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31/07/2020

Leitura espiritual


O HOMEM BOM

O TESOURO VERDADEIRO

Com as reflexões anteriores, procuramos desenhar um quadro da bondade actuante.
Agora, olhando com perspectiva essa pintura, é necessário concluir que, dentre os traços do quadro, talvez esteja faltando ressaltar o principal.
A razão é simples.
Todas as cores que se juntam para compor a luz da bondade apontam para uma única finalidade, várias vezes recordada ao longo destas páginas: fazer o bem.
Por isso, o que é realmente decisivo é ter uma ideia clara sobre o verdadeiro conceito de bem.
De nada adiantaria empenharmo-nos generosamente em fazer o bem aos outros, se, no final das contas, terminássemos por descobrir que, pretendendo ajudá-los, involuntariamente lhes fizemos mal ou, o que vem a dar na mesma, lhes proporcionamos bens fictícios e omitimos o bem real.
Daí a grande importância de não perdermos nunca de vista qual é o verdadeiro bem do homem, o único bem, sem o qual nenhum dos outros merece esse nome.
A resposta a essa pergunta sobre o bem já foi dada por Cristo:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma? Ou que poderá dar o homem em troca da sua alma? (Mt 16, 26).
Estas palavras brilham como um lampejo no meio da escuridão.
Nenhum “bem” vale a pena se a alma estiver privada da Vida da graça de Deus.
Com efeito, sem a graça divina, uma alma está morta e, então, as melhores qualidades e “bens” de que possa dispor não passam de flores vistosas enfeitando um cadáver.
Estando ausente a vida, “de que aproveitam” as flores?
Deveriam pensar mais nisto, todos os que amam, todos aqueles que, por terem a fé cristã, são capazes de compreender a perspectiva de Cristo.
Sim, deveríamos entender que “querer bem” outra coisa não é que “querer o bem” do próximo, e que não há bem algum quando falta Deus.
“A quem tem Deus – dizia Santa Teresa de Ávila – nada lhe falta”.
A quem não o tem, podemos acrescentar, nada lhe aproveita.
É excelente, sem dúvida, o empenho dos pais em que os filhos tenham saúde, cultura, bem-estar, capacitação profissional que lhes permita enfrentar com segurança o futuro.
Mas é um empenho muito mais excelente e vital – por ser decisivo, questão de vida ou morte – esforçarem-se com a sua oração, o seu exemplo e uma orientação prudente e contínua, para que os filhos conheçam as verdades da fé cristã – a doutrina salvadora de Cristo – e aprendam a praticá-las.
Podem ter a certeza de que as virtudes cristãs de um filho vão fazer-lhe, ao longo do dia, um bem infinitamente maior do que todos os diplomas ou contas bancárias que lhes possam proporcionar.
Mil vezes mais vale a fé do que a saúde, a união com Deus do que o sucesso.
Só as virtudes cristãs são os tesouros verdadeiros de que Cristo falava (Mt 6, 19-20).
E só esses tesouros proporcionam àqueles que amamos a “realização” – o bem e a plenitude –, quer nesta terra, quer na eternidade.
Sem esta convicção, todos os ideais de bondade se dissolvem como um sonho ilusório.
Sempre deveria ecoar em nossos ouvidos, como um roteiro de bondade, o segredo que Cristo confidenciou a Marta:
Tu te inquietas e te perturbas por muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10, 41-42).
A “melhor parte” é estarmos junto de Cristo, atentos às suas palavras, fazendo da Vontade de Deus a luz e o norte da vida.
Aí está o verdadeiro bem do homem.

* * *
Começávamos estas páginas constatando que uma das impressões mais gratas e indeléveis da vida é ter conhecido um homem bom.
Ao encerrá-las com estes últimos pensamentos, talvez seja o momento de tomarmos consciência de que esse homem bom, deveríamos sê-lo cada um de nós.
Afinal, foi para isso que Deus nos pôs no mundo, e a nós nos cabe – com a sua ajuda – trabalhar por consegui-lo.
Não duvidemos de que, quando o curso desta nossa vida terrena se encerrar, uma das nossas maiores alegrias será olhar para trás e ver que a nossa passagem pelo mundo não foi inútil.
Valerá a pena termos vivido se, nessa hora definitiva, pudermos dizer que, pela misericórdia divina e apesar das nossas misérias, tivemos a graça de ser um reflexo da bondade de Deus nos corações dos homens.

......

[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.

31/12/2018

Leitura espiritual


O HOMEM BOM 





O TESOURO VERDADEIRO





Com as reflexões anteriores, procuramos desenhar um quadro da bondade actuante.
Agora, olhando com perspectiva essa pintura, é necessário concluir que, dentre os traços do quadro, talvez esteja faltando ressaltar o principal.
A razão é simples.
Todas as cores que se juntam para compor a luz da bondade apontam para uma única finalidade, várias vezes recordada ao longo destas páginas: fazer o bem.
Por isso, o que é realmente decisivo é ter uma ideia clara sobre o verdadeiro conceito de bem.
De nada adiantaria empenharmo-nos generosamente em fazer o bem aos outros, se, no final das contas, terminássemos por descobrir que, pretendendo ajudá-los, involuntariamente lhes fizemos mal ou, o que vem a dar na mesma, lhes proporcionamos bens fictícios e omitimos o bem real.
Daí a grande importância de não perdermos nunca de vista qual é o verdadeiro bem do homem, o único bem, sem o qual nenhum dos outros merece esse nome.
A resposta a essa pergunta sobre o bem já foi dada por Cristo:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma? Ou que poderá dar o homem em troca da sua alma? (Mt 16, 26).
Estas palavras brilham como um lampejo no meio da escuridão.
Nenhum “bem” vale a pena se a alma estiver privada da Vida da graça de Deus.
Com efeito, sem a graça divina, uma alma está morta e, então, as melhores qualidades e “bens” de que possa dispor não passam de flores vistosas enfeitando um cadáver.
Estando ausente a vida, “de que aproveitam” as flores?
Deveriam pensar mais nisto, todos os que amam, todos aqueles que, por terem a fé cristã, são capazes de compreender a perspectiva de Cristo.
Sim, deveríamos entender que “querer bem” outra coisa não é que “querer o bem” do próximo, e que não há bem algum quando falta Deus.
“A quem tem Deus – dizia Santa Teresa de Ávila – nada lhe falta”.
A quem não o tem, podemos acrescentar, nada lhe aproveita.
É excelente, sem dúvida, o empenho dos pais em que os filhos tenham saúde, cultura, bem-estar, capacitação profissional que lhes permita enfrentar com segurança o futuro.
Mas é um empenho muito mais excelente e vital – por ser decisivo, questão de vida ou morte – esforçarem-se com a sua oração, o seu exemplo e uma orientação prudente e contínua, para que os filhos conheçam as verdades da fé cristã – a doutrina salvadora de Cristo – e aprendam a praticá-las.
Podem ter a certeza de que as virtudes cristãs de um filho vão fazer-lhe, ao longo do dia, um bem infinitamente maior do que todos os diplomas ou contas bancárias que lhes possam proporcionar.
Mil vezes mais vale a fé do que a saúde, a união com Deus do que o sucesso.
Só as virtudes cristãs são os tesouros verdadeiros de que Cristo falava (Mt 6, 19-20).
E só esses tesouros proporcionam àqueles que amamos a “realização” – o bem e a plenitude –, quer nesta terra, quer na eternidade.
Sem esta convicção, todos os ideais de bondade se dissolvem como um sonho ilusório.
Sempre deveria ecoar em nossos ouvidos, como um roteiro de bondade, o segredo que Cristo confidenciou a Marta:
Tu te inquietas e te perturbas por muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10, 41-42).
A “melhor parte” é estarmos junto de Cristo, atentos às suas palavras, fazendo da Vontade de Deus a luz e o norte da vida.
Aí está o verdadeiro bem do homem.

* * *
Começávamos estas páginas constatando que uma das impressões mais gratas e indeléveis da vida é ter conhecido um homem bom.
Ao encerrá-las com estes últimos pensamentos, talvez seja o momento de tomarmos consciência de que esse homem bom, deveríamos sê-lo cada um de nós.
Afinal, foi para isso que Deus nos pôs no mundo, e a nós nos cabe – com a sua ajuda – trabalhar por consegui-lo.
Não duvidemos de que, quando o curso desta nossa vida terrena se encerrar, uma das nossas maiores alegrias será olhar para trás e ver que a nossa passagem pelo mundo não foi inútil.
Valerá a pena termos vivido se, nessa hora definitiva, pudermos dizer que, pela misericórdia divina e apesar das nossas misérias, tivemos a graça de ser um reflexo da bondade de Deus nos corações dos homens.

FIM


[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.


30/12/2018

Leitura espiritual


O HOMEM BOM




MODOS DE AMAR





Conta-se de um velho almirante da reserva que, quando queria pintar a fachada da sua casa – vivia numa cidade onde era costume pintá-las pela primavera –, mandava o pintor à casa do vizinho que morava em frente, para lhe perguntar de que cor gostaria que a pintasse.
O bom velhinho explicava esse seu modo de proceder dizendo:
“Afinal, ele, o vizinho, é quem ficará vendo a fachada todos os dias; é natural que eu a pinte ao gosto dele”.
É uma delicada transparência do coração do homem bom, que vive sempre voltado para o bem e para a alegria dos outros, e nisso encontra a sua maior satisfação.
Isto faz pensar nas nossas atitudes e, concretamente, na facilidade com que incorremos num erro de perspectiva: com a melhor das boas vontades, dedicamo-nos a amar os outros “ao nosso modo”, mas esquecemo-nos de amá-los “ao modo deles”, o que seria muito melhor.
Entendamo-nos.
Não basta dizer, quando nos preocupamos em ajudar os outros:
“Faço isto pelo seu bem”.
É necessário ter uma fina intuição para fazer “isto” do “modo” que contribua mais eficazmente para o seu bem.
Um pai que corrige o filho, imediata e energicamente, todas as vezes que depara com uma desobediência ou uma irresponsabilidade, pode estar intimamente convencido de que actua “apenas e tão somente” pelo bem desse filho.
E, caso o garoto se lhe torne revoltado, mentiroso e desleal,sentir-se-á profundamente magoado, ao mesmo tempo que se lamenta:
“Depois de tantos desvelos, de tanta dedicação para educá-lo...”
Esse pai, por mais que se sinta magoado e recrimine a ingratidão do filho, não está com a razão.
E não está precisamente porque não foi capaz de amá-lo “ao modo dele”, isto é, procurando o “modo” mais fecundo de lhe fazer o bem.
Com isto, já estamos esclarecendo que, quando dizemos “ao modo dele”, não pensamos que o amor paterno deva acomodar-se a todos os caprichos e vontades do filho.
Se fizesse isso, esse pai cairia naquela “bondosidade mole” que mais destrói do que edifica.
A expressão “ao modo dele” significa, neste caso, o esforço da mente e do coração por acertar com a maneira realmente eficaz de ajudar o filho a ser melhor.
Podemos dar por certo que esse mesmo pai, se tivesse atuado com mais paciência e, sobretudo, se tivesse dedicado mais tempo a fazer-se amigo do filho, conseguiria que as suas correcções fossem construtivas.
É muito fácil “cair em cima” e dizer “eu tenho razão”.
Já foi lembrado por alguém que, por ter razão, até agora ninguém foi para o céu.
É muito mais profícuo guardar a razão, ao menos provisoriamente, no bolso, e pensar seriamente:
“Como posso mesmo ajudá-lo a melhorar?”
Não tenhamos dúvida de que o pai em foco ajudaria imenso se gastasse mais algum tempo no fim do dia, e nos fins de semana, a sair, jogar bola, discutir música e conversar com o filho, tornando-se assim o seu melhor amigo.  
Nesse clima de amizade confiante, poderia orientá-lo e corrigi-lo, quando fosse o caso, com palavras cheias de credibilidade, já que o filho perceberia que, se o pai o contraria, não é por ser um maníaco perfeccionista nem por estar irritado, mas porque gosta dele e o quer ajudar.
É a isto que chamamos amar “ao modo” dos outros.
Uma arte extremamente necessária e certamente nada fácil.
Só o amor generoso é capaz de aprendê-la.

A PEDRA PRECIOSA

Mons. Escrivá, um sacerdote que irradiou bondade, despertando milhares de corações para o bem, costumava dizer que cada pessoa, cada alma, deve ser tratada como uma pedra preciosa.
Não existem duas pedras preciosas idênticas, que possam ser lapidadas da mesma maneira.
O bom lapidador etuda-as uma a uma, e daí tira conclusões sobre o modo de extrair o máximo de perfeição e beleza de cada uma delas.
Assim deve ser com as almas. O estudo atento do lapidador é, neste caso, a afectuosa atenção que prestamos a cada pessoa, esforçando-nos por compreender o seu modo de ser, o porquê das suas arestas e pontos frágeis, as linhas em que melhor pode ser “trabalhada”.
E o modo de tratá-la, de ajudá-la, decorrerá dessa prévia compreensão.
Para tanto, não é necessário possuir conhecimentos muito especializados de psicologia.
Basta a psicologia do afecto, que proporciona uma profunda acuidade aos olhos.
O amor de uma mãe não precisa de manuais de psicologia para intuir, de modo certeiro, o que está acontecendo com o filho.
Basta o carinho, o interesse e a vontade de se dar.
Não esqueçamos, por outro lado, que todo o bom lapidador é paciente, o que significa que tem a consciência de que, para transformar um diamante bruto num esplêndido brilhante, vai precisar de longo tempo, de trabalho minucioso, e que só pouco a pouco irá progredindo no seu lavor.
Eis aqui outra das manifestações da autêntica bondade.
Assim como a bondade mole se compõe de superficiais pinceladas de amabilidade, a verdadeira bondade traduz-se numa dedicação infatigável.
Dá-se sem pausa, espera sem cansaço e não desiste jamais.
Persiste incansavelmente, sem abrandar a generosidade da entrega, até ver despontar finalmente os frutos; e aguarda confiante – permita-se-nos repeti-lo – que as “sementes de bondade” dos outros acabem por germinar.
A doação de um homem bom nunca é estéril.
Francisco Faus [i]


[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.


29/12/2018

Leitura espiritual


O HOMEM BOM



DESCULPAR E ESPERAR




É impossível existir bondade sem compreensão. E é impossível existir verdadeira compreensão sem a disposição de desculpar.
Todas as vezes que julgamos uma pessoa e concluímos, como quem dita uma sentença:
“Ela é assim”, “é insuportável”, “é maçante”, “é preguiçoso”, etc., estamos a condená-la.
Ao fazer tais juízos, colocamos nos outros uma etiqueta, como se faz num frasco ou num insecto coleccionado, e os fechamos nessa definição.
Dizer de uma pessoa: “Ela é assim” equivale a perder a esperança deque venha a mudar.
Como se partíssemos da base de que vai ser assim para sempre e de que o máximo de bondade que lhe podemos dedicar é apenas sermos pacientes, suportando-a tal como é.
Mas essa apreciação é falsa, está viciada na raiz, porque todo o ser humano tem na alma “sementes de bondade”, latentes mas reais, que podem ser desenvolvidas.
Nenhuma pessoa consiste apenas nos defeitos que denota exteriormente.
Todas têm infinitas possibilidades de bem que – com a graça de Deus, o seu esforço e a nossa ajuda – um dia podem vir a ser belas realidades.
Por isso, Cristo nos manda não condenar ninguém (cfr. Lc 6, 37), como se já estivesse “acabado”.
O contrário de condenar é desculpar e esperar. O coração do homem bom está sempre inclinado a desculpar.
Ao julgar os outros, evita usar o verbo “ser” – Fulano é assim –, e prefere empregar o verbo “ter”: essa pessoa, que – como todos os filhos de Deus – é potencialmente santa, agora, por uma série de circunstâncias, tem tal ou qual defeito, mas isso não quer dizer que sempre deva tê-lo.
É muito provável que uma série de dificuldades a levem a comportar-se assim.
É justo tê-las em conta.
Talvez seja grosseira porque não recebeu uma educação esmerada, a ou arrogante porque foi humilhado sente necessidade de se afirmar, ou impaciente porque lhe dói o fígado...
Sempre há uma desculpa, afectuosa, que os “bons olhos” da bondade detectam, uma desculpa com fundamento objectivo, real, que impede que julguemos esta ou aquela pessoa com dureza e, ainda mais, que a desclassifiquemos.
Certamente os outros têm defeitos, como nós os temos, mas felizmente não estão acorrentados por eles como um sentenciado a prisão perpétua.
Está nas nossas mãos – está nas mãos da nossa bondade – desamarrar-lhes esses grilhões.
Esta é uma das mais delicadas tarefas do amor benigno: não deixar ninguém de lado por impossível, antes dar-lhe a mão, ajudá-lo incansavelmente – com infinita compreensão e paciência – a soltar um a um os elos dos defeitos que compõem essas suas correntes.
Naturalmente, isto pressupõe que saibamos confiar – como víamos – na capacidade de bondade das pessoas, e portanto na sua possibilidade de mudar. Já foi dito alguma vez que perder a confiança em alguém é matá-lo.
Também é verdadeira a afirmação contrária: confiar em alguém é dar-lhe a vida.
É claro que essa confiança não se confunde com a credulidade ingénua, que fecha os olhos e julga que, afinal, todo o mundo é bom.
A verdadeira confiança é outra coisa.
O homem bom não é cego nem insensível aos valores.
Não deixa de ver o mal, em toda a sua dimensão perniciosa, e chama erro ao erro, e pecado ao pecado.
Mas, ao mesmo tempo, acredita com todas as suas forças que aquelas “sementes de bondade” que dormem em cada coração humano podem ser activadas, podem ser cultivadas.
Por isso, arregaça as mangas e, sem reclamar dos espinhos dos outros, trabalha para que neles desabrochem as rosas.
A BONDADE CULTIVA O BEM

O homem bom faz bem aos outros somente com a sua presença, pela força atraente das virtudes. Mas o seu influxo benéfico não se limita a isso.
Acabamos de ver que tem a disposição de trabalhar, de fazer alguma coisa para que o bem desabroche nos outros. Vive, para dizê-lo em poucas palavras, a serviço do bem dos outros.
Não há dúvida de que este é um belo ideal de vida. Quem não almeja passar pelo mundo deixando, como Cristo, uma esteira de bondade, fazendo o bem (At 10, 38)? “Que a tua vida – lê-se em Caminho – não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor” (n. 1).
Estas palavras são todo um empolgante programa de bondade.
A este propósito, lembro-me de um livro que me causou impressão. Intitulava-se “Viveu para ninguém”, e era o romance de um homem medíocre, vulgar, que passou pelo mundo sem deixar rasto algum. Dele se poderia dizer, como um triste epitáfio, que teria dado na mesma se nunca tivesse existido. Seria penoso que um tal epitáfio se pudesse aplicar a nós.
Pois bem, é hora de nos perguntarmos sinceramente o que nós deixamos de bom nos corações e nas vidas dos que vivem e trabalham connosco. Como estamos contribuindo para o seu bem?
Comecemos por convencer-nos de que a primeira ajuda que devemos prestar-lhes consiste em não lhes criar dificuldades.
Porque, infelizmente, com frequência somos mais obstáculo do que auxílio.
E o pior é que não nos apercebemos disso.
Se nos dissessem: “A sua esposa, o seu filho, o seu colega, o seu pai, têm tais e tais problemas, tais e tais defeitos, e você é a causa deles”, levaríamos uma surpresa.
“Como assim?”, retrucaríamos. “Eu, que tenho que sofrer esses defeitos, ainda por cima sou culpado deles?” Pois sim, muitas vezes o somos.
Tomemos por exemplo um honesto pai de família, trabalhador abnegado, daqueles que “só vivem para a família”.
Trabalha em dois empregos e volta cansado ao lar. Ao mesmo tempo, tem um temperamento fechado, não é homem de muitas palavras. Os familiares vêem-no soturno e calado, e não se atrevem a interferir no seu aparente mau humor. Caso lhe perguntem: “Está aborrecido? Acontece-lhe alguma coisa?”, responderá, com olhar de surpresa, que não lhe acontece nada. Talvez acrescente: “Sou assim mesmo, é o meu jeito”.
Ora, acontece que esse “jeito” é uma barreira. Bloqueia o diálogo com a esposa e os filhos.
A mulher, sentindo-se cada vez mais isolada, sem poder compartilhar as suas fadigas com o marido, irá ficando cada vez mais nervosa e multiplicará as faltas de paciência com as crianças. O marido lamentará que os nervos da mulher estejam criando um ambiente pesado no lar. Mas nem he passará pela cabeça que foi ele quem o provocou, com a sua cómoda abstenção. Se tivesse aprendido a chegar ao lar sorrindo, acolhendo, interessando-se pelos problemas da mulher e dos filhos, teria criado condições para um diálogo amável. Teria facilitado um clima cordial, em que os nervos dos outros se dissolveriam. E haveria paz.
De modo análogo, podemos pensar no chefe de um escritório que reclama da falta de iniciativa de um dos seus subordinados: acha que é um homem sem garra no trabalho, que lhe falta entusiasmo e realiza as suas tarefas de modo rotineiro e como que a contragosto. Certamente, este não é o estado de ânimo ideal para um trabalho dinâmico e criativo.
Mas de quem é a culpa?
Pode muito bem suceder que semelhante inibição e falta de eficiência do empregado tenha sido provocada por esse mesmo superior, que nunca soube incentivá-lo, nem teve paciência para ensiná-lo, nem lhe ofereceu o estímulo de uma palavra positiva, que fizesse o outro sentir-se valorizado.
Só soube cobrar e criticar.
A culpa, sem dúvida nenhuma, é do chefe.
Isto é dificultar o bem dos outros com os nossos defeitos e as nossas omissões.
Aí não há bondade, porque não lhes fazemos bem.

Francisco Faus [i]


[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.


28/12/2018

Leitura espiritual


O HOMEM BOM



O ESPELHO DOS NOSSOS DEFEITOS





Estamos vendo que a falta de bondade se manifesta, entre outras coisas, pela reacção que os defeitos alheios provocam em nós: umas vezes, de impaciência; outras, de desprezo ou cansaço.
Ejá percebemos que tais reacções não são propriamente “provocadas” pelos defeitos dos outros, mas são “activadas” pelo nosso egoísmo ou pelo nosso orgulho.
Talvez compreendamos melhor o que se passa connosco se percebermos que, devido ao nosso egoísmo e à nossa auto-suficiência, a primeira coisa que notamos nos outros é a sombra que os seus defeitos projectam sobre o espelho dos nossos próprios defeitos.
Por outras palavras, os defeitos alheios incomodam-nos precisamente porque ferem um defeito nosso.
Alguns exemplos podem esclarecer-nos.
Não é raro que um marido se sinta tremendamente aborrecido quando, ao chegar a casa cansado no fim do expediente, a mulher se dedica a martelar-lhe os ouvidos com uma longa cantilena de reclamações e lamentos: o elenco das contrariedades do dia.
A reacção espontânea do marido é perder o bom humor:
 “Por que não me deixa em paz?
Será que não compreende que tenhodireito a um pouco de tranquilidade após um dia de trabalho estafante?”
Aparentemente, este marido tem razão.
E certamente a esposa faria bem se guardasse para si as suas queixas e se ocupasse em tornar mais amável o convívio familiar.
Mas também é verdade que a reacção de impaciência e desgosto do marido não nasceu do amor: a ladainha enfadonha da mulher projectou-lhe uma sombra sobre o seu comodismo, feriu o seu comodismo, e por isso o perturbou.
Fosse um homem de coração generoso, e a fraqueza da mulher se projectaria sobre o espelho do amor compreensivo, e nesse caso a reacção seria outra.
Poderíamos falar também da impaciência do pai que recebe o boletim do colégio do filho enfeitado de vermelhos.
É natural que esse mau desempenho nos estudos preocupe o pai e até que o deixe indignado.
É lógico que tenha uma conversa menos suave com o filho.
Mas, ao mesmo tempo, seria muito bom que analisasse o seu coração e se perguntasse: estou reagindo só por amor ao filho, pelo seu bem, ou porque me humilha que o meu garoto seja dos últimos da classe, e isso projecta uma sombra no espelho da minha vaidade?
Pode muito bem acontecer que o sentimento predominante seja este último, e então a impaciência é a reacção de um defeito pessoal atingido.
O mesmo poderíamos dizer quando notamos que possuímos uma grande facilidade para “ver” que os nossos colegas são antipáticos, pouco inteligentes, maçantes e desleais..., quando, na realidade, o que “não vemos” é que estamos deixando-nos dominar pela inveja, pois o que nos aborrece é que, apesar de tantas deficiências que observamos neles, estão-se saindo melhor do que nós e tendo maior sucesso no seu trabalho.
Já dizia o Padre Vieira que “os olhos vêem pelo coração; e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal c os corações” (Sermão da quinta Quarta-feira, 1669).
Quando o coração é limpo e bom, enxerga as coisas limpas e boas do mundo, especialmente as coisas limpas e boas dos outros.
Se está manchado, projecta a sua sujidade em tudo.
Se fôssemos mais humildes e esquecidos de nós mesmos, ao percebermos que as fraquezas e os erros dos outros fazem saltar como uma mola os nossos próprios defeitos, começaríamos por tentar limpar esses nossos defeitos.
Um pequeno insecto pousado sobre uma ferida aberta incomoda muito.
Mas se curarmos essa ferida, a presença do insecto sobre a pele sadia será quase imperceptível.
Meditando nestes aspectos, Santo Agostinho sugeria um sistema excelente:
“Procurai adquirir as virtudes que julgais faltarem aos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque vós mesmos não os tereis” (Enarrat. in Psalmis, 30, 2, 7).
Vale a pena tentar essa experiência. Suponhamos, por exemplo, que estamos a conviver com uma pessoa ríspida.
Fala bruscamente, agride com comentários, critica tudo.
Isso “provoca-nos” e impele-nos a retrucar com a mesma moeda: quase sem repararmos, também nós nos tornamos agressivos e azedos.
 Esforcemo-nos por dar uma virada.
Tentemos, como ensina São Paulo, vencer o mal com o bem (Rom 12, 21).
Iniciemos decididamente uma campanha de paciência, amabilidade e mansidão.
É muito provável que aconteçam duas coisas: primeiro, que a pessoa que nos “provoca” fique desarmada perante a nossa afabilidade, e mude; segundo, que nós mesmos, com a alma limpa de preocupações egoístas, venhamos a descobrir que aquela rispidez “incompreensível” outra coisa não era senão a amargura de alguém que não sentia reconhecido e valorizado o seu trabalho; ou então era o queixume surdo de quem tinha ânsias de um pouco mais de atenção que ninguém lhe dava.
Uma vez feita essa constatação, já não veremos mais um defeito que aborrece, mas uma carência que, com carinho, procuraremos aliviar. Passaremos a olhar o problema com o calor aconchegante da bondade.
Como dizia alguém, “somente nos irritam os nossos defeitos”. As agulhadas e impertinências dos outros são “cutucões” sobre os nossos defeitos, que Deus permite para que os vejamos melhor e nos decidamos a vencê-los.
Se arrancarmos os nossos defeitos, as “pedras” do nosso campo – da nossa alma –, não sentiremos mais os “pontapés” dos outros, porque não terão onde tropeçar.
Se todos nós compreendêssemos estas verdades simples, haveria mais paz nas famílias e, em geral, no convívio humano, e muitas desavenças crónicas abririam passagem à harmonia.
Francisco Faus [i]


[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.


27/12/2018

Leitura espiritual


O HOMEM BOM





ATENÇÃO AMOROSA


Não desprezar.

Aqui temos o que poderíamos chamar o “primeiro mandamento” da benignidade.
Valorizar e confiar, esta é a versão positiva desse mandamento.
Uma das manifestações mais comoventes da bondade de Cristo é a sua infinita capacidade de prestar uma atenção amorosa e confiante a todos, mesmo aos que parecem mais pervertidos e irrecuperáveis.
É uma atitude que vemos a cada passo nos relatos evangélicos, ao contemplarmos o modo acolhedor e esperançado com que Cristo encara os pecadores, os miseráveis, todos aqueles que aparecem como o rebotalho imprestável do mundo.
Há, concretamente, uma passagem do Evangelho em que essa atitude se revela com grande transparência.
São Lucas pinta a cena com os traços de um drama em que intervêm dois personagens, Cristo e um fariseu chamado Simão.
Ambos contemplam o mesmo facto: a irrupção inesperada de uma mulher pecadora na casa do fariseu, onde Jesus estava à mesa juntamente com outros convidados.
E eis que uma mulher, que era pecadora na cidade, quando soube que Ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro cheio de bálsamo.
Estando a seus pés, detrás d’Ele, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas, enxugava-os com os cabelos da sua cabeça, beijava-os e ungia-os com bálsamo (Lc 7, 37-38). Aquela pobre mulher, tocada na alma pela divina bondade de Cristo, não sabe o que fazer para expressar a sua dor, o seu arrependimento.
Dois pares de olhos fixam-se especialmente nela: os do fariseu Simão e os de Cristo. Ambos observam a mesma cena, a mesma pessoa, os mesmos gestos. Mas vêem coisas inteiramente diferentes.
O fariseu fixa na pecadora o olhar do desprezo: Vendo isto, o fariseu que o tinha convidado disse consigo: Se este fosse profeta, com certeza saberia quem e qual é a mulher que o toca, e que é pecadora. Simão só vê o “lado mau”.
Cristo, pelo contrário, dirige à pecadora o olhar do amor benigno. Mansamente, volta-se para o fariseu e diz-lhe: Simão, tenho uma coisa a dizer-te... E o que Cristo vai dizer-lhe, com um laivo de tristeza, é que Simão ainda não aprendeu a enxergar com bondade, ainda não aprendeu a apreciar o valor dos outros com uma “atenção amorosa”.
Um credor – começa Cristo – tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários, o outro cinquenta. Não tendo ele com que pagar, perdoou a ambos a dívida. Qual deles, pois, mais
o amará? O que equivale a dizer: Simão, onde tu vês um atrevimento despudorado, eu vejo amor.
Esta pobre criatura chora a pena do arrependimento e a alegria do perdão.
E prossegue: Vês esta mulher?... – sim, é necessário, é importante conseguir “ver” os outros –, vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; e esta com as suas lágrimas banhou os meus pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o beijo da paz, mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste a minha cabeça com bálsamo, mas esta ungiu com bálsamo os meus pés. Pelo que te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados porque muito amou (cfr. Lc 7, 40-47).
Como se percebe bem aqui o modo de olhar de Jesus! Mais do que ninguém, Cristo era capaz de penetrar no abismo de mal que o pecado cavara naquela alma. E mais do que ninguém, por ser Ele Deus – Deus feito homem –, podia sentir-se atingido pelo pecado, pois este é, acima de tudo, ofensa a Deus.
Nada disso, porém, passa para o primeiro plano no olhar de Cristo. Na escuridão do pecado que envolve a alma daquela mulher, não detém a vista no que o ofende; só vê brilhar – como a luz que cintila numa noite escura – a bondade que começa a desabrochar naquela alma dolorida.
Apenas vê o “lado bom”, a raiz de bondade que está a despertar e que Ele pode e quer ajudar a O fariseu, sem dúvida, teria expulsado asperamente a pecadora, e com isso certamente a teria ferido, teria abafado a sua esperança, tê-la-ia acorrentado, talvez para sempre, ao seu mal.
Cristo estende-lhe a mão e a salva: A tua fé te salvou; vai em paz (Lc 7, 50).
Na atitude de Cristo encontramos matéria abundante para meditar.
Francisco Faus [i]


[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.