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19/07/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Mt 12, 46-50

46 Estando Ele ainda a falar ao povo, eis que Sua mãe e Seus irmãos se achavam fora, desejando falar-Lhe. 47 Alguém disse-Lhe: «Tua mãe e Teus irmãos estão ali fora e desejam falar-Te». 48 Ele, porém, respondeu ao que falava: «Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos?» 49 E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: «Eis Minha mãe e Meus irmãos. 50 Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão e Minha irmã e Minha mãe».

Comentário:

Então, Senhor, eu sou a Tua Mãe e os Teus Irmãos? Se fizer a Vontade de Teu Pai?

Pois não quero eu outra coisa.
Mas como, se sou o que sou, fraco, débil, pusilânime, preconceituoso?

“Eu, Teu pobre filho tão falho de tudo, tão disperso por tantas coisas que não interessam, tão pouco dedicado ao cumprimento da Tua Vontade;
Eu, que me esqueço constantemente que Tu e só Tu tens palavras de Vida Eterna, és o verdadeiro Caminho, a única Verdade, a Vida que vale a pena;
Eu, que me distraio por tantos problemas, por mim próprio criados, fruto da minha inconstância, da minha insensatez, da minha ânsia de ter e possuir, e tão pouco ciente de que não tenho absolutamente nada;
Eu, tão exigente com os outros, tão ávido e cioso da minha "importância", e tão pouco ciente de que não valho absolutamente nada;
Eu, tão convencido da minha ciência, das minhas capacidades, do meu conhecimento das coisas, com opinião formada sobre tudo e sobre todos, sempre pronto a emitir parecer e enunciar princípios, e tão pouco ciente de que não sei absolutamente nada;
Eu, tão seguro da minha capacidade, da minha força, dos meus valores, da minha fortaleza, e tão pouco ciente de que não posso absolutamente nada;
Eu, que me esqueço de ser amigo e filho;
Eu, que me esqueço de ser agradecido e obrigado;
Eu, que me esqueço Te pago com esquecimentos e rejeições;
Eu, que não sei amar, amo muito pouco e muito mal, quer com o coração, quer com as palavras, mas, sobretudo, com as obras;
Eu, que não sei querer, quero mal e quero coisas que não interessam;
Eu, que ponho a minha esperança em coisas vãs e fátuas.“ [i]
Nada mais me resta, senão insistir repetidamente na petição diária:
Docere me facere voluntatem Tuam, quia Deus meus es Tu!

Assim, seguramente, serei digno da Tua promessa e serei Tua Mãe e Teus Irmãos.

(ama, comentário sobre Mt 12, 46-50, 27.05.2016)












[i] ama, Acções de graças da comunhão

21/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo comum XXXIII Semana

Apresentação da Santíssima Virgem

Evangelho: Mt 12, 46-50

46 Estando Ele ainda a falar ao povo, eis que Sua mãe e Seus irmãos se achavam fora, desejando falar-Lhe. 47 Alguém disse-Lhe: «Tua mãe e Teus irmãos estão ali fora e desejam falar-Te». 48 Ele, porém, respondeu ao que falava: «Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos?» 49 E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: «Eis Minha mãe e Meus irmãos. 50 Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão e Minha irmã e Minha mãe».

Comentário:

De facto a resposta de Jesus é muito lógica.
Temos uma Mãe e um Pai comum.
Ele mesmo, Jesus Cristo, é nosso irmão.
E todos os baptizados estamos incluídos nesta mesma família.

(ama, comentário sobre MT 12. 46-50 2015.07.21)

Leitura espiritual



TEXTOS DE VIDA CRISTÃ

Trabalho: contemplação e trabalho (I)

Ser contemplativos é desfrutar do olhar de Deus. Por isso, quem se sabe acompanhado por Ele ao longo do dia, vê com outros olhos as ocupações em que se empenha. Texto editorial sobre o trabalho.

Gostaria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, com uma conversa contínua com o nosso Deus, a qual não deve esmorecer ao longo do dia. Se pretendemos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho [i][1].

Para nós, que estamos chamados por Deus a santificar-nos no meio do mundo, converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa é o único caminho, porque ou sabemos encontrar na nossa vida corrente o Senhor, ou não O encontraremos nunca  [ii].

Convém que meditemos devagar este ensinamento capital de S. Josemaria. Neste texto consideraremos o que é a contemplação; noutros momentos deter-nos-emos a aprofundar a vida contemplativa no trabalho e nas actividades da vida corrente.

COMO EM NAZARÉ, COMO OS PRIMEIROS CRISTÃOS

A descoberta de Deus nas coisas correntes de cada dia dá aos próprios afazeres o seu valor último e a sua plenitude de sentido. A vida oculta de Jesus em Nazaré, os anos intensos de trabalho e de oração, nos quais Jesus teve uma vida tão normal como a nossa, simultaneamente divina e humana [iii], mostram que a actividade profissional, a atenção à família e as relações sociais não são obstáculo para orar sempre [iv], mas ocasião e meio para uma vida intensa de convívio com Deus, até que chega um momento em que é impossível estabelecer uma diferença entre trabalho e contemplação.

Por este caminho da contemplação na vida corrente, seguindo os passos do Mestre, decorreu a vida dos primeiros cristãos: «quando passeia, conversa, descansa, trabalha ou lê, o crente ora» [v], escrevia um autor do século II. Anos mais tarde São Gregório Magno testemunha, como um ideal tornado realidade em numerosos fiéis, que «a graça da contemplação não se dá só aos grandes e não aos pequenos; mas muitos grandes a recebem e também muitos pequenos; e tanto entre os que vivem retirados, como entre as pessoas casadas. Portanto, se não há estado algum entre os fiéis que fique excluído da graça da contemplação, todo o que guardar interiormente o coração pode ser contemplado com essa graça» [vi].

O Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, recordou muitas vezes esta doutrina tão importante para os que temos a missão de levar Cristo a todos os sítios e transformar o mundo com o espírito cristão. «As actividades diárias apresentam-se como um precioso meio de união com Cristo, podendo converter-se em matéria de santificação, terreno de exercício das virtudes, diálogo de amor que se realiza nas obras. O espírito de oração transforma o trabalho e, assim, é possível contemplar a Deus, mesmo permanecendo nas ocupações mais variadas» [vii].

A CONTEMPLAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

O Catecismo ensina que «a contemplação de Deus na Sua glória celestial é chamada pela Igreja "visão beatífica"» [viii]. Dessa contemplação plena de Deus, própria do Céu, podemos ter uma certa antecipação nesta terra, uma incoação imperfeita [ix] que, embora seja de uma ordem diversa da visão, é já uma verdadeira contemplação de Deus, bem como a graça, que sendo de uma ordem diferente da glória, é, não obstante, uma verdadeira participação na natureza divina. Agora vemos como num espelho, obscuramente; depois veremos cara a cara. Agora conheço de modo imperfeito, depois conhecerei como sou conhecido [x], escreve São Paulo.

Essa contemplação de Deus como num espelho, no decurso da vida presente, é possível graças às virtudes teologais: à fé e à esperança vivas, informadas pela caridade. A fé, unida à esperança e vivificada pela caridade, «faz-nos saborear, de antemão, o gozo e a luz da visão beatífica, termo da nossa caminhada nesta Terra» [xi].

A contemplação é um conhecimento amoroso e gozoso de Deus e dos seus desígnios manifestados nas criaturas, na Revelação sobrenatural e plenamente na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo nosso Senhor. «Ciência de amor» [xii], assim a chama São João da Cruz. A contemplação é um claro conhecimento da verdade, alcançado não por um processo de raciocínio mas por uma intensa caridade [xiii].

A oração mental é um diálogo com Deus. Escreveste-me: "Orar é falar com Deus. Mas de quê?". De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade! [xiv].

Na vida espiritual, este convívio com Deus tende a simplificar-se à medida que aumenta o amor filial, cheio de confiança. Sucede então que, com frequência, já não são necessárias as palavras para orar, nem as exteriores nem as interiores. As palavras tornam-se supérfluas, porque a língua não consegue expressar-se; o entendimento aquieta-se. Não se discorre, olha-se! [xv].

Isto é a contemplação, um modo de orar activo mas sem palavras, intenso e sereno, profundo e simples. Um dom que Deus concede aos que O procuram com sinceridade, põem toda a alma no cumprimento da Sua Vontade, com obras e procuram mover-se na Sua presença. Primeiro uma jaculatória, e depois outra e outra... Até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras se tornam pobres...: e abrem-se as portas à intimidade divina, com os olhos postos em Deus sem descanso e sem cansaço [xvi]. Isto pode suceder, como ensina S. Josemaria, não só nos tempos dedicados expressamente à oração, mas também enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício [xvii].

SOB A ACÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

O Pai, o Filho e o Espírito Santo inabitam na alma em graça [xviii]: somos templos de Deus [xix]. Não há palavras para expressar a riqueza do mistério da Vida da Santíssima Trindade em nós: o Pai que gera eternamente o Filho, e o Espírito Santo, vínculo de Amor subsistente, que procede do Pai e do Filho. Pela graça de Deus, tomamos parte nessa Vida como filhos.

O Paráclito une-nos ao Filho que assumiu a natureza humana para nos fazer participantes da natureza divina: quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher (...) para que recebêssemos a adopção de filhos. E, porque vós sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: «Abba, Pai» [xx]. E nesta união com o Filho não estamos sós mas formamos um corpo, o Corpo místico de Cristo, a que todos os homens estão chamados a incorporar-se como membros vivos e a ser, como os apóstolos, instrumentos para atrair outros, participando no sacerdócio de Cristo [xxi].

A vida contemplativa é a vida própria dos filhos de Deus, vida de intimidade com as Pessoas Divinas e transbordante de afã apostólico. O Paráclito infunde em nós a caridade que nos permite alcançar um conhecimento de Deus que sem a caridade é impossível, pois o que não ama não conhece Deus, porque Deus é amor [xxii]. Quem mais O ama melhor O conhece, já que esse amor — a caridade sobrenatural — é uma participação na infinita caridade que é o Espírito Santo [xxiii], que tudo penetra, mesmo as profundezas de Deus. Com efeito, qual dos homens conhece as coisas que são do homem, senão o espírito do homem que está nele? Assim, também, as coisas que são de Deus ninguém as conhece senão o Espírito de Deus [xxiv].

Esse Amor, com maiúscula, instaura na vida da alma uma estreita familiaridade com as Pessoas Divinas e um entendimento de Deus mais fino, mais rápido, certeiro e espontâneo, em profunda sintonia com o Coração de Cristo [xxv]. Também no plano humano aqueles que se amam compreendem-se com mais facilidade e, por isso, S. Josemaria recorre a essa experiência para transmitir, de algum modo, o que é a contemplação de Deus; por exemplo, contava que na sua terra às vezes se dizia: olha como o contempla! e explicava como esse modo de dizer se referia a uma mãe que tinha o filho nos braços, a um noivo que olhava para a sua noiva, a mulher que velava o marido. Pois assim devemos contemplar o Senhor.

Mas toda a realidade humana, por mais formosa que seja, é uma sombra da contemplação que Deus concede às almas fiéis. Se já a caridade sobrenatural supera em altura, em qualidade e em força qualquer amor simplesmente humano, o que dizer dos Dons do Espírito Santo, que permitem deixar-nos levar docilmente por Ele? Com o crescimento destes Dons — Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor filial — cresce a conaturalidade ou a familiaridade com Deus e abre-se todo o colorido da vida contemplativa.

Em especial, pelo Dom da Sabedoria — o primeiro e maior dos Dons do Espírito Santo [xxvi] — outorga-se-nos não só o conhecer e assentir nas verdades reveladas acerca de Deus e das criaturas, como é próprio da fé, mas saborear essas verdades, conhecê-las com «um certo sabor de Deus» [xxvii]. A Sabedoria — sapientia — é uma sapida scientia: uma ciência que se saboreia.

Graças a este Dom não só se crê no Amor de Deus, mas sabe-se de um modo novo [xxviii]. É um saber a que só se chega com santidade; e há almas obscuras, ignoradas, profundamente humildes, sacrificadas, santas, com um sentido sobrenatural maravilhoso: Eu te louvo ó Pai, Senhor do Céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos pequeninos [xxix].

Com o Dom da Sabedoria a vida contemplativa penetra nas profundidades de Deus [xxx]. Neste sentido S. Josemaria convida-nos a meditar um texto de São Paulo, em que se nos propõe todo um programa de vida contemplativa — conhecimento e amor, oração e vida — (...): que Cristo habite pela fé nos vossos corações; e que arraigados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do mistério; e conhecer também aquele amor de Cristo, que excede toda a ciência, de modo que fiqueis cheios de toda a plenitude de Deus [xxxi] [xxxii].

Temos que implorar ao Espírito Santo o Dom da Sabedoria juntamente com os outros Dons, o seu séquito inseparável. São os presentes do Amor divino, as joias que o Paráclito entrega a todos os que querem amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

PELO CAMINHO DA CONTEMPLAÇÃO

Quanto maior for a caridade, mais intensa será a familiaridade com Deus na qual surge a contemplação. Até a caridade mais débil, como a de quem se limita a não pecar gravemente mas não procura cumprir em tudo a Vontade de Deus, estabelece uma certa conformidade com a Vontade divina. No entanto, um amor que não procura amar mais, que não tem o fervor da piedade, parece-se mais com a cortesia formal de um estranho do que ao afecto de um filho. Quem se conformasse com isso na sua relação com Deus, não passaria de um conhecimento das verdades reveladas insípido e passageiro, porque quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é semelhante a um homem que contempla a imagem do seu rosto num espelho: mal se contemplou e, tendo-se retirado, logo esqueceu como era [xxxiii].

Muito diferente é o caso de quem deseja sinceramente identificar em tudo a sua vontade com a Vontade de Deus e, com a ajuda da graça, põe os meios: a oração mental e vocal, a participação nos Sacramentos — a Confissão frequente e a Eucaristia — o trabalho e o cumprimento fiel dos próprios deveres, a procura da presença de Deus ao longo do dia: o cuidado do plano de vida espiritual a par de uma intensa formação cristã.

O ambiente actual da sociedade conduz muitos a viver voltados para fora, com uma permanente ânsia de possuir isto ou aquilo, de ir daqui para acolá, de ver e olhar, de mover-se, de distrair-se com futilidades, talvez com o objectivo de esquecer o seu vazio interior, a perda do sentido transcendente da vida humana. A nós, que descobrimos a chamada divina à santidade e ao apostolado, deve suceder-nos o contrário. Quanto mais actividade exterior, mais vida para dentro, mais recolhimento interior, procurando o diálogo com Deus presente na alma em graça e mortificando os afãs da concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba de vida [xxxiv]. Para contemplar Deus é preciso limpar o coração. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus [xxxv].

Peçamos à Nossa Mãe Santa Maria que nos obtenha do Espírito Santo o dom de ser contemplativos no meio do mundo, dom que sobreabundou na sua vida santíssima. 

j. lópez, 6 de Janeiro de 2011.



[i] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.
[ii] S. Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo, n. 114.
[iii] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 56.
[iv] Lc 18, 1.
[v] Clemente de Alexandria, Stromata, 7, 7.
[vi] São Gregório Magno, In Ezechielem homiliae, 2, 5, 19.
[vii] João Paulo II, Discurso ao Congresso «A grandeza da vida corrente», no centenário do nascimento do Beato Josemaria, 12-I-2002, n. 2.
[viii] Catecismo da Igreja Católica, n. 1028.
[ix] Cfr. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 12, a. 2, c; y II-II, q. 4, a.1; q. 180, a. 5, c.
[x] 1 Cor 12, 12. Cfr. 2 Cor 5, 7; 1 Jo 3, 2.
[xi] Catecismo da Igreja Católica, n. 163.
[xii] São João da Cruz, Noche oscura, lib. 2, cap. 18, n. 5.
[xiii] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 180, a. 1, c y a.3, ad 1.
[xiv] S. Josemaria, Caminho, n. 91.
[xv] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.
[xvi] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.
[xvii] Ibidem.
[xviii] Cfr. Jo 14, 23.
[xix] Cfr. 1 Cor 3, 16; 2 Cor 6, 16.
[xx] Gal 4, 4-6.
[xxi] Cfr. 1 Cor 12, 12-13, 27; Ef 2, 19-22; 4, 4.
[xxii] 1 Jo 4, 9.
[xxiii] Cfr. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 24, a. 7, c. In Epist. ad Rom., c. 5, lect. 1.
[xxiv] 1 Cor 2, 10-11.
[xxv] Cfr. Mt 11, 27.
[xxvi] Cfr. João Paulo II, Alocução 9-IV-1989.
[xxvii] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II, q. 45, a. 2, ad 1.
[xxviii] Cfr. Rm 8, 5.
[xxix] Mt 11, 25.
[xxx] 1 Cor 1, 10.
[xxxi] Ef 3,17-19
[xxxii] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 163.
[xxxiii] Tg 1, 23-24.
[xxxiv] 1 Jo 2, 16.
[xxxv] Mt 5, 8.

21/07/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual



Tempo comum XVI Semana

São Lourenço de Brindes – Doutor da Igreja

Evangelho: Mt 12, 46-50

46 Estando Ele ainda a falar ao povo, eis que Sua mãe e Seus irmãos se achavam fora, desejando falar-Lhe. 47 Alguém disse-Lhe: «Tua mãe e Teus irmãos estão ali fora e desejam falar-Te». 48 Ele, porém, respondeu ao que falava: «Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos?» 49 E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: «Eis Minha mãe e Meus irmãos. 50 Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão e Minha irmã e Minha mãe».

Comentário:

Ser da família de Cristo!

Sim, é verdade já o somos quando com a Sua Morte e Ressurreição nos ganhou o estatuto de filhos de Deus em Cristo, Seus irmãos portanto.

Mas, agora vai mais longe ainda quando diz: todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão e Minha irmã e Minha mãe».

Concluímos então que para pertencer à Família mais íntima de Cristo basta fazer a Vontade de Deus.

(ama, comentário sobre MT 12. 46-50 2015.05.13)



Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

157
         
Lembrais-vos da parábola do bom Samaritano?
Ficou aquele homem caído no caminho, maltratado pelos ladrões que lhe roubaram tudo, até ao último centavo.
Passam por aquele lugar um sacerdote da Antiga Lei e pouco depois um levita; ambos seguem o seu caminho sem se preocuparem.
Mas um Samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão.
Aproximando-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele em tudo.
Reparai que o Senhor não refere este exemplo só para uso de algumas almas, pois logo acrescenta, respondendo ao que lhe tinha feito a pergunta - a cada um de nós -: Vai, e faz tu o mesmo.

Portanto, quando nos apercebemos de que na nossa vida ou na dos outros alguma coisa corre mal, alguma coisa precisa do auxílio espiritual e humano, que nós, filhos de Deus, podemos e devemos prestar, uma clara manifestação de prudência consistirá em dar-lhe remédio oportuno, a fundo, com caridade e com fortaleza, com sinceridade.
Não valem as inibições.
É errado pensar que com omissões ou adiamentos se resolvem os problemas.

Sempre que a situação o requeira, a prudência exige que se aplique o remédio totalmente e sem paliativos, depois de pôr a chaga a descoberto.

Ao notar os menores sintomas do mal, sede simples, verazes, quer sejais vós a curar os outros, quer sejais vós a receber essa assistência.
Nesses casos, deve-se permitir à pessoa que está em condições de curar em nome de Deus que aperte de longe a zona infectada e depois de mais perto, até sair todo o pus, de modo que o foco da infecção acabe por ficar bem limpo.
Em primeiro lugar, temos que proceder assim connosco mesmos e com quem, por motivos de justiça ou caridade, temos obrigação de ajudar.
Rezo nesse sentido especialmente pelos pais e por quem se dedica a tarefas de formação e de ensino.

158
        
Os respeitos humanos

Que nenhuma razão hipócrita vos detenha; aplicai o remédio próprio; mas fazei-o com mãos maternais, com a infinita delicadeza das nossas mães, quando nos curavam as feridas, grandes ou pequenas, provocadas pelas nossas brincadeiras e pelas nossas quedas da infância.
Se é preciso esperar umas horas, espera-se; nunca mais tempo do que o imprescindível, pois outra atitude seria comodismo, cobardia, coisa bem diferente da prudência.
Rejeitai, todos vós, principalmente os que tendes o encargo de formar outras pessoas, o medo de desinfectar a ferida.

É possível que alguém sussurre arteiramente ao ouvido dos que devem curar e não se decidem ou não querem enfrentar-se com a sua missão: Mestre, sabemos que és verdadeiro.
Não tolereis o elogio irónico. Os que não se esforçam por levar a cabo a sua tarefa com diligência nem são mestres, pois não ensinam o caminho autêntico, nem são verdadeiros, pois com a sua falsa prudência consideram exageradas ou desprezam as normas claras - mil vezes comprovadas pela recta conduta, pela idade, pela ciência do bom governo, pelo conhecimento da fraqueza humana e pelo amor a cada ovelha - que nos levam a falar, a intervir, a mostrar interesse.

Os falsos mestres são dominados pelo medo de apurar a verdade.
Aflige-os a simples ideia - que constitui uma obrigação - de recorrer ao antídoto doloroso em determinadas circunstâncias.
Em tal atitude - convencei-vos disso - não há prudência, nem piedade, nem sensatez; o que essa atitude reflecte é pusilanimidade, falta de responsabilidade, insensatez e pouca inteligência.
Esses são os mesmos que depois, perante o desastre, dominados pelo pânico, pretendem atalhar o mal quando já é tarde.
Não se lembram de que a virtude da prudência exige recolher e transmitir a tempo o conselho sereno da maturidade, da experiência antiga, do olhar límpido, da língua sem travas.

159
        
Sigamos o relato de S. Mateus: Sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus segundo a pura verdade.
Nunca deixo de me surpreender perante este cinismo.
Tudo fazem com a intenção de retorcer as palavras de Jesus, Senhor Nosso, de o apanhar nalgum descuido e, em vez de lhe exporem lhanamente o que eles consideravam problema insolúvel, tentam aturdir o Mestre com louvores que só deviam sair de lábios convictos, de corações rectos.
Detenho-me intencionalmente na análise destes matizes, para aprendermos a ser, não desconfiados, mas prudentes; para que não aceitemos a fraude do fingimento, mesmo que apareça revestido de frases ou de gestos que, em si mesmos, correspondem à realidade, como sucede na passagem que estamos a contemplar: Tu não fazes acepção de pessoas, dizem-lhe; Tu vieste para todos os homens; a Ti, nada te impede de proclamar a verdade e de ensinar o bem....

Repito: prudentes, sim; desconfiados, não.
Concedei a todos a mais absoluta confiança; sede muito nobres.
Para mim, vale mais a palavra de um cristão, de um homem leal - fio-me inteiramente de cada um - do que a assinatura autêntica de cem notários unânimes, apesar de me terem talvez enganado nalguma ocasião por seguir este critério.
Prefiro expor-me a que um irresponsável abuse desta confiança, a retirar a quem quer que seja o crédito que merece como pessoa e como filho de Deus.
Garanto-vos que nunca me senti defraudado com os resultados desta atitude.

160
         
Actuar com rectidão

Se, em cada momento, não tiramos do Evangelho consequências para a vida actual, é porque não meditamos nele suficientemente.
Muitos de vós sois jovens; outros já entrastes na maturidade.
Todos vós quereis, queremos todos - senão não estaríamos aqui - produzir bons frutos.
Tentamos meter na nossa conduta o espírito de sacrifício, o empenho de negociar com o talento que o Senhor nos confiou, porque sentimos o zelo divino pelas almas.
Mas, apesar de tanta boa vontade, não seria a primeira vez que algum de nós cairia nas malhas dessa rede - ex pharisæis et herodianis - composta por pessoas que deviam defender os direitos de Deus, visto que são cristãos, mas que, pelo contrário, de um modo ou de outro, cercam insidiosamente outros irmãos na Fé, outros servidores do mesmo Redentor, aliando-se e identificando-se com os interesses das forças do mal.

Sede prudentes e actuai sempre com simplicidade, virtude tão própria dos bons filhos de Deus.
Sede naturais na vossa linguagem e na vossa actuação.
Chegai ao fundo dos problemas; não fiqueis à superfície.
Reparai que é preciso contar antecipadamente com o sofrimento alheio e com o nosso, se desejamos deveras cumprir santamente e com honradez as nossas obrigações de cristãos.

161
        
Não vos oculto que, quando tenho que corrigir ou tomar uma decisão que fará sofrer alguém, padeço antes, durante e depois; e não sou um sentimental.
Consola-me pensar que só os animais não choram; nós, os homens, filhos de Deus, choramos.
Sei que em determinados momentos, também vós tereis que sofrer, se vos esforçardes por levar a cabo fielmente o vosso dever.
Não vos esqueçais de que é mais cómodo - mas é um descaminho - evitar o sofrimento a todo o custo, com o pretexto de não magoar o próximo; frequentemente o que se esconde por trás desta omissão é uma vergonhosa fuga ao sofrimento próprio, porque normalmente não é agradável fazer uma advertência séria a alguém.
Meus filhos, lembrai-vos de que o inferno está cheio de bocas fechadas.

Estão a escutar-me vários médicos.
Desculpai o meu atrevimento, se volto a usar um exemplo da medicina; talvez me escape algum disparate, mas serve para comparação ascética.
Para curar uma ferida, primeiro limpa-se esta muito bem e inclusivamente ao seu redor, desde bastante distância.
O médico sabe perfeitamente que isso dói, mas se omitir essa operação, depois doerá ainda mais.
A seguir, põe-se logo o desinfectante; arde - pica, como dizemos na minha terra - mortifica, mas não há outra solução para a ferida não infectar.

Se para a saúde corporal é óbvio que se têm de tomar estas medidas, mesmo que se trate de escoriações de pouca importância, nas coisas grandes da saúde da alma - nos pontos nevrálgicos da vida do ser humano - imaginai como será preciso lavar, como será preciso cortar, como será preciso limpar, como será preciso desinfectar, como será preciso sofrer!
A prudência exige-nos intervir assim e não fugir ao dever, porque não o cumprir seria uma falta de consideração e inclusivamente um atentado grave, contra a justiça e contra a fortaleza.

Persuadi-vos de que um cristão, se pretende deveras proceder rectamente diante de Deus e dos homens, precisa de todas as virtudes, pelo menos em potência.
Mas, perguntar-me-eis: Padre, o que diz das minhas fraquezas?
Responder-vos-ei: Porventura um médico que está doente, mesmo que a sua doença seja crónica, não cura os outros?
A sua doença impede-o de prescrever a outros doentes o tratamento adequado?
É claro que não.
Para curar, basta-lhe ter a ciência necessária e aplicá-la com o mesmo interesse com que combate a sua própria enfermidade.

(cont)