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12/08/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual


Tempo comum XIX Semana


Evangelho: Mt 18, 15-20

15 «Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só. Se te ouvir, ganhaste o teu irmão. 16 Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que pela palavra de duas ou três testemunhas se decida toda a questão. 17 Se não as ouvir, di-lo à Igreja. Se não ouvir a Igreja considera-o como um gentio e um publicano. 18 «Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado no céu. 19 «Ainda vos digo que, se dois de vós se unirem entre si sobre a terra a pedir qualquer coisa, esta lhes será concedida por Meu Pai que está nos céus. 20 Porque onde se acham dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles».

Comentário:

Pode parecer estranho que alguém com hábitos de oração diária se sinta por vezes como que física ou mentalmente incapacitado de rezar.
Talvez possamos comparar esta situação com aquela em que desejamos estar sozinhos sem ver nem falar com ninguém.
Não devemos nem alarmar-nos nem estranhar.
Bastará pedir ajuda e com simplicidade dizer-lhe: ajuda-me, Senhor!

(ama, comentário sobre Mt 18 15-20, Carvide, 2014.08.13)


Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

289
         
Nossa Mãe

Os filhos, especialmente quando são ainda pequenos, costumam pensar no que hão-de fazer por eles os seus pais, esquecendo-se das suas obrigações de piedade filial.
Nós, os filhos, somos geralmente muito interesseiros, embora esta nossa conduta - já o fizemos notar - não pareça incomodar muito as mães, porque têm suficiente amor nos seus corações e querem com o melhor carinho: aquele que se dá sem esperar correspondência.

Assim acontece também com Santa Maria.
Mas hoje, na festa da sua Maternidade divina, temos de nos esforçar por fazer uma reflexão mais profunda.
Hão-de doer-nos, se as encontrarmos, as nossas faltas de delicadeza com esta boa Mãe.
Pergunto-vos e pergunto-me a mim mesmo: como a honramos?

Voltemos mais uma vez à experiência de cada dia, ao modo de tratar com as nossas mães na terra.
Acima de tudo, que desejam dos seus filhos, que são carne da sua carne e sangue do seu sangue?
O seu maior desejo é tê-los perto.
Quando os filhos crescem e não é possível continuarem a seu lado, aguardam com impaciência as suas notícias, emocionam-se com tudo o que lhes acontece, desde uma ligeira doença até aos acontecimentos mais importantes.

290
        
Olhai: para a nossa Mãe, Santa Maria, jamais deixamos de ser pequenos, porque Ela nos abre o caminho até ao Reino dos Céus, que será dado aos que se tornam meninos.
De Nossa Senhora nunca nos devemos afastar.
Como a honraremos?
Tendo intimidade com Ela, falando com Ela, manifestando-lhe o nosso carinho, ponderando no nosso coração os episódios da sua vida na terra, contando-lhes as nossas lutas, os nossos êxitos e os nossos fracassos.

Descobriremos assim, como se as recitássemos pela primeira vez, o sentido das orações marianas, que sempre se rezaram na Igreja.
O que são a Ave-Maria e o Angelus, senão louvores calorosos à Maternidade divina?
E no Santo Rosário - essa maravilhosa devoção, que nunca me cansarei de aconselhar a todos os cristãos - passam pela nossa cabeça e pelo nosso coração os mistérios da conduta admirável de Maria, que são os próprios mistérios fundamentais da fé.

291
        
O ano litúrgico aparece engalanado de festas em honra de Santa Maria.
O fundamento deste culto é a Maternidade divina de Nossa Senhora, origem da plenitude dos dons naturais e da graça com que a Santíssima Trindade a adornou.
Demonstraria escassa formação cristã - e muito pouco amor de filho - quem temesse que o culto da Santíssima Virgem pudesse diminuir a adoração que se deve a Deus.
A Nossa Mãe, modelo de humildade, cantou: chamar-me-ão bem-aventurada todas as gerações, porque fez em mim grandes coisas aquele que é Todo-poderoso, cujo nome é santo e cuja misericórdia se estende de geração em geração, a todos os que o temem.

Nas festas de Nossa Senhora não regateemos as demonstrações de carinho; elevemos com mais frequência o coração pedindo-lhe aquilo de que necessitamos, agradecendo-lhe a sua solicitude maternal e constante, encomendando-lhe as pessoas que estimamos.
Mas, se pretendemos comportar-nos como filhos, todos os dias serão ocasiões propícias de amor a Maria, como o são para os que se querem deveras.

292
        
Talvez agora algum de vós possa pensar que o dia ordinário, o habitual ir e vir da nossa vida, não se presta muito a manter o coração numa criatura tão pura como Nossa Senhora.
Convidar-vos-ia a reflectir um pouco.
Que procuramos sempre, mesmo sem especial atenção, em tudo o que fazemos?
Quando nos move o amor de Deus e trabalhamos com rectidão de intenção, procuramos o que é bom, o que é limpo, o que dá paz à consciência e felicidade à alma.
Também cometemos muitos erros?
Sim, mas precisamente reconhecer esses erros é descobrir com maior clareza que a nossa meta é esta: uma felicidade que não passe, profunda, serena, humana e sobrenatural.

Existe uma criatura que conseguiu nesta terra essa felicidade, porque é a obra-prima de Deus: a Nossa Mãe Santíssima, Maria.
Ela vive e protege-nos; está junto do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em corpo e alma.
É Aquela mesma que nasceu na Palestina, que se entregou ao Senhor desde menina, que recebeu a anunciação do Arcanjo Gabriel, que deu à luz o Nosso Salvador, que esteve junto d'Ele ao pé da Cruz.

N'Ela se tornam realidade todos os ideais, mas não devemos concluir daí que a sua sublimidade e grandeza no-la apresentem inacessível e distante.
É a cheia de graça, a suma de todas as perfeições; e é Mãe.
Com o seu poder diante de Deus conseguirá o que lhe pedirmos; como Mãe, quer conceder-no-lo.
E, também como Mãe, entende e compreende as nossas fraquezas, anima-nos, desculpa-nos, facilita o caminho, tem sempre o remédio preparado, mesmo quando parece que já nada é possível.

293
         
Quanto cresceriam em nós as virtudes sobrenaturais se conseguíssemos verdadeira devoção a Maria, que é Nossa Mãe!
Não nos importemos de lhe repetir durante todo o dia - com o coração, sem necessidade de palavras - pequenas orações, jaculatórias.
A devoção cristã reuniu muitos desses elogios carinhosos na Ladainha que acompanha o Santo Rosário.
Mas cada um de nós tem a liberdade de os aumentar, dirigindo-lhe novos louvores, dizendo-lhe o que - por um santo pudor que Ela entende e aprova - não nos atreveríamos a pronunciar em voz alta.

Aconselho-te - para terminar - que faças, se o não fizeste ainda, a tua experiência particular do amor materno de Maria.
Não basta saber que Ela é Mãe, considerá-la deste modo, falar assim d'Ela.
É tua Mãe e tu és seu filho; quer-te como se fosses o seu único filho neste mundo.
Trata-a de acordo com isso: conta-lhe tudo o que te acontece, honra-a, ama-a.
Ninguém o fará por ti, tão bem como tu, se tu não o fizeres.

Asseguro-te que, se empreenderes este caminho, encontrarás imediatamente todo o amor de Cristo; e ver-te-ás metido na vida inefável de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Conseguirás forças para cumprir bem a Vontade de Deus, encher-te-ás de desejos de servir todos os homens.
Serás o cristão que às vezes sonhas ser: cheio de obras de caridade e de justiça, alegre e forte, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo.

Este e não outro é o carácter da nossa fé.
Recorramos a Santa Maria, que Ela nos acompanhará com um passo firme e constante.

294
         
Sentimo-nos tocados, com o coração a bater com mais força, quando ouvimos com toda a atenção este brado de S. Paulo: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação.
Hoje, mais uma vez o repito a mim mesmo e também o recordo a cada um e à Humanidade inteira: esta é a vontade de Deus, que sejamos santos.

Para pacificar as almas com uma paz autêntica, para transformar a Terra, para procurar Deus Nosso Senhor no mundo e através das coisas do mundo, é indispensável a santidade pessoal.
Nas minhas conversas com gente de tantos países e dos ambientes sociais mais diversos, perguntam-me com frequência: - Que diz aos casados?
E aos que trabalhamos no campo?
E às viúvas?
E aos jovens?

Respondo sistematicamente que tenho uma só panela.
E costumo fazer notar que Jesus Cristo Nosso Senhor pregou a Boa Nova para todos, sem qualquer distinção.
Uma só panela e um único alimento: o meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou e dar cumprimento à sua obra.
Chama cada um à santidade, pede amor a cada um: jovens e velhos, solteiros e casados, sãos e doentes, cultos e ignorantes, trabalhem onde quer que trabalhem, estejam onde quer que estejam.
Há um único modo de crescer na familiaridade e na confiança com Deus: a intimidade da oração, falar com Ele, manifestar-Lhe - de coração a coração - o nosso afecto.

295         
Falar com Deus

Invocar-me-eis e Eu vos ouvirei.
E invocamo-lo conversando, dirigindo-nos a Ele. Por isso temos de pôr em prática a exortação do Apóstolo: sine intermissione orate; rezai sempre, aconteça o que acontecer. Não apenas de coração, mas com todo o coração.

Talvez pensemos que a vida nem sempre é suportável, que não faltam dissabores, nem mágoas, nem tristezas.
Responderei também com S. Paulo que nem a morte nem a vida, nem anjos, nem principados, nem virtudes; nem o presente, nem o futuro, nem a força, nem o que há de mais alto, nem de mais profundo, nem nenhuma outra criatura poderá jamais separar-nos do amor de Deus, que se fundamenta em Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Nada nos pode afastar da caridade de Deus, do Amor, da relação constante com o nosso Pai.

Mas recomendar esta união contínua com Deus não será apresentar um ideal tão sublime, que se torna impraticável à maioria dos cristãos? Na verdade a meta é alta, mas não impraticável.
O caminho que conduz à santidade é o caminho da oração; e a oração deve enraizar-se a pouco e pouco na alma, como a pequena semente que se tornará mais tarde árvore frondosa.

(cont)




07/09/2014

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Instr. Ardens felicitates)

Tempo comum XXIII Semana

Evangelho: Mt 18, 15-20

15 «Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só. Se te ouvir, ganhaste o teu irmão. 16 Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que pela palavra de duas ou três testemunhas se decida toda a questão. 17 Se não as ouvir, di-lo à Igreja. Se não ouvir a Igreja considera-o como um gentio e um publicano. 18 «Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado no céu. 19 «Ainda vos digo que, se dois de vós se unirem entre si sobre a terra a pedir qualquer coisa, esta lhes será concedida por Meu Pai que está nos céus. 20 Porque onde se acham dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles».

Comentário:

No versículo 18º deste trecho, o Evangelista S. Mateus “avança” já o que mais tarde Jesus Cristo há-de confirmar: a atribuição do poder de perdoar os pecados.
Talvez, na ocasião, os discípulos presentes não se tenham dado conta do significado exacto desta afirmação.
De facto, o que mais tarde seria conhecido como o Sacramento da Penitência ou da Reconciliação, traduz um poder de tal forma grandioso que necessitará da luz do Espírito Santo para ser totalmente apreendido.

(ama, comentário sobre Mt 18, 15-20, 2014.05.31)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério

Congregação para a doutrina da Fé
INSTRUÇÃO Ardens felicitates
SOBRE AS ORAÇÕES PARA ALCANÇAR DE DEUS A CURA

II. DISPOSIÇÕES DISCIPLINARES

Art. 1 - Todo o fiel pode elevar preces a Deus para alcançar a cura. Quando estas se fazem numa igreja ou noutro lugar sagrado, convém que seja um ministro ordenado a presidi-las.

Art. 2 - As orações de cura têm a qualificação de litúrgicas, quando inseridas nos livros litúrgicos aprovados pela autoridade competente da Igreja; caso contrário, são orações não litúrgicas.

Art. 3 - § 1. As orações de cura litúrgicas celebram-se segundo o rito prescrito e com as vestes sagradas indicadas no Ordo benedictionis infirmorum do Rituale Romanum. (27)

§ 2. As Conferências Episcopais, em conformidade com quanto estabelecido nos Praenotanda, V, De aptationibus quae Conferentiae Episcoporum competunt (28) do mesmo Rituale Romanum, podem fazer as adaptações ao rito das bênçãos dos enfermos, que considerarem pastoralmente oportunas ou eventualmente necessárias, com prévia revisão da Sé Apostólica.

Art. 4 - § 1. O Bispo diocesano (29) tem o direito de emanar para a própria Igreja particular normas sobre as celebrações litúrgicas de cura, conforme o can. 838, § 4.

§ 2. Os que estão encarregados de preparar ditas celebrações litúrgicas, deverão ater-se a essas normas na realização das mesmas.

§ 3. A licença de realizar ditas celebrações tem de ser explícita, mesmo quando organizadas por Bispos ou Cardeais ou estes nelas participem. O Bispo diocesano tem o direito de negar tal licença a qualquer Bispo, sempre que houver uma razão justa e proporcionada.

Art. 5 - § 1. As orações de cura não litúrgicas realizam-se com modalidades diferentes das celebrações litúrgicas, tais como encontros de oração ou leitura da Palavra de Deus, salva sempre a vigilância do Ordinário do lugar, em conformidade com o can. 839, § 2.

§ 2. Evite-se cuidadosamente confundir estas orações livres não litúrgicas com as celebrações litúrgicas propriamente ditas.

§ 3. É necessário, além disso, que na sua execução não se chegue, sobretudo por parte de quem as orienta, a formas parecidas com o histerismo, a artificialidade, a teatralidade ou o sensacionalismo.

Art. 6 - O uso de instrumentos de comunicação social, nomeadamente a televisão, durante as orações de cura, tanto litúrgicas como não litúrgicas, é submetido à vigilância do Bispo diocesano, em conformidade com o estabelecido no can. 823 e com as normas emanadas pela Congregação para a Doutrina da Fé na Instrução de 30 de Março de 1992. (30)

Art. 7 - § 1. Mantendo-se em vigor quanto acima disposto no art. 3 e salvas as funções para os doentes previstas nos livros litúrgicos, não devem inserir-se orações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas, na celebração da Santíssima Eucaristia, dos Sacramentos e da Liturgia das Horas.

§ 2. Durante as celebrações, a que se refere o art. 1, é permitido inserir na oração universal ou «dos fiéis» intenções especiais de oração pela cura dos doentes, quando esta for nelas prevista.

Art. 8 - § 1. O ministério do exorcismo deve ser exercido na estreita dependência do Bispo diocesano e, em conformidade com o can. 1172, com a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé de 29 de Setembro de 1985 (31) e com o Rituale Romanum. (32)

§ 2. As orações de exorcismo, contidas no Rituale Romanum, devem manter-se distintas das celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas.

§ 3. É absolutamente proibido inserir tais orações na celebração da Santa Missa, dos Sacramentos e da Liturgia das Horas.

Art. 9 - Os que presidem às celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas, esforcem-se por manter na assembleia um clima de serena devoção, e actuem com a devida prudência, quando se verificarem curas entre os presentes. Terminada a celebração, poderão recolher, com simplicidade e precisão, os eventuais testemunhos e submeterão o facto à autoridade eclesiástica competente.

Art. 10 - A intervenção da autoridade do Bispo diocesano é obrigatória e necessária, quando se verificarem abusos nas celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas, em caso de evidente escândalo para a comunidade dos fiéis ou quando houver grave inobservância das normas litúrgicas e disciplinares.



O Sumo-Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida ao abaixo-assinado Prefeito, aprovou a presente Instrução, decidida na reunião ordinária desta Congregação, e mandou que fosse publicada.

Roma, Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 14 de Setembro de 2000, Festa da exaltação da Santa Cruz.

+ Joseph Card. RATZINGER,
Prefeito

+ Tarcisio BERTONE, S.D.B.,
Arc. Emérito de Vercelli,
Secretário

________________________________________
Notas:
(27) Cfr. Rituale Romanum, De Benedictionibus, nn. 290-320.
(28) Ibid., n. 39.
(29) E quantos a ele são equiparados em virtude do can. 381, § 2.
(30) CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Instrução Il Concilio Vaticano II, Sobre alguns aspectos do uso dos instrumentos de comunicação social para a promoção da doutrina da fé, Cidade do Vaticano [1992].
(31) CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Epistula Inde ab aliquot annis, Ordinariis locorum missa: in mentem normae vigentes de exorcismis revocantur, 29 septembris 1985, in AAS 77(1985), pp. 1169-1170.
(32) Cfr. Rituale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, De exorcismis et supplicationibus quibusdam, Editio typica, Typis Vaticanis, MIM, Praenotanda, nn. 13-19.




13/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XIX Semana

Evangelho: Mt 18, 15-20

15 «Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só. Se te ouvir, ganhaste o teu irmão. 16 Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que pela palavra de duas ou três testemunhas se decida toda a questão. 17 Se não as ouvir, di-lo à Igreja. Se não ouvir a Igreja considera-o como um gentio e um publicano. 18 «Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado no céu. 19 «Ainda vos digo que, se dois de vós se unirem entre si sobre a terra a pedir qualquer coisa, esta lhes será concedida por Meu Pai que está nos céus. 20 Porque onde se acham dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles».

Comentário:

A “força” da oração ganha uma importância notável quando feita em conjunto. Talvez estejamos muito habituados a rezar sozinhos pedindo coisas que julgamos precisar e, isso leva-nos não poucas vezes, a um excessivo egocentrismo.

Sem prescindir ou descartar a oração pessoal, a oração mental, a meditação pessoal – formas, diria, avançadas e excelentes de oração em que o espírito se foca naquele a Quem nos dirigimos – a oração comunitária faz parte, deve fazer parte, da vida do cristão. A Igreja é uma comunidade viva e actuante em que todos se unem à volta do Chefe, do Guia, do Redentor.

Por isso a Igreja clama constantemente pela unidade dos cristãos ou seja, que «todos sejam um como o Filho e o Pai são Um»

(ama, comentário sobre Mt 18, 15-20, Carvide, 2013.08.14)

Leitura espiritual



Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

…/5

Viver as virtudes.

Creio que todo o mundo gostaria de saber como ter uma vida correcta, [...], como levá-la ao cume sentindo-se à vontade consigo mesmo. Antes de morrer, o grande actor Cary Grant deixou à sua filha Jennifer uma carta de despedida comovente. Quis dar-lhe nela algumas recomendações adicionais para o caminho.

"Queridíssima Jennifer," escreveu, "viva a sua vida plenamente, sem egoísmo. Seja comedida, respeite o esforço dos outros. Esforce-se por conseguir o melhor [...].

Mantenha puro o juízo e limpa a conduta". E prosseguia: "Dê graças a Deus pelo rosto das pessoas boas e pelo doce amor que há por trás dos seus olhos... Pelas flores que ondulam ao vento... Um breve sono e despertarei para a eternidade. Se não despertar como nós o entendemos, então continuarei a viver em você, filha queridíssima".

De certa forma, soa a católico. Seja como for, é uma carta belíssima. Se [Cary Grant] era católico ou não, não sei, mas certamente é a expressão de uma pessoa que se tornou sábia e compreendeu o significado do bem, e tenta transmiti-lo, além disso, com uma assombrosa amabilidade [i].

Valores espirituais


Redenção e Liberdade humana. Constitui, por assim dizer, a estrutura da aventura da Redenção que ela sempre diga respeito à liberdade. Por isso, [a Redenção] nunca é simplesmente imposta do exterior ou cimentada em estruturas fixas, mas está inserida no frágil vaso da liberdade humana. [...] Como está ligada à liberdade e não é coisa que se possa impor ao homem por meio de estruturas, volta sempre a reportar-se a essa liberdade e, através dela, também pode, até certo ponto, ser destruída.

Mas temos de reconhecer que o cristianismo libertou uma e outra vez grandes forças de amor. Quando se considera o que realmente entrou na História graças ao cristianismo, vemos que é notável. Goethe disse: "Surgiu o respeito profundo pelo que se encontra abaixo de nós". Na realidade, somente através do cristianismo é que se desenvolveu uma assistência organizada aos doentes, o amparo aos fracos e toda uma organização de amor.
Através do cristianismo cresceu, aliás, o respeito por todas as pessoas em todas as situações sociais. É interessante observar que o imperador Constantino, ao reconhecer o cristianismo, se tenha sentido primeiro na obrigação de modificar as leis para introduzir o domingo como feriado universal e que tenha procurado garantir certos direitos aos escravos.

Lembro-me também, por exemplo, de Atanásio, o grande bispo alexandrino do século IV, que narra, a partir da sua própria experiência, como as tribos se enfrentavam com violência em toda a parte, até que, através dos cristãos, surgiu uma certa disposição para a paz. Isso não são coisas que estejam garantidas por si mesmas através da estrutura de um império político: podem, como observamos hoje, tornar a desmoronar uma e outra vez.

Quando o homem abandona a fé, os horrores do paganismo regressam com toda a força.

Julgo que pudemos de facto constatar que Deus entrou na História, por assim dizer, de modo muito mais frágil do que gostaríamos. Mas também pudemos constatar que essa é a sua resposta à liberdade. E se queremos [...] que Deus respeite a nossa liberdade, também temos de aprender a respeitar e a amar a fragilidade da sua ação [ii].

Vocação.

A minha vida tem de ser como a da Madre Teresa?

É uma possibilidade. Mas as vocações são muito variadas. Nem todo o mundo deve ser uma Madre Teresa. Também um grande cientista, um grande erudito, um músico, um simples artesão ou um operário podem ter uma vida plena, pois são pessoas que vivem a sua existência com honradez, lealdade e humildade... [...] Cada vida traz consigo a sua própria vocação, tem o seu próprio código e o seu próprio caminho.
Ninguém é uma mera imitação obtida com um molde, mais um entre uma profusão de exemplares iguais. E cada pessoa necessita também de coragem criativa para viver a sua vida e não se converter numa cópia dos outros.

O senhor lembrar-se-á da parábola do servo preguiçoso, que enterra o seu talento para que nada aconteça com ele, e compreenderá o que quero dizer. Trata-se de um homem que se nega a assumir o risco da existência, a desfraldar toda a sua originalidade e a expô-la às ameaças que isso necessariamente traz consigo [iii].

A vontade de Deus para nós.

O que Deus realmente quer de nós?


Quer que nos tornemos pessoas que amam, porque então somos imagens dEle. Porque Ele é, como nos diz São João, o Amor, e quer que haja criaturas que sejam semelhantes a Ele; criaturas que, a partir da liberdade do seu amor, se tornem como Ele e lhe pertençam e, desse modo, irradiem, por assim dizer, a luz dEle próprio [iv].

Fé, esperança e caridade. A fé é, primeiro, a raiz através da qual se desenvolve a vida, a decisão fundamental de perceber Deus e de o aceitar. E é a chave graças à qual se explica tudo o mais.

Essa fé significa esperança, porque, do modo como é, o mundo não é bom sem mais e não devia continuar a ser como é. Quando se olha para ele de um ponto de vista empírico, poder-se-ia pensar que o mal é a principal força no mundo. Esperar, num sentido cristão, significa conhecer a existência do mal e, apesar disso, olhar com confiança para o futuro. A fé assenta, essencialmente, em aceitar o facto de que se é amado por Deus. Não significa, portanto, apenas dizer-lhe sim, mas significa dizer sim à Criação, às criaturas, sobretudo ao homem: é procurar ver em cada um a imagem de Deus e tornar-se, desse modo, uma pessoa que ama.

Isto não é fácil. Mas graças ao sim fundamental [da fé], graças à convicção de que Deus criou o homem e o apoia, [...] o amor pode encontrar a sua razão de ser e fundamentar a esperança a partir da fé. Nessa medida, a esperança contém o elemento de confiança perante a nossa História ameaçada, mas nada tem a ver com utopia; o objecto da esperança não é o mundo melhor do futuro, mas a vida eterna. A expectativa de um mundo melhor não resolve nada, porque esse não é o nosso mundo, e cada um tem de viver com o seu mundo, com a dimensão do seu próprio presente. O mundo das gerações futuras será marcado pela liberdade dessas gerações e só pode ser determinado por nós de modo muito limitado. Mas a vida eterna é o meu futuro e, portanto, a força que marca a História [v].

Viver de fé: o Sermão da Montanha. Jesus queria mostrar o caminho às pessoas, os pontos de apoio correctos para uma vida plena [...]. Certa vez, subiu a uma montanha, e o seu sermão abriu, de certa forma, um novo capítulo.

Não há dúvida de que o Sermão da Montanha ocupa um lugar simbólico.
Mais ainda: com esse sermão, irrompe uma nova etapa da humanidade, que é possível porque Deus se une aos homens. Ele não se situa apenas no mesmo nível que Moisés, o que, para os ouvintes, certamente já não era fácil de assimilar, mas fala das alturas do autêntico legislador, do próprio Deus. Neste sentido, o Sermão da Montanha é, em muitos aspectos, a expressão mais vigorosa da sua reivindicação divina [como Filho de Deus]; o Senhor afirma que, a partir desse momento, a Lei do Antigo Testamento encontra a sua mais profunda explicação e a sua vigência universal, não por uma intervenção humana, mas graças ao próprio Deus.

As pessoas compreendem isso. E percebem também com muita força, digamos, o duplo aspecto do Sermão da Montanha: que essa mensagem traz consigo uma nova intimidade, um novo amadurecimento e bondade, uma libertação daquilo que é apenas superficial e externo; e, ao mesmo tempo, um novo nível de exigência, uma exigência tão fora de proporções que quase esmaga a pessoa.

Quando o Senhor diz: "Já não vos digo apenas: Não podes cometer adultério, mas nem sequer olhar a mulher com desejo"; quando diz: "Não somente não matarás, como nem sequer guardarás rancor ao próximo"; e quando diz: "Não basta o olho por olho e dente por dente, mas, quando alguém te bater numa das faces, oferece-lhe a outra", somos confrontados com uma exigência que, embora dotada de uma grandeza que provoca admiração, parece desmedida para o ser humano. Ou pelo menos o seria, se Jesus Cristo já não a tivesse experimentado antes e se não fosse uma consequência do encontro pessoal com Deus. Aqui vemos realmente a condição divina de Cristo: não é mais outro enviado [de Deus], mas o definitivo, e nEle se manifesta o próprio Deus [vi].

Preocupações. No Sermão da Montanha, fala-se literalmente de verdadeiras e falsas preocupações. Cristo diz que não devemos preocupar-nos com a comida ou com o que vestiremos, porque a vida é mais importante que o alimento ou a roupa. Soa bem, mas quem seguisse essas recomendações provavelmente morreria em pouco tempo.

Num mundo baseado no planeamento do futuro e na pretensa melhora mediante a previsão, isto é, mediante a "preocupação", essas recomendações tornaram-se inteiramente incompreensíveis. Penso que é preciso ler o texto com muita atenção, e então encontramos a chave dentro dele mesmo. Pois Jesus também diz: "Buscai primeiro o reino de Deus, e tudo o mais vos será dado por acréscimo". Ou seja, há uma ordem de prioridades. Se excluirmos a primeira, concretamente a presença de Deus no mundo, por mais que façamos e por mais útil que seja [o que fizermos], de certa forma há-de escorrer-nos dentre as mãos.

Penso que o importante é: primeiro, o reino de Deus. Esta deve ser a preocupação essencial que estruture a partir de dentro, a partir do reino de Deus, as demais preocupações. Como é natural, não é que simplesmente nos nasçam asas. Preocupamo-nos pelo dia seguinte, de que o mundo continue a progredir, etc. Mas essas
preocupações tornam-se mais leves quando se subordinam à primeira. E vice-versa.

Em certa ocasião, Jesus disse: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a entrada e espaçoso o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela; mas como é estreita a entrada e como é apertado o caminho que leva à vida, e quão poucos são osque o encontram!"

Dessas palavras, seria preciso deduzir que o inferno está repleto e o céu meio vazio.

Elas representam, na realidade, uma advertência muito pragmática: quando se faz o que todos fazem, quando se segue o caminho da comodidade, o caminho amplo, de momento isso pode parecer mais agradável, mas a pessoa afasta-se da verdadeira vida.

Ou seja, a decisão correcta é escolher o caminho difícil. O mero deixar-se levar, o mero nadar a favor da corrente, o submergir na massa, em última análise sempre nos conduz à massa e depois ao vazio. É o valor da ascensão, daquilo que é árduo, o que me põe no bom caminho [vii].


Vida de oração


Oração. Desde que a humanidade existe, as pessoas rezam. Sempre e em toda a parte têm tido consciência de não estarem sós no mundo, de que há Alguém que as escuta.

Sempre têm tido consciência de precisarem de um Outro que é maior do que elas, e de que precisam esforçar-se por alcançá-lo se quiserem que a sua vida seja o que deve ser.

Mas o rosto de Deus sempre esteve velado, e só Jesus nos mostrou a sua verdadeira face: quem o vê, vê o Pai (cfr. Jo 14, 9).

Se, por um lado, é natural que rezemos (que peçamos no momento da necessidade e agradeçamos no momento da alegria), por outro experimentamos também a nossa incapacidade de orar e de falar com um Deus oculto: Não sabemos pedir o que nos convém, diz São Paulo (Rom 8, 26). Portanto, sempre deveríamos dizer ao Senhor, como os discípulos: Senhor, ensina-nos a orar (Lc 11, 1).

O Senhor ensinou-nos o Pai-Nosso como modelo de autêntica oração, e deu-nos uma Mãe, a Igreja, que nos ajuda a rezar. A Igreja recebeu um enorme tesouro de orações da Sagrada Escritura, e ao longo dos séculos surgiram também, dos corações dos fiéis, inúmeras orações que nos permitem renovar sempre o modo como nos dirigimos a Deus. Rezando com a nossa Mãe, a Igreja, aprendemos a rezar [viii].

Ajoelhar-se.

Existem ambientes, não pouco influentes, que tentam convencer-nos de que não há necessidade de ajoelhar-se. Dizem que é um gesto que não se adapta à nossa cultura (mas, a qual se adapta então?); que não é conveniente para o homem maduro, que vai ao encontro de Deus e se apresenta erguido. [...] Pode ser que a cultura moderna
não compreenda o gesto de ajoelhar-se, na medida em que é uma cultura que se afastou da fé e já não conhece Aquele diante de quem ajoelhar-se é o único gesto adequado, e, mais ainda, um gesto interiormente necessário.
Quem aprende a crer também aprende a ajoelhar-se. Uma fé ou uma liturgia que não conhecessem o acto de pôr-se de joelhos estariam doentes num ponto central [ix].

Sentido social da oração.

Pensamos que a oração é algo intimista. Já não temos muita fé - parece-me - no efeito real, histórico, da oração.

Devemos, muito pelo contrário, convencer-nos de que este compromisso espiritual que une o céu e a terra tem uma grande força intrínseca. E um meio para chegar ao estabelecimento da justiça é precisamente comprometer-se a orar, porque desta maneira a oração se transforma numa educação de mim mesmo e do outro para a justiça.

Devemos, em resumo, aprender, reaprender o sentido social da oração [x].

Oração e meditação transcendental.

Diante da busca actual pela espiritualidade, muita gente recorre à meditação transcendental [xi].

Que diferença há entre a meditação transcendental e a meditação cristã?

Em poucas palavras, diria que a essência da meditação transcendental é que o homem se expropria do próprio eu, se une à "essência universal do mundo"; portanto, fica um pouco despersonalizado. Pelo contrário, na meditação cristã, não perco a minha personalidade, entro numa relação íntima com a pessoa de Cristo, entro em relação com o "Tu" de Cristo, e assim o meu "eu" não se perde, mantém a sua identidade e responsabilidade. Ao mesmo tempo, abre-se, entra numa unidade mais profunda, a unidade do amor, que não destrói.

Portanto, diria, simplificando um pouco, que a meditação transcendental é impessoal e, neste sentido, "despersonalizante", ao passo que a meditação cristã é "personalizante" e abre a pessoa a uma unidade profunda, que nasce do amor e não da dissolução do eu [xii].

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





Notas:
[i] Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate
[ii] O sal da terra, págs. 173-175
[iii] La fe, de tejas abajo
[iv] O sal da terra, pág. 223
[v] Ibid., págs. 94-95
[vi] La fe, de tejas abajo
[vii] Ibid
[viii] Introdução a Chi prega se salva, 30Giomi, Roma, 18.02.2005
[ix] El espíritu de Ia liturgia, cit. por Alfa e Omega, 18.10.2001
[x] Alocução, Belluno, Itália, out 2004
[xi] Técnica proposta pelas religiões orientais (hindufsmo, budismo) e que delas passou para inúmeras seitas e grupos New Age; visa atingir o completo esvaziamento interior, a total ausência de desejos e sofrimentos, a fim de preparar a pessoa para a dissolução do seu "eu" no nirvana (N. do T.)
[xii] El relativismo, nuevo rostro de Ia intolerância