27/12/2016

Seguir de perto os passos de Cristo

A nossa condição de filhos de Deus levar-nos-á – insisto – a ter espírito contemplativo no meio de todas as actividades humanas – luz, sal e levedura, pela oração, pela mortificação, pela cultura religiosa e profissional –, fazendo realidade este programa: quanto mais dentro do mundo estivermos, tanto mais temos de ser de Deus. (Forja, 740)

Não contemplamos o mundo com um olhar triste. Talvez involuntariamente, prestaram um fraco serviço à catequese os biógrafos de santos que queriam encontrar a todo o custo coisas extraordinárias nos servos de Deus, logo desde os primeiros vagidos. (…)


Agora, com o auxílio de Deus, aprendemos a descobrir ao longo dos dias (aparentemente sempre iguais) spatium verae penitentiae, tempo de verdadeira penitência; e nesses instantes fazemos propósitos de emendatio vitae, de melhorar a nossa vida. Este é o caminho para nos predispormos à graça e às inspirações do Espírito Santo na alma. E com essa graça – repito – vem o gaudium cum pace, a alegria, a paz e a perseverança no caminho. (Cristo que passa, 9)

Temas para meditar - 379

Orgulho


O horizonte do orgulho é terrivelmente limitado: esgota-se em si mesmo. O orgulhoso não consegue ver para alem da sua pessoa, das suas qualidades, das suas virtudes, do seu talento. O seu horizonte é um horizonte sem Deus. E, neste panorama tão mesquinho, nem sequer contam os outros: não há lugar para eles.

(salvatore canalsAscética meditada, Éfeso 4ª ed. nr. 87)

Evangelho e comentário

Tempo do Natal

São João – Apóstolo e Evangelista

Evangelho: Jo 20, 2-8

2 Correu então, e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram». 3 Partiu, pois, Pedro com o outro discípulo e foram ao sepulcro. 4 Corriam ambos juntos, mas o outro discípulo corria mais do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro.5 Tendo-se inclinado, viu os lençóis no chão, mas não entrou. 6 Chegou depois Simão Pedro, que o seguia, entrou no sepulcro e viu os lençóis postos no chão, 7 e o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus, que não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte. 8 Entrou também, então, o outro discípulo que tinha chegado primeiro ao sepulcro. Viu e acreditou.

Comentário:

A João, bastou-lhe ver os panos que envolveram Jesus morto para acreditar.

Tomé precisa de pôr o dedo nos buracos deixados pelos pregos que O prenderam na Cruz e meter a mão no Seu lado trespassado para a lança.

João vê e cala-se.

Tomé depois de confirmada a Ressurreição pronuncia a mais ardente declaração de Fé: «Meu Senhor e meu Deus

A ambos move o amor, quanto mais e puro é o amor menos provas necessita para acreditar no que ama.

(ama, comentário sobre Jo 20, 2-8, 2013.12.27)






Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO XVIII
Violência e paixão carnal alheias sofridas no corpo da vítima contra sua vontade.

Claro que cada um receia que a luxúria alheia o polua. Não o poluirá se for alheia; se, porém, o poluir, é porque não é alheia. A pudicícia é uma virtude do espírito e tem por companheira a fortaleza que lhe dá ânimo para tolerar os males, mas não para consentir no mal. Mas ninguém, por mais magnânimo e pudico que seja, tem em sua mão dispor da sua própria carne; apenas dispõe da sua anuência ou repulsa. Acaso admitirá alguém de são juízo que perderá a sua castidade no caso de se praticarem actos de paixão carnal estranha, mesmo consumados, na sua própria carne tomada à força? Se num caso destes a castidade desaparecer, sem dúvida já não será uma virtude do espírito e não formará parte daqueles bens que constituem uma conduta intangível. Será antes um dos bens do corpo, tais como o vigor, a beleza, a saúde e outros que tais.
Estes bens, mesmo que eles próprios diminuam, uma vida boa e justa é que nunca diminuirão. Se deste tipo fosse a pudicícia, a que propósito nos esforçaríamos para a não perdermos mesmo com perigo para o corpo? Mas, se é um bem do espírito, nem com a violência sobre o corpo ela se perderá. Mais ainda: quando o bem da santa continência resiste ao assalto impuro das concupiscências carnais, o próprio corpo fica santificado. Se persiste uma decisão inabalável de não ceder às suas solicitações, não desaparece a santidade, mesmo a do corpo, pois que se mantém a vontade e até a faculdade de o utilizar santamente.

Nem o corpo é santo pelo facto de os seus membros se manterem íntegros ou pelo facto de não terem sido objecto de qualquer contacto, pois, por diversas razões, podem sofrer lesões e violências. Os médicos por vezes praticam, por razões de saúde, actos que repugnam à vista.
A parteira, ao verificar com a mão a integridade de uma donzela, pode destruir essa integridade por maldade, por imperícia ou acidentalmente. Julgo que não haverá ninguém tão estulto que pense que a santidade da donzela, inclusive a corporal, se rebaixou devido a essa falta de integridade. Quando o espírito se mantém firme, no propósito que lhe mereceu a santidade, mesmo corporal, não se arranca essa santidade pela violência da concupiscência alheia. A perseverança da sua continência mantém-lhe a santidade.

Se, porém, uma mulher de coração corrompido viola a promessa feita a Deus e procura um sedutor para se entregar à paixão viciosa — diremos que, enquanto vai a caminho, conserva a santidade corporal depois de ter perdido e destruído a do espírito, que tornava santo o corpo?
Longe de nós tal erro. Tiremos do exposto antes a lição seguinte: a santidade do corpo, mesmo em caso de violência, não se perde se permanecer a santidade do espírito; mas perde-se, mesmo que o corpo se mantenha intacto, se se perder a santidade do espírito. Por isso é que não há qualquer razão para se castigar a si mesma com a morte espontânea a mulher violentamente profanada e vítima de pecado alheio. Muito menos, antes que isso aconteça. Porque havemos de consentir um homicídio certo, quando a própria torpeza, ainda por cima alheia, é incerta?
CAPÍTULO XIX

Lucrécia, que se matou devido à violência nela perpetrada.

Dissemos que, quando há violência corporal sem que haja mudado para o mal, no mais íntimo, a resolução de manter a castidade, a torpeza recai somente sobre quem satisfaz a paixão carnal e nunca sobre quem caiu, contra sua vontade, sob a violência carnal. Ousarão contradizer isto aqueles contra os quais defendemos, não só a santidade espiritual, mas também a santidade corporal das mulheres cristãs violadas no cativeiro? Tecem altos louvores à pudicícia de Lucrécia, nobre matrona da velha Roma. O filho do rei Tarquínio cevou a sua lascívia com violência no corpo dela. Ela relatou este crime do devasso jovem a seu marido Colatino e a Bruto, seu parente, varões de estirpe e coragem das mais elevadas, fazendo com que eles lhe prometessem vingança. Em seguida, amargurada pela ofensa contra si cometida e não a podendo suportar, pôs termo à vida. Que diremos? Deve ela ser considerada adúltera ou casta? Quem julgará que se deve despender qualquer esforço nesta discussão? Certo declamador disse com elegância e verdade:
Ó maravilha: foram dois e só um cometeu adultério [i].

Dito esplendidamente e com toda a justeza! Reparou bem, nesta união dos dois corpos, a ignominiosa paixão de um e a castíssima vontade da outra. Atende, não à união dos corpos, mas à separação das almas, quando diz:
Foram dois e só um cometeu adultério2 [ii].

Mas que é isso? Será que a vingança vai recair com mais rigor sobre quem não cometeu adultério? Na verdade, Tarquínio foi expulso da pátria com seu pai; mas Lucrécia foi imolada com o supremo castigo. Se não há impudicícia na vítima violentada, — também não há justiça quando quem sofre o castigo é a mulher casta. Apelo para vós, leis e juízes romanos! Depois de se cometer um crime, nunca tendes permitido que o réu seja impunemente executado sem que antes haja decisão judicial. Se alguém apresentasse este crime perante o vosso tribunal e ficasse provado, não só que sem prévia decisão foi assassinada uma mulher, mas ainda que o foi uma mulher casta e inocente — não aplicaríeis rigorosamente a quem o cometeu a pena adequada? Foi o que fez Lucrécia. Ela, a tão exaltada Lucrécia, ela sim, é que matou uma Lucrécia inocente, casta e, para mais, vítima de violência. Proferi a sentença! Se não o podeis fazer porque já se não pode apresentar quem poderíeis punir — porque louvais, com tanta exaltação, a homicida duma inocente e casta?
Certamente que não tereis argumentos para a defender perante os juízes dos infernos, mesmo que estes sejam como os cantam os vossos poetas nos seus poemas. Com certeza que ela se encontrará entre aqueles

que, sendo inocentes, com suas próprias mãos se mataram e exaltaram suas vidas renegando a luz [iii].
e, quando pretenda voltar à terra,

os fados obstam a isso e o charco odioso retém-na presa nas suas repugnantes águas [iv].
Será que talvez ela se não encontre lá por ter acabado com a sua vida, não inocente, mas consciente da sua malícia? Será que (só ela o poderá saber), depois de violentada pelo tal jovem, ela mesma, arrastada pelo próprio prazer, consentiu — e foi tão grande a sua dor que decidiu expiar esse prazer em si mesma com a morte? Mesmo assim não devia suicidar-se, se é que havia possibilidade de fazer perante os seus falsos deuses uma frutuosa penitência. Em tal caso, é falso aquele dito: «houve dois e só um cometeu adultério». Convém antes dizer que ambos foram adúlteros — um com a sua evidente violência, a outra com a sua latente adesão. Não se suicidou sendo inocente e não podem por isso dizer os literatos que a defendem que não está nas moradas infernais entre os que,

sendo inocentes, com suas próprias mãos se mataram.

Mas assim, este caso sofre de defeito por dois lados: se se atenua o homicídio— reforça-se o adultério; se se desculpa o adultério — agrava-se o homicídio. Não há saída possível quando se diz: se é adúltera, porque é que se exalta? Se é casta, porque é que se suicida?
A nós, porém, — para se confundirem os que, alheios a considerações de santidade, insultam as mulheres cristãs violadas durante o cativeiro— , basta-nos, no exemplo tão nobre desta mulher, o que, como um dos maiores louvores, foi dito:

Foram dois e só um cometeu adultério.

Tinham Lucrécia em tal conta que a julgaram incapaz de se macular com um consentimento adulterino.
O facto de se ter suicidado por ser vítima de um adúltero sem ser adúltera não constitui amor à castidade, mas debilidade da vergonha. Efectivamente, envergonhou-se da torpeza alheia cometida no seu corpo embora sem cumplicidade da sua parte. Como romana que era, demasiado ávida de glória, teve receio de que a violência sofrida durante a sua vida, a interpretasse o público como consentida se continuasse a viver. É por isso que ela julgou que devia apresentar aos olhos dos homens aquele castigo como testemunho da sua intenção, já que não podia mostrar-lhes a sua consciência. Encheu-a de vergonha a ideia de poder ser julgada cúmplice do que outrem torpemente nela realizara sem o seu consentimento interior.

Não procederam assim as mulheres cristãs que, apesar de terem suportado situações semelhantes, continuam a viver. Não vingaram em si um crime alheio, para não acrescentarem o seu aos crimes dos outros. O facto de inimigos terem cometido, por concupiscência, uma violação, não as levou a cometerem, por vergonha, um homicídio contra si próprias. No seu íntimo, mantêm com certeza a glória da castidade e o testemunho da sua consciência.
Mantêm-na também perante o seu Deus e de nada mais precisam. Isto lhes basta para procederem com rectidão — não aconteça que, para evitarem a ferida da suspeita humana, se desviem da autoridade da lei divina.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Mirabile dictu; duo fuerunt, et adulterium unus admisit.
Dito de autor desconhecido.
[ii] Duo fuerunt, et adulterium unus admisit.
U t Supra.
[iii] ... qui sibi letum
Insontes peperere manu, lucemque perosi, Projecere animas.
Vergílio, Eneida VI, 434-436.
[iv] Fas obstat, tristisque palus inamabilis undae Adligat
Id. Ib. 439.

Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

I. A IGREJA DE JERUSALÉM [i]

Capítulo 5

Intervenção de Gamaliel

33Enraivecidos com tal linguagem, pensaram a sério em matá-los. 34Ergueu-se, então, um homem no Sinédrio, um fariseu chamado Gamaliel, doutor da Lei, respeitado por todo o povo. Mandou sair os acusados por alguns momentos 35e, tomando a palavra, disse:

«Homens de Israel, tende cuidado com o que ides fazer a esses homens! 36Nos últimos tempos, apareceu Teudas, que se dizia alguém e ao qual seguiram cerca de quatrocentos homens. Ele foi liquidado e todos os seus partidários foram destroçados e reduzidos a nada. 37Depois dele, apareceu também Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo atrás dele. Morreu, igualmente, e todos os seus adeptos foram dispersos. 38E, agora, digo-vos: não vos metais com esses homens, deixai-os. Se o seu empreendimento é dos homens, esta obra acabará por si própria; 39mas, se vem de Deus, não conseguireis destruí-los, sem correrdes o risco de entrardes em guerra contra Deus.»

Concordaram, então, com as suas palavras. 40Trouxeram novamente os Apóstolos e, depois de os mandarem açoitar, proibiram-lhes de falar no nome de Jesus e libertaram-nos. 41Quanto a eles, saíram da sala do Sinédrio cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus. 42E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Boa-Nova de Jesus, o Messias.



[i] (1,12-6,7)

Jesus Cristo e a Igreja – 139

Celibato eclesiástico: História e fundamentos teológicos

IV. O CELIBATO NA DISCIPLINA DAS IGREJAS ORIENTAIS

A fragmentação do sistema disciplinar no Oriente

…/19

A Legislação do II Concílio Trullano.

…/13

Mas em todos estes textos, documentalmente manipulados, se conserva, ou melhor, se busca a referência aos Apóstolos e à Igreja antiga para dar ao celibato bizantino e oriental, através destes testemunhos autorizados, o mesmo fundamento que tinha a tradição ocidental, explicitamente indicado por ela em Cartago e noutros lugares.

Que podemos dizer diante deste procedimento trullano? Os Padres orientais se sentiam, não há dúvidas, autorizados para decretar disposições particulares para a Igreja Bizantina, posto que desde muito tempo antes haviam insistido em sua autonomia jurídica no âmbito da administração e da disciplina. Somente se sentiam obrigados pelas decisões doutrinais da Igreja universal estabelecidas em Concílios Ecuménicos nos quais também eles tinham participado. Pode-se, desde já, reconhecer naqueles Padres – que estabeleciam as normas de validade geral na sua Igreja – o direito de levar em conta só a situação de fato na questão do celibato dos ministros sagrados, para a que viam possibilidade de reforma frutuosa. Que isso fosse possível em um campo no que, como o caso do celibato, está implicada a Igreja Universal é outra questão. Mas o que sem dúvida podemos negar é o direito a fazê-lo com este método, ou seja, mediante uma manipulação dos textos que transforma a verdade na sua contrária.

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





26/12/2016

Ano litúrgico, Cristo no tempo

Ao oferecer-te aquela História de Jesus, pus como dedicatória: Que procures a Cristo. Que encontres a Cristo. Que ames a Cristo. – São três etapas claríssimas. Tentaste, pelo menos, viver a primeira? (Caminho, 382)

A história humana é e será sempre uma “história de salvação”, e é isto o que a Igreja celebra no ano litúrgico. As festas e tempos não são “aniversários”, uma mera repetição de alguns momentos históricos da vida do Senhor; são a celebração da sua presença, a actualização da salvação que o Padre, por Jesus Cristo, nos comunica no Espírito Santo.

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II apresenta o ano litúrgico com estas palavras: «A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo» (Sacrosanctum Concilium, 102). Cada ano litúrgico é, pois, uma nova oportunidade de graça e de presença do Senhor da história na nossa própria história quotidiana, nos acontecimentos -também nos mais insignificantes- de cada dia.

Aquele que é o mesmo, que era e que será, vem a nós no tempo, aqui e agora, para viver o presente, o de cada um, com os seus irmãos os homens.

O ano litúrgico está impregnado pela presença de salvação do Senhor para que em cada tempo litúrgico -com as suas características concretas- os cristãos possamos ser mais semelhantes a Ele, não só no sentido moral de imitação, de mudança de costumes e de melhoramento na conduta, mas de verdadeira identificação sacramental -imediata- com a vida de Cristo. Assim, a nossa vida diária converte-se num culto agradável ao Pai por acção do Espírito (cfr. Rom. 12, 1-2).

Já a partir dos primeiros séculos, à celebração dos mistérios de Cristo, a Igreja uniu a celebração da Virgem e do dia da passagem para casa do Pai dos mártires e dos santos. Com a sua vida, souberam dar testemunho da vida de Cristo, especialmente da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa ao Céu. Por isso ao longo do ano litúrgico são apresentados aos fiéis cristãos como exemplo de amor a Deus.


Frequentemente, o Senhor fala-nos do prémio que nos ganhou com a sua Morte e Ressurreição. Vou preparar um lugar para vós. Depois que Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também (Cfr. Jo. XIV, 2-3). O Céu é a meta do nosso caminho terreno. Jesus Cristo precedeu-nos e ali, na companhia da Virgem e de S. José -a quem tanto venero- dos Anjos e dos Santos, aguarda a nossa chegada. (Amigos de Deus, 220)

Evangelho e comentário

Tempo do Natal

Santo Estevão – Primeiro Mártir

Evangelho: Mt 10, 17-22

17 Acautelai-vos dos homens, porque vos farão comparecer nos seus tribunais e vos açoitarão nas sinagogas. 18 Sereis levados por Minha causa à presença dos governadores e dos reis, para dar teste­munho diante deles e diante dos gentios. 19 Quando vos entregarem, não cuideis como ou o que haveis de falar, porque naquela hora vos será inspirado o que haveis de dizer. 20 Porque não sereis vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é o que falará em vós. 21 O irmão entregará à morte o seu irmão e o pai o seu filho; os filhos se levantarão contra os pais e lhes darão a morte. 22 Vós, por causa do Meu nome, sereis odiados por todos; aquele, porém, que perseverar até ao fim será salvo

Comentário:

De todas a virtudes humanas a perseverança será, talvez, a mais difícil de conseguir em plenitude.

Porque é diária, constante, sem pausa.

Não se persevera em algo de “tempos a tempos” mas com tenaz constância como algo que nos torna iguais a nós mesmos, ao que queremos ser, ao que devemos ser.

A perseverança traz consigo um cortejo de virtudes que dificilmente sobreviveriam se a não tivéssemos.

(ama, comentário sobre Mt 10, 17-22, 2015.12.26)






Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO XIV
No seu cativeiro nunca aos santos faltaram as consolações divinas.

Mas dirão que também muitos cristãos foram conduzidos ao cativeiro. Muito de lamentar seria que os levassem para onde não encontrassem o seu Deus. Há nas Escrituras Santas um grande lenitivo mesmo no infortúnio. Cativos estiveram os três jovens; cativo esteve Daniel; cativos estiveram outros profetas. Nunca Deus lhes faltou como consolador. Não iria abandonar os seus fiéis ao domínio de um povo, bárbaro sim, mas humano, Aquele que não abandonou o profeta no ventre do monstro.
Aqueles com quem discutimos preferem zombar destas coisas a crer nelas. Todavia, também eles nos seus escritos crêem que Arion de Metimna, célebre tocador de cítara, quando foi arrojado de um navio, foi recebido no dorso de um golfinho e chegou assim a terra. É certo que o que narramos acerca do profeta Jonas é mais incrível. Mais incrível na verdade porque mais maravilhoso — mais maravilhoso porque mais portentoso.

CAPÍTULO XV

Régulo, que deu um exemplo ao suportar o cativeiro espontaneamente por motivos religiosos, nunca foi socorrido pelos deuses que adorava.

Têm eles, entre os seus mais ilustres varões, o notabilíssimo exemplo de um cativeiro voluntariamente suportado por motivos religiosos. Marco Régulo, general romano, esteve cativo entre os Cartagineses. Como estes preferiam que aqueles lhes devolvessem os seus prisioneiros a reterem em seu poder os romanos, enviaram Régulo com os seus embaixadores a Roma com o fim primordial de obterem a permuta. Mas antes fizeram-no jurar que voltaria para Cartago se nada conseguisse. Para lá se dirigiu, mas exortou o Senado a não realizar a troca dos cativos por estar convencido da sua desvantagem para o Estado Romano. Depois desta exortação, nenhum dos seus o obrigou a voltar para o inimigo. Mas ele cumpriu o que voluntariamente tinha jurado. Os cartagineses entregaram-no então a horríveis e requintadas torturas, dando-lhe a morte. Com efeito, meteram-no dentro de um apertado caixão dentro do qual tinha forçosamente de se manter de pé; pregaram nele agudíssimos pregos, de maneira que a parte nenhuma se podia encostar sem sofrer atrocíssimas dores e aniquilaram-no à força de vigílias. Sem dúvida que é justificadamente que se louva tamanha virtude, maior ainda que a sua infelicidade.
Ele jurou pelos deuses cujo culto foi objecto de uma proibição que, segundo eles, nos valeu as actuais desgraças infligidas ao género humano. Pois bem, se estes deuses, aos quais se prestava culto na mira de se obter a prosperidade na vida presente, quiseram ou permitiram a imposição de tais penas a quem se lhes manteve fiel sob juramento — que castigos, mais duros ainda, não teriam na sua irritação infligido o seu perjúrio? Mas porque é que do meu raciocínio não hei-de tirar antes uma dupla conclusão? Certamente que ele de tal forma prestava culto aos deuses que, devido ao seu juramento, nem podia deixar-se ficar na sua pátria nem ir para qualquer outra parte; mas, sem a menor hesitação, voltou para junto dos seus encarniçados inimigos. Não há dúvida de que estava totalmente enganado se julgava útil a esta vida o que lhe acarretou tão horrível morte. Com o seu exemplo elucidou-nos de que os deuses de nada servem aos seus devotos relativamente à felicidade temporal. Com efeito, apesar de devotado ao seu culto, foi vencido e levado cativo; e, porque não quis agir contra o juramento feito em nome deles, depois de o terem torturado por um novo género de suplícios, até então inaudito e horrível em excesso, suprimiram-no. Se, porém, o culto dos deuses concede como recompensa a felicidade depois desta vida — porque é que contra o Cristianismo levantam a calúnia de que a desgraça de Roma resultou do abandono do culto dos deuses? Mesmo adorando-os com toda a fidelidade, não poderia ela vir a ser tão desgraçada como Régulo? A não ser talvez que a esta evidente verdade se oponha a loucura de uma surpreendente cegueira, a ponto de se ousar pretender que uma cidade inteira não pode ser infeliz quando venera os deuses, mas que um indivíduo pode sê-lo. Como se o poder dos deuses fosse mais capaz de proteger a multidão do que o indivíduo, sendo certo que são os indivíduos que constituem a multidão.

Mas, dirão: M. Régulo, mesmo no cativeiro e no meio de tais tormentos físicos, pôde conservar a sua felicidade graças à virtude do seu espírito. Procurem então uma virtude que possa tornar feliz toda uma cidade. É certo que a felicidade da cidade e a felicidade do homem não têm origem diversa, pois que a cidade mais não é que a multidão dos homens em concórdia. Não discuto agora a natureza da virtude de Régulo. Para já, basta que este nobilíssimo exemplo os obrigue a reconhecerem que o culto dos deuses não deve ser prestado na mira dos bens corporais ou das coisas externas ao homem. Ele preferiu
carecer de todas elas a ofender os deuses pelos quais jurara.
Mas que havemos de fazer com homens que se gabam de terem tido tal cidadão e receiam ter tal cidade? Então, se isso não temem, confessem que desgraça semelhante à de Régulo pode cair mesmo sobre uma cidade tão diligente como ele em honrar os deuses, e deixem de caluniar os templos cristãos.

Mas voltemos à questão já levantada acerca dos cristãos submetidos ao cativeiro. Pois calem-se, quando a este facto se referem, os que dele se valem impudente e imprudentemente, para zombarem da mais salutar das religiões. Se não constituiu uma vergonha para os seus deuses o facto de o seu mais zeloso adorador, por ser fiel ao juramento, ter renunciado à única pátria que tinha e, cativo de seus inimigos, ter perdido a vida em torturas de inaudita crueldade após uma longa agonia, muito menos há que incriminar o nome cristão por causa do cativeiro dos seus santos que esperam, com verdadeira fé, a pátria celeste e se reconhecem peregrinos nas suas próprias moradas.

CAPÍTULO XVI

Se a violação das virgens santas, suportada sem consentimento da sua vontade durante o cativeiro, poderá manchar a virtude de espírito.

Julgam que lançam à cara dos cristãos um grande crime quando, exagerando o seu cativeiro, aludem às violações cometidas não só com as casadas e com as donzelas núbeis, mas também com religiosas. Aqui já não é a fé, nem a piedade, nem mesmo a virtude chamada castidade, mas a nossa própria discussão que se encontra constrangida entre o pudor e a razão. Não nos preocupamos aqui somente em dar uma resposta aos estranhos, mas em proporcionar um lenitivo aos nossos irmãos na fé.

Fique bem assente, antes de mais, que a virtude, norma de vida recta, dá as suas ordens aos membros do corpo a partir da sua sede, a alma, e que o corpo se santifica sendo o instrumento de uma vontade santa. Se esta permanece inquebrantável e firme, mesmo que um estranho opere com ou no corpo acções que não poderia evitar sem pecado próprio, não há culpa na vítima. Todavia, a violência cometida sobre o corpo de outrem pode não somente produzir a dor mas excitar a volúpia. Quando isto acontecer, nem por isso se arrancou da alma a sua pureza valentemente defendida, embora o pudor fique perturbado. Não se julgue consentido pela vontade do espírito o que talvez tenha acontecido com algum deleite da carne.

CAPÍTULO XVII

A morte voluntária por medo à dor ou à desonra.

Que sensibilidade humana se recusará a desculpar as que se suicidaram para evitarem tal ultraje? E se alguém acusar as que se não quiseram suicidar para evitarem com este pecado o delito alheio — esse mesmo não se livrará da acusação de estupidez. Sabemos que não há rei que consinta que se tire a vida, inclusive ao culpado, por iniciativa privada e, portanto, quem a si próprio se mata é homicida.
E é tanto mais culpado ao suicidar-se quanto mais inocente era a causa que o levou à morte. Se justificadamente detestamos o caso de Judas; se a Verdade decide que, ao suspender-se do laço, ele, longe de expiar, mais agravou a vilania da sua traição, pois que, desesperando da misericórdia de Deus, fechou com um funesto remorso todo o caminho a uma salutar penitência — muito mais se deve abster do suicídio quem nenhuma culpa teve a expiar com tal suplício. Porque Judas, ao matar-se, matou um celerado e, todavia, acabou a sua vida réu não somente da morte de Cristo, mas também da sua própria morte.
Suicidou-se por causa do seu crime e ao seu crime juntou mais outro crime. Porque é, pois, que o homem que nenhum mal causou, contra si o vai causar? Porque é que com a sua própria morte vai ele executar um inocente para não suportar um culpado? Porque é que vai cometer na sua própria pessoa um pecado próprio para evitar que nela se cometa um pecado alheio?

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

I. A IGREJA DE JERUSALÉM [i]

Capítulo 5

Prisão e libertação dos Apóstolos

17Surgiu, então, o Sumo Sacerdote com todos os seus sequazes, isto é, o partido dos saduceus; encheram-se de inveja 18e deitaram as mãos aos Apóstolos, metendo-os na prisão pública. 19Mas, durante a noite, o Anjo do Senhor abriu as portas da prisão e, depois de os ter conduzido para fora, disse-lhes: 20«Ide para o templo e anunciai ao povo a Palavra da Vida.» 21Obedientes a essas ordens, entraram no templo de manhã cedo e começaram a ensinar.

Entretanto, chegou o Sumo Sacerdote com os seus sequazes; convocaram o Sinédrio e todo o Senado dos filhos de Israel e mandaram buscar os Apóstolos à cadeia. 22Os guardas foram lá, mas não os encontraram na prisão e voltaram, declarando: 23«Encontrámos a cadeia fechada com toda a segurança e os guardas de sentinela à porta, mas, depois de a abrirmos, não encontrámos ninguém no interior.» 24Esta notícia pôs os sumos sacerdotes e o comandante do templo numa grande perplexidade acerca dos Apóstolos, e perguntavam a si próprios o que poderia significar tudo aquilo. 25Veio, então, alguém comunicar-lhes: «Os homens que metestes na prisão estão agora no templo a ensinar o povo.» 26O comandante do templo dirigiu-se imediatamente para lá com os guardas e trouxe os Apóstolos, mas não à força, pois receavam ser apedrejados pelo povo.

27Trouxeram-nos, pois, e levaram-nos à presença do Sinédrio. O Sumo Sacerdote, interrogando-os, 28disse: «Proibimo-vos formalmente de ensinardes nesse nome, mas vós enchestes Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem.»

29Mas Pedro e os Apóstolos responderam: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens. 30O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem matastes, suspendendo-o num madeiro. 31Foi a Ele que Deus elevou, com a sua direita, como Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. 32E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem.»



[i] (1,12-6,7)

Bento XVI – Pensamentos espirituais 125

Humanismo cristão


Todos nós somos impelidos pela mesma motivação fundamental e temos diante dos olhos idêntico objectivo: um verdadeiro humanismo, que reconhece no ser humano a imagem de Deus e quer ajudá-lo a levar uma vida conforme a esta dignidade.


Encíclica Deus Caritas Est, n.a 30,b, (Fevereiro de 2006)


(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

Graus da perfeição - 17

17 Graus da perfeição


17. Ser sempre mais amigo de dar alegria aos outros do que a si mesmo, e, assim, com relação ao próximo, não ter inveja nem predomínio.

Entenda-se, porém, que isto se refere ao que está de acordo com a perfeição, porque Deus muito se aborrece com os que não antepõem o que lhe agrada ao beneplácito dos homens.



(são joão da cruz, em Pequenos Tratados Espirituais)


(tradução por ama)

Diálogos apostólicos

Diálogos apostólicos II Parte  [1]

Com o dia de ontem – Dia de Natal - bem vivo ainda, concordo com tudo o que disseste sobretudo na semana passada, mas, constato com enorme angústia que há ainda muitos milhões de pessoas que não têm qualquer sentimento ou consideração especial continuando as perseguições, guerras, tumultos, e comportamentos reprováveis em todo o sentido.

Que dizes?

Respondo:

É bem verdade o que afirmas!

Isso vem provar que o Reino de Deus ainda não está em todos os locais da terra, a Sua palavra não chegou a todos os homens.

Por isso mesmo, os cristãos não podem “descansar” acomodados na sua Fé mas continuar o esforço de levar a palavra de Deus a toda a parte.

Todos somos – devemos ser - “missionários” usando as nossas capacidades nesse serviço de Deus.

Este tempo de Natal – tempo de paz, amor e alegria – é ideal para traçar planos, fazer propósitos, ponderar seriamente o que, no ano que vai começar, vamos fazer com esse objectivo.

(ama, diálogos apostólicos)



[1] Nota: Normalmente, estes “Diálogos apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase na íntegra.