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30/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 15, 18-21

18 «Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim. 19 Se fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. 20 Lembrai-vos da palavra que Eu vos disse: Não é o servo maior do que o senhor. Se eles Me perseguiram a Mim, também vos hão-de perseguir a vós; se guardaram a Minha palavra, também hão-de guardar a vossa. 21 Mas tudo isto vos farão por causa do Meu nome, porque não conhecem Aquele que Me enviou.

Comentário:

As palavras de Cristo cumprem-se sempre.

Através dos tempos o ódio, a rejeição de Deus e do Seu Reino têm estado presentes um pouco por todo o mundo.
Por vezes de forma larvar, encapotada, escondida atrás de leis restritivas, algumas iníquas;
Outras sem qualquer disfarce atingem o paroxismo, a violência mais extrema.

Mas, a verdade é que o Reino não cessa de aumentar e expandir-se.

Não podemos estranhar já que nós, os cristãos, sabemos e acreditamos que a Santa Igreja fundada por Jesus Cristo é eterna e que as forças do mal não prevalecerão contra ela.

(ama, comentário sobre Jo 15 18-21, 2015.05.09)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO I

Invocação

Eu te invoco, ó meu Deus, minha misericórdia, que me criaste, e que não olvidaste aquele que te esqueceu. Chamo-te à minha alma, que preparas para te receber fazendo-te desejar por ela.

Não abandones o que te invoca. Antes mesmo que eu te invocasse, já o tinhas prevenido.

Muitas vezes me instaste, falando de mil modos diversos para que te ouvisse de longe, para que me convertesse e te invocasse que me chamavas.
Senhor, apagaste todos os meus delitos para não ter de punir o que fizeram as minhas mãos iníquas, e te antecipaste a meus actos meritórios para me recompensar do que fizeram as tuas mãos, que me criaram; de facto, existias antes de mim, e eu não era digno de receber de ti o ser.

Contudo, eis que existo, graças à tua bondade que precedeu tudo o que sou e do que me fizeste. Não tinhas necessidade de mim, eu não sou um bem que te possa ser útil, meu Senhor e meu Deus. Se estou ao teu serviço, não é porque a acção te cansa ou porque o teu poder, privado dos meus serviços, diminua; nem porque o meu culto seja para ti o que é a cultura para a terra, que sem ela ficaria estéril. Eu devo honrar-te para ser feliz em ti, a quem devo o meu ser, capaz de felicidade.

CAPÍTULO II

A criação e a bondade de Deus

É pela plenitude da tua bondade que as criaturas subsistem, para que um bem, para ti de todo inútil, ou de nenhum modo igualável a ti, embora saído de ti, continuasse a existir, pois tu o criaste. Com efeito, que poderiam merecer de ti o céu e a terra, que criaste no princípio? E digam, as naturezas espirituais e corpóreas, que méritos tinham a teus olhos, que as criaste na tua Sabedoria? Que méritos, para receber de ti o ser, que mostram inacabado e informe, quando tendem à desordem e se afastam da tua semelhança? O que é de natureza espiritual, mesmo informe, é ainda superior a um corpo que recebeu forma; um corpo sem forma é superior ao puro nada; ora, todas essas coisas continuariam informes no teu Verbo, se essa mesma palavra não as recolhesse à tua Unidade, comunicando-lhes a forma e a excelência graças apenas a ti, soberano Bem. Mas que merecimentos antecipados apresentaram aos teus olhos, para existir mesmo informes essas criaturas que, sem que as criasses nem teriam existido?

E o que a matéria corporal merecera de ti para existir, mesmo invisível e caótica? Nem mesmo essa existência teria, se não as tivesses criado. Não existindo ainda, não podia ter merecimento algum para existir. E a criatura espiritual, ainda no estado embrionário, que títulos teria, mesmo para ser essa coisa vagante e tenebrosa, semelhante ao abismo, diferente de ti, se pelo teu Verbo não fosse conduzida ao mesmo Verbo que a criou e se, iluminada por ele, também não se transformasse em luz, não igual, mas análoga à tua imagem? Para um corpo, não é a mesma coisa existir e ser belo, pois de outro modo não poderia viver e viver sabiamente não são a mesma coisa, porque, se fosse, todo espírito seria imutável na sua sabedoria.

Mas o seu bem reside em se manter unido a ti, para não perder, afastando-se, a luz que adquiriu com a tua proximidade, tornando a cair numa vida semelhante a um abismo de trevas.

E também nós, que por nossa alma somos criaturas espirituais, nós nos afastamos de ti, nossa luz, nós fomos outrora trevas nesta vida e ainda padecemos por entre os restos das nossas trevas, até que nos tornamos a tua justiça no teu Filho único, como as montanhas de Deus. Pois fomos objecto do teus juízos, que são profundos como abismos.

CAPÍTULO III

A luz

Sobre as palavras que proferiste no começo da criação: “Faça-se a luz, e a luz foi feita” – eu entendo que se adaptam com propriedade à criatura espiritual, que já era uma espécie de via apta a receber a tua luz. Mas assim como ela não tinha merecido de ti ser essa espécie de vida apta a receber a luz, do mesmo modo, uma vez criada, ela como as demais formas não mereceu de ti essa iluminação. Porque a sua informidade não te agradaria se não tivesse tornado luz, e isso não se contentando com existir, mas contemplando a luz que a iluminava, unindo-se intimamente a ela. Assim, ela devia a existência e o viver feliz apenas à tua graça; voltada, por uma escolha feliz, para o que não pode mudar nem para melhor, nem para pior. Voltou-se para ti, que és o único que existes, e só o teu ser é simples, pois o viver e a felicidade são para ti a mesma coisa, porque és tua própria felicidade.

CAPÍTULO IV

A bondade criadora

Que faltaria, pois, a esse bem, que és tu mesmo, se nenhuma dessas criaturas existisse, ou se tivessem permanecido informes? Tu as criaste, não por ter necessidade delas, nem para aumentar a tua felicidade, mas levado pela plenitude da tua bondade, comunicando-lhes uma forma.

Na tua perfeição, desagrada-te a sua imperfeição; tu as aperfeiçoas para que elas te agradem, e não, com isso, aperfeiçoar-te a ti mesmo.

Com efeito, o teu Espírito bom pairava sobre as águas, e não era por elas levado como se nelas descansasse. Diz-se que o teu Espírito nelas repousava; mas era ele que as fazia em si.

Incorruptível, imutável, bastando-se a si mesma, a tua vontade era suspensa acima da vida que tinhas criado, para a qual viver não é o mesmo que viver feliz, porque ela vive, mesmo quando flutua sobre as trevas. Esta vida carece ainda de se voltar para o seu Criador, para viver cada vez mais próxima da fonte da vida, para ver a luz na Luz divina, e nela haurir perfeição, brilho e felicidade.

CAPÍTULO V

A trindade

Mas eis que me aparece o enigma da Trindade que és, meu Deus. Porque tu, Pai, criaste o céu e a terra no princípio da nossa Sabedoria, que é a tua Sabedoria, nascida de ti, igual e co-eterna, a ti, isto é, no teu Filho.

Já falei longamente do céu, da terra invisível e informe e do abismo das trevas, onde a natureza espiritual errante e fluida permaneceria tal se não se voltasse para Aquele de quem toda vida procede, para que, por meio da sua luz, se tornasse viva e bela, o céu do céu, criado mais tarde entre a água superior e a água inferior.

Pelo vocábulo “Deus” eu já entendia o Pai, que criou essas coisas; na palavra “princípio” eu entendia o Filho, em quem ele as criou. E, como eu acreditava na Trindade do meu Deus, eu procurava-a nas tuas santas palavras. E vi nas tuas Escrituras que o teu Espírito pairava sobre as águas. Eis a tua Trindade, meu Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, Criador de toda criatura!

CAPÍTULO VI

O espírito sobre as águas

Mas, ó luz da verdade, aproximo de ti o meu coração para que ele não me ensine falsidades; dissipa-lhe as trevas e diz-me, eu to suplico por nossa mãe, a caridade, diz-me, por que só depois de ter nomeado o céu, a terra invisível e informe e as trevas sobre o abismo, por que só então é que as Escrituras falam do teu Espírito? Será porque convinha apresentá-lo assim pairando sobre alguma coisa? E seria isso possível se não mencionasse primeiro sobre o que pairava? De facto, não era sobre o Pai nem sobre o Filho que ele pairava, e seria impróprio falar assim se não pairasse sobre alguma coisa.

Era pois, necessário, mencionar primeiro o elemento sobre o qual ele pairava, já que convinha falar dele apenas dizendo que pairava. Mas por que não convinha apresentá-lo senão dizendo que pairava?

CAPÍTULO VII

As águas sem substância

Agora, quem o puder com a inteligência, siga ao teu Apostolo, quando ele diz que a tua caridade se difundiu nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado, quando nos instrui sobre as coisas espirituais e nos indica o caminho excelso da caridade, e dobra o joelho diante de ti por nossa causa, para que conheçamos a ciência altíssima da caridade de Cristo. E é porque era super eminente desde o princípio que pairava sobre as águas.

A quem e como falarei do peso da concupiscência, que nos arrasta para um abismo profundo, e da caridade que nos eleva, com a ajuda do teu Espírito, que pairava sobre as águas?

A quem falar, como falar? Nós submergimos e emergimos, mas não em abismos materiais. A metáfora é a um tempo correcta e muito inexacta. São as nossas paixões, os nossos amores, a impureza do nosso espírito que nos arrasta para baixo sob o peso das preocupações. E é a tua santidade que nos eleva pelo amor da tua paz, para que levantemos os nossos corações para junto de ti, onde o teu Espírito paira sobre as águas, e alcancemos o sublime repouso, quando a nossa alma tiver atravessado essas águas que são sem substância.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


09/05/2015

Evangelho, comentário L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Semana V da Páscoa

Evangelho: Jo 15 18-21

18 «Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim. 19 Se fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. 20 Lembrai-vos da palavra que Eu vos disse: Não é o servo maior do que o senhor. Se eles Me perseguiram a Mim, também vos hão-de perseguir a vós; se guardaram a Minha palavra, também hão-de guardar a vossa. 21 Mas tudo isto vos farão por causa do Meu nome, porque não conhecem Aquele que Me enviou.

Comentário:

A “herança” que Jesus Cristo deixa aos Seus discípulos parece – e de facto é – bastante pesada.

Mas o discípulo não é maior que o Mestre e, por isso quando tenta, com todas as suas forças, imitá-lo tem de esperar ser tratado como Ele o foi e, também, vir a ganhar o que Ele prometeu a quem o seguisse sem condições: a vitória final, a conquista definitiva do Reino de Deus, a Salvação Eterna.

(ama, comentário sobre Jo 15, 18-21, 2014.05.24)


Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE



XI. OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

…/25
O cristão sob a acção do Dom de Temor de Deus, toma como próprias todas as ofensas que nós os homens fazemos a Deus e oferece-se por elas em reparação redentora.
Movido pela acção do Dom, desperta na sua alma o anseio de amar a Deus pelos que O não amam, como uma Mãe que deseja amar a Deus pelos seus filhos que se afastam dele.
E, no amor, encontra a fortaleza necessária para se abandonar na Cruz com Cristo, sem sequer considerar a união definitiva com Cristo na Ressurreição que já se iniciou na sua própria alma.

Sem fazer expressa referência ao Dom de Temor de Deus, São Paulo deixa bem manifesto a acção do Espírito Santo no sentido que vimos assinalando, entre outros, nestes dois textos:

«Levamos sempre nos nossos corpos por todos os lugares o morrer de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo.»[i]

«Porque se nos fizemos uma mesma coisa com Ele por uma morte semelhante à Sua, também o seremos por uma ressurreição semelhante.»[ii]

Em resumo, podemos dizer que o Dom de Temor de Deus não se reduz a um certo medo a Deus nem a um temor de O ofender.
Tampouco esgota o seu significado num certo aninhar-se ante a majestade de Deus nem se identifica com a pena de não corresponder às Suas graças nem de não O amar como gostaríamos de o fazer.

Sendo o Dom de Temor, como já recordámos, « o princípio da sabedoria» e sendo a sabedoria a união da nossa mente com a inteligência divina, o «Temor de Deus» requer como primeiro fundamento o adentrar-se no insondável mistério do coração de Deus, bem conscientes que « nem o olho viu nem o ouvido ouviu nem veio à mente do homem o que Deus preparou para os que O amam.»[iii]

        Uma vez imerso no coração de Deus, descobre-se que amar com Deus e em Deus é sempre amar em «Temor de Deus».
        Deus ama com «temor» de não poder dar-nos todo o amor que deseja dar-nos.
Esse «temor» engendra a «pena» da falta de gozo das criaturas ao não receber o amor de Deus.
Partilhar com Deus essa «pena» é viver o «temor de Deus» na perspectiva e na dimensão que uma criatura pode em verdade fazê-lo.

Definitivamente, o «temor de Deus» é «viver» com Deus o «peso» do seu Amor aos homens.

Concluímos este capítulo, assinalando que o facto de relacionar cada Dom com uma das três virtudes teologais, a Fé, a Esperança, a Caridade, verdadeiros mananciais que alimentam a vida cristã, não é obstáculo para dizer, sem medo de enganar-nos, que cada um dos Dons e os sete no seu conjunto, participam activamente no actuar de cada uma das virtudes e na totalidade das acções do crente.

Como já assinalámos, recordamos uma vez mais que as virtudes e os Dons são como canais pelos quais transcorre a acção da Graça santificante vivendo em nós e sempre sob o influxo imediato do Espírito Santo, quem, com fé, convence o mundo – o homem - «no referente ao pecado» ao permitir-lhe conhecer o amor de Deus e reconhecer o seu próprio pecado; com a Esperança, convence o mundo – o homem - «no referente ao juízo, porque o príncipe deste mundo (o pecado) «já está condenado», e abre-se ao homem a perspectiva da vida eterna; com a Caridade, convence o mundo «no referente à justiça», a tornar possível que descubra o perdão de Deus e o Seu Coração infinitamente misericordioso.

A contrassenha, a chave do universo é o amor: «Deus é amor».

O amor de Deus está latente em todos e cada um dos lugares do mundo.

O homem chegará a descobrir as leis que regulam as forças do Universo, conseguirão penetrar nos mistérios da criação no macro e no micro universo.

Jamais poderá amar como Deus ama.

Bento XVI escreve:
«A fé, que leva a tomar consciência do amor de Deus revelado no coração de Jesus trespassado na cruz, suscita por sua vez o amor:
O amor é uma luz – no fundo a única – que ilumina constantemente um mundo obscuro e nos dá a força para viver e actuar.
O amor é possível e nós podemos pô-lo em prática porque fomos criados à imagem de Deus.
Viver o amor e assim levar a cruz de Deus ao mundo: a isto queria convidar com esta Encíclica».[iv]


XII perspectiva da Redenção


        Impõe-se agora uma pequena paragem nas nossas considerações.

        Estudámos a Criação, a primeira relação de Deus Pai com o homem: a Criação; relação que nem se apagou nem ficou absorvida pelo pecado nem pela Redenção.

Assinalámos depois a realidade da Redenção, fruto da Encarnação, segunda relação de Deus Filho com o homem.
E a nova vida do homem, que se converte em «cristão» ao receber a Redenção, por obra da Graça nele.

O desenvolvimento da Redenção comporta a terceira relação de Deus Espírito Santo com o homem.

Por acção dos Dons do Espírito Santo, desenvolvendo as virtudes da Fé, da Esperança e da Caridade, tem lugar a santificação: o crescimento da Graça nas potências do ser humano que vai tornado possível ao ser humano chegar a dizer com São Paulo:

«Vivo, mas já não sou eu quem vive, mas Cristo que vive em mim.»[v]

Antes de continuar na tentativa de descobrir e na medida possível compreender os sinais certos da conversão do cristão em santo – que encontraremos no viver dos Mandamentos com o espírito das Bem-Aventuranças e no crescimentos do Frutos do Espírito Santo na alma do cristão – parece oportuno reflectir brevemente sobre o conteúdo da Redenção, ainda que com o perigo de voltar a coisas já ditas.
Fazemo-lo na esperança de que essas afirmações adquiram uma nova luz ao ser apresentadas numa nova perspectiva.

Sim, desde o começo da pregação apostólica, foi muito importante que cada convertido a Cristo descobrisse a grandeza e a beleza de ser cristão, nestes tempos, essa conveniência tornou-se peremptória e assim será até ao fim da história do homem.

Dividimos este resumo em duas partes:

a)   A Redenção que Cristo nos oferece (redenção objectiva).
b)   A Redenção aceite pelo homem (redenção subjectiva).

A)       a redenção que cristo nos oferece

A Redenção de Cristo é a vitória definitiva sobre o pecado sobre a morte, fruto da Encarnação do Filho de Deus e da plena disponibilidade da liberdade do Filho de Deus em serviço do homens que culmina no mistério pascal com a Paixão, Morte gloriosa Ressurreição.
É um facto que se cumpre uma vez no tempo, se integra na história do homem e continua vivo em Cristo ressuscitado.

Como acontece com a Ressurreição, a Redenção é um acontecimento histórico, humano e divino, que teve lugar mais expressamente no Calvário e durante toda a vida na terra de Jesus Cristo e que é, ao mesmo tempo, vivido na sua plenitude divina-humana no seio da Trindade Beatíssima, ao ser Jesus Cristo «perfeito Deus e perfeito homem».

A Redenção ocorrida num preciso instante do transcorrer do tempo na história d humanidade, é, ao mesmo tempo e desde a sua origem, uma realidade permanente.
Sai fora do ciclo vida-morte que preside e rege o viver humano.
E assim podemos dizer que a «Redenção de Cristo não é um acontecimento cumprido uma vez e que já pertence à história, mas uma realidade permanente.
É força e vida, eterna regeneração e reconciliação».

Cristo ressuscitado, todavia, passa apenas quarenta dias na terra antes de ascender definitivamente ao Céu em corpo e alma.
A Ascensão de Cristo significa o seu afastamento dos avatares da terra, da sorte do homem na sua história?
Leva consigo que a obra redentora iniciada com a Encarnação do Filho de Deus já está concluída?

A resposta a estas perguntas é Não.

Se o Filho de Deus ao encarnar-se, no seio da Virgem Maria, se diz que, de um certo modo, quis ao mesmo tempo unir-se a cada um de nós e continuar vivendo em cada ser humano até ao fim dos tempos, de forma semelhante podemos dizer que Cristo, realizada a redenção do mundo e a Criação libertada do pecado, deseja redimir cada homem, libertar cada um dos seus irmãos os homens da escravidão do pecado e da morte, abrindo-lhe as portas da vida eterna.


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)




[i] 2 Cor 4, 10
[ii] Rom 6, 5
[iii] 1 Cor 2, 9
[iv] Bento XVI, Deus caritas est, n. 39
[v] Ga 2, 20

24/05/2014

Evangelho diário, comentário, Leitura espiritual (Enc Mater et Magistra 1ª parte 36 a 60)

Tempo de Páscoa

V Semana 

Evangelho: Jo 15, 18-21

18 «Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim. 19 Se fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. 20 Lembrai-vos da palavra que Eu vos disse: Não é o servo maior do que o senhor. Se eles Me perseguiram a Mim, também vos hão-de perseguir a vós; se guardaram a Minha palavra, também hão-de guardar a vossa. 21 Mas tudo isto vos farão por causa do Meu nome, porque não conhecem Aquele que Me enviou.

Comentário:

Pelo mundo inteiro ocorrem estas perseguições por causa do nome de Deus.
Não se pense, contudo, que tal só acontece em regiões mais ou menos remotas, não, acontece aqui, onde vivemos, onde trabalhamos, talvez nem todas essas perseguições sejam sanguinárias – que as há e muitas! – mas existem sob essa forma insidiosa de segregação que acontece em todos os níveis da actividade humana, e, também, essas leis iníquas que pretendem não mais que expulsar Deus da sociedade humana, fazendo tábua rasa dos Seus Mandamentos, tais como, os atentados contra a vida e dignidade humanas - o aborto a eutanásia – para referir apenas as mais “mediáticas”.

(ama, comentário sobre Jo 15, 18-21, 2013.05.04)
Leitura espiritual
Doc. do Conc. Vatic. II

CARTA ENCÍCLICA
MATER ET MAGISTRA
DE SUA SANTIDADE JOÃO XXIII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR, EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA, BEM COMO A TODO O CLERO E FIÉIS DO ORBE CATÓLICO

SOBRE A RECENTE EVOLUÇÃO DA QUESTÃO SOCIAL À LUZ DA DOUTRINA CRISTÃ
PRIMEIRA PARTE

ENSINAMENTOS DA ENCÍCLICA RERUM NOVARUM E OPORTUNOS DESENVOLVIMENTOS NO MAGISTÉRIO DE PIO XI E PIO XII

36. E assim, como observa com perspicácia o sumo pontífice, "à liberdade de mercado sucedeu a hegemonia económica; à sede de lucro, a cobiça desenfreada do predomínio; de modo que toda a economia se tornou horrivelmente dura, inexorável, cruel", [11] escravizando os poderes públicos aos interesses de grupo e desembocando no imperialismo internacional do dinheiro.

37. Para remediar tal situação, o supremo pastor indica, como princípios fundamentais, o regresso do mundo económico à ordem moral e a subordinação da busca dos lucros, individuais ou de grupos, às exigências do bem comum. Tal comporta, segundo o seu ensinamento, a reorganização da vida social mediante a reconstituição de corpos intermediários autónomos com finalidade económica e profissional, criados pelos particulares e não impostos pelo Estado; o restabelecimento da autoridade dos poderes públicos para desempenharem as funções que lhes competem na realização do bem comum; e a colaboração em plano mundial entre as comunidades políticas, mesmo no campo económico.

38. Os temas fundamentais, característicos da magistral encíclica de Pio XI, podem reduzir-se a dois. O primeiro proíbe completamente tomar como regra suprema das actividades e das instituições do mundo económico quer o interesse individual ou de grupo, quer a livre concorrência, quer a hegemonia económica, quer o prestígio ou o poder da nação, ou outros critérios semelhantes.

39. Pelo contrário, devem considerar-se regras supremas, daquelas actividades e instituições, a justiça e a caridade social.

40. O segundo tema recomenda a criação de uma ordem jurídica, nacional e internacional, dotada de instituições estáveis, públicas e privadas, que se inspire na justiça social e à qual se conforme a economia; assim tornar-se-á menos difícil aos economistas exercer a própria actividade em harmonia com as exigências da justiça e atendendo ao bem comum.

A radiomensagem de Pentecostes de 1941

41. Também Pio XII, nosso predecessor de venerável memória, contribuiu não pouco para definir e desenvolver a doutrina social cristã. No dia 1° de junho de 1941, festa de Pentecostes, transmitiu uma radiomensagem "para chamar a atenção do mundo católico sobre um acontecimento digno de ser gravado com letras de ouro nos fastos da Igreja: o quinquagésimo aniversário da fundamental encíclica social Rerum Novarum de Leão XIII...c[12] e para agradecer humildemente a Deus todo-poderoso... o dom que... se dignou conceder à Igreja com aquela encíclica do seu vigário na terra; e para louvá-lo, pelo sopro do Espírito renovador que, por meio da mesma, derramou desde então de modo sempre crescente sobre toda a humanidade".c[13]

42. Nessa radiomensagem, o grande pontífice reivindica para a Igreja a "irrefutável competência de julgar se as bases de uma determinada ordem social estão de acordo com a ordem imutável que Deus Criador e Redentor manifestou por meio do direito natural e da revelação", [14] reafirma a vitalidade perene dos ensinamentos da encíclica Rerum Novarum e a sua fecundidade inexaurível; e aproveita a ocasião "para expor ulteriores princípios directivos de moral sobre três valores fundamentais da vida social e económica. Esses três valores fundamentais, que se unem, se enlaçam e se ajudam mutuamente, são: o uso dos bens materiais, o trabalho e a família". [15]

43. Quanto ao uso dos bens materiais, o nosso predecessor afirma que o direito de todo homem a usar daqueles bens para o seu próprio sustento tem prioridade sobre qualquer outro direito de natureza económica, e mesmo sobre o direito de propriedade. Certamente, acrescenta o nosso predecessor, também o direito de propriedade dos bens é um direito natural; mas, segundo a ordem objectiva estabelecida por Deus, o direito de propriedade é limitado, pois não pode constituir obstáculo a que seja satisfeita a "exigência irrevogável dos bens, criados por Deus para todos os homens, estarem equitativamente à disposição de todos, segundo os princípios da justiça e da caridade". [16]

44. No que se refere ao trabalho, retomando um tema apontado na encíclica leonina, Pio XII confirma que ele é simultaneamente um dever e um direito de todos e cada um dos homens. Por conseguinte, corresponde a estes, em primeiro lugar, regular as relações mútuas do trabalho. Só no caso dos interessados não cumprirem ou não poderem cumprir o seu dever, "compete ao Estado intervir no campo da divisão e distribuição do trabalho, segundo a forma e a medida requeridas pelo bem comum devidamente entendido". [17]

45. Quanto à família, o sumo pontífice afirma que a propriedade privada dos bens materiais deve ser considerada como "espaço vital da família; isto é, meio apto para assegurar ao pai de família a sã liberdade de que necessita para poder cumprir os deveres que lhe foram impostos pelo Criador, para o bem-estar físico, espiritual e religioso dos seus". [18] Isto confere também à família o direito de emigrar. Sobre este ponto, o nosso predecessor adverte que os Estados, tanto os que permitem a emigração como os que acolhem novos elementos, se procurarem eliminar tudo o que "pode impedir o nascimento e o progresso de uma verdadeira confiança" [19] mútua, conseguirão uma vantagem recíproca e contribuirão simultaneamente para o incremento do bem-estar humano e do avanço da cultura.

Ulteriores modificações

46. A situação, já mudada ao tempo da comemoração celebrada por Pio XII, sofreu nestes vinte anos profundas inovações, quer no interior dos países quer nas suas relações mútuas.

47. No campo científico, técnico e económico: a descoberta da energia nuclear, as suas primeiras aplicações para fins bélicos e depois a sua utilização cada vez maior para fins pacíficos; as possibilidades ilimitadas abertas pela química aos produtos sintéticos; a difusão da automatização e da automação no sector industrial e no dos serviços de utilidade geral; a modernização do sector agrícola; o quase desaparecimento das distâncias nas comunicações, sobretudo por causa do rádio e da televisão; a rapidez crescente dos transportes; e o princípio da conquista dos espaços interplanetários.

48. No campo social: a difusão dos seguros sociais, e, nalgumas nações economicamente desenvolvidas, o estabelecimento de sistemas de previdência social; a formação e extensão, nos movimentos sindicais, de uma atitude de responsabilidade perante os maiores problemas económicos e sociais; a elevação progressiva da instrução de base; um bem-estar cada vez mais generalizado; a crescente mobilidade social e a consequente remoção das barreiras entre as classes; o interesse do homem de cultura média pelos acontecimentos diários de repercussão mundial. Além disso, o aumento da eficiência dos sistemas económicos, em cada vez maior número de países, evidencia mais ainda os desequilíbrios económicos e sociais entre o sector agrícola, por um lado, e o sector da indústria e dos serviços de utilidade geral, por outro; entre zonas economicamente desenvolvidas e zonas menos desenvolvidas no interior de cada país; e no plano internacional, são mais melindrosos ainda os desequilíbrios económicos e sociais entre países economicamente desenvolvidos e países economicamente em vias de desenvolvimento.

49. No campo político: em muitos países, a participação na vida pública de um número cada vez maior de cidadãos de diversas condições sociais; a difusão e a penetração da actividade dos poderes públicos no campo económico e social. Acresce, além disso, no plano internacional, o declínio dos regimes coloniais e a conquista da independência política conseguida pelos povos da Ásia e da África; a multiplicação e a complexidade das relações entre os povos e o aumento da sua interdependência; a criação e o desenvolvimento de uma rede cada vez mais apertada de organismos de projecção mundial, com tendência a inspirar-se em critérios supranacionais: organismos de finalidades económicas, sociais, culturais e políticas.

Temas da nova encíclica

50. Nós sentimo-nos no dever de conservar viva a chama acesa pelos nossos grandes predecessores e de exortar a todos a que nela busquem incentivo e luz para resolverem a questão social da maneira mais adequada aos nossos tempos. Por este motivo, comemorando de forma solene a encíclica leonina, comprazemo-nos em aproveitar a ocasião para repetir e precisar pontos de doutrina já expostos pelos nossos predecessores, e ao mesmo tempo fazer uma exposição desenvolvida do pensamento da Igreja, relativo aos novos e mais importantes problemas do momento.

SEGUNDA PARTE

ACLARAÇÕES E AMPLIAÇÕES DOS ENSINAMENTOS DA RERUM NOVARUM

Iniciativa pessoal e intervenção dos poderes públicos em matéria económica

51. Devemos armar desde já que o mundo económico é criação da iniciativa pessoal dos cidadãos, quer desenvolvam a sua atividade individualmente, quer façam parte de alguma associação destinada a promover interesses comuns.

52. Mas nele, pelas razões já aduzidas pelos nossos predecessores, devem intervir também os poderes públicos com o fim de promoverem devidamente o acréscimo de produção para o progresso social e em beneficio de todos os cidadãos.

53. A acção desses poderes, que deve ter carácter de orientação, de estímulo, de coordenação, de suplência e de integração, há de inspirar-se no "princípio de subsidiariedade", [20] formulado por Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno: "Deve contudo manter-se arme o princípio importantíssimo em filosofia social: do mesmo modo que não é lícito tirar aos indivíduos, a fim de o transferir para a comunidade, aquilo que eles podem realizar com as forças e a indústria que possuem, é também injusto entregar a uma sociedade maior e mais alta o que pode ser feito por comunidades menores e inferiores. Isto seria, ao mesmo tempo, grave dano e perturbação da justa ordem da sociedade; porque o objeto natural de qualquer intervenção da mesma sociedade é ajudar de maneira supletiva os membros do corpo social, e não destruí-los e absorvê-los". [21]

54. É verdade que hoje os progressos dos conhecimentos científicos e das técnicas de produção oferecem aos poderes públicos maiores possibilidades concretas de reduzir os desequilíbrios entre os diferentes factores produtivos, entre as várias zonas no interior dos países e entre as diversas nações no plano mundial. Permitem, além disso, limitar as oscilações nas alternativas das situações económicas e enfrentar com esperança de resultados positivos os fenómenos do desemprego das massas. Por conseguinte, os poderes públicos, responsáveis pelo bem comum, não podem deixar de sentir-se obrigados a exercer no campo económico uma acção multiforme, mais vasta e mais orgânica; como também a adaptar-se, para este fim, às estruturas e competências, nos meios e nos métodos.

55. Mas é preciso reafirmar sempre o princípio que a presença do Estado no campo económico, por mais ampla e penetrante que seja, não pode ter como meta reduzir cada vez mais a esfera da liberdade na iniciativa pessoal dos cidadãos; mas, deve, pelo contrário, garantir a essa esfera a maior amplidão possível, protegendo efectivamente, em favor de todos e de cada um, os direitos essenciais da pessoa humana. Entre estes há-de enumerar-se o direito, que todos têm, de serem e permanecerem normalmente os primeiros responsáveis pela manutenção própria e da família; ora, isso implica que, nos sistemas económicos, se consinta e facilite o livre exercício das actividades produtivas.

56. Aliás, até a evolução histórica põe em evidência cada vez maior o facto de se não poder conseguir uma convivência ordenada e fecunda sem a colaboração, no campo económico, ao mesmo tempo dos cidadãos e dos poderes públicos; colaboração simultânea realizada harmonicamente, em proporções correspondentes às exigências do bem comum no meio das situações variáveis e das vicissitudes humanas.

57. De facto, a experiência ensina que, onde falta a iniciativa pessoal dos indivíduos, domina a tirania política; e há ao mesmo tempo estagnação nos sectores económicos, destinados a produzir sobretudo a gama indefinida dos bens de consumo e de serviços que se relacionam não só com as necessidades materiais mas também com as exigências do espírito: bens e serviços que exigem, de modo especial, o génio criador dos indivíduos.

58. Onde, por outro lado, falta ou é defeituosa a necessária actuação do Estado, há desordem insanável; e os fracos são explorados pelos fortes menos escrupulosos, que medram por toda a parte e em todo o tempo, como a cizânia no meio do trigo.

A SOCIALIZAÇÃO

Origens e extensão do fenómeno

59. A socialização é um dos aspectos característicos da nossa época. Consiste na multiplicação progressiva das relações dentro da convivência social, e comporta a associação de várias formas de vida e de atividade, e a criação de instituições jurídicas. O facto deve-se a multíplices causas históricas, como aos progressos científicos e técnicos, à maior eficiência produtiva e ao aumento do nível de vida.

60. A socialização é simultaneamente efeito e causa de uma crescente intervenção dos poderes públicos, mesmo nos domínios mais delicados, como os da saúde, da instrução e educação das novas gerações, da orientação profissional, dos métodos de recuperação e readaptação dos indivíduos de algum modo menos dotados. Mas é também fruto e expressão de uma tendência natural, quase irreprimível, dos seres humanos: tendência a associarem-se para fins que ultrapassam as capacidades e os meios de que podem dispor os indivíduos em particular. Esta tendência deu origem, sobretudo nestes últimos decénios, a grande variedade de grupos, movimentos, associações e instituições, com finalidades económicas, culturais, sociais, desportivas, recreativas, profissionais e políticas, tanto nos diversos países como no plano mundial.

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Notas:
[11] Cf. AAS, 23 (1931), p. 211.
[12] Cf. AAS, 33(1941), p.196.
[13] Cf. ibid. p.197.
[14] Cf.  ibid. p.196.
[15] Cf. ibid. p.198s.
[16] Cf. ibid. p.199.
[17] Cf. ibid. p. 201.
[18] Cf. ibid. p. 202.
[19] Cf. ibid. p. 203.
[20] Cf. AAS, 23(1931), p. 203.
[21] Cf. ibid. p. 203.