Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
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27/11/2019
09/03/2019
10/09/2014
Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Persona humana, ética sexual)
Evangelho:
Lc 6, 20-26
20 Levantando os olhos para
os Seus discípulos, dizia: «Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o
reino de Deus. 21 Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque
sereis saciados. Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir. 22
Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, vos
carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do
Filho do Homem. 23 Alegrai-vos nesse dia e exultai, porque será
grande a vossa recompensa no céu. Era assim que os pais deles tratavam os
profetas. 24 «Mas, ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa
consolação. 25 Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter
fome. Ai de vós os que agora rides, porque gemereis e chorareis. 26
Ai de vós, quando todos os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos
profetas os pais deles.
Comentário:
Poder-se-á
dizer que, este discurso de Jesus – conhecido por ‘Sermão da Montanha’ está
carregado de dramatismo e conflitualidade.
Estabelece
como que uma espécie de confronto entre duas categorias de pessoas ou, talvez,
classes sociais e, de facto, assim se pode admitir porque desde os princípios
da história humana, assim tem acontecido.
Portanto,
Jesus Cristo não faz mais que pôr a nu essas mesmas diferenças, barreiras ou
vãos que separam os homens.
Ao
fazê-lo diz claramente aos que sofrem que encontraram lenitivo junto dele, no
Seu Reino; aos que ignoram estes, ou põem a sua vida ao serviço do bem-estar e
da posse de bens, que, tal, de nada serve, é passageiro e dificulta a
felicidade eterna.
(ama, sobre Lc 6, 20-26, Cascais, 2013.09.11)
Leitura espiritual

Documentos do Magistério
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
DECLARAÇÃO
PERSONA HUMANA
SOBRE ALGUNS PONTOS DE ÉTICA SEXUAL
11.
Como ficou dito anteriormente, a presente Declaração propõe-se chamar a atenção
dos fiéis, nas circunstâncias actuais, para certos erros e modos de proceder de
que eles devem guardar-se. A virtude da castidade, porém, não se limita a
evitar as faltas indicadas; ela tem ainda exigências positivas e mais elevadas.
É uma virtude que marca toda a personalidade no seu comportamento, tanto interior
como exterior.
A
castidade há-de distinguir as pessoas segundo os diferentes estados de vida:
umas, na virgindade ou no celibato consagrado, maneira eminente de se dedicar
mais facilmente só a Deus, com um coração não dividido; [27] outras, da maneira
que a lei moral determina para elas, conforme forem casados ou celibatários.
Entretanto,
em todo e qualquer estado de vida a castidade não se reduz a uma atitude
exterior; ela deve tornar puro o coração do homem, segundo aquelas palavras de
Cristo: «Ouvistes o que foi dito: "Não cometerás adultério". Eu,
porém, digo-vos: — todo aquele que olhar uma mulher com mau desejo, já cometeu
adultério com ela em seu coração». [28]
A
castidade está incluída naquela «continência» que São Paulo menciona entre os
dons do Espírito Santo, ao mesmo tempo que condena a luxúria como um vício
particularmente indigno para o cristão e que exclui do Reino de Deus. [29]
«Esta é a vontade de Deus: que vos santifiqueis, que vos abstenhais da
fornicação, que saiba cada um possuir o próprio corpo em santidade e em honra,
sem se deixar levar por paixões desregradas, como fazem os gentios, que não
conhecem a Deus; que ninguém nesta matéria use de fraude ou de violência para
com o próprio irmão. Deus, de facto, não nos chamou a viver na impureza, mas na
santidade. Quem despreza estes preceitos, portanto, não despreza um homem, mas
aquele Deus que também difunde o seu Espírito Santo em vós». [30] «A fornicação
e qualquer outra impureza ou baixa cobiça não sejam sequer mencionadas entre
vós, como é próprio dos santos. Porque, sabei-o bem, nenhum fornicador, ou
impudico, ou avarento, que equivale a um idólatra, será herdeiro no reino de
Cristo e de Deus. Que ninguém vos iluda com vãs palavras: por causa desses
vícios abate-se a ira de Deus sobre os desobedientes. Não queirais, pois,
acomunar-vos a eles. Em tempos, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor.
Procedei, pois, como filhos da luz». [31]
O
Apóstolo precisa, além disso, a razão propriamente cristã para praticar a
castidade, quando condena o pecado de fornicação, não somente na medida em que
esta acção prejudica o próximo ou a ordem social, mas também porque o
fornicador ofende a Cristo que o resgatou com o seu sangue e do qual é membro,
e o Espírito Santo de quem ele é templo: «Não sabeis que os vossos corpos são
membros de Cristo?... Qualquer outro pecado que o homem cometer é exterior ao
seu corpo; mas o fornicador é contra o seu próprio corpo que peca. Ou não
sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, que vos
foi dado por Deus, e que vós não sois senhores de vós mesmos? Na verdade,
fostes comprados a elevado preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo».
[32]
Quanto
mais os fiéis compreenderem a valor da castidade e a função necessária da
mesma, nas suas vidas de homens e de mulheres, tanto melhor eles captarão, por
uma espécie de instinto espiritual, as exigências e os conselhos e melhor
saberão aceitar e cumprir, dóceis ao ensino da Igreja, aquilo que a consciência
recta lhes ditar nos casos concretos.
12.
O Apóstolo São Paulo descreve com termos bem vigorosos o doloroso conflito que
existe no interior do homem escravo do pecado, entre a «lei da sua razão» e
«uma outra lei nos seus membros» que o retém cativo. [33] Entretanto o homem
pode alcançar ser liberto do «seu corpo de morte» pela graça de Jesus Cristo.
[34]
Desta
graça gozam os homens que ela própria justificou, aqueles mesmos que a lei do
Espírito de vida em Cristo Jesus libertou da lei do pecado e da morte. [35] É
por isso que o Apóstolo os incita: «Não deixeis, pois, que o pecado reine no
vosso corpo mortal, de modo que obedeçais às suas concupiscências». [36]
Esta
libertação, se bem que dê a aptidão para servir numa vida nova, não suprime a
concupiscência proveniente do pecado original, nem as incitações para o mal de
um mundo que «está todo sob o jugo do Maligno». [37] Assim, o Apóstolo estimula
os fiéis a superar as tentações apoiados na força de Deus, [38] e a resistir às
«ciladas do Demónio» [39] pela fé e pela oração vigilante [40] e por uma austeridade
de vida que submeta o corpo ao serviço do Espírito. [41]
Viver
a vida cristã seguindo na esteira de Cristo exige que cada um «renuncie a si
mesmo e tome a sua cruz todos os dias», [42] sustido pela esperança da
recompensa: «Porque ... se morrermos com Ele, também com Ele viveremos; se
perseverarmos, reinaremos com Ele». [43]
Na
linha destes convites instantes, os fiéis, também hoje, e mesmo mais do que
nunca, devem empregar os meios que a Igreja sempre recomendou para levar uma
vida casta: a disciplina dos sentidos e da mente, a vigilância e a prudência
para evitar as ocasiões de quedas, a guarda do pudor, a moderação nas
diversões, as ocupações sãs, o recurso frequente à oração e aos sacramentos da
Penitência e da Eucaristia.
Os
jovens, sobretudo, devem ter o cuidado de fomentar a sua devoção à Imaculada
Mãe de Deus e propor-se como modelo a vida dos Santos e daqueles outros fiéis
cristãos, particularmente dos jovens, que se distinguiram na prática da virtude
da castidade.
Importa,
em particular, que todos tenham um conceito elevado da virtude da castidade, da
sua beleza e da sua força de irradiação. É uma virtude que enobrece o ser
humano e que capacita para um amor verdadeiro, desinteressado, generoso e
respeitoso para com os outros.
13.
Incumbe aos Bispos ensinar aos fiéis a doutrina moral que diz respeito à
sexualidade, sejam quais forem as dificuldades que o cumprimento deste dever
encontre nas ideias e nos costumes difundidos em nossos dias.
Esta
doutrina tradicional terá de ser aprofundada, expressa de maneira apta para
esclarecer as consciências perante as novas situações criadas e enriquecida com
discernimento por aquilo que pode ser dito de verdadeiro e de útil sobre o
sentido e o valor de sexualidade humana. No entanto, os princípios e as normas
de vida moral reafirmados na presente Declaração devem ser fielmente mantidos e
ensinados. Importará, especialmente, procurar fazer com que os fiéis
compreendam que a Igreja os mantém, não como inveteradas e invioláveis «tabus»,
nem em virtude de preconceitos maniqueus, conforme se ouve repetir muitas
vezes, mas sim porque ela sabe com certeza que eles correspondem à ordem divina
da criação e ao espírito de Cristo e, por conseguinte, também à dignidade
humana.
Faz
parte da missão dos Bispos, igualmente, velar por que nas Faculdades de
Teologia e nos Seminários seja exposta uma doutrina sã, à luz da fé e sob a
direcção do Magistério da Igreja. Eles devem cuidar, ainda, de que os
confessores esclareçam as consciências e de que o ensino catequístico seja
ministrado em perfeita fidelidade à doutrina católica.
Aos
Bispos, aos sacerdotes e aos seus colaboradores compete pôr de sobreaviso os
fiéis contra as opiniões erróneas frequentemente propostas em livros, em
revistas e em conferências públicas.
Os
pais em primeiro lugar, como também os educadores da juventude, hão-de
esforçar-se por conduzir os seus filhos e os seus educandos à maturidade
psicológica, afectiva e moral, em conformidade com a sua idade, por meio de uma
educação integral. Para isso dar-lhes-ão uma informação prudente e adaptada à
sua idade e procurarão assiduamente formar-lhes a vontade para os costumes
cristãos, não só com conselhos, mas sobretudo com o exemplo da sua própria vida
e mediante a ajuda de Deus que lhes alcançará a oração. E hão-de ter também o
cuidado de os proteger de numerosos perigos de que os jovens não chegam a
suspeitar.
Os
artistas, os escritores e todos aqueles que dispõem dos meios de comunicação
social devem exercitar a sua profissão de acordo com a sua fé cristã,
conscientes da enorme influência que podem exercer. Hão-de ter sempre presente
que «todos devem respeitar a primazia absoluta da ordem moral objectiva» [44] e
que não se pode dar a preferência sobre ela a nenhum pretenso objectivo
estético, a vantagens materiais ou ao êxito.
Quer
se trate de criações artísticas ou literárias, quer se trate de espectáculos ou
de informações, cada um no seu campo próprio deve dar mostras de tacto, de
discrição, de moderação e de um justo sentido dos valores. Deste modo, longe de
favorecer mais ainda a licença dos costumes, hão-de contribuir para a refrear e
mesmo para sanear o clima moral da sociedade.
Todos
os fiéis leigos, por seu turno, em virtude do seu direito e do seu dever de
apostolado, tomarão a peito trabalhar no mesmo sentido.
Finalmente,
convém recordar a todos que o II Concílio do Vaticano «declara que as crianças
e os adolescentes têm direito a ser estimulados a apreciar rectamente os
valores morais e a prestar-lhes a sua adesão pessoal, bem como a conhecer e a
amar a Deus mais perfeitamente. Por isso, pede encarecidamente a todos os que
governam os povos, ou que estão à frente da educação, que providenciem a fim de
que a juventude nunca se veja privada deste sagrado direito». [45]
Em
Audiência concedida ao abaixo assinado Prefeito da Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé, a 7 de Novembro de 1975, o Sumo- Pontífice, por divina providência
Papa Paulo VI, aprovou esta Declaração « sobre alguns pontos de ética sexual »
confirmou-a e ordenou que a mesma fosse publicada.
Dado
em Roma, na sede da Sagrada Congregação para a Doutrina de Fé, no dia 29 de
Dezembro do ano de 1975.
Franjo
Cardeal Seper
Prefeito
+
Jerónimo Hamer
Arcebispo
titular de Lorium
Secretário
_____________________________
Notas:
[27]
Cfr. 1 Cor. 7, 7. 34; Conc. Ecum. de Trento, Sess. XXIV, can. 10: DS 1810; II
Conc. Ecum. do Vaticano, Const. dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, nn.
42, 43-44: AAS 51 (1965), pp. 47-51; Synodus Episcoporum, De Sacerdotio
ministeriali, pars II, 4: AAS 63 (1971), pp. 915-916.
[28]
Mt. 5, 28.
[29]
Cfr. Gál. 5, 19-23; 1 Cor. 6, 9-11.
[30]
1 Tess. 4, 3-8; cfr. Col. 3, 5-7; 1 Tim. 1, 10.
[31]
Ef. 5, 3-8; cfr. 4, 18-19.
[32]
1 Cor. 6, 15. 18-19.
[33]
Cfr. Rom. 7, 23.
[34]
Cfr. Rom. 7, 24-25.
[35]
Cfr. Rom. 8, 2.
[36]
Rom. 6, 12.
[37]
1 Jo. 5, 19.
[38]
Cfr. 1 Cor. 10, 13.
[39]
Ef. 6, 11.
[40]
Cfr. Ef. 6, 16. 18.
[41]
Cfr. 1 Cor. 9, 27.
[42]
Lc. 9, 23.
[43]
2 Tim. 2, 11-12.
[44]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Decr. sobre os Meios de Comunicação Social, Inter
Mirifica, n. 6: AAS 56 (1964), p. 174.
[45]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Decl. sobre a Educação Cristã, Gravissimum
Educationis, n. 1: AAS 58 (1966), p. 730.
09/09/2014
Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Persona humana, ética sexual)
Evangelho:
Lc 6, 12-19
«12 Naqueles dias
Jesus retirou-se para o monte a orar, e passou toda a noite em oração a Deus. 13
Quando se fez dia, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos
quais deu o nome de Apóstolos: 14 Simão, a quem deu o sobrenome de
Pedro, seu irmão André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, 15 Mateus,
Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado o Zelote, 16 Judas,
irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor. 17 Descendo
com eles, parou numa planície. Estava lá um grande número dos Seus discípulos e
uma grande multidão de povo de toda a Judeia, de Jerusalém, do litoral de Tiro
e de Sidónia, 18 que tinham vindo para O ouvir, e para ser curados
das suas doenças. Os que eram atormentados pelos espíritos imundos ficavam
também curados. 19 Todo o povo procurava tocá-l'O, porque saía d'Ele
uma virtude que os curava a todos.»
Comentário:
Porquê,
Jesus Cristo, escolheu doze e não outros. Parece que quanto maior o número de
Apóstolos mais fácil seria a divulgação do Reino de Deus que vinha instalar na
terra.
Provavelmente
será um número simbólico que se relaciona com as doze tribos de Israel mas não
é certo que tivesse sido esse o motivo. Também, pouco nos interessa este
aspecto “académico” do chamamento porque, como se verá, foram mais que
suficientes para levar a cabo a missão que lhes competia.
De
facto, no apostolado, não interessa o número mas a qualidade e o empenho, a
dedicação e perseverança.
O
Senhor escolheu como quis e quem quis. É o que continua a fazer ainda hoje e
sempre.
E
ao chamar cada um não nos cabe perguntar: ‘porquê eu?’ mas, sim, corresponder
ao chamamento apesar dos pesares, porque, se Ele nos chama, é porque nos quer
como somos.
(ama, comentário sobre Lc 6, 12-19,
Cascais, 2013.09.10)
Leitura espiritual

Documentos do Magistério
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
DECLARAÇÃO
PERSONA HUMANA
SOBRE ALGUNS PONTOS DE ÉTICA SEXUAL
8.
Nos nossos dias, em contradição com o ensino constante do Magistério e com o sentir
moral do povo cristão, há alguns que, fundando-se em observações de ordem
psicológica, chegam a julgar com indulgência, e até mesmo a desculpar
completamente, as relações homossexuais em determinadas pessoas.
Eles
fazem uma distinção – ao que parece não sem fundamento – entre os homossexuais
cuja tendência provém de uma educação falseada, de uma falta de evolução sexual
normal, de um hábito contraído, de maus exemplos ou de outras causas análogas:
tratar-se-ia de uma tendência que é transitória, ou pelo menos não incurável; e
aqueles outros homossexuais que são tais definitivamente, por força de uma
espécie de instinto inato ou de uma constituição patológica considerada
incurável.
Ora,
quanto a esta segunda categoria de sujeitos, alguns concluem que a sua
tendência é de tal maneira natural que deve ser considerada como justificante,
para eles, das relações homossexuais numa sincera comunhão de vida e de amor
análoga ao matrimónio, na medida em que se sintam incapazes de suportar uma
vida solitária.
Certamente,
na actividade pastoral, estes homossexuais assim hão-de ser acolhidos com
compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades
pessoais e a sua inadaptação social. A sua culpabilidade há-de ser julgada com
prudência. No entanto, nenhum método pastoral pode ser empregue que, pelo facto
de esses actos serem julgados conformes com a condição de tais pessoas, lhes
venha a conceder uma justificação moral.
Segundo
a ordem moral objectiva, as relações homossexuais são actos destituídos da sua
regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como
graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma
rejeição de Deus. [18]
Este
juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos
aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas
atesta que os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que
eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação.
9.
Com frequência, hoje, põe-se em dúvida ou nega-se expressamente a doutrina
tradicional católica segundo a qual a masturbação constitui uma grave desordem
moral.
A
psicologia e a sociologia, diz-se, demonstram que, sobretudo entre os jovens, é
um fenómeno normal da evolução da sexualidade. Nisso não haveria falta real e
grave senão na medida em que o sujeito cedesse deliberadamente a uma auto-satisfação
fechada sobre si mesma («ipsatio» — «ipsação»), porque então nesse caso o acto
seria radicalmente contrário à comunhão amorosa entre duas pessoas de sexo
diferente, sendo esta, como afirmam alguns, aquilo que constitui o principal
objectivo no uso da faculdade sexual.
Esta
opinião contradiz a doutrina e a prática pastoral da Igreja católica.
Seja
qual for o valor de certos argumentos de ordem biológica ou filosófica de que
se serviram algumas vezes os teólogos, de facto, tanto o Magistério da Igreja,
na linha de uma tradição constante, quanto o sentir moral dos fiéis, afirmaram
sem hesitações que a masturbação é um acto intrínseca e gravemente desordenado.
[19]
A razão principal disso é a seguinte: qualquer
que seja o motivo que o determine, o uso deliberado da faculdade sexual fora
das relações conjugais normais contradiz essencialmente a sua finalidade.
Falta-lhe,
de facto, a relação sexual requerida pela ordem moral, aquela relação que
realiza «o sentido integral de uma doação recíproca e da procriação humana, num
contexto de autêntico amor». [20]
É
para essa relação regular que se deve reservar todo o exercício deliberado da
sexualidade. Mesmo que não se possa assegurar que a Sagrada Escritura reprova
este pecado sob uma designação distinta, a tradição da Igreja compreendeu com
justeza que ele se achava condenado no Novo Testamento quando aí se fala da
«impureza», da «impudicícia», ou de outros vícios contrários à castidade e à
continência.
Os
inquéritos sociológicos podem indicar a frequência dessa desordem segundo os
lugares, segundo a população ou segundo as circunstâncias que eles tomam como
objecto de observação; e assim anotam-se os factos.
Mas
os factos não constituem um critério que permita julgar o valor moral dos actos
humanos. [21] A frequência do fenómeno em questão há-de, certamente, ser posta
em relação com a fraqueza inata do homem, consequência do pecado original, mas
igualmente com a perda do sentido de Deus, com a depravação dos costumes gerada
pela comercialização do vício, com a licenciosidade desenfreada de tantos e
tantos espectáculos e publicações, bem como com o menosprezo do pudor,
resguardo da castidade.
Quanto
a esta matéria da masturbação, a psicologia moderna oferece numerosos dados
válidos e úteis para formular um juízo mais equitativo acerca da
responsabilidade moral e para orientar a acção pastoral. Ajuda a ver como a
imaturidade da adolescência, que às vezes pode prolongar-se para além desta
idade, o desequilíbrio psíquico ou o hábito contraído podem influir sobre o
comportamento, atenuando o carácter deliberado do acto, e fazer com que,
subjectivamente, nele não haja sempre falta grave. Entretanto, a ausência de
responsabilidade grave não se pode presumir de maneira geral; isso seria desconhecer
a capacidade moral das pessoas.
No
ministério pastoral deverá ser tomado em consideração, para se formar um juízo
adequado nos casos concretos, o comportamento habitual das pessoas na sua
totalidade, não apenas quanto à prática da caridade e da justiça, mas também
quanto à preocupação por observar o preceito particular da castidade.
Deverá
aquilatar-se, nomeadamente, se se adoptam os meios necessários, naturais e
sobrenaturais que, com a sua longa experiência, a ascética cristã recomenda
para conseguir o domínio das paixões e fazer progredir na virtude.
10.
O respeito pela lei moral, no campo da sexualidade, bem como a prática da
castidade, não se acham pouco comprometidos, sobretudo entre os cristãos menos
fervorosos, pela tendência actual para reduzir ao mínimo, se não mesmo para
negar, a realidade do pecado grave, ao menos na existência concreta dos homens.
Alguns
chegam mesmo ao extremo de afirmar que o pecado mortal, que separa o homem de
Deus, só se verifica quando há uma rejeição formal e directamente oposta ao
apelo do mesmo Deus, ou no egoísmo que, completa e deliberadamente, se fecha ao
amor do próximo.
Só
então se daria a opção fundamental, quer dizer, aquela decisão que compromete
totalmente a pessoa e que seria necessária para constituir o pecado mortal. Por
ela, o homem tomaria ou ractificaria no âmago de sua personalidade uma atitude
fundamental em relação a Deus ou em relação aos outros homens.
As
acções chamadas periféricas (das quais se diz que não comportam, em geral, uma
escolha plenamente decisiva), essas, ao contrário, não chegariam até ao ponto
de mudar uma opção fundamental; e isso tanto menos, observa-se ainda, quando
tais acções, como sucede muitas vezes, procedem de hábitos contraídos.
Deste
modo, elas podem debilitar a opção fundamental, mas não mudá-la completamente.
Ora, segundo estes autores, uma mudança da opção fundamental em relação a Deus
verifica-se mais dificilmente no domínio da actividade sexual em que o homem,
em geral, não transgride de maneira plenamente deliberada e responsável a ordem
moral, mas prevalentemente sob a influência da sua paixão, da sua fraqueza, da
sua imaturidade e, algumas vezes mesmo, da ilusão de testemunhar assim o seu
amor para com o próximo; e a isto vem juntar-se com frequência a pressão do
meio social.
Na
realidade, é sem dúvida a opção fundamental que define, em última análise, a
disposição moral de uma pessoa.
No
entanto, a opção fundamental pode ser mudada totalmente por actos particulares,
sobretudo quando estes tenham sido preparados – come acontece muitas vezes –
com actos anteriores mais superficiais.
Em todo o caso não é verdade que um só destes
actos particulares não possa ser suficiente para que haja pecado mortal.
Segundo
a doutrina da Igreja, o pecado mortal que se opõe a Deus não consiste apenas na
resistência formal e directa ao preceito da caridade; ele verifica-se
igualmente naquela oposição ao amor autêntico que está incluída em toda a
transgressão deliberada, em matéria grave, de cada uma das leis morais.
O
próprio Jesus Cristo indicou o duplo mandamento do amor como fundamento da vida
moral; mas deste mandamento «dependem toda a Lei e os Profetas»: [22] ele
engloba, por conseguinte, todos os outros preceitos particulares.
Com
efeito, ao jovem rico que lhe perguntava — «Mestre, que hei-de fazer de bom
para obter a vida eterna?» — Jesus respondeu: «Se queres entrar na vida eterna,
observa os mandamentos...: não matar, não cometer adultério, não roubar, não
levantar falso testemunho, honra pai e mãe e ama o próximo como a ti mesmo».
[23]
O
homem, portanto, peca mortalmente, não só quando as suas acções procedem do
desprezo directo do amor de Deus e do próximo, mas também quando, consciente e
livremente, faz a escolha de um objecto gravemente desordenado, seja qual for o
motivo dessa sua eleição.
Nessa
escolha, de facto, como se disse acima, está incluído o desprezo pelo
mandamento divino: o homem aparta-se de Deus e perde a caridade. Ora bem:
segundo a tradição cristã e a doutrina da Igreja, e conforme o reconhece também
a recta razão, a ordem moral da sexualidade comporta para a vida humana valores
tão elevados, que toda a violação directa da mesma ordem é objectivamente
grave. [24]
É
verdade que nas faltas de ordem sexual, tendo em vista as suas condições
especiais e as suas causas, sucede mais facilmente que não lhes seja dado
plenamente um consentimento livre; o que há-de levar a proceder com cautela em
todo o juízo a fazer quanto à responsabilidade subjectiva de tais faltas.
É
caso para recordar em particular aquelas palavras da Sagrada Escritura: «o
homem olha a aparência, ao passo que Deus olha o coração». [25]
Entretanto,
o recomendar esta prudência assim no ajuizar sobre a gravidade subjectiva de um
acto pecaminoso particular, não equivale de maneira nenhuma a sustentar que em
matéria sexual não se cometem pecados mortais.
Os
pastores de almas, pois, devem dar mostras de paciência e de bondade; não lhes
é permitido, porém, tornar vãos os mandamentos de Deus, nem reduzir
desmedidamente a responsabilidade das pessoas: «Não minimizar em nada a
doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas. Mas
isso deve andar sempre acompanhado também da paciência e da bondade, de que o
próprio Senhor deu o exemplo, ao tratar com os homens. Tendo vindo para salvar
e não para julgar, Ele foi intransigente com o mal, mas misericordioso para com
as pessoas». [26]
(cont)
(Revisão
da versão portuguesa por ama)
_____________________________
Notas:
[18]
Rom. 1, 24-27: « Por isso é que Deus os abandonou, em poder da concupiscência
dos seus corações, à impureza; de maneira que eles desonram em si mesmos os
próprios corpos; eles que trocaram a verdade divina pela mentira, e que
adoraram e serviram à criatura de preferência ao Criador, o qual é bendito
pelos séculos. Amen. Por isso é que Deus os entregou em poder das paixões
ignominiosas: as suas mulheres mudaram o uso natural por relações que são
contra a natureza; do mesmo modo os homens, também, deixando o uso natural da
mulher, inflamaram-se na mútua concupiscência uns dos outros, praticando torpezas
homens com homens. E assim receberam em si mesmos a retribuição devida pelos
seus desvarios ». Veja-se ainda o que o mesmo São Paulo escreve acerca dos «
masculorum concubitores » em 1 Cor. 6, 10 e 1 Tim. 1, 10.
[19]
Cfr. Leão IX, Ep. Ad splendidum nitentis, no ano de 1054: DS 687-688; Decreto
do Santo Ofício de 2 de Março de 1679: DS 2149; Pio XII, Alocução de 8 de
Outubro de 1953: AAS 45 (1953), pp. 677-678; e Discurso de 19 de Maio de 1956:
AAS 48 (1956), pp. 472-473.
[20]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Const. pastoral sobre a Igreja no mundo
contemporâneo, Gaudium et Spes, n. 51: AAS 58 (1966), p. 1072.
[21]
«Se os inquéritos sociológicos nos são úteis, para conhecermos melhor a
mentalidade ambiente, as preocupações e as necessidades daqueles aos quais nós
anunciamos a Palavra de Deus, bem como as resistências que a razão moderna lhe
opõe, com o sentimento amplamente difundido de que, fora da ciência, não
existiria nenhuma outra forma legítima de saber, entretanto as conclusões de
tais inquéritos não poderiam constituir por si mesmas um critério determinante
de verdade» (Paulo VI, Exort. Apost. Quinque iam anni, de 8 de Dezembro de
1970: AAS 63 [1971], p. 102).
[22]
Mt. 22, 40.
[23]
Mt. 19, 16-19.
[24]
Cfr. as notas anteriores sob os nn. 17 e 19; e ainda Decreto do Santo Ofício,
de 18 de Março de 1666: DS 2060; Paulo VI, Enc. Humanae Vitae, nn. 13 e 14: AAS
60 (1968), pp. 489-490.
[25]
1 Sam. 16, 7.
[26]
Paulo VI, Enc. Humanae Vitae, n. 29: AAS 60 (1968), p. 501.
08/09/2014
Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Persona humana, ética sexual)
Natividade da Santíssima Virgem
Evangelho:
Mt 1, 18-23
18 A
geração de Jesus Cristo foi deste modo: Estando Maria, Sua mãe, desposada com
José, antes de coabitarem achou-se ter concebido por obra do Espírito Santo. 19
José, seu esposo, sendo justo, e não querendo expô-la a difamação, resolveu
repudiá-la secretamente. 20 Pensando ele estas coisas, eis que um
anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, e lhe disse: «José, filho de David, não
temas receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é
obra do Espírito Santo. 21 Dará à luz um filho, ao qual porás o nome
de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados». 22 Tudo
isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta
que diz: 23 “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e Lhe
porão o nome de Emanuel, que significa: Deus connosco”.
Comentário:
Sim, não subsiste nenhuma dúvida por
resolver, nenhuma pergunta sem resposta. Deus esclarece, sempre, os corações
puros dos que nele confiam.
O magnífico mistério de uma
maternidade que mudará para sempre a história da humanidade, não é apregoada
aos quatro ventos com o estentor e alarido como os homens gostam de fazer nas
suas pequenas coisas, mas na privacidade simples de um sonho que é como Deus
Todo Poderoso prefere manifestar-se.
(ama,
comentário sobre Mt 1, 18-23, 2010.09.08)
Leitura espiritual

Documentos do Magistério
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
DECLARAÇÃO
PERSONA HUMANA
SOBRE ALGUNS PONTOS DE ÉTICA SEXUAL
1.
A pessoa humana, segundo os dados da pesquisa científica contemporânea, é tão
profundamente afectada pela sexualidade, que esta deve ser considerada como um
dos factores que conferem à vida de cada um dos indivíduos os traços principais
que a distinguem. É do sexo, efectivamente, que a pessoa humana recebe aqueles
caracteres que, no plano biológico, psicológico e espiritual, a fazem homem e
mulher, condicionando por isso, em grande escala, a sua consecução da
maturidade e a sua inserção na sociedade. É essa a razão de as coisas
referentes ao sexo, como cada um poderá facilmente verificar, nos nossos dias
serem assunto frequente e abertamente tratado nos livros, nas revistas e nas
publicações periódicas, bem como pelos outros meios de comunicação social.
Nestes
últimos tempos, aumentou a corrupção dos costumes de que uma desmesurada
exaltação do sexo é um dos mais graves índices; ao mesmo tempo, pela difusão
dos meios de comunicação social e dos espectáculos, ela tem vindo a invadir o
campo da educação e a infectar a mentalidade geral.
Se
é verdade que, neste contexto, tem havido educadores, pedagogos ou moralistas,
que puderam contribuir para fazer compreender e integrar na vida os valores
próprios de um e outro sexo, outros, em contraposição, propuseram concepções e
modo de comportamento contrários às verdadeiras exigências morais do ser
humano, indo mesmo até ao ponto de favorecer um hedonismo licencioso.
Daqui
veio como resultado que, mesmo entre os cristãos, pontos de doutrina, critérios
morais e maneiras de viver, até há pouco fielmente conservados, no espaço de
poucos anos foram fortemente abalados; e são em grande número hoje em dia
aqueles que, perante tantas opiniões largamente difundidas em oposição com a
doutrina que eles receberam da Igreja, chegam a perguntar-se o que é que devem
ainda manter como verdadeiro.
2.
A Igreja não pode ficar indiferente diante de uma tal confusão dos espíritos e
de um semelhante relaxamento dos costumes. Trata-se, na verdade, de um problema
da máxima importância para a vida pessoal dos cristãos e para a vida social do
nosso tempo. [1]
Os
Bispos são levados a verificar cada dia as dificuldades crescentes que os fiéis
experimentam para tomar consciência da sã doutrina moral, particularmente em
matéria sexual, assim como os pastores para a expor com eficácia. Eles sabem
que são chamados, em virtude do seu múnus pastoral, a corresponder às
necessidades dos fiéis das suas greis, pelo que se refere a este ponto bem
grave; e já foram publicados importantes documentos sobre esta mesma matéria
por alguns deles ou por Conferências Episcopais. Entretanto, dado que as
opiniões erróneas e os desvios que delas resultam continuam a alastrar por toda
a parte, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no exercício da sua
função relativamente à Igreja universal [2] e por mandato recebido do Sumo-Pontífice,
julgou necessário publicar a presente Declaração.
3.
Os homens do nosso tempo estão cada vez mais persuadidos de que a dignidade e
vocação da pessoa humana exigem que, à luz da sua própria inteligência,
descubram os valores inscritos na sua natureza, os desenvolvam incessantemente
e os tornem realidade nas suas vidas, para um progresso sempre maior.
Em
matéria moral, porém, o homem não pode emitir juízos de valor segundo o seu
alvedrio pessoal: «no fundo da própria consciência, o homem descobre
efectivamente uma lei que ele não se impôs a si mesmo, mas à qual deve
obedecer. O homem tem no coração uma lei inscrita pelo próprio Deus; a sua dignidade
está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado». [3]
Além
disso, a nós cristãos, Deus pela sua revelação deu-nos a conhecer o seu
desígnio de salvação e propôs-nos Cristo, Salvador e Santificador, com a sua
doutrina e com o seu exemplo, como a Lei suprema e imutável da vida. Foi o próprio
Cristo que disse: «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas,
pelo contrário terá a luz da vida». [4]
Não
poderá haver, portanto, verdadeira promoção da dignidade do homem, senão com o
respeito da ordem essencial da sua natureza. Na história da civilização,
certamente, muitas condições concretas e necessidades da vida humana mudaram e
continuarão a mudar ainda; mas, toda e qualquer evolução dos costumes, assim
como todo e qualquer género de vida, devem ser sempre mantidos dentro dos
limites que impõem os princípios imutáveis fundados nos elementos constitutivos
e nas relações essenciais de toda a pessoa humana, elementos e relações que
transcendem as contingências históricas.
Tais
princípios fundamentais, que a razão pode apreender, acham-se contidos na «lei
divina, eterna, objectiva e universal, com a qual Deus, no desígnio da sua
sabedoria e amor, ordena, dirige e governa o universo inteiro e os caminhos da
comunidade humana. Desta sua lei, Deus torna o homem participante, de modo que
este, segundo a suave disposição da divina Providência, possa conhecer cada vez
mais a verdade imutável». [5] E esta lei divina é acessível ao nosso
conhecimento.
4.
É sem razão, pois, que muitos pretendem hoje em dia que, para servir de regra
às acções particulares, não se pode encontrar na natureza humana nem na lei
revelada outra norma absoluta e imutável senão aquela que se exprime na lei
geral da caridade e do respeito pela dignidade humana. Como prova desta
asserção, aduzem que naquilo que correntemente se designa por normas da lei
natural ou preceitos da Sagrada Escritura, mais não se há-de ver do que expressões
determinadas de uma forma de cultura particular num certo momento da história.
Na
realidade, porém, a Revelação divina e, na sua ordem própria, a sabedoria
filosófica, ao fazerem ressaltar exigências autênticas da humanidade,
manifestam por isso mesmo, necessariamente, a existência de leis imutáveis
inscritas nos elementos constitutivos da natureza humana e que se demonstram
idênticas em todos os seres dotados de razão.
Mais
ainda: Cristo instituiu a sua Igreja como «coluna e sustentáculo da verdade». [6]
Com a assistência do Espírito Santo ela conserva ininterruptamente e transmite
sem erros as verdades de ordem moral, e interpreta autenticamente, não apenas a
lei positiva revelada, «mas também os princípios de ordem moral que dimanam da
natureza humana» [7] e que se referem ao pleno desenvolvimento e à santificação
do homem. Ora, efectivamente, no decurso de toda a sua história, a Igreja
manteve sempre um certo número de preceitos da lei natural como possuindo um
valor absoluto e imutável, e viu na sua transgressão uma contradição com a
doutrina e com o espírito do Evangelho.
5.
Dado que a ética sexual, concerne a certos valores fundamentais da vida humana
e da vida crista, a ela se aplica igualmente esta doutrina geral. Existem,
quanto a este assunto, princípios e normas que, sem hesitações, a Igreja tem
vindo a transmitir sempre no seu ensinamento, por muitos opostos que lhes
tenham podido ser as opiniões e os costumes do mundo. Tais princípios e tais
normas não têm, de maneira nenhuma, a sua origem num determinado tipo de
cultura, mas sim no conhecimento da lei divina e da natureza humana. Não podem,
portanto, ser considerados como algo caducado, nem postos em dúvida, sob o
pretexto de uma nova situação cultural.
Foram
esses princípios que inspiraram os conselhos e directrizes dadas pelo II
Concílio do Vaticano, para uma educação e uma organização da vida social que
tenha em conta a dignidade igual do homem e da mulher, com o respeito das suas
diferenças. [8]
Ao
falar da «sexualidade humana e do poder gerador do homem», o Concílio pôs em
relevo que «eles superam de modo admirável o que se encontra nos graus
inferiores da vida». [9] Depois, aplicou-se o mesmo Concílio, particularmente,
a expor os princípios e critérios que dizem respeito à sexualidade humana no
matrimónio e que têm o seu fundamento na finalidade da função específica do
mesmo.
Ele
declara, efectivamente, quanto a este ponto, que a bondade moral dos actos
próprios da vida conjugal, ordenados em conformidade com a verdadeira dignidade
humana, «não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos
motivos; mas deve determinar-se também por critérios objectivos, assumidos da
natureza da pessoa e dos seus actos; critérios que respeitem, num contexto de
autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana». [10]
Estas
últimas palavras resumem com brevidade a doutrina do Concílio – mais
desenvolvida anteriormente na mesma Constituição [11] – sobre a finalidade do
acto sexual e sobre o critério principal da sua moralidade: é o respeito pela
sua finalidade que garante a tal acto a própria honestidade.
Este
mesmo princípio, que a Igreja deduz da Revelação divina e da sua interpretação
autêntica da lei natural, fundamenta também aquela sua doutrina tradicional,
segundo a qual o uso da função sexual não tem o seu verdadeiro sentido e a sua
rectidão moral senão no matrimónio legítimo. [12]
6.
A presente Declaração não intenta tratar de todos os abusos da faculdade
sexual, nem de tudo aquilo que implica a prática da castidade. Ela tem por
objecto apenas recordar a doutrina da Igreja acerca de alguns pontos
particulares, atendendo à urgente necessidade de se opor a erros graves e a
maneiras de proceder aberrantes, por não poucos largamente difundidos.
7
São numerosos os que nos nossos dias reivindicam o direito à união sexual antes
do matrimónio, pelo menos naqueles casos em que uma intenção firme de o
contrair e uma afeição de algum modo já conjugal existente na psicologia de
ambas as pessoas demandam esse complemento que elas reputam conatural; isso,
principalmente, quando a celebração do matrimónio se acha impedida pelas circunstâncias
e essa relação íntima se afigura necessária para que o amor seja conservado.
Uma
tal opinião opõe-se à doutrina cristã, segundo a qual é no contexto do
matrimónio que se deve situar todo o acto genital do homem. Com efeito, seja
qual for o grau de firmeza de propósitos daqueles que se entregam a estas
relações prematuras, permanece o facto de tais relações não permitirem garantir
na sua sinceridade e na sua fidelidade a relação interpessoal de um homem e de
uma mulher, e principalmente o facto de os não protegerem contra as veleidades
e caprichos das paixões.
Na
verdade, é uma união estável aquela que Jesus quis e da qual ele restabeleceu
as exigências primigénias, tendo como ponto de partida as diferenças sexuais:
«Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, e disse: –
Por isso deixa o homem pai e mãe e une-se com a sua mulher e os dois formam uma
só carne? – Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Não separe, pois, o
homem o que Deus uniu». [13] São Paulo é ainda mais explícito, quando se detém
a explicar que, se os celibatários e as viúvas não podem viver em continência,
eles não têm outra alternativa senão optar pela união estável do matrimónio: «É
melhor casar-se do que abrasar-se». [14] Pelo matrimónio, de facto, o amor dos
esposos é assumido naquele amor com que Cristo ama irrevogavelmente a Igreja,
[15] ao passo que a união corporal na imoralidade [16] profana o templo do
Espírito Santo que o cristão se tornou. A união carnal, por conseguinte, não é
legítima se entre o homem e a mulher não se tiver instaurado, primeiro e de
maneira definitiva, uma comunidade de vida.
Foi
isto o que a Igreja sempre entendeu e ensinou [17] encontrando também na
reflexão ponderada dos homens e nas lições da história uma concordância
profunda com a sua doutrina.
Como
ensina a experiência, para que a união sexual possa corresponder
verdadeiramente às exigências da sua finalidade própria e da dignidade humana,
o amor tem de contar com uma salvaguarda na estabilidade do matrimónio. Tais
exigências demandam um contrato conjugal sancionado e garantido pela sociedade,
contrato este que instaura um estado de vida de capital importância tanto para
a união exclusiva do homem e da mulher quanto para o bem da sua família e da
comunidade humana. O mais das vezes, efectivamente, as relações
pré-matrimoniais excluem a perspectiva da prole; o que se pretende fazer passar
como um amor conjugal não poderá assim – ao passo que o deveria absolutamente –
vir a desenvolver-se num amor paterno e materno. Ou então se o faz, isso será
certamente com detrimento dos filhos que se verão privados de um ambiente
estável, em que eles deveriam criar-se e desenvolver-se como convém e poder
encontrar a via e os meios para a própria inserção na sociedade.
O
consenso que as pessoas que desejam unir-se em matrimónio se dão mutuamente,
portanto, deve ser manifestado exteriormente e de uma forma que o torne válido
perante a sociedade. E quanto aos fiéis, é segundo as leis da Igreja que deve
ser expresso o seu consentimento para a instauração de uma comunidade de vida
conjugal, consentimento que fará do seu matrimónio um Sacramento de Cristo.
(cont)
(Revisão
da versão portuguesa por ama)
_____________________________
Notas:
[1]
Cfr. II Conc. Ecum. do Vaticano, Const. pastoral sobre a Igreja no mundo
contemporâneo, Gaudium et Spes, n. 47: AAS 58 (1966); p. 1067.
[2]
Cfr. Const. Apost. Regimini Ecclesiae Universae, de 15 de Agosto de 1967, n.
29: AAS 59 (1967), p. 897.
[3]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Const. pastoral sobre a Igreja no mundo
contemporâneo, Gaudium et Spes, n. 16: AAS 58 (1966); p. 1037.
[4]
Jo. 8, 12.
[5]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Decl. sobre a Liberdade Religiosa, Dignitatis
Humanae, n. 3: AAS 58 (1966); p. 931.
[6]
1 Tim. 3, 15.
[7]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Decl. sobre a Liberdade Religiosa, Dignitatis Humanae, n. 14: AAS 58 (1966); p.
940; cfr. Pio XI, Enc. Casti Connubii, de 31 de Dezembro de 1930: AAS 22
(1930), pp. 579-580; Pio XII, Alocução de 2 de Novembro de 1954: AAS 46 (1954),
pp. 671-672; João Paulo XXIII, Enc. Mater et Magistra, de .15 de Maio de 1961:
AAS 53 (1961), p. 457; Paulo VI, Enc. Humanae Vitae, de 25 de Julho de 1968, n.
4: AAS 60 (1968), p. 483.
[8]
Cfr. II Conc. Ecum. do Vaticano, Decl. sobre a Educação Cristã, Gravissimum
Educationis, nn. 1 e 8: AAS 58 (1966); pp. 729-730; 734-736. Const. pastoral
sobre a Igreja no mundo contemporâneo, Gaudium et Spes, nn. 29, 60 e 67: AAS 58
(1966), pp. 1048-1049; 1080-1081; 1088-1089.
[9]
II Conc. Ecum. do Vaticano, Const. pastoral sobre a Igreja no mundo
contemporâneo, Gaudium et Spes, n. 51: AAS 58 (1966), p. 1072.
[10]
Ibid., cfr. também n. 49: l. c., pp. 1069-1070.
[11]
Ibid., nn. 49 e 50: l. c., pp. 1069-1072.
[12]
A presente Declaração não se detém longamente a expor as normas morais da vida
sexual dentro do matrimónio: tais normas foram claramente ensinadas nas
Encíclicas Casti Connubii e Humanae Vitae.
[13]
Cfr. Mt. 19, 4-6.
[14]
1 Cor. 7, 9.
[15]
Cfr. Ef. 5, 25-32.
[16]
A união sexual fora do matrimónio é formalmente condenada: 1 Cor. 5, 1; 6, 9;
7, 2; 10, 8; Ef. 5, 5; 1 Tim. 1, 10; Hebr. 13, 4; e, com razões explícitas: 1
Cor. 6, 12-20.
[17]
Cfr. Inocêncio IV, Ep. Sub catholicae professione, de 6 de Março de 1254: DS
835; Pio II, Propôs, damn. in Ep. Cum sicut accepimus, de 14 de Novembro de
1459: DS 1367; Decretos do Santo Ofício, de 24 de Setembro de 1665: DS 2045; de
2 de Março de 1679: DS 2148; Pio XI, Enc. Casti Connubii: AAS 22 (1930), pp.
558-559.
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