por escusado. 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las; peço-te que me dês por escusado. 20 Disse também outro: Casei-me, por isso não posso ir. 21 «Voltando o servo, referiu estas coisas ao seu senhor. Então, irado, o pai de família disse ao seu servo: Vai já pelas praças e pelas ruas da cidade; traz cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. 22 Disse o servo: Senhor, está feito como mandaste e ainda há lugar. 23 Disse o senhor ao servo: Vai pelos caminhos e ao longo dos cercados; e força-os a vir, para que se encha a minha casa. 24 Pois eu vos digo que nenhum daqueles que foram convidados provará a minha ceia».

Comentário:

Aparentemente, as desculpas apresentadas pelos convidados que não aceitaram o convite, são compreensíveis, sobretudo aquele que alega ter-se casado.
Mas deve atentar-se que o Anfitrião fez os convites com antecedência, o que permitiria aos convidados ‘programar’ as suas agendas.
Em primeiro lugar atentemos que alguém que dá um ceia desta qualidade e grandeza merece respeito e toda a honra e, depois, aquele que se terá casado nesse mesmo dia, tinha por estrita obrigação de, pelo menos, ter avisado imediatamente o anfitrião das suas circunstância.
O que aqui está patente é um total desprezo pelo convite e por quem convida e um equívoco enorme por parte dos convidados em estabelecer as suas prioridades.

(ama, comentário sobre Lc 14, 15-24, 2013.2.11.05)


Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/1

Coloquei minha florzinha branca na minha Imitação, no capítulo intitulado: "De que é preciso amar a Jesus acima de todas as coisas". Ainda está aí, mas o caule quebrou-se junto à raiz e Deus parece demonstrar com isso que quebraria em breve os laços da sua florzinha e não a deixaria murchar na terra!

Após obter o consentimento de papai, pensava poder voar sem temor para o Carmelo, mas numerosos e dolorosos empecilhos iam ainda provar a minha vocação. Tremendo, anunciei a meu tio a resolução tomada. Ele deu-me todas as mostras de ternura possíveis, mas não a permissão de partir. Pelo contrário, proibiu-me de lhe falar da minha vocação antes dos meus 17 anos. Era, dizia ele, contrário à prudência humana deixar uma menina de 15 anos ingressar no Carmelo. Aos olhos do mundo, essa vida de carmelita era vida de filósofo e seria grande prejuízo para a religião deixar uma criança sem experiência abraçá-la... Todos falariam disso etc, etc... Disse-me até que para decidi-lo a me deixar partir seria preciso um milagre. Vi logo que todos os raciocínios eram inúteis e retirei-me com o coração mergulhado na mais profunda amargura. O meu único consolo era a oração. Pedi a Jesus para fazer o milagre exigido, pois só por esse preço poderia responder ao pedido Dele. Passou-se um tempo bastante longo antes que eu ousasse falar novamente com meu tio. Custava-me muito ir a casa dele e ele parecia não mais pensar na minha vocação. Soube, mais tarde, que minha grande tristeza o influenciou muito a meu favor. Antes de fazer brilhar em minha alma um raio de esperança, Deus quis mandar-me um martírio muito doloroso que durou três dias. Oh! Nunca compreendi tão bem como durante essa provação a dor da Santíssima Virgem e de são José procurando o divino Menino Jesus... Estava num triste deserto, ou melhor, minha alma parecia uma frágil embarcação entregue sem piloto à mercê de ondas tempestuosas... Sei, Jesus estava ali, dormindo na minha barquinha, mas a noite estava tão escura que não podia vê-lo, nada para iluminar, nem um relâmpago vinha rasgar as espessas nuvens... Luz bem triste a dos relâmpagos, mas se uma tempestade tivesse ocorrido eu teria conseguido ver Jesus por um instante... mas era noite, noite profunda da alma... como Jesus no Jardim da Agonia, sentia-me só, sem consolo, nem por parte da terra, nem do Céu. Deus parecia ter-me abandonado!!!... A natureza parecia tomar parte na minha amarga tristeza; durante esses três dias, o sol não libertou um único raio e a chuva caiu torrencialmente. Notei que em todas as circunstâncias graves da minha vida a natureza era imagem da minha alma. Nos dias de lágrimas, o Céu chorava comigo; nos dias de alegria, o Sol mandava com fartura seus alegres raios e o azul não comportava nenhuma nuvem...

Enfim, no quarto dia, um Sábado, dia consagrado à doce Rainha dos Céus, fui visitar meu tio. Que surpresa, vendo-o olhar-me e fazer-me entrar em seu escritório sem que eu lhe tivesse manifestado o desejo!... Começou por me censurar brandamente por parecer ter medo dele e disse-me não ser necessário pedir um milagre, que tinha apenas pedido a Deus que lhe desse "uma simples inclinação de coração" e fora atendido... Ah! não fui tentada a implorar por um milagre, para mim o milagre havia sido concedido. Meu tio havia mudado. Sem fazer alusão nenhuma à "prudência humana", disse-me que eu era uma florzinha que Deus queria colher e que não se oporia mais!...

Essa resposta definitiva era verdadeiramente digna dele. Pela terceira vez, esse cristão de uma outra idade permitia que uma das filhas adoptivas do seu coração fosse sepultar-se longe do mundo. Minha tia também foi admirável em ternura e prudência, não me lembro de, durante minha provação, ela ter dito uma palavra sequer que pudesse ter agravado minha tristeza. Via que tinha pena da sua pobre Teresinha. Por isso, depois que obtive a autorização do meu querido tio, deu-me a dela, mas não sem manifestar de mil maneiras que a minha partida lhe causaria muita aflição... Ai! nossos queridos familiares estavam longe de pensar, então, que iriam renovar duas vezes ainda o mesmo sacrifício... Mas, ao estender a mão para pedir sempre, Deus não a oferecia vazia, os seus mais queridos amigos puderam servir-se com fartura da força e da coragem de que tanto precisaram... Meu coração está levando-me muito longe do meu assunto, volto quase a contragosto: depois da resposta do meu tio, compreendeis, Madre, com que alegria voltei aos Buissonnets debaixo do "belo céu, totalmente livre de nuvens!..." Na minha alma também a noite tinha ido embora, Jesus acordara e devolvia-me a alegria, o ruído das ondas emudecera; no lugar da ventania da provação, uma brisa leve enchia a minha vela e pensei chegar logo à margem abençoada que avistava perto de mim. De facto, parecia muito perto da minha barquinha; porém, mais de uma tempestade se levantaria e esconderia da minha vista o farol luminoso, fazendo minha alma recear o afastamento sem volta da praia tão ardentemente desejada...
Poucos dias após ter obtido o consentimento do meu tio, fui visitar-vos, querida Madre, e falei-vos da minha alegria por terem as provações chegado ao fim. Mas qual não foi minha surpresa e minha aflição ao ouvir de vós que o Superior não permitia meu ingresso antes de eu atingir 21 anos...

Ninguém tinha pensado nessa oposição, a mais invencível de todas; porém, sem perder a coragem, fui com papai e Celina encontrar o nosso padre a fim de tentar demovê-lo, mostrando-lhe que eu tinha vocação para o Carmelo. Ele recebeu-nos muito friamente. Embora o meu incomparável paizinho tivesse juntado os seus argumentos aos meus, nada pôde alterar a sua disposição. Disse que não havia perigo na demora, que podia levar uma vida de carmelita em casa, que embora não tomasse a disciplina nem tudo seria perdido etc... etc... Enfim, acrescentou ser apenas o representante do senhor bispo e, se esse me autorizasse a ingressar, não teria mais nada a dizer... Saí chorando. Felizmente, estava escondida atrás da minha sombrinha, pois chovia muito. Papai não sabia como me consolar... prometeu levar-me a Bayeux logo que eu quisesse, pois estava resolvida a alcançar a minha meta. Disse que iria até ao Santo Padre se o senhor bispo me negasse a entrada no Carmelo aos 15 anos... Muita coisa ocorreu antes da minha ida a Bayeux. Por fora, minha vida parecia a mesma, estudava, tomava lições de desenho com Celina e minha hábil mestra achava em mim muito pendor pela sua arte. Crescia no amor a Deus, sentia em meu coração impulsos desconhecidos até então, tinha, às vezes, verdadeiros êxtases de amor. Uma tarde, não sabendo dizer a Jesus quanto o amava e como desejava que Ele fosse amado e glorificado em todo lugar, pensei com amargura que não poderia nunca receber no inferno um único acto de amor. Então, disse a Deus que para agradar a Ele eu consentiria em ser mergulhada nele a fim de que Ele fosse amado eternamente nesse lugar de blasfémia... Sabia que isso não podia glorificá-lo, sendo que Ele só deseja nossa felicidade, mas quando se ama sente-se necessidade de dizer mil tolices; se eu falava assim, não é porque não desejasse o Céu, mas, então, meu Céu consistia só no Amor e sentia, como são Paulo, que nada poderia separar-me do objecto divino que me seduzira!...

Antes de deixar o mundo, Deus concedeu-me a graça de contemplar de perto almas de crianças; sendo a última da família, nunca tinha tido essa felicidade. Eis as tristes circunstâncias que me levaram a isso: uma pobre mulher, parente da nossa empregada, morreu jovem deixando três criancinhas; durante a sua doença, guardamos em casa as duas meninas, tendo a mais velha apenas 6 anos. Cuidava delas o dia todo e era uma grande satisfação para mim ver com quanta candura acreditavam em tudo o que lhes dizia. É preciso que o santo baptismo deposite nas almas um germe muito profundo das virtudes teologais para que se manifestem desde a infância e que a esperança dos bens futuros baste para fazer aceitar sacrifícios. Quando queria ver as minhas duas meninas bem conciliadas, em vez de prometer brinquedos e bombons àquela que cederia em favor da outra, falava-lhes das recompensas eternas que o Menino Jesus daria no Céu às crianças bem comportadas. A mais velha, cuja razão começava a desenvolver-se, olhava-me com olhos brilhantes de alegria, fazia-me mil perguntas gentis sobre o menino Jesus e seu belo Céu e prometia-me com entusiasmo ceder sempre em favor da irmã, dizendo que nunca na vida esqueceria o que lhe havia dito "a grande senhorita", pois era assim que me chamava... Vendo de perto essas almas inocentes, compreendi ser grande infelicidade não formá-las bem desde o seu despertar, quando são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal... compreendi o que Jesus disse no Evangelho: que seria melhor ser lançado ao mar do que escandalizar uma só dessas crianças. Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!...
Sei que Deus não precisa de ninguém para realizar a sua obra, mas assim como permite a um hábil jardineiro cultivar plantas raras e delicadas e lhe dá para isso a ciência necessária, reservando para si a tarefa de fecundar, assim também Jesus quer ser ajudado na sua divina cultura das almas.

Que aconteceria se um jardineiro desajeitado não enxertasse direito suas plantas? Se não soubesse reconhecer a natureza de cada uma e quisesse fazer brotar rosas num pessegueiro?... Faria morrer a planta que, todavia, era boa e capaz de produzir frutos. Assim é que se deve reconhecer desde a infância o que Deus pede às almas e ajudar a acção da sua graça, sem nunca apressá-la nem retardá-la.

Como os passarinhos aprendem a cantar escutando os seus progenitores, assim as crianças aprendem a ciência das virtudes, o canto sublime do Amor divino, junto às almas encarregadas de formá-las.

Recordo-me de que entre os meus passarinhos eu tinha um canarinho que cantava maravilhosamente; tinha também um pequeno pintassilgo ao qual prodigalizava meus cuidados maternos, tendo-o adoptado antes que pudesse gozar da sua liberdade... Esse pobre prisioneirinho não tinha pais para ensiná-lo a cantar, mas ouvindo o dia todo o seu companheiro canarinho soltar alegres trinados quis imitá-lo... Esse empreendimento era difícil para um pintassilgo, por isso sua voz delicada teve dificuldade de se afinar à voz vibrante do seu mestre de música. Era lindo ver os esforços do pequeno, mas foram coroados de êxito, pois seu canto, embora conservando maior doçura, foi absolutamente o mesmo do canarinho.

Oh! Madre querida, fostes vós quem me ensinastes a cantar... foi a vossa voz que encantou minha infância, e agora tenho o consolo de ouvir dizer que ela se parece com a vossa!!! Bem sei que ainda estou longe disso, mas espero, apesar da minha fraqueza, repetir eternamente o mesmo cântico que vós!...

Antes do meu ingresso no Carmelo, fiz ainda muitas outras experiências acerca da vida e das misérias do mundo, mas esses detalhes levar-me-iam longe demais. Vou retomar o relato da minha vocação. O dia 31 de Outubro foi o dia fixado para a minha viagem a Bayeux. Parti sozinha com papai, o coração transbordando de esperança, mas também muito comovida com a ideia de apresentar-me no bispado. Pela primeira vez na vida ia fazer uma visita sem ser acompanhada das minhas irmãs, e essa visita era a um bispo! Eu, que nunca precisava falar, a não ser para responder às perguntas que me eram feitas, devia explicar pessoalmente a finalidade da minha visita, expor os motivos que me levavam a solicitar a minha entrada no Carmelo, enfim, devia mostrar a solidez da minha vocação. Ah! como me custou essa viagem! Foi preciso Deus conceder-me uma graça toda especial para vencer minha grande timidez... É também verdade que "Nunca o Amor depara com o impossível, pois crê que tudo lhe é possível e permitido". Verdadeiramente, só o amor de Jesus podia fazer-me vencer esta e as outras dificuldades que se seguiram, pois agradou-lhe fazer-me comprar minha vocação por meio de muitas provações...
Agora que gozo da solidão do Carmelo, descansando à sombra da Cruz que tão ardorosamente desejei, considero ter pago pouco pela minha felicidade e estaria disposta a suportar penas muito maiores para adquiri-la se a não tivesse alcançado!

Chovia a cântaros quando chegamos a Bayeux. Papai não queria que a sua rainhazinha entrasse na residência episcopal com sua linda roupa molhada. Subimos num ônibus e dirigimo-nos à catedral. Aí começaram novas dificuldades. Sua Excelência e todo o clero assistiam a um grande funeral. A igreja estava repleta de senhoras de luto e eu, com meu vestido claro e meu chapéu branco, era olhada por todos. Queria sair da igreja, mas não podia pensar nisso por causa da chuva. Para humilhar-me ainda mais, papai, com sua simplicidade patriarcal, fez-me subir na torre da catedral. Não querendo desagradá-lo, subi com boa vontade e propiciei esse divertimento aos bons habitantes de Bayeux, que teria desejado nunca ter conhecido... Enfim, pude respirar sossegada numa capela atrás do altar-mor e fiquei muito tempo lá, rezando com fervor, aguardando que a chuva parasse e nos fosse permitido sair. Ao descer, papai fez-me observar a beleza do edifício, que parecia muito maior agora que estava deserto. Porém, um único pensamento ocupava meu espírito e não podia agradar-me com coisa alguma. Fomos logo procurar pelo padre Révérony, que sabia da nossa chegada por ter sido ele quem marcara o dia da viagem. Mas estava ausente. Fomos obrigados a vaguear pelas ruas, que me pareceram muito tristes. Enfim, voltamos para perto da sede do bispado, e papai fez-me entrar num belo hotel onde não fiz honra ao hábil cozinheiro. O pobre paizinho era para comigo de uma ternura quase inacreditável, dizendo-me para não ficar triste, que logo o senhor bispo iria atender o meu pedido. Após um descanso, voltamos a procurar o padre Révérony; um senhor chegou ao mesmo tempo, mas o vigário-geral pediu-lhe polidamente para esperar e fez-nos entrar primeiro no seu gabinete (o pobre senhor teve tempo de enfastiar-se, pois a visita foi demorada). O padre Révérony mostrou-se muito amável, mas creio que estranhou muito o motivo da nossa viagem. Depois de ter-me olhado sorrindo, dirigiu-me algumas perguntas e disse: "Vou apresentar-vos a Sua Excelência, tenhais a bondade de me acompanhar". Vendo as lágrimas brilharem nos meus olhos, acrescentou: "Ah! vejo diamantes... não deveis mostrá-los a Sua Excelência!"... Fez-nos atravessar muitos cómodos vastíssimos, enfeitados de retratos de bispos. Vendo-me nesses salões enormes, tinha impressão de ser uma formiguinha e me perguntava o que ia ousar dizer a Sua Excelência. Ele anda, entre dois cómodos, num corredor. Vi o padre Révérony dizer-lhe algumas palavras e voltar com ele. Aguardávamos no gabinete dele. Ali, três enormes poltronas estavam dispostas diante da lareira onde crepitava um fogo forte. Ao ver entrar Sua Grandeza, papai pôs-se de joelhos a meu lado para receber a sua bênção. Indicou uma poltrona para papai se sentar, colocou-se na frente dele e o padre Révérony indicou-me a do meio. Recusei polidamente, mas insistiu, dizendo que devia mostrar-me capaz de obedecer. Sentei-me logo sem fazer comentário e senti-me constrangida ao vê-lo pegar uma cadeira enquanto eu estava afundada numa poltrona onde quatro pessoas como eu cabiam folgadamente (mais à vontade do que eu, pois estava longe de me sentir folgada!...) Esperava que papai fosse falar, mas disse-me para explicar pessoalmente a Sua Excelência a finalidade da nossa visita; o que fiz o mais eloquentemente possível. Acostumado com a eloquência, Sua Grandeza não pareceu comovido com meu arrazoado. Uma palavra favorável do padre superior teria servido melhor a minha causa, infelizmente não dispunha dela e sua oposição não intercedia a meu favor.
Sua Excelência perguntou-me se havia muito tempo que eu desejava ingressar no Carmelo: "Oh, sim, Excelência! Muito tempo..." . "Vejamos", interveio, rindo, o padre Révérony, "podeis dizer que faz 15 anos que tendes esse desejo." "É verdade", respondi sorrindo também, "mas não há muito que retirar, pois desejo fazer-me religiosa desde o despertar da minha razão e desejei o Carmelo logo que o conheci bem, pois nessa ordem achava que todas as aspirações da minha alma seriam satisfeitas." Não sei, Madre, se foram exactamente essas as minhas palavras, creio que eram ditas de forma ainda pior, mas, enfim, o sentido era este.

(cont.)