Mostrar mensagens com a etiqueta Confissões (Santo Agostinho). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Confissões (Santo Agostinho). Mostrar todas as mensagens

06/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 16, 20-23

20 Em verdade, em verdade vos digo que haveis de chorar e gemer, e o mundo se há-de alegrar; haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria. 21 A mulher, quando dá à luz, está em sofrimento, porque chegou a sua hora, mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da sua aflição, pela alegria que sente de ter nascido um homem para o mundo. 22 Vós, pois, também estais agora tristes, mas hei-de ver-vos de novo e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos tirará a vossa alegria. 23 Naquele dia, não Me interrogareis sobre nada. «Em verdade, em verdade vos digo que, se pedirdes a Meu Pai alguma coisa em Meu nome, Ele vo-la dará.

Comentário:



Uma vez mais se insiste na alegria.


Esta virtude tão desejável por todos os homens é particularmente “obrigatória” para o cristão que se sabe filho de Deus em Cristo e este conhecimento não pode senão gerar uma alegria tão intensa e profunda que nada nem ninguém – o próprio Senhor o afirma – poderá arrebatar-lhe.


(ama, comentário sobre Jo 16, 20-23, 2015.05.15)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XXXII

A criação

Graças te damos, Senhor! Vemos o céu e a terra, isto é, a parte superior e inferior do mundo material, assim como a criação espiritual e material. E, como adorno dessas partes que compõe o conjunto do Universo e o conjunto de toda a criação, vemos a luz que foi criada e separada pelas trevas. Vemos o firmamento do céu, tanto o que está situado entre as águas espirituais superiores e as águas materiais inferiores, como ainda esses espaços de ar, chamados também céu, onde volitam as aves do céu entre as águas que se evolam em vapores, e nas noites serenas se condensam em orvalho, e as que correm pesadas sobre a terra. Vemos a beleza das águas reunidas nas planícies do mar e a terra enxuta, ora nua, ora tomando forma visível e ordenada, mãe das plantas e das árvores. Vemos os luminares do céu brilhando acima de nós, o sol bastar para o dia, a lua e as estrelas consolando a noite, e todos esses astros marcando e assinalando a cadência do tempo. Vemos o elemento húmido habitado por peixes, monstros, animais alados, porque a densidade do ar que sustenta o voo dos pássaros é aumentada pela evaporação das águas. Vemos a face da terra embelezar-se de animais terrestres, e o homem, criado à tua imagem e semelhança, senhor de todos os animais irracionais, precisamente porque foi feito à tua imagem e se assemelha a ti, em virtude da razão e da inteligência. E como na alma humana há uma parte que domina pela reflexão e outra que se submete na obediência, assim a mulher foi criada fisicamente para o homem; é fora de dúvida que ela possui um espírito e uma inteligência racional, iguais aos do homem, mas o seu sexo coloca-a sob a dependência do sexo masculino; é desse modo que o desejo, princípio da acção, se submete à razão que concebe a arte do agir rectamente. Eis o que vemos, e que cada uma dessas coisas, tomadas por si, são boas, e que todas, no seu conjunto, são muito boas.

CAPÍTULO XXXIII

A matéria e a forma

Que as tuas obras te louvem para que te amemos! Que nós te amemos, para que as tuas obras te louvem! Elas têm o seu princípio e fim no tempo, o seu nascimento e morte, o seu progresso e decadência, a sua beleza e a sua imperfeição. Elas têm, portanto, sucessivamente a sua manhã e sua noite, umas ocultas; outras, manifestamente.

Foram feitas por ti do nada, não da tua substância, nem de nenhuma substância estranha ou inferior a ti, mas de matéria concriada, isto é, criada por ti ao mesmo tempo em que lhe deste forma, sem nenhum intervalo de tempo. Sem dúvida a matéria do céu e da terra é uma coisa, e a sua forma é outra; a tua matéria fizeste-a do nada, a forma, tu a tiraste da matéria informe.

Contudo, criaste uma e outra a um só tempo, de maneira que entre a matéria e a forma não houvesse nenhum intervalo de tempo.

CAPÍTULO XXXIV

Alegoria da criação

Também meditei sobre o significado simbólico da ordem pela qual se fez a tua criação e da ordem que a Escritura relata. Vimos que as tuas obras, consideradas uma a uma, são boas, e no seu conjunto, muito boas. No teu Verbo, no teu Filho único, vimos o céu e a terra, a cabeça e o corpo da Igreja, predestinadas antes de todos os tempos, quando ainda não havia nem manhã, nem tarde. Depois começaste a executar no tempo o que predestinaste antes do tempo, a fim de revelar os teus desígnios ocultos e de dar ordem às nossas desordens – porque pesavam sobre nós os nossos pecados, e nos perdíamos longe de ti em voragens de trevas. O teu Espírito misericordioso pairava sobre nós, para nos socorrer no momento oportuno. Justificaste os ímpios; tu os separaste dos pecadores e confirmaste a autoridade do teu Livro entre os superiores, que te eram dóceis, e os inferiores, para que a eles se submetessem. Reuniste num único corpo, com as mesmas aspirações, a sociedade dos infiéis, para que aparecesse o zelo dos fiéis fecundo em obras de misericórdia, e distribuindo aos pobres os bens da terra para adquirir os do céu.

Acendeste então os luzeiros no firmamento: os teus santos, que possuem a palavra de vida e brilham pela sublime autoridade dos seus dons espirituais. Depois, para difundir a fé entre as nações idólatras, fizeste com a matéria visível dos sacramentos os milagres bem perceptíveis, e determinaste as vozes das palavras sagradas, conformes ao firmamento do teu Livro, pelas quais seriam abençoados os teus fiéis. Formaste depois a alma viva dos fiéis, pela disciplina das paixões bem ordenadas e pelo vigor da continência. Por fim renovaste a alma, que não estava sujeita senão a ti, e que não tinha mais necessidade de nenhuma autoridade humana para imitar, a tua imagem e semelhança; submeteste, como a mulher ao homem, a actividade racional ao poder da inteligência. Quiseste que aos teus ministros que são necessários ao progresso dos fiéis nesta vida, que esses mesmos fiéis propiciassem o necessário para as suas necessidades temporais; obras valiosas de caridade, cujos frutos colherão no futuro. Vemos todas essas coisas, e todas são muito boas, porque tu as contemplas em nós, tu que nos deste o Espírito, para que por ele pudéssemos vê-las e amar-te nelas.

CAPÍTULO XXXV

Prece

Senhor Deus, tu que nos deste tudo, concede-nos a paz do repouso, a paz do Sábado, a paz do ocaso. De facto, esta formosíssima ordem de coisas muito boas, passará quando atingir o termo do seu destino, e terá a sua tarde como teve o seu amanhecer.

CAPÍTULO XXXVI

O repouso de Deus

O sétimo dia, porém, não tem crepúsculo; não entardece porque o santificaste para que se prolongue eternamente. E o repouso do teu sétimo dia, depois de ter criado tantas e tão boas obras, embora sem te causar fadiga, a palavra da tua Escritura anuncia-nos que também nós, depois de nossos trabalhos, que são bons porque assim no-lo concedeste, encontraremos o repouso em ti, no Sábado da vida eterna.

CAPÍTULO XXXVII

O repouso da alma

Então também repousarás em nós, como hoje opera em nós; e o repouso de que gozaremos será teu, como as obras que fazemos são tuas. Mas tu, Senhor, sempre estás activo e estás sempre em repouso. Tu não vês o tempo, não ages no tempo nem repousas no tempo; todavia, concede-nos que vejamos no tempo, fazes o próprio tempo e o repouso além do tempo.

CAPÍTULO XXXVIII

O descanso de Deus

Vemos, portanto, as tuas criaturas porque elas existem. Mas elas existem porque tu as vês. Olhando à nossa volta, vemos que elas existem; no nosso íntimo, vemos que são boas. Mas tu já as viste feitas quando e onde viste que deviam ser feitas. Agora somos inclinados a praticar o bem, depois que o nosso coração concebeu essa ideia no teu Espírito. Outrora estávamos inclinados ao mal, desertando de ti. Tu, porém, ó Deus, único bem, nunca cessaste de nos fazer o bem. Pela tua graça, algumas das nossas obras são boas, mas não são eternas. Esperamos, depois de realizá-las, repousar na tua grande santificação. Mas tu, que não precisas de nenhum outro bem, estás sempre em repouso, porque és teu próprio repouso.

Que homem poderá dar ao homem a compreensão desta verdade? Que anjo a outro anjo?

Que anjo ao homem? É a ti que devemos pedir, e em ti é que a devemos buscar, é à tua porta que devemos bater. E somente assim receberemos, somente assim encontraremos, somente assim se nos abrirá a tua porta.
FIM
Nota:

Stº Agostinho

Nunca deixou de me espantar o raciocínio lógico e conclusivo que torna simples e entendíveis as verdades da fé, a magnitude do "pensamento" divino, a impecável sabedoria do arquitecto da criação.

Nunca esquecendo o seu passado de vida algo desregrada e, até libertina, faz parecer que tenha sido necessário para encontrar o verdadeiro caminho.
As suas 'CONFISSÕES'' são de uma autenticidade chocante porque revelam o que verdadeiramente deve ser um coração humilhado e contrito.

Doutor da Igreja porque, verdadeiramente, ensina e faz doutrina.
Ensina com clareza, sem deixar a mais ínfima margem para a dúvida; doutrina com total segurança e certeza dizendo sempre o que é, como é, como deve ser.
Santo Agostinho tem uma dimensão gigantesca que, apesar do muito que se tem dito e escrito está ainda muito longe de esgotar-se.

Apetece-me dizer-te, Senhor, como ele: O meu coração está feito por Ti e para Ti e só se saciará quando estiver cheio de Ti. [1]

Santo Agostinho é um mestre da introspecção, do exame pessoal profundo e implacável. Estabelece como que um diálogo íntimo onde se coloca perguntas a si próprio e procura as respostas na visão de Deus.

De facto, o exame é um diálogo expressivo e vivo com o Criador.

As soluções que encontra, as respostas que obtém, estão sempre numa certeza insofismável de que lhe vêm de Deus. E espanta-se como a sua pessoa merece tal cuidado e interesse do Omnipotente, aniquilando-se e reduzindo-se a uma criatura pecadora, admite contudo que Deus lhe faça ver as verdades da fé, não porque o mereça mas porque Deus é infinitamente misericordioso.

No seu raciocínio procura respostas para tudo, tudo questiona, tudo analisa. Põe a nu uma mentalidade complexa fruto de toda uma vida de choques constantes entre a forma como a vivia e desejo de viver uma vida nova.

Sem dúvida que oração constante de sua Mãe, Santa Mónica, estará na "base" da sua conversão.

O grande problema que enfrentava era querer compreender para poder aceitar.
Como que resiste até ao último momento porque quer ter certezas, conclusões indiscutíveis e definitivas.

Finalmente percebe que o que pretende não está ao alcance do ser humano porque se trata de mistérios da Fé. Não se "entrega" sem luta mas compreende, finalmente, que se enfrenta com um dilema: tornar-se cristão recebendo o Baptismo assumindo assim a sua total dependência do Criador ou continuar na luta interior que tem vindo a travar.

E também entende que não tem - a sua mentalidade e espírito analítico não lhe permitem pensar de outro modo - não tem alternativa para o que procura - e portanto, adere à religião cristã, incorpora-se na Igreja.

A seriedade com que o faz é paradigma do seu pensamento, da dita maneira de enfrentar a vida.

Santo Agostinho é, sobretudo, um homem sério e de uma honestidade pessoal a toda a prova.

Expõe as suas dúvidas e ele próprio procura as respostas não dando tréguas a um "sistema escalpelizante", que se caracteriza por avanços progressivos de questão em questão.

Não dá um passo no seu processo de análise pessoal sem estar seguro do passo anterior estar bem assente,  resolvido.


Num processo longo mas contínuo vai como que despindo a roupagem da sua sabedoria e reduzindo a sua pessoa a um simples ser vivo absolutamente dependente do Criador.

Pede constantemente ao Senhor que o ilumine para que possa seguir em frente deixando "resolvidas" as questões que se lhe colocam.

Este homem de inteligência poderosa não tem qualquer pejo em considerar-se ignorante face à absoluta Sabedoria de Deus.


Acabará por chegar a um estado de intimidade com Deus tão profundo e completo que não tenho qualquer dúvida em considerar como estado de santidade.


Para mim, aparte tudo o mais, Santo Agostinho é o exemplo de seriedade intelectual e honestidade de pensamento. Não se impondo limites nas questões interroga sobre tudo em que não está absolutamente seguro, das coisas mais simples às mais elevadas, das evidências dos mistérios porque considera e com razão, que o Senhor tem todas as respostas e que não deixará de lhas dar, não por seu mérito mas pela Sua Misericórdia.


É talvez o maior exemplo do acatamento das palavras de Jesus: batei à porta e abrir-se-vos-á, procurai e encontrareis.


Aconselho vivamente a leitura dos seus livros, nomeadamente “Confissões” e “Cidade de Deus”, uma leitura detida e pautada por um sincero desejo de aprender as verdades da nossa Fé.

ama, 2016






[1] Enxomil, 2010.02.24

07/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana IV

Evangelho: Jo 4, 43-54

43 Passados dois dias, partiu Jesus dali para a Galileia.44 Porque o mesmo Jesus tinha afirmado que um profeta não é respeitado na sua própria pátria.45 Tendo chegado à Galileia receberam-n'O bem os galileus porque tinham visto todas as coisas que fizera em Jerusalém durante a festa; pois também eles tinham ido à festa. 46 Foi, pois, novamente a Caná da Galileia, onde tinha convertido a água em vinho. Havia em Cafarnaum um funcionário real, cujo filho estava doente. 47 Este, tendo ouvido dizer que Jesus chegara da Judeia à Galileia, foi ter com Ele e pediu-Lhe que fosse a sua casa curar o filho que estava a morrer. 48 Jesus disse-lhe: «Vós, se não virdes milagres e prodígios não acreditais». 49 O funcionário real disse-Lhe: «Senhor, vem antes que o meu filho morra». 50 Jesus disse-lhe: «Vai, o teu filho vive». Deu o homem crédito ao que Jesus lhe disse e partiu. 51 Quando já ia para casa, vieram os criados ao seu encontro dizendo que o filho vivia. 52 Perguntou-lhes a hora em que o doente se sentira melhor. Disseram-lhe: «Ontem, à hora sétima, a febre deixou-o». 53 Reconheceu então o pai ser aquela mesma a hora em que Jesus lhe dissera: «Teu filho vive». Acreditou ele, assim como toda a sua família. 54 Foi este o segundo milagre que Jesus fez depois de ter vindo da Judeia para a Galileia.

Comentário:

Quem é este homem de elevada posição social, com criados às suas ordens, que não hesita em recorrer a Jesus numa hora de aflição?

Uma pessoa sem fé como se vê no final do trecho mas com bom espírito e critério.
Sabe reconhecer a Verdade quando a encontra e por isso não se detém no regresso a casa quando o Senhor lhe confirma que o filho vive.

A Fé é dada por Deus como um dom gratuito e sem qualquer merecimento da pessoa e Ele não quer outra coisa que oferecer esse dom a quem de facto demonstra ter as condições necessárias.

Ele acreditou e por causa dele, toda a sua família.

(ama, Comentário sobre, Jo 4, 43-54, 2015.03.16)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO TERCEIRO

CAPÍTULO II

A paixão dos espectáculos

Arrebatavam-me os espectáculos teatrais, cheios das imagens das minhas misérias e de alimento para o fogo da minha paixão. Mas, por que quer o homem condoer-se ao contemplar coisas tristes e trágicas, que de modo algum gostaria de suportar? Contudo, o espectador deseja sofrer com elas, e até essa mesma dor é o seu deleite. Que é isso, senão rematada loucura? De facto, tanto mais se comove alguém com elas quanto menos livre se está de tais afectos, embora chamemos de misérias os sofrimentos próprios, e de compaixão a comiseração do mal alheio.

Porém, que compaixão pode haver em coisas fictícias e representadas? Nelas não se incita o espectador a que socorra a alguém, senão que o mesmo é convidado apenas à angústia, apreciando tanto mais o autor daquelas histórias quanto maior é o sentimento que elas nos inspiram. De onde resulta que, se tais desgraças humanas – quer das histórias antigas, quer sejam inventadas – são representadas de forma a não se excitarem sofrimento ao expectador, este sai aborrecido e murmurando; se porém, pelo contrário, é levado à tristeza, fica atento e chora satisfeito.

Quer isso dizer que amamos as lágrimas e a dor? Sem dúvida que todo homem procura o gozo; mas como não agrada a ninguém ser miserável, e sendo grato a todos ser misericordioso, e como a piedade é inseparável da dor, não será esta a causa verdadeira para que apreciemos essas emoções dolorosas?

Também isso provém da amizade. Mas para onde se dirige? Para onde vai? Por que se atira à torrente da pez ardente, às vagas horrendas de negras leviandades em que a amizade se transforma voluntariamente, afastada e privada da sua celestial serenidade que o homem repudia?

Deve-se, pois, repelir-se a compaixão? De modo algum. Convém, pois, que alguma vez se amem as dores. Mas nisso evita a impureza, ó minha alma, sob protecção de Deus, do Deus de nossos pais, louvado e exaltado por todos os séculos; cuidado com a impureza. Porque nem agora me fecho a tal compaixão. Mas naquele tempo comprazia-me no teatro com os amantes, quando eles se gozavam nas suas torpezas – embora estas não passassem de encenações. E quando um deles se perdia, eu quase piedosamente me contristava, e sentia prazer numa e noutra coisa.

Hoje, porém, tenho mais compaixão do homem que se alegra com os seus vícios, que do que sofre pela perda de um prazer funesto ou pela perda de uma mísera felicidade. Esta misericórdia é certamente mais verdadeira, mas nela a dor não encontra nenhum prazer. E embora seja certo que se aprove quem por caridade se compadece do miserável, contudo, quem é fraternalmente compassivo preferiria que não houvesse razões para se compadecer. Porque assim como não é possível que exista uma benevolência malévola, tampouco o é que haja miseráveis para deles se compadecer.

Há, pois, dores que merecem compaixão, porém, nenhuma que mereça amor. Por isso tu, Deus, que amas as almas muito mais elevadamente que nós, te compadeces delas de modo muito mais puro, porque não sentes nenhuma dor. Mas quem será capaz de chegar a isso?

Mas eu, desventurado, amava então a dor, e buscava motivos para senti-la. Naquelas desgraças alheias, falsas e mímicas, agradava-me tanto mais a acção do actor, e me mantinha tanto mais atento quanto mais copiosas lágrimas me fazia derramar.

Mas, que admira que eu, infeliz ovelha transviada do teu rebanho, por não aceitar a tua protecção, estivesse atacado de ronha asquerosa? De aqui nasciam, sem dúvida, os desejos daquelas emoções de dor que, todavia, não queria que fossem muito profundas em mim, porque não desejava padecer coisas como as que via representadas. Comprazia-me que aquelas coisas, ouvidas ou fingidas, me tocassem só superficialmente. Mas, como acontece aos que coçam a ferida com as unhas, terminava por provocar em mim mesmo um tumor abrasador, podridão e pus repelente.

Tal era minha vida. Mas, seria isto, vida, meu Deus?

CAPÍTULO III

O estudo da retórica e os demolidores

Entretanto, a tua misericórdia, fiel, de longe pairava sobre mim. Em quantas iniquidades não me corrompi, meu Deus, levado por sacrílega curiosidade que, separando-me de ti, conduzia-me aos mais baixos, desleais e enganosos serviços aos demónios, a quem sacrificava as minhas más acções, sendo, em todas, flagelado com duro açoite por ti!

Também ousei apetecer ardentemente e procurar meios para conseguir os frutos da morte na celebração dos teus mistérios, dentro dos muros da tua igreja. Por isso me açoitaste com duras penas, que nada eram comparadas com minhas culpas, ó Deus, misericórdia infinita, e meu refúgio contra os terríveis malfeitores, com os quais vaguei de cabeça erguida, afastando-me cada vez mais de ti, preferindo os meus caminhos aos teus, amando a liberdade fugitiva!

Os estudos a que era entregue, que se denominavam honestos ou nobres, tinham por objectivo as contendas do foro, nas quais deveria distinguir-me com tanto maior louvor quanto mais hábeis fossem as mentiras. Tal é a cegueira dos homens, que até da sua própria cegueira se gloriam!

Eu já conseguira, naquele tempo, ser o primeiro da escola de retórica, e por isso me vangloriava soberbamente, e me inflava de orgulho. Contudo, tu sabes, Senhor, que eu era muito mais sossegado que os demais, e totalmente alheio às turbulências dos eversores – ou demolidores – nome sinistro e diabólico que eles consideravam distintivo de urbanidade, entre os quais vivia com imprudente pudor por não pertencer a seu grupo. É verdade que andava com eles, e que me deleitava, às vezes, com a sua amizade, porém, sempre aborreci o que faziam, como as troças e a insolência com que surpreendiam e ridicularizavam a timidez dos novatos, sem outra finalidade senão rir das suas trapalhadas, fazendo disso alimento para as suas malévolas alegrias. Nada há mais parecido a estas acções que as dos demónios, pelo que nenhum nome lhes cai melhor que o de eversores ou demolidores, por serem eles transformados e pervertidos totalmente pelos espíritos malignos, que assim os burlam e enganam, sem que o saibam, justamente no que eles gostam de ludibriar ou enganar os demais.

CAPÍTULO IV

O Hortênsio de Cícero

Entre essa gente estudava eu, em tão tenra idade, os livros da eloquência, na qual desejava sobressair com o fim condenável e vão de satisfazer a vaidade humana. Mas, seguindo o programa usado no ensino desses estudos, cheguei a um livro de Cícero, cuja linguagem, mais do que seu conteúdo, quase todos admiram. Esse livro contém uma exortação à filosofia, e chama-se Hortênsio. Esse livro mudou os meus sentimentos, e transferiu para ti, Senhor, as minhas súplicas, e fez com que mudassem os meus votos e desejos. Subitamente, tornou-se vil a meus olhos toda a vã esperança, e com incrível ardor do meu coração suspirava pela sabedoria imortal, e comecei a reerguer-me para voltar a ti. Não era para limar a linguagem – aperfeiçoamento que, parece, eu compraria com o dinheiro da minha mãe, naquela idade dos meus dezanove anos, fazendo dois que morrera meu pai – não era, repito, para limar o estilo que eu me dedicava à leitura daquele livro, nem era no seu estilo o que a ela me incitava, mas o que ele dizia.

Como ardiam, meu Deus, como ardiam os meus desejos de voar para ti das coisas terrenas, sem que eu soubesse o que obravas em mim! Porque em ti está a sabedoria, pela qual aquelas páginas me apaixonavam. Não faltam os que nos iludam servindo-se da filosofia, colocando ou encobrindo os seus erros com nome tão grande, tão doce e honesto. Mas quase todos os que assim fizeram no seu tempo e em épocas anteriores, são apontados e refutados nesse livro. Também se encontra ali bem claro aquele salutar aviso do teu Espírito, dado por meio do teu servo bom e piedoso (Paulo): Vede que ninguém vos engane com vãs filosofias e argúcias sedutoras, de acordo com a tradição dos homens e os ensinamentos deste mundo, e não de acordo com Cristo, porque é nele que habita corporalmente toda a plenitude da divindade.

Mas então – tu bem o sabes, luz do meu coração – eu ainda não conhecia o pensamento do teu Apóstolo. Só me deleitava naquelas palavras de exortação, o facto de me excitarem fortemente, inflamando-me a amar, a procurar, a conquistar, a reter e a abraçar não a esta ou aquela seita, senão a própria Sabedoria, onde quer que estivesse. Só uma coisa me arrefecia tão grande ardor: não ver ali o nome de Cristo. Porque este nome, Senhor, este nome do meu Salvador, teu filho, pela tua misericórdia eu o bebera piedosamente com o leite materno, e o conservava, no mais profundo do meu coração, em alto apreço; e assim, tudo quanto fosse escrito sem este nome, por mais verídico, elegante e erudito que fosse, não me arrebatava totalmente.

CAPÍTULO V

A desilusão das escrituras

Em vista disso, decidi dedicar-me ao estudo da Sagrada Escritura, para a conhecer. Vi ali algo encoberto para os soberbos e obscuro para as crianças, mas humilde a princípio e sublime à medida que se avança o segredo de mistérios; e eu não estava disposto a poder entrar nela, dobrando a cerviz à sua passagem. Contudo, ao fixar nela a atenção, não pensei o que agora estou dizendo, mas simplesmente me pareceu indigna de ser comparada com a majestade dos escritos de Cícero. O meu orgulho recusava a sua simplicidade, e a minha mente não lhe penetrava o íntimo. Contudo, a agudeza desta visão haveria de crescer com os pequenos; mas eu de nenhum modo queria ser criança e, enfatuado de soberba, considerava-me grande.

CAPÍTULO VI

A sedução do maniqueísmo

Deste modo vim cair com uns homens que deliravam orgulhosos, demasiado carnais e loquazes; na sua boca havia laços diabólicos e engodo pegajoso feito com as sílabas do teu nome, do nosso Senhor, Jesus Cristo, e do nosso Paráclito e Consolador, o Espírito Santo. Estes nomes nunca saíam dos seus lábios, porém, só no som e ruído da boca, pois de resto, o seu coração estava vazio de toda verdade.

Diziam: “Verdade! Verdade!” – e, incessantemente, falavam-me da verdade, que nunca existiu neles; antes, diziam muitas falsidades, não apenas de ti, que és verdade por excelência, mas também dos elementos deste mundo, criação tua. Sobre isso, mesmo quando os filósofos diziam a verdade, tive de ultrapassá-los nos raciocínios por amor de ti, ó pai sumamente bom, beleza de todas as belezas!

Ó verdade, verdade! Quão intimamente suspiravam por ti as fibras da minha alma, quando eles te faziam soar ao meu redor frequentemente e de muitos modos, embora apenas com as palavras e nos seus muitos e volumosos livros. Estes eram as bandejas nas quais, estando eu faminto de ti, me serviam em teu lugar o sol e a lua, formosas obras das tuas mãos, porém, obras tuas, e não a ti, nem sequer das principais. De facto, as tuas obras espirituais são superiores a estas corporais, ainda que estas sejam brilhantes e celestes. Mas eu tinha sede e fome não daquelas primeiras, mas de ti mesmo, ó verdade, na qual não há mudança nem obscuridade momentânea!

E eles serviam-me nessas bandejas esplêndidas ficções, de acordo com as quais teria sido melhor amar este sol, verdadeiro pelo menos aos olhos, em lugar daquelas falsidades que pelos olhos do corpo enganavam o entendimento.

Contudo, como as tomava por ti, alimentava-me delas, não certamente com avidez, porque não tinham o teu gosto – pois não eras aqueles vãos fantasmas – nem me nutria com elas, antes me sentia cada vez mais debilitado. A comida que se toma em sonhos, não obstante ser muito semelhante à do estado de vigília, não alimenta os que dormem, porque estão dormindo. Aquelas, porém, em nada eram semelhantes a ti, como agora me certificou a verdade, pois que eram fantasmas corpóreos ou falsos corpos; comparados com eles, são mais reais estes corpos – celestes ou terrestres – que vemos com os olhos da carne assim como os veem os animais e as aves.

Vemos estas coisas, e são mais reais do que as conjecturas sobre outros corpos grandiosos, que, por sua vez, quando as imaginamos, são mais reais do que quando por meio delas conjecturamos outras maiores e infinitas, que de modo algum existem. Com tais quimeras me alimentava eu, então, e por isso não me saciava.

Mas tu, meu amor, em quem desfaleço para me tornar forte, nem és estes corpos que vemos, mesmo no céu; nem os outros que não vemos, porque és o Criador e os ocultaste, e não os consideras como as obras-primas de tua criação.

Oh! Quão longe estavas daquelas minhas quimeras, fantasmas de corpos que jamais existiram em comparação, são mais reais as imagens dos corpos existentes; e, mais reais ainda essas imagens, esses mesmos corpos, os quais, todavia, não são tu! Mas também não és a alma que dá vida aos corpos – mas é a vida das almas, a vida das vidas, que vives, imutável, por ti mesma; a vida de minha alma.

Mas onde estavas então para mim? E quão longe peregrinava eu, longe de ti, privado até as bolotas com que eu alimentava os porcos! Quão melhores eram as fábulas dos gramáticos e poetas que todos aqueles enganos! Porque os versos, a poesia e a fábula de Medeia soando pelo ar são certamente mais úteis que os cinco elementos do mundo em seus mil disfarces, conforme os cinco antros de trevas, que não existem, mas que matam a quem nele acredita. Porém, versos e poesia eu posso convertê-los em iguaria para o meu espírito e, quanto ao voo de Medeia, se o recitava bem, não lhe afirmava veracidade e, se me agradava ouvi-lo, não lhe dava crédito. Mas – ai de mim! – eu acreditei naqueles erros dos maniqueístas.

Ai de mim, por que degraus fui descendo até a profundidade do abismo, exaurido e devorado pela falta de verdade quando te buscava! E tudo isso, meu Deus – a quem me confesso porque te compadeceste de mim quando ainda não te conhecia – tudo por procurar-te, não com a inteligência – com a qual quiseste que eu fosse superior aos animais – mas com os sentidos da carne. E tu estavas dentro de mim, mais profundo do que o que em mim existe de mais íntimo, e mais elevado do que o que em mim existe de mais alto.

Assim encontrei aquela mulher insolente e sem prudência – enigma de Salomão – que, sentada em uma cadeira à porta de sua casa, diz aos que passam: Comei à vontade dos pães escondidos, e bebei da doçura da água roubada, a qual me seduziu por eu andar vagando fora de mim, sob o império da vista carnal, ruminando em meu íntimo o que meus olhos haviam devorado.

(cont)


(Revisão de versão portuguesa por ama)

03/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana III

Evangelho: Lc 11, 14-23

14 Jesus estava a expulsar um demónio, que era mudo. Depois de ter expulsado o demónio, o mudo falou e as multidões ficaram maravilhadas. 15 Mas alguns disseram: «Ele expulsa os demónios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demónios». 16 Outros, para O tentarem, pediam-Lhe um prodígio vindo do céu. 17 Ele, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Todo o reino dividido contra si mesmo será devastado, e cairá casa sobre casa. 18 Se, pois, Satanás está dividido contra si mesmo, como estará em pé o seu reino? Porque vós dizeis que por virtude de Belzebu é que lanço fora os demónios. 19 Ora, se é pelo poder de Belzebu que Eu expulso os demónios, os vossos filhos pelo poder de quem os expulsam? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. 20 Mas se Eu, pelo dedo de Deus, lanço fora os demónios, certamente chegou a vós o reino de Deus. 21 Quando um, forte e armado, guarda o seu palácio, estão em segurança os bens que possui; 22 porém, se, sobrevindo outro mais forte do que ele, o vencer, tira-lhe as armas em que confiava, e reparte os seus despojos. 23 Quem não é comigo é contra Mim; e quem não colhe comigo desperdiça.

Comentário:

A resposta de Jesus aos que O assediam com perguntas e reparos sem qualquer objectivo que não fosse desacreditá-lo encerra uma argumentação de lógica irrefutável.

E por ser assim tão evidente e incontestável mais se admira que persistam no erro ou, por outro lado, se evidencia a sua má-fé e critério retorcido.

Ah! E a infinita paciência do Senhor que Se digna responder!

Talvez que o faça mais que para instruir os que O interrogam – que não aceitam as Suas respostas – o faça para formação dos outros circunstantes.

(ama, comentário sobre LC 11 14-23 2015.03.12)

Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO CONFISSÕES

LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULO XII

Ódio ao estudo

Nesta minha infância, na qual eu tinha menos que temer por mim do que em minha adolescência, eu não gostava dos estudos, e odiava que a eles me obrigassem. Contudo, era coagido, e faziam-me grande bem. Quem não procedia bem era eu, que não estudava a não ser constrangido, pois ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom o que faz.

Tampouco os que obrigavam a estudar agiam correctamente; antes, todo o bem que eu recebia vinha de ti, meu Deus, porque eles não tinham outro fim ao obrigarem-me a estudar senão saciar o apetite de abundante miséria e de glória ignominiosa. Mas tu, Senhor, que tens contados os cabelos de nossa cabeça, usavas do erro de todos os que me coagiam a estudar para minha utilidade; e usavas da minha falta de vontade de estudar para meu castigo, de que certamente eu já era digno, sendo ainda tão pequeno, e tão grande pecador.
Assim, convertias em bem o mal que eles me faziam, e dos meus pecados, me davas justa retribuição, porque é teu desígnio, e assim acontece, que toda alma desordenada seja castigo de si mesma.

CAPÍTULO XIII

Gosto pelo latim

Porque odiava eu as letras gregas, que me ensinavam quando eu era criança? Não o sei, e nem agora o posso explicar. Em compensação, as letras latinas me apaixonavam, não as ensinadas pelos professores primários, mas a que é explicada pelos chamados gramáticos, porque aquelas primeiras, com as quais se aprende a ler, a escrever e a contar, não me foram menos pesadas e insuportáveis que as gregas. Mas donde podia proceder essa aversão, senão do pecado e da vaidade da vida, porque eu era carne e vento que caminha e não volta?

Aquelas primeiras letras, pelas quais podia, como ainda faço, chegar e ler tudo o que há escrito e a escrever tudo o que quero, eram melhores e mais úteis que aquelas outras nas quais me obrigavam a decorar os erros de um tal Eneias, esquecido dos meus, e a chorar a morte de Dido, que se suicidou por amor, enquanto isso, eu, miserabilíssimo, suportava a minha própria morte com olhos enxutos, morrendo para ti, ó meu Deus, minha vida! Na verdade, que pode haver de mais miserável do que um infeliz que não se compadece de si mesmo e que, chorando a morte de Dido por amor de Eneias, não chora sua própria morte por falta de amor a ti, ó Deus, luz do meu coração, pão interior de minha alma, virtude fecundante do meu pensamento? Não te amava; prevaricava longe de ti, e ouvia de todas as partes: “Muito bem! Muito bem!” – porque a amizade deste mundo é adultério contra ti; e se aclamam a alguém dizendo: “Muito bem! Muito bem!” – é para que este não se envergonhe de ser assim. Eu não chorava estas faltas, chorava a morte de Dido “que se suicidou com a espada”, eu procurava as últimas de tuas criaturas, abandonando-te a ti, como terra que eu era, atraída pela terra. Se então me proibissem a leitura de tais coisas, me afligiriam por não ler aquilo que me comovia até a dor.
Não obstante, semelhante loucura é considerada como coisa mais nobre e proveitosa que as letras pelas quais aprendemos a ler e a escrever.

Mas agora, meu Deus, grite na minha alma a tua verdade, e diga: Não é assim, não é assim, antes, aquela primeira instrução é absolutamente superior; pois eu preferiria esquecer todas as aventuras de Eneias, e outras histórias semelhantes, do que o saber ler e escrever. Sei que nas escolas dos gramáticos pendem cortinas às portas; porém, servem menos para velar o segredo que para encobrir o erro.

Não gritem contra mim aqueles mestres a quem já não temo, enquanto confesso a ti os desejos de minha alma, e aborreço dos meus maus caminhos, a fim de amar os teus. Não gritem contra mim os comerciantes da gramática, pois, se eu os interrogar sobre se é verdade que Eneias veio uma vez a Cartago, como afirma o poeta, os néscios responderão que não sabem, e os sábios negarão o facto. Porém, se lhes perguntar como se escreve o nome de Eneias, todos os que estudaram me responderão a mesma coisa, de acordo com a convenção com que os homens fixaram o valor das letras do alfabeto.

Do mesmo modo, se lhes perguntar o que seria mais prejudicial para a vida humana: esquecer o ler e o escrever, ou todas as ficções dos poetas, quem não vê o que logo responderia aquele que não estivesse de tudo esquecido de ti? Pequei, pois, em minha infância, ao preferir vãos aos proveitosos, ou para dizer melhor, ao amar àqueles e ao odiar a estes; era para mim uma cantiga odiosa aquele “um e um, dois; dois e dois, quatro; enquanto considerava espectáculo encantador a história do cavalo de madeira cheio de guerreiros e o incêndio de Troia, “e até a sombra de Creuza”.

CAPÍTULO XIV

Aversão ao grego

Por que então aborrecia eu a literatura grega na qual se cantam tais coisas? Porque também Homero é mui habilidoso em tecer essas historietas, dulcíssimo na sua frivolidade, embora para mim, menino, fosse bem amargo. Creio que o mesmo ocorra com Virgílio para os meninos gregos obrigados a estudá-lo, como a mim com relação a Homero. Era a dificuldade de ter de aprender totalmente uma língua estranha que, como fel, aspergia de amargura todas as doçuras das fábulas gregas.

Eu ainda não conhecia nenhuma palavra daquela língua, e já me obrigavam com veemência, com crueldades e terríveis castigos, a aprendê-la. Na verdade, eu, ainda criança, também não conhecia nenhuma palavra de latim; contudo, com um pouco de atenção, o aprendi entre o carinho das amas, os gracejos dos que se riam e as alegrias dos que brincavam, sem medo algum nem tormento. Eu aprendi-o, sem a pressão dos castigos, impelido unicamente por meu coração desejoso de dar à luz seus sentimentos, e o único caminho para isso era aprender algumas palavras, não dos que as ensinavam, mas do que falavam, em cujos ouvidos ia eu depositando quanto sentia.

Por aqui se evidencia claramente que, para instruir, tem mais eficácia e curiosidade livre do que a necessidade inspirada pelo medo. Contudo, os excessos da curiosidade encontram nessa violência um freio segundo tuas leis, ó Deus; que desde as palmatórias dos mestres até os tormentos dos mártires sabem dosar suas salutares amarguras, que nos reconduzem a ti do seio do pernicioso deleite que de ti nos apartara.

CAPÍTULO XV

Oração

Ouvi, Senhor, minha oração, para que não desfaleça minha alma sob a tua lei, nem me canse em confessar as tuas misericórdias, com as quais me arrancaste dos meus perversos caminhos; que a tua doçura sobrepuje todas as doçuras que segui, e assim te ame fortissimamente, e abrace a tua mão com toda a minha alma, e me livres de toda a tentação até o fim dos meus dias.

Pois é, Senhor, meu rei e meu Deus, e a ti consagro quanto falo, escrevo, leio e conto, pois quando aprendia aquelas futilidades, tu eras o que me davas a verdadeira disciplina, e já me perdoaste os pecados de deleite cometidos naquelas vaidades. Aprendi muitas palavras úteis nelas, é verdade; porém, estas também se podem aprender em estudos sérios, e este é o caminho seguro pelo qual deveriam encaminhar as crianças.

CAPÍTULO XVI

O mal da mitologia

Ai de ti, torrente dos hábitos humanos! Quem há que te resista? Quando te secarás? Até quando irás arrastar os filhos de Eva a esse mar imenso e tenebroso, que apenas logram passar os que embarcam sobre o lenho da cruz? Acaso não foi em ti que li a fábula de Júpiter que troveja e adultera? É verdade que não podia fazer tais coisas ao mesmo tempo, mas assim se representou para autorizar a imitação de um verdadeiro adultério com o encantamento de um falso trovão. Contudo, qual é o professor de pénula capaz de ouvir com paciência a um homem nascido do mesmo pó que clama e diz: “Homero imaginava essas ficções e atribuía aos deuses os vícios humanos; porém, eu preferiria que atribuísse a nós as qualidades divinas”. Com mais verdade se diria que Homero imaginou tudo isso, atribuindo qualidades divinas a homens corrompidos, para que os vícios não fossem considerados como tais, e para que todo aquele que os cometesse parecesse que imitava a deuses celestes, e não a homens corrompidos.

E contudo, ó torrente infernal, em ti se precipitam os filhos dos homens, com o dinheiro gasto para aprender tais coisas. E consideram acontecimento importante representá-lo, publicamente no Foro, à vista das leis que concedem aos mestres um prémio, além de seus salários particulares.

E ferindo os rochedos de tuas margens, gritas dizendo: “Aqui se aprendem as palavras; aqui se adquire a eloquência, tão necessária para persuadir e explicar os pensamentos; não poderíamos pois aprender as palavras: chuva de ouro, regaço, templo celeste, logro e outras mais, escritas em determinada passagem, se Terêncio não nos apresentasse um jovem perdido que se propõe a imitar a luxúria de Júpiter? Contemplava ele uma pintura mural “na qual se representava o mesmo Júpiter no momento em que, segundo dizem, descia como chuva de ouro sobre o regaço de Danae, para lograr assim à pobre mulher”.

E vede como se excitava à luxúria a vista de tão celestial mestre:

- Mas que deus fez isto? – diz.

- Nada menos que aquele que faz retumbar a abóbada do céu com enorme trovão!

- E eu, homenzinho, não haveria de fazer o mesmo?

- Fi-lo, sim, e com muito gosto.

De modo algum se aprendem com semelhante torpeza aquelas palavras; antes, essas palavras levam mais atrevidamente a cometer a mesma devassidão. Não incrimino as palavras, que são como vasos selectos e preciosos, mas condeno o vinho do erro que mestres ébrios nos davam a beber nelas e, se não o bebêssemos, éramos açoitados, sem que pudéssemos apelar para juiz mais sóbrio.

E, não obstante, meu Deus, cuja presença me protege desta lembrança, confesso que aprendi estas coisas com gosto e que, miserável, nelas me comprazi, sendo por isso chamado menino de grandes esperanças.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


02/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana III

Evangelho: Mt 5, 17-19

17 «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas sim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe uma só letra ou um só traço da Lei, sem que tudo seja cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.

Comentário:

Refere-se, aqui, de forma muito clara, o que é a principal necessidade do cristão: a unidade de vida!

«Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que passa disto, procede do Maligno.»

Um cristão tem de ser assim, claro, objectivo, concreto. Não pode tergiversar nem no comportamento nem nas atitudes ou, ainda, conforme as circunstâncias.

Tem de ser conhecido – e exemplo – por ser veraz, íntegro e constante na sua vida que é, deve ser: seguir Cristo, fazer, em tudo, a vontade de Deus.

(ama, comentário sobre Mt 5, 17-19, 2014.02.16)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO CONFISSÕES

LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULO VII

Os pecados da primeira infância

Escuta-me, ó meu Deus! Ai dos pecados dos homens! E quem isto te diz é um homem, e tu te compadeces dele porque o criaste, e não foste autor do pecado que nele existe.
Quem me poderá lembrar o pecado da infância, já que ninguém está diante de ti limpo de pecado, nem mesmo a criança cuja vida conta um só dia sobre a terra? Quem mo recordará?
Acaso alguma criança pequena de hoje, em quem vejo a imagem do que não recordo de mim? E em que eu poderia pecar nesse tempo? Acaso por desejar o peito da nutriz, chorando? Se agora eu suspirasse com a mesma avidez, não pelo seio materno, mas pelo alimento próprio da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. Logo, era então digno de repreensão o meu proceder; mas como não podia entender a censura, nem o costume nem a razão permitiam que eu fosse repreendido. Prova está que, ao crescermos, extirpamos e afastamos de nós essa sofreguidão; e jamais vi homem sensato que, para limpar uma coisa viciosa, prive-a do que tem de bom.
Acaso, mesmo para aquela idade, era bom pedir chorando o que não se me podia dar sem dano, indignar-me acremente com as pessoas livres que não se submetiam, assim como as pessoas respeitáveis, e até com meus próprios pais, e com muitos outros que, mais sensatos, não davam atenção aos sinais de meus caprichos, enquanto eu me esforçava por agredi-los com os meus golpes, quanto podia, por não obedecerem às minhas ordens, que me teriam sido danosas?
Daqui se segue que o que é inocente nas crianças é a debilidade dos membros infantis, e não a alma.
Certa vez, vi e observei um menino invejoso. Ainda não falava, e já olhava pálido e com rosto amargurado para o irmãozinho colaço. Quem não terá testemunhado isso? Dizem que as mães e as amas tentam esconjurar este defeito com não sei que práticas. Mas se poderá considerar inocência o não suportar que se partilhe a fonte do leite, que mana copiosa e abundante, com quem está tão necessitado do mesmo socorro, e que sustenta a vida apenas com esse alimento? Mas costuma-se tolerar indulgentemente essas faltas, não porque sejam insignificantes, mas porque espera-se que desapareçam com os anos. Por isso, sendo tais coisas perdoáveis em um menino, quando se acham em um adulto, mal as podemos suportar.
Assim, pois, meu Senhor e meu Deus, tu que me deste a vida e corpo, o qual dotaste, como vemos, de sentidos e proveste de membros, adornando-o de beleza e de instintos naturais, com os quais pudesse defender sua integridade e conservação, tu me mandas que te louve por esses dons e te confesse e cante teu nome altíssimo. Serias Deus omnipotente e bom ainda que só tivesses criado apenas estas coisas, que nenhum outro pode fazer senão tu, ó Unidade, origem de todas as variedades, ó Beleza, que dás forma a todas as coisas, e com tua lei as ordenas!
Tenho vergonha, Senhor, de ter de somar à vida terrena que vivo aquela idade que não recordo ter vivido, na qual acredito pelo testemunho de outros, por vê-lo assim em outras crianças, embora essa conjectura mereça toda a fé. As trevas em que está envolto meu esquecimento a seu respeito assemelham-se à vida que vivi no ventre de minha mãe.
Assim, se fui concebido em iniquidade, e se em pecado me alimentou minha mãe, onde, suplico-te, meu Deus, onde, Senhor, eu, teu servo, onde e quando fui inocente? Mas eis que silencio sobre esse tempo. Para que ocupar-se dele, se dele já não conservo nenhuma lembrança?

CAPÍTULO VIII

As primeiras palavras

Acaso não foi caminhando da infância até aqui que cheguei à puerícia? Ou melhor, esta veio a mim e suplantou à infância sem que esta fosse embora, pois, para onde poderia ir?
Contudo deixou de existir, porque eu já não era um bebezinho que não falava, mas um menino que aprendia a falar. Disso me recordo; mas como aprendi a falar, só mais tarde é que vim a perceber. Não mo ensinaram os mais velhos apresentando-me as palavras com certa ordem e método, como logo depois fizeram com as letras; mas foi por mim mesmo, com o entendimento que me deste, meu Deus, quando queria manifestar meus sentimentos com gemidos, gritinhos, e vários movimentos do corpo, a fim de que atendessem meus desejos; e também ao ver que não podia exteriorizar tudo o que queria, nem ser compreendido por todos aqueles a quem me dirigia.
Assim, pois, quando chamavam alguma coisa pelo nome, eu a retinha na memória e, ao se pronunciar de novo a tal palavra, moviam o corpo na direção do objeto, eu entendia e notava que aquele objecto era o denominado com a palavra que pronunciavam, porque assim o chamavam quando o desejavam mostrar.
Que esta fosse sua intenção, era-me revelado pelos movimentos do corpo, que são como uma linguagem universal, feita com a expressão rosto, a atitude dos membros e o tom da voz, que indicam os afectos da alma para pedir, reter, rejeitar ou evitar alguma coisa. Deste modo, das palavras usadas nas e colocadas em várias frases e ouvidas repetidas vezes, ia eu aos poucos notando o significado e, domada a dificuldade de minha boca, comecei a dar a entender minhas vontades por meio delas.
Foi assim que comecei a comunicar meus desejos às pessoas entre as quais vivia, e entrei a fazer parte do tempestuoso mundo da sociedade, dependendo da autoridade de meus pais e obedecendo às pessoas mais velhas.

CAPÍTULO IX

Estudos e jogos

Ó meu Deus, meu Deus! Que de misérias e enganos não experimentei então, quando se me propunha, em criança, como norma de bem viver, obedecer os mestres que me instigavam a brilhar neste mundo, e me ilustrar nas artes da língua, fiel instrumento para obter honras humanas e satisfazer a cobiça! Mudaram-me à escola, para que aprendesse as letras, nas quais eu, miserável, desconhecia o que havia de útil. Contudo, se era preguiçoso para aprendê-las, era fustigado, num sistema louvado pelos mais velhos; muitos deles, que levavam esse género de vida antes de nós, nos traçaram caminhos tão dolorosos pelos quais éramos obrigados a caminhar, multiplicando assim o trabalho e a dor aos filhos de Adão.
Mas, por sorte, encontrei homens que te invocavam, Senhor, e com eles aprendi a te sentir, quanto possível, como a um Ser grande que podia escutar-nos e vir em nosso auxílio, embora sem a percepção dos sentidos. Ainda menino, pois, comecei a invocar-te como refúgio e amparo e, para te invocar, desatei os nós de minha língua; e, embora pequeno, te rogava já com grande fervor para que não me açoitassem na escola. E quando não me escutavas, o que servia para meu proveito os mestres, assim como meus próprios pais, que certamente não desejavam o meu mal, riam-se daquele castigo, que então era para mim grave suplício.
Porventura, Senhor, haverá alguma alma tão grande, unida a ti com tão ardente afecto, pois isto também pode ser produzido pela estultice – repito, uma alma que alcance tal grandeza de ânimo que despreze os cavaletes e garfos de ferro, e os demais instrumentos de martírio – para fugir dos quais se te dirigem súplicas de todas as partes do mundo? Haverá uma alma que assim os despreze – rindo-se dos que têm deles tanto horror – como se riam nossos pais dos tormentos que éramos castigados por nossos mestres quando meninos? Porque, na verdade, não os temíamos menos, nem te rogávamos com menor fervor para que nos livrasses deles.
Contudo, pecávamos por negligencia escrevendo ou lendo, estudando menos do que nos era exigido; e não era por falta de memória ou de inteligência, que para aquela idade, Senhor, me deste de modo suficiente, senão porque eu gostava de brincar, embora os que nos castigavam não fizessem outra coisa. Mas os jogos dos mais velhos chamavam-se negócios, enquanto que os dos meninos eram por eles castigados, sem que ninguém se compadecesse de uns e de outros, ou melhor, de ambos. Um juiz sensato poderia aprovar os castigos que eu, menino, recebia porque jogava bola, e porque com este jogo atrasava o aprendizado das letras, com as quais, adulto haveria de jogar menos inocentemente?
Acaso fazia outra coisa naquele que me castigava? Se nalguma questiúncula era vencido por algum colega seu, não era mais atormentado pela cólera e pela inveja do que eu, quando numa partida de bola era vencido por meu companheiro?

CAPÍTULO X

Amor ao jogo

Contudo, Senhor meu, ordenador e criador da natureza, mas do pecado somente ordenador, eu pecava; pecava desobedecendo as ordens de meus pais e mestres, uma vez que podia no futuro fazer bom uso das letras que desejavam ensinar-me, qualquer que fosse a sua intenção.
E não era desobediente para me ocupar de coisas melhores, mas por amor ao jogo; buscava nos combates orgulhosas vitórias; deleitava-me com histórias frívolas, com as quais incentivava sempre mais minha curiosidade. Igualmente curiosos, meus olhos se abriam sempre mais para os jogos e espectáculos dos adultos, jogos que dão tão grande dignidade a quem os oferece, que quase todos desejam as mesmas dignidades para seus filhos. Contudo, gostam de os castigar se com tais espectáculos fogem dos estudos, por meio dos quais desejam que eles venham um dia a oferecer espectáculos semelhantes. Senhor, olha misericordiosamente para essas coisas, e livra-nos delas a nós que já te invocamos; mas livra também os que ainda não te invocam, a fim de que te invoquem, e sejam igualmente libertados.

CAPÍTULO XI

O baptismo diferido

Ainda menino, ouvi falar da vida eterna, que nos está prometida pela humildade de Jesus, nosso Senhor, que desceu até nossa soberba; e fui marcado com o sinal da cruz, sendo-me dado saborear de seu sal logo que saí do ventre de minha mãe, que sempre esperou muito em ti.
Tu viste, Senhor, que numa ocasião, ainda menino, atacou-me repentinamente um dor de estômago que me abrasava, e que me aproximou da morte. Tu viste também, meu Deus, pois já me tinhas sob a tua guarda, com que fervor de espírito e com que fé pedi à piedade de minha mãe, e da mãe de todos nós, tua Igreja, o baptismo de teu Cristo, meu Deus e Senhor. Perturbou-se minha mãe carnal, pois que me criava com mais amor em seu casto coração em tua fé para a vida eterna e, solícita, já havia cuidado de que me iniciasse e purificasse com os sacramentos da salvação, confessando-te, ó meu Senhor Jesus, em remissão de meus pecados, quando, de repente, comecei a melhorar. Em vista disso, diferiu-se a minha purificação, considerando que seria impossível, se eu vivesse, que não me tornasse a manchar; pois a culpa dos pecados cometidos depois do beatismo é muito maior e mais perigosa.
Nesta época eu já tinha fé verdadeira, juntamente com minha mãe e com todos da casa, à excepção de meu pai, que, porém, não pôde vencer em mim a ascendência da piedade materna, para que deixasse de acreditar em Cristo, tal como ele não acreditava; minha mãe, solícita, cuidava de que tu, meu Deus, fosses mais pai para mim do que ele, e a ajudavas a triunfar do marido, a quem servia melhor, porque nele te servia a ti e a tuas ordens.
Mas, meu Deus, suplico-te que me mostres, se te apraz, por que motivo se diferiu então meu baptismo; se foi ou não para meu bem que me soltaram das rédeas do pecado. Por que razão ainda hoje se diz de uns e de outros, como ouvimos em muitos lugares: “Deixe que faça o que quiser, porque ainda não está baptizado” – embora não digamos da saúde do corpo: “Deixe que receba ainda mais feridas, porque ainda não está curado?”
Quanto melhor teria sido para mim receber logo a saúde, e que meus cuidados e os dos meus fossem empregados em conservar intacta debaixo da tua protecção a saúde da minha alma, que me havias concedido! Melhor fora, certamente; porém, como minha mãe, sem dúvida, já previa quantas e quão grandes ondas de tentações me ameaçariam depois da meninice, preferiu expor-me a elas como terra grosseira que depois receberia forma, do que expor-me já como imagem tua.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)