19/01/2021

São José

 


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA

REDEMPTORIS CUSTOS

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

SOBRE A FIGURA E A MISSÃO

DE SÃO JOSÉ

NA VIDA DE CRISTO E DA IGREJA

 

INTRODUÇÃO

 

1. Chamado a proteger o Redentor, «José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24).

Inspirando-se no Evangelho, os Padres da Igreja, desde os primeiros séculos, puseram em relevo que São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, (1) assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo.

No centenário da publicação da Carta Encíclica Quamquam pluries do Papa Leão XIII (2) e na esteira da plurissecular veneração para com São José, desejo apresentar à vossa consideração, amados Irmãos e Irmãs, algumas reflexões sobre aquele a quem Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos». (3) É para mim uma alegria cumprir este dever pastoral, no intuito de que cresça em todos a devoção ao Patrono da Igreja universal e o amor ao Redentor, que ele serviu de maneira exemplar.

Desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a São José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também terá sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de «participar» na economia da salvação. (4) Tenho para mim, efectivamente, que o facto de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no mistério divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste desígnio redentor, que tem o seu fundamento no mistério da Incarnação.

Foi precisamente neste mistério que José de Nazaré «participou» como nenhuma outra pessoa humana, à excepção de Maria, a Mãe do Verbo Incarnado. Ele participou em tal mistério simultaneamente com Maria, envolvido na realidade do mesmo evento salvífico, e foi depositário do mesmo amor, em virtude do qual o eterno Pai «nos predestinou a sermos adoptados como filhos, por intermédio de Jesus Cristo» (Ef 1, 5).

 

JOÃO PAULO II

 

Notas


(1) Cf. S. Ireneu, Adversus Haereses, IV, 23, 1: S. Ch. 100/72, pp. 692-694.

(2) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): Leonis XIII P. M. Acta, IX (1890), pp. 175-182.

(3) Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): Pii IX P. M. Acta, pars I, Vol. V, p. 282; Pio IX, Carta Apost. Inclytum Partiarcham (7 de Julho de 1871), l.c., pp. 331-335.

(4) Cf. S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58. Os Doutores da Igreja e os Sumos Pontífices, também baseando-se na identidade do nome, indicaram em José do Egipto o protótipo de José de Nazaré, na medida em que se teriam esboçado no primeiro as funções e a grandeza do segundo, de ser guardião dos mais preciosos tesouros de Deus Pai, o Verbo Incarnado e a sua Santíssima Mãe: cf., por exemplo, S. Bernardo, Super missus est, Hom. II, 16: S. Bernardi Opera, Ed. Cist., IV, 33-34; Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 179.

 

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Cristo também vive agora

Vive junto de Cristo! Deves ser, no Evangelho, uma personagem mais, convivendo com Pedro, com João, com André..., porque Cristo também vive agora: "Iesus Christus, heri et hodie, ipse et in saecula!" Jesus Cristo vive!, hoje como ontem; é o mesmo, pelos séculos dos séculos. (Forja, 8)

É esse amor de Cristo que cada um de nós deve se esforçar por realizar na sua vida. Mas para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz. Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os actos do Senhor. Sentir-nos-emos assim metidos na sua vida. Na verdade, não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aqueles episódios; temos de meter-nos em cheio neles, como actores. (Cristo que passa, 107)

 

LEITURA ESPIRITUAL Janeiro 19

 

Evangelho

 

Mt XXVII 3 - 25

 

Fim de Judas

3 Então Judas, o traidor, vendo que Jesus fora condenado, tocado pelo remorso, tornou a levar as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, 4 dizendo: «Pequei, entregando sangue inocente». Mas eles disseram: «Que nos importa? Isso é contigo!». 5 Então, tendo atirado as moedas de prata para o templo, retirou-se e foi-se enforcar. 6 Os príncipes dos sacerdotes, tomando as moedas de prata, disseram: «Não é lícito deitá-las na arca das esmolas, porque são preço de sangue». 7 E, tendo consultado entre si, compraram com elas o Campo do Oleiro para sepultura dos estrangeiros. 8 Por esta razão aquele campo foi chamado até ao dia de hoje “campo de sangue”. 9 Então se cumpriu o que foi anunciado pelo profeta Jeremias: “Tomaram as trinta moedas de prata, custo d'Aquele cujo preço foi avaliado pelos filhos de Israel, 10 e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me ordenou”.

 

Jesus diante de Pilatos

11 Jesus foi apresentado diante do governador, que O interrogou, dizendo: «És Tu o Rei dos Judeus?». Jesus respondeu-lhe: «Tu o dizes». 12 Mas, sendo acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. 13 Então Pilatos disse-Lhe: «Não ouves de quantas coisas Te acusam?». 14 E não lhe respondeu a palavra alguma, de modo que o governador ficou muito admirado. 15 O governador costumava, por ocasião da festa da Páscoa, soltar aquele preso que o povo quisesse. 16 Naquela ocasião tinha ele um preso famoso, que se chamava Barrabás. 17 Estando eles reunidos, perguntou-lhes Pilatos: «Qual quereis vós que eu vos solte? Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo?». 18 Porque sabia que O tinham entregado por inveja. 19 Enquanto ele estava sentado no tribunal, sua mulher mandou-lhe dizer: «Não te metas com esse justo, porque fui hoje muito atormentada em sonhos por causa d'Ele». 20 Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse Barrabás e que fizesse morrer Jesus. 21 O governador, tomando a palavra, disse-lhes: «Qual dos dois quereis que vos solte?». Eles responderam: «Barrabás!». 22 Pilatos disse-lhes: «Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?». 23 Disseram todos: «Seja crucificado!». O governador disse-lhes: «Mas que mal fez Ele?». Eles, porém, gritavam mais alto: «Seja crucificado!». 24 Pilatos, vendo que nada conseguia, mas que cada vez o tumulto era maior, tomando água, lavou as mãos diante do povo, dizendo: «Eu sou inocente do sangue deste justo; a vós pertence toda a responsabilidade!». 25 Todo o povo respondeu: «O Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».

 


Pecado e arrependimento

 

  O prevaricador, aquele que comete o pecado, ofende tanto mais violentamente a Deus quanto mais grave o pecado for, mas, o ofendido, Deus, não guarda num arquivo essas violências, antes espera que o arrependimento traga o prevaricador ao encontro do perdão que anseia conceder-lhe.

  Neste caso, de facto, quem sofre mais é o pecador porque, com o seu acto, se afasta voluntariamente de Deus que é a fonte de todo o bem, e, este afastamento, provoca realmente uma dor insuportável que, constantemente, vem à tona da consciência até que se tome a resolução de arrependimento e se consuma esse mesmo arrependimento na Confissão Sa cramental.

 O ofendido, Deus, não fica com “marca” nenhuma, nem poderia porque é Perfeito; o ofensor sim, fica com uma marca que o pecado deixa sempre e, mesmo depois de perdoado, permanece o sinal que, por leve que seja, só se apagará com o exercício de boas obras que contrariem, compensem de certo modo, o mal praticado.

  Por isso, podemos concluir que o arrependimento é um dos mais belos sentimentos do homem e que não só o beneficia e dignifica a ele próprio como a própria sociedade em geral.

 Só é possível o arrependimento a uma pessoa com um carácter bem formado que, em primeiro lugar, lhe permita aperceber-se do mal praticado e, depois, lhe faça ver com clareza a necessidade de se arrepender para, digamos assim, repor tudo no seu lugar.

  Para o cristão é muito confortável a certeza de que Deus não quer a condenação de ninguém, por mais grave que seja o delito que possa ter cometido, mas sim que se arrependa e retome o Seu convívio.

E, o interessante, é que quando isto acontece é como se um peso enorme seja removido dos ombros do pecador e sinta como que uma compensação da falta cometida.

  Na realidade tal justifica-se porque: «Digo-vos que, do mesmo modo, haverá maior alegria no céu por um pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência». [1]

  É da condição humana falhar, cair, deslizar para o mal, ou algo menos bom, e, isto, por vezes assume um verdadeiro hábito por que se repete vezes sem conta ao longo da vida.

Pode ocorrer, então, um sentimento de quase fatalismo, de impotência e, pior ainda, a vergonha de ter de confessar sempre a mesma falta.

Pode andar-se assim muito tempo, muitos anos, talvez a vida inteira.

Aqui joga um papel fundamental o desejo de melhoria, de correcção de endireitar o que está enviesado e, sobretudo, de reconhecer a própria debilidade e fraqueza.

  Começar e recomeçar com a mesma diligência e sem nunca esmorecer, considerando que o mérito reside muito mais na luta que na conquista da vitória final.

  De facto, a vitória, já está presente nessa luta perseverante, continuada, por melhorar em algo que não está tão bem como deveria estar.

  Mas reconhecer o erro, por si próprio, ou porque a tal é induzido por outros, é uma atitude muito meritória e, normalmente conduz a evitar cometer esse mesmo erro, não basta para que tudo fique resolvido e, sobretudo para sossegar concretamente a consciência.

  Recordemos a reacção às palavras de Jesus na cena evangélica da mulher adúltera: «Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra» o que acontece? «Mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos». [2]

  É interessante que o Evangelista se refira expressamente a «começando pelos mais velhos», o que, no nosso entender, quererá significar uma consciência mais apurada pelas experiências de vida de cada um, ou seja, as pessoas de idade mais madura apreendem com mais facilidade o que as palavras de Cristo querem dizer.

Mas, de facto, embora se retirem, desistindo do propósito que ali os levara, a lapidação da adúltera, porque reconhecem a sua incapacidade moral para levar a cabo algo tão radical, embora prescrito na Lei judaica, deixam, por assim dizer, incompleta a justiça para com a mulher já que não consta que algum deles se lhe tenha dirigido com uma palavra de perdão.

Talvez, por isso mesmo, Jesus que não era testemunha, em termos formais, do adultério tenha dito á mulher: «Nem Eu te condeno», acrescentando «vai e doravante não peques mais» ou seja, ‘não intervenho na administração da justiça humana mas, com o poder divino que tenho, perdoo-te o pecado que cometes-te contra Deus.’

  Talvez que a leitura atenta deste trecho do Evangelho de São João nos a considerar:   ‘Que escreves, Tu Senhor, no chão? Os meus pecados, faltas e fraquezas? Mas, eu, Senhor, não quero acusar ninguém de nada e, muito menos, atirar alguma pedra! Eu! Como poderia? Então eu não sei o que sou? E não sei, muito bem, que se ninguém me acusa é apenas por caridade ou por desconhecimento das maldades que pratiquei e pratico.

Tudo foi perdoado, sem dúvida, e, não falo ou penso nisso, mas a Tua misericórdia que me mandou em paz depois de aceite o meu arrependimento, não cessa de me surpreender com o perdão e o esquecimento das faltas confessadas.

  Que escreves no chão, Senhor?

Será: «Não julgues para não seres julgado, não condenes para não seres condenado, não te consideres impecável porque não o és» [3]

  Este importantíssimo tema é, talvez hoje mais que nunca, alvo de grande controvérsia e discussão:

 

 



[1] Cfr. Lc 15, 7

[2] Cfr. Jo 8,1-11

[3] Cfr. Mt 7

Reflexão

Que deixaste, Pedro? Uma embarcaçãozita e uma rede. Ele, todavia, poderia responder-me: Deixei todo o mundo, já que nada guardei para Mim (…). Abandonaram tudo (…) e seguiram Aquele fez o mundo, e acreditaram nas Suas promessas.

 

(São Teófilo de Antioquia, Livro I, 2,7)


Pequena agenda do cristão

  


TeRÇa-Feira

Pequena agenda do cristão 

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


Orações sugeridas:

Salmo II

Regnum eius regnum sempiternum est et omnes reges servient et obedient. 
Quare fremerunt gentes et populi meditati sunt inania?
Astiterum reges terrae et principes convenerunt in unum adversus Dominum et adversus christum eius.
Dirumpamus vincula eorum et proiciamos a nobis iugum ipsorum.
Qui habitabit in caelis, irridebit eos, Dominus subsanabit eos.
Ego autem constitui regem meum super sion montem sanctum meum.
Praedicabo decretum eius Dominus dixit ad me: filius meus es tu; ego hodie genui te.
Postula a me, et dabo tibi gentes hereditatem tuam et possessionem tuam terminos terrae.
Reges eos in virga ferrea et tamquam vas figuli confringes eos.
Et nunc, reges, intelegite, erudimini, qui indicatis terram.
Servite Domino in timore et exultate ei cum tremore.
Apprehendite disciplinam ne quando irascatur et pereatis via, cum exarcerit in brevi ira eius.
Beati omnes qui confident in eo.
Gloria Patri...
Regnum eius regnum sempiternum est et omnes reges servient et obedient.
Oremus:
Omnipotens et sempiterne Deus qui in dilecto Filio Tuo universorum rege omnia instaurare voluisti concede propitius ut cunctae familiae gentium pecati vulnere disgregatae eius suavissimo subdantur imperio: Qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus, per omnia saecula saeculorum.

Exame Pessoal

Sabes Senhor, qual é, talvez a minha maior fraqueza? É pensar em demasiado mim, nos meus problemas, nas minhas tristezas, naquilo que me acontece e no que gostaria me acontecesse. Nas voltas e reviravoltas que dou sobre mim mesmo, sobre a minha vida.
E os outros? Sim, os outros que rezam por mim, que se interessam por mim, que têm paciência para comigo, que me desculpam as minhas faltas e as minhas fraquezas, que estão sempre prontos a ouvir-me a atender-me, que não se importam de esperar que eu os compense pelo bem que me fazem, que não me pressionam para que pague o que me emprestam, que não me criticam nem julgam com a severidade que mereço.
Ajuda-me Senhor, a ser, pelo menos reconhecido e a devolver o bem que recebo e, além disso a não julgar, a não emitir opinião, critica ou conceito, vendo nos outros, a maior parte das vezes, os defeitos e fraquezas que eu próprio possuo.

Senhor, ajuda-me a pensar nos outros em vez de estar aqui, mergulhado nos meus problemas, girando à volta de mim mesmo, concentrado apenas no que me diz respeito. Os outros! Todos os outros. Os que conheço, de quem sou amigo ou familiar e aqueles que me são desconhecidos. São Teus filhos como eu, logo, todos são meus irmãos. Se somos irmãos somos também herdeiros, convém, portanto que me preocupe com aqueles que vão partilhar a herança comigo.

Noverim me

Oh Deus que me conheces perfeitamente tal como sou, ajuda-me a conhecer-me a mim mesmo, para que possa combater com eficácia os enormes defeitos do meu carácter, em particular...
Chamaste-me, Senhor, pelo meu nome e eu aqui estou: com as minhas misérias, as minhas debilidades, com palavras maiores que os actos, intenções mais vastas que as obras e desejos que ultrapassam a vontade.
Porque não sou nada, não valho nada, não sei nada e não posso nada, entrego-me totalmente nas Tuas mãos para que, por intercessão de minha Mãe, Maria Santíssima, de São José, meu Pai e Senhor, do Anjo da Minha Guarda e de São Josemaria, possa adquirir um espírito de luta perseverante.
   
Meu Senhor e meu Deus, tira-me tudo o que me afaste de Ti.
Meu Senhor e meu Deus, dá-me tudo o que me aproxime de Ti
Meu Senhor e meu Deus, desapega-me de mim mesmo, para que eu me dê todo a ti.
Eu sei que podeis tudo e que, para Vós, nenhum projecto é impossível.
Faz-me santo, meu Deus, ainda que seja à força.

Nada te perturbe / nada te atemorize Tudo passa / Deus não muda A paciência tudo alcança / Quem a Deus tem Nada falta / só Deus basta. (Santa Teresa de Jesus)

18/01/2021

A riqueza da fé

Não sejas pessimista. – Não sabes que tudo quanto sucede ou pode suceder é para bem? – O teu optimismo será a consequência necessária da tua fé. (Caminho, 378)

No meio das limitações inseparáveis da nossa situação presente, porque o pecado ainda habita em nós de algum modo, o cristão vê com nova clareza toda a riqueza da sua filiação divina, quando se reconhece plenamente livre porque trabalha nas coisas do seu Pai, quando a sua alegria se torna constante por nada ser capaz de lhe destruir a esperança. Pois é também nesse momento que é capaz de admirar todas as belezas e maravilhas da Terra, de apreciar toda a riqueza e toda a bondade, de amar com a inteireza e a pureza para que foi criado o coração humano. Também é nessa altura que a dor perante o pecado não degenera num gesto amargo, desesperado ou altivo porque a compunção e o conhecimento da fraqueza humana conduzem-no a identificar-se outra vez com as ânsias redentoras de Cristo e a sentir mais profundamente a solidariedade com todos os homens. É então, finalmente, que o cristão experimenta em si com segurança a força do Espírito Santo, de tal maneira que as suas quedas pessoais não o abatem; são um convite a recomeçar e a continuar a ser testemunha fiel de Cristo em todas as encruzilhadas da Terra, apesar das misérias pessoais, que nestes casos costumam ser faltas leves, que apenas turvam a alma; e, ainda que fossem graves, acudindo ao Sacramento da Penitência com compunção, volta-se à paz de Deus e a ser de novo uma boa testemunha das suas misericórdias. Tal é, em breve resumo que mal consegue traduzir em pobres palavras humanas a riqueza da fé, a vida do cristão, quando se deixa guiar pelo Espírito Santo. (Cristo que passa, 138)

 

LEITURA ESPIRITUAL Janeiro 18

 

Evangelho

 Mt XXVI 57 – 75; XXVII 1 - 2

Em casa de Caifás

57 Os que tinham prendido Jesus conduziram-no à casa do Sumo Sacerdote Caifás, onde os doutores da Lei e os anciãos do povo se tinham reunido. 58 Pedro seguiu-o de longe até ao palácio do Sumo Sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se entre os servos, para ver o desfecho de tudo aquilo. 59 Os sumos sacerdotes e todo o Conselho procuravam um depoimento falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte. 60 Mas não o encontraram, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Apresentaram-se finalmente duas, 61 que declararam: «Este homem disse: ‘Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias.’» 62 O Sumo Sacerdote ergueu-se, então, e disse-lhe: «Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra ti?» 63 Mas Jesus continuava calado. O Sumo Sacerdote disse-lhe: «Intimo-te, pelo Deus vivo, que nos digas se és o Messias, o Filho de Deus.» 64 Jesus respondeu-lhe: «Tu o disseste. E Eu digo-vos: Vereis um dia o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.» 65 Então, o Sumo Sacerdote rasgou as vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos, ainda, de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia. 66 Que vos parece?» Eles responderam: «É réu de morte.» 67 Depois cuspiam-lhe no rosto e batiam-lhe. Outros esbofeteavam-no, dizendo: 68 «Profetiza, Messias: quem foi que te bateu?»

Negações de Pedro

69 Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe: «Tu também estavas com Jesus, o Galileu.» 70 Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei o que dizes.» 71 Dirigindo-se para a porta, outra criada viu-o e disse aos que ali estavam: «Este também estava com Jesus, o Nazareno.» 72 Ele negou de novo com juramento: «Não conheço esse homem.» 73 Um momento depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «Com certeza tu és dos seus, pois até a tua maneira de falar te denuncia.» 74 Começou, então, a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço esse homem!» No mesmo instante, o galo cantou. 75 E Pedro lembrou-se das palavras de Jesus: «Antes de o galo cantar, me negarás três vezes.» E, saindo para fora, chorou amargamente.

Conselho do Sinédrio

1 Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo tiveram conselho contra Jesus, para O entregarem à morte. 2 Em seguida, manietado, levaram-n'O e entregaram-n'O ao governador Pôncio Pilatos.

 


Vocação (cont)

  Noutro local já abordámos algumas características do comportamento humano e os efeitos, consequências e utilidade que têm na vida comum.

Essas características emanam do carácter, ou melhor, formatam o carácter de cada indivíduo, tornando-o verdadeiramente único e singular e, que em suma, são as virtudes, as potências, os defeitos, as capacidades pessoais.

  Não parece haver dúvida que para progredir no sentido da melhoria em cada uma destas características é fundamental o conhecimento próprio do que se é como pessoa. Para tal é necessário, em primeiríssimo lugar uma postura de honestidade completa e uma decisão de proceder conforme o que o resultado desse exame propuser.

  Não basta concluir que sou volúvel se não fizer um esforço para deixar de o ser.

  O (re)conhecimento do que se é, deve levar, não a ser algo diferente, mas a concluir que é fundamental corrigir aquilo que, com honestidade, repete-se, verificamos que está mal ou poderia ser melhor, num esforço contínuo e sem tréguas por conseguir esse objectivo.

  Quando me apercebo que caio com facilidade na murmuração ou comentários sobre os outros ou o seu comportamento, terei de esforçar-me para corrigir esta tendência e estar decidido, não só a fazê-lo, mas ter a consciência que não o conseguirei sem uma dedicação constante a essa tarefa.

  Normalmente, uma das formas mais aconselhadas de o fazer é actuar de forma positiva, isto é, não dizer mal ou murmurar, mas não o fazer de todo.

A forma negativa seria dizer bem ou tecer encómios, coisa que, por vezes, pode não ter justificação.

Aos poucos, talvez muito lentamente, vai-se criando um hábito de não ceder a essa tendência.

Assim consegue-se uma nítida melhoria tal como nos propusemos.

  É muito possível verificarmos ter várias características a corrigir, a melhorar mas é necessário fugir à tentação de travar uma luta, como se diz, em todas as frentes, porque talvez não consigamos ganhar uma só que seja.

  Por isso, tal como também já se abordou, é fundamental concluir o que é dominante no nosso carácter e actuar aí com a intenção de corrigir ou de melhorar porque a luta pela melhoria pessoal não se trava só corrigindo ou evitando o que é menos bom mas em promover o que temos de melhor.

  A um defeito ou fraqueza opõe-se sempre uma virtude e uma potência e, por vezes, talvez baste implementar estes para diminuir a importância ou impacto daqueles.

   Se sou uma pessoa generosa será útil decidir ser ainda mais generoso e, desta forma, ir-se-á resolvendo algum problema de egoísmo.

  Em suma, em vez de tentar não fazer algo mau ou sem utilidade, esforçar-se por praticar o bem contrário.

  ‘A dificuldade não está em não furtar os bens alheios, mas sim em não os desejar. É fácil em tribunal não levantar falso testemunho, mas difícil será em não mentir nas conversas. Com facilidade nos afastaremos da embriaguez, mas com maior dificuldade viveremos a sobriedade. [1]

É fundamental que a consciência do bem e do mal esteja devidamente formada, que as balizas sejam nítidas e que não se tente esconder a realidade com uma justificação momentânea.

  Nada pode justificar um mau procedimento mesmo com a remota pretensão de que se alcançará um bem.

  Não é eliminando fisicamente o violentador que se eliminam os efeitos da violência que perpetrou ou, sequer, atenua o sofrimento que lhe estará adjacente.

Para o conseguir, o caminho a seguir é actuar junto de quem sofreu a violência assistindo-o para ajudar a ultrapassar a situação.

  Isto não tem tudo a ver com a justiça que, quase sempre, se preocupa mais com o primeiro que com o segundo.

  Porquê?

  Porque praticar a justiça não pode limitar-se a aplicar a sanção que eventualmente o prevaricador mereça mas, também, em assistir sériamente a vítima.

  Isto acontece com frequência quando a justiça – o que comummente se apelida justiça – se limita a aplicar a lei conforme o legislador previu e se tenta compensar a vítima, ou vítimas, com as indemnizações também previstas, quando o que de facto necessitavam e, aliás, teriam o direito de esperar, era um apoio concreto e categorizado para conseguirem ultrapassar a situação que lhes foi imposta.

  Na verdade, um prevaricador pode sempre reabilitar-se, em primeiro lugar cumprindo a pena aplicada, depois com a reparação estipulada, e, evidentemente, com um arrependimento sincero que conduza a não repetir acto, ou actos semelhantes, e, tendo, por assim dizer, pago a sua dívida para com a sociedade, retomar uma vida normal sem mais consequências.

  Quanto à vítima, é diferente, se não receber ou, de alguma forma, tiver acesso aos apoios adequados, tenderá a arrastar indefinidamente o fardo da violência a que foi sujeita não conseguindo retomar a vida como a tinha antes de tal ter acontecido.

  Esta é a forma comum e usual de administração da justiça humana.

Mas, quando se refere às relações do homem com Deus já não é assim.

 

 



[1] são francisco de sales, Introdução à Vida devota, IV, 8

Reflexão


O amor próprio

É difícil conviver com ele e admitir que o tenho.

E, de facto, está na raiz de muitos sentimentos errados como, por exemplo, o sentir-me ofendido por alguém não reconhecer os meus méritos ou predicados.

Talvez que a solução esteja em pensar: ‘O que diria se me conhecesse bem... muito pior seguramente...’



13.12.2020

FILOSOFIA E RELIGIÃO

 

CONTROLO DA NATALIDADE

 

Do ponto de vista da gravidade do pecado, a prática anticonceptiva vem logo a seguir ao homicídio, porque, se o homicídio destrói o ser humano já existente, a anticoncepção nem sequer permite que nele comece a existir. O resultado é o mesmo, que é, em ultima análise, a destruição da raça humana. Só o modo é diferente.

 

São Tomás. d'Aquino, Contra Gentes, III, cap. 122

Pequena agenda do cristão

 

SeGUNDa-Feira

Pequena agenda do cristão

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça "boa cara" que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


17/01/2021

O amor manifesta-se com factos

Vai até Belém, aproxima-te do Menino, baila com Ele, diz-lhe muitas coisas vibrantes, aperta-o contra o coração... Não estou a falar de infantilidades: falo de amor! E o amor manifesta-se com factos: na intimidade da tua alma, bem o podes abraçar! (Forja, 345)


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens. Ao falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre. Preciso de considerá-Lo assim, porque tenho de aprender d'Ele. E para aprender d'Ele é necessário conhecer a sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno de Jesus.

Na verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como agora estamos fazendo diante do presépio. É preciso entender as lições que nos dá Jesus já desde menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens. Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino. (Cristo que passa, 13–14)

 

LEITURA ESPIRITUAL Janeiro 17

 

Evangelho

Mt XXVI 30 - 56

Jesus prediz o abandono dos discípulos

30 Depois de cantarem os salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. 31 Jesus disse-lhes, então: «Nesta mesma noite, todos ficareis perturbados por minha causa, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho serão dispersas. 32 Mas, depois da minha ressurreição, hei-de preceder-vos na Galileia.» 33 Tomando a palavra, Pedro respondeu-lhe: «Ainda que todos fiquem perturbados por tua causa, eu nunca me perturbarei!» 34 Jesus retorquiu-lhe: «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes de o galo cantar, vais negar-me três vezes.» 35 Pedro disse-lhe: «Mesmo que tenha de morrer contigo, não te negarei!» E todos os discípulos afirmaram o mesmo.

Em Getzemani

36 Entretanto, Jesus com os seus discípulos chegou a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: «Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar.» 37 E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. 38 Disse-lhes, então: «A minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai comigo.» 39 E, adiantando-se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres.» 40 Voltando para junto dos discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo! 41 Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.» 42 Afastou-se, pela segunda vez, e foi orar, dizendo: «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!» 43 Depois voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados. 44 Deixou-os e foi orar de novo pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45 Reunindo-se finalmente aos discípulos, disse-lhes: «Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora, e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. 46 Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que me vai entregar.»

Entrega e prisão de Jesus

47 Ainda Ele falava, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus, enviada pelos sumos sacerdotes e pelos anciãos do povo. 48 O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo: prendei-o.» 49 Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: «Salve, Mestre!» E beijou-o. 50 Jesus respondeu-lhe: «Amigo, a que vieste?» Então, avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no. 51 Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha. 52 Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada. 53 Julgas que não posso recorrer a meu Pai? Ele imediatamente me enviaria mais de doze legiões de anjos! 54 Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve acontecer?» 55 Voltando-se, depois, para a multidão, disse: «Viestes prender-me com espadas e varapaus, como se eu fosse um ladrão! Todos os dias estava sentado no templo a ensinar, e não me prendestes. 56 Mas tudo isto aconteceu, para que se cumprissem as Escrituras dos profetas.» Então, todos os discípulos o abandonaram e fugiram.

 


Vocação

 

  A descoberta da vocação implica uma finura interior, de carácter, de estabilidade, de emoções e sentimentos que deram as pistas necessárias para que essa descoberta seja concretizada numa certeza: ‘Sim, é isto que eu, definitivamente, quero para a minha vida.’

  Sem estas características o homem debate-se em mil opções diferentes que lhe vão surgindo com diversos matizes, quase sempre, vagos ou pouco concretos.

  O pior é que pode passar o resto da sua vida neste estado de indecisão, movendo-se de uma opção para outra, mudando de sentido ou orientação ao sabor quer de conveniências que julga importantes, ou quimeras com pouca ou nenhuma profundidade ou sustentação.

  Daí surgem os maus profissionais que não cumprem o que é lícito esperar deles e que arrastam a tal vida medíocre e conformada que citámos antes.

  Se este factos têm uma importância fundamental na vida do indivíduo e da sua integração na sociedade, ajustando-se num lugar e papel que sabe ser o seu e para o qual tem aptidões que adquiriu, ou seja, se exerce aquilo para o qual a sua vocação o inclinou, parece legítimo deduzir-se que, na ausência destas linhas mestras, a pessoa tenda para um desajustamento e uma insatisfação pessoal permanentes, podendo cair na tentação de procurar soluções tardias que pode ser levado a experimentar na tentativa de colmatar essas faltas.

  Daqui o abandono da profissão, ou da família, que entretanto se foi formando, a troca das realidades estáveis pela cedência a impulsos criadores, quase sempre, de situações precárias de instabilidade.

  Infelizmente, esta parece ser, cada vez mais, uma situação comum, assistindo-se a um interminável cortejo de homens e mulheres, crianças e adultos, vivendo vidas que não os tornam felizes de forma estável mas, talvez, apenas por escasso tempo.

  Poderiam – a palavra é forte – chamar-se “desajustados” que arrastam atrás de si inúmeras pessoas que, de alguma forma, são afectadas por essas decisões.

  Perante a resposta de Cristo a quem Lhe perguntava sobre a indissolubilidade do matrimónio, alguém terá dito: «então é melhor não casar» [1] o que parece uma conclusão lógica se não se tiver em conta a magnitude do acto matrimonial, ou seja, se de facto não se está absolutamente seguro – ou se tem uma certeza razoável – de que o matrimónio celebrado com aquela pessoa concreta é, realmente, o que se deseja, quer e, em consciência, deve fazer, então, de facto, é preferível não casar.

  Consideremos que, se a descoberta da vocação indicar o matrimónio com o objectivo de constituir uma família – o principal e determinante objectivo –, a pessoa tem de ter a noção de que uma vida a dois não congela os anseios, desejos e esforços de melhoria pessoal, antes os torna num objectivo comum, cada um com a sua especificidade mas, evidentemente, numa troca constante e séria de ajudas, apoios e solidariedades nas coisas grandes e nas pequenas de cada dia.

  O próprio amor deve evoluir de um sentimento entusiasmante e cheio de promessas para uma certeza estável e comprometida, como se passasse a existir uma terceira pessoa entre os dois.

  Porquê?

  Porque se o amor não gera amor, acaba por definhar e morrer e acaba por quebrar-se o elo que unia os dois seres.

  A capacidade de amar não se esgota num acto, nem, sequer, numa vida longa e, não parece que se possa amar muito, muitíssimo ou amar muito pouco ou quase nada.

        Ou seja, amar é definitivo, para sempre.

  O amor não cresce, aprofunda-se, não se torna em hábito mas sim em algo sempre novo e renovado diariamente.

  Por ser algo muito sério é que o carácter tem uma importância determinante.

Mal formado, ou com lacunas, a pessoa está muito afectada e diminuída nessa capacidade de dar e receber que, no fim e ao cabo, é o amor.

  E os Pais, professores e outros formadores o que têm a ver com o amor?

Tudo! Têm tudo a ver.

  Ao contribuírem decisivamente para a formação do carácter da pessoa deram-lhe a chave para abrirem o caminho à capacidade de satisfação pessoal de acordo com as suas características pessoais e irrepetíveis que determinarão a sua escolha e opção de vida.

Mais… ao instilarem na pessoa esse desejo concreto de melhoria, enriquecimento da sua personalidade, estão não só a dar-lhe a chave, mas também, a proporcionar-lhe importantes capacidades para que a utilizem para abrir a porta do caminho que lhe convém à felicidade pessoal e à felicidade dos outros com quem se relacione.

 



[1] Cfr. Mt 19, 11