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04/06/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Lc 2, 41-51

41 Seus pais iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa. 42 Quando chegou aos doze anos, indo eles a Jerusalém segundo o costume daquela festa, 43 acabados os dias que ela durava, quando voltaram, o Menino ficou em Jerusalém, sem que os Seus pais o advertissem. 44 Julgando que Ele fosse na comitiva, caminharam uma jornada, e depois procuraram-no entre os parentes e conhecidos. 45 Não O encontrando, voltaram a Jerusalém à procura d'Ele. 46 Aconteceu que, três dias depois, encontraram-no no templo sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47 E todos os que O ouviam estavam maravilhados da Sua sabedoria e das Suas respostas. 48 Quando O viram, admiraram-se. E Sua mãe disse-lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Eis que Teu pai e eu Te procurávamos cheios de aflição». 49 Ele disse-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de Meu Pai?». 50 Eles, porém, não entenderam o que lhes disse. 51 Depois desceu com eles e foi para Nazaré; e era-lhes submisso. A Sua mãe conservava todas estas coisas no seu coração.

Comentário:

Este trecho do Evangelho escolhido pela Liturgia para o dia de hoje, festa do Imaculado Coração de Maria, fala-nos exactamente do coração e dos sentimentos que nele ser albergam.

Neste caso, um coração de Mãe, da própria Mãe de Deus.

As aflições e as alegrias, o que se entende e que não se compreende muito bem, tudo a Senhora guarda no seu coração. Fá-lo não por receio de esquecer mas exactamente para meditar e ter bem presente tudo quanto a seu Filho respeita.

Aprendamos dela a guardar no nosso coração aquilo que verdadeiramente interessa à nossa alma, à compreensão dos mistérios da nossa Fé.

(ama, comentário sobre Lc 2  41-51 2014.06.08, festa do Imaculado Coração de Maria)

Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

III. Jesus Cristo – verdadeiro Deus e verdadeiro Homem

3. O direito do dogma cristológico

a)   A terminologia bíblica e sua relação com o dogma.

β) "O Filho",

O Evangelho de João colocou no centro de sua imagem de Jesus essa auto-denominacção que nos Sinópticos se nos depara só em poucos lugares (no quadro da formação dos discípulos); o que corresponde à tendência fundamental desse Evangelho de orientar os seus pontos de gravidade de preferência para o interior. A autodenominacção de Jesus como "Filho" torna-se o fio condutor da descrição do Senhor; simultaneamente desdobra-se o sentido da palavra no seu raio de alcance através do ritmo do Evangelho. O mais importante já foi dito sobre o assunto, nas considerações sobre a doutrina trinitária; portanto, bastará agora apresentar algumas indicações que relembrem o que se disse.

João não encara o desenvolvimento de Jesus como Filho no sentido de uma auto-promoção que Jesus tivesse feito, mas como expressão da completa relatividade da sua existência. Situar Jesus totalmente sob essa categoria é o mesmo que interpretar-lhe a existência de maneira completamente relativa, que nada mais é do que "existir de" e "existir para" e, precisamente nesta relatividade total, identificar-se com o absoluto. Neste ponto o título "Filho" cobre-se com o sentido de "o Verbo" (palavra) e de "o enviado". E, ao descrever o Senhor com as palavras de Isaías "eu o sou", João quer manifestar o mesmo pensamento, a total unidade com o "eu o sou" resultante da doação completa. O âmago dessa cristologia do Filho, em João, e cuja base já foi indicada nos Sinóticos e, através deles, no Jesus histórico (Abba), está exactamente no que inicialmente se nos tornou claro como ponto de partida para toda a cristologia: na identidade de obra e existência, de acção e pessoa, na total assimilação da pessoa à sua obra e na completa identidade do agir com a mesma pessoa que não se reserva nada, doando-se toda na sua obra.

Neste sentido é possível avançar a afirmação de que em João nos deparamos com uma "ontologização", uma volta ao ser atrás do fenómeno do mero acontecimento. Não se fala mais exclusivamente da actividade, da acção, da fala e da doutrina de Jesus, mas simplesmente se constata que, no fundo, sua doutrina é ele próprio. Ele, na sua totalidade, é Filho, palavra, mensagem; sua acção toca o fundo da existência, identificando-se com ela. E existe algo de típico nessa unidade de ser e agir. Nessa radicalização da declaração, na inclusão de ontológico, para quem for capaz de compreender e perceber os nexos e os bastidores, não existe nenhuma renúncia do anterior, sobretudo nenhuma cristologia triunfalista e glorificadora, em lugar de uma cristologia de serviço que, por exemplo, não fosse capaz de saber o que fazer com o homem-servo crucificado, reinventando em seu lugar um mito ontológico de Deus. Pelo contrário, quem tiver compreendido correctamente o processo há-de ver que só agora o que dito anteriormente é entendido em toda a sua profundeza. O ser-servo não se interpreta como uma acção por trás da qual a pessoa de Jesus continua de pé, mas é mergulhado na existência total de Jesus, de modo que sua própria existência é serviço. E exactamente porque essa existência inteira é serviço, ela é filiação. E assim, a inversão cristã dos valores alcança a meta, tornando plenamente claro que quem se entrega completamente ao serviço dos outros, ao total altruísmo e ao despojamento, é verdadeiro homem, o homem do futuro, o ponto de junção entre homem e Deus.

Agora pode-se dar o próximo passo: o sentido dos dogmas de Nicéia e Calcedónia torna-se claro, pois eles nada mais tencionaram do que declarar a identidade de serviço e existência em que se revela o conteúdo total da relação "Abba – Filho". Aquelas formulações dogmáticas não se situam no prolongamento de ideias míticas de geração. Quem tal supõe, apenas demonstra não ter uma ideia nem de Calcedónia nem da real importância da ontologia, nem das declarações míticas que se lhes opõem. Aquelas declarações não se desenvolveram a partir de ideias míticas de engendramento, mas do testemunho de João, que, por sua vez, representa simplesmente o prolongamento dos diálogos de Jesus com o Pai e da existência de Jesus para os homens até à culminância de sua entrega na cruz.

Prosseguindo dentro do mesmo contexto, não é difícil perceber que a "antologia" do quarto Evangelho e das antigas profissões de fé inclui um actualismo muito mais radical do que tudo que hoje se apresenta sob a etiqueta de actualismo. Contento-me com um exemplo, uma formulação de Bultmann quanto ao problema da filiação divina de Jesus: "Assim como a ekklesia, a comunidade escatológica, só é autêntica ekklesia enquanto acontecimento, assim também o ser-Senhor, a divindade de Cristo, não passa jamais de um acontecimento". Nesta forma de actualismo a verdadeira existência do homem Jesus conserva-se estaticamente por detrás do acontecimento da divindade e do ser-Senhor como a existência de um homem qualquer, sem ser tocada por este acontecimento e somente como o ponto ocasional de incandescência, em que ela se realiza, tornando-se, facto, para alguém, pela audição da palavra, o encontro actual com Deus. E assim como a existência de Jesus se conserva estática por trás do acontecimento, assim também a existência do homem só pode ser atingida pelo divino sempre na faixa do acontecível ocasional. Também aqui o encontro com Deus se efectua no respectivo instante do acontecimento, ficando a existência preservada dele. Tenho a impressão de ver presente, em tal teologia, uma espécie de desespero em face do que existe, que não permite esperar que o mesmo ser possa participar do acto, ou tornar-se acto.
A cristologia de João e dos símbolos vai muito além no seu radicalismo, ao reconhecer o próprio ser como acto, dizendo: Jesus é a sua obra. E por trás disto não se encontra um homem, Jesus, com o qual nada propriamente tenha acontecido. A sua existência é pura actualitas do "de" e "para". Exactamente no facto de não ser mais separável da sua actualitas, esta existência coincide com Deus, sendo ao mesmo tempo o homem exemplar, o homem do futuro através do qual se revela o quanto o homem ainda é o ser futuro, ausente; o quão pouco ainda começou a ser ele próprio. Compreendido isto, torna-se evidente por que Fenomenologia e análises existenciais, por úteis que sejam, não podem bastar para a Cristologia. Elas não descem bastante fundo porque deixam intacto o domínio da existência propriamente dita.

IV. Caminhos da Cristologia

1. Teologia da Encarnação e da Cruz

Os esclarecimentos até aqui alcançados abrem caminho às teses fundamentais da Cristologia ainda não abordadas. Na história da fé cristã, na reflexão sobre Jesus, desenvolveram-se duas linhas, nascendo uma da outra: a teologia da Encarnação, que nasceu do pensamento grego, dominando na tradição católica do Oriente e do Ocidente, e a teologia da cruz que, vinculada a Paulo e às formas mais antigas da fé cristã, irrompeu decididamente no pensamento da Reforma. A primeira fala do ser e gira em torno do facto de um homem ser Deus, com o que, simultaneamente, Deus é homem; este facto espantoso torna-se-lhe o elemento decisivo. Todos os demais acontecimentos posteriores empalidecem diante deste acontecimento da identidade de homem e Deus, da encarnação de Deus. Face a isto o resto não pode passar de secundário. O entrelaçar de Deus e homem surge como o realmente decisivo, o salvífico, como o lídimo futuro do homem, para o qual, finalmente, todas as linhas devem convergir.

A teologia da cruz, ao contrário, não quer deter-se em semelhante ontologia; em vez disto, fala do acontecimento; segue o testemunho inicial que ainda não indagava sobre o ser, mas sobre o agir de Deus na cruz e na ressurreição, que venceu a morte, e comprovou Jesus como o Senhor e a esperança da humanidade. Dos respectivos pontos de partida resulta a tendência diferenciada: a Teologia da encarnação tende a uma visão estática e otimista. O pecado do homem facilmente toma a feição de uma etapa de passagem, de importância bastante secundária. O decisivo não é o homem no pecado, a ser curado: o que é decisivo ultrapassa em muito a uma tal reparação do passado e, se coloca no rumo do entrecruzar-se de homem e Deus. Em contraposição, a teologia da Cruz conduz a uma concepção dinâmico-atuante, cosmo-crítica do cristianismo, que compreende o facto somente como ruptura, descontínua e sempre a reaparecer, na auto-segurança e na auto-certeza do homem e das suas instituições, inclusive da Igreja.

Quem, de algum modo, conservar diante dos olhos estas duas grandes formas cristãs de auto-compreensão, não se sentirá tentado a sínteses simplificadoras. Em ambas as formas estruturais básicas, teologia da Encarnação e da Cruz, estão delineadas polaridades as quais não se podem omitir, com vistas a uma simples síntese, sem que se perca o que ambas têm de decisivo; devem continuar presentes como polaridades que se corrigem mutuamente e somente permanecendo em sua relação mútua e que apontam para o conjunto. Contudo, através das nossas considerações deveria transparecer algo assim como a unidade última de ambos os movimentos, unidade que tornasse a ambos possíveis como polaridade, e impedisse que se dissolvessem como antíteses. Constatamos com efeito que o ser de Cristo (teologia de encarnação!) é actualitas, é saída de si, êxodo; não é um ser a repousar em si, mas o acto do ser enviado, da filiação, do serviço. E vice-versa: esse agir não é mero agir, mas ser; desce às raízes do ser e identifica-se com ele. Esse ser é êxodo, transformação. Portanto, uma teologia do ser e da encarnação bem compreendida forçosamente desembocará na teologia da cruz, tornando-se uma com ela; vice-versa, uma teologia da cruz, que avalie totalmente a sua dimensão, forçosamente se tornará teologia do Filho e do ser.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)






19/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma

Semana V

São José

Evangelho: Lc 2, 41-51 

41 Seus pais iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa. 42 Quando chegou aos doze anos, indo eles a Jerusalém segundo o costume daquela festa, 43 acabados os dias que ela durava, quando voltaram, o Menino ficou em Jerusalém, sem que os Seus pais o advertissem. 44 Julgando que Ele fosse na comitiva, caminharam uma jornada, e depois procuraram-no entre os parentes e conhecidos. 45 Não O encontrando, voltaram a Jerusalém à procura d'Ele. 46 Aconteceu que, três dias depois, encontraram-no no templo sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47 E todos os que O ouviam estavam maravilhados da Sua sabedoria e das Suas respostas. 48 Quando O viram, admiraram-se. E Sua mãe disse-lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Eis que Teu pai e eu Te procurávamos cheios de aflição». 49 Ele disse-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de Meu Pai?». 50 Eles, porém, não entenderam o que lhes disse. 51 Depois desceu com eles e foi para Nazaré; e era-lhes submisso. A Sua mãe conservava todas estas coisas no seu coração.

Comentário:

Que Evangelho mais apropriado para o dia de hoje em que toda a cristandade celebra a figura ímpar do Santo Patriarca José!

De facto, o “relevo” que a Senhora dá ao Chefe da Sagrada Família mencionando-o em primeiro lugar revela, pelo menos duas coisas:

A perfeita humildade da Virgem que sendo a Mãe de Deus se coloca em segundo lugar na hierarquia familiar e, depois, a perfeita contenção de S. José que, não obstante o “relevo” que lhe é dado, permanece em silêncio humilíssimo,

As poucas vezes que nos Evangelhos é mencionado o Santo Patriarca poderia levar-nos a pensar que não se lhe atribui nenhum papel de relevo especial.

Os Evangelhos foram escritos principalmente para nos falarem de Jesus Cristo nosso Salvador e não para nos contarem uma “história” de uma família.

O que seguramente podemos concluir é que o Senhor terá a Seu lado a Sua Santíssima Mãe e o Seu Pai putativo.
Aquela pelo amor de Mãe, aquele pelo amor de Pai, guardião e Mestre que foi até que a sua presença foi necessária para assegurar a estabilidade e a tranquilidade da Sagrada Família.

Este Varão insigne que "sendo aio fez as vezes de Pai", como diz a Santa de Ávila, será para sempre o “farol” seguro e fiável do caminho daqueles que procuram a santidade.

(ama, comentário sobre Lc 2, 41-51, 2012.03.19)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO SEXTO

CAPÍTULO VII

Alípio

Os que convivíamos em boa amizade lamentávamos estas coisas, mas de modo especial e muito intimamente eu falava com Alípio e Nebrídio. Alípio, como eu, era do município de Tagaste, nascido de uma das melhores famílias da cidade. Era mais jovem do que eu, pois havia sido meu discípulo quando comecei a ensinar na nossa cidade, de depois em Cartago. Ele queria-me muito, por eu lhe parecer bom e douto, e eu apreciava-o pela sua grande inclinação à virtude, que já se manifestava em tenra idade.

Contudo, o abismo dos costumes cartagineses, onde ferve o gosto dos espectáculos frívolos, engolfara-o na loucura dos jogos circenses. Alípio revolvia-se miseravelmente nesse abismo na época em que eu ensinava retórica na escola pública, mas ele não me tinha como mestre por causa de uma desavença que surgira entre mim e seu pai. Eu sabia que Alípio amava morbidamente o circo, e isso muito angustiava-me, por me parecer que se iam perder, se já não o estivessem, magníficas esperanças. Mas não achava meios de alertá-lo e repreendê-lo, nem pela amizade, nem pelo magistério, pois julgava que tinha sobre mim a mesma opinião que seu pai. Mas não era assim. Pondo de parte a vontade paterna sobre isso, começou a cumprimentar-me, comparecia à minha aula, ouvia-me um pouco, e logo se retirava.

Eu já me esquecera de alertá-lo para não desperdiçar s eu talento tão precioso com aquele cego e apaixonado gosto por jogos fúteis. Mas tu, Senhor, que governas o que criaste, não te esqueceste de que Alípio deveria ser ministro dos teus sacramentos entre os teus filhos; e para que fosse atribuída claramente a ti a sua emenda, a realizaste por meu intermédio, mas sem que eu o soubesse.

Um dia, estando sentado no lugar de costume, diante dos meus discípulos, veio Alípio, saudou-me, sentou-se, atento ao assunto de que eu tratava. Por acaso eu trazia nas mãos uma lição; para melhor a expor, e tornar mais clara e agradável a sua explicação, pareceu-me oportuno fazer uma comparação com os jogos circenses, com mordaz sarcasmo aos escravos dessa loucura. Mas tu sabes, Senhor, que então não pensei em curar Alípio dessa peste. Todavia tomou para si as minhas palavras, acreditando que eu só as dissera por sua causa. Qualquer outro tomaria isso com desgosto; mas ele, jovem virtuoso, tomou-o como causa para se censurar a si próprio, e  para me estimar ainda mais.

Já havias dito outrora, e escrito em teus livros: “Corrige o sábio, e ele te amará”. Eu não o repreenderia, mas tu, servindo-te de todos, quer eles o saibam ou quer não, de acordo com a justa ordem que conheces, fizeste do meu coração e da minha língua carvões abrasadores, para cauterizar e curar aquela alma tão promissora, mas pervertida.

Senhor, cale os teus louvores quem não percebe as tuas misericórdias, que eu te confesso do mais íntimo de meu ser. Depois de ouvidas as minhas palavras, Alípio saiu daquele fosso profundo, onde gostosamente se enterrara, cegando-se com o torpe prazer, e sacudiu sua alma com corajosa temperança, afastando de si todas as imundícies dos jogos circenses, para onde nunca mais voltou.

Depois venceu a resistência paterna para me escolher como mestre, e seu pai cedeu e consentiu. Voltando a ser meu discípulo, foi envolvido comigo na superstição dos maniqueus, apreciando neles aquela ostentação de continência, que ele julgava legítima e sincera. Na verdade, porém, era um desvario sedutor, um laço onde caíam almas preciosas, ainda incapazes de avaliar a sublimidade da virtude e, por isso mesmo, vítimas fáceis da aparência que mascara uma virtude hipócrita e fingida.

CAPÍTULO VIII

A atracção do anfiteatro

Não querendo por nada deixar a carreira mundana, tão decantada por seus pais, partira antes de mim para Roma, a fim de estudar Direito; lá se deixou arrebatar de modo incrível, e com incrível avidez, pelos espectáculos de gladiadores.

A princípio, detestava e aborrecia espectáculos semelhantes. Certa vez, encontrando-se com alguns amigos e condiscípulos que voltavam de um jantar, apesar de resistir, foi arrastado por eles com amigável violência para o anfiteatro, onde naquele dia se celebravam jogos funestos e cruéis.

Dizia-lhes Alípio: “Mesmo que arrasteis para lá o meu corpo, e o retenhais ali, podereis por acaso obrigar a minha alma e os meus olhos a contemplar tais espectáculos? Estarei ali como ausente, e assim triunfarei deles e de vós”. Mas eles, não fazendo caso de tais palavras, levaram-no, talvez para verificar se poderia ou não cumprir a palavra.

Quando chegaram, ocuparam os lugares que puderam, pois todo o anfiteatro já fervia nas paixões mais selvagens. Alípio, fechando a porta dos olhos, proibiu que a sua alma se envolvesse em tal crueldade. E oxalá também tivesse tapado os ouvidos! Porque, num lance da luta, foi tão grande o clamor da multidão que, vencido pela curiosidade, e julgando-se preparado para desprezar e vencer a cena, fosse o que fosse, abriu os olhos. Foi logo ferido na alma mais profundamente do que a ferida física do gladiador a quem desejou contemplar e caiu. A sua queda foi mais miserável que a do gladiador, causa de tantos gritos. Estes, entrando-lhe pelos ouvidos, abriram-lhe os olhos, para ferir e abater a sua alma, mais temerária do que forte, e tanto mais fraca por apoiar-se em si mesma, em lugar de se apoiar em ti. Logo que viu sangue, bebeu juntamente a crueldade, e não se afastou do espectáculo; pelo contrário, prestou mais atenção. Assim, sem o saber, absorvia o furor popular e deleitava-se naquela luta criminosa, inebriado de sangrento prazer.

Já não era o mesmo que ali viera, era agora mais um da turba à qual se misturara, digno companheiro daqueles que para ali o arrastaram.

Que mais direi? Contemplou o espectáculo, gritou, apaixonou-se, e foi contaminado de louco ardor, que o estimulava a voltar, não só com os que o haviam levado, mas à sua frente, e arrastando outros. Mas tu te dignaste, Senhor, livrá-lo deste estado com mão forte e misericordiosa, ensinando-o a não confiar em si, mas em ti, embora isto acontecesse muito tempo depois.

CAPÍTULO IX

Alípio, ladrão a contragosto

Contudo, essa aventura gravara-se na sua memória como remédio para o futuro. O mesmo ocorreu com outro facto, quando ainda era estudante em Cartago, e seguia os meus cursos.

Era meio-dia. Alípio estava repassando uma declamação, segundo o costume dos estudantes, quando foi preso como ladrão pelos guardas do foro. Sem dúvida o permitiste, meu Deus, apenas para que esse jovem, tão grande no futuro, começasse já a aprender que, ao julgar outrem, ninguém deve condenar ninguém levianamente, e com temerária credulidade.

Alípio, pois, passeava diante do tribunal, sozinho, com as tábuas e o estilete, quando um jovem estudante, o verdadeiro ladrão, levando um machado escondido, sem que Alípio o percebesse, entrou pelas grades que rodeiam a rua dos banqueiros, e se pôs a cortar o seu chumbo.

Ao ruído dos golpes, os banqueiros que estavam em baixo alvoroçaram-se, e chamaram gente para prender o ladrão, fosse quem fosse. Mas este, ouvindo o vozerio, fugiu depressa, abandonando o machado para não ser preso com ele. Ora, Alípio, que não o vira entrar, viu-o sair e fugir precipitadamente. Curioso, porém, para saber a causa, entrou no lugar. Encontrou o machado e pôs-se, admirado, a examiná-lo. Bem nessa hora chegaram os guardas dos banqueiros, e surpreendem-no sozinho, empunhando o machado, a cujos golpes, alarmados, haviam acudido. Prendem-no, levam-no, e gloriam-se, diante dos inquilinos do foro por ter apanhado o ladrão em flagrante, e já o iam entregar aos rigores da justiça.

Mas a lição devia ficar por aqui, Senhor, porque imediatamente saíste em socorro de sua inocência, da qual eras única testemunha. Quando o conduziam à prisão ou ao suplício, veio-lhes ao encontro um arquitecto, encarregado superior da direcção dos edifícios públicos. Os guardas alegraram-se com esse encontro, pois sempre que faltava alguma coisa no foro o magistrado suspeitava deles. Agora ele saberia quem era o verdadeiro ladrão. Mas este senhor tinha visto várias vezes Alípio na casa de um senador, a quem visitava com frequência. Reconheceu-o, tomou-o pela mão, separou-o da turba, e perguntou-lhe a causa de tamanha desgraça.

Informado do que se passara, o arquitecto mandou à turba alvoroçada e enfurecida contra Alípio que o seguisse. Quando chegaram à casa do jovem autor do roubo, achava-se à porta um menino escravo, novo demais para recear comprometer o seu amo, e que poderia revelar tudo, porque o seguira até o foro. Alípio, ao reconhecê-lo, apontou-o ao arquitecto; este, mostrando-lhe o machado, lhe disse: “Sabe de quem é este machado?” Ao que o menino respondeu sem demora: “Nosso”. Depois de interrogado, confessou o resto.

Deste modo, o processo foi transferido para aquela casa, para confusão da turba, que já imaginara tripudiar de Alípio. O futuro dispensador de tua palavra, e juiz de tantas causas de tua Igreja, saiu dessa aventura com mais experiência e sabedoria.

(cont)

(Revisão de versão portuguesa por ama)


19/03/2015

Evangelho, coment. Leit. espiritual (Evangelli Gaudium)

Tempo de Quaresma IV Semana

São José

Evangelho: Lc 2 41-51

41 Seus pais iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa. 42 Quando chegou aos doze anos, indo eles a Jerusalém segundo o costume daquela festa, 43 acabados os dias que ela durava, quando voltaram, o Menino ficou em Jerusalém, sem que os Seus pais o advertissem. 44 Julgando que Ele fosse na comitiva, caminharam uma jornada, e depois procuraram-no entre os parentes e conhecidos. 45 Não O encontrando, voltaram a Jerusalém à procura d'Ele. 46 Aconteceu que, três dias depois, encontraram-no no templo sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47 E todos os que O ouviam estavam maravilhados da Sua sabedoria e das Suas respostas. 48 Quando O viram, admiraram-se. E Sua mãe disse-lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Eis que Teu pai e eu Te procurávamos cheios de aflição». 49 Ele disse-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de Meu Pai?». 50 Eles, porém, não entenderam o que lhes disse. 51 Depois desceu com eles e foi para Nazaré; e era-lhes submisso. A Sua mãe conservava todas estas coisas no seu coração.

Comentário:

São José foi designado por São João XXIII como protector da Igreja e, actualmente, o Papa Francisco determinou que constasse no cânone da Missa.

Nada mais apropriado: o Protector da Família de Nazaré é o Protector da grande Família de Jesus Cristo que é a Sua Igreja.

Que poder não terá a sua intercessão?

(ama, comentário sobre Lc 2, 41-52, 2014.03.19)

Leitura espiritual


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS FIÉIS LEIGOS SOBRE O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL

200. Dado que esta Exortação se dirige aos membros da Igreja Católica, desejo afirmar, com mágoa, que a falta de cuidado espiritual é a pior discriminação que os pobres sofrem.

A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária.

201. Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências.

Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais.

Embora se possa dizer, em geral, que a vocação e a missão próprias dos fiéis leigos é a transformação das diversas realidades terrenas para que toda a actividade humana seja transformada pelo Evangelho,[i] ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social: «A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza são exigidos a todos».[ii]

Temo que também estas palavras sejam objecto apenas de alguns comentários, sem verdadeira incidência prática.
Apesar disso, tenho confiança na abertura e nas boas disposições dos cristãos e peço-vos que procureis, comunitariamente, novos caminhos para acolher esta renovada proposta.

Economia e distribuição das entradas

202. A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a curar de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises.

Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias.
Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social,[iii] não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum.
A desigualdade é a raiz dos males sociais.

203. A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral.

Quantas palavras se tornaram molestas para este sistema!
Molesta que se fale de ética, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça.
Outras vezes acontece que estas palavras se tornam objecto duma manipulação oportunista que as desonra.
A cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as nossas palavras de todo o significado.
A vocação dum empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos.

204. Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado.
O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo.
Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.

205. Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efectivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo.

A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum.[iv]
Temos de nos convencer que a caridade «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».[v]

Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres.
É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos.

E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos?

Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e económica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.

206. A economia – como indica o próprio termo – deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro.

Todo o acto económico duma certa envergadura, que se realiza em qualquer parte do planeta, repercute-se no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir à margem duma responsabilidade comum.
Na realidade, torna-se cada vez mais difícil encontrar soluções a nível local para as enormes contradições globais, pelo que a política local se satura de problemas por resolver.
Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interacção que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar económico a todos os países e não apenas a alguns.

207. E qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos.
Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios.

208. Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política.

A minha palavra não é a dum inimigo nem a dum opositor.
A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra.

Cuidar da fragilidade

209. Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa, identificou-Se especialmente com os mais pequeninos[vi].

Isto recorda-nos, a todos os cristãos, que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da Terra.
Mas, no modelo «do êxito» e «individualista» em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)






[i] Cf. Propositio 45.
[ii] Congr. para a Doutrina da Fé, Instr. Libertatis nuntius (6 de Agosto de 1984), XI, 18: AAS 76 (1984), 908.
[iii] Isto implica «eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial»: Bento XVI, Discurso ao Corpo Diplomático (8 de Janeiro de 2007): AAS 99 (2007), 73.
[iv] Cf. Comissão Social dos Bispos de frança, Declaração Réhabiliter la politique (17 de Fevereiro de 1999); Pio XI, Mensagem, 18 de Dezembro de 1927.
[v] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 2: AAS 101 (2009), 642.
[vi] cf. Mt 25, 40

28/06/2014

Evangelho diário, comentário e leitura espiritual

Tempo comum XII Semana


Imaculado Coração de Maria

Evangelho: Lc 2, 41-51

41 Seus pais iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa. 42 Quando chegou aos doze anos, indo eles a Jerusalém segundo o costume daquela festa, 43 acabados os dias que ela durava, quando voltaram, o Menino ficou em Jerusalém, sem que os Seus pais o advertissem. 44 Julgando que Ele fosse na comitiva, caminharam uma jornada, e depois procuraram-no entre os parentes e conhecidos. 45 Não O encontrando, voltaram a Jerusalém à procura d'Ele. 46 Aconteceu que, três dias depois, encontraram-no no templo sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. 47 E todos os que O ouviam estavam maravilhados da Sua sabedoria e das Suas respostas. 48 Quando O viram, admiraram-se. E Sua mãe disse-lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Eis que Teu pai e eu Te procurávamos cheios de aflição». 49 Ele disse-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de Meu Pai?». 50 Eles, porém, não entenderam o que lhes disse. 51 Depois desceu com eles e foi para Nazaré; e era-lhes submisso. A Sua mãe conservava todas estas coisas no seu coração.

Comentário:

Como se vê, Jesus não é uma criança do povo inculto e iletrado. Seguramente, como se ver mais tarde, frequente a escola rabínica da sua cidade e, Sua Mãe, deverá dar-lhe indicações e proporcionar-lhe conhecimentos que irão formando a Sua capacidade de entender as Escrituras e compreender quanto diz respeito â História da Humanidade.

Quando, no Templo, comentar o texto da escritura que acabou de ler, reconhecerá – e tornará público – que as palavras se a plicam a Ele próprio. Com grande espanto dos seus conterrâneos que viam nele um simples filho de carpinteiro, um artesão.

São Lucas emprega sem rebuços as palavras «todos os que O ouviam estavam maravilhados da Sua sabedoria» o que quer significar uma cultura acima da média habitual em crianças daquela idade.

O Senhor prepara-se para a Sua vida de pregação, para a insigne e magna missão de anunciar o reino de Deus e, desde criança, é essa a Sua principal ‘preocupação’: o trabalho ordinário e corrente do dia-a-dia não é incompatível com o conhecimento da doutrina e o aprofundar o conhecimento das coisas de Deus.

Afinal, um bom filho, tem obrigação de saber tudo quanto respeite a seu Pai!

  (ama, comentário sobre Lc 2, 41-52, 2012.12.30)

Leitura espiritual



Documentos do Concílio Vaticano II

DECRETO

INTER MIRIFICA

SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

PROÉMIO

Importância dos meios de comunicação social

1. Entre as maravilhosas invenções da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a santa Igreja acolhe e fomenta aquelas que dizem respeito, antes de mais, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, ideias e ordens. Entre estes meios, salientam-se aqueles que, por sua natureza, podem atingir e mover não só cada um dos homens mas também as multidões e toda a sociedade humana, como a imprensa, o cinema, a rádio, a televisão e outros que, por isso mesmo, podem chamar-se, com toda a razão meios de comunicação social.

Relação com a ordem moral

2. A mãe Igreja sabe que estes meios, rectamente utilizados, prestam ajuda valiosa ao género humano, enquanto contribuem eficazmente para recrear e cultivar os espíritos e para propagar e firmar o reino de Deus; sabe também que os homens podem utilizar tais meios contra o desígnio do Criador e convertê-los em meios da sua própria ruína; mais ainda, sente uma maternal angústia pelos danos que, com o seu mau uso, se têm infligido, com demasiada frequência, à sociedade humana.

Em face disto, o sagrado Concílio, acolhendo a vigilante preocupação de Pontífices e Bispos em matéria de tanta importância, considera seu dever ocupar-se das principais questões respeitantes aos meios de comunicação social. Confia, além disso, em que a sua doutrina e disciplina, assim apresentadas, aproveitarão não só ao bem dos cristãos, mas também ao progresso de toda a sociedade humana.

CAPÍTULO I

A Igreja e os meios de comunicação social

3. A Igreja católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para levar a salvação a todos os homens, e por isso mesmo obrigada a evangelizar, considera seu dever pregar a mensagem de salvação, servindo-se dos meios de comunicação social, e ensina aos homens a usar rectamente estes meios.

À Igreja, pois, compete o direito nativo de usar e de possuir toda a espécie destes meios, enquanto são necessários ou úteis à educação cristã e a toda a sua obra de salvação das almas; compete, porém, aos sagrados pastores o dever de instruir e de dirigir os fiéis de modo que estes, servindo-se dos ditos meios, alcancem a sua própria salvação e perfeição, assim como a de todo o género humano.

Além disso, compete principalmente aos leigos vivificar com espírito humano e cristão estes meios, a fim de que correspondam à grande esperança do género humano e aos desígnios divinos.

Normas para o seu recto uso

4. Para o recto uso destes meios, é absolutamente necessário que todos os que servem deles conheçam e ponham fielmente em prática, neste campo, as normas da ordem moral. Considerem, pois, as matérias que se difundem através destes meios, segundo a natureza peculiar de cada um; tenham, ao mesmo tempo, em conta todas as circunstâncias ou condições, isto é, o fim, as pessoas, o lugar, o tempo e outros factores mediante os quais a comunicação se realiza e que podem mudar ou alterar inteiramente a sua bondade moral; entre estas circunstancias, conta-se o carácter específico com que actua cada meio, nomeadamente a sua própria força, que pode ser tão grande que os homens, sobretudo se não estão prevenidos, dificilmente serão capazes de a descobrir, dominar e, se se der o caso, a pôr de lado.

Formação de uma consciência recta sobre a informação

5. É necessário, sobretudo, que todos os interessados na utilização destes meios de comunicação formem rectamente a consciência acerca de tal uso, em especial no que se refere a algumas questões acremente debatidas nos nossos dias.

A primeira questão refere-se à chamada informação, ou obtenção e divulgação das notícias. É evidente que tal informação, em virtude do progresso actual da sociedade humana e dos vínculos mais estreitos entre os seus membros, resulta muito útil e, na maioria das vezes, necessária, pois a comunicação pública e oportuna de notícias sobre acontecimentos e coisas facilita aos homens um conhecimento mais amplo e contínuo dos factos, de tal modo que pode contribuir eficazmente para o bem comum e maior progresso de toda a sociedade humana. Existe, pois, no seio da sociedade humana, o direito à informação sobre aquelas coisas que convêm aos homens, segundo as circunstâncias de cada um, tanto particularmente como constituídos em sociedade. No entanto, o uso recto deste direito exige que a informação seja sempre objectivamente verdadeira e, salvas a justiça e a caridade, íntegra. Quanto ao modo, tem de ser, além disso, honesto e conveniente, isto é, que respeite as leis morais do homem, os seus legítimos direitos e dignidade, tanto na obtenção da notícia como na sua divulgação. Na verdade, nem toda a ciência aproveita, «mas a caridade é construtiva» (1 Cor. 8,1).

Sobre a relação entre arte e moral

6. Uma segunda questão se põe sobre as relações que medeiam entre os chamados direitos da arte e as normas da lei moral. Dado que, não raras vezes, as controvérsias que surgem sobre este tema têm a sua origem em falsas doutrinas sobre ética e estética, o Concílio proclama que a primazia da ordem moral objectiva há-de ser aceite por todos, porque é a única que supera e coerentemente ordena todas as demais ordens humanas, por mais dignas que sejam, sem excluir a arte. Na realidade, só a ordem moral atinge, em toda a sua natureza, o homem, criatura racional de Deus e chamado ao sobrenatural; quando tal ordem moral se observa íntegra e fielmente, condu-lo à perfeição e bem-aventurança plena.

Sobre a apresentação do mal moral

7. Finalmente, a narração, descrição e representação do mal moral podem, sem dúvida, com o auxílio dos meios de comunicação social, servir para conhecer e descobrir melhor o homem e para fazer que melhor resplandeçam e se exaltem a verdade e o bem, obtendo, além disso, oportunos efeitos dramáticos; todavia, para que não produzam maior dano que utilidade às almas, hão de acomodar-se plenamente às leis morais, sobretudo se se trata de coisas que merecem o máximo respeito ou que incitam mais facilmente o homem, marcado pela culpa original, a desejos depravados.

Justiça e caridade na formação da opinião pública

8. Visto que a opinião pública exerce hoje uma poderosa influência em todas as ordens da vida social, pública e privada, é necessário que todos os membros da sociedade cumpram os seus deveres de justiça e de caridade também nesta matéria e, portanto, que com o auxílio destes meios, se procure formar e divulgar uma recta opinião pública.

Deveres dos destinatários

9. Deveres peculiares competem a todos os destinatários da informação, leitores, espectadores e ouvintes, que, por pessoal e livre escolha, recebem as informações difundidas por estes meios de comunicação. Na realidade, uma recta escolha exige que estes favoreçam plenamente tudo o que se destaca pela perfeição, ciência e arte, e evitem, em contrapartida, tudo o que possa ser causa ou ocasião de dano espiritual para eles e para os outros, pelo mau exemplo que possam ocasionar-lhes, e o que dificulte as boas produções e favoreça as más produções e boas, o que sucede amiúde, contribuindo economicamente para empresas que somente atendem ao lucro com a utilização destes meios.

Assim, pois, para que os destinatários da informação cumpram a lei moral, devem cuidar de informar-se oportunamente sobre os juízos ou critérios das autoridades competentes nesta matéria e segui-los segundo as normas da recta consciência Todavia, para que possam, com maior facilidade, opor-se aos maus conselhos e apoiar plenamente os bons, procurem dirigir e formar a sua consciência com os recursos adequados.

Moderação e disciplina no seu uso

10. Os destinatários, sobretudo os jovens, procurem acostumar-se a ser moderados e disciplinados no uso destes meios; ponham, além disso, empenho em entenderem bem o que ouvem, leem e veem; dialoguem com educadores e peritos na matéria e aprendam a formar um recto juízo.

Recordem os pais que é seu dever vigiar cuidadosamente por que os espectáculos, as leituras e coisas parecidas que possam ofender a fé ou os bons costumes não entrem no lar e por que os seus filhos não os vejam noutra parte.

Deveres dos realizadores e autores

11. Importante obrigação moral incumbe, quanto ao bom uso dos meios de comunicação social, aos jornalistas, escritores, actores, produtores, realizadores, exibidores, distribuidores, empresários e vendedores, críticos e, além destes, a todos quantos intervêm na realização e difusão das comunicações. Na realidade, é de todo evidente a transcendente importância desta obrigação nas actuais condições humanas, já que eles, informando e incitando, podem encaminhar recta ou torpemente o género humano.

Portanto, é sua missão tratar as questões económicas, políticas ou artísticas de modo que não causem prejuízo ao bem comum; para se conseguir isto mais facilmente, bem será que se associem profissionalmente – incluindo-se, se for necessário, o compromisso de observar, desde o começo, um código moral – àquelas associações que imponham a seus membros o respeito pelas leis morais nas empresas e trabalhos da sua profissão.

Lembrem-se sempre de que a maior parte dos leitores e espectadores é composta de jovens necessitados de imprensa e de espectáculos que lhes ofereçam exemplos de moralidade e os estimulem a sentimentos elevados. Procurem, além disso, que as comunicações sobre assuntos religiosos se confiem a pessoas dignas e peritas e se tratem com a devida reverência.

Deveres das autoridades civis

12. As autoridades civis têm peculiares deveres nesta matéria em razão do bem comum ao qual se ordenam estes meios. Em virtude da sua autoridade e em função da mesma, compete-lhes defender e tutelar a verdadeira e justa liberdade de que a sociedade moderna necessita inteiramente para seu proveito, sobretudo no que se refere à imprensa; promover a religião, a cultura e as belas artes; defender os receptores, para que possam gozar livremente dos seus legítimos direitos. Por outro lado, à autoridade civil compete fomentar aquelas iniciativas que, sendo especialmente úteis à juventude, não poderiam de outro modo ser realizadas.

Por último, a mesma autoridade pública, que legitimamente se ocupa da saúde dos cidadãos, está obrigada a procurar justa e zelosamente, mediante a oportuna promulgação e diligente execução das leis, que não se cause dano aos costumes e ao progresso da sociedade através de um mau uso destes meios de comunicação. Essa cuidada diligência não restringe, de modo algum, a liberdade dos indivíduos ou das associações, sobretudo quando faltam as devidas precauções por parte daqueles que, por motivo do seu oficio, manejam estes meios.

Tenha-se um especial cuidado em proteger os jovens contra a imprensa e os espectáculos que sejam perniciosos para a sua idade.

CAPÍTULO II

Os meios de comunicação social e o apostolado

13. Procurem, de comum acordo, todos os filhos da Igreja que os meios de comunicação social se utilizem, sem demora e com o máximo empenho nas mais variadas formas de apostolado, tal como o exigem as realidades e as circunstâncias do nosso tempo, adiantando-se assim às más iniciativas, especialmente naquelas regiões em que o progresso moral e religioso reclama uma maior atenção.

Apressem-se, pois, os sagrados pastores a cumprir neste campo a sua missão, intimamente ligada ao seu dever ordinário de pregar. Por seu lado, os leigos que fazem uso dos ditos meios, procurem dar testemunho de Cristo, realizando, em primeiro lugar, as suas próprias tarefas com perícia e espírito apostólico, e oferecendo, além disso, no que esteja ao seu alcance, mediante as possibilidades da técnica, da economia, da cultura e da arte, o seu apoio directo à acção pastoral da Igreja.

Iniciativas dos católicos

14. Há que fomentar, antes de mais, a boa imprensa. Porém, para imbuir plenamente de espírito cristão os leitores, deve criar-se e difundir-se uma imprensa genuinamente católica que – sob o estímulo e a dependência directa quer da autoridade eclesiástica quer de homens católicos – editada com a intenção de formar, afirmar e promover uma opinião pública em consonância com o direito natural e com a doutrina e princípios católicos, ao mesmo tempo que divulga e desenvolve adequadamente os acontecimentos relacionados com a vida da Igreja. Devem advertir-se os fiéis da necessidade de ler e difundir a imprensa católica para conseguir um critério cristão sobre todos os acontecimentos.

Promovam-se por todos os meios eficazes e assegurem-se a todo o custo a produção e a exibição de filmes destinados ao descanso honesto do espírito, proveitosos para a cultura e arte humana, sobretudo aqueles que se destinam à juventude; isto consegue-se, sobretudo, apoiando e coordenando as realizações e as iniciativas honestas, tanto da produção como da distribuição, recomendando as películas que merecem elogio por juízo concorde e pelos prémios dos críticos, fomentando e associando entre si as salas pertencentes a bons empresários católicos.

Preste-se, também, apoio eficaz às emissões radiofónicas e televisivas honestas, antes de mais àquelas que sejam apropriadas para as famílias. E fomentem-se com todo o interesse as emissões católicas, mediante as quais os ouvintes e os espectadores sejam estimulados a participar na vida da Igreja e se compenetrem das verdades religiosas. Com toda a solicitude, devem promover-se, onde for oportuno, as estações católicas; cuide-se, porém, que as suas transmissões primem pela sua perfeição e pela sua eficácia.

Cuide-se, enfim, de que a nobre e antiga arte cénica, que hoje se propaga amplamente através dos meios de comunicação social, trabalhe a favor dos valores humanos e da ordenação dos costumes dos espectadores.

Formação técnica e apostólica para o seu uso

15. Para prover às necessidades acima indicadas hão-de formar-se oportunamente sacerdotes, religiosos e também leigos, que possuam a devida perícia nestes meios e possam dirigi-los para os fins do apostolado.

Em primeiro lugar, devem ser instruídos os leigos na arte, doutrina e costumes, multiplicando o número das escolas, faculdades e institutos, onde os jornalistas, autores cinematográficos, radiofónicos, de televisão e demais interessados possam adquirir uma formação íntegra, penetrada de espírito cristão, sobretudo no que toca à doutrina social da Igreja. Também os actores cénicos hão-de ser formados e ajudados para que sirvam convenientemente, com a sua arte, a sociedade humana. Por último, hão-de preparar-se cuidadosamente críticos literários, cinematográficos, radiofónicos, da televisão e outros meios, que dominem perfeitamente a sua profissão, preparados e estimulados para emitir juízos nos quais a razão moral apareça sempre na sua verdadeira luz.

Formação da juventude

16. Tendo-se na devida conta que o uso dos meios de comunicação social, que se dirigem a pessoas diferentes na idade e na cultura, requer nestas pessoas uma formação e uma experiência adequadas e apropriadas, devem favorecer-se, multiplicar-se e encaminhar-se, segundo os princípios da moral cristã, as iniciativas que sejam aptas para conseguir este fim – sobretudo se se destinam aos jovens – nas escolas católicas de qualquer grau, nos Seminários e nas associações apostólicas dos leigos. Para que se obtenha isto com maior rapidez, a exposição e explicação da doutrina e disciplina católicas nesta matéria devem ter lugar no ensino do catecismo.

Ajuda económica

17. Como não convém absolutamente aos filhos da Igreja suportar insensivelmente que a doutrina da salvação seja obstruída e impedida por dificuldades técnicas ou por gastos, certamente volumosos, que são próprios destes meios, este sagrado Concílio chama a atenção para a obrigação de sustentar e auxiliar os diários católicos, as revistas e iniciativas cinematográficas, as estações e transmissões radiofónicas e televisivas, cujo fim principal é divulgar e defender a verdade, e prover à formação cristã da sociedade humana. Igualmente convida insistentemente as associações e os particulares, que gozam de uma grande autoridade nas questões económicas e técnicas, a sustentar com largueza e de bom grado, com os seus bens económicos e a sua perícia, estes meios, enquanto servem o aposto lado e a verdadeira cultura.

Dia mundial

18. Para que se revigore o apostolado da Igreja em relação com os meios de comunicação social, deve celebrar-se em cada ano em todas as dioceses do mundo, a juízo do Bispo, um dia em que os fiéis sejam doutrinados a respeito das suas obrigações nesta matéria, convidados a orar por esta causa e a dar uma esmola para este fim, a qual ser destinada a sustentar e a fomentar, segundo as necessidades do orbe católico, as instituições e as iniciativas promovidas pela Igreja nesta matéria.

Organismo da Santa Sé

19. Para exercitar a suprema cura pastoral sobre os meios de comunicação social, o Sumo Pontífice tem à sua disposição um peculiar organismo da Santa Sé (1).

Vigilância e solicitude pastoral dos Bispos

20. Será da competência dos Bispos, nas suas próprias dioceses, vigiar estas obras e iniciativas e promovê-las e, enquanto tocam ao apostolado público, ordená-las, sem excluir aquelas que se encontram submetidas à direcção dos religiosos isentos.

Organismos nacionais

21. Todavia, como a eficácia do apostolado em toda a nação requer unidade de propósitos e de esforços, este sagrado Concílio estabelece e manda que em toda a parte se constituam e se apoiem, por todos os meios, secretariados nacionais para os problemas da imprensa, do cinema, da rádio e da televisão. A missão destes secretariados será de velar por que a consciência dos fiéis se forme rectamente sobre o uso destes meios e estimular e organizar tudo o que os católicos realizem neste campo.

Em cada nação, a direcção destes secretariados há-de confiar-se a uma Comissão especial do Episcopado ou a um Bispo delegado. Nestes secretariados, hão de participar também leigos que conheçam a doutrina da Igreja sobre estas actividades.

Associações Internacionais

22. Posto que a eficácia de tais meios ultrapassa os limites das nações, e é como se convertesse cada homem em cidadão da humanidade, cooperem as iniciativas deste género, tanto no plano nacional como no internacional. Aqueles secretariados, de que se fala no número 21, hão-de trabalhar denodadamente em união com a sua correspondente Associação católica internacional. Estas Associações católicas internacionais, porém, são legitimamente aprovadas só pela Santa Sé e dela dependem.

CLÁUSULAS

Preparação de uma instrução pastoral pontifícia

23. Para que todos os princípios deste sagrado Concílio e as normas acerca dos meios de comunicação social se levem a efeito, publicar-se-á, por expresso mandato do Concilio e com a colaboração de peritos de várias nações, uma instrução pastoral; a sua publicação ficar a cargo do organismo da Santa Sé, de que se fala no número 19.

Exortação final

24. Além do mais, este sagrado Concílio confia em que estas instruções e normas serão livremente aceites e santamente observadas por todos os filhos da Igreja, os quais, por esta razão, ao utilizarem tais meios, longe de padecer dano, como sal e como luz darão sabor à terra e iluminarão o mundo. O Concílio convida, além disso, todos os homens de boa vontade, especialmente aqueles que dirigem estes meios, a que se esforcem por os utilizar a bem da sociedade humana, cuja sorte depende cada dia mais do uso recto deles.

Assim, pois, como nos monumentos artísticos da antiguidade, também agora, nos novos inventos, deve ser glorificado o nome do Senhor, segundo o que diz o Apóstolo: «Jesus Cristo, ontem e hoje, Ele mesmo por todos os séculos dos séculos» (Hebr. 13,8).

Vaticano, 4 de Dezembro de 1966.

PAPA PAULO VI

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Notas:
(1) Os Padres do Concílio, fazendo seu o voto do «Secretariado para a Imprensa e para a orientação dos Espectáculos», reverentemente pedem ao Sumo Pontífice que estenda as obrigações e competências deste organismo a todos os meios de comunicação social sem excluir a imprensa, associando a ele especialistas das diferentes nações, entre os quais também leigos.