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07/11/2012

Esperança


Sem dúvida que a esperança é um estado de alma, não um simples movimento interior de expectativa. E o que é - aquilo que eu chamo - um estado de alma? Trata-se de uma disposição permanente e duradoura que se vive independentemente dos acontecimentos exteriores. Por outras palavras, o que acontece é observado criticamente tal como é e não o que, eventualmente possa parecer que é.
Por isso a esperança não assenta nem na concretização de algo que se deseja ou espera, nem no alheamento dessa realidade. A esperança leva a encarar os acontecimentos como fases num caminho para um fim desejado. Também por isso, talvez, se costuma dizer que a esperança é a última a morrer. Esperar é viver com perspectiva de futuro com os olhos postos no presente não ignorando ou tentando escamotear o que possa pensar-se que vai contra essa disposição. Quem possui a virtude da esperança tem muito mais possibilidades de ser feliz que aquele que a não tenha. Porquê? Porque o homem tende inevitavelmente para Deus que lhe incutiu uma ânsia de eternidade que é, como se compreende, a última felicidade. Por isso a virtude da esperança é autêntico alimento já que se pode viver, perfeitamente, dela e, ao contrário, a sua ausência retira todo o sentido à vida.

(ama, dissertação, 2010.05.19)

29/10/2012

Preocupações


A preocupação é um estado de alma complexo, não se pode definir com um simples corolário.
Depende de tantos factos, é influenciado por inúmeras circunstâncias, corresponde a diversos motivos e, sobretudo, está intimamente relacionado com a formação pessoal.

Não há uma preocupação igual a outra, embora com a mesma causa ou origem, basta que mude um dos factores para que a sua dimensão ou peso variem.

A pessoa preocupada tem um enfoque da vida distorcido e irrealista.
A preocupação nasce na imaginação, logo, esta pessoa muitas vezes troca o real pelo imaginário.

Algo aconteceu, acontece, é possível que aconteça.

Ora bem, preocupar-se por algo que aconteceu é um disparate na medida em que já passou e, quando muito, o que existe são consequências e, estas encaram-se de duas formas:
Primeira: se valerem a pena, tentar modificá-las, alterá-las de alguma forma mais conveniente;
Segunda: se não têm interesse, então, não se deve perder qualquer tempo com elas.

Preocupar-se - segunda hipótese - com o que acontece é perfeitamente escusado porque ou se pode dominar a situação ou ela foge ao nosso controlo.
Então, em vez de preocupar-se, a pessoa deve procurar uma alternativa mais de acordo com aquilo que, pensa, lhe pode trazer paz interior.

A terceira hipótese - possível que aconteça - não merece sequer consideração.
Ninguém possui a possibilidade de adivinhar o futuro que não nos pertence nem sabemos se teremos.

Chega-se, assim, à conclusão que não devemos preocupar-nos?
De modo nenhum!
A conclusão a que chego é que a preocupação, em si mesma, não resolve nada, só condiciona e prejudica a razão e, sendo deste modo, tento, sempre, substituir a preocupação pela esperança e a confiança. Dois sentimentos positivos em vez de um muito negativo.

Tenho êxito, sempre? Claro que não.

Mas isso não me preocupa.

(ama, dissertação sobre preocupação, 2010.06.08)

19/10/2012

O Horror! O Drama! A Tragédia!


Era com esta abertura – ou parecida – que há anos atrás um conhecido locutor abria as suas intervenções televisivas. A estas fortes palavras emprestava o inegável dramatismo da voz algo rouca.

Pois, hoje, alguns locutores das televisões já não utilizam estas palavras mas, o que dizem, o tom em que falam e as expressões faciais deixam antever exactamente o mesmo: O Horror! O Drama! A Tragédia!

Uma senhora, em particular, Judite de Sousa, é o paradigma desta forma de dar notícias. Claro que as notícias disponíveis, não são muito boas, ou, pelo menos, boas mas… bolas… não haverá forma de dizer aos ouvintes algo que não lhes massacre a paciência, de lhes mostrar alguma coisa agradável e, sobretudo, algum motivo de esperança?

A televisão tem – deve ter – um papel muito importante no ressurgimento de um povo mergulhado numa noite de constrangimentos e dificuldades de toda a ordem. Aos comentadores ‘oficiais’ que sabem tudo o que não se deve fazer – o que é manifestamente escusado - rarissimamente se lhes ouve uma sugestão de ‘como fazer’ – o que seria de eventual utilidade – para todos, em geral e, até, para os que têm de governar.

Ainda ontem o Presidente do BPI deu uma entrevista na RTP 1 e, a gente admira-se com o pragmatismo, a serenidade e – mais – com o bom senso – demonstrado. Não haverá mais gente como Fernando Ulrich para entrevistar e, assim, trazer algo de construtivo e coerente aos espectadores?

Quero acreditar que enquanto houver cobertura exaustiva de manifestações – às vezes com umas dezenas de pessoas e, quase sempre as mesmas – estas continuarão cada vez em maior numero. Há três dias contei exactamente cinquenta e cinco minutos – ininterruptos – de reportagens sobre manifestações e, quando não há número suficiente em Portugal para preencher o tempo, recorre-se ao que se passa lá fora, como se fosse diferente ou mais interessante.

Depois… praticamente cinquenta por cento do tempo restante dos vários jornais televisivos são ocupados pelo futebol e… temos dito: Boa noite e até amanhã!

Mas… será que não haverá – MESMO – nada interessante e agradável para noticiar?

Além da paciência - que vai faltando – para ‘gramar’ estas ‘pastilhas’, resta-nos a esperança que haja bom senso e boa vontade por parte dos directores de informação, dos ‘pivôs’ e dos comentadores.

antónio mexia alves, 2012.10.18


14/06/2012

Luz do mundo


«Vós sois a luz do mundo» [1] e perguntando-me mais uma vez sobre esta ‘luz’ que o Senhor quer que sejamos, ocorreu-me:

1ª Etapa:
No Baptismo o Senhor entrega-nos uma lanterna. Traz um pilha, pequenina, mas que funciona perfeitamente. A sua luz é um pequeno estilete que mal rasga a escuridão.

2ª Etapa:
Depois, pelos lábios da nossa Mãe, acrescentamos mais uma pequena pilha que contém as primeiras orações, quem é Jesus, a Santíssima Virgem o que significa a Santa Missa.

3ª Etapa:
Logo, na catequese, mais uma pilha: os ensinamentos sobre a Doutrina, o Catecismo.

4ª Etapa:
Mais uma pilha: a Primeira Comunhão! Uma luz fortíssima que aumenta consideravelmente a potência luminosa da primitiva lanterna.

5ª Etapa:
Com o Sacramento do Crisma acrescentamos – o Espírito Santo acrescenta – uma pilha de extraordinário alcance e capacidade.

6ª e última Etapa:
Pela vida fora, vamos adquirindo, com o estudo da Doutrina, a frequência dos Sacramentos e, sobretudo, com a oração confiante, porfiada, íntima, outras pilhas de grande importância e potência.

Já estamos, assim, equipados para iluminar à nossa volta, dar luz a outros, rasgar trevas.

A pequenina lanterna recebida no Baptismo, transformou-se num farol de longo alcance que permite ver mais longe, mais alto, mais profundo, bastando para tal, carregar no interruptor.

E, pergunto, se não levar-mos a cabo esta última etapa – que só termina no dia da nossa morte – o que acontece?

As pilhas recebidas nas etapas anteriores vão perdendo força, potência luminosa e cada dia que passa iluminam menos, acabam sem força, até que, por mais que accionemos o interruptor não iluminamos coisa nenhuma.

ama, 2012.06.13


[1] Mt 5, 14