02/02/2017

Estás triste, meu filho?

Nunca desanimes, se és apóstolo. – Não há contradição que não possas superar. – Porque estás triste? (Caminho, 660)

A verdadeira virtude não é triste nem antipática, mas amavelmente alegre. (Caminho, 657)

Se as coisas correm bem, alegremo-nos, bendizendo a Deus que dá o incremento. – Correm mal? – Alegremo-nos, bendizendo a Deus que nos fez participar da sua doce Cruz. (Caminho, 658)

Para dar remédio à tua tristeza, pedes-me um conselho. – Vou dar-te uma receita que vem de boa mão – do apóstolo Tiago: – "Tristatur aliquis vestrum?" estás triste, meu filho? – "Oret!" Faz oração! – Experimenta e verás. (Caminho, 663)

Não estejas triste. – Tem uma visão mais... "nossa" – mais cristã – das coisas. (Caminho, 664)


"Laetetur cor quaerentium Dominum"– Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor. – Luz, para investigares o motivo da tua tristeza. (Caminho, 666)

Temas para meditar -688

Contemplativos no meio do mundo


Este deve ser o objectivo e o desígnio constante do cristão:


Pro­curar a vida contemplativa nas tarefas normais de cada dia. 


(Francisco Fernández carvajal & pedro betteta lópez Filhos de Deus DIEL) 

Evangelho e comentário

Tempo comum

Apresentação do Senhor

Evangelho: Lc 2, 22-40

22 Depois que se completaram os dias da purificação de Maria, segundo a Lei de Moisés, levaram-n'O a Jerusalém para O apresentar ao Senhor23 segundo o que está escrito na Lei do Senhor: “Todo o varão primogénito será consagrado ao Senhor”,24 e para oferecerem em sacrifício, conforme o que também está escrito na Lei do Senhor: “Um par de rolas ou dois pombinhos”.25 Havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem era justo e piedoso; esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele.26 Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte sem ver primeiro o Cristo do Senhor.27 Foi ao templo conduzido pelo Espírito. E, levando os pais o Menino Jesus, para cumprirem as prescrições usuais da Lei a Seu respeito,28 ele tomou-O nos braços e louvou a Deus, dizendo:29 «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz segundo a Tua palavra;30 porque os meus olhos viram a Tua salvação,31 que preparaste em favor de todos os povos;32 luz para iluminar as nações, e glória de Israel, Teu povo».33 O Seu pai e a Sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam.34 Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: «Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição.35 E uma espada trespassará a tua alma. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos».36 Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada. Tinha vivido sete anos com o seu marido, após o seu tempo de donzela,37 e tinha permanecido viúva até aos oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações.38 Ela também, vindo nesta mesma ocasião, louvava a Deus e falava de Jesus a todos os de Jerusalém que esperavam a redenção.39 Depois que cumpriram tudo, segundo o que mandava a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré.40 O Menino crescia e fortificava-Se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

Comentário:

Devemos a São Lucas a inestimável descrição dos principais acontecimentos que, desde a Anunciação de Anjo à Santíssima Virgem até ao Baptismo de Jesus, decorreram na vida de Jesus Cristo e da Sagrada Família.

Fá-lo com todo o pormenor não omitindo nem nomes nem a identificação quase minuciosa dos personagens envolvidos como que para “garantir” que o que relata aconteceu realmente em tempo e com pessoas concretas.

São Lucas é, de facto um “escritor” especialmente dotado para os detalhes e o enquadramento das cenas que relata e, para nosso bem, repito deixou-nos um legado precioso.

Merece toda a nossa atenção e empenho a leitura do “seu Evangelho” porque ficamos a conhecer quase de forma íntima, a Pessoa de Jesus Cristo e a Sua Sagrada Família.

(ama, comentário sobre Lc 2, 22-40, 2016.11.14)


Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO V

CAPÍTULO XIII

O amor da glória, embora seja um vício, é considerado como unia virtude porque impede vícios maiores.

Os impérios do Oriente brilharam durante muito tempo. Por isso quis Deus que houvesse um no Ocidente que, embora posterior no tempo, fosse ainda mais brilhante pela extensão e poderio. Foi uma concessão que Deus fez a tais homens para reprimirem graves males de muitos povos, a eles que, por causa da honra, do louvor e da glória se votaram ao serviço da pátria, nela procuraram esta mesma glória e não hesita­ram em antepor a salvação, abafando a cupidez do dinheiro e muitos outros vícios a esse vício único, isto é, do amor da glória.

Vê com justeza quem reconhece que o amor do louvor é um vício, o que não escapa ao poeta Horácio, que diz:

Inchas com o amor do louvor? Há ritos expiatórios capazes de te aliviarem, infalíveis remédios num livrito: se o leres três vezes com atenção, sentir-te-ás aliviado [i].

E o mesmo, num dos seus poemas líricos, para reprimir a paixão de domínio, canta assim:

Mais vasto será o teu império se dominares o teu espí­rito ambicioso, do que se reunires a Líbia aos longínquos povos de Cádis e se os dois púnicos se te renderem [ii].

Certamente, porém, que aqueles que não refreiam as suas torpes paixões invocando o Espírito Santo com piedosa fé e enamorando-se da beleza inteligível, pelo menos tornam-se melhores pelo desejo de glória e de louvor humano. Não é que se tornem santos, mas menos torpes.

O próprio Túlio nos livros que escreveu acerca da República, onde fala da formação do chefe do Estado, não pôde deixar de dizer que é preciso alimentá-lo de glória e, consequentemente, recordar-lhe como é que os seus antepassados realizaram tantas proezas admiráveis e gloriosas pela paixão de glória.

Não resistiam a tal vício, mas até achavam que deviam excitá-lo e in­flamá-lo, julgando-o útil à Repú­blica. Nem mesmo nas suas obras de filosofia Túlio se afasta desta peste e presta-lhe um testemunho mais claro que a própria luz. Ao falar dos estudos que é preciso prosseguir sobretudo na mira do verdadeiro bem e não dum vão louvor humano, proferiu esta máxima geral e universal:

E a honra que alimenta as artes; é a glória que inflama os homens para o estudo; e jazem sempre por terra as coisas que no ânimo de cada um se encontram desprestigiadas [iii].

CAPÍTULO XIV

É preciso reprimir o amor do louvor humano porque toda a glória dos justos está em Deus.

Sem dúvida que é melhor resistir do que ceder a esta paixão. Realmente, cada um é tanto mais semelhante a Deus quanto mais puro está desta imundície. Embora durante esta vida ela não possa ser arrancada do fundo do coração, porque não cessa de tentar mesmo as almas em bom progresso — seja pelo menos a paixão da glória superada pelo amor da justiça, de maneira que, se em alguma parte «jazem por terra as coisas que no ân:’mo de cada um se encontram desprestigiadas», — se essas coisas são boas, se são justas, o próprio amor da glória se cubra de vergonha e ceda ao amor da verdade! Chega a ser tão contrário à fé religiosa este vício, quando a paixão da glória é no coração maior que o temor e o amor de Deus, que o Senhor diria:

Como podereis crer, vós que esperais a glória uns dos outros e não procurais a glória que só de Deus vem? [iv].

Da mesma forma, a propósito de certos que n’Ele tinham acreditado, mas tinham medo de o confessar publicamente, diz o Evangelista:

Amaram a glória dos homens mais que a de Deus [v].

Não foi isto que fizeram os santos apóstolos. Estes pregaram o nome de Cristo nos lugares onde não somente eram desprestigiados, con­forme aquele que disse:

E jazem sempre por terra as coisas que no ânimo de cada um se encontram desprestigiadas [vi],
mas onde até eram objecto de profunda aversão;

— retiveram estas palavras que ouviram ao bom Mestre que também é médico das almas:

Se alguém me negar perante os homens, também eu o negarei perante meu Pai que está nos Céus e perante os anjos de Deus [vii];

— entre as maldições e os opróbrios, entre as mais duras perseguições e os mais cruéis suplícios, todo este enorme bramido da perseguição humana não foi capaz de os desviar da pregação da salvação dos homens.

Realizaram obras divinas; proferiram palavras divinas; viveram uma vida divina; de certa maneira destruíram corações endurecidos; introduziram no mundo a paz da justiça; conseguiram para a Igreja uma ingente glória — e nem por isso descansaram nela como um fim alcançado da sua própria virtude, mas referiram-na sempre à glória de Deus por cuja graça eram o que eram. E com este mesmo fogo procuravam inflamar os que guiavam no amor d’Aquele que os havia de tornar a Ele semelhantes.

Para que não fossem bons por razões de glória humana, deu-lhes seu Mestre este ensinamento:

Tende cuidado em não praticar a vossa justiça perante os ho­mens para por eles serdes vistos: senão, não tereis recompensa junto do vosso Pai que está nos Céus [viii].

Mas para que, compreendendo mal estas palavras, eles não receassem agradar aos homens e se não tornassem menos úteis escondendo-se, mostrou-lhes até que ponto deviam mostrar que eram bons, dizendo:

Brilhem as vossas obras diante dos homens, para que vejam as vossas boas acções e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus [ix].

Não diz «para que sejais vistos por eles», isto é, com a intenção de os verdes voltarem-se para vós, porque vós por vós próprios nada sois, mas diz:

Para que glorifiquem vosso Pai que está nos Céus [x], e, voltados para Ele, se tornem como vós sois.

A estes (aos apóstolos) seguiram-se os mártires que ultrapassaram pela sua inúmera multidão, os Cévolas, os Cúrcios, os Décios, não por se infligirem a si mesmos torturas mas por suportarem com verdadeira fortaleza e com verdadeira piedade religiosa, as que lhes infligiam.

Mas porque eram cidadãos da Cidade Terrena, e tinham proposto, como fim de todas as suas obrigações, mantê-la a salvo e vê-la reinar não no céu, mas na terra, não na vida eterna, mas no lugar de partida dos que morrem e no lugar de chegada dos que hão-de morrer — que outra coisa poderiam amar senão a glória pela qual pretendiam viver, mesmo depois da morte, na boca dos que os louvam?

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Horácio, Epist., I, 1, 36-37.
[ii] Horácio, Odes, II, 2, 9-12.
[iii] Cícero. Tuscul., I. 2, 4.
[iv] João, V, 44.
[v] João, V, 44.
[vi] Cícero, Tuscul., I, 4.
[vii] Mat., X , 33; Luc., XII, 9.
[viii] Mat., V, 1.
[ix] Mt., V, 16.
[x] Mt., V, 16.

Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

III. MISSÕES DE PAULO [i]

Capítulo 16

2.ª Viagem Missionária: [ii]

Em Filipos. Conversão de Lídia

11Embarcámos em Tróade e fomos directamente a Samotrácia; no dia seguinte, fomos a Neápoles 12e de lá, a Filipos, cidade de primeira categoria deste distrito da Macedónia, e colónia. Estivemos aí durante alguns dias. 13No dia de sábado, saímos fora de portas, em direcção à margem do rio, onde era costume haver oração.

Depois de nos sentarmos, começámos a falar às mulheres que lá se encontravam reunidas. 14Uma das mulheres chamada Lídia, negociante de púrpura, da cidade de Tiatira e temente a Deus, pôs-se a escutar. O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia. 15Depois de ter sido baptizada, bem como os de sua casa, fez este pedido: «Se me considerais fiel ao Senhor, vinde ficar a minha casa.» E obrigou-nos a isso.



[i] (13,1-28,31)
[ii] 15,35-18,22

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






01/02/2017

Não tenhas pena de seres nada

Não te apoquentes por verem as tuas faltas. A ofensa a Deus e a desedificação que podes ocasionar, isso é que te deve doer. – De resto, que saibam como és e te desprezem. – Não tenhas pena de seres nada, porque assim Jesus tem que pôr tudo em ti. (Caminho, 596)

Escreve o evangelista S. João: ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigénito que está no seio do Pai é que o deu a conhecer, comparecendo ante o olhar atónito dos homens: primeiro, como um recém-nascido, em Belém; depois, como um menino igual aos outros; mais tarde, no Templo, como um adolescente, inteligente e vivo; e, por fim, com aquela figura amável e atraente do Mestre que movia os corações das multidões que o acompanhavam entusiasmadas.

Bastam algumas provas do Amor de Deus que se encarna para que a sua generosidade nos toque a alma, nos incendeie, nos mova com suavidade a uma dor contrita pelo nosso comportamento, em tantas ocasiões mesquinho e egoísta. Jesus não tem inconveniente em rebaixar-se, para nos elevar da miséria à dignidade de filhos de Deus, de irmãos seus. Pelo contrário, tu e eu muitas vezes enchemo-nos nesciamente de orgulho pelos dons e talentos recebidos, até ao ponto de os converter em pedestal para nos impormos aos outros, como se o mérito de algumas acções, acabadas com relativa perfeição, dependesse exclusivamente de nós: Que possuis tu que não tenhas recebido de Deus? E se o recebeste, porque te glorias como se o não tivesses recebido?


Ao considerar a entrega de Deus e o seu aniquilamento – falo para que o meditemos, pensando cada um em si mesmo –, a vanglória, a presunção do soberbo revela-se um pecado horrendo, precisamente porque coloca a pessoa no extremo oposto ao modelo que Jesus nos assinalou com a sua conduta. Pensai nisto devagar: Ele humilhou-se, sendo Deus. O homem, cheio do seu próprio eu, pretende enaltecer-se a todo o custo, sem reconhecer que está feito de barro e barro de má qualidade. (Amigos de Deus, nn. 111–112)

Evangelho e comentário

Tempo comum


Evangelho: Mc 6, 1-6

1 Tendo Jesus partido dali, foi para a Sua terra; e seguiram-n'O os discípulos.2 Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os Seus numerosos ouvintes admiravam-se e diziam: «Donde vêm a Este todas estas coisas que diz? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E como se operam tais maravilhas pelas Suas mãos?3 Não é Este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós as Suas irmãs?».4 E estavam perplexos a Seu respeito.5 Mas Jesus dizia-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa». E não pôde fazer ali milagre algum; apenas curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.6 E admirava-Se da incredulidade deles. Depois, andava ensinando pelas aldeias circunvizinhas.

Comentário:

São Marcos diz expressamente que Jesus se admirava com a incredulidade dos Seus conterrâneos, não obstante ter por certo que "um profeta não ser bem aceite na sua terra".

As pessoas preconceituosas têm este costume reprovável: mais facilmente dão crédito a um estranho que a alguém conhecido!

Porquê?

Porque vêm nesse alguém incapaz de outra coisa que não seja a ideia que fazem dele: um carpinteiro, na sua opinião, só terá aptidões de carpinteiro...


(ama, comentário sobre Mc 6, 1-6, 2016.11.14)

Leitura espiritual

 A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO V

CAPÍTULO XII

…/2

O mesmo Salústio elogia dois grandes e ilustres varões da sua época: Marco Catão e Caio César. Diz ele que durante muito tempo não teve a república ninguém de alta virtude, mas que, no seu tempo, estes dois, aliás de carácter diferente, foram de elevado valor. Elogia César porque muito desejava um grande comando militar, um exército e uma nova guerra onde o seu talento pudesse brilhar. Assim, acontecia que nas intenções destes homens grandes pela coragem estava Belona a excitar à guerra míseros povos e a atiçá-los com o seu sangrento azor­rague, para lhes dar ocasião de que brilhasse o seu talento. Era a isto que conduzia, sem dúvida, a avidez do louvor e a paixão da glória.

Foi, pois, primeiro por amor da liberdade, depois pelo amor do domínio e pela paixão dos louvores e da glória que eles realizaram tantas façanhas. Das duas coisas dá testemunho o seu insigne poeta. Efectivamente, diz:

Porsena ordenava que recebessem o banido Tarquínio e mantinha a cidade sob a pressão de um temível cerco; mas os descendentes de Eneias, por amor à liberdade, voavam ao combate [i].

Para eles, nesse tempo, a grandeza consistia em morrerem corajosamente ou livremente viverem. Mas, quando a liberdade foi conquistada, surgiu neles tamanha paixão de glória, que já a liberdade só lhes parecia de pouca monta se se não lhe acrescesse a ânsia de domínio. Para eles, era tido em grande conta o que o mesmo poeta diz, pondo-o na boca de Júpiter:

Mais ainda: a intratável Juno, que agora mantém pelo medo o mar e a terra e o céu, mudará para melhor os seus propósitos e comigo favorecerá o povo togado, os Romanos  senhores do mundo. Assim me aprouve. Virá um tempo em que, com o passar dos lustros, a casa de Assáraco oprimirá pela escravidão Ftia e a ilustre Micenas e dominará sobre Argos vencida [ii].

Na verdade, o que Vergílio põe na boca de Júpiter predizendo o futuro, eram factos que ele próprio recordava e que discernia perfeitamente como se fossem presentes. Mas eu quis recordá-los para mostrar que os Romanos, depois da liberdade, tinham em tal conta a vontade de domínio, que desta fizeram o objecto dos seus maiores louvores. É por isso que o mesmo poeta põe acima das artes dos outros povos as artes próprias dos Romanos — de reinar e de comandar, de subjugar e de conquistar pelas armas os povos. Diz ele:

Outros forjarão com habilidade o bronze, até lhe darem alento, concedo; e arrancarão ao mármore rostos com vida, Defenderão causas com mais eloquência, Traçarão com o compasso os caminhos do céu, E falarão do nascimento dos astros: Mas tu, Romano, atenta em governar os povos com o teu domínio, Estas serão as tuas artes: impor as normas da paz, Perdoar aos vencidos e domar os soberbos... [iii]

Estas artes exerciam-nas os Romanos com tanta maior mestria quanto menor era a sua entrega à volúpia, ao enervamento da alma e do corpo pela ânsia de adquirir e de aumentar riquezas, por estas corrompendo os costumes, espoliando os cidadãos pobres e presenteando torpes histriões.

Aliás, esses que, quando isto narrava Salústio e Vergílio cantava, já ultrapassavam os antigos pela corrupção dos costumes e mergulhavam na abundância, já não era pelas ditas artes mas por fraudes e mentiras que procuravam as honras e as glórias. Por isso é que o mesmo historiador diz:

Primitivamente, a cupidez trabalhava menos o coração dos homens do que a ambição — vício aliás mais próximo da virtude. Na verdade, tanto o homem bom como o indolente anseiam igualmente pela glória, pelas honras e pelo poder. Mas aquele tenta-o pelo verdadeiro caminho, ao passo que o segundo, desprovido de meios honestos, procura lá chegar pela astúcia e pela mentira [iv].

Estas é que são as boas artes: era por meio da virtude e não por meio de uma astuta ambição que se chegava às honras, à glória, ao poder — que tanto o bom como o fraco, sem restrição desejam para si; mas aquele, ou seja, o bom, esforça-se por seguir pelo verdadeiro caminho. A virtude é o caminho pelo qual se avança para atingir o seu fim, ou seja, a glória, a honra, o poder.

Que os Romanos tinham isto bem arreigado no seu íntimo, indicam-no os templos dos deuses levantados muito perto um do outro à Virtude e à Honra, tomando por deuses os dons de Deus. Donde se pode de­duzir que fim queriam eles que fosse o da virtude e para onde a orientavam os que eram bons, ou seja: para a honra; porque os maus nem sequer a possuíam, embora desejassem possuir honras que se esforçavam por adquirir, mas por malas artes, isto é, pela manha e pela mentira.

Melhor do que César foi Catão elogiado por Salústio. Com efeito, diz dele:

Quanto menos desejava a glória, mais ela o seguia [v].

Efectivamente a glória, pela qual ardem de desejo, é um juízo de homens que têm de outros homens uma alta opinião. E por isso é melhor a virtude que não se satisfaz com o testemunho humano mas com o da sua consciência. Daí o que diz o Apóstolo:

Para nós, a nossa glória é o testemunho da nossa consciência [vi].
e noutra passagem:

Examine cada um a sua obra — e então em si mesmo somente e não em outrem terá a glória [vii].

Portanto, a glória, a honra e o poder que os Romanos para si tanto desejavam e a que os bons se esforçam por chegar por meios honestos — não é a virtude que os deve seguir, mas eles à virtude. É que não é verdadeira virtude senão aquela que tende para um fim onde se en­contre o bem do homem, melhor do que o qual nada há. Por isso Catão não devia pedir as honras que pediu, a cidade é que lhas devia conceder em atenção à sua virtude sem ele as pedir.

Mas, se César e Catão são dois romanos desse tempo grandes pela virtude, a virtude de Catão parece muito mais próxima da verdade do que a de César. Que é que a cidade valia nessa época e que é que ela valia antes, vejamo-lo segundo o parecer de Catão. Diz ele:

Livrai-vos de julgar que os nossos antepassados de um pequeno fizeram um grande estado pela força das armas. Se assim fosse, tê-lo-íamos hoje muito mais belo. De facto, dispomos de maior cópia de aliados e de cidadãos e também de mais armas e cavalos do que eles. Mas foram outros os meios que os tomaram grandes e que nós não temos: na pátria, dedicação ao trabalho, no exterior, uma autoridade justa; nas deliberações, ânimo livre, não culpado de crime ou de paixão. Em vez destes, temos a luxúria e a avareza, no Estado a miséria, entre os particulares a opulência. Louvamos as riquezas e adoptamos a preguiça; nenhuma distinção entre os bons e os maus; a ambição possui todos os prémios da virtude. Nem admira: quando cada um de vós toma as decisões por sua conta. Em cada casa sois escravos do prazer e, em público, do dinheiro e do favor, depois do que todos se atiram ao Estado como se fosse coisa abandonada [viii].

Quem ouvir estas palavras de Catão (ou de Salústio) laudatórias dos velhos Romanos, julgará que todos ou a maioria deles mereciam tais elogios. Mas não é assim. De outro modo não seria verdadeiro o que ele mesmo escreveu e eu citei no segundo livro desta obra. Relata ele lá que, desde o princípio, as injustiças dos mais fortes ocasionaram a separação da plebe e dos patrícios;

que no interior houve outras dissensões publicam;

que se não viveu sob um direito justo e bem aplicado senão depois da expulsão dos reis, enquanto se manteve o medo a Tarquínio e até que acabasse a pesada guerra que se teve de sustentar, por causa dele, com a Etrúria;

que posteriormente, porém, os patrícios sujeitaram a plebe a um poder escravizante, açoitaram-na à maneira dos reis, expulsaram-na de suas terras, e, arredados os outros, exerceram o poder sozinhos;

que o fim de tais discórdias (em que eles pretendiam dominar e a plebe se recusava a servir) só se verificou com a Segunda Guerra Púnica, porque de novo um grande medo começou a pesar sobre os Romanos, a desviar estas almas inquietas das suas agitações devido a um cui­dado maior, e a reconduzi-los à concórdia cívica. Mas por intermédio de alguns poucos, bons à sua maneira, começaram as grandes causas a ser administradas — e foi graças à previdência destes poucos bons que, suportadas e dominadas as provações, a república começou a desenvolver-se.

O mesmo historiador diz que, ao ouvir e ao ler muitas destas narrativas sobre os magníficos empreendimentos do povo romano na paz e na guerra, em terra e no mar, se comprouve em investigar o que é que tinha principalmente permitido aguentar o peso de tamanhas empresas. Sabia que muitas vezes com um punhado de homens os Romanos tinham enfrentado grandes legiões de inimigos, e tinha conhecimento de que haviam conduzido a guerra com poucas tropas contra reis opulentos. Depois de muitas reflexões disse que chegara à convicção de que tudo isto se devia à egrégia virtude de uns poucos cidadãos e que assim a pobreza vencera a opulência e um grupo reduzido vencera a multidão. E prossegue:

Mas desde que a cidade se corrompeu pelo luxo e pela ociosidade, foi a vez de a república sustentar pela sua magnanimidade os vícios dos seus generais e dos seus magistrados [ix].

Foi, pois, a virtude de uns poucos que se esforçaram por chegar pelo verdadeiro caminho à glória, à honra, ao poder, isto é, pela própria virtude, que foi louvada por Catão. Daí que, dentro da pátria, houvesse essa dedicação ao trabalho que Catão recorda, de forma que o erário fosse opulento e os negócios privados moderados. Mas o vício, depois de corrompidos os costumes, pôs as coisas do avesso: no Estado, a pobreza, — entre os particulares, a opulência.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Vergílio, Eneida, VIII, 646-648.
[ii] Vergílio, Eneida I, 279-285.
[iii] Vergílio, Eneida, I, 847-853.
[iv] Salústio, Catil., XI, 1 e segs.
[v] Salústio, Catii, LIV, 6.
[vi] II Cor., I, 12.
[vii] Gál., VI, 4.
[viii] Salústio, Catil., LII, 19-24.
[ix] Salústio, Hist. fragn., 1 ,11.