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18/10/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

São Lucas – Evangelista

Evangelho: Lc 10, 1-9

1 Depois disto, o Senhor escolheu outros setenta e dois, e mandou-os dois a dois à Sua frente por todas as cidades e lugares onde havia de ir. 2 Disse-lhes: «Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos. Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a Sua messe. 3 Ide; eis que Eu vos envio como cordeiros entre lobos. 4 Não leveis bolsa, nem alforge, nem calçado, e não saudeis ninguém pelo caminho.5 Na casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz seja nesta casa.6 Se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; senão, tornará para vós.7 Permanecei na mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, porque o operário é digno da sua recompensa. Não andeis de casa em casa. 8 Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que vos puserem diante; 9 curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: Está próximo de vós o reino de Deus.

Comentário:

Dois a dois, como convém no apostolado que não pode ser uma obra isolada, fruto de uma decisão pessoal mas sim de um planeamento (mínimo) para que as coisas sejam feitas com ordem e método para conseguir eficácia.
Dois ajudam-se um ao outro, sozinho não se tem a quem recorrer e, poder-se-á cair na tentação de fazer as coisas “à sua maneira” como lho ditar a inspiração do momento.

Com instruções tão concretas do Senhor, não parece haver muito espaço para a iniciativa pessoal a não ser, quando o bom senso e a oportunidade aconselhem ou sugiram uma adaptação que não é, nem pode ser, inovação.

(AMA, comentário sobre Lc 10, 1-12, 2009)







26/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana III

Evangelho: Lc 10, 1-9

1 Depois disto, o Senhor escolheu outros setenta e dois, e mandou-os dois a dois à Sua frente por todas as cidades e lugares onde havia de ir. 2 Disse-lhes: «Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos. Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a Sua messe. 3 Ide; eis que Eu vos envio como cordeiros entre lobos. 4 Não leveis bolsa, nem alforge, nem calçado, e não saudeis ninguém pelo caminho. 5 Na casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz seja nesta casa. 6 Se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; senão, tornará para vós. 7 Permanecei na mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, porque o operário é digno da sua recompensa. Não andeis de casa em casa. 8 Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que vos puserem diante; 9 curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: Está próximo de vós o reino de Deus.

Comentário:

Jesus Cristo revela a Sua preocupação e cuidado relativamente aos primeiros enviados a anunciar o Reino de Deus.

Faz questão de que não ignorem as dificuldades que irão enfrentar e dá instruções precisas e pormenorizadas de como devem actuar.

Devemos, os cristãos, ter bem presente esta necessidade de preparar com cuidado e esmero a acção apostólica porque por muita experiência que possamos ter de nada nos servirá se previamente não nos colocarmos nas Suas mãos pedindo com confiança: domine, quid me vis facere, Senhor, que queres que faça.

(ama comentário sobre LC 10 1-9, Cascais, 2015.10.01)


Leitura espiritual



Vida cristã

Na tarefa da nova evangelização

Com o Ano da fé, Bento XVI quis «introduzir todo o corpo eclesial num tempo de especial reflexão e redescoberta da fé» [i].

Trata-se de um convite para considerar o que é crer, o que é ser cristão, para que fiquemos mais conscientes da grandeza do dom da fé e, assim, realizemos uma nova evangelização.
Nova evangelização que o Beato Paulo VI e São João Paulo II já tinham promovido e que responde a uma necessidade objectiva, pois em muitos países de cultura tradicionalmente cristã «grupos inteiros de baptizados perderam o sentido vivo da fé ou até já não se reconhecem como membros da Igreja, levando uma existência afastada de Cristo e do Seu Evangelho» [ii].

São João Paulo II destacava que esta situação era um novo desafio para a Igreja.
Com efeito, «não parece justo equiparar a situação de um povo que nunca conheceu Jesus Cristo com a de outro que O conheceu, O aceitou e depois O recusou, ainda que tenha continuado a viver numa cultura que assimilou em grande parte os princípios e valores evangélicos» [iii].
Num contexto como este, é necessária a realização uma “nova evangelização" ou “reevangelização" [iv].
A criação do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, ou o passado Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização da fé cristã são sinais claros de um empenho por levar o Evangelho a sociedades marcadas, em muitos aspectos, pelo secularismo e o relativismo.


Responsabilidade de todos


Depois da ressurreição, Jesus enviou os seus discípulos, fazendo-os participantes da sua própria missão:
como o Pai me enviou, assim também Eu vos envio a vós [v].

Com a força do Espírito, os apóstolos e os primeiros cristãos cumpriram esse mandato; em poucos anos, estenderam a mensagem evangélica por toda a urbe conhecida.
Eram poucos, careciam de meios humanos, não contavam entre as suas fileiras – assim sucedeu, pelo menos, durante muito tempo – com grandes pensadores ou pessoas de relevo público.
Desenvolveram-se num ambiente social de indiferentismo, de carência de valores, semelhante, em muitos aspectos, ao que nos toca agora enfrentar. (…)
Aqueles primeiros souberam, com o seu comportamento, fazer brilhar diante dos seus concidadãos essa clareza salvadora e converteram-se em mensageiros de Cristo – simplesmente, com naturalidade, sem alardes apelativos – com a coerência entre a sua fé e as suas obras [vi].

A nova evangelização diz respeito a todos: também a nós Cristo pede que preguemos o Evangelho a toda a criatura [vii].

Cada cristão, em virtude do Baptismo, tem a responsabilidade de ser testemunha do Deus vivo, pois é-nos impossível calar o que vimos e ouvimos [viii].

Cada cristão é outro Cristo, enquanto identificado com Ele pela graça e pela correspondência pessoal, e está chamado a «transformar com a força do Evangelho os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade» [ix].

Todos temos o dever e o direito de evangelizar, cada um de acordo com o seu próprio papel na Igreja.
Que grande trabalho temos pela frente!
Com humildade, com afã pessoal de santidade, temos que chegar às pessoas, antes de mais, com o nosso exemplo.
Estejamos conscientes de que o esforço por nos comportarmos como cristãos cabais – apesar das nossas misérias pessoais – faz parte da luz que o Senhor deseja acender no mundo.
Não tenhamos medo de chocar com o ambiente, nos pontos incompatíveis com a fé católica, ainda que essa atitude nos possa mesmo acarretar prejuízos materiais ou sociais [x].


Além disso, embora nalguns aspectos pareça que nos encontramos numa situação semelhante à dos nossos primeiros irmãos na fé, não podemos esquecer que, em comparação com eles, «a nossa época oferece neste campo novas ocasiões à Igreja:
A queda de ideologias e sistemas políticos opressores;
A abertura de fronteiras e a configuração de um mundo mais unido, devido ao incremento dos meios de comunicação;
O fixarem-se nos povos os valores evangélicos que Jesus encarnou na sua vida (paz, justiça, fraternidade, dedicação aos mais necessitados);
Um tipo de desenvolvimento económico e técnico sem alma que, não obstante, incita a buscar a verdade sobre Deus, sobre o homem e sobre o sentido da vida» [xi].

Abre-se diante de nós um imenso panorama, pois muitos estão à procura do sentido da sua vida, um sentido que só lhes pode dar o encontro com Cristo.
E é a nossa vida corrente – sem espectáculo – que lhes pode anunciar integramente o Evangelho, que lhes pode permitir descobrir a força de Jesus Cristo, a quem Deus fez para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção [xii].

Depois teremos que ajudar os que descobrem ou redescobrem Cristo, a perseverar na sua decisão de O seguir, oferecendo-lhes a formação humana, intelectual e espiritual oportuna.


Com as armas da oração, da caridade e da alegria


Em mais de uma ocasião, São Paulo exorta os cristãos a revestirem-se da armadura de Deus.
O próprio Apóstolo exemplifica esse “revestimento" interior dos filhos de Deus, quando ensina que – orando em todo tempo movidos pelo Espírito [xiii] – têm de “armar-se" com o cinturão da verdade e a couraça da justiça, e empunhar o escudo da fé e a espada do [xiv].

Quem nasce de novo pelo Baptismo, tem de comportar-se com espírito de misericórdia, de humildade, de [xv].

Tais disposições e condutas permitiram aos primeiros cristãos transformar o mundo.
Nestes começos do terceiro milénio, usando essas mesmas armas, a oração e a caridade, temos de levar a cabo a nova evangelização.

Antes de mais nada, com a oração. Perseverai na oração [xvi].
Tudo quanto pedirdes com fé na oração alcançá-lo-eis [xvii].

Se não procurássemos a fortaleza e a eficácia na intimidade com Cristo no Pão e na Palavra [xviii], onde a encontraríamos?

São Josemaria não se cansava de repetir que a arma do Opus Dei é a oração, e é essa lição que aprendemos a praticar, também convertendo o trabalho em oração, que temos de transmitir com paixão e dom de línguas em todos os ambientes.


A oração é o fundamento e o ponto de partida de todo o apostolado.

Católico, sem oração?...
É como um soldado sem armas [xix].

Uma nova evangelização, sem apoio firme e constante na oração? Uma utopia.
A oração é a arma mais poderosa do cristão.
A oração faz-nos eficazes.
A oração faz-nos felizes.
A oração dá-nos toda a força necessária para cumprir os mandatos de Deus [xx].

O apostolado, seja ele qual for, consiste numa superabundância da vida interior, e em consequência, se queremos ajudar os outros, se pretendemos sinceramente animá-los a descobrir o autêntico sentido do seu destino na terra, é preciso que nos fundamentemos na oração [xxi].

E, junto com a oração, contamos com a arma da caridade, que é o sal do apostolado dos cristãos [xxii].

Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros [xxiii].

Os primeiros cristãos deslumbraram muitos dos seus concidadãos, atraindo-os para Cristo e para a Igreja, com a finura da sua caridade. A Igreja foi enviada para manifestar o amor de Deus e tem de realizar a sua actividade – também qualquer acção apostólica pessoal ou colectiva dos cristãos e, mais em concreto, a nova evangelização – sob o signo da caridade, com a força do amor.

«Hoje como ontem, Ele envia-nos pelos caminhos do mundo para proclamar o Seu Evangelho a todos os povos da terra [xxiv].

Com o Seu amor, Jesus Cristo atrai para Si os homens de cada geração» [xxv].

Com caridade, transmite-se a alegria, que é outro sinal de vida cristã autêntica:

Disse-vos isto para que a Minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa [xxvi].

Com efeito, onde está o Senhor goza-se de paz e de alegria, ainda que a alma esteja em carne viva e rodeada de trevas [xxvii].

O apostolado cristão pode ser chamado um apostolado do ser feliz e fazer felizes os outros.
Já naquelas primeiras comunidades cristãs, que gozavam da simpatia de todo o povo, reinava essa alegria e simplicidade de coração [xxviii] que sempre cativa.
E, com a graça de Deus, muitos se incorporavam na Igreja.

Paulo VI, na encíclica Evangelii nuntiandi, falava da alegria de evangelizar e Bento XVI escreve sobre «uma nova evangelização para redescobrir a alegria de crer e voltar a encontrar o entusiasmo de comunicar a fé» pois «a fé, com efeito, cresce quando se vive como experiência de um amor que se recebe e se comunica como experiência de graça e gozo.
Torna-nos fecundos, porque liga o coração à esperança e permite dar um testemunho fecundo: com efeito, abre o coração e a mente dos que escutam para acolher o convite do Senhor para aceitar a Sua Palavra, para ser Seus discípulos» [xxix].


Em todos os ambientes


Esta nova evangelização deve ser realizada com o exemplo de caridade e alegria de cristãos bem formados, capazes de projectar a luz de Cristo e o sentido do homem.
Cristo, morrendo na Cruz, atrai a Si a Criação inteira, e, em Seu nome, os cristãos, trabalhando no meio do mundo, hão-de reconciliar todas as coisas com Deus, colocando Cristo no cume de todas as actividades humanas [xxx].

O cristão não está chamado a uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e, por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas (…); há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é a que tem de ser – na alma e no corpo – santa e cheia de Deus, deste Deus invisível, que encontramos nas coisas mais visíveis materiais [xxxi].

Conseguir iluminar todos os ambientes com a luz de Cristo é o grande encargo que temos pela frente.
Assim, todas as circunstâncias em que se desenvolve a nossa vida diária tomarão nova força e sentido através do encontro com o Senhor.
Não se trata de fazer nada especial, pois o apostolado não é algo diverso das tarefas de todos os dias: confunde-se com esse mesmo trabalho, convertido em ocasião de um encontro pessoal com Cristo [xxxii].

Como?
Com naturalidade, com simplicidade, vivendo como viveis no meio do mundo, entregues ao vosso trabalho profissional e aos cuidados da vossa família, participando em todos o ideais nobres, respeitando a legítima liberdade de cada um.
Desde há quase trinta anos, Deus pôs no meu coração o anseio de fazer compreender às pessoas de qualquer estado, condição ou ofício, esta doutrina: a vida corrente pode ser santa e cheia de Deus; o Senhor chama-nos a santificar o trabalho quotidiano, porque aí está também a perfeição do cristão [xxxiii].

Ao mesmo tempo, é evidente que há âmbitos nos quais é especialmente importante fazer escutar a voz de Deus: a investigação e o ensino, a moralidade pública, a instituição matrimonial e familiar, as novas tecnologias, etc.

Se nos empenhamos, contribuiremos para promover uma nova cultura, uma nova legislação, una nova moda que sejam coerentes com a dignidade do homem.
Actualmente o mundo necessita que nós, os cristãos, sejamos mais audazes, mais coerentes, mais vibrantes.
Através da nossa amizade sincera e leal ajudaremos muitas pessoas a tomar consciência da sua condição de filhos de Deus, chamados a identificar-se com Cristo.
Descobrir-lhes-emos o horizonte da santidade pessoal, de modo que eles mesmos contribuirão com as suas próprias vidas para o desenvolvimento da missão da Igreja, pois conhecer Jesus (…) é compreendermos que a nossa vida não pode ter outro sentido senão o de entregar-nos ao serviço dos outros [xxxiv].

Neste Ano da fé, Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, conceder-nos-á as graças de que necessitamos para vivermos transbordantes de espírito apostólico e mobilizar muitos para o serviço da nova evangelização.


j. yániz

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Bento XVI, Litt. apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 4.
[ii] São João Paulo II, Discurso à assembleia do CELAM, 9-3-1983.
[iii] São João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 37.
[iv] Cfr. São João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 30.
[v] Jo 17, 18
[vi] D. Javier Echevarría, Carta pastoral por ocasião do Ano da fé, 29-XI-2012, n. 11, em «Romana. Boletim da Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei» 55 (2012/2), pp. 343-344.
[vii] Mc 16, 15.
[viii] Act 4, 20
[ix] Beato Paulo VI, Exhort. apost. Evangelii nuntiandi, 8-XII-1975, n. 19.
[x] D. Javier Echevarría, Carta pastoral por ocasião do Ano de fé, 29-XI-2012, n. 9, em «Romana. Boletim da Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei» 55 (2012/2), p. 342.
[xi] S. João Paulo II, Litt. enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, n. 3.
[xii] cfr. Ef 6, 14-17.
[xiii] Ef 6, 18.
[xiv] 1 Cor 1, 30
[xv] Cfr. Col 3, 12-14.
[xvi] Col 4, 2
[xvii] Mt 21, 22.
[xviii] São Josemaria, Cristo que passa, n. 118.
[xix] São Josemaria, Sulco, n. 453.
[xx] São Josemaria, Forja, n. 439.
[xxi] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 239.
[xxii] Ibidem, n. 234.
[xxiii] Jo 13, 35.
[xxiv] cfr. Mt 28, 19
[xxv] Bento XVI, Litt. apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 7.
[xxvi] Jo 15, 11.
[xxvii] São Josemaria, Cristo que passa, n. 77.
[xxviii] Cfr. Act 2, 46.
[xxix] Bento XVI, Litt. apost. Porta fidei, 11-X-2011, n. 7.
[xxx] São Josemaria, Temas actuais do cristianismo, n. 114.
[xxxi] Ibid.
[xxxii] São Josemaria, Cristo que passa, n. 264.
[xxxiii] Ibidem, n.148.
[xxxiv] Ibidem, n. 145.

14/02/2015

Ev. comentário, L esp. (Vida de Maria III)

Tempo Comum V Semana

Evangelho: Lc 10 1-9

1 Depois disto, o Senhor escolheu outros setenta e dois, e mandou-os dois a dois à Sua frente por todas as cidades e lugares onde havia de ir. 2 Disse-lhes: «Grande é na verdade a messe, mas os operários poucos. Rogai, pois, ao dono da messe que mande operários para a Sua messe. 3 Ide; eis que Eu vos envio como cordeiros entre lobos. 4 Não leveis bolsa, nem alforge, nem calçado, e não saudeis ninguém pelo caminho. 5 Na casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz seja nesta casa. 6 Se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; senão, tornará para vós. 7 Permanecei na mesma casa, comendo e bebendo do que tiverem, porque o operário é digno da sua recompensa. Não andeis de casa em casa. 8 Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que vos puserem diante; 9 curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: Está próximo de vós o reino de Deus.

Comentário

Cordeiros no meio de lobos! cheia de uma intenção de aviso e precaução o Senhor adverte uma realidade que se há-de verificar sempre ao longo dos tempos, nunca faltarão os que aparentando boa disposição apenas aguardam ensejo para fazer mal, perseguir e molestar, às vezes tirando a própria vida, aos enviados de Cristo que, afinal, somos todos os cristãos.

(ama, comentário sobre LC  10, 1-9, 2014.02.14)


Leitura espiritual


Santíssima Virgem

Vida de Maria (III

A VOZ DO MAGISTÉRIO

«A definição do dogma da Imaculada Conceição refere-se de modo directo unicamente ao primeiro instante da existência de Maria, a partir do qual ficou livre de toda a mancha da culpa original. O Magistério pontifício quis assim definir só a verdade que tinha sido objecto de controvérsias ao longo dos séculos: a preservação do pecado original, sem se preocupar em definir a santidade permanente da Virgem Mãe do Senhor».

«Essa verdade faz parte do senso comum do povo cristão, que defende que Maria, livre do pecado original, foi preservada também de todo o pecado actual e a santidade inicial foi-lhe concedida para preencher toda a sua existência».

«A Igreja reconheceu constantemente que Maria foi santa e livre de todo o pecado ou imperfeição moral. O Concílio de Trento expressa essa convicção afirmando que ninguém “pode na sua vida inteira evitar todos os pecados, mesmo os veniais, se não for por privilégio especial de Deus, como a Igreja ensina sobre a bem-aventurada Virgem" (DS 1573). Também o cristão transformado e renovado pela graça tem a possibilidade de pecar. Com efeito, a graça não preserva de todo o pecado no decurso completo da vida, salvo se, como afirma o Concílio de Trento, um privilégio especial assegurar essa imunidade do pecado. E foi isso o que aconteceu em Maria».

«O Concílio tridentino não quis definir este privilégio, mas declarou que a Igreja o afirma com vigor: tenet, quer dizer, mantém-no com firmeza. Trata-se de uma opção que, longe de incluir essa verdade entre as crenças piedosas ou as opiniões de devoção, confirma o seu carácter de doutrina sólida, bem presente na fé do povo de Deus. Por outro lado, essa convicção fundamenta-se na graça que o anjo atribui a Maria no momento da Anunciação. Ao chamá-la "cheia de graça" — kejaritoméne —, o anjo reconhece n’Ela a mulher dotada de uma perfeição permanente e de uma plenitude de santidade, sem sombra de culpa nem de imperfeição moral ou espiritual».

«O privilégio especial que Deus outorgou à Toda Santa leva-nos a admirar as maravilhas realizadas pela graça na sua vida. E recorda-nos também que Maria foi sempre toda do Senhor e que nenhuma imperfeição diminuiu a perfeita harmonia entre Ela e Deus».

«A sua vida terrena, portanto, caracterizou-se pelo desenvolvimento constante e sublime da fé, da esperança e da caridade. Por isso, Maria é para os crentes sinal luminoso da Misericórdia divina e guia seguro para as elevadas metas da perfeição evangélica e a santidade».

João Paulo II, Catequese mariana (Discurso na audiência geral, 19-VI-1996).

* * *

A VOZ DOS PADRES E ESCRITORES ANTIGOS

«Os meses iam-se passando para a menina. Ao fazer dois anos, disse Joaquim a Ana: “Levemo-la ao templo do Senhor para cumprir a promessa que Lhe fizemos, para que não a reclame e nossa oferenda se torne inaceitável a Seus olhos”. Ana respondeu: “Esperamos  até que complete três anos, para que a menina não tenha saudades de nós. Joaquim respondeu: “Esperaremos”».

Ao chegar aos três anos, disse Joaquim: “Chama as donzelas hebreias que não têm mancha e que cada uma leve uma lâmpada acesa e a acompanhem, para que a menina não olhe para trás e seu coração seja cativado por alguma coisa fora do templo de Deus. Assim fizeram, enquanto iam subindo para o templo de Deus. Lá recebeu-a o sacerdote, que abraçando-a, abençoou-a e exclamou: “O Senhor glorificou o teu nome diante de todas as gerações, e no final dos tempos, manifestará em ti sua redenção aos filhos de Israel”».

Fê-la sentar-se no terceiro degrau do altar. O Senhor derramou graças sobre a menina, que dançou cativando toda a casa de Israel.

«Os seus pais saíram do templo cheios de admiração e louvando a Deus porque a menina não tinha olhado para trás. Maria permaneceu no templo alimentando-se como uma pomba e recebendo alimento pelas mãos de um anjo».

Proto-evangelho de Santiago, VII-VIII (Escrito apócrifo do século II).

***

«Quando ultrapassou a idade da amamentação e fez três anos, os seus bem-aventurados pais levaram-na ao templo de Deus e consagraram-na como oferenda, de acordo com a promessa que tinham feito antes do seu nascimento. Conduziram-na com glória e honra, como era justo; precediam-na muitas virgens e acompanhavam-na com lâmpadas acesas, como tinha preanunciado um dia o rei profeta [David], antepassado da Virgem imaculada, dizendo: As suas jovens companheiras conduziram-na até ao rei, os seus amigos ofereceram-lha (Sal 44 [45] 15). O profeta tinha dito isto com antecedência, a propósito da apresentação no templo e das virgens que a precediam e a acompanhavam».

«No entanto, esta profecia não diz respeito somente àquelas virgens, mas refere-se também às almas virgens que seguiram os seus passos, almas a que o profeta chamou "seus amigos". Embora todos sejam inferiores a Ela na amizade e na semelhança, no entanto, por graça e bondade do seu Filho, o Senhor, as almas dos santos são chamadas " seus amigos "; por outro lado, o próprio Senhor e Criador do universo não considerou indigno chamar "irmãos" àqueles que lhe são gratos e o imitam. Na realidade, todas as almas dos justos que chegaram a ser "seus amigos" mediante o exercício da santidade, gozarão da sua ajuda e estarão espiritualmente unidas ao Senhor seu Filho e serão introduzidas Santo dos Santos celestial».

Vida de Maria, atribuída a São Máximo o Confessor (século VII)

* * *

A VOZ DOS SANTOS

«Não houve nem nunca haverá oferenda feita por uma criatura, nem maior nem mais perfeita do que a que fez Maria a Deus quando se apresentou no Templo para Lhe oferecer, não incenso nem cordeiros, nem moedas de ouro, mas a si própria de todo e por inteiro, em perfeito holocausto, consagrando-se como vítima perpétua em Sua honra. Compreendeu muito bem a voz do Senhor que a chamava a dedicar-se toda inteira ao Seu amor, com aquelas palavras: Levanta-te, apressa-te, amiga minha... e vem (Ct 2, 10). Por isso queria o seu Senhor que se dedicasse de todo a amá-Lo e a alegrá-Lo: Ouve, minha filha, olha, inclina o teu ouvido e esquece o teu povo e a casa paterna (Sal 44, 14). E Ela, nesse mesmo instante, seguiu a chamada de Deus».

«Por amor a esta menina privilegiada acelerou o Redentor a Sua vinda ao mundo. Precisamente porque não se julgava digna sequer de ser escrava da Mãe de Deus, foi a escolhida para ser essa mãe. Com o aroma das suas virtudes e com as suas poderosas orações atraiu ao seu seio virginal o Filho de Deus. Por isso o seu divino Esposo lhe chamou rola: Ouviu-se na nossa terra a voz da rola (Ct 2, 12); não só porque Ela, tal como a rola, sempre gostou da solidão, vivendo neste mundo como num deserto, mas porque como a rola que vai sempre gemendo pela campina, Maria suspirava sempre compadecendo-se das misérias do mundo perdido e pedindo a Deus que outorgasse a redenção para todos. Com muito mais fervor do que os profetas Ela repetia, quando estava no templo, as súplicas e suspiros deles para que mandasse o Redentor: Envia, Senhor, o Cordeiro dominador da terra (Is 15, 1). Céus, gotejai lá de cima; e as nuvens chovam o Justo (Is 45, 8). Oh se rasgásseis os céus e descêsseis! (Is 44, 1)».

«Numa palavra, Ela era o objecto das complacências de Deus, ao contemplar esta virgenzinha aspirando sempre à mais elevada perfeição como coluna de incenso rica pelo aroma de todas as virtudes, tal como a descreve o Espírito Santo: Quem é esta que vai subindo pelo deserto como uma coluna de fumo feita de mirra e de incenso e de toda a espécie de aromas? (Ct 3, 6). Na verdade, diz Sofronio, era esta donzela o jardim das delícias do Senhor onde se encontravam toda a espécie de flores e todos os aromas das virtudes. Por isso, afirma São João Crisóstomo, Deus escolheu Maria para Sua Mãe, porque não encontrou na terra uma virgem mais santa nem mais perfeita que Maria, nem lugar mais digno para habitar do que o seu seio sacrossanto. São Bernardo diz de modo semelhante: não houve na terra sítio mais digno do que o seio virginal. Santo Antonino afirma que a bem-aventurada Virgem, para ser escolhida e destinada à dignidade de Mãe de Deus, tinha que possuir uma perfeição tão grande e consumada que superasse totalmente a perfeição de todas as outras criaturas: a suprema perfeição da graça é estar preparada para conceber o Filho de Deus».

«Como a santa menina Maria se ofereceu a Deus no templo com prontidão e por inteiro, assim nós neste dia apresentemo-nos a Maria sem demora e sem reserva e roguemos-lhe que nos ofereça a Deus, que não nos recusará vendo que somos oferecidos pelas mãos daquela que foi o templo vivo do Espírito Santo, as delícias do seu Senhor e a escolhida como Mãe do Verbo eterno. E esperemos toda a espécie de bens desta excelsa e muito agradecida Senhora que recompensa com grande amor os obséquios que recebe dos seus devotos».

Santo Afonso Maria de Ligório (séc. XVII), As glórias de Maria, Parte II, Discurso III.

***

«Desde há quase trinta anos, Deus pôs no meu coração o anseio de fazer compreender às pessoas de qualquer estado, condição ou ofício, esta doutrina: a vida corrente pode ser santa e cheia de Deus; o Senhor chama-nos a santificar o trabalho quotidiano, porque aí está também a perfeição cristã. Consideramo-lo uma vez mais, contemplando a vida de Maria.

Não nos esqueçamos de que a quase totalidade dos dias que Nossa Senhora passou na Terra decorreram de forma muito semelhante aos dias de muitos milhões de mulheres, ocupadas a cuidar da sua família, a educar os seus filhos, a levar a cabo as tarefas do lar. Maria santifica as coisas mais pequenas, aquilo que muitos consideram erradamente como não transcendente e sem valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção com as pessoas queridas, as conversas e as visitas por motivo de parentesco ou de amizade... Bendita normalidade, que pode estar cheia de tanto amor de Deus!

Na verdade, é isso que explica a vida de Maria: o seu amor. Um amor levado ao extremo, até ao esquecimento completo de si mesma, contente por estar ali, onde Deus quer que esteja e cumprindo com esmero a vontade divina. Isso é o que faz com que o mais pequeno dos seus gestos nunca seja banal, mas cheio de significado. Maria, nossa Mãe, é para nós exemplo e caminho. Temos de procurar ser como Ela nas circunstâncias concretas em que Deus quer que vivamos».

São Josemaría (s. XX), Cristo que passa, n. 148.

* * *

A VOZ DOS POETAS

Endechas a Nossa Senhora

Virgem soberana,
De outros cantos dina:
Falta a voz humana,
Cante a voz divina.

Estrelas e flores,
Areias do mar
Podem-se contar,
Não vossos louvores.

De tal maravilha
Não me maravilho,
Pois sois mãe e filha
De Deus, vosso Filho.

Sois templo divino
Do Espírito Santo:
Quem é Só e Trino
A vós só quis tanto.

Sois cedro em Líbano,
Em Cádis sois palma,
Remédio do dano,
Vida da nossa alma.

Sois jardim cheiroso,
Plátano em ribeira;
Em campo formoso,
Formosa oliveira.

Sois esquadrão forte,
Torre em alto erguida,
Escudo da morte,
Doçura da vida.

Entre espinhos rosa,
Lírio junto de água;
Toda sois formosa,
Em vós não há mágoa.

Fostes escolhida
Por nossa desculpa,
Sem culpa nascida,
Remédio da culpa.

Quanto Eva perdeu
Por vós se cobrou,
Quem de vós nasceu
Tal vos fabricou.

O Verbo nascido
Deu-vos por Mãe sua,
O Sol por vestido,
Por chapins a Lua.

Deu-vos a Trindade
Coroa de estrelas;
Mas a claridade,
Vós lha dais a elas.

Sois fonte suave,
Alívio de tristes;
Sois do Céu a chave,
Vós o Céu abristes!

Quanto o Sol rodeia,
Quanto o Mar abraça,
Tudo encheis de graça,
Sois de graça cheia.

Diogo Bernardes (1532-1605)