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31/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 31

Capítulo 5: O primeiro fruto que se há-de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz. 3

Essa é, pois, a maneira por que o Cristo, o grande Rei, mostra sua liberalidade aos que se entregam sem reservas aos seus serviços. Não são estultos os homens que, abandonando as bandeiras de tal monarca, desejam fazer-se escravos de Mamón, da gula, da luxúria? Mas os que ignoram aquilo que Cristo considera como verdadeira riqueza poderiam obstar que estas promessas não passam de palavras, pois muitas vezes verificamos que os amigos diletos do Senhor são pobres, esquálidos, abjetos e sofridos e, por outro lado, nunca enxergamos a tal recompensa centuplicada, que se diz tão magnífica. Assim é porque o homem carnal não pode ver o cêntuplo que Cristo prometeu, pois não tem olhos com que possa vê-los; não participará jamais desse gozo durável, que engendra uma consciência pura e um verdadeiro amor de Deus. Contudo, darei um exemplo para mostrar que até um homem carnal pode apreciar os deleites e as riquezas espirituais. Lemos, num livro de exemplos sobre os varões ilustres da ordem Cisterciense, que um certo homem, nobre e rico, chamado Arnulfo, abandonou toda sua fortuna e fez-se monge cisterciense, vivendo sob a autoridade de São Bernardo. Deus testou a virtude desse homem mediante dores amargas e muitos tipos de sofrimentos, em particular no final de sua vida; numa certa ocasião, quando sofria mais agudamente que de costume, clamou com voz forte: “Tudo o que dissestes, oh! Senhor Jesus, é verdade”. Ao perguntar-lhe, os que estavam presentes, qual a razão de sua exclamação, respondeu-lhes:

”O Senhor, em Seu Evangelho, diz que os que abandonam suas riquezas e todas as coisas por Ele receberiam o cêntuplo nesta vida e, após, a vida eterna. Compreendo largamente a força e a gravidade desta promessa, e reconheço que estou agora a receber o cêntuplo por tudo que abandonei. Em verdade, a grande amargura desta dor me é tão agradável por causa da esperança [que tenho] na Divina Misericórdia, que me estenderão os sofrimentos, dos quais não consentiria libertar-me, ainda que a cem vezes o valor da matéria mundana que abandonei. Porque, em verdade, a alegria espiritual que se concentra na esperança do que há de vir ultrapassa cem vezes toda alegria mundana, que brota do presente”.
O leitor, ao ponderar estas palavras, poderá julgar em quão grande estima se há de ter a virtude vinda do céu da esperança infalível, da felicidade eterna.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
2. Sal 45,17.
3. Mt 25,35.36.
4. Mt 19, 29.


30/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 30

Capítulo 5: O primeiro fruto que se há-de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz. 2

O ladrão não é o único que experimentara a liberalidade do Cristo. Os apóstolos, que tudo abandonaram — seja um barco, um ofício de coletor de impostos ou um lar — para servir ao Cristo, foram feitos por Ele “príncipes de toda a terra" 2, submetendo-lhes demônios, serpes e toda casta de enfermidades. Se algum homem deu por esmola alimento ou vestimenta aos pobres em nome de Cristo, escutará estas palavras consoladoras no Dia do Juízo: “Tive fome, e me deste de comer... estava desnudo, e me vestiste" 3, receba tua recompensa, e entra na posse do meu Reino Eterno. Enfim, para não nos demorarmos em muitas outras promessas de recompensa, poderia o homem crer na quase inacreditável liberalidade do Cristo, se não fosse o mesmo Deus quem prometesse que “todo o que deixar a casa, ou os irmãos ou irmãs, ou o pai ou a mãe, ou os filhos, ou os campos, por causa do meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna"? 4

São Jerónimo e os outros santos doutores interpretam o texto acima citado desta maneira: se um homem, pelo amor do Cristo, abandona tudo nesta vida presente, receberá uma dupla recompensa em adição à vida de valor incomparavelmente maior que a pequenez da que se deixara. Em primeiro lugar, receberá um gozo ou dom espiritual nessa vida, cem vezes mais precioso que o objeto temporal que pelo Cristo desprezara; um homem espiritual escolheria antes conservar esse dom à substituí-lo por cem casas ou campos, ou outras coisas semelhantes. Em segundo lugar — como se Deus Todo-poderoso considerasse tal recompensa como de pequeno ou nenhum valor — o feliz comerciante que troca bens terrenos por celestiais receberá no outro mundo a vida eterna, palavra esta que contém um oceano de todo o bem.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
2. Sal 45,17.
3. Mt 25,35.36.
4. Mt 19, 29.1. Lc 6,38.


29/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 29

Capítulo 5: O primeiro fruto que se há-de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz. 1

Podemos colher alguns frutos, tirados da segunda palavra dita na Cruz. O primeiro fruto é a consideração da imensa misericórdia e liberalidade do Cristo, e de como é bom e útil servi-lo. As muitas dores que Ele, Nosso Senhor, sofria, poderiam ser alegadas como escusa para não escutar a petição do ladrão; mas, em Sua caridade divina, preferiu olvidar as Suas próprias atrozes dores a não escutar a oração de um pobre pecador penitente. Esse mesmo Senhor não respondeu nada às maldições e imprecações dos sacerdotes e soldados, mas ante o clamor de um pecador a se confessar, Sua caridade proibira-lhe permanecer em silêncio. Quando é ultrajado não abre a boca, porque é paciente; quando um pecador confessa sua culpa, fala, porque é bondoso. Que dizer, pois, de Sua liberalidade? Os que servem a um chefe temporal com frequência obtêm uma magra recompensa por muitos labores. Entre esses não raro vemos os que terão gasto os melhores anos de sua vida ao serviço de príncipes, e se retiram em idade avançada com mirrado salário. Mas o Cristo é um Príncipe verdadeiramente liberal, um Amo verdadeiramente magnânimo. Das mãos do bom ladrão não recebe nenhum serviço, excepto algumas palavras bondosas e o desejo cordial de o assistir, e, como galardão, com que grande prémio o retribui! Nesse mesmo dia, todos os pecados que cometera durante sua vida são perdoados; é igualado aos principais de seu povo, a saber, os patriarcas e os profetas; e, finalmente, o Cristo o eleva para partilhar de sua mesa, de sua dignidade, de sua glória e de todos os seus bens. “Hoje”, disse, “estarás comigo no Paraíso”. O que Deus diz, faz. Tampouco difere essa recompensa para algum dia longínquo, mas, àquele mesmo dia, derrama em seu seio “uma medida boa, cheia, recalcada, transbordante" 1.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
1. Lc 6,38.


28/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 28

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 9

Por essa razão, ao pedido do ladrão — “Lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino” — o Senhor não respondeu “hoje estarás comigo” em meu reino, mas “estarás comigo no Paraíso”, porque nesse dia o Cristo não entrou em Seu reino — não entrou até ao dia da Ressurreição, quando Seu Corpo tornou-se imortal, impassível, glorioso, já não sendo passível de servidão ou sujeição nenhuma. Não terá o bom ladrão por companheiro seu, em seu reino, até a ressurreição de todos os homens, no último dia. Sem embargo, com grande verdade e propriedade, lhe disse: “hoje estarás comigo no Paraíso”, pois naquele mesmo dia comunicaria, tanto à alma do bom ladrão como às dos santos no Limbo, essa glória da visão de Deus que Ele recebera em Sua concepção; está é pois a verdadeira Glória e felicidade essencial; este é o gozo supremo do Paraíso Celeste. É de se admirar mormente a escolha das palavras utilizadas pelo Cristo, a essa ocasião. Não disse: “hoje estareis no Paraíso”, mas “hoje estarás comigo no Paraíso”, como se quisesse se explicar mais amiúde, da seguinte maneira: “hoje, estás tu comigo na Cruz, mas tu não estás comigo no Paraíso — Paraíso este atinente à parte superior de minha alma. Mas, em pouco tempo — hoje mesmo — tu estarás comigo, não tão-só liberto da Cruz, mas aconchegado no seio do Paraíso”.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).


26/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 26

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 8

Ainda que algumas pessoas tenham discutido acerca do sentido da palavra “Paraíso” neste texto, não parece haver fundamento para a discussão. Pois é seguro — porque é artigo de fé — que no mesmo dia de Sua morte, o Corpo do Cristo foi colocado no sepulcro, e Sua Alma desceu ao Limbo; é igualmente certo que a palavra “Paraíso” — falemos do Paraíso celeste, ou do terrestre — não se pode aplicar nem ao sepulcro, nem ao Limbo. Não se pode aplicar ao sepulcro, pois era um lugar mui triste — a primeira morada dos cadáveres — e o Cristo foi o único enterrado nele: o ladrão o foi em outro lugar. Mais ainda, as palavras “estarás comigo” não se cumpririam, se o Cristo falasse meramente do sepulcro. Tampouco se pode aplicar a palavra “Paraíso” ao Limbo. Pois “Paraíso” é um jardim de delícias — inclusive, no Paraíso terrestre haviam flores e frutas, águas límpidas e uma deliciosa suavidade no ar. No Paraíso celestial, delícias sem fim, glória interminável, além dos lugares dos Bem-aventurados. Mas no Limbo, onde as almas dos justos estavam detidas, não havia luz, nem alegria, nem prazer; evidentemente, essas almas não estavam sofrendo, já que a esperança da redenção e a perspectiva de ver a Cristo era motivo de consolo e gozo para eles; contudo, se conservavam como cativos na prisão. Sobre isso, conforme o Apóstolo, ao explicar os profetas: “subindo às alturas, levou os cativos” 24; e conforme Zacarias: “quanto a ti, por causa de tua aliança de sangue, libertarei os teus cativos da fossa sem água” 25, onde as palavras “teus cativos” e “a fossa sem água” apontam evidentemente não às delicias do Paraíso, mas à obscuridade de uma prisão. Por isso, na promessa do Cristo, a palavra “Paraíso” só poderia significar a Bem-aventurança da alma, que consiste na visão de Deus – este é realmente um Paraíso de delícias, não um Paraíso corpóreo ou extenso, mas um espiritual e celestial.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
24. Ef 4,8.
25. Zc 9,11.


25/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 25

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 7

“Hoje”. Não disse: “por-te-ei à Minha mão direita, em meio aos justos, no Dia do Juízo”. Nem disse: “levar-te-ei a um lugar de descanso, logo após sofreres alguns anos no Purgatório”. Nem tampouco: “consolar-te-ei dentro de alguns meses ou dias”, mas “hoje mesmo, antes que o sol se ponha, passarás comigo do patíbulo da cruz às delícias do Paraíso”. Maravilhosa é a liberalidade do Cristo; maravilhosa também é a boa fortuna do pecador. Santo Agostinho, em seu trabalho “Sobre a Origem da Alma”, considera, com São Cipriano, que o ladrão pode ser considerado um mártir, e que sua alma foi directamente ao Céu, sem passar pelo Purgatório. O bom ladrão pode ser chamado mártir pois que confessou Cristo publicamente, quando nem sequer os apóstolos se atreveram a pronunciar palavra a Seu favor; e por causa dessa confissão espontânea, a morte que sofreu em companhia do Cristo merecera um prêmio tão grande diante de Deus, como se houvesse sofrido por nome de Cristo. Se Nosso Senhor não fizesse outra promessa senão: “hoje estarás comigo”, só essa bênção seria inefável ao ladrão, conforme escreve Santo Agostinho: “Onde pode haver nele algum mal; e sem Ele, algum bem?”. Em verdade, Cristo não fizera uma promessa trivial aos que o seguem quando disse: “se alguém me serve, que me siga; e onde eu estiver, ali também estará meu servo” 23. Sem embargo, ao ladrão prometeu não apenas sua companhia, mas também o Paraíso.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
22. Mt 5,34.37.
23. Jo 12,26.


24/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 24

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 6

Atentemos agora à resposta do Cristo: “amém, Eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” A palavra “amém” era usada pelo Cristo cada vez que queria fazer uma declaração solene e grave a seus seguidores. Santo Agostinho não duvidara em afirmar que essa palavra era, na boca do Senhor, uma sorte de juramento. Por certo, não podia ser um juramento, de acordo com as palavras do Cristo: “Pois vos digo que não jureis de modo algum... Seja vossa linguagem: sim, sim; não, não; o que passa além disso vem do Maligno” 22. Não podemos, por conseguinte, concluir que Nosso Senhor realizava um juramento cada vez que usava a palavra “amém”. “Amém” era um termo habitual em seus lábios, e em algumas oportunidades não apenas precedia suas afirmações com “amém”, mas com “amém, amém”. Assim, pois, a observação de Santo Agostinho — de que a palavra “amém” não é um juramento, mas uma espécie de juramento — é perfeitamente justa, porque o sentido da palavra é “verdadeiramente”: em verdade; e quando o Cristo diz: verdadeiramente vos digo, Ele afiança gravemente o que diz, e, por conseguinte, a expressão tem quase a mesma força de um juramento. Com grande razão, dirigiu-se assim ao ladrão, dizendo: “amém, Eu te asseguro”, i. é, Eu te asseguro do modo mais solene que posso sem prestar juramento: uma vez que o ladrão poderia negar — por três razões — dar crédito à promessa do Cristo, se Ele não a asseverasse solenemente. Em primeiro lugar, poderia se negar a crer por razão de sua indignidade ao ser o receptor de um prêmio tão grande, de um favor tão elevado. Pois quem imaginaria que o ladrão seria de pronto trasladado de uma cruz para um reino? Em segundo lugar, poderia se negar a crer por razão da pessoa que fez a promessa, ao ver que Ele estava, nesse momento, reduzido ao extremo da pobreza, da debilidade e do infortúnio, podendo o ladrão por isso ter argumentado: “se este homem não pôde, durante sua vida, fazer um favor a seus amigos, como vai ser capaz de assisti-los depois da morte?” Por último, poderia se negar a crer por razão da mesma promessa. Cristo prometeu o Paraíso. Pois bem, os judeus interpretavam a palavra “Paraíso” em referência ao corpo e à alma — pois sempre a usavam no sentido de um Paraíso terrestre. Se Nosso Senhor quisesse dizer: “hoje mesmo tu estarás comigo em um lugar de repouso, junto a Abraão, Isaque e Jacó”, o ladrão o creria facilmente; mas como não quis dizer isso, firmara Sua promessa com esta garantia: “amém, Eu te asseguro”.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).


23/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 23

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 5

Entrementes — como seu Corpo sempre fora glorioso — imediatamente após a morte, entrou no gozo da Glória que lhe pertencia. A isso se referiu — após a Ressurreição — nestes termos: “não era necessário que o Cristo padecesse e entrasse deste modo em sua Glória?” Essa glória Ele chama sua própria — pois está em seu poder fazer outros partícipes dela, e por essa razão Ele é chamado “Rei da Glória” 17 e “Senhor da Glória” 18 e “Rei dos Reis” 19, dizendo Ele mesmo a seus apóstolos: “Eu, do que é meu, disponho um Reino para vós” 20. Ele, em verdade, pode receber glória e reino, mas nós não podemos alcançar nem um nem outro; fomos pois convidados a entrar “no gozo do teu Senhor” 21, e não no nosso próprio. Este é então o reino de que falou o bom ladrão quando disse: “quando retornardes com vosso Reino”.

Entrementes, não devemos pôr de lado as muitas excelentes virtudes que se manifestam na oração do santo ladrão. Um breve bosquejo delas nos preparará para a resposta do Cristo à petição: “senhor, lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. Em primeiro lugar, chama-o Senhor, para mostrar que se considera a si como servo, ou melhor, como um escravo redimido, reconhecendo que o Cristo é seu Redentor. Logo acrescenta um pedido simples, mas cheio de fé, esperança, amor, devoção e humildade: “lembrai-vos de mim”. Não disse: “se puderes, lembrai-vos de mim”, pois acredita firmemente que o Cristo pode de fato fazê-lo. Não disse: “por favor, Senhor, lembrai-vos de mim”, pois tem inteira confiança em sua caridade e compaixão. Não disse: “desejo, Senhor, reinar convosco em vosso Reino”, pois a humildade o proibia. Enfim, não pede nenhum favor especial, mas tão simplesmente reza: “lembrai-vos de mim”, como se dissesse: “tudo que desejo, Senhor, é que vos dignais recordar-me, inclinando vossos benignos olhos sobre mim, pois sei que sois Todo-Poderoso e sabeis tudo; por isso, ponho minha confiança em vossa bondade e vosso amor”. Isso fica claro com as palavras conclusivas de sua oração: “quando retornardes com vosso reino”, que não buscam nada perecível e vão, senão que aspiram a algo eterno e sublime.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
17. Sl 24,8.
18. 1 Cor 2,8.
19. Ap 19,16.
20. Lc 22,29.
21. Mt 25,21.


22/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 22

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 4

Mas, pode-se objectar, não era Cristo Nosso Senhor Rei antes de sua morte? Sem dúvida o era, e por isso os Reis Magos inquiriam insistentemente: “Onde está o Rei dos Judeus, que nasceu?” 10 E o mesmo Cristo disse a Pilatos: “Sim, tu o dizes, sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” 11. Mas Ele era Rei neste mundo tal como um viajante entre estranhos, daí não ser reconhecido como tal senão por uns tantos, sendo humilhado e mal recebido pela maioria. Assim, na parábola que vimos de citar, diz-se que iria “a um país distante, a fim de ser investido da realeza”. Não digo que Ele a adquiriria da parte de outro, mas que a receberia como sua própria, e retornaria. E o ladrão observou sabiamente: “quando retornardes com vosso reino”. Nessa passagem, o reino do Cristo não é sinônimo de poder ou soberania régia, porque o exercera desde o princípio, conforme estes versículos dos Salmos: “Em Sião, já tenho eu consagrado a meu rei meu monte santo” 12. “Dominará de mar a mar, desde o Rio até aos confins da terra” 13. E conforme Isaías: “Porque uma criatura nos nasceu, um filho nos foi dado. O senhorio habitará por sobre seu ombro” 14. E conforme Jeremias: “Suscitarei a Davi um Rebento justo: reinará um rei prudente, praticará o direito e a justiça, na terra” 15. E conforme Zacarias: “Exulta à larga, filha de Sião; grita de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que aqui vem a ti teu rei: justo ele e vitorioso, humilde e montado em um asno, um burrico, cria de jumenta” 16. Por isso, na parábola do advento do Reino, Cristo não se referia a um poder soberano, e tampouco, em sua petição, o bom ladrão: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”, mas ambos falavam dessa perfeita dita, que liberta o homem da servidão e da angústia dos assuntos temporais, submetendo-os tão-somente a Deus, para quem servir é reinar, e pelo qual fora posto acima de todas as suas obras. Deste reino, de inefável dita à alma, Cristo gozou desde o momento de sua concepção, mas a dita do corpo — que era sua por direito — não a gozou efectivamente até sua Ressurreição. Uma vez que fora um forasteiro neste vale de lágrimas, estava submetido a fadigas, fome e sede; as lesões, feridas, e à morte.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
10. Mt 2,2.
11. Jo 18,37.
12. Sl 2,6.
13. Sl 72,8.
14. Is 9,5.
15. Jr 23,5.
16. Zc 9,9.


21/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 21

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 3

Quem instruiu o ladrão em mistérios tão profundos? Chama de Senhor esse homem que vê desnudo, ferido, desgraçado, insultado, rebaixado, pendido a uma cruz a seu lado; diz que após sua morte, Ele há de vir com seu reino. Do que podemos inferir que o ladrão não figurou o reino de Cristo como temporal — como o imaginavam os judeus — mas que após sua morte Ele seria Rei para sempre, no Céu. Quem foi o instrutor de segredos tão sagrados e sublimes? Ninguém, decerto, senão o Espírito de Verdade, que o aguardava com suas mais doces bênçãos. Cristo, quando de sua Ressurreição, disse aos apóstolos: “Não era necessário que o Cristo padecesse e entrasse deste modo em Sua Glória?” 8. Entretanto, o ladrão milagrosamente o previu, confessando que o Cristo era Rei no momento mesmo em que o não cercava nenhuma aparência de realeza. Os reis reinam durante a vida e, quando param de viver, param de reinar; o ladrão, sem embargo, proclama em alta voz que o Cristo — por intermédio de Sua morte — herdaria um reino, que é aquele que o Senhor refere nesta parábola: “um homem ilustre foi para um país distante, a fim de ser investido da realeza e depois regressar” 9. Nosso Senhor disse tais palavras pouco tempo antes de sua Paixão, para nos mostrar que, mediante sua morte, iria a um país distante, i. é, para outra vida; ou, em outras palavras, que iria ao Céu, que está mui distante da terra, para receber um reino grande e eterno, mas que voltaria no último dia, recompensando cada homem de acordo com sua conduta na vida, seja com prémio, seja com castigo. Com respeito a esse reino, desta feita, que o Cristo receberia imediatamente após sua morte, o ladrão disse sabiamente: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
8. Lc 24,26.
9. Lc 19,12.


20/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 20

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 2

Não obstante, a opinião dos que sustentam que um dos ladrões blasfemadores se converteu pela oração do Senhor — “Pai, Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” — contradiz manifestamente a narração evangélica, uma vez que São Lucas diz que o ladrão começou a blasfemar contra o Cristo tão logo Ele fizesse essa oração; daí estarmos inclinados a adotar a opinião de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio, que dizem que um só dos ladrões o vituperou, enquanto o outro o glorificou e defendeu. Conforme essa narração, o bom ladrão exprobrou o blasfemador: “nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?” 4. O ladrão fora feliz por sua solidariedade ao Cristo na Cruz. Os raios da Luz Divina que logravam penetrar na obscuridade da alma o levaram a exprobrar no companheiro a maldade e a convertê-lo a uma vida melhor; este é o sentido pleno de sua exprobação: “tu, pois, queres imitar a blasfémia dos judeus, que ainda não aprenderam a temer os juízos de Deus, porquanto se ufanam da vitória que creem ter alcançado ao pregar o Cristo numa cruz. Reputam-se por livres e seguros, e não receiam castigo. Mas acaso tu, que fostes crucificado por tuas enormidades, não temes a justiça vingadora de Deus? Por que cumulas pecado sobre pecado?”. Logo, galgando de virtude em virtude, auxiliado pela crescente graça de Deus, confessa seus pecados e proclama que Cristo é inocente. “Nós”, diz, fomos condenados “com razão” à morte de cruz, “porque a merecemos por nossos feitos; mas este não fez mal nenhum” 5. Finalmente, à luz crescente da graça em sua alma, acrescenta: “Jesus, lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino” 6. Admirável a graça do Espírito Santo que se derramou no coração do bom ladrão! O apóstolo Pedro negou seu Mestre, o ladrão o confessou quando Ele estava pendurado na Cruz. Os discípulos que iam a Emaús disseram: “esperávamos que seria Ele a libertar Israel” 7. O ladrão pede com confiança: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. O apóstolo São Tomé declara que não creria na Ressurreição até que visse ao Cristo; o ladrão, contemplando o Cristo — Que vira subjugado no patíbulo — não duvida de que Ele será Rei após sua morte.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
4. Lc 23,40.
5. Lc 23,41.
6. Lc 23,42.
7. Lc 24,21.


19/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 19

Capítulo 4: Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso. 1

A segunda palavra, ou a segunda frase, pronunciada por Cristo na Cruz foi, segundo o testemunho de São Lucas, a magnífica promessa feita ao ladrão, que pendia em uma cruz a seu lado. A promessa foi feita nas seguintes circunstâncias: dois ladrões foram crucificados juntos ao Senhor, um a sua mão direita, outro a sua esquerda; um desses acrescentou a seus crimes do passado o pecado de blasfemar de Cristo, zombando de sua falta de poder para salvá-los, dizendo: “se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” 1. De fato, São Mateus e São Marcos acusam ambos os ladrões desse pecado, mas é mais provável que os dois evangelistas usem o plural para se referirem ao número singular, como frequentemente se faz nas Sagradas Escrituras, conforme observa Santo Agostinho no trabalho “Sobre a Harmonia dos Evangelhos”. Assim São Paulo, em sua Epístola aos Hebreus, diz dos profetas: “taparam bocas de leões... apedrejados ..., serrados ao meio ...; andaram errantes, vestidos de pele de ovelha e de cabra” 2. Sem embargo, um só profeta houve — Daniel — que fechou a boca dos leões; um só profeta — Jeremias — que foi apedrejado; um só profeta — Isaías — que foi serrado. Mais ainda, nem São Mateus nem São Marcos são tão explícitos a respeito desse ponto como São Lucas, que disse de maneira mui clara: “um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra Ele” 3. Pois bem, mesmo se considerarmos que ambos vituperavam o Senhor, não existe razão para que um mesmo homem não haja amaldiçoado em um momento e, já em outro, proclamado seus louvores.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
1. Lc 23,39.
2. Hb 11,33-37.

3. Lc 23,39

18/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 18

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 8

Mas, omitindo estas considerações, passemos revista aos muitos e grandes inconvenientes que sofrem aqueles homens que, apenas para escapar de uma sombra de desonra diante dos homens, estão obstinados a se vingar daqueles que lhes fizeram qualquer mal. Em primeiro lugar, agem como estultos ao preferir um mal maior a um menor. Pois é um princípio considerado certo em toda parte, e que nos foi declarado pelo Apóstolo nestas palavras: "Não façamos o mal para que venha o bem" 13. Segue-se que, por consequência, um mal maior não há de ser cometido para que se possa obter alguma compensação por um menor. Aquele que recebe a injúria, recebe o que é chamado de mal da injúria: aquele que se vinga de uma injúria, é culpável do que se chama de mal do crime. Ora, sem dúvida, a desgraça de cometer um crime é maior que a desgraça de ter de suportar a injúria, pois, ainda que a ofensa possa tornar um homem miserável, não necessariamente o torna mau. Um crime, no entanto, o faz, a um tempo, miserável e malvado. A injúria priva o homem do bem temporal, o crime o priva tanto do bem temporal como do eterno. Assim, um homem que remedia o mal de uma injúria cometendo um crime, é como um homem que corta uma parte dos seus pés para calçar sapatos menores, o que é um ato de total loucura. Ninguém comete tal insensatez em suas preocupações temporais, mas, no entanto, há alguns homens tão cegos a seus interesses reais, que não temem ofender mortalmente a Deus para escapar daquilo que tem aparência de desgraça, e para manter um semblante de honra aos olhos dos homens. Caem, pois, sob o desagrado e a ira de Deus, e, a menos que se corrijam a tempo e façam penitência, terão que suportar a desgraça e o tormento eterno, e perderão a honra sem fim de habitarem no céu. Acrescente-se a isto que realizam um ato dos mais agradáveis ao diabo e seus anjos, que urgem a este homem fazer algo de injusto a aquele outro, com o propósito de semear a discórdia e a inimizade no mundo. E cada um deve refletir com calma quão desgraçado não é quem agrada o inimigo mais feroz da raça humana e desagrada o Cristo. Ademais, se sucede que o homem injuriado que ambiciona vingança fira mortalmente a seu inimigo, e o mate, é ele ignominiosamente executado por assassinato, e toda a sua propriedade é confiscada pelo Estado, ou, ao menos, é forçado ao exílio, e tanto ele como sua família viverão uma existência miserável. Assim é como o diabo joga e como se ri daqueles que escolhem antes se aprisionar com as ataduras da falsa honra, que se fazerem servos e amigos de Cristo, o melhor dos Reis, e serem reconhecidos como herdeiros de reino mais vasto e mais durável. Por isso, posto que o homem insensato, apesar do mandamento de Cristo, se nega a reconciliar-se com seus inimigos, e se expõe ao desastre total, todos os que são sábios escutarão a doutrina que Cristo, o Senhor de tudo, nos ensinou no Evangelho com suas palavras, e na Cruz com suas obras.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
13. Rm 3,8.


17/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 17

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 7

Continuo ainda a ouvir objecções. Se decidimos retribuir o mal com o bem, o insulto com a bondade, a maldição com a bênção, os maus se tornarão insolentes, os infames se tornarão aprumados, os justos serão oprimidos, e a virtude calcada sob seus pés. Este resultado não se dará, pois de ordinário, no dizer do Homem Sábio, "a resposta branda aquieta a ira" 12. Ademais, a paciência de um homem justo não poucas vezes enche de admiração seu opressor, e o persuade a estender a mão da amizade. Por outra, esquecemos que o Estado nomeia magistrados, reis e príncipes, cujo dever é fazer que os malvados sintam a severidade da lei, e prover meios para que os homens honestos vivam uma vida tranquila e pacífica? E se em alguns casos a justiça humana é tardia, a Providência de Deus, que nunca permite que um ato malévolo passe sem castigo ou um ato bom sem recompensa, está continuamente nos observando e, de um modo imprevisível, cuidando para que as ocasiões em que os malvados creem que humilharão os virtuosos, conduzam estes à exaltação e honra. Pelo menos assim o diz São Leão: "Estiveste furioso, ó perseguidor da Igreja de Deus, estiveste furioso com o mártir, e aumentaste sua glória aumentando sua dor. Pois que inventaste em tua ingenuidade que se voltasse em tua honra, se até seus instrumentos de tortura foram tomados em triunfo?". O mesmo deve ser dito de todos os mártires e santos da antiga lei, pois que trouxe mais reputação e glória ao patriarca José que a perseguição de seus irmãos? O ter sido vendido por inveja aos ismaelitas foi ocasião para que se convertesse em senhor de todo Egipto e príncipe de todos seus irmãos.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
12. Pr 15,1.


16/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 16

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 6

Mas pode haver alguns que continuem argumentando: não nego que devemos perdoar nossos inimigos, mas escolherei o tempo que me apraze fazê-lo, quando, em verdade, tenha quase esquecida a injustiça que me foi feita, e me tenha acalmado após o primeiro arrebatamento de indignação. Mas, quais seriam os pensamentos destes se fossem então chamados a prestar as contas finais, e fossem encontrados sem o traje da caridade, e fossem perguntados: "como entraste aqui, não tendo a veste nupcial?" 8. Por acaso não se assombrariam enquanto Nosso Senhor pronuncia sua sentença: "Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; aí haverá pranto e ranger de dentes." 9. Age melhor e com prudência agora, e imita a conduta de Cristo, que rezou a seu Pai, "Pai, perdoa-lhes", no momento em que era objeto de escárnios, quando o sangue caía gota a gota de seus pés e mãos, e seu corpo inteiro era presa de torturas dolorosas. Ele é o verdadeiro e único Mestre, cuja voz a devem escutar todos que não serão guiados ao erro: a Ele se referiu o Pai Eterno quando uma voz se ouviu do céu dizendo: "Ouviu-o". Nele estão "todos os tesouros da sabedoria e da ciência" de Deus 10. Se pudesses perguntar a opinião de Salomão sobre qualquer assunto, poderias com segurança ter seguido seu conselho, mas "aqui está quem é mais que Salomão" 11.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
8. Mt 22,12.
9. Mt 21,13.
10. Cl 2,3.
11. Mt 12,42.


15/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 15

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 5

Objecta-se que isto é uma prova demasiado difícil e severa para homens de nascimento nobre, os quais devem ser zelosos de sua honra. No entanto, não é assim. A tarefa é fácil, pois, como testemunha o Evangelista, "o jugo" de Cristo, que deu esta lei para guia de seus seguidores, "é suave, e sua carga ligeira" 3; e seus “mandamentos não são custosos” 4, como afirma São João. E assim, se parecem difíceis e severos, parecem também pelo pouco ou nenhum amor que temos por Deus, pois nada é difícil para aquele que ama, como disse o Apóstolo: "A caridade é paciente, é benigna; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre" 5. Nem foi Cristo o único que amou a seus inimigos — ainda que, na perfeição com a qual praticou a virtude, a todos superou — pois o Santo Patriarca José amou com amor especial a seus irmãos que o haviam vendido à escravidão. E na Sagrada Escritura lemos como Davi, com muita paciência, resignou-se com as perseguições de seu inimigo Saul, que por muito tempo procurou matá-lo; e que, quando pôde Davi tirar a vida de Saul, não o matou. E sob a lei da graça, o proto-mártir Santo Estevão imitou o exemplo de Cristo ao fazer esta oração enquanto o apedrejavam à morte: "Senhor, não lhes impute este pecado" 6. E Santiago Apóstolo, Bispo de Jerusalém, que foi lançado de cabeça desde o cume do templo, clamou no céu no momento de sua morte: "Senhor, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". E São Paulo escreve de si mesmo e de seus companheiros apóstolos: "amaldiçoam-nos e bendizemos; perseguem-nos e o sofremos; somos difamados e rogamos" 7. Enfim, muitos mártires e inumeráveis outros, logo após o exemplo de Cristo, não encontraram nenhuma dificuldade em cumprir este mandamento.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
3. Mt 11,30.
4. 1 Jn 5,3.
5. 1 Cor 13,4-7.
6. At 7,59.
7. 1 Cor 4, 12-13.


14/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 14

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 3

Quanto ao argumento de que um animal é levado por sua própria natureza a atacar o animal inimigo de sua espécie, respondo que isto é o resultado de serem animais irracionais, que não podem distinguir entre a natureza e o que é vicioso na natureza. Mas os homens, que são dotados de razão, hão-de traçar uma linha entre a natureza ou a pessoa, que, criadas por Deus, são boas, e o vício ou o pecado que é mau e não procede de Deus. Da mesma maneira, quando um homem for insultado, deve amar a pessoa de seu inimigo e odiar o insulto, e deve antes se compadecer dele que se perturbar com ele, assim como um médico que ama seus pacientes e lhes prescreve com o devido cuidado, mas que odeia a enfermidade e luta com todos os recursos a sua disposição para afugentá-la, destruí-la, torná-la inofensiva. E isto é o que o Mestre e Doutor de nossas almas, Cristo Nosso Senhor, ensina quando diz: "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam" 2. Cristo, nosso Mestre, não é como os Escribas e Fariseus que se sentavam na cátedra de Moisés e ensinavam, mas não praticavam o que ensinavam. Quando subiu ao púlpito da Cruz, Ele praticou o que ensinou ao rezar por seus inimigos, que amava: "Pai, Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Porém, a razão pela qual a visão de um inimigo faz que em algumas pessoas o sangue ferva em suas veias, é esta: são animais que não aprenderam a trazer as moções da parte inferior da alma, comum tanto à raça humana como à criação selvagem, sob o domínio da razão, ao passo que os homens espirituais não estão sujeitos a estes movimentos da carne, pois sabem como mantê-los controlados, e não se turbam com aqueles que os injuriaram, senão que, ao contrário, se compadecem, e, estendendo a eles atos de bondade, se esforçam por levar-lhes a paz e a unidade.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
2. Mt 5,44.


13/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 13

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 2

Ó, se os cristãos aprendessem quão facilmente poderiam obter tesouros inesgotáveis, se apenas o quisessem; e quão facilmente alcançariam graus notáveis de honra e glória pelo domínio das várias agitações de suas almas e desprezo magnânimo dos pequenos e triviais insultos, certamente não seriam tão duros de coração e tão obstinados contra o indulto e o perdão.

Objecta-se que agiriam contrariamente à natureza caso se permitissem ser injustamente rechaçados com desprezo ou ultrajados por obra ou palavra: se os animais selvagens, que apenas seguem o instinto natural, atacam de forma selvagem seus inimigos quando os vêm, e os subjugam com garras e dentes, também nós, à vista de nosso inimigo, sentimos o sangue a ferver e o desejo de vingança aflorar. Tal argumento é falso. Não faz distinção entre a defesa própria, que é válida, e o espírito de vingança, que é inválido. Ninguém pode achar falta em um homem que se defende por uma causa justa, e a natureza nos ensina a rechaçar a força com a força — mas não nos ensina a vingar-nos nós mesmos uma injúria que tivermos recebido.
Ninguém nos impede tomar as precauções necessárias para nos preparamos contra um ataque, mas a lei de Deus nos proíbe que sejamos vingativos. O castigo de uma injustiça pertence não ao indivíduo privado, mas ao magistrado público, e, por isso que Deus é o Rei dos reis, Ele clama e diz: "A mim me pertence a vingança, eu retribuirei" 1.

 são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
1. Rm 12,19.


12/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 12

Capítulo 3: O segundo fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 1

Se os homens aprendessem a perdoar sem murmurações as injúrias que recebem, e assim forçassem seus inimigos a converterem-se em amigos, tiraríamos uma segunda e muito salutar lição da meditação da primeira palavra. O exemplo de Cristo e da Santíssima Trindade há de ser um poderoso argumento para nisto nos persuadirmos. Pois se Cristo perdoou e rezou por seus verdugos, que razão pode ser alegada para que um cristão não atue de modo semelhante com seus inimigos? Se Deus, nosso Criador, o Senhor e Juiz de todos os homens, o qual tem o poder de vingar-se imediatamente do pecador, espera seu arrependimento, e o convida à paz e à reconciliação com a promessa de perdoar as traições feitas à Divina Majestade, por que uma criatura não poderia imitar esta conduta, especialmente se recordamos que o perdão de uma ofensa obtém grande recompensa? Lemos na história de São Egelberto, Arcebispo de Colónia, assassinado por alguns inimigos que o estavam esperando, que, na hora de sua morte, rezou por eles com as palavras de Nosso Senhor: "Pai, Perdoa-lhes", e foi revelado que este gesto foi tão agradável a Deus, que sua alma foi levada ao céu pelas mãos dos anjos, e posta no meio do coro dos mártires, onde recebeu a coroa e a palma do martírio, e sua sepultura tornou-se famosa por realizar muitos milagres.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).


11/05/2014

As sete palavras de Cristo na Cruz 11

Capítulo 2: O primeiro fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 3

Mas da consideração da Humanidade de Cristo ascendamos à consideração de Sua Divindade. Grande foi a caridade de Cristo como homem para com seus verdugos, mas maior foi a caridade de Cristo como Deus, e do Pai, e do Espírito Santo, no dia último, para com toda a humanidade, que fora culpada de actos de inimizade para com seu Criador, e que, se tivesse sido capaz, o teria expulsado do céu, pregado a uma cruz, e assassinado. Quem pode conceber a caridade que Deus tem para com tão ingratas e malvadas criaturas? Deus não poupou os anjos quando pecaram, nem lhes deu tempo para arrepender-se; com frequência, todavia, suporta pacientemente o homem pecador, blasfemos, e aqueles que se enrolam no estandarte do demônio, Seu inimigo, e não só os suporta mas também os alimenta e cria, e até os alenta e sustém, porque “n’Ele vivemos, e nos movemos, e existimos” 4, como diz o Apóstolo. Tampouco preserva somente o justo e bom, mas igualmente o homem ingrato e malvado, como Nosso Senhor nos diz no Evangelho segundo São Lucas. Tampouco nosso Bom Senhor meramente alimenta e cria, alenta e sustém seus inimigos, senão que amiúde acumula seus favores sobre eles, dando-lhes talentos, tornando-os honrosos, e os eleva a tronos temporais, enquanto lhes aguarda pacientemente o regresso da senda da iniquidade e perdição.

E, não nos ocupando aqui de várias características da caridade que Deus sente pelos homens malvados, os inimigos de sua Divina Majestade, cada uma das quais requereria um volume se as tratássemos singularmente, limitar-nos-emos agora àquela singular bondade de Cristo que estamos tratando. Pois “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito”? 5. O mundo é o inimigo de Deus, porque “todo o mundo está sob o [jugo do espírito] maligno” 6, como nos diz São João. E, “se alguém ama o mundo, não há nele o amor do Pai” 7, como torna a dizer adiante. São Tiago escreve: “Portanto, todo aquele que quiser ser amigo deste século constitui-se inimigo de Deus” e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” 8. Deus, portanto, ao amar este mundo, mostra seu amor a seu inimigo com a intenção de fazê-lo amigo seu. Com este propósito enviou seu Filho, “Príncipe da Paz’ 9, para que por seu intermédio o mundo possa ser reconciliado com Deus. Por isso, ao nascer Cristo, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra” 10. Assim, Deus amou o mundo, seu inimigo, e deu o primeiro passo para a paz, dando seu Filho, que pode trazer a reconciliação sofrendo a pena devida a seu inimigo. O mundo não recebeu Cristo, acresceu sua culpa, rebelou-se diante do único Mediador, e Deus inspirou a este Mediador pagar o mal com o bem orando por seus perseguidores. Orou e “foi atendido pela sua reverência” 11. Deus esperou pacientemente o progresso que teriam os Apóstolos por sua pregação na conversão do mundo. Aqueles que tiverem feito penitência têm o perdão. Àqueles que não se tiverem arrependido após tão paciente tolerância, extermina-os o juízo final de Deus. Portanto, desta primeira palavra de Cristo aprendemos, em verdade, que a caridade de Deus Pai — que “amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigénito, para que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha vida eterna” 12 — ultrapassa todo e qualquer conhecimento. 

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
4.Atos 17,28.
5.Jo 3,16.
6.1Jo 5,19.
7.1Jo 2,15.
8.Tg 4,4.
9.Is 2,6.
10.Lc 2,14.
11.Hb 5,7.
12.Jo 3,16.