Padroeiros do blog: SÃO PAULO; SÃO TOMÁS DE AQUINO; SÃO FILIPE DE NÉRI; SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ
22/08/2019
NUNC COEPI publicações em 22 Agosto
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Evangelho e comentário
Virgem
Santa Maria Rainha
Evangelho: Lc 1 26-38
Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi
enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem
desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da
Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de
graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e
pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque
encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem
porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O
Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa
de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto,
se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre
ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai
nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parente Isabel concebeu também um
filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril;
porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra».
Comentário:
A Mãe do Rei é a Rainha.
Rainha do mundo, dos céus e da terra, dos
Anjos e dos homens porque o seu Filho é o Rei Supremo de quanto existe.
Assim foi coroada numa festa celeste que
dura permanentemente e assim é venerada pelos seus súbditos os homens.
Com especial relevo por nós portugueses
porque, em acto soleníssimo, como tal foi coroada pelo próprio Rei de Portugal.
(AMA, comentário sobre Lc 1, 26-38, Carvide
22.08.2016)
Temas para reflectir e meditar
Deus quis fazer-Se homem para que o homem de certo modo se pudesse
tornar Deus, se divinizasse.
(stº
irineu, Contra los herejes, V pref. trad ama)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
118
Se quereis actuar sempre como senhores de
vós próprios, aconselho-vos a pordes um empenho muito grande em estar desprendidos
de tudo, sem medo, sem temores nem receios.
Depois,
ao cuidar de cumprir as vossas obrigações pessoais, familiares..., empregai os
meios terrenos honestos com rectidão, pensando no serviço a Deus, à Igreja, aos
vossos, ao vosso trabalho profissional, ao vosso país, à humanidade inteira.
Reparai
que o importante não se concretiza na materialidade de possuir isto ou de
carecer daquilo, mas sim em nos conduzirmos de acordo com a verdade que a nossa
fé cristã nos ensina: os bens criados são apenas meios.
Portanto,
afastai a ilusão de considerá-los como algo definitivo: não acumuleis tesouros
na terra, onde a ferrugem e a traça os corroem e os ladrões os desenterram e
furtam.
Acumulai
tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os corroem e onde os ladrões
não os descobrem nem furtam.
Pois
onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.
Quando alguém centra a sua felicidade
exclusivamente nas coisas terrenas - fui testemunha de verdadeiras tragédias -
perverte o seu uso razoável e destrói a ordem sabiamente disposta pelo Criador.
O
coração fica então triste e insatisfeito; mete-se por caminhos de um eterno
descontentamento e acaba escravizado já na terra, vítima desses mesmos bens,
que talvez tenham sido conseguidos à custa de renúncias e esforços sem conta.
Mas,
sobretudo, recomendo-vos que não esqueçais que Deus não cabe, não habita num
coração enlameado por um amor desordenado, grosseiro, vão.
Ninguém
pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se
dedicará a um e desprezará o outro.
Não
podeis servir a Deus e às riquezas.
Prendamos,
pois, o coração no amor capaz de nos fazer felizes... Desejemos os tesouros do
céu.
119
Não te estou a induzir a um abandono no
cumprimento dos teus deveres ou na exigência dos teus direitos.
Pelo
contrário, para cada um de nós, habitualmente, uma retirada nessa frente
equivale a desertarmos cobardemente da luta para sermos santos, à qual Deus nos
chamou.
Por
isso, com segurança de consciência, hás-de pôr empenho - especialmente no teu
trabalho - para que nem a ti nem aos teus falte o conveniente para viver com
dignidade cristã.
Se
em algum momento, experimentares na tua carne o peso da indigência, não te
entristeças nem te revoltes; mas, insisto, procura empregar todos os recursos
nobres para superar essa situação, porque actuar de outra maneira seria tentar
a Deus.
E
enquanto lutas, lembra-te de que omnia in
bonum!, tudo - também a escassez, a pobreza - coopera para o bem dos que
amam o Senhor.
Habitua-te, desde já, a enfrentar com
alegria as pequenas limitações, as incomodidades, o frio, o calor, a privação
de algo que consideras imprescindível, o facto de não poderes descansar quando
e como queres, a fome, a solidão, a ingratidão, a incompreensão, a desonra...
120
Pai...
não os tires do mundo
Somos homens da rua, cristãos correntes,
metidos na corrente circulatória da sociedade e o Senhor quer-nos santos,
apostólicos, precisamente no nosso trabalho profissional, isto é,
santificando-nos nesse trabalho, santificando esse trabalho e ajudando os
outros a santificarem--se com esse trabalho.
Convencei-vos
de que Deus vos espera nesse ambiente, com solicitude de Pai, de Amigo.
Pensai
que com a vossa actividade profissional realizada com responsabilidade, além de
vos sustentardes economicamente, prestais um serviço directíssimo ao
desenvolvimento da sociedade, aliviais as cargas dos outros e ajudais a manter
muitas obras assistenciais - a nível local e universal - em prol dos indivíduos
e dos povos mais desfavorecidos.
125
Temos de ser exigentes em relação a nós
próprios no dia-a-dia, para não inventarmos falsos problemas, necessidades
artificiais que, no fundo, procedem do orgulho, do capricho, de um espírito
comodista e preguiçoso.
Devemos
caminhar para Deus com passo rápido, sem pesos mortos nem empecilhos que
dificultem a marcha.
Precisamente
porque a pobreza de espírito não consiste em não ter, mas em estar deveras
desapegados, devemos permanecer atentos, para não nos enganarmos com motivos
imaginários de força maior. Procurai o suficiente, procurai o que basta.
E
não queirais mais.
O
que passa daí é perturbação e não alívio; pesa em vez de elevar.
Ao descer a estes conselhos, não me baseio
em situações estranhas, anormais ou complicadas.
Sei
de alguém que usava, como marcas de leitura para os livros, uns papéis em que
escrevia jaculatórias para o ajudarem a manter a presença de Deus.
E
entrou nele o desejo de conservar com carinho aquele tesouro, até que se deu
conta de que estava a apegar-se a papeizitos de nada.
Já vedes que modelo de virtudes!
Não me importaria de vos manifestar todas
as minhas misérias, se isso vos servisse para alguma coisa.
Levantei
um pouco o manto, porque talvez a ti te suceda a mesma coisa: os teus livros, a
tua roupa, a tua mesa, os teus... ídolos de quinquilharia.
Em casos destes, recomendo-vos que
consulteis o vosso director espiritual sem ânimo pueril nem escrupuloso.
Às
vezes, bastará como remédio a pequena mortificação de prescindir do uso de algo
por uma temporada curta.
Ou,
noutro domínio, não acontece nada de especial, se um dia renuncias ao meio de
transporte que usas habitualmente e dás como esmola a quantia poupada, ainda
que seja muito pouco dinheiro.
De
qualquer modo, se tens espírito de desprendimento, não deixarás de descobrir
ocasiões constantes, discretas e eficazes de o exercitar.
Depois de vos abrir a minha alma, devo
confessar-vos também que tenho um apego a que nunca quereria renunciar: o de
vos amar a todos de verdade.
Aprendi-o
com o melhor Mestre e gostaria de seguir fidelissimamente o seu exemplo, amando
sem limites todas as almas, a começar pelos que me rodeiam.
Não
vos comove essa caridade ardente, esse carinho de Jesus, que transparece no
modo como o Evangelista designa um dos seus discípulos: quem diligebat Jesus, aquele que Jesus amava?
126
Terminamos com uma consideração que nos
oferece o Evangelho da Missa de hoje: seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a
Betânia, onde morrera Lázaro, a quem Jesus ressuscitou dos mortos.
Ofereceram-lhe
uma ceia; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Ele.
Então
Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés
de Jesus e enxugou-os com os seus cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do
perfume.
Que
prova tão clara de magnanimidade o excesso de Maria! Judas lamenta que se tenha
desperdiçado um perfume que valia - com a sua avareza fez muito bem as contas -
pelo menos trezentos dinheiros.
O verdadeiro desprendimento leva-nos a ser
muito generosos com Deus e com os nossos irmãos, a sermos diligentes, a arranjarmos
recursos, a gastarmo-nos para ajudar aqueles que sofrem necessidades.
Um
cristão não pode conformar-se com um trabalho que lhe permita ganhar o
suficiente para se sustentar a si e aos seus.
A
sua grandeza de coração levá-lo-á a arrimar o ombro para sustentar os outros,
por um motivo de caridade e por um motivo de justiça, como escrevia S. Paulo
aos Romanos: A Macedónia e a Acaia houveram
por bem fazer uma colecta para os pobres que há entre os santos de Jerusalém.
Houveram-no por bem e disso lhes eram devedores. Porque, se os gentios
participam dos bens espirituais dos judeus, também aqueles devem assistir estes
com os seus bens temporais.
Não sejais mesquinhos nem tacanhos com quem
tão generosamente se excedeu connosco, até se entregar totalmente, sem medida.
Pensai
quanto vos custa - também no domínio económico - ser cristão!
Mas,
sobretudo, não esqueçais que Deus ama quem dá com alegria. E Deus é poderoso
para vos cumular com toda a espécie de graças, de sorte que, tendo sempre em
todas as coisas tudo o que é suficiente, vos fique ainda muito para toda a
espécie de boas obras.
Ao aproximarmo-nos, durante esta Semana
Santa, das dores de Jesus Cristo, vamos pedir à Santíssima Virgem que, a
exemplo d'Ela, também nós saibamos meditar e conservar todos estes ensinamentos
no nosso coração.
127
Ego
sum via, veritas et vita, Eu sou o caminho, a verdade e a
vida.
Com
estas palavras inequívocas, o Senhor mostrou - nos qual é o verdadeiro caminho
que leva à felicidade eterna.
Ego sum via:
Ele é o único caminho que une o Céu à terra.
Declara-o
a todos os homens, mas recorda-o especialmente aos que, como tu e eu, lhe
dissemos que estamos decididos a tomar a sério a nossa vocação de cristãos, de
modo que Deus se encontre sempre presente nos nossos pensamentos, nos nossos
lábios e em todos os nossos actos, mesmo naqueles mais normais e correntes.
Jesus é o caminho.
Ele deixou neste mundo as pegadas limpas
dos seus passos, sinais indeléveis que nem o desgaste dos anos nem a perfídia
do inimigo conseguiram apagar.
Iesus Christus heri, et hodie; ipse et in sæcula.
Como gosto de recordá-lo!
Jesus
Cristo, o mesmo que foi ontem para os Apóstolos e para as pessoas que o
procuravam, vive hoje para nós e viverá pelos séculos sem fim.
Nós,
homens, é que às vezes não conseguimos descobrir o seu rosto, perenemente
actual, porque olhamos com olhos cansados ou turvos. Agora, ao começar este
tempo de oração junto ao Sacrário, pede-lhe como aquele cego do Evangelho: Domine, ut videam!, Senhor, que eu veja!
Que se encha de luz a minha inteligência e a palavra de Cristo penetre na minha
mente; que a sua Vida enraíze na minha alma para me transformar com vista à
Glória eterna.
(cont)
Pequena agenda do cristão
(Coisas muito simples, curtas, objectivas)
Propósito:
Participar na Santa Missa.
Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.
Lembrar-me:
Comunhões espirituais.
Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.
Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?
Meter Cristo entre os pobres
Pelo "caminho do justo
descontentamento" têm ido e estão a ir-se embora as massas. Dói... Quantos
ressentidos temos fabricado entre os que estão espiritual ou materialmente
necessitados! É preciso voltar a meter Cristo entre os pobres e entre os
humildes: precisamente entre esses é que Ele se sente melhor. (Sulco,
228)
"Os pobres – dizia aquele amigo
nosso – são o meu melhor livro espiritual e o motivo principal das minhas
orações. Dói-me a sua dor, e dói-me o sofrimento de Cristo neles. E, porque me
dói, compreendo que O amo e que os amo". (Sulco, 827)
Jesus Nosso Senhor amou tanto os
homens, que encarnou, tomou a nossa natureza e viveu em contacto diário com
pobres e ricos, com justos e pecadores, com novos e velhos, com gentios e
judeus.
Dialogou constantemente com todos: com
os que gostavam dele e com os que só procuravam a maneira de retorcer as suas
palavras, para o condenar.
– Procura comportar-te como Nosso
Senhor. (Forja,
558)
– Não ficas contente por sentir tão de
perto a pobreza de Jesus?... Que bonito carecer até do necessário! Mas como
Ele: oculta e silenciosamente. (Forja, 732)
21/08/2019
NUNC COEPI Publicações em 21 Agosto
Evangelho e comentário
Evangelho: Mt 20, 1-16
Naquele tempo, disse Jesus aos seus
discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um
proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia
manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também
para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair,
por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao
cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque
ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos
contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer,
o dono da vinha disse ao capataz: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes o
salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do
entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram
que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o
terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes
últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que
suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o
que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus
olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros
serão os últimos».
Comentário:
Parece-nos,
talvez, que, perante situação semelhante, teríamos procedido de outra forma:
pagaríamos o ajustado com os primeiros e, aos outros, daríamos um salário
correspondente às horas que efectivamente trabalharam.
Teríamos
sido justos?
Não
tenho dúvidas em afirmar que sim.
Mas,
de facto, a justiça divina é diferente da justiça dos homens e ainda bem.
Já
pensámos que se o Senhor procedesse assim, nós, de agora, que poderíamos
esperar receber comparando com os milhões de milhões de homens que nos
precederem?
(AMA,
comentário sobre Mt 20, 1-16, 24.09.2017)
Temas para reflectir e meditar
Na própria realidade, independentemente do nosso espírito, o pão e
o vinho deixaram de existir depois da consagração.
(beato
paulo vi, Credo do Povo de Deus, 25)
Leitura espiritual
Amigos
de Deus
113
Não sei se vos terão contado, na vossa
infância, a fábula daquele camponês a quem ofereceram um faisão dourado.
Após
o primeiro momento de alegria e de surpresa por tal oferta, o novo dono começou
a pensar onde poderia guardá-lo.
Ao
fim de várias horas, depois de muitas dúvidas e diversos planos, decidiu
metê-lo no galinheiro.
As
galinhas, admiradas com a beleza do recém-chegado, giravam à sua volta com o
assombro de quem descobre um semi-deus.
No
meio de tanto alvoroço, chegou a hora da comida e, mal o dono lançou os
primeiros punhados de farelo, o faisão, esfomeado pela espera, lançou-se com
avidez a tirar a barriga de misérias.
Ante
um espectáculo tão vulgar - aquele prodígio de formosura comia com o mesmo
apetite que o animal mais corrente - as desencantadas companheiras de capoeira
lançaram-se às bicadas contra o ídolo caído, até lhe arrancarem toda a plumagem.
É
assim triste a derrocada do ególatra; tanto mais desastrosa, quanto mais ele se
elevou sobre as suas próprias forças, presunçosamente confiado na sua
capacidade pessoal.
Tirai consequências práticas para a vossa
vida diária, sentindo-vos depositários de alguns talentos - sobrenaturais e
humanos - que deveis aproveitar rectamente.
Afastai o ridículo engano de que algo vos
pertence, como se fosse fruto só do vosso esforço. Lembrai-vos de que há uma
parcela - Deus - de que ninguém pode prescindir.
114
Com esta perspectiva, convencei-vos de que,
se desejamos deveras seguir o Senhor de perto e prestar um serviço autêntico a
Deus e a toda a humanidade, temos de estar seriamente desprendidos de nós
próprios: dos dons da inteligência, da saúde, da honra, das ambições nobres,
dos triunfos, dos êxitos.
Refiro-me também - porque até aí deve
chegar a tua decisão - a esses afãs limpos com que procuramos exclusivamente
dar toda a glória a Deus e louvá-lo, ajustando a nossa vontade a esta norma clara
e precisa: Senhor, quero isto ou aquilo só se te agrada a Ti, porque se não, a
mim, que me interessa?
Assestamos
assim um golpe mortal no egoísmo e na vaidade que serpenteiam em todas as
consciências.
E
conseguimos também a verdadeira paz para as nossas almas com um desprendimento
que nos leva a possuir Deus, de forma cada vez mais íntima e mais intensa.
Para imitar Jesus, o coração tem de estar
inteiramente livre de apegos.
Se alguém quer vir após
mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua
vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, encontrá-la-á.
Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a sua alma?
E
comenta S. Gregório: não nos bastaria
viver desprendidos das coisas, se não renunciássemos também a nós próprios.
Mas... onde iremos fora de
nós?
Quem é o que renuncia, se
a si mesmo se deixa?
Sabei que é diferente a nossa situação
enquanto caídos pelo pecado e enquanto formados por Deus.
Fomos
criados de uma forma e encontramo-nos noutra diferente por causa de nós mesmos.
Renunciemos
a nós próprios, naquilo em que nos convertemos pelo pecado e mantenhamo-nos
como fomos constituídos pela graça.
Assim, se o que foi soberbo, convertendo-se
a Cristo, se torna humilde, já renunciou a si mesmo; se um luxurioso se
converte a uma vida continente, também renunciou a si próprio naquilo que era
antes; se um avarento deixa de o ser e, em vez de se apoderar do alheio, começa
a ser generoso com o que lhe pertence, certamente se negou a si próprio.
115
Senhorio
do cristão
Corações generosos, com desprendimento
verdadeiro, pede o Senhor.
Consegui-lo-emos,
se soltarmos com valentia as amarras ou os fios subtis que nos prendem ao nosso
eu.
Não
vos escondo que esta determinação exige uma luta constante, uma sobreposição ao
entendimento e à vontade própria, em poucas palavras, uma renúncia mais árdua
que o abandono dos bens materiais mais desejados.
Esse desprendimento que o Mestre pregou e
que espera de todos os cristãos implica também necessariamente manifestações externas.
Jesus Cristo coepit facere et docere:
antes de anunciar a sua doutrina com a palavra, anunciou-a com as obras.
Vemo-lo
nascer num estábulo, na carência mais absoluta, e dormir os seus primeiros
sonos na terra deitado sobre as palhas de uma manjedoura.
Depois,
durante os anos das suas andanças apostólicas, entre muitos outros exemplos,
recordamos a sua clara advertência a um dos que se ofereceram para o acompanhar
como discípulo: as raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho
do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E
não deixemos de contemplar aquela cena que o Evangelho recolhe, em que os
apóstolos, para matar a fome, num sábado, arrancam pelo caminho umas espigas de
trigo.
116
Pode-se dizer que Nosso Senhor, perante a
missão recebida do Pai, vive o dia-a-dia, tal como aconselhava num dos
ensinamentos mais sugestivos que saíram da sua boca divina: não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com
o que haveis de comer nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir,
pois a vida é mais que o alimento e o corpo mais que o vestuário.
Reparai nos corvos: não
semeiam nem colhem, não têm despensa nem celeiro, e Deus sustenta-os.
Quanto mais valeis vós do
que as aves!...
Reparai nos lírios, como
crescem!
Não trabalham nem fiam.
Pois eu digo-vos: nem
Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como um deles.
Se Deus veste assim a erva
que hoje está no campo e amanhã é lançada no fogo, quanto mais a vós, homens de
pouca fé?
Se vivêssemos mais confiados na Providência
divina, seguros - com fé firme - desta protecção diária que nunca nos falta,
quantas preocupações ou inquietações pouparíamos a nós próprios.
Desapareceriam
muitos desassossegos que, segundo palavras de Jesus, são próprios dos pagãos,
dos homens do mundo, das pessoas que carecem de sentido sobrenatural.
Quereria,
em confidência de amigo, de sacerdote, de pai, trazer-vos à memória em cada
circunstância, que nós, pela misericórdia de Deus, somos filhos desse Pai Nosso,
todo-poderoso, que está nos Céus e, ao mesmo tempo, na intimidade dos nossos
corações.
Quereria
gravar a fogo nas vossas mentes que temos todos os motivos para caminhar com
optimismo nesta terra, com a alma bem desprendida dessas coisas que parecem imprescindíveis,
pois bem sabe o vosso Pai que tendes necessidade delas.
E
Ele providenciará.
Crede
que só assim nos portaremos como senhores da Criação e evitaremos a triste
escravidão em que tantos caem, porque esquecem a sua condição de filhos de Deus,
preocupados com um amanhã ou um depois que talvez nem sequer cheguem a ver.
117
Permiti que, mais uma vez, vos manifeste
uma pequena parte da minha experiência pessoal.
Abro-vos
a minha alma na presença de Deus, com a certeza mais absoluta de que não sou
modelo de nada, de que sou um farrapo, um pobre instrumento - surdo e inapto -
que o Senhor utilizou para que se comprove, com mais evidência, que Ele escreve
perfeitamente com a perna de uma mesa.
Portanto,
ao falar-vos de mim, não me passa pela cabeça, nem de longe, o pensamento de
que na minha actuação haja algum mérito meu; e muito menos pretendo impor-vos o
caminho por onde o Senhor me levou, até porque pode suceder muito bem que o
Mestre não vos peça o que tanto me ajudou a trabalhar sem impedimento nesta
Obra de Deus a que dediquei toda a minha existência.
Asseguro-vos - toquei-o com as minhas mãos,
contemplei-o com os meus olhos - que, se confiardes na divina Providência, se
vos abandonardes nos seus braços omnipotentes, nunca vos faltarão os meios para
servir a Deus, à Santa Igreja, às almas, sem descuidar nenhum dos vossos
deveres.
E,
além disso, gozareis de uma alegria e de uma paz que mundus dare non potest, que a posse de todos os bens da terra não
pode dar.
Desde os começos do Opus Dei, em 1928, além
de que não contava com nenhum recurso humano, nunca utilizei pessoalmente um
cêntimo sequer.
Tão-pouco
intervim directamente nos assuntos económicos que logicamente surgem ao
realizar qualquer tarefa em que participam criaturas - homens de carne e osso,
e não anjos - que precisam de instrumentos materiais para desenvolver
eficazmente o seu trabalho apostólico.
O Opus Dei precisou e penso que precisará
sempre, até ao fim dos tempos, da colaboração generosa de muitos para sustentar
as obras apostólicas: por um lado, porque essas actividades nunca são
rentáveis; por outro, porque ainda que aumentem o número dos que cooperam e o
trabalho dos meus filhos, se há amor de Deus, o apostolado desenvolve-se e as
necessidades multiplicam-se.
Por
isso, em mais de uma ocasião, fiz rir os meus filhos, pois enquanto os
impulsionava com fortaleza a corresponderem fielmente à graça de Deus,
animava-os a dirigirem-se descaradamente ao Senhor, pedindo-lhe mais graça e o
dinheiro, de contado, que nos faltava.
Nos primeiros anos, faltava-nos até o mais
indispensável.
Atraídos
pelo fogo de Deus, vinham ter comigo operários, mecânicos, universitários...
que ignoravam o aperto e a indigência em que nos encontrávamos, porque no Opus
Dei, com o auxílio do Céu, sempre procurámos trabalhar de maneira que o
sacrifício e a oração fossem abundantes e escondidos.
Ao
rememorar agora aquela época, brota do coração uma acção de graças rendida.
Que
segurança havia nas nossas almas!
Sabíamos
que, procurando o reino de Deus e a sua justiça, o resto ser-nos-ia concedido
por acréscimo.
E
posso garantir-vos que não deixou de realizar-se nenhuma iniciativa apostólica
por falta de recursos materiais.
No momento preciso, de uma forma ou doutra,
o nosso Pai Deus com a sua Providência ordinária facilitava-nos o que era necessário,
para que víssemos que Ele é sempre bom pagador.
(cont)
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