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26/06/2016

Leitura espiritual

Leitura Espiritual



CARTA ENCÍCLICA
HAURIETIS AQUAS
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS E BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O CULTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS



IV
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO PROGRESSIVO DO CULTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

1) Albores do culto ao Sagrado Coração na devoção às Chagas Sacrossantas da Paixão

46. À vossa consideração, veneráveis irmãos, e à do povo cristão quisemos expor em suas linhas gerais a íntima natureza e as perenes riquezas do culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus, atendo-nos à doutrina da revelação divina como à sua fonte primária.
Estamos persuadidos de que estas nossas reflexões, ditadas pelo próprio ensinamento do Evangelho, mostraram claramente como, em substância, este culto não é outra coisa senão o culto ao amor divino e humano do Verbo encarnado, e também o culto àquele amor com que o Pai e o Espírito Santo amam os homens pecadores.
Porque, como observa o Doutor angélico, a caridade das três Pessoas divinas é o princípio da redenção humana nisto que inundando copiosamente a vontade humana de Jesus Cristo e o seu coração adorável, com a mesma caridade o induziu a derramar o seu sangue para nos resgatar da servidão do pecado: [i]
"Com um baptismo tenho de ser baptizado, e como me sinto oprimido enquanto ele não se cumpre!" [ii].

47. Aliás, é persuasão nossa que o culto tributado ao amor de Deus e de Jesus Cristo para com o género humano, através do símbolo augusto do Coração transfixado do Redentor, nunca esteve completamente ausente da piedade dos fiéis, embora a sua manifestação clara e a sua admirável difusão em toda a Igreja se haja realizado em tempos não muito distantes de nós, sobretudo depois que o próprio Senhor revelou este divino mistério a alguns de seus filhos após havê-los cumulado com abundância de dons sobrenaturais, e os elegeu para seus mensageiros e arautos.

48. De facto, sempre houve almas especialmente consagradas a Deus que, inspirando-se nos exemplos da excelsa mãe de Deus, dos apóstolos e de insignes padres da Igreja, tributaram culto de adoração, de acção de graças e de amor à humanidade santíssima de Cristo, e de modo especial às feridas abertas no seu corpo pelos tormentos da paixão salvadora.

49. Aliás, como não reconhecer nas próprias palavras:
"Senhor meu e Deus meu" [iii], pronunciadas pelo apóstolo Tomé e reveladoras da sua súbita transformação de incrédulo em fiel, uma clara profissão de fé, de adoração e de amor, que da humanidade chagada do Salvador se elevava até a majestade da Pessoa divina?

50. Mas, ainda que o Coração ferido do Redentor tenha sempre levado os homens a venerarem o seu infinito amor a tempos sempre tiveram valor as palavras do profeta Zacarias que o evangelista João aplicou a Jesus crucificado:
"Verão a quem traspassaram" [iv], todavia cumpre reconhecer que só gradualmente esse Coração chegou a ser objecto de culto especial, como imagem do amor humano e divino do Verbo encarnado.

2) Princípio e progresso do culto ao Sagrado Coração na Idade Média e nos séculos seguintes

51. Querendo agora indicar somente as etapas gloriosas percorridas por este culto na história da piedade cristã, mister é recordar, antes de tudo, os nomes de alguns daqueles que bem podem ser considerados os porta-estandartes desta devoção, a qual, em forma privada e de modo gradual, foi-se difundindo cada vez mais nos institutos religiosos. Assim, por exemplo, distinguiram-se por haver estabelecido e promovido cada vez mais este culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus: S. Boaventura, S. Alberto Magno, Stª. Gertrudes, Stª. Catarina de Sena, o Beato Henrique Suso, S. Pedro Canísio e S. Francisco de Sales.
A S. João Eudes deve-se o primeiro ofício litúrgico em honra do Sagrado Coração de Jesus, cuja festa se celebrou pela primeira vez, com o beneplácito de muitos bispos de França, a 20 de Outubro de 1672. Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção merece lugar especial Stª. Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu director espiritual, o beato Cláudio de la Colombière, e com o seu ardente zelo, conseguiu, não sem admiração dos féis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã. [v]

52. Basta essa evocação daquela época em que se propagou o culto do Coração de Jesus para nos convencermos plenamente de que o seu admirável desenvolvimento se deve principalmente ao facto de se achar ele em tudo conforme com a índole da religião cristã, que é religião de amor.
Por conseguinte, não se pode dizer nem que este culto deve a sua origem a revelações privadas, nem que apareceu de improviso na Igreja, mas sim que brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa de almas predilectas para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do seu amor imenso que intimamente comovem os corações.
Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida Stª. Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica. A importância delas consiste em que – ao mostrar o Senhor o seu Coração Sacratíssimo – de modo extraordinário e singular quis atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o género humano.
De facto, mediante manifestação tão excepcional, Jesus Cristo expressamente e repetidas vezes indicou o seu Coração como símbolo com que estimular os homens ao conhecimento e à estima do seu amor; e ao mesmo tempo constituiu-o sinal e penhor de misericórdia e de graça para as necessidades da Igreja nos tempos modernos.

3) Aprovação pontifícia da festa do Coração Sacratíssimo de Jesus

53. Prova evidente de que este culto promana das próprias fontes do dogma católico dá-a o facto de haver a aprovação da festa litúrgica pela Sé Apostólica precedido a aprovação dos escritos de Stª. Margarida Maria.
Na realidade, independentemente de toda revelação privada, e secundando só os desejos dos féis, por decreto de 25 de Janeiro de 1765, aprovado pelo nosso predecessor Clemente XIII, a 6 de Fevereiro do mesmo ano, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu aos bispos da Polónia e à arqui-confraria romana do Sagrado Coração de Jesus a faculdade de celebrar a festa litúrgica. Com esse acto, quis a Santa Sé que tomasse novo incremento um culto já em vigor, cujo fim era "reavivar simbolicamente a lembrança do amor divino" [vi] que levara o Salvador a fazer-se vítima de expiação pelos pecados dos homens.

54. A essa primeira aprovação, dada em forma de privilégio e limitadamente, seguiu-se, a distância de quase um século, outra de importância muito maior, e expressa em termos mais solenes.
Referimo-nos ao decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 23 de Agosto de 1856, anteriormente mencionado, com o qual o nosso predecessor Pio IX, de imortal memória, acolhendo as súplicas dos bispos da França e de quase todo o orbe católico, estendeu a toda a Igreja a festa do Coração Sacratíssimo de Jesus, e prescreveu a sua celebração litúrgica. [vii]
Esse facto merece ser recomendado à lembrança perene dos fiéis, pois, como vemos escrito na própria liturgia da festa, "desde então o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus, semelhante a um rio que transborda, superou todos os obstáculos e difundiu-se pelo mundo todo".

55. De quanto até agora expusemos, veneráveis irmãos, aparece evidente que é nos textos da Sagrada Escritura, na tradição e na sagrada liturgia que os fiéis hão-de encontrar principalmente os mananciais límpidos e profundos do culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus, se desejam penetrar na sua íntima natureza e tirar da sua piedosa meditação alimento e incremento do fervor religioso.
Iluminada, e penetrando nela mais intimamente mediante esta meditação assídua, a alma fiel não poderá deixar de chegar àquele doce conhecimento da caridade de Cristo no qual se resume toda a vida cristã, tal como, instruído pela própria experiência, o ensina o Apóstolo:
"Por esta causa dobro meus joelhos ante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo..., para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda por meio do seu Espírito serdes fortalecidos em virtude no homem interior, e para que Cristo habite pela fé nos vossos corações, estando vós arraigados e cimentados em caridade; a fim de que possais conhecer também aquele amor de Cristo que sobrepuja todo conhecimento, para serdes plenamente cumulados de toda a plenitude de Deus" [viii].
Dessa plenitude universal é precisamente imagem esplendida o Coração de Jesus Cristo:
plenitude da misericórdia própria do Novo Testamento, no qual "Deus nosso Salvador manifestou a sua benignidade e amor para com os homens" [ix]; pois "Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas sim para que, por meio dele, o mundo se salve" [x].

4) Espiritualidade e excelência do culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus

56. Desde quando promulgou os primeiros documentos oficiais relativos ao culto do Coração Sacratíssimo de Jesus, tem sido constante persuasão da Igreja, mestra da verdade para os homens, que os elementos essenciais desse culto, quer dizer, os atos de amor e de reparação tributados ao amor infinito de Deus para com os homens, longe de estarem contaminados de materialismo e de superstição, constituem uma forma de piedade em que se põe plenamente em prática aquela religião espiritual e verdadeira que o próprio Salvador anunciou à samaritana:
"Já chega o tempo, e já estamos nele, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" [xi].

57. Lícito não é, portanto, afirmar que a contemplação do Coração físico de Jesus impede de chegar ao amor íntimo de Deus e retarda o progresso da alma no caminho que leva à posse das mais excelsas virtudes.
A Igreja repele completamente esse falso misticismo, como, por boca do nosso predecessor Inocêncio XI, de feliz memória, condenou a doutrina dos que divulgavam que não devem (as almas desta via interior) fazer actos de amor à Santíssima Virgem, aos santos ou à humanidade de Cristo, porque, sendo sensíveis estes objectos, o amor que a eles se dirige também há-de ser sensível.
Nenhuma criatura, nem mesmo a Santíssima Virgem e os santos, deve penetrar no nosso coração, porque só Deus quer ocupá-lo e possuí-lo". [xii]
Os que assim pensam são, naturalmente, de opinião que o simbolismo do Coração de Cristo não se estende a mais do que ao seu amor sensível, e que, por conseguinte, não pode constituir novo fundamento do culto de latria, culto reservado só àquilo que é essencialmente divino. Ora, interpretação semelhante das sagradas imagens, todos vêem que é absolutamente falsa, porque lhes coarcta injustamente o significado. Contrária é a isso a opinião e o ensino dos teólogos católicos, e entre eles S. Tomás assim escreve:
"Às imagens tributa-se culto religioso, não consideradas em si mesmas, quer dizer, enquanto realidades, mas sim enquanto imagens que nos levam até Deus encarnado.
O movimento da alma para a imagem enquanto imagem não pára nesta, mas tende ao objecto por ela representado.
Por conseguinte, do facto de tributar culto religioso às imagens de Cristo não resulta um culto de latria diverso nem uma virtude de religião diferente". [xiii]
À própria pessoa do Verbo chega, pois, o culto relativo tributado às suas imagens, sejam estas as relíquias da sua acerba paixão, seja a imagem que supera todas em valor expressivo, quer dizer, o Coração ferido de Cristo crucificado.

58. E, assim, do elemento corpóreo, que é o Coração de Jesus Cristo, e do seu natural simbolismo, é legítimo e justo que, levados pelas asas da fé, nos elevemos não só à contemplação do seu amor sensível, porém a mais alto, até à consideração e adoração do seu excelentíssimo amor infuso, e, finalmente, num voo sublime e doce ao mesmo tempo, até à meditação e adoração do amor divino do Verbo encarnado; já que à luz da fé, pela qual cremos que na pessoa de Cristo estão unidas a natureza humana e a natureza divina, podemos conceber os estreitíssimos vínculos que existem entre o amor sensível do Coração físico de Jesus e o seu duplo amor espiritual, o humano e o divino.
Na realidade, não devem esses amores ser considerados simplesmente como coexistentes na adorável pessoa do Redentor divino, mas também como unidos entre si com vínculo natural, nisto que ao amor divino estão subordinados o humano, o espiritual e o sensível, os quais São uma representação analógica daquele.
Com isso não pretendemos que no Coração de Jesus se deva ver e adorar a chamada imagem formal, quer dizer, a representação perfeita e absoluta do seu amor divino, não sendo possível, como não é, representar adequadamente por qualquer imagem criada a íntima essência desse amor; mas a alma fiel, venerando o Coração de Jesus, adora juntamente com a Igreja o símbolo e como que a marca da caridade divina, caridade que com o Coração do Verbo encarnado chegou até a amar o género humano contaminado de tantos crimes.

59. Portanto, neste assunto tão importante como delicado, é necessário ter sempre presente que a verdade do simbolismo natural, que relaciona o Coração físico de Jesus com a pessoa do Verbo, repousa toda na verdade primária da união hipostática; quem isto negasse renovaria erros mais de uma vez condenados pela Igreja, por contrários à unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas íntegras e distintas.

60. Essa verdade fundamental permite-nos entender como o Coração de Jesus é o coração de uma pessoa divina, quer dizer, do Verbo encarnado, e que, por conseguinte, representa e nos põe ante os olhos todo o amor que ele nos teve e ainda nos tem. E aqui está a razão por que, na prática, o culto ao Sagrado Coração é considerado como a mais completa profissão da religião cristã.
Verdadeiramente, a religião de Jesus Cristo funda-se toda no Homem-Deus mediador; de maneira que não se pode chegar ao Coração de Deus senão passando pelo Coração de Cristo, conforme o que ele mesmo afirmou:
"Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" [xiv].
Assim sendo, facilmente deduzimos que, pela própria natureza das coisas, o culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus é o culto ao amor com que Deus nos amou por meio de Jesus Cristo, e, ao mesmo tempo, o exercício do amor que nos leva a Deus e aos outros homens; ou, dito por outra forma, este culto dirige-se ao amor de Deus para connosco, propondo-o como objecto de adoração, de acção de graças e de imitação; e tem por fim a perfeição do nosso amor a Deus e aos homens mediante o cumprimento cada vez mais generoso do mandamento "novo", que o divino Mestre legou como sagrada herança aos seus apóstolos quando lhes disse:
"Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei... O meu preceito é que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei" [xv].
Esse mandamento, verdadeiramente, é "novo" e "próprio" de Cristo; porque, como diz S. Tomás de Aquino:
"Pouca diferença há entre o Antigo e o Novo Testamento; pois, como diz Jeremias: 'Farei um pacto novo com a casa de Israel' [xvi].
Porém que este mandamento se praticasse no Antigo Testamento a impulsos de um santo temor e amor, isto pertencia ao Novo Testamento; de sorte que este mandamento existia na antiga lei não como próprio dela, porém como preparação da nova lei". [xvii]

 (Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Cf. Summa theol., III, q. 48, a. 5; ed. Leon., t. XI,1903, p. 467.
[ii] Lc 12, 50
[iii] Jo 20, 28
[iv] Jo 19, 37; cf. Zc 12, 10
[v] Cf. Carta enc. Miserentissimus Redemptor: AAS 20 (1928), pp.167-168.
[vi] Cf. A. Gardellini, Decreta authentica, 1857, n. 4579, t. III, p.174.
[vii] Cf. Decr. S. C. Ritum em N. Nilles, De rationibus festorum Sacratissimi Cordis Iesu et purissimi Cordis Mariae, 5e ed. Innsbruck,1885, t. I, p.167.
[viii] Ef 3, 14.16-19
[ix] Tt 3, 4
[x] Jo 3, 17
[xi] Jo 4,23-24
[xii] Inocêncio XI, Const. Ap. Coelestis Pastor, (19 de Novembro de 1687): Bullarium Romanum, Romae 1734, t. VIII, p. 443.
[xiii] Summa theol., II-II, q. 81, a. 3; ed. Leon., t. IX,1897, p.180.
[xiv] Jo 14, 6
[xv] Jo 13, 34; 15, 12
[xvi] Jr 31, 31
[xvii] Comment. in Evang, s. Joannis, c. XIII, lect. VII, 3; ed. Parmae,1860, t. X, p 541.

25/06/2016

Leitura espiritual

Leitura Espiritual




CARTA ENCÍCLICA
HAURIETIS AQUAS
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS E BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O CULTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


III
PARTICIPAÇÃO ACTIVA E PROFUNDA QUE TEVE
O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS NA MISSÃO SALVADORA DO REDENTOR

1) O Sagrado Coração de Jesus, símbolo de amor perfeito: sensível, espiritual, humano e divino, durante a vida terrena do Salvador

29. Agora, veneráveis irmãos, para que destas piedosas considerações possamos tirar abundantes e salutares frutos, bom é meditarmos e contemplarmos brevemente os múltiplos afectos humanos e divinos do nosso Salvador Jesus Cristo, dos quais; durante o curso da sua vida mortal, o seu Coração participou e continua agora participando e não deixará de participar por toda a eternidade.
Nas páginas do Evangelho é onde principalmente encontraremos a luz pela qual iluminados e fortalecidos poderemos penetrar no segredo deste Divino Coração, e admirar com o Apóstolo das gentes "as abundantes riquezas da graça (de Deus) na bondade usada connosco por amor de Jesus Cristo" [i].

30. O adorável Coração de Jesus Cristo pulsa de amor ao mesmo tempo humano e divino desde que a virgem Maria pronunciou aquela palavra magnânima: "Fiat", e o Verbo de Deus, como nota o Apóstolo, "ao entrar no mundo disse:
Não quiseste sacrifício nem oferenda, mas me apropriaste um corpo; holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis que venho: segundo está escrito de mim no princípio do livro, para cumprir, ó Deus, a tua vontade... Por esta vontade, pois, somos santificados pela oblação do corpo de Cristo feita uma só vez" [ii].
De maneira semelhante palpitava de amor o seu Coração, em perfeita harmonia com os afectos da sua vontade humana e com o seu amor divino, quando, na casa de Nazaré, ele mantinha aqueles celestiais colóquios com sua dulcíssima Mãe e com seu pai putativo, S. José, a quem obedecia e com quem colaborava no fatigante ofício de carpinteiro.
Esse mesmo tríplice amor movia o seu Coração nas suas contínuas excursões apostólicas, quando realizava aqueles inúmeros milagres, quando ressuscitava os mortos ou restituía a saúde a toda sorte de enfermos, quando sofria aqueles trabalhos, suportava o suor, a fome e a sede; nas vigílias noturnas passadas em oração a seu Pai amado; e, finalmente, nos discursos que pronunciava e nas parábolas que propunha, especialmente naquelas que tratam da misericórdia, como a da dracma perdida, a da ovelha desgarrada e a do filho pródigo.
Nessas palavras e nessas obras, como diz Gregório Magno, manifesta-se o próprio Coração de Deus.
"Conhece o Coração de Deus nas palavras de Deus, para que com mais ardor suspires pelas coisas eternas". [iii]

31. De amor ainda maior pulsava o Coração de Jesus Cristo quando da sua boca saíam palavras que inspiravam amor ardente.
Assim, para dar algum exemplo, quando, ao ver as turbas cansadas e famintas, ele disse:
"Tenho compaixão desta multidão" [iv], e quando, ao avistar Jerusalém, a sua cidade predileta, destinada a uma ruína fatal por causa da sua obstinação no pecado, exclamou: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te São enviados: quantas vezes eu quis recolher teus filhos, como a galinha recolhe debaixo das asas os seus pintinhos, e não o quiseste!" [v].
O seu Coração também palpitou de amor para com seu Pai, e de santa indignação, quando ele viu o comércio sacrílego que se fazia no templo, e verberou os violadores com estas palavras:
"Escrito está: minha casa será chamada casa de oração; mas vós fizestes dela uma espelunca de ladrões" [vi].

32. Pois o seu Coração bateu particularmente de amor e de pavor quando ele viu iminente a hora dos seus cruéis padecimentos, e quando experimentando uma repugnância natural às dores e à morte, exclamou:
"Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice" [vii]; palpitou com amor invicto e com suma amargura quando, ao receber o beijo do traidor, dirigiu-lhe aquelas palavras que parecem o convite último do seu coração misericordioso ao amigo que com ânimo ímpio, infiel e obstinado, devia entregá-lo aos seus algozes:
"Amigo, a que vieste? Com um beijo entregas o Filho do homem?" [viii]; palpitou de compaixão e de amor íntimo quando disse às piedosas mulheres que choravam a sua imerecida condenação ao suplício da cruz: "Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós mesmas e por vossos filhos..., pois, se assim tratam a árvore verde, que se não fará à seca?" [ix].

33. Finalmente, quando o divino Redentor pendia da cruz, sentiu o seu Coração arder dos mais vários e veementes afectos, isto é, de afectos de amor ardente, de consternação, de misericórdia, de desejo inflamado, de paz serena; afectos claramente manifestados naquelas palavras:
"Pai, perdoa-lhes; porque eles não sabem o que fazem" [x]; "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" [xi]; "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" [xii]; "Tenho sede" [xiii]; "Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito" [xiv].

2) A eucaristia, a Santíssima Virgem e o sacerdócio são dons do Coração amado de Jesus

34. Quem poderá descrever dignamente as pulsações do Coração divino, índices do seu infinito amor, naqueles momentos em que ele deu aos homens os seus mais apreciados dons, isto é, a si mesmo no sacramento da eucaristia, sua mãe santíssima, e a participação no ofício sacerdotal?

35. Ainda antes de celebrar a última ceia comos seus discípulos, ao pensar em que ia instituir o sacramento do seu corpo e do seu sangue, com cuja efusão devia confirmar-se a nova aliança, sentiu o seu Coração agitado de intensa emoção, que ele manifestou aos seus apóstolos com estas palavras:
"Ardentemente desejei comer convosco este cordeiro pascal antes da minha paixão" [xv]; emoção que, sem dúvida, foi ainda mais veemente quando ele "tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o a eles, dizendo: 'Isto é meu corpo, que se dá por vós; fazei isto em memória de mim'. Do mesmo modo tomou o cálice, depois de haver ceado, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que por vós será derramado'"[xvi].

36. Com razão, pois, pode afirmar-se que a divina eucaristia, como sacramento que ele dá aos homens e como sacrifício que ele mesmo continuamente imola "desde o nascente até o poente" [xvii], e também o sacerdócio, são, sem dúvida, dons do Sagrado Coração de Jesus.

37. Dom igualmente precioso do mesmo Sagrado Coração é, como indicávamos, a santíssima Virgem, Mãe excelsa de Deus e Mãe amadíssima de todos nós, era justo que o género humano tivesse por mãe espiritual aquela que foi mãe natural do nosso Redentor, a ele associada na obra de regeneração dos filhos de Eva para a vida da graça.
A propósito disso, escreve a respeito dela Santo Agostinho:
"Evidentemente ela é mãe dos membros do Salvador, que somos nós, porque com a sua caridade cooperou para que nascessem na Igreja os fiéis, que são membros daquela cabeça". [xviii]

38. Ao dom incruento de si mesmo sob as espécies do pão e do vinho, Jesus Cristo nosso Salvador quis unir, como testemunho da sua caridade íntima e infinita, o sacrifício cruento da cruz.
Fazendo isso, deu exemplo daquela sublime caridade que com as seguintes palavras ele mostrara aos seus discípulos como meta suprema de amor:
"Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos" [xix].
Pelo que o amor de Jesus Cristo, Filho de Deus, revela no sacrifício do Gólgota, de modo o mais eloquente, o amor do próprio Deus:
"Nisto conhecemos a caridade de Deus: em haver ele dado sua vida por nós; e assim nós devemos dar a nossa vida por nossos irmãos" [xx].
Certamente, o divino Redentor foi crucificado mais pela força do amor do que pela violência dos algozes, e o seu holocausto voluntário é dom supremo feito a cada um dos homens, segundo a incisiva expressão do Apóstolo:
"Amou-me e entregou-se por mim" [xxi].

3) Também a Igreja e os sacramentos são dons do Sagrado Coração de Jesus

39. Não se pode, pois, duvidar de que, participando intimamente da vida do Verbo encarnado, e pelo mesmo motivo sendo, não menos do que os demais membros da sua natureza humana, como que instrumento conjunto da Divindade na realização das obras da graça e da onipotência divina, [xxii] o Sagrado Coração de Jesus é também símbolo legítimo daquela imensa caridade que moveu o nosso Salvador a celebrar, com o derramamento do seu sangue, o seu místico matrimónio com a Igreja:
"Sofreu a paixão por amor à Igreja que ele devia unir a si como esposa".[xxiii]
Portanto, do Coração ferido do Redentor nasceu a Igreja, verdadeira administradora do sangue da redenção, e do mesmo Coração flui abundantemente a graça dos sacramentos, na qual os filhos da Igreja bebem a vida sobrenatural, como lemos na sagrada liturgia:
"Do coração aberto nasce a Igreja desposada com Cristo... Tu, que do coração fazes manar a graça".[xxiv]
A respeito desse símbolo, que nem mesmo dos antigos Padres, escritores e eclesiásticos foi desconhecido, o Doutor comum, fazendo-se eco deles, assim escreve:
"Do lado de Cristo brotou água para lavar e sangue para redimir. Por isso, o sangue é próprio do sacramento da eucaristia; a água, do sacramento do batismo, o qual, entretanto, tem força para lavar em virtude do sangue de Cristo".[xxv]
O que aqui se afirma do lado de Cristo, ferido e aberto pelo soldado, cumpre aplicá-lo ao seu Coração, ao qual, sem dúvida, chegou a lançada desfechada pelo soldado precisamente para que constasse de maneira certa a morte de Jesus Cristo.
Por isso, durante o curso dos séculos, a ferida do Coração Sacratíssimo de Jesus, morto já para esta vida mortal, tem sido a imagem viva daquele amor espontâneo com que Deus entregou seu Unigénito pela redenção dos homens, e com o qual Cristo nos amou a todos tão ardentemente que a si mesmo se imolou como hóstia cruenta no Calvário:
"Cristo amou-nos e ofereceu-se a Deus em oblação e hóstia de odor suavíssimo" [xxvi].

4) O Sagrado Coração de Jesus, símbolo do seu tríplice amor a humanidade na vida gloriosa do céu

40. Depois que o nosso Salvador subiu ao céu com o seu corpo glorificado, e se sentou à direita de Deus Pai, não tem cessado de amar a sua esposa, a Igreja, com aquele amor inflamado que palpita no seu Coração.
Traz nas mãos, nos pés e no lado os esplendentes sinais das suas feridas, troféus da sua tríplice vitória: contra o demônio, contra o pecado e contra a morte.
E traz no seu Coração, como em preciosa arca aqueles imensos tesouros de méritos, frutos dessa tríplice vitória, os quais ele com largueza distribui ao género humano.
É essa uma verdade consoladora, ensinada pelo Apóstolo das gentes quando escreve:
"Ao subir para o alto, levou consigo cativa uma grande multidão de cativos e derramou seus dons sobre os homens... Aquele que desceu, esse mesmo foi o que ascendeu sobre todos os céus, para dar cumprimento a todas as coisas" [xxvii].

5) Os dons do Espírito Santo também são dons do Coração Adorável de Jesus

41. A missão do Espírito Santo junto aos discípulos é o primeiro e esplêndido sinal do seu amor munificente, depois da sua subida triunfal à direita do Pai.
Aos dez dias, o Espírito Paráclito, dado pelo Pai celestial, baixou sobre eles, reunidos no cenáculo, segundo a promessa que ele lhes fizera na última ceia:
"Rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador para estar convosco eternamente" [xxviii].
O qual Espírito Paráclito, sendo, como é, o amor mútuo pessoal com que o Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai, por ambos é enviado, e, sob forma de línguas de fogo, infunde na alma dos discípulos a abundância da caridade divina e dos demais carismas celestes.
Esta infusão da caridade divina brotou também do Coração do nosso Salvador, "no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência" [xxix].
Essa caridade é, portanto, dom do Coração de Jesus e do seu Espírito. A esse comum Espírito do Pai e do Filho deve-se o nascimento e a propagação admirável da Igreja no meio de todos os povos pagãos, contaminados pela idolatria, pelo ódio fraterno, pela corrupção de costumes e pela violência.
Foi essa divina caridade, dom preciosíssimo do Coração de Cristo e do seu Espírito, que deu aos apóstolos e aos mártires aquela fortaleza com que eles lutaram até uma morte heróica, para pregarem a verdade evangélica e testemunhá-la com o seu sangue; foi ela que deu aos doutores da Igreja aquele zelo intenso por ilustrar e defender a fé católica; foi ela que alimentou as virtudes nos confessores e os excitou a levarem a cabo obras admiráveis e úteis, para a própria santificação, para a salvação eterna e temporal do próximo; e, finalmente, foi ela que persuadiu as virgens a espontânea e alegremente renunciarem aos gozos dos sentidos e se consagrarem inteiramente ao amor do esposo celeste.
A essa divina caridade, que transborda do Coração do Verbo Encarnado e por obra do Espírito Santo se difunde nas almas de todos os crentes, o Apóstolo das gentes entoou aquele hino de vitória que exalta a um tempo o triunfo de Jesus Cristo cabeça e o triunfo dos membros do seu corpo místico, sobre todos quantos de algum modo obstam ao estabelecimento do reino divino de amor entre os homens:
"Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação? Ou a angústia? Ou a fome? Ou a nudez? Ou o risco? Ou a perseguição? Ou o cutelo?... Por meio de todas essas coisas triunfamos por virtude daquele que nos amou. Pelo qual estou seguro de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem o presente, nem o futuro, nem a força, nem o que há de mais alto, nem de mais profundo, nem outra criatura, poderá jamais separar-nos do amor de Deus que se funda em Jesus Cristo nosso Senhor" [xxx].

6) O culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus é o culto da pessoa do Verbo encarnado

42. Nada, portanto, proíbe que adoremos o Coração Sacratíssimo de Jesus Cristo, enquanto é participante, símbolo natural e sumamente expressivo daquele amor inexaurível em que ainda hoje o divino Redentor arde para com os homens.
Mesmo quando já não está submetido às perturbações desta vida mortal, ainda então ele vive, palpita, e está unido de modo indissolúvel com a pessoa do Verbo divino, e, nela e por ela, com a sua divina vontade.
Superabundando o Coração do Cristo de amor divino e humano, e sendo imensamente rico com os tesouros de todas as graças que o nosso Redentor adquiriu com sua vida, seus padecimentos e sua morte, ele é, sem dúvida, uma fonte perene daquela caridade que o seu Espírito infunde em todos os membros do seu corpo místico.

43. Assim, pois, o Coração do nosso Salvador reflecte de certo modo a imagem da divina pessoa do Verbo, e, igualmente, das suas duas naturezas: humana e divina; e nele podemos considerar não só um símbolo, mas também como que um compêndio de todo o mistério da nossa redenção.
Quando adoramos o Coração de Jesus Cristo, nele e por ele adoramos tanto o amor incriado do Verbo divino como seu amor humano e os seus demais afectos e virtudes, já que um e outro amor moveu o nosso Redentor a imolar-se por nós e por toda a Igreja, sua esposa, segundo a sentença do Apóstolo:
"Cristo amou a sua Igreja e sacrificou-se por ela para santificá-la, lavando-a no baptismo de água com a palavra de vida, a fim de fazê-la comparecer perante si cheia de glória, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e imaculada" [xxxi].

44. Assim como amou a Igreja, Cristo continua amando-a intensamente, com aquele tríplice amor de que falamos [xxxii]; e esse amor é que o impele a fazer-se nosso advogado para nos obter do Pai graça e misericórdia, "estando sempre vivo para interceder por nós" [xxxiii].
As preces que brotam do seu inesgotável amor, dirigidas ao Pai, não sofrem interrupção alguma.
Como nos dias da sua carne" [xxxiv], também agora, que está triunfante no céu, ele suplica o Pai com não menor eficácia; e aquele que "amou tanto o mundo que deu seu Filho unigénito, a fim de que todos os que nele crêem não pereçam, mas vivam vida eterna" [xxxv].
Ele mostra o seu Coração vivo e como ferido e inflamado de um amor mais ardente do que quando, já exânime, o feriu a lança do soldado romano:
"Por isto foi ferido (o teu coração), para que pela ferida visível víssemos a ferida invisível do amor". [xxxvi]

45. Por conseguinte, não pode haver dúvida alguma de que, ante as súplicas de tão grande advogado, e feitas com tão veemente amor, o Pai celestial, "que não perdoou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós" [xxxvii], por meio dele derramará incessantemente sobre todos os homens a abundância das suas graças divinas.

 (Revisão da versão portuguesa por ama)



[i] Ef 2, 7
[ii] Hb 10, 5-7.10
[iii] Registr. epist., lib. IV, ep. 31 ad Theodorum medicum: PL 77, 706.
[iv] Mc 8, 2
[v] Mt 23, 37
[vi] Mt 21, 13
[vii] Mt 26, 39
[viii] Mt 26, 50; Lc 22, 48
[ix] Lc 23, 28. 31
[x] Lc 23, 34
[xi] Mt 27, 46
[xii] Lc 23, 43
[xiii] Jo 19, 28
[xiv] Lc 23, 46
[xv] Lc 22, 15
[xvi] Lc 22, 19-20
[xvii] Mt 1, 11
[xviii] De sancta virginitate, VI; PL 40, 399.
[xix] Jo 15, 13
[xx] 1 Jo 3, 16
[xxi] Gl 2, 20
[xxii] Cf. S. Tomás, Summa theol., III, q.19, a. l; ed. Leon., t. XI,1903, p. 329.
[xxiii] Summa theol., Suppl., q. 42, a. l até 3; ed. Leon., t. XII,1906, p. 81.
[xxiv] Hino das Vésp. da festa do Sagrado Coração de Jesus.
[xxv] Summa theol, III, q. 66, a. 3, ed. Leon., t. XII,1906, p. 65.
[xxvi] Ef 5, 2
[xxvii] Ef 4, 8.10
[xxviii] Jo 14, 16
[xxix] Cl 2, 3
[xxx] Rm 8, 35.37-39
[xxxi] Ef 5, 25-27
[xxxii] cf. 1 Jo 2, 1
[xxxiii] Hb 7, 25
[xxxiv] Hb 5, 7
[xxxv] Jo 3, 16
[xxxvi] S. Boaventura, Opusc. X: Vitis mystica, c. III, n. 5: Opera Omnia, Ad Claras Aquas (Quaracchi), 1898, t. VIII, p. 164; cf, S. Tomás, Summa theol., III, q. 54, a. 4; ed. Leon., t. XI,1903, p. 513.
[xxxvii] Rm 8, 32