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19/10/2014

Tratado do verbo encarnado 04

Art. 4 — Se Deus mais principalmente se encarnou para remédio dos pecados actuais do que para remédio do pecado original.

O quarto discute-se assim. — Parece que Deus mais principalmente se encarnou para remédio dos pecados actuais do que para remédio do pecado original.

1. — Pois, quanto mais grave é um pecado tanto mais se opõe à salvação humana, por causa da qual Deus se encarnou. Ora, o pecado actual é mais grave que o original, pois, o pecado original merece uma pena mínima, como diz Agostinho. Logo, mais principalmente a Encarnação de Cristo ordena-se a delir os pecados actuais.

2. Demais. — O pecado original não merece a pena do sentido, mas só a do dano, como se demonstrou na Segunda Parte da Primeira Parte (Ia. IIae, q. 87, a. 5 arg. 2). Ora, Cristo veio para, em satisfação dos pecados sofrer na cruz a pena dos sentidos, mas não, a do dano, porque não careceu nunca da divina visão nem da divina fruição. Logo, mais principalmente veio para delir o pecado actual, que o original.

3. Demais. — Crisóstomo diz: É disposição de um servo fiel reputar por prestados como que só a si os benefícios do seu Senhor, feitos quase geralmente a todos. Pois, como que de si só falando, Paulo escreve assim (Gl 2, 20): Amou-me e se entregou a si mesmo por mim. Ora, os pecados propriamente nossos são os actuais, pois o original é um pecado comum. Logo, devemos ter uma disposição tal, que julguemos ter ele vindo principalmente por causa dos pecados actuais.

Mas, em contrário, o Evangelho diz (Jo 1, 29): Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Expondo o que diz, a Glosa: Pecado do mundo se chama o pecado original, comum a todo o mundo.

É certo Cristo ter vindo a este mundo não só para delir o pecado transmitido originalmente aos pósteros, mas também para delir todos os pecados que depois se lhe acrescentaram. Não que todos sejam delidos, pois o impede a culpa dos homens que não inerem a Cristo, segundo o Evangelho (Jo 3, 19): A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, mas porque ele fez o suficiente para delir a todos. Donde o dizer o Apóstolo (Rom 5, 16): Não foi assim o dom como o pecado, porque o juízo na verdade se originou de um pecado para condenação, mas a graça padeceu de muitos delitos para justificação.

Mas, tanto mais principalmente Cristo veio para delir um pecado, quanto maior ele é. Ora, a noção de maior é susceptível de dupla acepção. — Numa, intensivamente, assim, tanto maior é a brancura quanto mais intensa. E deste modo, maior é o pecado actual que o original, porque é mais essencialmente voluntário, como se demonstrou na Segunda Parte. — Noutra, diz-se maior o que o é extensivamente, assim, apelidamos maior a brancura que cobre uma superfície maior. E, deste modo, o pecado original, que contaminou todo o género humano, é maior que qualquer pecado actual próprio de uma pessoa particular. E, sendo assim, Cristo veio mais principalmente para tirar o pecado original, pois, o bem do povo é mais divino que o de um só, como diz Aristóteles.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A objecção colhe quanto à grandeza intensiva do pecado.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O pecado original, na retribuição futura, não merece a pena do sentido. Contudo, as penalidades que sofremos sensivelmente nesta vida, como a fome, a sede, a morte e outras semelhantes, procedem do pecado original. Por isso Cristo, para satisfazer plenamente pelo pecado original, quis sofrer a dor sensível, consumando em si mesmo a morte e outros sofrimentos semelhantes.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como Crisóstomo induz no mesmo lugar, o Apóstolo dizia as referidas palavras, não como querendo diminuir os dons amplíssimos de Cristo e derramados pela terra inteira, mas como se julgando exposto ele só por todos. Pois que importa, se fez também aos outros o que, feito a ti, é de tal modo íntegro e perfeito como se não fosse feito a nenhum outro? Donde, pelo facto, de dever alguém reputar por feitos a si os benefícios de Cristo, não deve julgar que não foram feitos para os outros. O que portanto não exclui que viesse mais principalmente abolir o pecado de toda a natureza do que o pecado de uma só pessoa. Mas, esse pecado comum foi de tal modo remediado, em cada um, como se só nele o fosse, E assim, por causa da união da caridade, o todo que foi distribuído a todos cada um deve se atribuir a si.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


18/10/2014

Tratado do verbo encarnado 03

Art. 3 — Se, mesmo que o homem não tivesse pecado, Deus ter-se-ia encarnado.

O terceiro discute-se assim. — Parece que mesmo que o homem não tivesse pecado, Deus ter-se-ia encarnado.

1 — Pois, permanecendo a causa, permanece o efeito. Ora, como diz Agostinho, devemos levar em conta muitas outras causas, na Encarnação de Cristo, além do resgate do pecado, do qual já se tratou (a. 2). Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado, Deus ter-se-ia encarnado.

2. Demais. — É próprio da onipotência do poder divino levar as suas obras à perfeição, e manifestar-se por algum efeito infinito. Ora, nenhuma simples criatura pode ser considerada um efeito infinito pois, toda criatura é finita por essência. Ora, só na obra da Encarnação, se manifesta por excelência um efeito infinito do poder divino, pois nela se acham unidos seres infinitamente distantes, por ter-se o homem feito Deus. Em cuja obra também em sumo grau se aperfeiçoou o universo, por ter-se a última criatura — o homem, unido ao primeiro principio — Deus. Logo, mesmo se o homem não tivesse pecado, Deus ter-se-ia encarnado.

3. Demais. — A natureza humana não se tornou, pelo pecado, mais capaz da graça. Ora, depois do pecado, é capaz da graça da união, que é a graça máxima. Logo, se o homem não tivesse pecado, a natureza humana teria sido capaz dessa graça, nem Deus subtrairia à natureza humana um bem de que ela era capaz. Logo, se o homem não tivesse pecado Deus ter-se-ia encarnado.

4. Demais. — A predestinação de Deus é eterna. Ora o Apóstolo diz, de Cristo (Rom 1, 4): Que foi predestinado Filho de Deus com poder. Logo, mesmo antes do pecado, foi necessário o Filho de Deus encarnar-se para cumprir-se a predestinação de Deus.

5. Demais. — O mistério da Encarnação foi o primeiro revelado ao homem, como se conclui da Escritura (Gn 2, 23): Eis aqui agora o osso de meus ossos, etc., o qual o Apóstolo diz que é um sacramento grande em Cristo e na Igreja (Ef 5, 22). Ora, pela mesma razão porque não o podia o anjo, também o homem não podia ter presciência da sua queda, como prova Agostinho. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado, Deus ter-se-ia encarnado.

Mas, em contrário, Agostinho diz expondo o Evangelho (Lc 19, 10) — O Filho do homem veio buscar e salvar o que tinha perecido: Logo, se o homem não tivesse pecado, o Filho do homem não teria vindo. E do Apóstolo (1Tm 1, 15) — Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, diz a Glosa: Nenhuma outra causa houve da vinda de Cristo a este mundo senão salvar os pecadores. Elimina as doenças, elimina as chagas: já não há nenhuma razão de remédio.

São diversas as opiniões sobre esta matéria — Uns dizem que, mesmo sem o pecado do homem, o Filho de Deus ter-se-ia encarnado. Outros afirmam o contrário. E a esta afirmação devemos dar assentimento. Pois, as obras puramente voluntárias de Deus, sem haver nenhum débito para com a criatura, nós não as podemos conhecer, senão enquanto manifestadas pela Sagrada Escritura, que nos torna conhecida a vontade divina. Ora, como a Sagrada Escritura, sempre dá como razão à Encarnação o pecado do primeiro homem, mais convenientemente se diz que a obra da Encarnação foi ordenada por Deus como remédio do pecado, de modo que, se o pecado não existisse, a Encarnação não teria lugar. Embora por aí não fique limitado o poder de Deus, pois, Deus teria podido encarnar-se mesmo sem ter existido o pecado.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Todas as outras causas assinaladas respeitam o remédio do pecado. Pois, se o homem não tivesse pecado, teria infuso em si o lume da sabedoria divina e teria, de Deus, a perfeita rectidão da justiça, para conhecer e, praticar todo o necessário. Mas, tendo o homem, pelo abandono de Deus, caído ao nível das coisas corpóreas, foi conveniente que Deus, tendo assumido a carne, também lhe desse o remédio da salvação por meio de coisas corpóreas. Por isso o Evangelho (Jo 1, 14) — O Verbo se fez carne — Diz Agostinho: A carne te cegou, a carne te cura, pois, Cristo veio para, com a carne, extirpar os vícios da carne.

RESPOSTA À SEGUNDA. — No modo mesmo da produção das coisas, do nada, se manifesta o infinito poder divino. E também à perfeição do universo basta que a criatura se ordene para Deus, de um modo natural, como para o fim. Mas, excede os limites da perfeição da natureza unir-se criatura pessoalmente a Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Podemos considerar na natureza humana uma dupla capacidade — Uma, conforme à ordem da potência natural. E esse Deus sempre a satisfaz, pois dá a cada coisa conforme à sua capacidade natural — Outra conforme à ordem do poder divino, a cujo nuto toda criatura obedece. E a esta pertence a capacidade em questão. Pois, Deus não satisfaz toda essa capacidade da natureza, do contrário não poderia fazer na criatura senão o que faz. O que é falso, como já demonstramos na Primeira Parte (q. 25, a. 5, q. 105, a. 6). Pois nada impede que a natureza humana, depois pecado não seja susceptível de maior elevação. Porque Deus permite que se faça o mal para dele tirar um bem melhor. Donde o dizer o Apóstolo (Rom 5, 20): Onde abundou o pecado superabundou a graça. E o dizer-se na bênção do Círio Pascal: Ó culpa feliz, que mereceu ter um tal e tão grande Redentor.

RESPOSTA À QUARTA. — À predestinação pressupõe a presciência dos futuros. Donde, assim como Deus predestina que a salvação de um homem deve cumprir-se pela oração de outros, assim também predestinou a obra da Encarnação como remédio do pecado.

RESPOSTA À QUINTA. — Nada impede que seja revelado um efeito a quem não o é a causa. Donde, ao primeiro homem podia ser revelado mistério da Encarnação sem que tivesse a presciência da sua queda, pois, quem quer que conheça um efeito não há de por isso conhecer a causa.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.