26/12/2016

Ano litúrgico, Cristo no tempo

Ao oferecer-te aquela História de Jesus, pus como dedicatória: Que procures a Cristo. Que encontres a Cristo. Que ames a Cristo. – São três etapas claríssimas. Tentaste, pelo menos, viver a primeira? (Caminho, 382)

A história humana é e será sempre uma “história de salvação”, e é isto o que a Igreja celebra no ano litúrgico. As festas e tempos não são “aniversários”, uma mera repetição de alguns momentos históricos da vida do Senhor; são a celebração da sua presença, a actualização da salvação que o Padre, por Jesus Cristo, nos comunica no Espírito Santo.

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II apresenta o ano litúrgico com estas palavras: «A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo» (Sacrosanctum Concilium, 102). Cada ano litúrgico é, pois, uma nova oportunidade de graça e de presença do Senhor da história na nossa própria história quotidiana, nos acontecimentos -também nos mais insignificantes- de cada dia.

Aquele que é o mesmo, que era e que será, vem a nós no tempo, aqui e agora, para viver o presente, o de cada um, com os seus irmãos os homens.

O ano litúrgico está impregnado pela presença de salvação do Senhor para que em cada tempo litúrgico -com as suas características concretas- os cristãos possamos ser mais semelhantes a Ele, não só no sentido moral de imitação, de mudança de costumes e de melhoramento na conduta, mas de verdadeira identificação sacramental -imediata- com a vida de Cristo. Assim, a nossa vida diária converte-se num culto agradável ao Pai por acção do Espírito (cfr. Rom. 12, 1-2).

Já a partir dos primeiros séculos, à celebração dos mistérios de Cristo, a Igreja uniu a celebração da Virgem e do dia da passagem para casa do Pai dos mártires e dos santos. Com a sua vida, souberam dar testemunho da vida de Cristo, especialmente da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa ao Céu. Por isso ao longo do ano litúrgico são apresentados aos fiéis cristãos como exemplo de amor a Deus.


Frequentemente, o Senhor fala-nos do prémio que nos ganhou com a sua Morte e Ressurreição. Vou preparar um lugar para vós. Depois que Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também (Cfr. Jo. XIV, 2-3). O Céu é a meta do nosso caminho terreno. Jesus Cristo precedeu-nos e ali, na companhia da Virgem e de S. José -a quem tanto venero- dos Anjos e dos Santos, aguarda a nossa chegada. (Amigos de Deus, 220)

Evangelho e comentário

Tempo do Natal

Santo Estevão – Primeiro Mártir

Evangelho: Mt 10, 17-22

17 Acautelai-vos dos homens, porque vos farão comparecer nos seus tribunais e vos açoitarão nas sinagogas. 18 Sereis levados por Minha causa à presença dos governadores e dos reis, para dar teste­munho diante deles e diante dos gentios. 19 Quando vos entregarem, não cuideis como ou o que haveis de falar, porque naquela hora vos será inspirado o que haveis de dizer. 20 Porque não sereis vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é o que falará em vós. 21 O irmão entregará à morte o seu irmão e o pai o seu filho; os filhos se levantarão contra os pais e lhes darão a morte. 22 Vós, por causa do Meu nome, sereis odiados por todos; aquele, porém, que perseverar até ao fim será salvo

Comentário:

De todas a virtudes humanas a perseverança será, talvez, a mais difícil de conseguir em plenitude.

Porque é diária, constante, sem pausa.

Não se persevera em algo de “tempos a tempos” mas com tenaz constância como algo que nos torna iguais a nós mesmos, ao que queremos ser, ao que devemos ser.

A perseverança traz consigo um cortejo de virtudes que dificilmente sobreviveriam se a não tivéssemos.

(ama, comentário sobre Mt 10, 17-22, 2015.12.26)






Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO XIV
No seu cativeiro nunca aos santos faltaram as consolações divinas.

Mas dirão que também muitos cristãos foram conduzidos ao cativeiro. Muito de lamentar seria que os levassem para onde não encontrassem o seu Deus. Há nas Escrituras Santas um grande lenitivo mesmo no infortúnio. Cativos estiveram os três jovens; cativo esteve Daniel; cativos estiveram outros profetas. Nunca Deus lhes faltou como consolador. Não iria abandonar os seus fiéis ao domínio de um povo, bárbaro sim, mas humano, Aquele que não abandonou o profeta no ventre do monstro.
Aqueles com quem discutimos preferem zombar destas coisas a crer nelas. Todavia, também eles nos seus escritos crêem que Arion de Metimna, célebre tocador de cítara, quando foi arrojado de um navio, foi recebido no dorso de um golfinho e chegou assim a terra. É certo que o que narramos acerca do profeta Jonas é mais incrível. Mais incrível na verdade porque mais maravilhoso — mais maravilhoso porque mais portentoso.

CAPÍTULO XV

Régulo, que deu um exemplo ao suportar o cativeiro espontaneamente por motivos religiosos, nunca foi socorrido pelos deuses que adorava.

Têm eles, entre os seus mais ilustres varões, o notabilíssimo exemplo de um cativeiro voluntariamente suportado por motivos religiosos. Marco Régulo, general romano, esteve cativo entre os Cartagineses. Como estes preferiam que aqueles lhes devolvessem os seus prisioneiros a reterem em seu poder os romanos, enviaram Régulo com os seus embaixadores a Roma com o fim primordial de obterem a permuta. Mas antes fizeram-no jurar que voltaria para Cartago se nada conseguisse. Para lá se dirigiu, mas exortou o Senado a não realizar a troca dos cativos por estar convencido da sua desvantagem para o Estado Romano. Depois desta exortação, nenhum dos seus o obrigou a voltar para o inimigo. Mas ele cumpriu o que voluntariamente tinha jurado. Os cartagineses entregaram-no então a horríveis e requintadas torturas, dando-lhe a morte. Com efeito, meteram-no dentro de um apertado caixão dentro do qual tinha forçosamente de se manter de pé; pregaram nele agudíssimos pregos, de maneira que a parte nenhuma se podia encostar sem sofrer atrocíssimas dores e aniquilaram-no à força de vigílias. Sem dúvida que é justificadamente que se louva tamanha virtude, maior ainda que a sua infelicidade.
Ele jurou pelos deuses cujo culto foi objecto de uma proibição que, segundo eles, nos valeu as actuais desgraças infligidas ao género humano. Pois bem, se estes deuses, aos quais se prestava culto na mira de se obter a prosperidade na vida presente, quiseram ou permitiram a imposição de tais penas a quem se lhes manteve fiel sob juramento — que castigos, mais duros ainda, não teriam na sua irritação infligido o seu perjúrio? Mas porque é que do meu raciocínio não hei-de tirar antes uma dupla conclusão? Certamente que ele de tal forma prestava culto aos deuses que, devido ao seu juramento, nem podia deixar-se ficar na sua pátria nem ir para qualquer outra parte; mas, sem a menor hesitação, voltou para junto dos seus encarniçados inimigos. Não há dúvida de que estava totalmente enganado se julgava útil a esta vida o que lhe acarretou tão horrível morte. Com o seu exemplo elucidou-nos de que os deuses de nada servem aos seus devotos relativamente à felicidade temporal. Com efeito, apesar de devotado ao seu culto, foi vencido e levado cativo; e, porque não quis agir contra o juramento feito em nome deles, depois de o terem torturado por um novo género de suplícios, até então inaudito e horrível em excesso, suprimiram-no. Se, porém, o culto dos deuses concede como recompensa a felicidade depois desta vida — porque é que contra o Cristianismo levantam a calúnia de que a desgraça de Roma resultou do abandono do culto dos deuses? Mesmo adorando-os com toda a fidelidade, não poderia ela vir a ser tão desgraçada como Régulo? A não ser talvez que a esta evidente verdade se oponha a loucura de uma surpreendente cegueira, a ponto de se ousar pretender que uma cidade inteira não pode ser infeliz quando venera os deuses, mas que um indivíduo pode sê-lo. Como se o poder dos deuses fosse mais capaz de proteger a multidão do que o indivíduo, sendo certo que são os indivíduos que constituem a multidão.

Mas, dirão: M. Régulo, mesmo no cativeiro e no meio de tais tormentos físicos, pôde conservar a sua felicidade graças à virtude do seu espírito. Procurem então uma virtude que possa tornar feliz toda uma cidade. É certo que a felicidade da cidade e a felicidade do homem não têm origem diversa, pois que a cidade mais não é que a multidão dos homens em concórdia. Não discuto agora a natureza da virtude de Régulo. Para já, basta que este nobilíssimo exemplo os obrigue a reconhecerem que o culto dos deuses não deve ser prestado na mira dos bens corporais ou das coisas externas ao homem. Ele preferiu
carecer de todas elas a ofender os deuses pelos quais jurara.
Mas que havemos de fazer com homens que se gabam de terem tido tal cidadão e receiam ter tal cidade? Então, se isso não temem, confessem que desgraça semelhante à de Régulo pode cair mesmo sobre uma cidade tão diligente como ele em honrar os deuses, e deixem de caluniar os templos cristãos.

Mas voltemos à questão já levantada acerca dos cristãos submetidos ao cativeiro. Pois calem-se, quando a este facto se referem, os que dele se valem impudente e imprudentemente, para zombarem da mais salutar das religiões. Se não constituiu uma vergonha para os seus deuses o facto de o seu mais zeloso adorador, por ser fiel ao juramento, ter renunciado à única pátria que tinha e, cativo de seus inimigos, ter perdido a vida em torturas de inaudita crueldade após uma longa agonia, muito menos há que incriminar o nome cristão por causa do cativeiro dos seus santos que esperam, com verdadeira fé, a pátria celeste e se reconhecem peregrinos nas suas próprias moradas.

CAPÍTULO XVI

Se a violação das virgens santas, suportada sem consentimento da sua vontade durante o cativeiro, poderá manchar a virtude de espírito.

Julgam que lançam à cara dos cristãos um grande crime quando, exagerando o seu cativeiro, aludem às violações cometidas não só com as casadas e com as donzelas núbeis, mas também com religiosas. Aqui já não é a fé, nem a piedade, nem mesmo a virtude chamada castidade, mas a nossa própria discussão que se encontra constrangida entre o pudor e a razão. Não nos preocupamos aqui somente em dar uma resposta aos estranhos, mas em proporcionar um lenitivo aos nossos irmãos na fé.

Fique bem assente, antes de mais, que a virtude, norma de vida recta, dá as suas ordens aos membros do corpo a partir da sua sede, a alma, e que o corpo se santifica sendo o instrumento de uma vontade santa. Se esta permanece inquebrantável e firme, mesmo que um estranho opere com ou no corpo acções que não poderia evitar sem pecado próprio, não há culpa na vítima. Todavia, a violência cometida sobre o corpo de outrem pode não somente produzir a dor mas excitar a volúpia. Quando isto acontecer, nem por isso se arrancou da alma a sua pureza valentemente defendida, embora o pudor fique perturbado. Não se julgue consentido pela vontade do espírito o que talvez tenha acontecido com algum deleite da carne.

CAPÍTULO XVII

A morte voluntária por medo à dor ou à desonra.

Que sensibilidade humana se recusará a desculpar as que se suicidaram para evitarem tal ultraje? E se alguém acusar as que se não quiseram suicidar para evitarem com este pecado o delito alheio — esse mesmo não se livrará da acusação de estupidez. Sabemos que não há rei que consinta que se tire a vida, inclusive ao culpado, por iniciativa privada e, portanto, quem a si próprio se mata é homicida.
E é tanto mais culpado ao suicidar-se quanto mais inocente era a causa que o levou à morte. Se justificadamente detestamos o caso de Judas; se a Verdade decide que, ao suspender-se do laço, ele, longe de expiar, mais agravou a vilania da sua traição, pois que, desesperando da misericórdia de Deus, fechou com um funesto remorso todo o caminho a uma salutar penitência — muito mais se deve abster do suicídio quem nenhuma culpa teve a expiar com tal suplício. Porque Judas, ao matar-se, matou um celerado e, todavia, acabou a sua vida réu não somente da morte de Cristo, mas também da sua própria morte.
Suicidou-se por causa do seu crime e ao seu crime juntou mais outro crime. Porque é, pois, que o homem que nenhum mal causou, contra si o vai causar? Porque é que com a sua própria morte vai ele executar um inocente para não suportar um culpado? Porque é que vai cometer na sua própria pessoa um pecado próprio para evitar que nela se cometa um pecado alheio?

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

I. A IGREJA DE JERUSALÉM [i]

Capítulo 5

Prisão e libertação dos Apóstolos

17Surgiu, então, o Sumo Sacerdote com todos os seus sequazes, isto é, o partido dos saduceus; encheram-se de inveja 18e deitaram as mãos aos Apóstolos, metendo-os na prisão pública. 19Mas, durante a noite, o Anjo do Senhor abriu as portas da prisão e, depois de os ter conduzido para fora, disse-lhes: 20«Ide para o templo e anunciai ao povo a Palavra da Vida.» 21Obedientes a essas ordens, entraram no templo de manhã cedo e começaram a ensinar.

Entretanto, chegou o Sumo Sacerdote com os seus sequazes; convocaram o Sinédrio e todo o Senado dos filhos de Israel e mandaram buscar os Apóstolos à cadeia. 22Os guardas foram lá, mas não os encontraram na prisão e voltaram, declarando: 23«Encontrámos a cadeia fechada com toda a segurança e os guardas de sentinela à porta, mas, depois de a abrirmos, não encontrámos ninguém no interior.» 24Esta notícia pôs os sumos sacerdotes e o comandante do templo numa grande perplexidade acerca dos Apóstolos, e perguntavam a si próprios o que poderia significar tudo aquilo. 25Veio, então, alguém comunicar-lhes: «Os homens que metestes na prisão estão agora no templo a ensinar o povo.» 26O comandante do templo dirigiu-se imediatamente para lá com os guardas e trouxe os Apóstolos, mas não à força, pois receavam ser apedrejados pelo povo.

27Trouxeram-nos, pois, e levaram-nos à presença do Sinédrio. O Sumo Sacerdote, interrogando-os, 28disse: «Proibimo-vos formalmente de ensinardes nesse nome, mas vós enchestes Jerusalém com a vossa doutrina e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem.»

29Mas Pedro e os Apóstolos responderam: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens. 30O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem matastes, suspendendo-o num madeiro. 31Foi a Ele que Deus elevou, com a sua direita, como Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. 32E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem.»



[i] (1,12-6,7)

Bento XVI – Pensamentos espirituais 125

Humanismo cristão


Todos nós somos impelidos pela mesma motivação fundamental e temos diante dos olhos idêntico objectivo: um verdadeiro humanismo, que reconhece no ser humano a imagem de Deus e quer ajudá-lo a levar uma vida conforme a esta dignidade.


Encíclica Deus Caritas Est, n.a 30,b, (Fevereiro de 2006)


(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

Graus da perfeição - 17

17 Graus da perfeição


17. Ser sempre mais amigo de dar alegria aos outros do que a si mesmo, e, assim, com relação ao próximo, não ter inveja nem predomínio.

Entenda-se, porém, que isto se refere ao que está de acordo com a perfeição, porque Deus muito se aborrece com os que não antepõem o que lhe agrada ao beneplácito dos homens.



(são joão da cruz, em Pequenos Tratados Espirituais)


(tradução por ama)

Diálogos apostólicos

Diálogos apostólicos II Parte  [1]

Com o dia de ontem – Dia de Natal - bem vivo ainda, concordo com tudo o que disseste sobretudo na semana passada, mas, constato com enorme angústia que há ainda muitos milhões de pessoas que não têm qualquer sentimento ou consideração especial continuando as perseguições, guerras, tumultos, e comportamentos reprováveis em todo o sentido.

Que dizes?

Respondo:

É bem verdade o que afirmas!

Isso vem provar que o Reino de Deus ainda não está em todos os locais da terra, a Sua palavra não chegou a todos os homens.

Por isso mesmo, os cristãos não podem “descansar” acomodados na sua Fé mas continuar o esforço de levar a palavra de Deus a toda a parte.

Todos somos – devemos ser - “missionários” usando as nossas capacidades nesse serviço de Deus.

Este tempo de Natal – tempo de paz, amor e alegria – é ideal para traçar planos, fazer propósitos, ponderar seriamente o que, no ano que vai começar, vamos fazer com esse objectivo.

(ama, diálogos apostólicos)



[1] Nota: Normalmente, estes “Diálogos apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase na íntegra.

Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




25/12/2016

Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer?

A humildade é outro bom caminho para chegar à paz interior. – Foi Ele que o disse: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração... e encontrareis paz para as vossas almas". (Caminho, 607)

Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Também eu, instado por esta pergunta, contemplo agora Jesus, deitado numa manjedoura, num lugar que só é próprio para os animais. Onde está, Senhor, a tua realeza: o diadema, a espada, o ceptro? Pertencem-lhe e não os quer; reina envolto em panos. É um rei inerme, que se nos apresenta indefeso; é uma criança. Como não havemos de recordar aquelas palavras do Apóstolo: aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo.

Nosso Senhor encarnou para nos manifestar a vontade do Pai. E começa a instruir-nos estando ainda no berço. Jesus Cristo procura-nos – com uma vocação, que é vocação para a santidade –, a fim de consumarmos com Ele a Redenção. Considerai o seu primeiro ensinamento: temos de co-redimir à custa de triunfar, não sobre o próximo, mas sobre nós mesmos. Tal como Cristo, precisamos de nos aniquilar, de sentir-nos servidores dos outros para os conduzir a Deus.

Onde está o nosso Rei? Não será que Jesus quer reinar, antes de mais, no coração, no teu coração? Por isso se fez menino: quem é capaz de ter o coração fechado para uma criança? Onde está o nosso Rei? Onde está o Cristo que o Espírito Santo procura formar na nossa alma? Cristo não pode estar na soberba, que nos separa de Deus, nem na falta de caridade, que nos isola dos homens. Aí não podemos encontrar Cristo, mas apenas a solidão.

No dia da Epifania, prostrados aos pés de Jesus Menino, diante de um Rei que não ostenta sinais externos de realeza, podeis dizer-lhe: Senhor, expulsa a soberba da minha vida, subjuga o meu amor-próprio, esta minha vontade de afirmação pessoal e de imposição da minha vontade aos outros. Faz com que o fundamento da minha personalidade seja a identificação contigo. (Cristo que passa, 31)


Evangelho e comentário

Tempo do Natal

Evangelho: Jo 1, 1-18

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho d’Ele, exclamando: «É deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

Comentário:

São João dá-nos a exacta compreensão da Pessoa de Jesus Cristo: a Luz!

Mas trevas da morte da alma, do abismo dos desaires e dificuldades da vida corrente, no desânimo das missões por cumprir, na frustração da incapacidade de vencer o nosso orgulho que nos amarra a precon­ceitos e juízos temerários, enfim, na amálgama dos nossos defeitos e fraquezas, das faltas de confiança e coragem, a Luz de Cristo ilumina o nosso caminho, toda a nossa vida.

Seguir essa Luz é o bastante para alcançarmos a felicidade.

(ama, comentário sobre Jo 1, 1-18, 25.12.2000)



Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO X

Os santos nada perdem quando perdem as coisas temporais.

…/2
Diz-se que uma prolongada fome matou muitos cristãos.
Também isto converteram em seu proveito os autênticos homens de fé, suportando-a com espírito de religião.
A fome, ao tirar-lhes a vida, como se fora uma enfermidade corporal, libertou-os dos males desta vida. Porém, aos que não matou, ensinou-lhes a viverem mais sobriamente e a jejuarem mais prolongadamente.

CAPÍTULO XI

Fim da vida temporal — longa ou breve.

Muitos foram na verdade os cristãos massacrados.
Muitos foram consumidos em hedionda variedade de muitas mortes. Isto é duro de suportar, mas é comum a todos os que foram gerados para esta vida. Uma coisa sei: ninguém teria morrido se não existisse para morrer um dia.
O fim da vida torna igual a vida longa à vida breve. Efectivamente, de duas coisas que já não existem nem uma é melhor nem a outra é pior; nem uma é mais longa nem a outra é mais breve. Que importa o género de morte que acabará com esta vida — quando ao que morre não se obrigará que morra de novo?
A cada mortal o ameaçam mortes de todos os lados. Nos quotidianos azares desta vida, enquanto durar a incerteza acerca de qual das mortes surgirá, eu pergunto se não será preferível suportar uma morrendo, a ser por todas ameaçado vivendo.
Não ignoro quão depressa preferimos viver longos anos sob o temor de tantas mortes, a morrermos de uma vez e já não temermos diante de nenhuma. Mas uma coisa é o que o sentido carnal, fraco como é, repele por medo — e outra o que a razão, convenientemente esclarecida, convence.
Não deve considerar-se má a morte que uma vida virtuosa precede. Na verdade, o que torna má a morte mais não é que o que à morte se segue. Àqueles que necessariamente hão-de morrer não deve preocupar muito o que acontecerá para que morram, mas antes para onde terão de ir irremediavelmente depois da morte. Os cristãos sabem que foi muito melhor a morte do pobre piedoso entre os cães que o lambiam, do que a do ímpio rico entre púrpuras e linhos. Em que podem então prejudicar aos que viveram sem mácula as formas horríveis de morrer?

CAPÍTULO XII

Mesmo que tenha sido negada sepultura aos corpos humanos — com isso de nada são privados os cristãos.

Tão grande era o montão de cadáveres, que nem os puderam sepultar. A fé autêntica nenhum medo tem disso, pois, tendo presente o que foi predito, — nem as feras devoradoras impedirão a ressurreição dos corpos daqueles de quem nem sequer um dos cabelos se perderá. De maneira nenhuma a Verdade teria dito  
não temais os que matam o corpo mas não podem matar a alma [i], se constituísse obstáculo para a vida futura o quer que fosse que quisessem fazer os inimigos nos corpos dos mortos.
Ninguém haverá tão insensato que sustente que, antes de sermos mortos, não devemos temer os que matam o corpo, mas devemos temer sim os que impedem que se dê sepultura aos cadáveres. Seria então falso o que Cristo disse:
Os que matam o corpo e depois já nada mais lhe podem fazer[ii],
se tivessem alguma coisa de importante a fazer ao cadáver. Longe de nós pensar que é falso o que disse a Verdade. Diz-se que eles realmente algum dano causam quando matam, pois, que o corpo tem sensações ao morrer.
Depois, já nada há a fazer, porque já não há sensibilidade no corpo morto. Na verdade, a terra não cobriu muitos corpos cristãos; mas o que não conseguiram foi expulsar ninguém dos espaços do Céu e da Terra, cheios como estão da presença d’Aquele que sabe onde fará surgir, pela ressurreição, o que Ele mesmo criou. Diz realmente o salmo:
Deixaram os cadáveres dos teus servos em pasto às aves do céu e a came dos teus santos às feras da terra. Derramaram o seu sangue como água à volta de Jerusalém e não havia quem os sepultasse[iii].
Mas estas palavras são mais para vincarem a crueldade dos que tal fizeram do que o infortúnio dos que tal sofreram.
Embora estas coisas pareçam efectivamente duras e cruéis aos olhos dos homens, todavia
preciosa é aos olhos de Deus a morte dos seus santos [iv].
Portanto, tudo isto, ou seja: os cuidados fúnebres, a qualidade da sepultura ou a solenidade das exéquias, constituem mais uma consolação dos vivos do que um alívio dos defuntos. Se ao ímpio serve de proveito uma sepultura de alto preço, ao piedoso tanto faz uma ordinária ou mesmo nenhuma. Brilhantes funerais, aos olhos humanos, prestou a multidão dos seus servidores ao famoso rico purpurado. Mas muito mais brilhantes perante o Senhor ofereceu ao pobre coberto de úlceras o exército dos anjos que não lhe erigiram um túmulo de mármore mas o colocaram no seio de Abraão.

Disto se rirão aqueles contra os quais decidimos defender a Cidade de Deus. Todavia, também os seus filósofos têm mostrado desprezo pelo cuidado com a sua sepultura. E até exércitos inteiros, ao morrerem pela pátria terrena, se não preocuparam com o lugar onde viriam a jazer nem de que feras seriam alimento. A este propósito puderam dizer os poetas com aplauso dos seus leitores:
Quem não tem uma é coberto pelo céu [v].

De forma nenhuma devem insultar os cristãos por causa dos corpos insepultos. A eles foi prometida a reforma da própria carne e de todos os membros, não somente à custa da terra mas ainda do seio mais secreto dos outros elementos em que se tenham convertido os cadáveres ao se desintegrarem. Num instante voltarão à sua integridade.

CAPÍTULO XIII

Porque se devem sepultar os corpos dos santos.

Mas nem por isso se devem desprezar e abandonar os corpos dos defuntos, principalmente os dos justos e dos fiéis dos quais o Espírito se serviu santamente como órgãos e receptáculos de todo o género de boas obras. Se as vestes e o anel dos pais, bem como as coisas deste género, são tanto mais queridos dos descendentes quanto maior tiver sido o afecto para com os pais, de maneira nenhuma se devem desprezar os corpos com os quais mantivemos muito mais familiaridade e intimidade do que com qualquer peça de vestuário que se usa. O corpo é parte natural do homem e de modo nenhum é um ornamento ou instrumento que se usa por fora. Por isso é que os funerais dos antigos justos eram tidos por um dever de piedade: celebravam-se exéquias e concedia-se sepultura. Eles próprios, enquanto vivos, deixavam instruções a seus filhos acerca do sepultamento e da trasladação dos seus corpos.
É louvado Tobias, que, por enterrar os mortos, alcançou, segundo o testemunho de um anjo, merecimento perante Deus. Também o próprio Senhor, que havia de ressuscitar ao terceiro dia, elogia a boa acção da mulher piedosa, — ou seja a de ela ter derramado um precioso unguento sobre os seus membros com vista à sepultura — e recomenda que essa acção seja divulgada como boa. E com louvor são lembrados no Evangelho aqueles que com delicadeza tiraram da cruz o seu corpo, com respeito o amortalharam e sepultaram. Porém estes documentos autorizados não pretendem convencer-nos de que nos cadáveres haja alguma sensibilidade: mas que a divina Providência, à qual agradam estes deveres de piedade porque reafirmam a nossa fé na ressurreição, se interessa também pelos corpos dos mortos. Também aqui nos é dada uma salutar lição: se, perante Deus, nem as obrigações e cuidados dispensados aos membros já sem vida dos homens perecem — quão grande será a recompensa que nos espera pelas esmolas que oferecemos aos que ainda têm vida e sensibilidade!

Há outras disposições que os santos patriarcas quiseram proferir com significado profético acerca da sepultura ou da trasladação dos seus corpos — mas para tratar disso não é este o lugar próprio. Basta o que já dissemos.

Quanto aos bens necessários ao sustento dos vivos, tais como o alimento e o vestuário, se é certo que a sua falta causa grave doença, também é certo que isso não quebra nos bons a fortaleza perante o sofrimento, nem arranca da alma a piedade, mas antes a torna mais fecunda pelo exercício. Quão menos se hão-de sentir infelizes os justos quando lhes faltam com os cuidados que é costume empregarem-se nos funerais e no sepultamento dos corpos dos defuntos — estando eles já em paz nas misteriosas moradas dos santos! Por isso quando, no saque daquela grande Urbe ou na de qualquer outra cidade, faltaram aos cadáveres dos cristãos estes cuidados, não houve culpa dos vivos que os não podiam prestar, nem pena para os mortos que a não podiam sentir [vi].

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] 1 Nolite timere eos qui corpus occidunt, animam autem non possunt occidere.
Mat., X, 28.
[ii] 2 Qui corpus occidunt et postea non habent quod faciant.
Luc., XII, 4
[iii] Posuerunt mortalia servorum tuorum escam volatilihus caeli, cames sanctorum tuorum bestiis terrae; effuderunt sanguinem eorum sicut aquam in circuitu Hierusalem, et non erat qui sepeliret.
Salmo LXXVIII, 2-3.
[iv] 4 Pretiosa in conspectu Domini mors sactorum ejus.
Salmo CXV, 15.
[v] 5 Caelo tegitur, qui non habet umam.
Lucano, Farsália, VII, 819.
[vi] Honras fúnebres.
Os pagãos ligaram às honras fúnebres uma importância exagerada.
Receavam que os mortos voltassem para apoquentar os vivos no caso denão lhes serem prestadas de forma condigna as respectivas honras fúnebres.
Depois deles, também muitos cristãos julgavam que os mortos não se levantariam no último dia ressurgindo, no caso de as suas ossadas terem sido impiamente dispersadas ou de o seu corpo ter ficado insepulto.
Contra estes exageros e a pedido de Paulino de Nola, escreveu Agostinho em 421 o tratado «De cura pro mortuis gerenda», expondo uma doutrina de respeito pelo corpo humano que foi templo de Deus, habitáculo do Espírito Santo e órgão e instrumento da alma para o bem, mas sem esquecer que para o cristão seria indiferente que o corpo tenha sido queimado ou devorado ou inumado.

Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

I. A IGREJA DE JERUSALÉM [i]

Capítulo 5

Milagres dos Apóstolos

12Entretanto, pela intervenção dos Apóstolos, faziam-se muitos milagres e prodígios no meio do povo. Reuniam-se todos no Pórtico de Salomão 13e, dos restantes, ninguém se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo não cessava de os enaltecer.

14Sempre em maior número, juntavam-se, em massa, homens e mulheres, acreditando no Senhor, 15a tal ponto que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. 16A multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados.



[i] (1,12-6,7)