Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mc 16 15-20. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mc 16 15-20. Mostrar todas as mensagens

25/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Mc 16, 15-20

15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado. 17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas, 18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados». 19 O Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-Se à direita do Pai. 20 Eles, tendo partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam.

Comentário:

Em plena Páscoa a Liturgia escolhe este trecho do Evangelho se São Marcos porque hoje se comemora o dia do Apóstolo e Evangelista.

É, aliás, o “fecho” do Evangelho que escreveu baseado como sabemos no que ouviu directamente do Príncipe dos Apóstolos, São Pedro.

Ficamos a dever a São Marcos o conhecimento das 12 pessoas que o Senhor escolheu como “colunas” da Sua Igreja, das suas características pessoais, fragilidades, e limitações bem notórias, inclusive as negações e infidelidades.

Revela-se assim a profunda humildade desses homens nomeadamente de São Pedro que não se opõem antes terão desejado que tudo constasse para que nós, cristãos, normais e correntes, possamos ver que podemos perfeitamente estar “à altura” dos Doze e sermos como eles foram fiéis até à morte a nosso Senhor Jesus Cristo.

(ama, comentário sobre Mc 16, 15-18, 2015.04.25)

Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES


LIVRO DÉCIMO-SEGUNDO

CAPÍTULO VIII

A terra invisível

Mas o céu do céu pertence-te a ti, Senhor; a terra, que deste aos filhos dos homens para que a vissem e tocassem, não era tal como agora e vemos e tocamos. Era invisível e informe: um abismo sobre o qual não havia luz. As trevas estendiam-se sobre o abismo – isto é: mais profundas que o abismo. Esse abismo das águas, agora visíveis, tem até nas suas profundezas uma luminosidade, perceptível aos peixes e aos animais que se arrastam no fundo. Mas tudo isso era quase o nada, sendo ainda completamente informe; porém já era um ser apto a receber uma forma.

Senhor, criaste o mundo de uma matéria sem forma; do nada fizeste este quase nada de onde tiraste as grandes coisas que admiramos, nós, os filhos dos homens. Porque este céu corpóreo é de facto admirável, este firmamento que separa uma água de outra, que criaste no segundo dia, depois da luz, dizendo: “Faça-se – e assim se fez”. Chamaste céu a este firmamento: o céu desta terra e deste mar que criaste no terceiro dia, dando forma visível à matéria informe, criado por ti antes de todos os dias.

Já tinas criado outro céu antes de haver dia; mas era o céu do céu, porque no princípio criaste o céu e a terra. Quanto a esta mesma terra, nada mais era que matéria informe, sendo invisível, caótica e as trevas reinando sobre o abismo. É desta terra invisível, caótica, desta massa informe, deste quase nada, que formaste todas as coisas de que é formado e não formado este mundo mutável, domínio da transformação, que torna possíveis a percepção e a medida do tempo.
Porque o tempo é feito da mudança das coisas, de variações e transformações das formas, cuja matéria é esta terra invisível, de que falei acima.

CAPÍTULO IX

A criação do tempo

Por isso, o Espírito que instruiu o teu servo, quando relata que no princípio criaste o céu e a terra, cala-se sobre o tempo, guarda silêncio sobre os dias. De facto, o céu do céu, que fizeste no começo, é de alguma maneira uma criatura racional que, mesmo sem ser co-eterna contigo, ó Trindade, participava todavia da tua eternidade. A doçura de te contemplar beatificamente mantém-na imóvel e unida a ti sem movimento, e desde a sua criação escapa às vicissitudes fugazes do tempo.

Porém, esta massa informe, esta terra invisível, este caos, tu não o enumeraste entre os dias; de facto, onde não há forma nem ordem, nada vem, nada passa e, portanto não pode haver nem dias, nem sucessão de espaços temporais.

CAPÍTULO X

Invocação à verdade

Ó Verdade, luz do meu coração, faz com que se calem as minhas trevas. Deixei-me cair nelas e fiquei às escuras; mas, mesmo do fundo desse abismo, eu te amei ardentemente. Andei, errante, mas lembrei-me de ti. Ouvi a tua voz atrás de mim, que me exortava a que voltasse; mas dificilmente podia escutá-la, por causa do tumulto da minha alma. E agora, eis que, ardente e anelante, volto à tua fonte. Que ninguém mo impeça; beberei da sua água, e assim viverei. Que não seja eu a minha própria vida! Vivi mal por minha culpa, e fui a causa da minha morte. Em ti eu revivo! Fala-me, ensina-me. Creio nos teus livros, e as tuas palavras encerram profundos mistérios.

CAPÍTULO XI

As criaturas e o criador

Já me disseste, Senhor, com voz forte ao ouvido da minha alma, que és eterno, e que só tu possuis a imortalidade, porque não mudas nem de forma, nem de movimento; a tua vontade não varia conforme o tempo, pois a vontade mutável não é imortal. Esta verdade é-me clara na tua presença. Peço-te que ela se torne para mim cada vez mais clara, e sob as tuas asas eu me mantenha atento a esta evidência.

Também disseste, Senhor, com voz forte ao ouvido da minha alma, que todas as naturezas, todas as substâncias que não são o que és, mas que existem, tu as criaste; que só o nada não provém de ti, assim como o movimento de uma vontade que se afasta de ti, Ser supremo. Enfim, que nenhum pecado te causa dano, nem perturba a ordem do teu império, superior ou inferior. Essa verdade é clara para mim na tua presença. Peço-te que se torne para mim cada vez mais clara, e que sob as tuas asas eu me mantenha atento a esta evidência.
Também disseste, Senhor, com voz forte ao ouvido da minha alma, que essa criatura, que tem em ti o seu único deleite, não te é co-eterna; que goza de ti em união casta e duradoura, sem nunca trair em parte alguma a sua natureza mutável; que, se conserva sempre na tua presença e unida a ti com todo o seu amor, não tem de esperar futuro, nem que recordar passado, imutável pois com o tempo e o vir a ser. Feliz criatura, se existe, por participar da tua felicidade, feliz de ser perenemente habitada e iluminada por ti! Nada encontro que melhor se possa chamar céu de céu que pertence ao Senhor, que esta habitação da tua divindade, que contempla as tuas delícias sem que nada a afaste para outras partes. Puro espírito, intimamente ligado por um elo de paz com esses santos, espíritos, cidadãos da tua cidade, situada no céu e acima do nosso céu.

Diante disso, possa a alma, cuja peregrinação afastou de ti, compreender se já tem sede de ti, se o seu pranto se tornou o seu pão, quando todos os dias lhe dizem: Onde está o teu Deus? – seela deseja apenas habitar na tua morada todos os dias da sua vida. E que é a sua vida, senão tu?
Que são os teus dias, senão a tua eternidade, como os teus anos que não passam, porque és sempre o mesmo? Por isso, digo, faz compreender à alma, se possível, como a tua eternidade transcende todos os temos. A tua morada, que nunca se afastou de ti, embora não te sendo co-eterna, graças à sua incessante e ininterrupta união contigo, não padece de vicissitudes do tempo. Essa verdade é clara para mim na tua presença. Peço-te que se torne para mim cada vez mais clara, e que sob as tuas asas eu me mantenha atento a esta evidência.

Vejo, de facto, não sei que matéria informe nas transformações das coisas últimas e ínfimas. Mas quem dirá, a não ser o insensato, cujo espírito vagueia entre quimeras, à mercê dos seus fantasmas, quem, salvo este, ousaria afirmar que, se toda forma fosse destruída, abolida, restando apenas a matéria informe, graças à qual as coisas se transformam e passam de uma forma para outra, ela poderia produzir as vicissitudes do tempo? Não, tal hipótese é absolutamente impossível, pois sem variedade de movimentos não há tempo; e não há variedade onde não há forma.

CAPÍTULO XII

A criação e a eternidade

Bem consideradas estas coisas, por tua graça, meu Deus, e como me incitasse a bater, e como me abres quando bato, encontro duas criações tuas não afectadas pelo tempo, embora nenhuma delas te seja co-eterna. Uma, que criaste tão perfeita que jamais deixa de te contemplar, que não sofre nenhuma mudança, embora de natureza mutável, e goza da tua eternidade e da tua imutabilidade. Outra, informe, a ponto de lhe ser impossível passar de uma forma para outra, quer no movimento, quer no repouso, e, portanto, incapaz de estar sujeita ao tempo. Mas tu não a deixaste informe pois, antes de qualquer dia, fizeste no principio o céu e a terra, as duas obras de que falava.

Mas a terra era invisível e informe, e as trevas reinavam sobre o abismo. Por essas palavras, a Escritura sugere a ideia de algo informe, para ensinar aos poucos aos espíritos que não podem conceber que a falta absoluta de forma não se confunde com o nada. É dessa massa informe que deveria ser criado um segundo céu, uma terra visível, ordenada, a água cristalina, e enfim tudo o que foi feito na criação, de acordo com a tradição das Escrituras, em dias sucessivos.

E essa obra é tal que, devido à mudanças regulares dos seus movimentos e formas, está sujeita às vicissitudes do tempo.

CAPÍTULO XIII

O céu e a terra em Génesis

“No princípio criou Deus o céu e a terra. A terra era invisível e informe, e as trevas estendiam-se sobre o abismo.” Ouço estas palavras, meu Deus, e não encontrando menção do dia em que criaste essas coisas, concluo dessa omissão que se trata do céu do céu, do céu intelectual, onde a inteligência conhece simultaneamente e não por partes; não por enigma, ou como um espelho, mas por inteiro, em plena luz, face a face; conhece não ora isto, ora aquilo, mas, como disse, simultaneamente, sem a sequência temporal. Concluo também que se trata da terra invisível, informe, estranha às vicissitudes do tempo, que ora causam isto, ora aquilo, pois onde não há forma não pode haver isto ou aquilo.

Dessas realidades, uma de forma acabada desde o início, a outra absolutamente informe, o céu, isto é: o céu do céu, e a terra, isto é: terra invisível e informe, é bem a propósito delas que a tua Escritura diz, sem mencionar o dia: “No princípio criou Deus o céu e a terra”. E acrescenta imediatamente de que terra se trata. E, indicando que no segundo dia foi criado o firmamento, que foi chamado céu, dá a entender também de que céu falara antes, sem precisar o dia.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


17/05/2015

Evabelho, comentário, L. Espiritual



Semana VII da Páscoa

Evangelho: Mc 16 15-20

15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado. 17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas, 18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados». 19 O Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-Se à direita do Pai. 20 Eles, tendo partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam.

Comentário:

Em muitas das chamadas “igrejas” que proliferam um pouco por toda a parte, uma das práticas correntes para atrair e fidelizar prosélitos é precisamente o recurso a esses “milagres” que o Senhor promete aos que O seguem e levam a Sua Palavra aos outros.
Como se sabe, tais “milagres” não passam de mistificações mais ou menos grosseiras porque ninguém tem esse poder senão aqueles a quem o Senhor o concede.
Os milagres são feitos por Jesus Cristo que se serve dos homens por Si escolhidos como instrumentos para os realizar.
Não é possível, pois, operar milagres sejam quais forem, em proveito próprio e, muito menos, se O Senhor está ausente ou é abusivamente evocado seja por quem for.

(ama, comentário sobre Mc 16, 15-18, 2013.04.25)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE



xiv -o espírito das bem-aventuranças

…/3

       
o sentido de cada bem-aventurança

        Quem são bem-aventurados ao chorar?
Formulamos assim a pergunta porque parece óbvio que nem todo o pranto entra na Bem-Aventurança.
Com efeito participam desta promessa os que padecem tristeza e choram pelo pecado próprio e pelo dos outros que, ao viver com Cristo, «fazer-se pecado» nunca lhes é totalmente alheio.
Os que se doem pelo afastamento de Deus pelos pecadores e por todo o mal contra Deus que se vive na terra, contra os homens e contra si próprios que têm de suportar nas suas vidas sem poder impedir que aconteça nem estar em condições de remediar as suas consequências.

        Cristo deu-nos um exemplo claro desta Bem-Aventurança com o seu choro sobre Jerusalém: «ao aproximar-se e ver a cidade chorou sobre ela dizendo: ‘Se também tu conhecesses neste dia a mensagem de paz!’. Mas agora está oculto aos teus olhos» [1].

        No pranto ante o mal podemos vislumbrar a acção da Esperança.
O pranto destes bem-aventurados anuncia a aurora da Ressurreição.

        Quem são os Mansos?
Talvez que esta Bem-Aventurança seja uma das que com mais frequência se interpreta com sentido restrictivo e limitado, quase como um simples não irar-se ante o mal.
Se o próprio Senhor nos aconselha que aprendamos dele que é «manso e humilde de coração», necessariamente está a indicar-nos o alcance e a profundidade espiritual da mansidão que não pode, portanto, a manter a calma e a resignação em momentos difíceis.

        A mansidão é a disposição com que Jesus Cristo leva a cabo a redenção do mundo carregando no seu coração com todo o pecado dos homens e assim viver derrota do pecado, o triunfo sobre a morte em comunhão com todos os redimidos.
Cristo é manso no seu nascimento, é manso na sua vida pública, vive a mansidão no abandono da cruz e manifesta definitivo sentido sobrenatural da mansidão na sua paciência e compreensão com os discípulos de Emaús, com Pedro, com Madalena.

        São mansos, por conseguinte, os que suportam com serenidade o mal que os rodeia e não desistem de fazer o bem, os que desejam vencer o mal com a abundância do bem [2], os que cedem ante a maldade, ante a injustiça sem por isso deixar de defender a Verdade e os seus direitos se fosse o caso.
Os mansos nunca devolvem o mal com o mal, afastam do seu coração qualquer sentimento de vingança e rezam pela conversão dos pecadores, dos inimigos, dos que os perseguem, dos que os maltratam.

        Cristo apresenta-se-nos como manso, entre outras passagens do Evangelho, ao aceitar ser tentado pelo demónio [3]; ao recordar a Tiago e a João que a vingança e o castigo não são o caminho para convencer ninguém [4], ao curar a orelha que Pedro no Jardim das Oliveiras cortou com a espada [5].

        Nesta Bem-Aventurança comprovamos a virtude da Caridade e da Esperança que tornam possível que o homem não desista de fazer o bem convencido que o mal, o pecado, não é nunca a última palavra.
Caridade e Esperança que tornam possível  o martírio, acto por excelência da mansidão.

        Quem são os que têm fome e sede de Justiça?
Os que ama a Deus – bem imutável e eterno – sobre todas as coisas e desejam que eles e todos os homens deem glória a Deus em todas as sua acções.
Os que se alegram com a conversão dos pecadores, os que gozam quando o nome de Deus é louvado, querido e venerado porque sabem que essa é a verdadeira justiça e que a criatura adquire a sua verdadeira dignidade em dar «glória a Deus».

        Cristo expressou a sua «fome e sede de justiça», entre outros momentos, ao recordar aos Apóstolos que «vim trazer fogo (o fogo prefigura o Espírito Santo) à terra e quero que ateie» [6].
Ao actuar movido «pelo zelo da casa do Pai» e expulsar do templo os mercadores [7].
Ao prometer-nos que: «oque pedirdes em meu nome Eu o farei para que o Pai seja glorificado no Filho» [8].

        Esta Bem-Aventurança manifesta claramente a acção da Caridade na alma do cristão, Caridade que leva a amar a Deus sobre todas as coisas e a alegrar-se em que Cristo seja reconhecido como Filho de Deus feito homem e ver que os homens caminham na verdade: «Alegrar-me-ei muito ao encontrar entre os teus filhosn os que vivem segundo a verdade» [9].

        A quais se pode chamar misericordiosos?
Aos que têm o seu coração na miséria moral, física e espiritual do outros, os compassivos, os que compreendem as debilidades e fraquezas do próximo e o ajudam a superá-las.
São misericordiosos os que amam verdadeiramente os seus irmãos com o coração e no coração de Cristo e não descriminam ninguém, não julgam ninguém, não deixam de rezar por ninguém e oferecem a sua vida por todos sem esperar nada em troca.

        Cristo, ao perdoar a mulher adúltera, dá-nos um vivo exemplo do seu coração misericordioso.
Uma vez que a mulher admite o seu pecado Cristo não a condena: deixa-a ir-se embora e incita-a para que não volte a pecar [10].

        Cristo oferece-nos o supremo acto de misericórdia ao pedir ao Pai pelos que o crucificam, por cada um de n´s: «Pai perdoai-lhes porque não sabem o que fazem» [11].

        Esta Bem-Aventurança assinala um dos mais altos graus da Caridade - juntamente com o martírio – que o homem pode alcançar na terra.
O misericordioso realiza em Cristo esse mistério do amor de Deus que São Paulo revela nos últimos versículos do seu canto à Caridade: «A Caridade (…) tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» [12].

        Quem são os limpos de coração?
Os que convencidos da afirmação de São Paulo: «Deus faz concorrer todas as coisas para o bem dos que o amam» [13], vêm a acção de Deus Pai em todos os acontecimentos da sua vida.
Nunca pensam mal das actuações dos outros sem por isso desejar descobrir a injustiça e o mal real e objectivo que podem levar a cabo e procuram salvar a intenção de todas as pessoas até que se reconheça claramente a sua acção.

        Estão de tal forma unidos ao querer e ao olhar de Deus que o seu coração limpo é como um espelho que reflecte a luz do olhar de Deus sobre o mundo.
Sofrem pelas ofensas que à sua volta, em toda a terra, se fazem a Deus e anseiam amar a Deus pelos que não O amam.
E fazem-nos de tal forma que nada os apoquenta.
São Marcos refere-se aos limpos de coração ao concluir o seu Evangelho: «Aos que acreditarem acompanhá-los-ão estes sinais: em meu nome expulsarão os demónios, falarão novas línguas, pegarão serpentes com as mãos e se beberem veneno não lhes fará mal, porão as mãos sobre os doentes e curá-los-ão» [14].

        Cristo sublinha a importância desta Bem-Aventurança quando nos recomenda: «procurai, pois, primeiro o reino e a sua justiça, e todas estas coisas (refere-se ao comer, ao beber, ao vestir, ou seja, à necessidades normais do viver) dar-se-vos-ão por acréscimo» [15].

        HNesta Bem-Aventurança a acção da Fé e da Caridade apoiam-se e engrandecem-se mutuamente.
A Fé limpa a inteligência, a Caridade purifica o coração.
E o coração e a inteligência tornam possível que o crente, em alma e corpo, nas suas actuações e nas suas palavras, seja um resplendor da luz do Céu.

        Quais merecem ser considerados pacíficos?
Os que ordenam todos os movimentos da sua alma segundo o querer de Deus, se esforçam em viver segundo a Vontade conhecida de Deus e submetem o seu coração à Verdade recebida de Deus.
Os que não põem outra resistência à acção do Espírito Santo neles que a sua fragilidade humana e, então, o Espírito Santo cura a fragilidade.

        Pacíficos no seu interior e «construtores de paz» em todas as relações com os homens.
Os pacíficos sendo semeadores de paz são um testemunho vivo da paz que Cristo dá, fruto da reconciliação obtida na Cruz.
«Deus houve por bem fazer residir em Cristo toda a Plenitude e reconciliara por ele e para ele todas as coisas opacificando mediante o sangue da sua Cruz o que existe na terra e nos céus» [16].

        Cristo antes da sua morte dirigiu-se assim aos Apóstolos: «A paz vos deixo a minha paz vos dou não como o mundo a dá, eu vo-la dou» [17], e ao apresentar-se perante eles depois da Ressurreição ofereceu-lhe de novo a paz: «A paz esteja convosco» [18].



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Lc 19, 41
[2] Cfr Rm 12, 21
[3] Cfr. Mt 4, 1-11
[4] Cfr Lc 9, 52-56
[5] Cfr. Jo 18, 10-11
[6] Lc 12, 49
[7] Cfr. Jo 2, 17
[8] Jo 14, 13
[9] 2 Jo 4
[10] Cfr. Jo 8, 3-11
[11] Lc 23, 34
[12] 1 Cor 13, 6
[13] Rm 8, 28
[14] Lc 16, 17-18
[15] Mt 6, 33
[16] Col 1, 20
[17] Jo 14, 27
[18] Lc 24, 36

25/04/2015

Evangelho, comentário L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana III da Páscoa


São Marcos – Evangelista

Evangelho: Mc 16 15-20

15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado. 17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas, 18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados». 19 O Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-Se à direita do Pai. 20 Eles, tendo partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam.

Comentário:

Em muitas das chamadas “igrejas” que proliferam um pouco por toda a parte, uma das práticas correntes para atrair e fidelizar prosélitos é precisamente o recurso a esses “milagres” que o Senhor promete aos que O seguem e levam a Sua Palavra aos outros.
Como se sabe, tais “milagres” não passam de mistificações mais ou menos grosseiras porque ninguém tem esse poder senão aqueles a quem o Senhor o concede.

Os milagres são feitos por Jesus Cristo que se serve dos homens por Si escolhidos como instrumentos para os realizar.

Não é possível, pois, operar milagres sejam quais forem, em proveito próprio e, muito menos, se O Senhor está ausente ou é abusivamente evocado seja por 
quem for.

(ama, comentário sobre Mc 16, 15-18, 2013.04.25)

Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

…/11

No Baptismo somos libertados do pecado e convertidos em novas criaturas: filhos de Deus em Cristo, na Igreja.

Na Confirmação recebemos «uma infusão especial” do Espírito que desenvolve em nós o ser «imagem e semelhança de Deus” e o ser «filhos no Filho”.

Se este é o «ser” da «nova criatura” do cristão, temos de perguntar-nos como há-de actuar para saber que se converteu verdadeiramente em «nova criatura”.

Jesus Cristo manifesta no seu existir a nova realidade existencial humana do Filho de Deus.
O homem que se constitui em «nova criatura” e quer viver como tal; o que fará para alcançá-lo? Não se trata de levar a cabo uma imitação externa dos gestos, das palavras, das acções de Jesus Cristo.
O cristão há-de viver a mesma «realidade existencial” de Cristo; e isto tem lugar pela «sua participação na natureza divina”.

É a vida da Graça que estudaremos no próximo capítulo. Baste-nos agora sublinhar a profundidade da mudança que se opera no cristão, e que se pode compreender melhor meditando o «Por Cristo, com Cristo, em Cristo”, e pela acção do Espírito Santo no nosso «eu”.
Ao saber-se libertado e perdoado do pecado, partícipe da natureza divina e com capacidade para descobrir o Amor de Deus em Jesus Cristo, o homem, o cristão necessita também de descobrir o modo de viver a recomendação do mesmo Senhor: «Se me amais, guardareis os meus mandamentos”.[i]

Cristo, na sua realidade de Filho de Deus feito homem, nascido de mulher, é verdadeiramente o nosso modelo, e dá-nos o exemplo do caminhar para o Pai. A sua afirmação de «quem me vê a mim vê o Pai” [ii] é verídica em toda a plenitude.

Cristo não é um espelho no qual o Pai se reflecte; nem a sombra da realidade de Deus, Cristo, sendo o Filho de Deus, é a «imagem de Deus invisível” [iii] feito homem, e portanto, perfeito Deus e perfeito homem, e só sendo Deus pode afirmar de si próprio que é «o Caminho, a Verdade e a Vida”.[iv]

Jesus Cristo sublinhou de modo muito particular que é o nosso exemplo em três recomendações aos seus discípulos e, neles, a todos o crentes, a todos os homens: «Este é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”;[v] e «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas, poi o meu jugo é suave e a minha carga é leve”,[vi] e o esclarecimento que faz sobre a sua vinda à terra, que manifesta a disposição radical da «nova criatura” ante Deus e ante o mundo: «Não vim para ser servido, mas para servir; e dar a minha vida em redenção de muitos”.[vii]

A Cristo, «nova criatura”, descobrimo-lo também com matizes novos no quarto motivo da Encarnação:

4) O Verbo encarnou-se para que assim nós conhecêssemos o amor de Deus: «Nisto se manifestou o amor que Deus nos tem: em que Deus enviou ao mundo o seu Filho único para que vivamos por meio dele”.[viii]

O pecado de Adão teve a sua origem na desconfiança de Adão para com Deus. E Adão perseverou na desconfiança, querendo ocultar-se ao olhar de Deus, depois do pecado.
Com a Encarnação, e no modo em que teve lugar, Deus manifesta que essa desconfiança do homem em nada modificou os seus planos sobre a única criatura a quem Deus «ama por si mesma”, o homem.

A Encarnação de Cristo anula a desconfiança na sua própria raiz e, com a desconfiança, o falso temor de Deus que leva o homem a desobedecer.
É a prova que o homem melhor pode entender do amor de Deus Pai, Filho e Espírito Santo para com ele.
E, com a Encarnação, a vida inteira, morte e ressurreição de Cristo é a expressão mais misteriosa, e inesgotável de significado, do amor de Deus às suas criaturas os homens.

Todo o viver de Cristo na terra, o seu nascimento e a sua morte; as tentações no deserto e a agonia no Horto das oliveiras; as curas de doentes e endemoninhados; os diálogos com fariseus, publicanos, sacerdotes, pecadores, etc., escondem a manifestação plena de Amor que Deus Pai expressa ao mundo, ao homem: «Porque tanto amou Deus o homem, que deu o seu Filho único, para que todo o que acredite nele não pereça, mas tenha a vida eterna”.[ix]

Jesus Cristo morreu na Cruz, não porque a Crucifixão fosse necessária para a Redenção; mas para nos manifestar o Amor do Pai:

 «Ninguém tem amor maior que este de dar a vida pelos seus amigos”.[x]

Ao dar-nos desta forma a conhecer todo o seu Amor, Deus anseia que o homem recupere plenamente a confiança nele e volte de novo a viver a alegria de «obedecer” a Deus Pai, que só deseja sustentar a nossa alegria, o nosso gozo, em lhe «obedecer”.
Porque só assim será possível que o homem aceite livremente a realidade da «nova criatura” que nasce nele pela graça, «participação da natureza divina”, e se decida a seguir os passos de Cristo.

Também agora é importante sublinhar que qualquer tentativa de «reduzir existencialmente Cristo” e negar-lhe a sua condição de «Filho de Deus feito homem” tornaria impossível a manifestação tão clara e plena do amor divino: como poderia Jesus Cristo ter-nos dado a conhecer o Amor de Deus Pai, dando a sua vida por nós, se não estivesse em condições de afirmar a com plenitude de verdade ao anunciar a vinda do Espírito Santo: «Naquele dia conhecereis que eu estou no meu Pai e, vós em mim e eu em vós…; o que me ama a mim será amado por meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele”?[xi] Tampouco poderia ter-nos convidado a acreditar nele, dizendo-nos que «o Pai está em mim e eu no Pai”.[xii]

VII. a graça

Vimos como Deus Pai, depois do pecado de Adão e Eva, que levava consigo a rejeição por parte do homem da sua condição de criatura, a «imagem e semelhança de Deus”, estabelece e enriquece a ordem da criação com a obra de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem.

Restabelece e eleva a criação, abrindo o segundo vínculo, a segunda relação de Deus com os homens: a Redenção.
Primeiro perdoa-nos o pecado, porque o perdoar o pecado na alma do homem é também um passo prévio da vinda de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, a cada ser humano, a dada pessoa, meta e cume da Redenção.

A afirmação de Cristo: «viremos a ele e faremos nele morada”[xiii]) supõe, por sua vez, o cumprimento das palavras de Cristo: «Vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.[xiv]

Esta transmissão da vida divina no ser humano é a «segunda criação” do homem, que considerámos ao falar do segundo motivo da Encarnação do Filho de Deus: «fazer-nos partícipes da natureza divina” [xv]

A «participação” comporta a introdução do ser humano na vida eterna de Deus, convertendo a sua realidade de criatura a «imagem e semelhança” na nova realidade de «filho de Deus”, para a qual foi criado; e, ao mesmo tempo, é o cumprimento da espera de Deus para voltar a tomar posse do que, desde a origem, lhe pertence.

Essa «certa participação na natureza divina” é a inefável e misteriosa realidade a que chamamos «Graça”, que recebemos nos sacramentos, «sinais sensíveis e eficazes da graça, instituídos por Jesus Cristo para santificar as nossas almas”.

Para uma melhor compreensão do que se segue, recolhemos algumas definições do Catecismo:

«A graça de Cristo é o dom gratuito que Deus nos faz da sua vida infundida pelo Espírito Santo na nossa alma para a curar do pecado e santificá-la: é a graça santificante ou divinizadora, recebida no Baptismo. É em nós a fonte da obra da santificação: ‘Portanto, o que está em Cristo é uma nova criação: passou o velho, tudo é novo’”)[xvi].

«A graça santificante é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural que aperfeiçoa a alma para a tornar capaz de viver com Deus, de actuar por seu amor: Deve distinguir-se entre a graça habitual, disposição permanente para viver e actuar segundo a vocação divina e as graças actuais, que designam as intervenções divinas que estão na origem da conversão ou no curso da obra da santificação”.[xvii]

Graças sacramentais: entre elas estão os «carismas” [xviii] que estão ordenados ao serviço da caridade, que edifica a Igreja; e as graças de estado, que acompanham o exercício das responsabilidades da vida cristã.[xix]

Como podemos apreciar, os diferentes adjectivos da Graça, mais que reflectir realidades diferentes – a Graça é sempre «certa participação na natureza divina” -, ajudam-nos a compreender os diferentes modos de tronar-se eficaz essa «participação”, nas variadas circunstâncias da nossa vida; e o modo de incidir na acção do cristão, sempre com a perspectiva do sentido total da sua vida: a união como «filho de Deus em Cristo”“, de ser «outro Cristo”, de ser o «próprio Cristo”.

Com estas premissas, sempre que fizermos referência à «graça de Cristo”, a «graça divinizadora”, empregaremos a palavra Graça, com maiúscula.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[i] Jo 14, 15
[ii] Jo 14, 9
[iii] Col 1, 15
[iv] Jo 14, 6
[v] Jo 15, 12
[vi] Mt 11, 29-30
[vii] Mc 10, 45
[viii] 1 Jo 4, 9
[ix] Jo 3, 16
[x] Jo 15, 13
[xi] Jo 14, 20-21
[xii] Jo 10, 38
[xiii] Jo 14, 23
[xiv] Jo 10, 10
[xv] Cfr. Págs, 48-49.
[xvi] Catecismo n. 1999
[xvii] Catecismo n. 2000
[xviii] Catecismo n. 2003
[xix] Catecismo n. 2004