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02/05/2012

Nunc Coepi


Navegando pela minha cidade


Nunc Coepi[1]

Agora que acabo agora começo. Porque a vida é um permanente recomeçar; e porque quando assim não é vive-se na escuridão. Na mesma escuridão da noite sem lua e sem estrelas se um dia o Sol não voltasse a nascer depois do último ocaso. E quanto maior a escuridão maior é a necessidade de luz.

Luz para vermos a terra dos homens; luz para vermos os homens: os que vivem na luz e os que não a conseguem ver. Luz que ilumine as cavernas escuras do meu coração onde – quando o consinto – rastejam vermes pegajosos; cheios de peçonha e sem olhos porque odeiam a luz.

Agora que acabo agora começo. Levanto ferro e voltarei a navegar pelas ruas da minha cidade melhor iluminada. Mar adentro com rumo certo porque a estrela da manhã será o meu sextante; a minha bússola; o meu GPS.

Das tormentas farei boas esperanças e nas calmarias estarei mais atento ao vento que sopra invisível sobre a superfície das águas. Porque não há tempestade que não se acalme nem bonança que sempre dure.

Agora que acabo agora começo. Renasço do cansaço porque só descansarei quando morrer. O contrário seria viver morto. Morto vivo na escuridão de sepulcro por fora caiado de branco e por dentro cheio de imundície.

Naveguei por mais de cinquenta mares feitos ruas da minha cidade durante quase um ano e meio neste oceano imenso da blogosfera. Oceano de milhares e milhares de vozes que querem ser ouvidas, simplesmente porque existem. Porque é esse o nosso drama, o de não nos ouvirmos uns aos outros; o de procurarmos desesperadamente alguém que nos oiça.

Começo porque quero ouvir melhor apesar da escuridão e do ruído imenso de tantas vozes a zunir; a murmurar; a gritar; a rir e a chorar na fria e cósmica imensidão do world wide wireless onde - é meu intimo convencimento - quase todos lêem, vêem e ouvem numa corrida desenfreada em busca de qualquer coisa que não está lá. Como se fosse uma corrida louca ao ouro enterrado no fim do arco-íris ou a medieval e obsessiva demanda do Santo Graal.

Agora que acabo agora começo. Não numa inutilidade de trabalho supliciante de Sísifo, mas na construção permanente de uma ponte para a outra margem. Ponte sólida e transcendente onde os outros tenham o direito de passar em primeiro lugar. De passar à minha frente.

Ponte de sentido único onde cabem todos os silêncios porque tudo tem sentido à luz da Luz. Ponte farol; ponte porto; ponte cais; ponte ancora; ponte amarra; ponte estiva; ponte cidade.

Ponte de romana solidez feita do invisível quotidiano e da liturgia das horas; ponte pedonal em que todos os passos contam uma história de amor; ponte suspensa feita de cordas sobre o precipício do mistério da vida; ponte veneziana de desejos e suspiros impossíveis de dizer; ponte de carne humana e de silêncios divinos oferecida em holocausto perpétuo.

“Silêncio, porto do navio. Silêncio em Deus, porto de todos os navios.”[2]

Agora que acabo agora começo.


Afonso Cabral

Nota de ama:

Meu caro Afonso:

Já fechei a boca que tinha aberta desde a primeira frase!

Excedeste-te a ti próprio, meu caro Afonso, na beleza e profundidade do teu escrito.

Filosofia pura? Sim porque a filosofia é a correcta avaliação do que se é e do que se faz e, claro, do que existe.

Donde, descobri, és um Filósofo!

Como te parece que posso aceitar esta 'despedida'?

Dir-te-ei simplesmente: Muito mal... aceito muito mal mas, ao mesmo tempo, com uma enormíssima esperança que 'revejas' o 'caso' e, filosoficamente decidas que não é definitiva a decisão.

Para bem de todos: meu, evidentemente, de NUNC COEPI e os seus fiéis leitores, e de ti próprio que te privas de um gozo legítimo que te dá escrever e privas outros do gozo de lerem o que escreves.

Por isso, e com a grafia do restaurante de Santo Tirso, te digo: 'Ká Te Espero'!

Um abraço amigo e grato

2015.04.30




[1] Lat.: Agora começo
[2]  Antoine De Saint- Exupéry – Cidadela, Editorial Presença, 3ª Edição – Lisboa Dezembro 1996, pág. 40

20/04/2012

100% Garantia

Navegando pela minha cidade


Na semana passada estacionei o carro na Rua da Alegria pois precisei de ir tratar de um assunto na Fernandes Thomaz. O assunto era de tratamento rápido e como o estacionamento do carro não ficou a perturbar o regular e normal funcionamento do trânsito arrisquei em deixá-lo num local de estacionamento proibido.

Quando voltei, já a uma grande distância vi um papelinho agarrado ao vidro pelo limpa para-brisas. Que grande chatice! Se eu tivesse ficado no carro com ele estacionado em dupla fila e os quatro piscas a trabalhar nada acontecia. Aliás, estou convencido que há muita gente que acha que os quatro piscas servem para terem o direito a fazerem isto mesmo.

Anda a gente a fazer economias e a apertar o cinto para ser roubado pela Polícia Municipal que parece que só serve para andar na caça à multa. Era isto que eu ia a murmurar para mim próprio enquanto me aproximava do carro.

Apressei o passo para arrancar o papelinho que mais parecia um pássaro apanhado numa armadilha. O vento batia-lhe de lado e uma pequena asa branca agitava-se tremente. Queria libertá-lo, torcer-lhe o pescoço e deitá-lo fora com o maior dos desprezos no primeiro caixote de lixo que encontrasse.

Quando lhe peguei pela asa que tremia, li: “Professor Karim – Médium Africano – Especialista do regresso imediato e definitivo do ser amado. Resolve os problemas delicados para toda a vida; amor, amarrações, afectividade, casamento, fidelidade, mesmo casos desesperados, impotência sexual, maus-olhados, protecção contra os perigos, sorte no jogo, negócios comerciais e problemas familiares, etc.  Resultado 100% garantia em apenas 3 dias – CONSULTAS NA PRESENÇA OU DISTÂNCIA”.

Afinal não era uma multa, mas sim um bilhete para navegar num mar de rosas. Se o papelinho apertado entre o vidro e o limpa para-brisas me tinha parecido um pássaro apanhado numa armadilha, isto era uma verdadeira armadilha – uma cova de lobo – para quem viva num pântano de ignorância e de sofrimento desesperado.

E elas são tantas! E são tantos, os Professores. Eu já conhecia pelos anúncios em jornais de vários outros nomes que tudo resolvem: é o Professor Karamba; Professor Mamadu; Professor Bambo; Professor Mafug; Sô Zé; Professor Gadri; Maya, etc, etc.

São muitas as sanguessugas da dor.

A vida é uma armadilha mortal. E ninguém nos disse isso quando eramos crianças. Ninguém nos preveniu. Talvez seja por isso que corremos tantos riscos inconscientemente. Mas é isto mesmo a vida: uma aventura perigosa.

Mas é também muito mais do que isto.

Numa noite de tempestade, numa leprosaria nas margens do Ganges, Teresa de Calcutá disse o que era a vida nestas palavras:

A vida é uma oportunidade, aproveita-a
A vida é beleza, admira-a
A vida é felicidade, desfruta-a
A vida é um sonho, torna-o realidade
A vida é um desafio, enfrenta-o
A vida é um dever, cumpre-o
A vida é um jogo, joga-o
A vida é preciosa, cuida dela
A vida é uma riqueza, conserva-a
A vida é amor, goza-o
A vida é um mistério, desvenda-o
A vida é promessa, cumpre-a
A vida é tristeza, supera-a
A vida é um hino, canta-o
A vida é uma luta, aceita-a
A vida é aventura, arrisca-a
A vida é alegria, merece-a
A vida é vida, defende-a

Nesta vida em que os médicos; os advogados; os engenheiros; os enfermeiros e tantos outros profissionais para exercerem a sua profissão têm de ter licença da respectiva Ordem, não compreendo que seja permitida a actividade destes “Professores” que oferecem 100% de garantia.

Porque 100% garantido só temos o que a vox populi vox Dei afirma: morte certa hora incerta.

Afonso Cabral










10/04/2012

Malhadinha

Navegando pela minha cidade

– Ah, Liudmila, não quero que sejas jovem e bonita, quero apenas que o teu coração seja bondoso, e não apenas para os gatos e os cães! 

Agora, no convés do barco, recordava (pela primeira vez sem acusar os outros e sem gostar apenas de si própria) as palavras amargas que tinha ouvido durante a sua vida… Uma vez viu o marido ironizar, falando ao telefone: “Desde que arranjámos um gatinho, oiço a voz carinhosa da minha mulher.”
 A mãe disse-lhe uma vez: “ Liudmila, como é que podes recusar uma esmola aos pedintes, pensa só: um faminto está a pedir-te, a ti, uma pessoa farta…” ][1]

Há qualquer coisa de muito errado na – cada vez mais frequente – humanização dos animais. Sim, parece-me que há qualquer coisa civilizacionalmente perversa neste constante aumentar de clínicas; de alimentos; de hotéis e de “direitos” para animais.

Talvez a perversidade que intuo mais do que realizo seja, não uma causa mas sim uma consequência. Isto é, humanizam-se os animais porque o homens se desumanizam. Será isto?

Ou será simplesmente a expressão de sentimentos superficiais e, por esta mesma superficialidade, não ter real e efectiva substância? Uma expressão setimentaloide de uma classe pequeno-burguesa e urbano decadente que enquanto atira as crianças para creches e os pais para asilos, sacrifica-se, sofre e priva-se de muito para ter o seu cão ou o seu gato.

Vejamos. Ainda há cerca de duas semanas, vários postes de electricidade da nova variante que rodeia a Prelada e liga esta zona à Circunvalação tinham colados este aviso da Associação Animais da Quinta: Malhadinha – Esta cadelinha foi encontrada na rua. É novinha, meiguinha, brincalhona, de porte pequeno/médio. Alguém pode acolher esta menina tão bonita?
E mais abaixo, depois de vários retratos do bicho: Todos os nossos animais são entregues vacinados, desparasitados, esterilizados (adultos) e com micro-chip de identificação. As famílias interessadas em adoptar os nossos animais têm que assinar um Termo de Responsabilidade, comprometendo-se a prestar-lhes cuidados médicos, alimentação adequada e integração absoluta no seio familiar durante toda a sua longa vida. Reservamo-nos o direito de entregar o animal na sua futura morada, bem como a futuras visitas, com o objectivo de avaliar a evolução da adopção.

Sim, há qualquer coisa de muito perverso e obsceno nesta cultura: integração absoluta no seio familiar? O que é que isto significa verdadeiramente? O animal passa a ser uma espécie de irmão, de pai, de filho?

Mas há mais. Fui à NET, ao site desta Associação e li o seguinte debaixo da fotografia de um cão preto e branco: Já temos a realização da análise, o tumor é um sarcoma. Não há grande coisa a fazer, é esperar e dar o que for possível para ter qualidade de vida. Mas apesar de tudo o nosso Douro está super bem disposto, farta-se de correr atrás dos gatos da Fat com cara de “vou-te comer!!!”
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O nosso velhinho Douro foi operado de urgência ontem (20/03). Suspeitamos que algo estaria mal porque o encontramos muito apático, o que não era normal. Fomos ao veterinário, fez uma radiografia e ecografia que revelaram uma massa na zona do fígado. Para sabermos ao certo qual o problema do Dourinho tivemos que optar pela cirurgia. Ficamos a saber que era um tumor no fígado, foi extraído e mandado para análise. Aguardamos os resultados.

Mais uma cirurgia para pagar … se nos quiser ajudar a liquidar esta despesa, p.f. envie o seu donativo para a nossa conta: 0033 0000 4531 2549 446 05 (Millennium BCP)

O Douro agradece e nós também!

Ah! Liudmilas! Ah! Liudmilas que encheis os corações com amores caninos e ignorais os humanos!

Ah! Liudmilas fartas.


Afonso Cabral


[1]  Vasili Crossman – Vida e Destino – Publicações Dom  Quixote, 2011 – pág. 137

22/03/2012

Bazar Paris

Navegando pela minha cidade

O Bazar Paris já não é o que era. Claro que eu também já não sou o que era, mas sempre que entro no Bazar Paris sou quase o que era e o facto dele nem quase o ser deixa-me como se tivesse partido um comboio de corda, uma caixa da Mecano ou perdido um anel sagrado, a minha aliança.

E foi com esta sensação de perda e profundamente irritado pelas tristíssimas máscaras de carnaval feitas na China que enchiam o Bazar Paris, vazio de clientes e daquilo que já não era, que atravessei a Rua Sá da Bandeira para a Praça D. João I e fui diretamente para a Praça engraxar os sapatos; como que querendo escovar uma nostalgia ou uma mancha de pó no coração.

Assentei-me em cima da almofada velha e suja que cobria o tampo de um banco de madeira e pousei o pé no suporte da caixa. Deixei então a memória entregue à sensação de perda; o olhar varrer a Praça e os sapatos nas mãos do engraxador.

Um bom bocado depois, e porque o engraxador nem uma só palavra tinha dito, olhei para ele. Debruçado sobre os meus sapatos tratava-os com o carinho de uma suave e doce enfermeira cuidando das feridas dos meus pés.

E aquela atitude de prostração a meus pés que, aparentemente, tão humilde torna um trabalho que como qualquer outro, pode ser sublime e nobre quando feito com a perfeição com que aquele o estava a ser, lembrou-me uma história passada com Nelson Mandela e o director dos Serviços Secretos da África do Sul – Niel Barnard.

 “Ninguém do aparelho de Estado do apartheid sabia mais do que se passava na política sul-africana do que Barnard, que tinha informadores um pouco por todo o lado, alguns até bem no seio do ANC. Era um homem perspicaz e discreto, um funcionário público dos quatro costados com o sentido do dever enraizado. Durante os doze anos em que se manteve à frente do NIS (National Intelligence Service – Serviço Nacional de Informação) sul-africano – organização que a CIA americana e o MI6 britânico aprenderam a respeitar, se não mesmo a adorar – tornou-se tão conhecido como Mandela quando ainda estava na prisão. Não havia homem em quem Botha mais confiasse.” [1]

É este homem que inicia intensas e secretas negociações com Mandela com o objectivo de levar a África do Sul a acabar com o iníquo regime do apartheid e a conduzir à realização de eleições democráticas.

Em 5 de Julho de 1989, finalmente, Mandela ia encontrar-se com o Presidente da República Pick W. Botha: “Cerca de uma hora mais tarde, quando o líder do ANC saiu da viatura e se preparava para entrar no domínio de Botha, Barnard – que o esperava – fez uma coisa extraordinária. Desejoso de que o seu recomendado fizesse o melhor efeito, ajoelhou-se em frente de Mandela e apertou-lhe os atacadores dos sapatos” [2].

Talvez por me ter lembrado desta história e por ter pensado que só homens com a elevada categoria moral de serem capazes de se ajoelharem diante de outros e de outros - com a mesma ou ainda maior categorial moral – se deixarem ajudar a fazerem melhor efeito – é que conseguem construir a paz; talvez tivesse sido por isso que, do alto do meu banco me debrucei sobre o engraxador e comecei a elogiar o seu trabalho: estão impecáveis; parecem novos; essas escovas são muito boas.

O engraxador nem reagiu; nada disse. Agora, no toque final esfregava com a tira de ganga - castanha de um lado e preta do outro - para apurar o brilho final e dar por terminado o seu trabalho. Eu insistia na tecla do elogio: bom trabalho; quanto tempo lhe dura um pano desses? Mais uma vez: nada. Nem olhou para mim.

Terminada a engraxadela, levantei-me e ele abriu dois dedos da mão direita fazendo um V para me dizer que eram dois euros. Só então me apercebi que, na minha distração com o Bazar Paris me tinha assentado no banco do engraxador que era surdo-mudo que eu bem conhecia. Ri-me interiormente e levantei o polegar da mão direita para lhe dizer que os sapatos estavam óptimos.

Então sim. Então, naquela cara muito envelhecida, cheia de rugas escuras e fundas e uma enorme verruga no nariz, abriu-se um grande sorriso.


Afonso Cabral






[1] John CarlinINVICTUS – O TRIUNFO DE MANDELA – Editorial Presença – Lisboa 2010 – págs. 66 e 67
[2] Ibid. pág. 74

27/02/2012

Boxe

Navegando pela minha cidade
Tenho pena de não ter podido assistir ao seminário com a lenda do boxe Javier Castillejo “ El Lince de Parla” organizado pela Arena de Matosinhos no passado dia 11 de Fevereiro.

“Considerado o pugilista mais espectacular de Espanha e do Mundo Javier Castilleja conseguiu a árdua tarefa de escrever o seu nome a ouro no panorama mundial do boxe profissional. Mediático e sempre espectacular nos seus combates o seu fight record de 72 combates com 62 vitórias e 1 nulo com 43 KO e o seu incrível currículo onde cintilam 8 cinturões mundiais, seis da Europa e 3 de Espanha e 2 da União Europeia fazem deste seminário um momento único de privar e aprender com um verdadeiro campeão”[1].

Em compensação, às nove e meia da noite de sábado passado já lá estava assentado na bancada, acompanhado por um amigo, para assistir ao Campeonato Ibérico de Kickboxing em 7 assaltos entre o português Elson Agante e o espanhol David de Dios na categoria de 71 quilos.

O boxe é um desporto cuja prática exige muitas virtudes humanas, nomeadamente: coragem; lealdade; perseverança; prudência; respeito; fair play e optimismo. Por isso se aprende muito vendo um combate de boxe. Edifica ver na arena, entre cordas, debaixo da luz intensa dos projectores, dois homens exercendo estas virtudes.

Só por uma questão de snobismo parolo o boxe não tem hoje em dia a projecção que já teve no século XIX quando era apelidado de nobre arte. Se há quem o considere violento é porque nunca viu um jogo de futebol ou porque está muito distraído e não repara na enorme violência que é a vida de todos os dias, principalmente de quem não tem sentido para ela. E esta é a maior violência que o homem pode sofrer ou fazer a si mesmo.

Sendo a virtude a disposição habitual para praticar o bem, que existirá na sua ausência? Penso que exactamente a imensa tristeza e angústia do vazio niilista contemporâneo. Ou seja, para quê o esforço de melhorar? Para quê viver a vida se ela não tem sentido? O que é e para que serve a alegria? Para quê viver if life is shit and then you die?

 [Nietzsche considera o niilismo uma grande alegria, pois liberta-nos para viver a vida que escolhemos, no entanto muitas pessoas consideram isso horrível. Nas palavras de Dostoiévsky: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Em nossa opinião, o niilismo traduz uma mente tão fechada quanto a do fanatismo, e nem um nem outro constituem fundamento suficiente para basear uma vida digna de ser vivida] [2]

De facto, sendo o homem um ser sublime, a desistência de ir mais além de si próprio - de se transcender – acaba por o fazer apodrecer no estaleiro dos barcos inacabados, sem nunca ter desfraldado as velas ao vento e navegado até aos mares do Sul onde se caçam as baleias e voam os albatrozes.

Porque onde não há virtudes humanas ou naturais não há virtudes sobrenaturais. E onde estas não existem dando suporte à vida interior, esta estiola e morre de tristeza.

O cinturão de Campeão Ibérico na categoria de 71 quilos foi entregue com toda a justiça ao espanhol David de Dios. Esteve ao ataque e a marcar pontos durante todos os sete assaltos.

Afonso Cabral





[1]  Sic - in cartaz promocional da Arena Matosinhos
[2] Hubert Dreyfus /Sean Dorrance Kelly – Uma Vida Iluminada – Lua de Papel -2011 –pág. 33

07/02/2012

O Povo

Navegando pela minha cidade
Não preciso de me apoiar nas estatísticas tão bem trabalhadas, recolhidas e expostas no programa Pordata do António Barreto [i]; basta-me a memória da minha vida para saber como foi grande a evolução económica e social do nosso povo nos últimos trinta ou quarenta anos.
Se foi muito significativa a melhoria económica e social em trinta ou quarenta anos, maior o foi em mais de cento e cinquenta anos, embora o gráfico desta evolução tenha várias descidas abruptas e largos períodos de estagnação.
Dito isto, porque estamos a entrar num período de recessão (descida) colossal; porque tive de ir à Praça Sá Carneiro e - sem perceber como - a certa altura estava na Alameda Eça de Queiroz, lembrei-me de um artigo deste escritor; e porque a natureza do homem é exactamente a mesma, acho oportuno transcrever esse artigo intitulado O Povo que foi editado no Distrito de Évora há mais de cento e cinquenta anos.

Ei-lo: 
“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serene e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens, são o Povo.
Estes homens estão sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o Povo, e são os o que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o Povo, e são os que nos vestem.
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o Povo e são os que nos enriquecem.
Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem.
Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.
E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que do defendem, que o servem?
Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá protecção; e terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a Justiça, devem lutar e combater pelo Povo.
E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema."
É a falta desta dimensão humana e social; de verdadeiro interesse pelos mais fracos e mais pobres que muitos analistas têm considerado que está na génese da actual crise económica e financeira.


[i]Afonso Cabral

17/01/2012

O Farrapeiro

Navegando pela minha cidade

























Em 1853 morre com quarenta anos de idade Frederico Ozanam. Aos vinte anos tinha fundado as Conferências de São Vicente de Paulo que contam hoje com 960.000 membros em 135 países dos cinco continentes.

“Doutor em Direito (1836) e depois em Letras (1839), Ozanam inicia uma brilhante carreira universitária que o levará, em 1844, a tornar-se titular da cátedra de Literatura Estrangeira na Universidade da Sorbonne e a viver sem reservas a sua profunda vocação ao magistério.

Em 1841 casa-se com a jovem Amélie Soulacroix. Frederico Ozanam é, portanto, um homem profundamente inserido no seu tempo. Marido e pai, professor e literato, leigo comprometido, vive as diferentes dimensões da sua existência, com a mesma paixão e generosidade: vai pessoalmente aos bairros pobres de Paris e de outras cidades, promove a expansão das Conferências Vicentinas no mundo” [1]

Recordo este extraordinário homem que não precisou de viver muito para muito fazer porque ainda na semana passada fui até ao Farrapeiro de São Vicente de Paulo da Rua Gonçalo Cristóvão. Há mais de quarenta anos que com uma certa regularidade por lá passo.

Passo por lá como passo por muitas feiras de velharias. Porque há algo nas coisas velhas e que ninguém quer que me fascina. Não o posso precisar, talvez seja a história oculta por trás do objecto usado e deitado fora; o design fora da moda em que já esteve; sinais de uso que se lhe impregnaram; o que remanesce da alegria de quem o comprou ou recebeu de presente; enfim as velharias têm uma aura que me fascina e que não consigo descrever porque o mistério cobre tudo, tal como o som de uma sirene ao longe durante a noite pode ser um grito de agonia no poço escuro do tempo.

Para além disto tudo o nome Farrapeiro é, em si próprio antigo, usado e pobre; parece até que mendiga. Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa que foi o primeiro que me apareceu no Google, significa: Homem esfarrapado = Farrapão, Farroupilha, Maltrapilho; Negociante de trapos. = Adelo, Trapeiro.

E há também o sentido figurativo quando dizemos de alguém num estado de decadência física ou moral: está feito num farrapo. Ou de alguém que não se considera nada porque conhece a sua miséria diz: sou um trapo, um trapo sujo.

Todos estes pensamentos entraram comigo no Farrapeiro de São Vicente de Paulo quando desci aquela mistura de rampa e escadas ladeadas por fogões velhos, banheiras e tanques de lavar roupa em cimento e estantes metálicas da F. RAMADA.

Saí de lá com os livros Afundem o Bismark de C.S. Forrester; Crónicas Marcianas de Ray Bradbury; O homem que era 5ª feira de G. K. Chesterton; Palomar de Italo Calvino e uma escalfeta com a marca mogovex e a potência de 90 Watts a funcionar muito bem. Tudo isto ficou-me por menos de cinco euros.

E aquilo que muitos não querem ou já não lhes serve vai ajudando a Associação das Obras Sociais de S. Vicente de Paulo. É uma verdadeira reciclagem social em movimento; dialéctica existencial entre o ter e o ser.

É o eco da existência e da opção pelo ser de Frederico Ozanam.

Afonso Cabral


[1] http://www.vatican.va/news

04/01/2012

Implosão

Navegando pela minha cidade
Apesar de saber que a implosão ia dar em directo num canal da televisão tinha 

que ir ver. Pela televisão não é mesma coisa. Nunca é. Mas no dia anterior fui fazer o necessário reconhecimento do terreno. Ou seja, dos limites do perímetro de segurança.

Entrei no bairro do Aleixo pela Rua Diogo Botelho em direcção à Rua do Progresso onde encontrei dois ou três sexagenários à conversa no passeio (esta maneira de caracterizar seres humanos pela idade é quase zoológica ou botânica) e parei para perguntar onde era exactamente a Torre 5.

“Tenho aqui um croquis e o senhor vê já”. Dizendo isto um deles mete-me pela janela do carro uma folha A4 com a planta do bairro onde estão sinalizadas as torres com um circulo a marcador amarelo. É esta aqui? Perguntei apontando para a Torre 3. Um... não! essa é onde eu vivo! Indignado e escandalizado foi a resposta do homem arrancando-me o croquis das mãos. “É aquela mesmo à sua frente.”
De facto, a poucos metros de distância, a Torre 5 erguia-se nos seus treze andares de altura, igualzinha a todas as outras. Desci pela Rua da Mocidade até à Rua do Ouro que faz a marginal do rio Douro em frente à Afurada, junto à Cantareira.

Foi esse o sítio que escolhi e em que, no dia seguinte pelas nove da manhã – manhã fria e cinzenta - já lá estava para ver a implosão da Torre 5.
Se sempre que um homem se eleva, eleva toda a humanidade e se sempre que um homem se avilta e degrada, avilta e degrada toda a humanidade o mesmo se pode dizer dos edifícios numa cidade. Ou seja, quando aquelas Torres foram levantadas, levantaram a cidade e os seus habitantes de uma situação inferior.
E agora que uma delas ia ser implodida? Iria também implodir qualquer coisa na cidade ou já tinha sido implodido no coração de tantos e tantos toxicodependentes que usavam aquele bairro e, em particular, aquela torre, como inesgotável fonte de abastecimento da sua dependência degradante?

Essa é a chaga social visível do Aleixo. E tudo o resto? E as dezenas e dezenas de famílias honradas e honestas que contra toda a adversidade do meio ambiente lá vivem, sonham, amam e têm ilusões e esperanças justas e dignas?

E todos opinam. E eu tenho direito a não ter opinião. Porque ter opinião é formular um juízo para o qual não estou qualificado. Foi mais ou menos isto que disse a uma jornalista do Público que pelas dez e meia da manhã me abordou. Mas antes disse-lhe que estava ali para ver a implosão fora de mim, porque as dentro de mim já as conhecia. “Pois, mas isso é outra coisa”, disse-me a jornalista.

E há a polícia, e há pequenos helicópteros comandados por controlo remoto com uma câmara da RTP; e há as ambulâncias do INEM; e há carros de bombeiros e jipes da Protecção Civil e peritos em catástrofes e camiões e retroescavadoras alinhados para atacarem o entulho; e há Sua Excelência o Sr. Presidente da Câmara que, com o nosso dinheiro alugou um enorme barco da Douro Azul para assistir do meio do rio, porque se estivesse na Rua do Ouro teria ouvido o que alguns lhe gritavam: “bandido! ladrão! traficante!”; e há muita gente com máquinas de filmar e fotográficas para registar o momento da implosão como se fosse possível registar o impossível.

E há ex-moradores da Torre 5 e doutras torres que irão talvez para as Antas. Para longe do rio que há dezenas e dezenas de gerações lhes corre perto da vida. Para quanto mais longe melhor, porque aquele espaço agora já vale 15 milhões de euros e eles estragam a vista para a foz do condomínio de luxo que lá se fará.

Quatro ou cinco estoiros e em dois segundos a Torre 5 de treze andares e muitas vidas veio abaixo.  

Afonso Cabral                              


15/12/2011

O Salva-Vidas

Navegando pela minha cidade
Poucos dias depois do extraordinário e emotivo resgate dos seis pescadores da traineira Virgem do Sameiro fui irresistivelmente atraído para o mar. Esse mar azul, imenso e bravo que é um precipício para o horizonte; um vislumbre do infinito.

Esta atracção obedeceu à misteriosa magia que Herman Melville descreveu no maior romance da literatura americana: “Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo Oceano… Há magia neste facto! Que o mais distraído dos homens se lance nas reflexões mais abstractas – se esse homem começar a andar é mais do que certo que os seus passos o levarão infalivelmente para a água, se a água existir na região… Sim, porque toda a gente sabe que a meditação e a água se encontram indissoluvelmente ligadas.”[1]

E água não falta no Porto. Ainda ontem muito cedo um moedinhas queixando-se do frio me dizia: temos o mar todo e o rio que nos cerca, por isso este frio; e esfregava as mãos e soprando-as para que o bafo as aquecesse um pouco.

E aquele bafo transformado numa pequena nuvem de vapor que lhe enluvava as mãos; aquela procura de um pouco de calor que só lhe podia vir de si próprio pareceu-me que o assemelhava tragicamente aos náufragos das Caxinas.

Na Avenida do Brasil fui até ao fim do molhe que mais parece a proa de um navio de pedra acabado de levantar ferro e a entrar pelo mar adentro, rumo à América. O mar respirava mansamente em baixa-mar e as gaivotas que se levantavam das rochas eram – na suave brancura dos seus voos – como que espuma libertada das ondas.

Era muito mar. Era muito mar e muito frio. Assim falava um dos caxineiros da Virgem do Sameiro depois de ter sido salvo. O mar estava à espera de comer, mas deu-se um milagre e não comeu também disse uma mulher das Caxinas.

Andando na direcção da foz do rio Douro passei em frente da casa onde António Nobre morreu de tuberculose aos 33 anos de idade. Quase dentro do mar enfrentando as ondas, o lobo-do-mar em bronze agarra a roda da proa com a mão esquerda e agarrando com a direita uma bóia leva-a para trás de modo a lhe dar lanço e força para a atirar a alguém que se está a afogar. É a estátua O Salva-Vidas do mestre Henrique Moreira que quase faz de nós que passamos, outros náufragos desesperados.

A força, a coragem e a heroicidade daquele homem de bronze, encharcado de mar num pequeno bote, é para mim a imagem perfeita de qualquer pescador das Caxinas. Desses que há gerações vivem e morrem no mar. Desses que são tão diferentes e únicos que até têm nomes que só ali existem: Maio, Carrela, Arranhado, Coentrão, Marafona, Maravalhas, Postiga, Bicho Novo, Cascão, Maranha, Barandas, Gigas, Carocho, Nicho, Vianez, Chinchão, Casquilho, Sarrão, Ferrucho, Pelingreiro, Taranto, Contrão, Agonia, Espogeira, Retirado, Maresia.[2]

Só homens assim têm a coragem de proclamar a sua fé viril sem respeitos humanos. Sem medo da troça dos pusilânimes e do sarcasmo descrente dos orgulhosos.

Em 1900 “ depois de mais um heróico salvamento de náufragos, a Real Sociedade Humanitária quis condecorar o velho lobo-do-mar (Manuel dos Santos Vila Cova “O Caramelho” patrão do Salva-Vidas) e ainda os três filhos – Liro, José e Adriano. Para tal convidou-os a irem receber as medalhas, organizando uma grandiosa solenidade. Os nossos homens não apareceram.”[3]

Dizia o Caramelho: As veneras são para os homens da terra, para nós, os do mar, chega a satisfação enorme de ajudar o camarada nas horas de perigo. A nós, pescadores, quem recompensa é Deus, a Senhora da Guia, a Senhora da Bonança, o Senhor do Socorro e o Nosso Senhor dos Navegantes.[4]

Mais de um século depois, José Manuel Coentrão – mestre da traineira Virgem do Sameiro – disse: Acredito que foi a fé que nos manteve vivos. Havia um terço na balsa, que é do pescador que ainda está no hospital. Rezámos muito a Nossa Senhora de Fátima. Eu rezava em voz alta e os outros oravam em silêncio.[5]

Afonso Cabral


[1] Moby Dick or the whale
[2] António Ferreira Vila Cova - CAXINAS – Terra do meu Coração -  Edição da Câmara Municipal de Vila do Conde - 1989
[3] Ibid., pág. 49
[4] Ibid. pág. 49
[5] A BOLA – 4 de Dezembro de 2011 – Artigo de Nuno Pedro Fernandes: Fomos todos heróis