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26/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 14, 27-31

27 «Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe o vosso coração, nem se assuste. 28 Ouvistes que Eu vos disse: Vou e voltarei a vós. Se vós Me amásseis, certamente vos alegraríeis de Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29 Eu vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis. 30 Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo. Ele não pode nada contra Mim, 31 mas é preciso que o mundo conheça que amo o Pai e que faço como Ele Me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui.

Comentário:

Jesus Cristo frisa muitas vezes a razão pela qual revela aos discípulos certas coisas que acontecerão no futuro:

«disse-vo-lo agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis».

Ninguém pode dizer tal coisa a não ser o próprio Deus que é o Senhor do passado, do presente e do futuro.

Noutro local já se abordou a questão dos que procuram “adivinhos” ou “pessoas de virtude” numa vã tentativa de saber o que se irá passar num futuro próximo ou longínquo.

Que fique claro:

A Igreja proíbe essas práticas que além de inúteis são um desrespeito grave para com Deus.


(ama, comentário sobre Jo 14, 27-31, 2015.05.05)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

CAPÍTULO XIV

A profundidade das Escrituras

Admirável profundidade das tuas palavras! A sua aparência nos acaricia, como se acariciam as crianças! Sim, admirável profundidade, meu Deus, admirável profundidade! O meditá-las causa um arrepio sagrado, tremor de respeito, estremecimento de amor. Odeio com veemência os seus inimigos. Oh! Se pudesses fazê-los morrer sob o teu gládio de dois gumes, para que não tivessem mais inimigos! Desejaria que eles morressem para si mesmos, e que vivessem só para ti.

Mas há outros que não censuram mas, pelo contrário, exaltam o livro do Génesis, e que dizem: “Não é isto que quis dizer com essas palavras o Espírito de Deus, que as inspirou a teu servo Moisés. Não, o que ele quis dizer não é o que dizes, mas o que nós dizemos” – Eis, ó Deus de todos nós, o que eu lhes respondo: sê nosso árbitro.

CAPÍTULO XV

O que dizem os teus inimigos

Ousareis apontar como falso o que, com voz clara, a Verdade disse ao ouvido da minha alma sobre a verdadeira eternidade do Criador: ou seja, que a sua substância não varia no tempo, e que a sua vontade se confunde com a sua substância? E que por isso ele não quer ora isto, ora aquilo, mas quer o que sempre quis, simultaneamente e para sempre. A sua vontade não se exerce repetidas vezes, não se propõe ora esta, ora aquela finalidade, não quer o que antes não queria, nem deixa de querer o que antes queria, uma vez que tal vontade seria mutável, e o que é mutável não é eterno; ora, o nosso Deus é eterno.

Tereis por falazes as palavras da Verdade faladas ao ouvido da minha alma: que a espera das coisas futuras se torna contemplação, quando presentes, e que depois se transforma em memória, quando passadas? Que todo o pensamento que varia assim é mutável, e que nada do que é mutável é eterno? Ora, o nosso Deus é eterno. E, reunindo e condensando estas verdades, deduzo que o meu Deus, o Deus eterno, não criou o mundo por um novo acto de volição, e que a sua ciência não admite nada que seja transitório.

Que respondeis, então, meus contraditores? Será isso falso? – Não, dizem eles. – Mas então? Será que erro afirmar que toda a criatura que tem forma, que toda a matéria susceptível de a ter recebe o seu ser somente daquele que é Bondade soberana, porque ele é Ente supremo? – Também não o negamos. – Então, que negais? Negais talvez que haja uma criatura sublime, unida por um casto amor ao Deus verdadeiro e eterno, sem lhe ser co-eterna, que dele não se separa nem se desvia para as várias vicissitudes do tempo, mas, pelo contrário, repousa apenas na sua contemplação? Com efeito, ama-te tanto quanto pedes, ó Deus, e mostras-lhe a tua face e a sacias, e ela jamais se afasta de ti, nem ruma a si mesma. Ela é a morada de Deus, não terrena, e nem formada de substância do céu material, habitáculo espiritual que participa da tua eternidade, imaculada por toda a eternidade. Tu a fundaste pelos séculos dos séculos; estabeleceste uma ordem, que não passará jamais. Contudo, essa lei não é co-eterna, porque teve princípio, foi criada.

Não encontramos o tempo antes dessa criação, porque a sabedoria foi a primeira de todas as tuas criações. E é claro que não me refiro à Sabedoria da qual és Pai, ó nosso Deus, e que te é perfeitamente igual e co-eterna, por quem todas as coisas foram criadas, e que é o princípio em que criaste o céu e a terra; refiro-me à sabedoria criada, dessa essência intelectual que, pela contemplação da luz, também é luz; a esta, embora criada, também a chamamos sabedoria. E assim como a luz que ilumina difere da luz reflectida, a sabedoria criada difere da sabedoria incriada; e a justiça justificante difere da justiça nascida da justificação. Nós fomos também chamados pela tua justiça. Porque um dos teus servos disse: “Para que, em Cristo, nos tornemos a justiça de Deus”. – Há portanto, uma sabedoria criada antes de todas as coisas, e ela foi criada como espírito racional e inteligente, que habita a tua cidade santa, nossa mãe, que está no alto, livre e eterna nos céus – e em que céus, senão aos céus dos céus, que te louvam, esse céu que pertence ao Senhor? – Se não encontramos o tempo antes dessa sabedoria, é porque ela precede a criação do tempo, tendo sido criada primeiro, mas antes dela há a eternidade do seu Criador, de quem recebeu a sua origem, e não do tempo, pois este ainda não existia, mas pela sua condição de criatura criada.

Ela procede pois, de ti, nosso Deus, embora seja de essência absolutamente diversa da tua. Não encontramos nenhum tempo, não apenas antes dela, mas nela própria, porque ela é capaz de contemplar sempre a tua face sem jamais se apartar de ti, sendo incólume às mudanças e às variações. Contudo, há nela certa mutabilidade que poderia torná-la tenebrosa e gélida, não fosse o grande amor que a une a ti e que brilha como meridiana luz e calor.

Ó morada luminosa e pura! Amei a tua beleza e o lugar onde mora a glória do meu Senhor, teu criador e possuidor. Por ti eu suspiro durante o meu exílio! Peço àquele que te criou que me possua também em ti, pois também me criou. Errei como ovelha desgarrada, mas espero ser reconduzido a ti nos ombros do meu pastor, teu arquitecto.

Que me respondeis a isto, meus contraditores, vós que, também considerais Moisés um servo piedoso de Deus, e os seus livros como oráculos do Espírito Santo? Não será esta a casa de Deus que, sem lhe ser co-eterna, é contudo, á sua maneira, eterna nos céus? Em vão buscais aí as vicissitudes do tempo, pois não as encontrareis, uma vez que ela transcende toda extensão, toda volubilidade do tempo, e a sua felicidade é estar intimamente unida a Deus para sempre.

– Assim é – dizem eles.

Mas então, qual das verdades que o meu coração proclamou diante de Deus, quando escutava no meu íntimo a voz que canta só glória, podeis apontar como falsa? O que disse sobre matéria informe, na qual não podia haver ordem por carecer de forma? Mas onde não havia ordem não podia haver vicissitude de tempo; mas esse quase nada, enquanto não era o nada absoluto, provinha certamente daquele de onde nasce tudo o que, de algum modo, existe.

– Tampouco negamos isto – dizem eles.

CAPÍTULO XVI

Outros adversários das Escrituras

Quero discutir diante de ti apenas com os que reconhecem como verdadeiras as afirmações que a tua verdade revelou à minha inteligência. Os que o negam, que ladrem quanto quiserem, até ficar roucos. Tentarei persuadi-los a que se acalmem, e deem acesso nos seus corações à tua palavra. Se não o quiserem e me repelirem, peço-te, meu Deus, que não te cales, não te afastes de mim. Fala com verdade no meu coração, porque só tu podes falar assim. E eu os deixarei fora, soprando o pó e levantando terra contra os próprios olhos. Retirar-me-ei em mim mesmo, levantando-te cânticos de amor, soluçando altos gemidos durante o meu exílio, lembrando-me de Jerusalém, voltando para ela o meu coração – Jerusalém, minha pátria e minha mãe – e para ti, que reinas sobre ela, seu pai, sua luz, seu tutor, seu esposo, suas castas e grandes delícias, sua firme alegria, enfim, todos seus bens inefáveis, porque és o único, soberano e verdadeiro Bem. Não me apartarei de ti até que reúnas todas as partes dispersas e deformadas do meu ser na paz dessa mãe muito amada, onde estão as primícias do meu espírito, e de onde me vêm todas as certezas, e nela me reformes e confirmes por toda a eternidade, ó meu Deus, minha misericórdia.

Àqueles que, sem negar essas verdades, respeitando a tua Escritura Sagrada, obra do piedoso Moisés, e reconhecendo nela, connosco, a mais alta autoridade a seguir, e contudo nos opõem salguma objecções, dirijo estas palavras: “Tu, que és nosso Deus, serás árbitro entre as minhas confissões e suas objecções”.

CAPÍTULO XVII

Opiniões diversas sobre o céu e a terra

Eles dizem: “Sem dúvida, isso é verdade, mas não era isso que Moisés queria exprimir quando, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu: “No princípio criou Deus e céu e a terra” – Pela palavra céu, não quis significar essa criatura espiritual ou intelectual, que contempla eternamente a face de Deus; e pela palavra terra, uma matéria informe.

 – Que quis dizer então? –

O que nós afirmamos – respondem – isso é o que Moisés quis dizer, e o que expressou naquelas palavras. – E que é que afirmais? – Pelas palavras céu e terra quis significar, em primeiro lugar, globalmente e de forma concisa, todo o mundo visível, para em seguida pormenorizar, enumerando os dias, ponto por ponto, esse conjunto que aprouve ao Espírito Santo designar com uma expressão global. O povo rude e carnal ao qual falava era constituído de homens tais que julgou conveniente dar-lhes a conhecer apenas as obras visíveis de Deus”.

Quanto a esta terra invisível e informe, a este abismo de trevas, com que, durante seis dias, foram sucessivamente criadas e ordenadas todas as coisas visíveis que são conhecidas de todos, eles concordam comigo em que se pode entender com isso, sem erro, essa matéria informe de que falei.

Algum outro dirá, talvez, que a realidade invisível e visível não foi chamada impropriamente céu e terra, e portanto, que o universo criado por Deus na sabedoria, isto é, no princípio, está compreendido sob esses dois termos. Porém as coisas não foram feitas da substância de Deus, mas do nada, e não se confundem com Deus, e nelas existe o princípio da mutabilidade, quer permaneçam como morada eterna de Deus, quer mudando-se como a alma e o corpo do homem.

Por isso a matéria comum a todas as coisas invisíveis e visíveis, matéria ainda informe, mas susceptível de forma, e de onde se fariam o céu e a terra – noutras palavras, a criação invisível e visível – mas uma e outra tendo recebido forma, foi designada por essas expressões de terra invisível e informe, e de trevas reinando sobre o abismo. Com a seguinte distinção: por terra invisível e informe deve-se entender a matéria corpórea antes de ser qualificada pela forma; e por trevas reinando sobre o abismo, a matéria espiritual antes da restrição da sua, digamos, imoderada fluidez, e antes de ser iluminada pela sabedoria.

Poderia alguém afirmar, se quisesse: Esses termos céu e terra não significam realidades perfeitas e acabadas, lá onde lemos: No princípio Deus criou o céu e a terra – mas um esboço ainda informe, uma matéria passível de receber forma e servir para a criação; nela já existiam, como que um embrião, sem distinção de formas e de qualidades, essas criaturas, uma espiritual, e outra material que, ordenadas como estão agora, são chamadas céu e terra.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


20/05/2014

Evangelho diário, comentário e Leitura espiritual (Meditações sobre a Ressurreição 2)

Tempo de Páscoa

V Semana 

Evangelho: Jo 14, 27-31

27 «Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe o vosso coração, nem se assuste. 28 Ouvistes que Eu vos disse: Vou e voltarei a vós. Se vós Me amásseis, certamente vos alegraríeis de Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu. 29 Eu vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis. 30 Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo. Ele não pode nada contra Mim, 31 mas é preciso que o mundo conheça que amo o Pai e que faço como Ele Me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui.

Comentário:

«O Pai é maior que Eu». Esta expressão de Jesus pode levantar uma questão: Deus não é um só?

Então como explicar?

Penso que a Pessoa do Pai reúne em Si toda a Santíssima Trindade e, por isso mesmo - e falando em termos exclusivamente humanos - o todo é maior que a unidade.

Sendo Deus um só embora constituído por três pessoas distintas na verdade não existe uma gradação de importâncias ou uma “escala de poderes”. Resulta difícil para nós compreender tal coisa por isso mesmo é um mistério.
Para melhor compreendermos talvez pudéssemos dizer: Quem nos criou foi Deus na Pessoa do Pai;

Quem nos salvou foi Deus na Pessoa do Filho; Quem nos mantém é Deus na Pessoa do Espírito Santo.

Adoramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Temos a contemplação da face do Pai - a Santíssima Trindade -, como objectivo último, mas o caminho para lá chegar é seguir Cristo guiados pelo Espírito Santo.

(ama, comentário sobre Jo 14, 27-31, 2013.04.30)


Leitura espiritual
Temas


Meditações sobre a Ressurreição


2. EMAÚS: A DECEPÇÃO E A ESPERANÇA

Dois homens tristes no entardecer

O Evangelho de São Lucas, no seu capítulo 24 (13-35), faz-nos contemplar de perto, de uma maneira muito viva, dois homens que – na tarde do próprio dia da Ressurreição de Jesus – estão voltando para casa, cabisbaixos e decepcionados: os discípulos de Emaús.

Nesse mesmo dia – diz São Lucas -, dois discípulos caminhavam para uma aldeia, chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios – cerca de doze quilómetros. Iam falando um com o outro sobre tudo o que se tinha passado. Aquilo que se tinha passado era, nada mais, nada menos, a paixão e a morte de Jesus, a “derrota” estrondosa de Cristo às mãos dos seus inimigos, enquanto as multidões, que cinco dias antes, no Domingo de Ramos, O haviam aclamado entusiasmadas, vociferavam com ódio: Crucifica-o! Crucifica-o!

Podemos imaginar, por isso, qual era o seu estado de ânimo. Perdidos, deprimidos, desnorteados, conversavam como quem não acaba de acreditar que tivesse sido possível aquele afundamento dos seus sonhos. Assim andavam quando Jesus se aproximou e caminhava com eles; mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram.

São Josemaria Escrivá oferece-nos uma descrição cálida da aparição de Jesus ressuscitado a esses discípulos: “Caminhavam aqueles dois discípulos – escreve – em direcção a Emaús. Andavam a passo normal, como tantos outros que transitavam por aquelas paragens. E ali, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e caminha com eles, numa conversa que diminui a fadiga. Imagino a cena, bem ao cair da tarde. Sopra uma brisa suave. Em redor, campos semeados de trigo já crescido, e as oliveiras velhas, com os ramos prateados à luz tíbia”. São palavras poéticas que nos ajudam a fazer meditação, sentindo-nos dentro da cena, participando dela “como mais um personagem”. i

Ouçamos, pois – enquanto os acompanhamos –, as primeiras palavras que o Senhor lhes dirige: De que vínheis falando pelo caminho, e por que estais tristes? O diálogo que se travou é digno de ser meditado. Primeiro, como pessoas frustradas, os discípulos respondem de mau humor, num tom ríspido: Um deles, chamado Cléofas, respondeu-lhe: “És tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu nestes dias?”… É como se dissesse, meio admirado e meio irritado: “Todo a gente sabe. Onde é que você vive? Só você está o ignora?”

Que ironia! Dirigem-se rudemente a Jesus, lançando-lhe em rosto a sua ignorância a respeito da tragédia… do próprio Jesus! Tudo isto chegaria a ser cómico, se não fosse dramático. Mas Nosso Senhor, como em todas as cenas da Ressurreição, mostra-se especialmente afável e bem-humorado para com eles. Ousaria dizer que é até propositadamente divertido. Fazendo-se de ingénuo, pergunta-lhes “Que foi? Que houve?…“ Assim quer ajudá-los a abrir o coração, como, aliás, Ele deseja fazer connosco sempre que nos vê desanimados ou tristes: “Eu estou aqui – diz-nos -. Fala comigo”.

E eles abriram-se mesmo. Despejaram o vinagre da sua decepção. Falaram ao caminhante desconhecido sobre um tal Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo, comentando os acontecimentos trágicos da quinta e da sexta-feira santas, e contaram-lhe como tinha acabado pregado na Cruz. Depois, confessaram a sua tremenda frustração: Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel, e agora, além de tudo isso, já é o terceiro dia que estas coisas aconteceram.

Um erro de esperança

Esse era o mal que lhes corroía a alma: Nós esperávamos. Tinham colocado toda a sua esperança no Senhor. Tinham apostado nele. Por isso o haviam seguido, por isso tinham abandonado os seus planos pessoais, o aconchego do lar, tudo, jogando a vida numa só carta: a esperança de que Jesus fosse o poderoso Rei-Messias anunciado pelos Profetas, que triunfaria sobre todos os inimigos e se assentaria no trono do Reino de Israel, restabelecendo-o para sempre. Ninguém lhes tinha contado ainda que, em plena Paixão, Jesus declarara inequivocamente a Pilatos: O meu Reino não é deste mundo…

No entanto, eles, quase com certeza, já lhe tinham ouvido dizer: O Reino de Deus está dentro de vós… E também tinham escutado muitas das parábolas do Reino, que falavam, por meio de expressivos simbolismos, não de um reino terreno, político, mas de um Reino de graça, de paz e de amor que cresce dentro dos corações, nas famílias, nas sociedades, como o trigo que germina de noite e de dia; como o grão de mostarda que é pequenino e se torna árvore alta; como o fermento invisível que a mulher põe na massa de farinha e acaba fermentando-a toda… Ou como um Pai que perdoa o filho fugitivo, e um Pastor que procura a ovelha perdida e que é, ao mesmo tempo, o Rei-Deus que nos convida a participar do seu banquete de amor eterno…

Poderíamos definir com exactidão o engano dos discípulos de Emaús – igual ao de muitos actuais discípulos de Cristo – como um grande “erro de esperança”. Aí esteve a sua falha. Tinham esperança, sim, mas era uma “esperança equivocada”, não era a virtude cristã da esperança. Em consequência, estavam irremediavelmente fadados à decepção e ao fracasso, como quem dispara uma flecha para o alvo errado, ou dirige um veículo fora da estrada, que, quanto mais rápido vai, mais perto está do desastre.

Assim são muitas mulheres e muitos homens de hoje. O seu mal é a visão deturpada da esperança: esperam o que não devem, e esperam mal. Os exemplos são inúmeros: falsas esperanças amorosas, falsas esperanças profissionais, falsas esperanças de glória e triunfo, falsa confiança nas riquezas…

Onde está o erro? A resposta é simples. Espera mal quem espera qualquer coisa diferente da Vontade de Deus a seu respeito, qualquer coisa – por grande e empolgante que seja – que esteja fora dos planos que Deus preparou e deseja para ele. Então, acontece a essas pessoas o que Jesus dizia aos fariseus: Frustraram o desígnio de Deus a seu respeito (Lc 10,30). A vida deles tornou-se um plano divino traído, frustrado, que Deus não pode reconhecer como seu, e tem que lhes dizer: Não vos conheço (Mt 25,12).

É importante perceber que as pessoas não ficam frustradas “principalmente” por não terem alcançado os seus desejos, os seus sonhos. Na realidade, muitas das piores frustrações são as daqueles que alcançaram mesmo esses desejos e sonhos (‘Já estou na faculdade, já tenho emprego, já me casei, já sou rico’), mas depois percebem que nada disso os preenche, não lhes traz a felicidade. Homens e mulheres ficam frustrados “principalmente” porque – sem sequer darem por isso – não atingem o ideal para o qual foram criadas por Deus, ou seja, por não terem sido fiéis à sua vocação de filhos de Deus, e por isso – desculpem a expressão rude – a vida delas, em vez de alcançar o desenvolvimento e maturidade de um filho que cresce, foi como um aborto. Fora do que Deus espera de nós, tudo é um triste aborto provocado… por nós!

Pensemos, por exemplo, nos casamentos fracassados. A maioria deles afundou-se porque marido e mulher “esperaram mal”. O que é que espera a maioria dos noivos, quando vão para o casamento? Sem dúvida, amar e ser felizes. Mas amar, como? Serem felizes, como? Muitos só pensam em “receber” do outro muito carinho, paciência, compreensão, todo o aconchego para se “sentirem bem” realizando os seus próprios gostos e caprichos, os seus prazeres, e até as suas manias. Poucos pensam em dar e dar-se generosamente para o bem do outro e dos filhos, em construir uma família com abnegação generosa e desprendimento alegre, felizes por fazerem felizes os demais. Ou seja, não pensam no verdadeiro amor, no autêntico amor-doação, no único que pode trazer a felicidade.

Por isso, quando chega a hora da verdade e aparecem as dificuldades inevitáveis – essas com as quais Deus conta para nos purificar e amadurecer –, não compreendem que essas dificuldades são apelos para se darem mais, para amarem mais, para dialogarem mais, e não para irritações, más caras, resmungos e gritos; que é a hora da compreensão, e não a da imposição; que é a hora de escutar com humildade, e não de “ter razão”…. Infelizmente, não entendem nada disso. E, então, tudo vai por “água abaixo”. Não foram ao casamento preparados para o verdadeiro amor, mas para “consumir” satisfações (como “consomem” os outros prazeres da vida). É natural que acabem dizendo, como os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos outra coisa”…

É preciso abrir os olhos da alma, com a ajuda de Deus, e compreender que a vida não é uma laranja para chupar e cuspir, que os outros não são cana-de-açúcar para tirar o caldo e jogar fora o bagaço, que Deus não é um “seguro protector de egoísmos”, e que os outros não são “bens desfrutáveis”. Viver e ser feliz é coisa infinitamente maior do que “usufruir”!

A virtude da esperança

Qual é, então, a verdadeira esperança cristã? É a confiança firme, nascida da fé viva que nos diz que viveremos envoltos no amor de Deus aqui na terra – em todas as circunstâncias e vicissitudes de cada dia – e, depois, eternamente no Céu. Tudo o que conduz a isso é bom. Tudo o que afasta disso é mau. Tudo o que conduz a isso acaba em felicidade – já aqui na terra -, e tudo o que afasta disso acaba em tristeza, e até – Deus não o permita – pode acabar em tormento eterno.

É muito claro o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre a esperança: “A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não nas nossas próprias forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo… A virtude da esperança responde à aspiração de felicidade colocada por Deus no coração de todos os homens; assume as esperanças que inspiram as actividades dos homens; purifica-as para ordená-las ao Reino dos Céus; protege contra o desânimo; dá alento em todo o esmorecimento; dilata o coração na expectativa da bem-aventurança eterna. O impulso da esperança preserva do egoísmo e conduz à felicidade do amor” (nn. 1817 e 1818). São textos preciosos, que daria para meditar durante horas.

A grande lição dos discípulos de Emaús

Voltando à cena dos discípulos de Emaús, vale a pena prestar atenção ao que Cristo lhes disse, quando terminaram o seu desabafo de desiludidos. Nosso Senhor começou a falar-lhes de modo claro, incisivo, sem rebuços, com palavras que tiveram o efeito de lancetar-lhes o tumor de cepticismo que lhes corroía o coração: Ó gente insensata e lenta de coração para acreditar em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que o Cristo sofresse estas coisas e assim entrasse na Sua glória?” E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras”, ou seja, as inúmeras profecias que falavam da Sua Paixão. Jesus desvendou-lhes, assim, com um jacto de luz divina, o plano da Trindade para a salvação do mundo, uma salvação que havia de ser realizada pelo máximo acto de Amor imaginável: a entrega do Filho de Deus na Cruz para a redenção dos nossos pecados.

Foi na Cruz, com efeito, onde o Filho de Deus – Deus feito Homem, encarnado por nós – atingiu o limite máximo do Amor, e com esse amor ilimitado, envolveu, compensou, purificou e superou todos os nossos desamores, todos os nossos pecados. Como fruto deste Seu sacrifício, derramou sobre nós a graça do Espírito Santo – o fogo do Amor divino em pessoa –, e abriu-nos de par em par  as portas do Céu.

Quer dizer que o que Cléofas e o companheiro lamentavam como uma desgraça (a paixão e morte de Cristo), foi, na realidade, a maior maravilha de toda a história da humanidade, o maior bem do mundo, o maior motivo de alegria de todos os séculos! Insensatos! disse-lhes Jesus. Sim, insensatos os que não veem isso e vão atrás de sombras e aparências falsas!

Enquanto Jesus ia falando pelo caminho, os corações dos dois caminhantes foram mudando. Um calor novo os invadiu, uma faísca de esperança se acendeu neles. Aproximaram-se da aldeia para onde iam, e Jesus fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-no a parar: “Fica connosco, já é tarde e o dia declina”.

É uma bela oração para nós fazermos, quando começarmos a sentir a proximidade de Jesus: “Fica connosco! Não nos deixes, queremos estar contigo, queremos ter-te como amigo, queremos abrir-te a alma. Fica!” E, além do mais, bem que percebemos que já se nos faz tarde, que a vida passa, que a vida acaba, sim, já é tarde e o dia declina. Olha, Senhor, que gastamos boa parte deste “dia”, que é a vida, entre falsas esperanças e verdadeiras frustrações. Precisamos de Ti. Por favor, fica, que só em Ti se acha a esperança…

Com Cristo, o coração arde

Então – continua a contar São Lucas –, entrou com eles, e aconteceu que, estando sentados à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho. Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram…, mas ele desapareceu. Diziam então um ao outro: “Não é verdade que o nosso coração ardia dentro de nós enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”

Tudo, nessa belíssima cena dos discípulos de Emaús, é espelho e modelo para nós. Bem dizia São Josemaría Escrivá: “Caminho de Emaús, caminho da vida”… Quando nos entristecer a falta de sentido de tantas coisas, e sobretudo, quando nos acabrunharem as decepções que parecem amontoar-se e afogar a esperança, façamos como os discípulos de Emaús:

Primeiro, abramos a alma a Deus (às vezes, a melhor maneira de abri-la é fazer uma confissão muito sincera).

Depois, escutemos as suas palavras, meditemos a Sagrada Escritura – especialmente os Evangelhos – com calma, com carinho, deixando que as Palavras de Deus penetrem na alma como a chuva na terra. Elas nos mostrarão que o que nos parece ruim muitas vezes é bom, que a Cruz – que julgamos ser uma porta que se nos fecha e nos deixa num beco sem saída – na realidade é uma porta que se abre, para que entremos num mundo melhor, de mais amor, de mais bondade, de mais pureza, de mais virtude.

Em terceiro lugar, acolhamos Jesus em casa, na casa da nossa alma, recebendo-o sempre dignamente na Eucaristia, na Comunhão, que é a união com Deus mais íntima que a criatura humana pode ter nesta terra: Jesus em nós, Jesus nosso alimento, Jesus sangue do nosso sangue e vida da nossa vida!

E por fim, a alegria. O coração desanimado, que estiolava e murchava, agora arde dentro de nós, e inflama-nos com uma nova esperança. Vemos um novo sentido para a vida, iluminada pela fé e o amor de Cristo, e temos necessidade de correr ao encontro dos outros, para contagiá-los com a nossa esperança, como fizeram os discípulos de Emaús depois que Jesus os deixou.

Lição de fé, lição de amor, lição de esperança. Vêm a calhar palavras com que São Josemaria começava uma homilia sobre a esperança: “Há já bastantes anos, com a força de uma convicção que crescia de dia para dia, escrevi: Espera tudo de Jesus; tu nada tens, nada vales, nada podes. Ele agirá, se nele te abandonares. Passou o tempo, e essa minha convicção tornou-se ainda mais vigorosa, mais funda. Tenho visto, em muitas vidas, que a esperança em Deus acende maravilhosas fogueiras de amor, com um fogo que mantém palpitante o coração, sem desânimos, sem decaimentos, embora ao longo do caminho se sofra, e às vezes se sofra deveras” ii

Isto foi o que aconteceu com os discípulos de Emaús. Com o coração inflamado pela esperança, desfizeram o caminho dos desertores, voltaram a reunir-se com os Apóstolos e as santas mulheres no Cenáculo e participaram da alegria que – no meio ainda de sombras e hesitações – começava a alastrar entre eles e que anunciava, mesmo que muitos ainda não o percebessem plenamente e estivessem ainda atingidos pelo temor, um futuro de esperança pelos séculos dos séculos, até ao fim do mundo: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente!…” Esta é a grande verdade! A esperança cristã acabava de nascer com a ressurreição de Cristo, e já não morreria nunca mais.

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Notas:
i São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 313
i] Amigos de Deus, n. 205